João Rui Calais Frade nasceu em Milanje,
no distrito de Quelimane, em Moçambique, a 6 de março de 1952. Foi também naquela
terra africana que iniciou os seus estudos, fazendo ali a instrução primária,
hoje designada Ensino Básico.Mais tarde viria para Portugal,
então designado por Metrópole, para prosseguir a sua formação. Em Tomar
frequentou, como aluno interno durante seis anos, o Colégio Nun’Álvares. Apesar
da distância, havia já uma ligação à Covilhã, onde passava as férias em casa de
familiares.
No 6.º ano regressou a Moçambique para concluir os estudos.
A decisão tinha um motivo claro: cumprir o serviço militar obrigatório na sua
terra natal e não noutras colónias. Tinha então apenas 17 anos.
Aos 20 anos seria incorporado no serviço militar. Corria o
ano de 1972. A recruta iniciou-se em Lourenço Marques – hoje Maputo – a 2 de
fevereiro de 1973.
Durante essa fase foi selecionado
para os Comandos, como atirador, tendo frequentado o Curso de Comandos em Montepuez,
na província de Cabo Delgado. Desempenhou frequentemente a função de
rebenta-minas. Mais tarde seria promovido a aspirante a oficial miliciano e,
aquando da mobilização para combate contra os guerrilheiros da Frelimo,
ascenderia ao posto de alferes miliciano.
Recorda assim esse período da sua
vida:
“A Guerra Colonial no Niassa
(1964-1974) foi uma frente crítica no norte de Moçambique. Era uma guerra
marcada pela guerrilha intensa, pelo uso de minas por parte da Frelimo e pelo
isolamento de muitos aquartelamentos portugueses. A região de Vila Cabral –
hoje Lichinga – e Marrupa foi palco de combates severos, enquanto a Frelimo
criava zonas libertadas e as forças portuguesas enfrentavam um terreno difícil
e ataques frequentes a viaturas.
As fotografias com helicópteros referem-se a uma operação helitransportada
destinada a destruir bases da Frelimo no norte do Niassa. O abastecimento dos
helicópteros foi feito no destacamento de Chipembe, pertencente à 2ª CCAÇ/BCAÇ19.
A fotografa da coluna reporta-se
a mais um golpe de mão a uma base da Frelimo, partindo na frente da mesma o
alferes João Frade, seguido do furriel Marto – já falecido – e o terceiro
elemento da coluna é um carregador e guia, ex-guerrilheiro da Frelimo. Era
prática comum que oficiais e sargentos tivessem o apoio de carregadores
indígenas para o transporte de parte da sua bagagem e equipamentos pessoais
durante as operações no mato.
Tive oportunidade de captar essas
imagens porque, em finais de 1973, me encontrava a comandar esse aquartelamento.
Este posto avançado da companhia
sediada em Nanlicha era o ponto de partida para muitas das operações realizadas
pela densa mata em direção às bases da Frelimo. Os trilhos eram muitas vezes
indicados por guias contratados, antigos elementos da Frelimo que se tinham
juntado às nossas tropas.
Nos dois anos em que permaneci
nesta companhia, além dos patrulhamentos em redor do aquartelamento e da
escolta de viaturas civis e militares, participei em três operações especiais –
golpes de mão – destinadas à destruição de bases da Frelimo. Tive ainda a sorte
de detetar e detonar duas minas na picada.
Nanlicha era uma pequena povoação
com aquartelamento situado na picada entre Marrupa e Mecula.
Recordo também um episódio
particularmente trágico: em 23 de julho de 1973, um destacamento do Batalhão de
Artilharia 3887 e da Companhia de Artilharia 3558, mobilizados pelo RAL3
(Évora), foi atingido por uma emboscada com fornilhos (minas) na zona da Serra
da Mecula, provocando onze mortos e vários feridos.
A região de Mecula era estrategicamente
muito importante no nordeste do Niassa, controlando passagens como a picada do
Candulo para Marrupa.”
Depois do 25 de
Abril, o alferes miliciano João Frade passaria à disponibilidade em agosto de
1974.
Terminada a vida militar,
fixou-se definitivamente na Covilhã. Na vida civil trabalhou como desenhador de
máquinas na empresa SMIL, uma serralharia pertencente ao seu tio. Mais tarde
viria a colaborar com o seu sogro, Júlio Afonso, como técnico de manutenção de
máquinas.
Mas há também uma faceta mais
artística na sua vida. João Frade tem um fascínio particular pelo desenho.
Mostrou-me um álbum onde guarda numerosos trabalhos da sua autoria: vistas da
Covilhã e paisagens da Serra da Estrela, executadas com grande minúcia em
tinta-da-china e aguarela.
J. J. Nunes
(In “O Combatente da Estrela”, n.º
142, abril 2026)
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