Porquanto já escrevi algumas vezes sobre o período que estamos a viver – a Páscoa –, tanto em jornais como em livros, e considerando que, quando os leitores lerem esta crónica, esse tempo já terá passado, resolvi mudar de assunto, ainda que apenas ocasionalmente – ou talvez não.
Isto porque, durante uma
caminhada pelo denominado Complexo Desportivo da Covilhã – que, na verdade,
pouco tem de complexo desportivo, face à sua degradação – surgiu-me a ideia de
falar sobre o circo itinerante, ao observar a montagem do Circo Arena, com os
seus enormes camiões.
Houve uma época (sobretudo até
aos anos 80/90) em que os circos itinerantes eram presença quase garantida nas
vilas e cidades, especialmente na primavera e no verão.
Recordo-me de, em miúdo, ver na
Covilhã o Circo Arraiola Paramés, o Circo Mexicano, o Circo Alegria, entre outros
que a memória já não retém. Os circos ambulantes continuam a existir, inclusive
em Portugal. Numa breve pesquisa, constata-se que há várias companhias que
percorrem o país ao longo do ano (como o Cardinali, Chen, Dallas, Mundial, entre
outros) circulando por diferentes localidades.
A lógica de “montar e desmontar”
continua a ser a base do circo tradicional itinerante. Em muitos casos,
continuam a instalar-se em terrenos municipais, recintos de feiras ou zonas
desportivas. Ou seja: o circo ambulante não desapareceu, mas deixou de ser tão
omnipresente como outrora.
Então, o que mudou ao longo dos
anos?
Verificaram-se várias
transformações importantes. Desde logo, o fim quase total dos animais desde
2019. Portugal proibiu a utilização de animais selvagens em circos, com um
período de transição até 2025. Esta medida alterou profundamente o modelo
clássico (leões, elefantes, entre outros).
Atualmente, o foco incide
sobretudo em acrobatas, ilusionismo, humor, espetáculos visuais, equilibrismo,
palhaços e números de risco.
Podemos mesmo afirmar que surgiu
o chamado “novo circo”, caraterizado por um estilo mais moderno, inspirado no
teatro e na dança. Também em Portugal se verifica essa tendência – espetáculos
mais cénicos, com componente musical e, por vezes, dirigidos a públicos
adultos.
Regista-se igualmente, uma menor
presença nas pequenas localidades, ao contrário do que acontecia antigamente,
quando praticamente todas as vilas recebiam o circo.
Importa ainda referir que,
atualmente, existem mais exigências burocráticas, nomeadamente ao nível de licenças,
escassez de terrenos disponíveis e custos elevados, o que contribui para que os
circos circulem menos ou permaneçam mais tempo nas grandes cidades.
Os circos continuam ativos, mas
já não constituem um fenómeno massivo como no passado. Hoje, dividem-se
essencialmente em dois universos o tradicional itinerante e o contemporâneo,
associado a espetáculos urbanos e festivais. O circo continua, assim, a
reinventar-se. Creio, aliás, que existem em Portugal projetos destinados a
preservar a sua história e a adaptá-la ao futuro, tratando-se de uma arte com
séculos de tradição.
Aproveito para inserir um breve excerto
do meu livro “Da Montanha ao Vale – As Viagens de um Grupo de Tertulianos”,
cuja 1ª edição foi publicada em maio de 2022, Capítulo XVI, pág. 107:
“‘O Circo Mexicano’ – Uma olhadela
para a rua e a passagem de uma caravana do Circo Mexicano. O Zé do Megane coçou
o bigode, elevou o pescoço e reparou que os camiões que faziam o transporte sinalizavam
para estacionar. Eram cinco camiões, com os quatro piscas ligados.
Atrás, seguiam três carrinhas com
roulottes atreladas. Das carrinhas saíram cinco raparigas, valentes mocetonas, provavelmente
artistas, pelo seu ar sensual, e também quatro rapazes, igualmente robustos.
Sentaram-se e pediram sumos de
laranja. Enquanto bebiam, fumavam. Os rapazes faziam o mesmo; apenas um bebia
cerveja – talvez não fosse artista.
Os motoristas e restantes
elementos de apoio ao circo chegaram depois e permaneceram ao balcão.
Entretanto, uma das raparigas,
muito maquilhada, dirige-se ao grupo de tertulianos e oferece um bilhete a cada
um, bem como um prospeto do espetáculo, que teria lugar ainda nessa noite, na
Zona Industrial de Leça da Palmeira.
Agradecem e prometem marcar presença.
Como nem todos podiam ir,
entregaram os bilhetes a colegas, para que as suas esposas pudessem assistir. E, assim decidido, retomaram os trabalhos que vinham
desenvolvendo.
Após essa breve interrupção
protagonizada por elementos do circo, surgiu um novo intervalo. (…)”
João de Jesus Nunes
(In “O Olhanense”, de
15-04-2026)


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