
Ainda somos do tempo em que se comprava roupa uma vez por estação, em
lojas que davam para a rua e não para um corredor de centro comercial, e em que
abriu o primeiro hipermercado do país – novidade era o Continente.
Ainda somos do tempo em que os indicativos telefónicos começavam por zero
e em que se sonhava com telefones portáteis. Em casa, havia apenas dois canais
de televisão, dependendo da região, e milhões de portugueses assistiam ao último
episódio do “Dallas”.
Ainda somos do tempo em que o mundo se dividia entre Karpov e Kasparov, e
não entre Bill Gates e o Steve Jobs.
Ainda somos do tempo em que havia pessoas que, a qualquer momento, podiam
carregar num botão e fazer explodir o mundo – e o mundo nunca chegou verdadeiramente
a explodir. As pessoas que o podiam fazer tiveram juízo. Está explodindo agora aos
pedaços.
Os hipermercados abrem todos os dias. Os indicativos começam por dois,
mas quase nunca ligamos para números fixos. Os telemóveis comandam a vida –
claramente, não somos nós que os temos, são eles que nos têm a nós. Somos
capazes de passar horas seguidas a fazer zapping, sem que nada nos faça parar. E,
por vezes, essas viagens são tão extenuantes como andar num carrossel: a
paisagem é igual e o efeito sobre a nossa cabeça também.
O mundo divide-se entre o Eixo do Bem e o Eixo do Mal e, francamente, não
estamos de lado nenhum.
Continua a haver pessoas que, a qualquer momento, podem carregar num
botão e fazer explodir o mundo – talvez não o mundo todo ao mesmo tempo, mas
pequenos bocados dele: num prédio de escritórios em Nova Iorque, numa estação
de metro em Londres, numa discoteca em Bali ou num comboio em Madrid.
A diferença é que sabíamos, ou pensávamos saber, quem eram essas pessoas:
duas pessoas, uma de cada lado do mundo, como nos jogos de xadrez entre Karpov
e Kasparov. A explosão só podia vir de dois sítios; agora pode vir de todos os
lados.
Aprendemos a deixar de nos preocupar e a amar a bomba. No tempo em que
ainda éramos miúdos da Guerra Fria – e não de uma banda com esse nome – havia
uma canção que nos dizia que era assim que ia acontecer: ou era o amor ou era a
bomba a manter-nos juntos.
E, neste contexto do que foi a vida de outrora em comparação com a de
hoje, como nos narrou Inês Nadais, no “Ípsilon”, há quase duas décadas, pegamos
na casa que deixou em 1992 e que ocupara desde 1960.
Talvez a televisão já tivesse chegado a ser a cores. Havia um frigorífico, um fogão a gás, um rádio
de pilhas e um aquecedor a óleo. Mas não havia vídeo, gira-discos, varinha
mágica, máquina de café, máquina fotográfica, batedeira, micro-ondas, máquina
de lavar roupa, congelador, torradeira ou despertador. E, claro, não havia automóvel
– havia as camionetas. Não havia sequer telefone.
Nada que pudéssemos ligar à corrente depois de abrirmos a porta; nada que
pudéssemos usar para tornar viável esta casa que ainda está no sítio onde a
deixámos em 1992. Nos anos 60, já sabíamos que não havia determinadas
comodidades, mas não sabíamos que nunca tinha havido tantos eletrodomésticos.
Eles chegaram aos anos 90 sem levantar dinheiro no multibanco, sem
receber um email, sem usar um telemóvel, sem experimentar um portátil, sem
frequentar a autoestrada, sem arrumar fotografias no computador, sem aquecer um
prato no micro-ondas, sem mandar SMS, sem ver um DVD, sem levar o lixo para a reciclagem, sem fazer zapping por 50 ou mais canais
de televisão, sem viajar em voos low cost; sem trocar o escudo pelo euro, sem
aderir à Via Verde, sem ver os vídeos mais vistos do YouTube, sem escolher um
carro com airbag de série e travagem ABS, sem ler um blogue, sem pagar a casa a
crédito, sem saber que o café viria, um dia, em cápsulas, sem ter de parar para
perguntar direções, sem ver miúdas com piercings no umbigo, sem saber que as
Torres Gémeas não durariam para sempre.
Abrimos a porta de casa e percebemos que eles nunca saíram dos anos 60: cinco
páginas dos Beatles numa “Flama” que agora é nossa, capas e capas de revista
com Brigitte Bardot, a caderneta das “Raças do Mundo”. Se aquela casa tivesse tido vida para além dos
anos 60, teria de ter havido pelo menos um “Jornal de Notícias”, pelo menos uma
iogurteira – a não ser quando saíam de casa para ir votar.
Tirando as eleições, o multibanco e as viagens low cost, não perderam
grande coisa.
Mas o jornal “O Olhanense” traz-nos aquela memória do namoro de
antigamente, que poderia ser com a moça à janela, sem que a mãe deixasse de
espreitar pela porta da cozinha…
Todos os artigos são para se lerem devagar,
sendo possível, mesmo em tempo de silly
season. Também a “A Nova
Comunidade aproxima quem faz a vida literária no Algarve” me trouxe rasgos
de alegria, porquanto eu também estou inserido no grupo “Tertúlias Covilhanenses – Encontro de Escritores”.
É por tudo isto que “O Olhanense” continua a
ser, para mim, aquela máquina: uma máquina de trazer ao presente memórias, pessoas,
histórias e momentos que o tempo não consegue apagar.
João de Jesus Nunes
jjnunes6200@gmail.com
(In “O Olhanense”,
de 01-10-2026)

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