6 de agosto de 2026

DOS INGLESES DO CABO SUBMARINO AOS “FIFIS” DA REVOLTA



 O fenómeno que hoje desfruta de uma importância excessiva começou por ser um passatempo esquisito.

Em Carcavelos, numas casas, desde há muitas décadas, moravam uns ingleses que vieram para instalar o cabo submarino. Trouxeram consigo, além da tecnologia de ponta de finais do século XIX, um objeto curioso chamado bola de futebol. Nas horas de lazer, perante a curiosidade popular, davam uns pontapés naquela esfera de couro até então desconhecida entre nós e fundaram mesmo o Carcavelos Sport Club. Este ainda antes do virar do século media forças com o Lisbonense, o Clube Internacional de Futebol, o Real Ginásio Clube Português, o Oporto Cricket e outros grupos mais. Benfica e Sporting só seriam fundados mais tarde, já no dealbar do século XX. Quanto ao Futebol Clube do Porto, a sua estruturação e o seu arranque definitivo data de 1906, embora reivindique por decisão tomada em assembleia, as bases lançadas muito antes, em 1893, quando a capital do Norte se organizou futebolisticamente para defrontar uma efémera seleção de Lisboa.

Mas ao evocar estes tempos pioneiros estamos a cometer uma injustiça para com a ilha da Madeira. Foi ali, na verdade, que se deram os primeiros pontapés no esférico em terras portuguesas. Corria o ano de 1875 quando um jovem inglês chamado Henry Hilton, que estudava em Londres mas passava férias numa quinta paterna da freguesia da Camacha, trouxe da capital britânica para a já então “Pérola do Atlântico” (o turismo remonta ali ao século XIX) uma bola de futebol.

As regras do futebol tal como hoje o entendemos foram definidas em Inglaterra em 1864, mas já muito antes disso se praticavam jogos com bola. A referência mais antiga remonta ao século III a.C., na China. Na Itália do Renascimento jogava-se o cálcio, cujas regras seriam fixadas em 1580.

Voltemo-nos agora para os tempos mais recentes.

As tentativas de golpe militar foram frequentes no período que antecedeu o 28 de maio de 1926.

Filomeno e Fidelino foram os “Fifis” da revolta. Esta é sobretudo recordada pelo nome bizarro com que permaneceu na memória popular.

Há cem anos, noventa, ou mesmo oitenta, ainda era o ponto de partida para as revoluções.

Uma destas tentativas revolucionárias, condenada ao insucesso, foi, em 1925, a “Revolta dos Fifis”.

Cansados de instabilidade política, inimigos da turbulência social, desejosos de ordem numa sociedade bem policiada, vastos setores militares e civis (estes, claro, do patronato) não paravam de fazer planos para derrubar a República liberal e instalar um poder “forte”, eufemismo para ditadura. O efémero regime de Sidónio Pais, que durara de dezembro de 1917 a dezembro de 1918, deixara marcas e adeptos.

Os “Fifis” desta revolta eram o comandante Filomeno da Câmara, e Fidelino de Figueiredo. Filomeno, natural de uma daquelas famílias da ilha Terceira onde as meninas tocam piano e falam francês, era um militar republicano da ala conservadora e antigo governador de Timor, onde em 1912 afogara no sangue o maior levantamento jamais registado contra a presença portuguesa. Fidelino era um professor, historiador e crítico literário que dirigira a Biblioteca Nacional e fora ministro de Sidónio. Mas muitos militares de alta patente estavam implicados, e onde o nome de Revolta dos Generais por que é também conhecida esta intentona.

Ao cair da tarde de 18 de abril, os sublevados instalaram, pois, na Rotunda (ainda sem a estátua do Marquês, embora o projeto já fizesse caminho), forças do Batalhão de Metralhadoras, do Batalhão de Sapadores de Caminhos-de-Ferro e do Regimento de Artilharia de Queluz. Sinel encetou contactos com as forças fiéis ao Governo e tentou impor condições, mas na contagem das espingardas os revoltosos ficavam a perder. E, sendo assim, a tudo ficou por ali.

Hoje, a Praça do Marquês de Pombal, em Lisboa – a antiga Rotunda – é o local da cidade para onde convergem os maiores entusiastas do futebol a fim de comemorarem as vitórias das suas cores. Restaurada a normalidade democrática, no dia 21 acabou por rolar a cabeça do ministro da Guerra, Vieira da Rocha, que defendera que se devia parlamentar com os “Fifis”. Destacado maçom, o pobre fazia parte da comissão da estátua do Marquês, que seria inaugurada em 1934, tendo assim ficado ligado à Rotunda por dois motivos muitos diferentes.

Por esta altura já Mussolini mandava na Itália e a ditadura do general Primo de Rivera estava instalada em Espanha. O português Sidónio Pais, fascista avant la lettre, ou seja, antes de existir a designação oficial, dera o exemplo da “fórmula milagrosa” a militares e empresários por essa Europa fora.

 

Bibliografia: “365 dias com histórias da História de Portugal”, de Luís Almeida Martins.

P.S.

Tinha acabado de escrever esta crónica quando esta manhã de 22 de julho tomo conhecimento da morte de Luís Represas. Foi mesmo algo completamente inesperado já que o cantautor tinha concertos marcados para 2027, de celebração de 50 anos de carreira, contados desde o primeiro álbum do grupo Trovante.

Nesta passagem pela vida terrena, que tanto nos marcou com as suas músicas e canções, desejo-lhe, como crente, um eterno descanso.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “O Olhanense”, de 01-08-2026)

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