Maria, mãe de Jesus, Maria Madalena, as irmãs Marta e Maria e as
poderosas Joana e Susana foram algumas
das mulheres mais marcantes do movimento que surgiu há mais de dois mil anos. Muitas
vezes esquecidas ou relegadas para segundo plano, começam hoje a ser recuperadas
pela investigação histórica.
Joana terá pertencido a um meio social privilegiado. Mulher de elite,
casada com Cusa, administrador de Herodes Antipas, governador da Galileia, contrastava
com as camponesas pobres que rodeavam Jesus. Mesmo assim, terá abandonado uma
vida de privilégios para escutar o profeta de Nazaré.
Sobre o seu primeiro encontro com Jesus pouco se sabe. A historiadora
Helen Bond, autora de Women Remembered: Jesus’Female Disciples, admite que
Joana poderá ter atravessado o mar da Galileia com outras mulheres da corte
para ouvir Jesus. Quando alguém precisava de ajuda ou de cura, a mensagem era
simples: “não temos nada a perder”, recorda a teóloga.
É nos Evangelhos que encontramos a confirmação de que Joana foi curada de
uma doença e passou a integrar o grupo que acompanhava Jesus. E não estava
sozinha. Jesus fazia-se acompanhar não apenas pelos doze apóstolos, mas também
com um grupo de mulheres que escolheu como discípulas.
Para o investigador italiano Enzo Bianchi, autor de Jesus e as
Mulheres, esta presença feminina representava uma verdadeira revolução para
a época. Num mundo profundamente patriarcal, as mulheres ocupavam um lugar
secundário na sociedade e na religião. Contudo, junto de Jesus, encontraram um
espaço de igualdade e participação.
MARIA, A MÃE DISCÍPULA
Maria foi a primeira discípula de Jesus. Nos Evangelhos surge poucas vezes, mas está presente em momentos
decisivos da sua vida.
Um dos episódios mais significativos acontece nas bodas de Caná. Quando o
vinho acaba, Maria chama a atenção do filho para a situação. Jesus
responde-lhe, mas acaba por transformar a água em vinho – o primeiro milagre
relatado no Evangelho de João.
Para a teóloga
brasileira Wanda Deifelt, este episódio revela a influência de Maria
sobre Jesus. Também o jornalista Andrea Tornielli considera que a intervenção
de uma mãe terá sido decisiva para que aquele primeiro milagre acontecesse
Maria não foi, porém, apenas a mãe de Jesus. O
seu Magnificat, cântico em que exalta Deus e anuncia a queda dos
poderosos e a elevação dos humildes, traduz uma mensagem de justiça e esperança
que atravessa o cristianismo.
Apesar da importância que lhe atribuem, os
Evangelhos canónicos fornecem poucos dados sobre a sua vida. Os textos
apócrifos, escritos posteriormente, acrescentam alguns pormenores, como a sua
educação religiosa e a apresentação no Templo ainda criança. Relatam também o
casamento com José, homem mais velho, e a aceitação da missão que lhe foi
anunciada pelo anjo Gabriel: ser mãe do Filho de Deus.
Num tempo marcado pela violência e pelo
domínio romano, Maria terá vivido com a permanente preocupação pela segurança
do filho. Os Evangelhos mostram, aliás, que nem sempre compreendeu as opções de
Jesus. Numa passagem, quando alguém lhe diz que a sua mãe e os seus irmãos o
procuram, Jesus responde: “Eis a minha mãe e os meus irmãos”.
MARIA, “A PRIMEIRA CRISTÔ
Apesar de alguma resistência inicial, Maria
acompanhou Jesus e permaneceu ligada à sua missão. Para o padre e professor da
Universidade de Coimbra Anselmo Borges, ela foi “a primeira cristã”, aquela que
acreditou antes de compreender plenamente.
A teóloga Teresa Messias considera igualmente
Maria uma das mulheres mais relevantes da vida de Jesus. Os Evangelhos,
observa, mostram sobretudo como Jesus influenciou as mulheres, porém, a
influência destas sobre Jesus e sobre a sua comunidade merece também ser
reconhecida.
Maria estará presente no momento da crucificação e, segundo alguns
teólogos, terá recebido a missão de continuar a divulgar a mensagem do filho.
Mais de dois mil anos depois, a presença
destas mulheres continua a suscitar perguntas. Quem foram realmente? Que papel
desempenharam na vida de Jesus? E quanto da sua história ficou por contar?
MARIA MADALENA
A APÓSTOLA DOS APÓSTOLOS
Apear de ser a mulher que mais vezes aparece
nos Evangelhos, surge apenas nos quatro oficiais: Marcos, Lucas, Mateus e João
– pouco se sabe sobre ela. Os poucos factos que conhecemos revelam que Jesus
terá curado Maria de “sete demónios”, e que o seu nome indicava a sua origem: Magdala.
A vila piscatória junto ao mar da Galileia
existe ainda hoje e é nela que continuam a procurar-se pistas sobre esta mulher.
A especialista conta à Sábado que descobriram provas que se encaixam nas
descrições bíblicas como o facto de Maria Madalena ser rica.
O nome de Maria Madalena continua envolto em mistério, mas uma coisa é
certa, garantem os teólogos: ela era importante para Jesus. “Maria Madalena é
fundamental no cristianismo, pois foi a primeira que fez a experiência
avassaladora de fé da ressurreição de Jesus.
A biblista Elizabeth Schader diz que Maria Madalena era uma mulher com
recursos, que ajudava o movimento de Jesus financeiramente. “Ela torna-se ainda
mais proeminente na crucifixão. Foi a ela que Jesus apareceu pela primeira vez
na manhã de Páscoa. Isto sugere que ela era uma seguidora extremamente
importante”.
JOANA E SUSANA
AS SEGUIDORAS PODEROSAS
O que leva uma mulher rica a deixar uma vida confortável para se juntar a
um grupo de crentes que percorriam a Galileia a pé? Joana e Susana aderiram ao
movimento de Jesus, mas pouco se sabe sobre estas mulheres, apenas que eram de
elite, o que prova que todas as classes sociais pertenciam ao cristianismo.
E mais: as mulheres ajudavam ao nível financeiro este grupo como sugere o
Evangelho de Lucas: “Ele ia de cidade em cidade, de aldeia em aldeia,
proclamando e anunciando a a Boa Nova no reino de Deus e os 12 iam com ele,
assim como algumas mulheres que tinha sido curadas de espíritos malignos e de
doenças”.
“Era um movimento bem organizado e cada um tinha funções definidas,
porque era preciso uma logística para se ser nómada e para alimentar aquelas
pessoas”.
Seria interessante falar de outras mulheres que seguiram a vida de Jesus,
como Maria de Betânia, que ungiu os pés do Senhor, e as duas irmãs de Lázaro,
Marta e Maria, que Jesus visitava em sua casa para descansar.
Ficamos por aqui, neste âmbito, da vida de Jesus,
João de Jesus Nunes
(In “O Olhanense”,
de 15-09-2026)


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