Escrevo este texto precisamente no
dia 1 de abril – o chamado “Dia das Mentiras”. A data persiste, mas já não é
vivida com a leveza de outros tempos. Dir-se-ia que sobrevive, embora sob
suspeita.
A tradição mantém-se em muitos
países, com partidas, notícias humorísticas e pequenas provocações entre
amigos, colegas ou até marcas. Durante séculos, este foi um dia em que o engano
era aceite como jogo social – uma espécie de licença coletiva para brincar com
a credulidade alheia.
Mas o mundo mudou – e o contexto
também.
Hoje, o 1 de abril confronta-se
com um problema que ultrapassa largamente a inocência das suas origens: a
banalização da mentira. Num tempo marcado pela desinformação e pelas chamadas
“fake news”, aquilo que antes era brincadeira pode facilmente confundir-se com
manipulação. Não admira, por isso, que muitos órgãos da comunicação social e
empresas tenham optado por maior prudência, evitando participar numa tradição
que pode ser mal interpretada.
Pessoalmente, confesso que me revejo
entre os que olham para este dia com alguma reserva. Não por rejeitar o humor
ou ironia, mas porque o terreno em que assentam se tornou mais instável. A
Internet e as redes sociais amplificam tudo: uma simples partida pode ganhar
dimensão inesperada e transformar-se, em poucas horas, numa falsidade tomada
por verdade.
O que está em causa não é o
desaparecimento da tradição, mas a sua transformação. As grandes partidas
públicas tornaram-se mais raras; persistem, sobretudo, as brincadeiras privadas,
mais contidas e, idealmente, mais responsáveis. Há, felizmente, uma consciência
crescente de que nem tudo é aceitável em nome do riso.
Será então, o Dia das Mentiras
uma tradição em declínio? Talvez não. Mas é, seguramente, uma tradição em
adaptação – menos ingénua, mais cautelosa, e inevitavelmente marcada pelo tempo
em que vivemos.
A este propósito recordo que já
abordei o tema da verdade e da mentira em diversos artigos publicados neste e
noutros semanários, nos anos de 2016, 2017, 2021 e 2025. A questão, longe de se
esgotar, ganha hoje novos contornos.
Mas como surgiu esta tradição?
Aponta-se frequentemente Catarina
de Médicis como estando na sua origem, numa história que cruza calendário e
costume. Em 1564, enquanto regente de França em nome de Carlos IX, determinou que
o ano civil passaria a iniciar-se a 1 de janeiro. Até então, o início do ano
era assinalado no primeiro dia de abril.
A alteração não foi imediatamente
assimilada por todos. Muitos continuaram a celebrar o antigo início do ano,
mantendo a troca de presentes e votos festivos em abril. Com o tempo, esses
gestos passaram a ser vistos como deslocados – e, progressivamente, transformaram-se
em ofertas simbólicas ou fictícias.
Assim nasceu uma tradição marcada
pela ambiguidade: entre o que parece e o que é, entre o dito e o desmentido.
O 1 de abril adquiriu, desse
modo, um carácter quase carnavalesco, em que o engenho de uns se mede pela
credulidade de outros. A França, então centro de influência cultural, difundiu
o costume por toda a Europa, deixando até hoje a expressão poisson d’Avril,
associada ao signo de Peixes, que antecede a data no calendário zodiacal.
Também a natureza parece alinhar
neste jogo de ambiguidades. Abril é, por tradição, um mês instável, em que o
sol se esconde e reaparece caprichosamente. “Em abril, águas mil” – diz o povo,
com a sabedoria de quem reconhece que nem tudo é o que parece.
Ao longo dos tempos, o 1 de abril
inspirou inúmeras invenções, sobretudo no universo jornalístico. Houve épocas
em que a criatividade se media pela capacidade de enganar – e pelo número de
leitores que “enfiavam o barrete”.
Recordo, a esse propósito, uma
iniciativa do Diário de Notícias, na edição de 1 de abril de 2000. Em
vez de publicar uma falsa notícia, optou por apresentar factos verídicos
ocorridos nessa data ao longo da história. Uma escolha feliz, que inverteu o
sentido da tradição e mostrou que a realidade pode ser tão surpreendente quanto
a ficção.
De facto, não faltam
acontecimentos marcantes associados ao dia 1 de abril – alguns deles
inicialmente recebidos com incredulidade. A verdade, por vezes, tem essa
estranha capacidade de parecer improvável.
E reforço, sim, momentaneamente
postos em dúvida pelos mais céticos, até à sua confirmação. Como se verá, a
nudez forte da verdade impõe-se ao manto diáfano da fantasia, pois abundam os
factos de grande importância histórica numa data em que tantos preferem
recorrer à imaginação.
Eis alguns exemplos:
1572 – Início, na Holanda, da
guerra da independência.
1876 – Aprovação, em Portugal, o
Código do Processo Civil.
1923 – Renovação do acordo entre
a administração portuguesa de Moçambique e o Governo da África do Sul para o
recrutamento anual (trabalho forçado) de milhares de indígenas para as minas.
1937 – Entrada em vigor da
Constituição indiana, com o Partido do Congresso a exigir a independência.
1945 – Início da invasão de Okinawa,
no sul do Japão, pelas forças americanas.
1948 – Interferência da URSS no
tráfego entre Berlim e a Alemanha Ocidental.
1950 – Transferência da
Somalilândia britânica para a Itália; segunda explosão atómica francesa em
Reganne.
1954 – Integração da Terra Nova no
Canadá.
1962 – A Suíça rejeita, em
referendo, armas atómicas.
1963 – Fim da greve de 114 dias
dos jornais de Nova Iorque.
1964 – Golpe militar no Brasil,
instaurando uma ditadura prolongada.
1973 – O Governo de Harold Wilson
manifesta intenção de negociar a entrada do Reino Unido na CEE.
1974 – Reunião preparatória do
movimento que conduziria ao 25 de Abril em Portugal.
1983 – Entrada em vigor da
Convenção Europeia para a Proteção do Ambiente.
1986 – Abolição do papel selado
em Portugal.
1997 – Portugal assume a
presidência do Conselho de Segurança da ONU.
2026 – A missão Ártemis II arrancou nesta
quarta-feira de 1 de abril, na primeira viagem desde 1972 que levará humanos à
órbitra da Lua. A missão americana serve como um ensaio para o transporte de
humanos. Quatro astronautas são transportados dentro da cápsula Órion, que
segue acoplada ao foguetão SLS.
Talvez resida aqui a maior ironia
deste dia: numa data associada à mentira, abundam factos que nos recordam a
força – e, por vezes a estranheza – da verdade.
E ficamos por aqui.
João de Jesus Nunes
(In “Jornal Fórum Covilhã”, de
09-04-2026)

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