As atuais lutas estudantis não constituem
novidade. Muito antes da década de 1960, os estudantes de Coimbra já haviam
agitado o País e feito tremer a monarquia.
Na tarde de 4 de março de 1907,
cerca de quatro centenas de estudantes da Universidade de Coimbra desfilaram
pelas ruas do centro de Lisboa, formando uma mancha negra que alastrava do Rossio
para a rua das Portas de Santo Antão. Ali, na sede do Ateneu Comercial, junto
ao Coliseu, escutaram um discurso acutilante do republicano Teófilo Braga, um
proscrito da Academia, e seguiram depois para São Bento, já enquadrados por um
mar de colegas das escolas superiores e dos liceus da capital.
Ao longo do percurso, pelo Chiado
e pelo Loreto, iam sendo aplaudidos pelos transeuntes nos passeios e vitoriados
das janelas dos prédios. Com toda a compostura, os estudantes limitavam-se a
agradecer com acenos de mão. Estavam ali para apresentar ao governo de João
Franco (que legislava com o Parlamento encerrado) um caderno reivindicativo respeitante
à Universidade. Mas os lisboetas, maioritariamente republicanos, viam neles uma
força em que se apoiariam. Os estudantes, elite governante do futuro, estiveram
sempre por detrás das grandes mudanças. Se o leitor duvida, lembre-se das
crises académicas que precederam o 25 de Abril de 1974.
Tudo começara cerca de uma semana
antes, em Coimbra, quando um candidato ao doutoramento pela Faculdade de
Direito, José Dias Ferreira, fora chumbado por unanimidade do júri – não por
ter sido “estendido” na prova, mas por ser conhecida a sua filiação no Partido
Republicano. O exame pusera em polvorosa a cidade, e a Sala dos Capelos, a
abarrotar, ia vindo abaixo quando se soube da reprovação do aluno.
Curiosamente, um dos líderes da contestação estudantil – que decretou o boicote
às aulas, extravasou para as ruas e levou ao encerramento da Universidade –
chamava-se Frederico Franco. Sim, era filho de João Franco. O choque entre
gerações é uma constante da História.
Mas tudo isto não passou de um
episódio da “guerra”, que vinha muito de trás, entre o poder político de Lisboa
e a Academia coimbrã. Os ventos da novidade sopravam então do Choupal, nesses
tempos em que a cidade do Mondego era ainda designada como a “Lusa Atenas”.
No último quartel do século XIX,
a Questão Coimbrã opusera os intelectuais imobilistas, cujo chefe de fila era
António Feliciano de Castilho, aos estudantes da Universidade, adeptos das
ideias novas sopradas pelos ventos de além-Pirenéus, lideradas por Antero de
Quental e Teófilo Braga.
No meu tempo de estudante cantávamos
muitas vezes “Amores de Estudante”, cuja letra aqui recordo:
“São como as rosas de um dia,
/Os amores de um estudante, / Que o vento logo levou. / Pétalas emurchecidas/Deixam
num ar um perfume, /De um sonho que se sonhou.
Capas negras de estudante, / São
como asas de andorinha, /Enquanto dura o Verão. / Palpitam sonhos distantes, /
Alinhados nos beirais, / No palácio da ilusão.
Os amores de um estudante/ São
frágeis ondas do mar, /Que os ventos logo varreram. /Pairam na vida um
instante/Logo descem, depois morrem/Mal se sabe se nasceram.
Mocidade, Oh! Mocidade,
/Louca, ingénua e generosa/ E faminta de ilusão/Que nunca sabe os motivos/De
quanto queira o capricho/Ou lhe diga o coração.
Quero, ficar sempre estudante,
P’ra eternizar/ A ilusão de um instante. /E, sendo assim, / O meu sonho de
Amor/Será sempre rezado, / Baixinho dentro de mim”.
A História ensina-nos que as
gerações estudantis mudam, as causas transformam-se, mas a juventude continua a
ser uma das mais poderosas forças de renovação da sociedade.
Mais de um século depois, as
circunstâncias são diferentes. Permanece, contudo, a capacidade dos estudantes
para interpelar a sociedade e recordar que a História também se escreve nas
salas de aula e nas ruas.
João de Jesus Nunes
(In “O Olhanense”, de 15-08-2026)

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