22 de março. Terceiro dia da entrada da primavera. Mais não é que a continuação do inverno. Neste ano da graça de dois mil e vinte e cinco. Na véspera celebrou-se o Dia Mundial da Poesia. Não houve um único dia ensolarado e seco. Vamos aguentando este equinócio da primavera nestes primeiros dias de tédio, até que no último dia do mês possamos dar um empurrão de uma hora ao relógio.
Como os dias vão resfriados, desta feita no aconchego do borralho, damos a lume estas linhas inspiradas no amor à antiga.
O Benedito, que, entretanto, se afastara da tertúlia face ao acidente em que destruiu o seu automóvel, na Ponte do Freixo, começara a pensar mudar de vida. Viver sozinho já não se tornava fácil. Os rumores de que a Luísa vinha falando da Olinda, sobre o palpitar do coração do Benedito para com uma determinada moça, várias vezes avistada com ele no seu encalço, começavam a tornar-se uma realidade.
O Benedito era uma pessoa expedita, sempre com muitos amigos, mas, nisto do feminino, paradoxalmente tornava-se um pouco inibido… E o acanhamento parecia persistir na hora de tomar uma decisão, de pedir namoro… Parece que se lhe tolhiam os movimentos. Ele, que sempre fora muito considerado e aplaudido quando jogou futebol em Leiria. Até que, pensando já há muito no amor, decidiu cortar de vez com os receios de uma conversa amorosa. Para que o seu instinto não fosse refreado na hora da verdade, os seus olhos foram-se direcionar a uma estante da sua sala, onde sobressaiu o livro de Mário Zambujal “Já Não Se Escrevem Cartas de Amor”.
- Valha-me Deus!... Estou a ficar inspirado e vou contrariar o Mário. Vou mesmo escrever uma carta à Sónia!
Estávamos no mês de maio daquele ano da graça de 2016. Começou a escrever:
“Menina Sónia:
Talvez adivinhe quem lhe está escrevendo e o sentido para que lhe escrevo esta minha carta.
Vencendo a timidez própria destes atos, venho confessar-lhe a doce simpatia que meu coração teve o inefável prazer de sentir por Si.
Há muito que a amo no segredo do meu coração, mas não querendo sentir-me dominado pelo amor, tentei tudo quanto me foi possível para a esquecer, mas, teimosamente, a sua imagem se me apresentava noite e dia ante os meus olhos. Vencido por esta paixão, não tive outro remédio senão escrever-lhe a contar-lhe quanto tenho sofrido por amor da Menina.
Já deve ter reparado que eu tenho feito várias tentativas para lhe contar o que sinto por Si, mas não o consegui ainda por ir quase sempre acompanhada. Como não lhe tenho podido falar diretamente, quis Deus que hoje lhe escrevesse esta carta para lhe transmitir tudo aquilo que sinto no meu coração pela Sónia.
Sempre tive uma grande simpatia pela Menina, mas ultimamente tenho observado muito melhor as suas excelentes qualidades.
Vê-la foi obra dos meus olhos, amá-la é obra de Deus.
Este sonho de amor que criei e alimentei por Si, seria para mim bem amargo o acordar duma desilusão, se não tivesse a certeza de que este sonho é correspondido e alimentado pela gentil Menina Sónia.
Sónia, peço-lhe encarecidamente me dê uma resposta a reanimar a minha pobre alma.
Benedito”
O Benedito esperou alguns dias, mas a resposta tardava. Tentou então falar pessoalmente com ela, e surgiu a oportunidade:
- Então, Sónia, anda aborrecida comigo?
Imediatamente surgiu a sua cândida resposta que nem sequer o deixou acabar de falar:
- Desculpe não lhe ter respondido ainda, mas eu prometo dar-lhe uma resposta.
Despediram-se. O Benedito ficou satisfeitíssimo. Passaram alguns dias e ele sem resposta. Os nervos e o frenesi imperavam nele. Até que, por fim, chegou a terceira semana de maio em que a Sónia datava a sua carta:
“Antes de mais quero agradecer-lhe por me ter distinguido dentre tantas moças. As excelentes qualidades que diz ter observado em mim são como as de qualquer rapariga que se preze de o ser: o mesmo temperamento, os mesmos sentimentos. No fim de contas, somos todas iguais.
Custa-me bastante dizer-lhe que, por agora, não penso em tal sentimento. Não me sinto com força suficiente para tomar um compromisso deste género. É fácil escrever amo-a, mas é muito difícil amar. Por isso digo não. Ainda é muito cedo. E há outros compromissos que me chamam: a Família, a Música e outras coisas que não posso dizer não.
Por isso mais uma vez obrigada e deixe de alimentar esse sonho, porque afinal não passou de uma ilusão. O que desejo sinceramente é felicidades para o futuro.
Sónia”.
O Benedito ficou atónito, mas não desiludido. Nova meditação. Entrara algumas vezes na Igreja da Lapa, pouco depois de ver a Sónia novamente passar… e pedia ao Senhor que lhe concedesse o que desejava.
Imediatamente se apressou a escrever-lhe esta carta profundamente sentida:
“Menina Sónia:
Primeiramente os meus agradecimentos pela gentileza de não faltar a uma resposta que lhe pedia. Não me sentindo confortado com as suas palavras, é com o coração em dor que novamente lhe escrevo e peço desculpar-me se as minhas palavras a melindrarem. Estará certamente pensando que estou a brincar consigo, mas não é verdade, não é um sonho ou mera ilusão que despertou em mim agora. Foi, sim, um sentimento de amor que há muito vem aumentando em mim e que agora quis manifestar-se perante Si. Todas as palavras que lhe tinha escrito são verdadeiras; talvez pense que não, mas é verdade. Repito, Sónia, não estou a brincar consigo, sou um rapaz sincero.
Digo com justiça que a Sónia tem excelentes qualidades. Por agora não importa nomeá-las, mas foram elas que me levaram a abeirar-me de Si. Falei que a amava e sei perfeitamente que não é de um momento para o outro que nasce o amor. Mas não é só com os contactos do namoro que se nota esse sentimento, muito antes ele pode surgir. Diz estar a Família e a Música a chamá-la. Eu estou perfeitamente de acordo, pois já estive em idênticas condições. Já tive a Família, os estudos e o trabalho. Mas serão estes fatores em causa que influirão no seu SIM? Pense, medite e reflita bem o assunto, pois pela terceira vez repito que não estou a brincar, mas a falar sinceramente do coração.
Benedito”.
O Benedito fica então satisfeito quando recebe uma carta da Sónia, já no mês de junho:
“Talvez lhe tenha parecido estranho eu ainda não ter respondido às suas cartas. Não pense que é descuido ou que não lhe liguei, mas foi-me inteiramente impossível fazê-lo mais cedo. Tenho uma vida ocupadíssima. Ainda há pouco mais de dez dias estive a dar resposta cartas que tinha cá desde dezembro; por aqui pode ver o que é a minha vida.
Bem, deixemos agora isto. Estou a alongar-me em pormenores que não interessam. Na sua carta repete não estar a brincar comigo. Eu quase que já vou acreditando. Além disso, eu nunca duvidei da sua sinceridade. Pelo contrário, até admiro a sua maneira de ser. E também não posso dizer que não simpatizo com o Benedito. Seria mentirosa se o dissesse. Agora esperemos que o tempo resolva o nosso destino. Sejamos livres na maneira de dizer da nossa gente. Se acaso o seu sonho tiver de ser realizado, não é agora, será noutra altura. Por isso, mais uma vez obrigada por tudo.
Sónia”.
Para sua surpresa, após refletir profundamente, a Sónia acabou por aceitar os sentimentos de Benedito e o tão esperado SIM definitivo chegou com grande alegria.
Entretanto, a tertúlia continuava com Fernando Gonçalves e os outros tertulianos, em Valbom – Gondomar. E para surpresa de todos, Benedito reaparece na tertúlia, agora com um novo Audi A6 Limousine Automatic, retomando a convivência alegre e amistosa que tanto apreciava.
Bibliografia: Parcialmente extraído e composto, do livro “Da Montanha ao Vale”, de João de Jesus Nunes
João de Jesus Nunes
jjnunes6200@gmail.com
(In “O Olhanense”, de 01-04-2025)