Vivemos tempos melancólicos e inquietantes. O nosso país e o
mundo atravessam momentos difíceis, marcados por tempestades devastadoras que
se sucedem umas às outras, depois de um estio prolongado e castigado por grandes
incêndios.
E, para lá das nossas fronteiras, multiplicam-se conflitos que
muitos já não hesitam em designar como uma espécie de “terceira guerra mundial
aos pedaços”, espalhada por diversos pontos do globo e cujos ecos acabam por
atingir toda a humanidade.
Talvez por isso mesmo valha a pena, de quando em quando,
fazer uma pausa neste presente inquieto e olhar para a história. Recordar datas
e acontecimentos que, vistos à distância, nos ajudam a compreender melhor o
caminho coletivo que fomos percorrendo. Neste ano de 2026, não faltam
efemérides de números redondos que merecem evocação.
Desde logo, assinala-se o Centenário do Núcleo da Covilhã
da Liga dos Combatentes, fundado em 16 de fevereiro de 1926. Ao longo
destes cem anos, a instituição tem procurado honrar a memória de quantos
conheceram as agruras da guerra, em particular os que participaram na Guerra
das Colónias, conflito que marcou profundamente uma geração inteira de jovens
portugueses e deixou, em muitos deles, cicatrizes físicas e psicológicas que o
tempo nem sempre conseguiu apagar. As comemorações previstas procuram justamente
preservar essa memória e dar a conhecer às novas gerações o papel desempenhado
pelo Núcleo covilhanense.
No plano nacional, 2026 marca também os 50 anos da
Constituição da República Portuguesa de 1976, a Lei Fundamental do regime
democrático nascido após o 25 de Abril. Meio século depois da sua aprovação,
permanece como a mais duradoura das constituições portuguesas, testemunho da
consolidação de um sistema político assente na liberdade e na participação
democrática.
Se recuarmos ainda mais no tempo, encontramos outra data
simbólica: os 200 anos da Carta Constitucional de1826, outorgada por D.
Pedro IV a partir do Brasil, onde fora aclamado imperador. Este diploma
tornou-se a segunda Constituição portuguesa e a mais duradoura da nossa
história constitucional, abrindo caminho às primeiras eleições cartistas
realizadas nesse mesmo ano.
Também os caminhos de ferro têm a sua efeméride. Passaram 170
anos desde a inauguração da via-férrea em Portugal, ocorrida no já distante
– e para muitos romântico – dia 28 de outubro de 1856, episódio marcante
de um processo que, entre dificuldades técnicas e hesitações políticas, viria a
transformar profundamente a mobilidade e o desenvolvimento do país.
No plano internacional, celebra-se uma data maior da história
contemporânea: os 250 anos da Revolução Americana de 1776. Foi então que
treze colónias britânicas da América do Norte se ergueram contra o domínio
colonial e proclamaram a sua independência, dando origem aos Estados Unidos da
América. Mais do que o nascimento de uma nova nação, esse movimento inaugurou
uma nova ordem constitucional e política que influenciaria decisivamente o
mundo moderno.
Essas treze colónias agrupavam-se em três grandes nações –
Nova Inglaterra, Colónias do Centro e Colónias do Sul – e a sua afirmação
política viria a alterar profundamente o curso da história mundial.
Por terras da Beira Baixa, há ainda outra efeméride digna de
nota: os 80 anos da fundação do Jornal do Fundão, criado por
António Paulouro, seu proprietário e primeiro diretor. Ao longo das décadas,
este semanário afirmou-se como uma das mais prestigiadas vozes da imprensa
regional portuguesa. Curiosamente – e permito-me aqui uma nota pessoal – nasci
apenas dois meses depois do nascimento deste jornal.
Assim se vai fazendo a história: entre grandes acontecimentos
mundiais e pequenas coincidências da vida de cada um. Recordar estas datas é
também uma forma de reconhecer o caminho percorrido e de compreender melhor o
tempo que nos cabe viver.
João de Jesus Nunes
(In “O Combatente da Estrela”, n.º 142-abril 202

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