31 de dezembro de 2025

Quando a Covilhã Enfrentou os Templários: Um Conflito Esquecido da Idade Média Portuguesa

 

 Poucos episódios ilustram tão bem a complexidade da ocupação territorial medieval portuguesa como o conflito entre os concelhos da Covilhã e Castelo Branco, travado no início do século XIII. Este embate frequentemente ausente dos manuais de história, demonstra o choque entre dois modelos de poder: o municipalismo civil, representado pela Covilhã, e a autoridade militar-religiosa dos Templários, detentores de extensas propriedades no interior do país.

O ponto de partida reside nos limites concelhios definidos pelo foral concedido por D. Sancho I à Covilhã em 1186. Este foral não só reconhecia uma administração já existente como atribuía ao concelho vastos territórios que se estendiam da Serra da Estrela ao Tejo. A autonomia militar era também um traço caraterístico: o município organizava as suas próprias forças de defesa, suportadas pelos vizinhos.

Em contraste, Castelo Branco – cujo foral foi emitido pela ordem do Templo em 1213 – constituía uma estrutura dependente dos Templários. As forças militares do concelho eram comandadas pela rígida disciplina da Ordem, que expandia influência e território com base num poder quase autónomo face à Coroa.

As tensões tornaram-se inevitáveis. Os Templários começaram a ultrapassar limites, exigindo portagens aos habitantes da Covilhã em zonas estratégicas como as Portas de Ródão. As queixas acumularam-se e a pressão económica tornou-se insustentável. Perante estes abusos, a Covilhã decidiu mobilizar as suas hostes e enfrentar diretamente o poder templário.

O confronto deu-se a cerca de treze quilómetros de Castelo Branco, no local onde hoje se situa a Póvoa de Rio de Moinhos. O combate foi intenso e terminou com uma surpreendente vitória d as forças concelhia da Covilhã sobre os Templários, considerados uma das forças militares mais temidas da época.

A gravidade do conflito obrigou à intervenção arbitral. Em 1230, no Mosteiro de Santa Maria de Ozezar, foi lavrada uma sentença que confirmou a legitimidade da Covilhã na defesa dos seus direitos territoriais. O documento, preservado e publicado por Alexandre Herculano no século XIX, é hoje uma peça central para compreender o episódio.

Mais do que uma disputa local, o confronto revela uma dimensão política mais profunda: a afirmação dos concelhos portugueses como unidades de poder efetivo, capaz de enfrentar até ordens religioso-militares de grande influência. E demonstra a importância estratégica do interior do país no equilíbrio das forças entre a nobreza, as ordens militares e o poder régio.

O episódio, hoje quase esquecido, mostra que a história de Portugal não se faz apenas nos campos de batalha contra os mouros e castelhanos, mas também na afirmação dos seus concelhos, que foram, desde cedo um dos pilares da construção do país. A Covilhã, nesse capítulo, destacou-se como um exemplo de autonomia, coragem e defesa do bem-comum.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Jornal do Fundão”, de 01-01-2026)

 

 

 


19 de dezembro de 2025


 

OLHANENSE E COVILHÃ PROCURAM RUMO EM CENÁRIO DE DECADÊNCIA



 

O futebol, tantas vezes chamado de Desporto-Rei, vive hoje um dos períodos mais paradoxais da sua história. Nunca foi tão global, tão mediático, tão omnipresente no quotidiano das pessoas; e, ao mesmo tempo, nunca esteve tão distante de muitas das suas raízes comunitárias, dos clubes que ergueram o desporto a partir da paixão local, do sacrifício voluntário, da identidade de bairro, vila ou cidade. Entre a “grande penalidade” que a modernidade lhe cobra e o “fora de jogo” em que tantas instituições tradicionais se veem colocadas, ergue-se um debate urgente: que futebol queremos preservar para o futuro?

O caso de dois clubes históricos – o Sporting Clube Olhanense e o Sporting Clube da Covilhã – ilustra, com uma clareza quase dolorosa, o descompasso entre o brilho do futebol-negócio e a sombra que se abate sobre o futebol regional e de tradição. Ambos viveram décadas de relevância competitiva, ambos são parte inseparável da memória desportiva das suas cidades e ambos, cada um à sua maneira, enfrentam processos de decadência que preocupam quem ainda acredita que o futebol é, acima de tudo, pertença das comunidades.

O Olhanense, terceiro campeão nacional da história do futebol português (08-06-1924), símbolo maior de uma cidade que sempre soube viver o desporto com intensidade, encontra-se há anos num ciclo de instabilidade competitiva, financeira e estrutural. O clube que já fez tremer gigantes e encantou públicos parece hoje navegar num mar revolto, que vinha incapaz de encontrar um rumo que devolva estabilidade e ambição. A distância entre o prestígio do passado e a fragilidade do presente gera frustração – não apenas entre adeptos, mas também entre todos os que reconhecem o papel cultural que este emblema representa para o Algarve e para o país.

Uma esperança renasceu com o desaparecimento da SAD e o ressurgimento do novo Sporting Clube Olhanense, aqui muito mercê da batuta do homem de vontade hercúlea que dá pelo nome de Manuel Cajuda, agora ao leme do clube algarvio.

A centenas de quilómetros, na encosta da Serra da Estrela, o Sporting Clube da Covilhã vive situação semelhante. Também ele clube histórico, habituado durante décadas a ser presença quase permanente nos campeonatos nacionais mais competitivos, enfrenta uma luta diária pela sobrevivência. A descida aos escalões inferiores não traduz apenas um resultado desportivo: espelha a dificuldade de um modelo de gestão e sustentabilidade que se tornou quase impossível para clubes com recursos limitados e comunidades envelhecidas ou dispersas. O “Leão da Serra”, tantas vezes orgulhoso representante de uma região inteira, vê-se agora obrigado a repensar a sua identidade e o seu futuro.

Estes dois exemplos não são exceções – são sintomas. Sintomas de um futebol que se desequilibrou, que abandonou parte do seu ecossistema natural, que deixou para trás clubes que, durante décadas, alimentaram o talento nacional, construíram estádios com o esforço da população e criaram gerações de adeptos para quem a camisola era quase uma extensão da própria alma. Hoje, com orçamentos que rivalizam com pequenas economias, muitos emblemas regionais vivem num permanente “fora de jogo”, lutando por espaço mediático, por apoios financeiros, por sócios e até, em casos extremos, pela própria existência.

Apesar de tudo, há um elemento que permanece intacto: a paixão. É ela que continua a levar adeptos ao Estádio José Arcanjo ou ao Santos Pinto; é ela que continua a convocar memórias de tardes gloriosas, de subidas dramáticas, de golos improváveis. É ela que impede que o futebol regional desapareça por completo. Mas a paixão, por si só, já não chaga. Hoje exige-se visão, profissionalização, compromisso municipal e empresarial, união associativa e, acima de tudo, coragem para reinventar modelos que há muito deixaram de responder às necessidades atuais.

O futebol português – e o futebol em geral – tem que reencontrar o equilíbrio. Não se trata de travar a evolução natural do desporto, nem de reclamar um regresso a tempos românticos que já não voltam. Trata-se de assegurar que o crescimento do topo não destrói a base; que a obsessão pelo lucro não elimina a identidade; que o brilho dos grandes palcos não apaga a luz dos pequenos estádios que, tantas vezes, são os primeiros lares de futuros campeões.

O Olhanense e o Covilhã, com todas as suas dificuldades, continuam vivos. E enquanto permanecerem vivos, há esperança. Há história, há comunidade, há herança. Mas é fundamental que esta esperança seja acompanhada de ação – não apenas por parte dos clubes, mas também dos poderes locais, dos agentes desportivos, das federações e de todos os que acreditam que o Desporto-Rei não pode ser apenas um negócio: tem de continuar a ser, também, uma cultura.

Entre a grande penalidade e o fora de jogo, o futebol português prepara-se para decidir o seu futuro. Que essa decisão não esqueça os clubes que ajudaram a construir a própria essência do jogo. Eles merecem mais do que nostalgia: merecem futuro.

Votos de um Natal pleno de Saúde e um Feliz Ano Novo em que a Esperança seja a realização dos sonhos que mais desejarem, refletidos na Família do Jornal O Olhanense e do Sporting Olhanense, Leitores e Amigos.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “O Olhanense”, de 15-12-2025)

18 de dezembro de 2025

O DECLÍNEO DE DOIS EMBLEMAS: SP. COVILHÃ E SP. OLHANENSE EM TEMPO DE INCERTEZA



 

O futebol português vive, nos últimos anos, um período de contrastes profundos.

Enquanto o topo da pirâmide continua a beneficiar da profissionalização, das receitas televisivas e da crescente internacionalização do mercado, muitos clubes históricos enfrentam dificuldades significativas para garantir estabilidade competitiva e sustentabilidade financeira. Entre esses casos destacam-se o Sporting Clube da Covilhã e o Sporting Clube Olhanense, dois emblemas com passado relevante no panorama nacional, mas que atravessam atualmente uma fase de clara decadência.

O Sporting Clube da Covilhã, fundado em 1923 é um dos clubes mais emblemáticos da Beira Interior. Conhecido como o “Leão da Serra”, o Sp. Covilhã foi, ao longo das décadas, presença constante na II Liga e somou quinze participações na I Divisão. Contudo, a quebra de resultados nos últimos anos, aliada a limitações estruturais e a um contexto municipal e económico menos favorável, empurrou o clube para um ciclo difícil. A recente queda para divisões inferiores agravou as preocupações quanto ao futuro do emblema serrano, cujo impacto no tecido social e desportivo da região continua a ser significativo. O Estádio Santos Pinto, que tantas vezes funcionou como ponto de encontro da comunidade covilhanense, tem vivido tempos de menor afluência e menor entusiasmo.

Situação semelhante vive o Sporting Clube Olhanense, fundado em 1912, permanece na história como o terceiro campeão nacional, título conquistado em 1924. Durante décadas foi um dos principais representantes do futebol algarvio, com presenças regulares nos campeonatos nacionais e um importante papel na formação de jogadores. Porém, nos últimos anos, o clube tem enfrentado dificuldades que vão desde problemas de gestão a instabilidade financeira. As descidas sucessivas de divisão, a irregularidade de resultados e a perda de competitividade colocaram o emblema de Olhão afastado dos palcos onde habituou a figurar. O Estádio José Arcanjo, outrora palco de grandes jornadas, tem recebido cada vez menos público, num reflexo direto das fragilidades que marcam o atual momento do clube, que chegou a desaparecer e renasceu agora das cinzas.

Estes dois casos, embora distintos nos detalhes, evidenciam problemas comuns ao futebol regional e tradicional português: modelos de financiamento desatualizados, dependência excessiva de apoios públicos, dificuldades em atrair patrocinadores, ausência de infraestruturas modernas e a incapacidade de reter jovens talentos que rapidamente procuram clubes mais estruturados. A discrepância entre os grandes centros urbanos e as regiões periféricas torna-se cada vez mais evidente, com impacto direto na competitividade dos clubes.

Num cenário em que o futebol nacional se torna cada vez mais centralizado e dominado por grandes estruturas empresariais, os clubes históricos de média e pequena dimensão enfrentam um verdadeiro “fora de jogo”. O espaço mediático diminuiu, a capacidade de geração de receitas é limitada e a pressão competitiva aumenta. Ainda assim, a importância social destes clubes permanece inquestionável: são polos de identidade, formação, convívio e memória coletiva.

Tanto o Sporting da Covilhã como o Sporting Olhanense procuram agora soluções que permitam estabilizar e reconstruir. Reestruturação financeira, reorganização interna, aposta na formação e maior envolvimento da comunidade são caminhos apontados por especialistas e dirigentes desportivos. A cooperação com autarquias e parceiros locais continua a ser essencial para garantir a continuidade dos projetos desportivos, num contesto em que a sustentabilidade é cada vez mais difícil de alcançar.

Num momento em que o futebol português reflete sobre o seu futuro, é fundamental que os clubes históricos não sejam esquecidos. Representam décadas de contribuições para o desporto nacional e continuam a desempenhar um papel relevante na coesão das suas comunidades. A crise que atravessam deve servir como alerta para a necessidade de políticas desportivas mais equilibradas e de estratégias que valorizem a base do futebol, evitando que emblemas emblemáticos caiam definitivamente no esquecimento.

Entre a grande penalidade da pressão económica e o fora de jogo da perda de competitividade, Sp. Covilhã e Sp. Olhanense continuam a lutar por um futuro digno da sua história. E o futebol português, se quiser preservar a sua identidade, terá de olhar mais atentamente estes clubes que, apesar de dificuldades, permanecem símbolos vivos de dedicação e resiliência.

Feliz Natal e um Próspero Ano Novo.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “Jornal Fórum”, de 18-12-2025)

17 de dezembro de 2025

Natal, Ano Novo e Centenário do Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes

À medida que o calendário se aproxima do seu derradeiro folhear, regressa aquela época do ano em que a memória ganha outro brilho e o coração abre espaço para a esperança. O Natal e o Ano Novo convidam-nos, como sempre, a olhar para o caminho percorrido e, ao mesmo tempo, a firmar propósito no caminho que desejamos trilhar. Para todos os combatentes, seus familiares e amigos, esta é também uma altura de reencontro, de homenagem e de profunda gratidão.

Neste Natal de 2025, porém, há uma luz adicional a projetar-nos sobre a nossa comunidade: as comemorações do Centenário do Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes, que decorrerão entre fevereiro e junho de 2026. Um marco notável, feito de cem anos de entrega, camaradagem, solidariedade e presença ativa na vida da cidade e da região.

Cem anos não são apenas um número redondo: são histórias reais de homens e mulheres que, ao longo de gerações, se uniram em torno de valores que permanecem intemporais – serviço, honra, lealdade e espírito de missão. O Núcleo da Covilhã, desde a sua fundação, tem sido ponto de apoio, de memória e de afirmação coletiva, preservando o legado dos que serviram Portugal e garantindo que o sacrifício de cada combatente não se perdeu no rumor do tempo.

As celebrações do Centenário serão, por isso, mais do que uma efeméride: serão um tributo à resistência e à dignidade daqueles que nos antecederam, e uma oportunidade para reforçar o compromisso com o futuro da Liga dos Combatentes na Covilhã. Estão previstas iniciativas culturais, históricas e comunitárias, que permitirão envolver toda a população e renovar os laços entre o Núcleo e a cidade que o acolhe há um século.

O espírito festivo do Natal lembra-nos a importância de estarmos juntos; o início de um novo ano renova a esperança de seguirmos unidos; e o Centenário chama-nos à responsabilidade de honrar a memória preservando-a para as futuras gerações. É este o triplo apelo que nos acompanha neste final de ano.

Que o Natal nos inspire serenidade e gratidão. Que 2026 se anuncie com paz, saúde e firmeza de propósito. E que as comemorações do Centenário do Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes sejam um testemunho vivo da força da nossa identidade e do orgulho de pertencermos a esta família de Combatentes.

Com os melhores votos para todos, combatentes, famílias e amigos – e que a Estrela da Serra continue a iluminar o nosso caminho.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “O Combatente da Estrela”, nº. 141 – dez 2025)


 

CONTE-NOS A SUA HISTÓRIA ANÍBAL MANUEL SILVA SARAIVA






 

Trazemos neste número as memórias de um antigo combatente na Guiné – Aníbal Manuel Silva Saraiva, nascido a 30 de abril de 1949, em Santo António d’Alva, freguesia de Penalva de Alva, concelho de Oliveira do Hospital. Desde os três anos, porém, passou a ser também covilhanense de coração, ao vir residir para a Covilhã com os pais.

É casado, tem dois filhos e quatro netos.

O pai, trabalhador da construção civil, como tantos dos seus conterrâneos, veio trabalhar para a Covilhã, onde se fixou com a família. Assim se estabeleceu definitivamente o jovem Aníbal, que nunca esqueceu, contudo, a sua terra natal.

Frequentou a primeira classe da instrução primária em Penalva de Alva e concluiu-a já na Covilhã, na escola do Asilo.

Como era comum entre os jovens da época, começou a trabalhar muito cedo – aos 11 anos – no comércio, como marçano. Aos 14 anos, ingressou na empresa António Carlos Pereira Sucessores, Lda., dedicada a materiais de construção, onde permaneceu 40 anos, até à reforma.

Cumpriu o serviço militar obrigatório, iniciando a recruta no RI 14, em Viseu, a 12 de janeiro de 1970.

Fez a especialidade de Transmissões de Artilharia no R.A.P 3, na Figueira da Foz, e, posteriormente, frequentou a Escola Prática de Artilharia de Vendas Novas, a partir de 1 de junho de 1970.

Foi então mobilização para a Guiné, sendo colocado nos Adidos, aguardando embarque. Este realizou-se em 18 de setembro de 1970, tendo desembarcado em Bissau a 24 de setembro, data em que foi promovido a 1º. Cabo.

Durante oito meses esteves destacado no mato, regressando depois a Bissau, onde concluiu a comissão de serviço.

Como saía pouco em missão, teve a sorte de não enfrentar grandes confrontos com o inimigo, sempre iminente. Além disso, as peças de artilharia com que trabalhavam raramente saíam do quartel, permanecendo ali resguardadas. Felizmente, não houve baixas no seu pelotão.

Regressou à Metrópole a 5 de outubro de 1972.

 

J. J. Nunes

(In “O Combatente da Estrela”, nº. 141, DEZ/2025)

5 de dezembro de 2025

TRAÇOS DE VÁRIA HISTÓRIA DO CONCELHO DA COVILHÃ

 



Face às justas críticas que têm vindo a ser feitas à anterior governação covilhanense, no que toca ao panorama socioambiental que tem sido negligenciado, impôs-se-me uma breve retrospetiva da Covilhã de outros tempos. Na verdade, situações como a recente proliferação de prédios em altura, que beliscam profundamente a paisagem e retiram aos vizinhos a visão panorâmica que sempre tiveram – como sucede na Rua Manuel de Castro Martins, que foi meu ilustre professor – ilustram bem essa problemática. Como muito assertivamente refere o amigo professor António Rodrigues Assunção, no Notícias da Covilhã, ergueu-se ali “um mastodôntico edifício habitacional”, evocando ainda “os anos 1920-1930 da criação nesta cidade de uma Comissão de Iniciativa Turística, embrião da futura Região de Turismo da Serra da Estrela”. Essa evocação levou-me a trazer à memória alguns traços da história deste concelho naquele longínquo período.

Não se pode confirmar, com base em dados positivamente seguros, a existência da indústria de lanifícios na Covilhã durante a dominação romana. Admitir que os pascigos da Serra da Estrela alimentavam ovelhas e que a lã deu origem a uma indústria é mera conjetura, sem fundamento histórico sólido. As selvas que então revestiam os ínvios desfiladeiros da serra mal podiam oferecer passagem ou pastos adequados à ovelha. Se algum animal doméstico poderia aventurar-se, sob vigilância humana, pelos pascigos serranos, seria a cabra – pela profusão de pastos adequados à sua voracidade, bem como pela sua agilidade e robustez. E como os romanos utilizavam o pelo da cabra para tecer cordas e fabricar tecidos grosseiros com que cobriam as tendas de campanha, é plausível afirmar que fundaram a Covilhã na Corredoura para aí estabelecerem fábricas de cordas e tecidos feitos com pelo de cabra.

Foi, porém, durante a ocupação muçulmana da Península que, com maior probabilidade, se fixou na Covilhã a indústria de lanifícios. O mouro inventou o pisão mecânico para esta indústria – denominado na Covilhã maceira – que aqui se utilizou durante muitos séculos. Nas ribeiras da Degoldra e da Carpinteira existiam numerosos pisões antiquíssimos, tão antigos como moinhos e azenhas.

O pisoamento do tecido de lã tem por finalidade feltrá-lo. O feltro começa a preparar-se no cardar da lã, de onde se produz o fio com que se urde e se tece o artefacto. É o feltro a pedra de toque que permite aquilatar a superioridade da lã, sendo a sua capacidade de feltragem o que confere aos tecidos as qualidades isoladoras da temperatura, fazendo desta fibra a matéria-prima mais adequada ao vestuário. Assim, o antigo pisão mourisco existente nas ribeiras da Covilhã atesta que a indústria da lã cardada é aqui, muitas vezes, secular.

A primeira Fábrica Real da Covilhã, fundada por D. Pedro II segundo as ideias económicas do Conde da Ericeira, situava-se na Ribeira da Carpinteira, no local da Fábrica Velha, que mais tarde passou para Campos Melo & Irmão. A Fábrica Real Nova – hoje Universidade da Beira Interior e outrora quartel militar (Regimento de Infantaria 21 e, posteriormente, Batalhão de Caçadores 2) – foi fundada pelo Marquês de Pombal junto da Ribeira da Degoldra. Ambas surpreenderam nos fabricos covilhanenses a tramilha, que não era senão um derivado ou sucedâneo da preparação da lã penteada.

Predominantemente doméstica até ao fim do primeiro quartel do século XIX, a indústria da Covilhã não era tão absorvente que impedisse os seus habitantes de se integrarem coletivamente nos grandes acontecimentos políticos, militares e marítimos que fizeram de Portugal uma das nações mais gloriosas da Europa.

Um pequeno quadro histórico, quase às origens da nacionalidade, revela bem a têmpera e o altíssimo ânimo dos covilhanenses medievais, que já então se ocupavam no pacífico labor dos lanifícios. D. Sancho I concedeu à Covilhã o seu primeiro foral em 1186.

Contudo, já antes dessa data o concelho se encontrava organizado municipalmente, regendo-se pelos usos e costumes do foral de Salamanca, tal como os concelhos vizinhos de Valhelhas, Penamacor, Guarda e Alpedrinha.

D. Sancho I, encontrando a Covilhã organizada consuetudinariamente, alterou-lhe o regime jurídico, conferindo maiores regalias aos seus vizinhos. O amplíssimo território sob jurisdição dos alcaides da Covilhã estendia-se desde o vértice da Serra da Estrela – onde, no reinado de D. João VI, se edificou a Torre e onde Emídio Navarro sugeriu que fosse erigida a estátua da Lusitânia – até às Portas de Rodão, já no Tejo, no extremo sul.  Essas variações na organização municipal sucederam à medida que se iam redefinindo os contornos da vasta área concelhia.  

A vila de Belmonte tinha surgido na área territorial do concelho da Covilhã, por continuidade com o povoado romano de Centum-Cellae, surgido da exploração mineira do estanho.

Obviamente, nada daquilo que hoje conhecemos existia então. Não havia tecnologias modernas nem prédios que ensombrassem horizontes. O casario não incomodava e a paisagem regalava os olhos. Era impensável recear a poluição atmosférica ou os males causados pelo consumo de carvão. Existiam povoações, vinhedos, campos e montes; e não se imaginavam as vastíssimas extensões de terreno que hoje acolhem painéis fotovoltaicos.

Fica, pois, esta reflexão sobre o que todos nós vimos contribuindo para um futuro cada vez mais incerto na nossa vivência sobre este planeta.

Para terminar, envio os meus parabéns ao semanário FÓRUM pelos seus 14 anos a informar a Região, e também pelos dois anos e meio da RÁDIO FÓRUM, que se têm vindo a rejuvenescer. Que assim continuem por muito anos, acompanhando a transformação da sociedade em que nos inserimos.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

                                  

 

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 04-12-2025)

4 de dezembro de 2025

COVILHÃ – UMA HISTÓRIA DE LÃ, FRONTEIRAS, IDENTIDADE E A SUA UNIVERSIDADE


 

A história da Covilhã é inseparável da lã. Desde tempos imemoriais, entre ribeiras encaixadas e encostas agrestes da Serra da Estrela, este território desenvolveu uma ligação profunda à indústria têxtil, que moldou a sua economia, a sua organização social e até a sua paisagem humana. Embora não existam provas definitivas de produção têxtil na época romana, a tradição industrial começou a ganhar contornos mais sólidos durante a ocupação muçulmana, período em que os mouros introduziam o pisão mecânico – a então chamada maceira – utilizada durante séculos nas ribeiras da Degoldra e da Carpinteira.

Estas oficinas de pisões, movidas pela força hidráulica e dedicadas ao feltramento da lã, testemunhavam uma atividade que, entre cardar, fiar, tecer e pôr ao pisão, elevou a Covilhã a um dos mais importantes centros têxteis da Península. Mais tarde, com a instalação da Fábrica Real fundada por D. Pedro II e, posteriormente, da Fábrica Real Nova, criada pelo Marquês de Pombal, consolidava-se uma tradição que marcava gerações.

Paralelamente ao desenvolvimento económico, a Covilhã afirmava-se como um concelho dinâmico e com forte sentido comunitário. O seu primeiro foral, concedido por D. Sancho I em 1186, não criou uma estrutura administrativa do nada; veio antes reconhecer e organizar uma autonomia que já existia, herdade dos usos e costumes de Salamanca. Essa identidade municipal foi reforçada quando o modelo de Salamanca foi substituído pelo de Ávila, ampliando direitos e deveres dos seus habitantes.

O território concelhio era vastíssimo, estendendo-se da Torre da Serra da Estrela até ao Tejo, pelas Portas de Ródão. Incluía áreas que, por iniciativa régia e pela ação dos próprios alcaides, deram origem a novas povoações, como Sortelha, fundada após concessão de terras por pedido de D. Sancho I. Já Belmonte, surgida do antigo Centum-Cellas, manteve durante longos anos uma relação jurisdicional particular: embora sob influência da Mitra de Coimbra, as suas decisões judiciais continuavam a subir em grau para os juízes da Covilhã.

Mas a força do concelho não residia apenas na administração. Os covilhanenses participaram ativamente em momentos cruciais da história nacional: da jornada de Ceuta aos levantamentos contra Filipe IV, passando pela defesa das suas fronteiras medievais. A Covilhã, embora dedicada à produção de lanifícios, nunca deixou de erguer a bandeira da soberania e da justiça quando necessário.

É neste contexto que surgem os conflitos com os Templários de Castelo Branco, que procuraram alargar os seus domínios, impondo portagens abusiva aos munícipes da Covilhã. O choque culminou num combate na zona da atual Póvoa de Rio de Moinhos, onde a Covilhã saiu vitoriosa. A arbitragem posterior, registada em 1230 no Mosteiro de Santa Maria de Ozezar, viria a confirmar que o concelho covilhanense tinha razão na defesa dos seus limites.

Assim se desenha uma Covilhã que não é apenas a “cidade dos lanifícios”, mas uma terra de autonomia, ousadia e memória. Uma comunidade que ao longo dos séculos, soube conjugar engenho, trabalho e resistência – ingredientes essenciais para construir uma identidade que resiste às intempéries do tempo.

A Covilhã, outrora denominada A Manchester Portuguesa, transformou-se profundamente nas últimas décadas. Sem perder a herança industrial que marcou a sua identidade – visível nas antigas fábricas, nas ribeiras e na memória operária – a cidade reinventou-se como um polo de conhecimento, inovação e tecnologia.

Hoje, a Covilhã é amplamente reconhecida como cidade do saber, graças ao papel decisivo da Universidade da Beira Interior (UBI). A UBI trouxe dinamismo juvenil, investigação de ponta, novos cursos e centros de estudo, impulsionando áreas como a saúde, aeronáutica, engenharias, artes e ciências sociais. Esta presença universitária revitalizou a economia local, a cultura e a vida urbana, tornando a Covilhã mais cosmopolita, criativa e aberta ao futuro.

Assim, a Covilhã contemporânea é uma cidade que une tradição e modernidade: honra o passado dos lanifícios, mas afirma-se cada vez mais como território de conhecimento, inovação e oportunidades para toda a região.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

 

(In “O Olhanense”, de 01-12-2025)