Em 26 de outubro de 1934 tomou posse
como comandante da Polícia de Segurança Pública da Covilhã o tenente João José
Amaro, então com 40 anos de idade, natural de Alcongosta, do concelho do
Fundão.
Homem de vistas largas e profundo conhecedor
da região, em especial da Serra da Estrela, o tenente Amaro idealizou a construção
de uma colónia de férias para crianças, nas Penhas da Saúde. Se bem o pensou,
melhor o concretizou, lançando-se com determinação na angariação de fundos para
tão vultuoso empreendimento.
Nesse tempo, os pequenos delitos
eram resolvidos na própria esquadra da PSP, pelo comandante, sendo aplicada ao
infrator uma multa fixa 55$00. Daqui nasceu a célebre “volta dos 55”. Tudo ali
poderia ser tolerado ou mesmo perdoado aos faltosos, exceto os 55$00, que iam
inteirinhos para o fundo destinado à futura Colónia Infantil da Montanha.
Assim, bêbados que provocassem desacatos,
lixo atirado à rua, vizinhos desavindos – todo um rol de pequenas infrações – acabava
sujeito à temida “volta dos 55”. Conta-se que, para os lados de Santo António,
um certo indivíduo resolveu um dia dar liberdade às suas galinhas, que
invadiram a propriedade de um seu vizinho. Este, aproveitando a ocasião, abancou
com uma delas.
Depois de discussão e mais
discussão, o caso foi parar à esquadra. O tenente Amaro, homem arguto, ouviu
atentamente os dois vizinhos e aplicou a sua peculiar justiça:
– “Tu, por teres roubado e comido
uma galinha, pagas a multa de 55$00 (quando o valor da galinha rondaria os 10$00).
E o senhor paga também 55$00, por não as saber guardar e as deixar andar pela
rua!”
O empreendimento foi arrematado
em abril de 1936, dando-se de imediato início às obras.
Atendendo a que, na época, o
salário diário de um trabalhador rondava entre os 6$00 e os 15$00, percebe-se
bem quão difícil era pagar a multa dos 55$00. Daí que o povo da Covilhã, quando
tinha de ir à esquadra, para além da temida “volta dos 55”, passasse a chamar à
Colónia, então em construção, a “Casa das Lágrimas”, tantas foram as vertidas
para que as multas pudessem ser satisfeitas.
Além disso, a 24 de julho de 1938,
com grande pompa e a presença das forças vivas da cidade – civis, militares e
eclesiásticas – foi inaugurada a Colónia Infantil da Montanha. Fê-lo alegremente
com um grupo de 111 crianças de ambos os sexos, constituindo o primeiro turno
de 20 dias, dos três que anualmente se realizavam, terminando em setembro com o
tradicional “Adeus, até pró ano!”.
A partir daí, as lágrimas
continuaram a correr, agora pelas mães, devido à ausência de 20 dias dos seus filhos.
Era vê-las nas madrugadas de domingo, serra acima, com o farnel às costas, para
passarem o dia com os pequenos. Era bonito e saudável observar aquelas filas
indianas, quer pelo atalho das Sete Fontes, quer pela Curva do Esse: homens, mulheres e crianças, numa alegria
contagiante, a caminho da Colónia.
Pior era o regresso! Lá vinham de
novo as teimosas lágrimas de despedida, mas, agora eram apenas lágrimas de afeto
familiar.
A Colónia Infantil da Montanha
foi administrada pela PSP até 23 de outubro de 1942, data em que o Comando da
Corporação a entregou à Câmara Municipal da Covilhã, em plena propriedade.
Importa referir que muitas pessoas
abastadas da cidade contribuíram generosamente para o sustento das crianças
durante a sua permanência, oferecendo batatas, azeite e outros géneros de
primeira necessidade.
Apesar das grandes despesas da
autarquia com a manutenção da “Casa das Lágrimas”, nunca se ouviu dizer, nas vereações
desses tempos, que se acabasse com a Colónia. Estava provado que os 20 dias que
as crianças do concelho passavam na Montanha lhes eram benéficos, tanto mental
como fisicamente.
Mas, como diz o povo, “não há bem
que sempre dure…” Assim, em 18 de maio
de 1976, a Comissão Administrativa da Câmara Municipal da Covilhã, presidida
pelo Sr. Luís Filipe Mesquita Nunes, vendeu o imóvel de utilidade pública ao
Fundo de Apoio aos Organismos Juvenis (FAOJ), pela quantia simbólica de 2.243.060$00,
pouco mais de dois mil e duzentos contos.
Também eu, com cerca de 8 anos, o
meu irmão mais novo, e a minha irmã mais velha estivemos nessa Colónia de
Férias durante 20 dias. No entanto, a nostalgia de estar fora de casa falava
mais alto. A Colónia era então gerida pela Câmara Municipal da Covilhã, sob a
orientação das freiras que vinham de fora, como a conhecida superiora, irmã Maria.
Mais tarde, já como funcionário da edilidade covilhanense, por várias vezes fiquei
encarregado de ir contar as crianças e providenciar as necessidades que a irmã
Maria solicitava para o bom funcionamento da Colónia.
Outros tempos.
Hoje, é a Pousada da Juventude.
João de Jesus Nunes
(In “ O Olhanense”, de 15-01-2026)

















