Também podia ter escolhido o título “D. João V, O Magnânimo ou o Rei Freirático?”.
D. João V (1689 – 1750) ficou conhecido como “O Magnânimo” sobretudo pela
extraordinária generosidade e pelos enormes gastos que fez em obras religiosas,
culturais e artísticas, possibilitados pelas riquezas que chegavam do Brasil,
especialmente o ouro.
Entre os motivos principais:
. Construiu e patrocinou grandes obras, sendo a mais célebre o Convento
de Mafra, cuja construção começou em 1717.
. Apoiou a Igreja e fez grandes doações a instituições religiosas,
conventos e igrejas.
. Protegeu as artes e a cultura, trazendo artistas, músicos e
especialistas estrangeiros para Portugal.
. Financiou obras públicas e científicas, incluindo a criação da
Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra, uma das grandes obras do seu
reinado.
. A sua munificência e ostentação procuravam também afirmar Portugal como
uma grande potência europeia.
O título “Magnânimo” significa literalmente, grande espírito, generoso,
liberal e nobre nas suas ações.
Curiosamente, a mesma riqueza que lhe permitiu essa magnificência também
lhe valeu críticas. D. João V gastava enormes quantias, e muitos dos seus
contemporâneos consideravam excessivo o luxo da Corte e a quantidade de
dinheiro entregue à Igreja.
O rei ficou célebre pela sua vida amorosa muito intensa, e o Mosteiro de
Odivelas teve um papel especial. A própria Câmara Municipal de Odivelas
confirmou que Madre Paula, freira do mosteiro, foi a sua relação amorosa mais
séria e duradoura, tendo o rei mandado construir para ela uma habitação luxuosa
junto ao mosteiro.
A famosa Madre Paula
Paula Teresa da Silva entrou no Mosteiro de Odivelas em 1717 e tornou-se
amante de D. João V. Da relação nasceu, em 1720, D. José de Bragança, que viria
a ser Inquisidor-Geral do Reino.
E o rei não se limitou a visitá-la. Concedeu-lhe rendimentos e benefícios
à família e proporcionou-lhe uma vida de grande luxo. Há documentação municipal
sobre as tenças concedidas a Paula e sobre a autorização papal que lhe permitiu
conservar bens, apesar do voto de pobreza da regra religiosa.
Quanto aos famosos aposentos de Madre Paula, existiu uma torre construída
ou adaptada para os seus encontros com o rei, posteriormente demolida em 1948.
Algumas descrições contemporâneas e posteriores falam de uma decoração extraordinariamente
luxuosa – embora os historiadores alertem que parte dessas descrições poderá
ter sido exagerada pela lenda que se criou em torno da amante do rei.
E não foi apenas Madre Paula…
D. João V teve outras relações com mulheres, incluindo outras religiosas,
e teve vários filhos ilegítimos. É daí que vem também a célebre designação de
“Rei Freirático”, atribuída ao seu comportamento em relação às freiras.
Aliás, a ironia é enorme: um rei extremamente devoto e generoso para com
a Igreja era, ao mesmo tempo, frequentador dos conventos por razões que pouco
tinham de religiosas. Uma fonte histórica do século XIX chega a referir
expressamente essa contradição.
E há uma distinção importante: não é correto dizer que todo o dinheiro
gasto em Odivelas foi simplesmente “dinheiro dado às amantes”. D. João V também
fez enormes doações aos conventos e instituições religiosas por razões de
devoção e política religiosa.
As despesas com a Madre Paula e outras mulheres são uma parcela
particular das suas prodigalidades.
Por isso a pergunta “D. João V, O Magnânimo ou o Rei Freirático?” tem
bastante fundamento histórico. O cognome oficial ficou “O Magnânimo”, pela sua
magnificência e grandes obras, mas a sua vida privada deu-lhe uma reputação
completamente diferente.
E há uma história particularmente deliciosa sobre D. João V e as freiras
de Odivelas: a dos três filhos que teve com freiras e que ficaram conhecidos
como os “Meninos de Palhavã”.
A história dos “Meninos de Palhavã” é, de facto, uma das mais curiosas do
reinado de D. João V – e ajuda a perceber por que razão o rei ficou associado,
simultaneamente, à magnificência e à vida amorosa tão pouco discreta.
Os três Meninos de Palhavã
D. João V teve vários filhos fora do casamento, mas reconheceu
oficialmente três filhos varões, num documento de 6 de agosto de 1742. O
documento só seria tornado público depois da morte do rei, em 1752.
Eram:
1. D. António de Bragança (1704-1800)
Era filho de Luísa Inês Antónia Machado Monteiro. Doutorou-se em Teologia
e tornou-se cavaleiro da Ordem de Cristo.
2. D. Gaspar de Bragança (1716 – 1789)
Era filho de D. Madalena Máxima da Silva de Miranda Henriques, religiosa.
Seguiu a carreira eclesiástica e chegou a ser Arcebispo Primaz de Braga.
3. D. José de Bragança (1720 -1801)
Era filho de Madre Paula, a famosa religiosa do Mosteiro de Odivelas.
Tornou-se Inquisidor-Geral do Reino. A Câmara Municipal de Odivelas confirma
que Paula Teresa da Silva entrou no mosteiro em 1717 e que da relação com D.
João V nasceu D. José, em 1720.
Mas por que “de Palhavã”?
Os três rapazes foram educados e viveram no Palácio de Palhavã, então
situado nos arredores de Lisboa. Daí nasceu a designação “Meninos de Palhavã”.
O palácio existe ainda hoje e é conhecido como Palácio de Palhavã, sendo
atualmente a residência do embaixador de Espanha em Lisboa.
E Madre Paula?
Aqui está provavelmente a parte mais conhecida da história.
Paula Teresa da Silva nasceu em Lisboa em 1701, entrou no Mosteiro de
Odivelas em 1717 e professou nesse mesmo ano. A relação com D. João V tornou-se
longa e muito conhecida. O rei concedeu-lhe rendimentos e benefícios, inclusive
à sua família, e Paula conseguiu até uma autorização papal que lhe permitia
conservar bens pessoais, apesar do voto de pobreza.
Os aposentos de Madre Paula eram famosos pelo luxo. Existia uma torre
junto ao mosteiro, onde ela vivia e onde se encontrava com o rei. A torre foi
demolida em 1948.
Há, porém, uma cautela importante: muitas das histórias extraordinárias
sobre o luxo dos aposentos de Madre Paula foram ampliadas pela tradição e pela
literatura posterior. É preferível separar aquilo que está documentado daquilo
que pertence à lenda.
E o destino dos três?
É particularmente interessante: os três tiveram carreiras importantes,
apesar da sua origem ilegítima.
. D. António – teólogo e cavaleiro da Ordem de Cristo;
. D. Gaspar – Arcebispo de Braga;
. D. José – Inquisidor-Geral.
Ou seja, D. João V conseguiu colocar os seus filhos naturais em posições
de enorme prestígio na Igreja portuguesa.
E há ainda um pormenor muito curioso: os três não eram todos filhos de
freiras. D. José era filho de Madre Paula; D. Gaspar, de D. Madalena, religiosa;
mas D. António teve como mãe Luísa Inês Antónia Machado Monteiro.
Portanto, a expressão popular de que D. João V teve “os três filhos com
freiras de Odivelas” é uma simplificação. Dois estavam ligados a religiosas; o
terceiro tinha outra mãe.
E há ainda outras filhas e relações amorosas atribuídas ao rei, que não
entraram na declaração dos três Meninos de Palhavã. É precisamente aí que a
história fica ainda mais interessante – e bastante mais escandalosa.
João de Jesus Nunes
(In “O Olhanense”,
de 01-09-2026)


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