7 de maio de 2026

CONTE-NOS A SUA HISTÓRIA JOÃO RUI CALAIS FRADE

João Rui Calais Frade nasceu em Milanje, no distrito de Quelimane, em Moçambique, a 6 de março de 1952. Foi também naquela terra africana que iniciou os seus estudos, fazendo ali a instrução primária, hoje designada Ensino Básico.

Mais tarde viria para Portugal, então designado por Metrópole, para prosseguir a sua formação. Em Tomar frequentou, como aluno interno durante seis anos, o Colégio Nun’Álvares. Apesar da distância, havia já uma ligação à Covilhã, onde passava as férias em casa de familiares.

No 6.º ano regressou a Moçambique para concluir os estudos. A decisão tinha um motivo claro: cumprir o serviço militar obrigatório na sua terra natal e não noutras colónias. Tinha então apenas 17 anos.

Aos 20 anos seria incorporado no serviço militar. Corria o ano de 1972. A recruta iniciou-se em Lourenço Marques – hoje Maputo – a 2 de fevereiro de 1973.

Durante essa fase foi selecionado para os Comandos, como atirador, tendo frequentado o Curso de Comandos em Montepuez, na província de Cabo Delgado. Desempenhou frequentemente a função de rebenta-minas. Mais tarde seria promovido a aspirante a oficial miliciano e, aquando da mobilização para combate contra os guerrilheiros da Frelimo, ascenderia ao posto de alferes miliciano.

Recorda assim esse período da sua vida:

“A Guerra Colonial no Niassa (1964-1974) foi uma frente crítica no norte de Moçambique. Era uma guerra marcada pela guerrilha intensa, pelo uso de minas por parte da Frelimo e pelo isolamento de muitos aquartelamentos portugueses. A região de Vila Cabral – hoje Lichinga – e Marrupa foi palco de combates severos, enquanto a Frelimo criava zonas libertadas e as forças portuguesas enfrentavam um terreno difícil e ataques frequentes a viaturas.

As fotografias com helicópteros referem-se a uma operação helitransportada destinada a destruir bases da Frelimo no norte do Niassa. O abastecimento dos helicópteros foi feito no destacamento de Chipembe, pertencente à 2ª CCAÇ/BCAÇ19.

A fotografa da coluna reporta-se a mais um golpe de mão a uma base da Frelimo, partindo na frente da mesma o alferes João Frade, seguido do furriel Marto – já falecido – e o terceiro elemento da coluna é um carregador e guia, ex-guerrilheiro da Frelimo. Era prática comum que oficiais e sargentos tivessem o apoio de carregadores indígenas para o transporte de parte da sua bagagem e equipamentos pessoais durante as operações no mato.

Tive oportunidade de captar essas imagens porque, em finais de 1973, me encontrava a comandar esse aquartelamento.

Este posto avançado da companhia sediada em Nanlicha era o ponto de partida para muitas das operações realizadas pela densa mata em direção às bases da Frelimo. Os trilhos eram muitas vezes indicados por guias contratados, antigos elementos da Frelimo que se tinham juntado às nossas tropas.

Nos dois anos em que permaneci nesta companhia, além dos patrulhamentos em redor do aquartelamento e da escolta de viaturas civis e militares, participei em três operações especiais – golpes de mão – destinadas à destruição de bases da Frelimo. Tive ainda a sorte de detetar e detonar duas minas na picada.

Nanlicha era uma pequena povoação com aquartelamento situado na picada entre Marrupa e Mecula.

Recordo também um episódio particularmente trágico: em 23 de julho de 1973, um destacamento do Batalhão de Artilharia 3887 e da Companhia de Artilharia 3558, mobilizados pelo RAL3 (Évora), foi atingido por uma emboscada com fornilhos (minas) na zona da Serra da Mecula, provocando onze mortos e vários feridos.

A região de Mecula era estrategicamente muito importante no nordeste do Niassa, controlando passagens como a picada do Candulo para Marrupa.”

 Depois do 25 de Abril, o alferes miliciano João Frade passaria à disponibilidade em agosto de 1974.

Terminada a vida militar, fixou-se definitivamente na Covilhã. Na vida civil trabalhou como desenhador de máquinas na empresa SMIL, uma serralharia pertencente ao seu tio. Mais tarde viria a colaborar com o seu sogro, Júlio Afonso, como técnico de manutenção de máquinas.

Mas há também uma faceta mais artística na sua vida. João Frade tem um fascínio particular pelo desenho. Mostrou-me um álbum onde guarda numerosos trabalhos da sua autoria: vistas da Covilhã e paisagens da Serra da Estrela, executadas com grande minúcia em tinta-da-china e aguarela.

J. J. Nunes

 

(In “O Combatente da Estrela”, n.º 142, abril 2026)

 

 

 

 


 

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