20 de agosto de 2026

AS LUTAS ESTUDANTIS – AMORES DE ESTUDANTE


 

As atuais lutas estudantis não constituem novidade. Muito antes da década de 1960, os estudantes de Coimbra já haviam agitado o País e feito tremer a monarquia.

Na tarde de 4 de março de 1907, cerca de quatro centenas de estudantes da Universidade de Coimbra desfilaram pelas ruas do centro de Lisboa, formando uma mancha negra que alastrava do Rossio para a rua das Portas de Santo Antão. Ali, na sede do Ateneu Comercial, junto ao Coliseu, escutaram um discurso acutilante do republicano Teófilo Braga, um proscrito da Academia, e seguiram depois para São Bento, já enquadrados por um mar de colegas das escolas superiores e dos liceus da capital.

Ao longo do percurso, pelo Chiado e pelo Loreto, iam sendo aplaudidos pelos transeuntes nos passeios e vitoriados das janelas dos prédios. Com toda a compostura, os estudantes limitavam-se a agradecer com acenos de mão. Estavam ali para apresentar ao governo de João Franco (que legislava com o Parlamento encerrado) um caderno reivindicativo respeitante à Universidade. Mas os lisboetas, maioritariamente republicanos, viam neles uma força em que se apoiariam. Os estudantes, elite governante do futuro, estiveram sempre por detrás das grandes mudanças. Se o leitor duvida, lembre-se das crises académicas que precederam o 25 de Abril de 1974.

Tudo começara cerca de uma semana antes, em Coimbra, quando um candidato ao doutoramento pela Faculdade de Direito, José Dias Ferreira, fora chumbado por unanimidade do júri – não por ter sido “estendido” na prova, mas por ser conhecida a sua filiação no Partido Republicano. O exame pusera em polvorosa a cidade, e a Sala dos Capelos, a abarrotar, ia vindo abaixo quando se soube da reprovação do aluno. Curiosamente, um dos líderes da contestação estudantil – que decretou o boicote às aulas, extravasou para as ruas e levou ao encerramento da Universidade – chamava-se Frederico Franco. Sim, era filho de João Franco. O choque entre gerações é uma constante da História.

Mas tudo isto não passou de um episódio da “guerra”, que vinha muito de trás, entre o poder político de Lisboa e a Academia coimbrã. Os ventos da novidade sopravam então do Choupal, nesses tempos em que a cidade do Mondego era ainda designada como a “Lusa Atenas”.

No último quartel do século XIX, a Questão Coimbrã opusera os intelectuais imobilistas, cujo chefe de fila era António Feliciano de Castilho, aos estudantes da Universidade, adeptos das ideias novas sopradas pelos ventos de além-Pirenéus, lideradas por Antero de Quental e Teófilo Braga.

No meu tempo de estudante cantávamos muitas vezes “Amores de Estudante”, cuja letra aqui recordo:

“São como as rosas de um dia, /Os amores de um estudante, / Que o vento logo levou. / Pétalas emurchecidas/Deixam num ar um perfume, /De um sonho que se sonhou.

Capas negras de estudante, / São como asas de andorinha, /Enquanto dura o Verão. / Palpitam sonhos distantes, / Alinhados nos beirais, / No palácio da ilusão.

Os amores de um estudante/ São frágeis ondas do mar, /Que os ventos logo varreram. /Pairam na vida um instante/Logo descem, depois morrem/Mal se sabe se nasceram.

Mocidade, Oh! Mocidade, /Louca, ingénua e generosa/ E faminta de ilusão/Que nunca sabe os motivos/De quanto queira o capricho/Ou lhe diga o coração.

Quero, ficar sempre estudante, P’ra eternizar/ A ilusão de um instante. /E, sendo assim, / O meu sonho de Amor/Será sempre rezado, / Baixinho dentro de mim”.

A História ensina-nos que as gerações estudantis mudam, as causas transformam-se, mas a juventude continua a ser uma das mais poderosas forças de renovação da sociedade.

Mais de um século depois, as circunstâncias são diferentes. Permanece, contudo, a capacidade dos estudantes para interpelar a sociedade e recordar que a História também se escreve nas salas de aula e nas ruas.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “O Olhanense”, de 15-08-2026)

 

6 de agosto de 2026

DOS INGLESES DO CABO SUBMARINO AOS “FIFIS” DA REVOLTA



 O fenómeno que hoje desfruta de uma importância excessiva começou por ser um passatempo esquisito.

Em Carcavelos, numas casas, desde há muitas décadas, moravam uns ingleses que vieram para instalar o cabo submarino. Trouxeram consigo, além da tecnologia de ponta de finais do século XIX, um objeto curioso chamado bola de futebol. Nas horas de lazer, perante a curiosidade popular, davam uns pontapés naquela esfera de couro até então desconhecida entre nós e fundaram mesmo o Carcavelos Sport Club. Este ainda antes do virar do século media forças com o Lisbonense, o Clube Internacional de Futebol, o Real Ginásio Clube Português, o Oporto Cricket e outros grupos mais. Benfica e Sporting só seriam fundados mais tarde, já no dealbar do século XX. Quanto ao Futebol Clube do Porto, a sua estruturação e o seu arranque definitivo data de 1906, embora reivindique por decisão tomada em assembleia, as bases lançadas muito antes, em 1893, quando a capital do Norte se organizou futebolisticamente para defrontar uma efémera seleção de Lisboa.

Mas ao evocar estes tempos pioneiros estamos a cometer uma injustiça para com a ilha da Madeira. Foi ali, na verdade, que se deram os primeiros pontapés no esférico em terras portuguesas. Corria o ano de 1875 quando um jovem inglês chamado Henry Hilton, que estudava em Londres mas passava férias numa quinta paterna da freguesia da Camacha, trouxe da capital britânica para a já então “Pérola do Atlântico” (o turismo remonta ali ao século XIX) uma bola de futebol.

As regras do futebol tal como hoje o entendemos foram definidas em Inglaterra em 1864, mas já muito antes disso se praticavam jogos com bola. A referência mais antiga remonta ao século III a.C., na China. Na Itália do Renascimento jogava-se o cálcio, cujas regras seriam fixadas em 1580.

Voltemo-nos agora para os tempos mais recentes.

As tentativas de golpe militar foram frequentes no período que antecedeu o 28 de maio de 1926.

Filomeno e Fidelino foram os “Fifis” da revolta. Esta é sobretudo recordada pelo nome bizarro com que permaneceu na memória popular.

Há cem anos, noventa, ou mesmo oitenta, ainda era o ponto de partida para as revoluções.

Uma destas tentativas revolucionárias, condenada ao insucesso, foi, em 1925, a “Revolta dos Fifis”.

Cansados de instabilidade política, inimigos da turbulência social, desejosos de ordem numa sociedade bem policiada, vastos setores militares e civis (estes, claro, do patronato) não paravam de fazer planos para derrubar a República liberal e instalar um poder “forte”, eufemismo para ditadura. O efémero regime de Sidónio Pais, que durara de dezembro de 1917 a dezembro de 1918, deixara marcas e adeptos.

Os “Fifis” desta revolta eram o comandante Filomeno da Câmara, e Fidelino de Figueiredo. Filomeno, natural de uma daquelas famílias da ilha Terceira onde as meninas tocam piano e falam francês, era um militar republicano da ala conservadora e antigo governador de Timor, onde em 1912 afogara no sangue o maior levantamento jamais registado contra a presença portuguesa. Fidelino era um professor, historiador e crítico literário que dirigira a Biblioteca Nacional e fora ministro de Sidónio. Mas muitos militares de alta patente estavam implicados, e onde o nome de Revolta dos Generais por que é também conhecida esta intentona.

Ao cair da tarde de 18 de abril, os sublevados instalaram, pois, na Rotunda (ainda sem a estátua do Marquês, embora o projeto já fizesse caminho), forças do Batalhão de Metralhadoras, do Batalhão de Sapadores de Caminhos-de-Ferro e do Regimento de Artilharia de Queluz. Sinel encetou contactos com as forças fiéis ao Governo e tentou impor condições, mas na contagem das espingardas os revoltosos ficavam a perder. E, sendo assim, a tudo ficou por ali.

Hoje, a Praça do Marquês de Pombal, em Lisboa – a antiga Rotunda – é o local da cidade para onde convergem os maiores entusiastas do futebol a fim de comemorarem as vitórias das suas cores. Restaurada a normalidade democrática, no dia 21 acabou por rolar a cabeça do ministro da Guerra, Vieira da Rocha, que defendera que se devia parlamentar com os “Fifis”. Destacado maçom, o pobre fazia parte da comissão da estátua do Marquês, que seria inaugurada em 1934, tendo assim ficado ligado à Rotunda por dois motivos muitos diferentes.

Por esta altura já Mussolini mandava na Itália e a ditadura do general Primo de Rivera estava instalada em Espanha. O português Sidónio Pais, fascista avant la lettre, ou seja, antes de existir a designação oficial, dera o exemplo da “fórmula milagrosa” a militares e empresários por essa Europa fora.

 

Bibliografia: “365 dias com histórias da História de Portugal”, de Luís Almeida Martins.

P.S.

Tinha acabado de escrever esta crónica quando esta manhã de 22 de julho tomo conhecimento da morte de Luís Represas. Foi mesmo algo completamente inesperado já que o cantautor tinha concertos marcados para 2027, de celebração de 50 anos de carreira, contados desde o primeiro álbum do grupo Trovante.

Nesta passagem pela vida terrena, que tanto nos marcou com as suas músicas e canções, desejo-lhe, como crente, um eterno descanso.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “O Olhanense”, de 01-08-2026)