7 de setembro de 2026

Entre a magnanimidade e as aventuras galantes



 

Também podia ter escolhido o título “D. João V, O Magnânimo ou o Rei Freirático?”.

D. João V (1689 – 1750) ficou conhecido como “O Magnânimo” sobretudo pela extraordinária generosidade e pelos enormes gastos que fez em obras religiosas, culturais e artísticas, possibilitados pelas riquezas que chegavam do Brasil, especialmente o ouro.

Entre os motivos principais:

. Construiu e patrocinou grandes obras, sendo a mais célebre o Convento de Mafra, cuja construção começou em 1717.

. Apoiou a Igreja e fez grandes doações a instituições religiosas, conventos e igrejas.

. Protegeu as artes e a cultura, trazendo artistas, músicos e especialistas estrangeiros para Portugal.

. Financiou obras públicas e científicas, incluindo a criação da Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra, uma das grandes obras do seu reinado.

. A sua munificência e ostentação procuravam também afirmar Portugal como uma grande potência europeia.

O título “Magnânimo” significa literalmente, grande espírito, generoso, liberal e nobre nas suas ações.

Curiosamente, a mesma riqueza que lhe permitiu essa magnificência também lhe valeu críticas. D. João V gastava enormes quantias, e muitos dos seus contemporâneos consideravam excessivo o luxo da Corte e a quantidade de dinheiro entregue à Igreja.

O rei ficou célebre pela sua vida amorosa muito intensa, e o Mosteiro de Odivelas teve um papel especial. A própria Câmara Municipal de Odivelas confirmou que Madre Paula, freira do mosteiro, foi a sua relação amorosa mais séria e duradoura, tendo o rei mandado construir para ela uma habitação luxuosa junto ao mosteiro.

A famosa Madre Paula

Paula Teresa da Silva entrou no Mosteiro de Odivelas em 1717 e tornou-se amante de D. João V. Da relação nasceu, em 1720, D. José de Bragança, que viria a ser Inquisidor-Geral do Reino.

E o rei não se limitou a visitá-la. Concedeu-lhe rendimentos e benefícios à família e proporcionou-lhe uma vida de grande luxo. Há documentação municipal sobre as tenças concedidas a Paula e sobre a autorização papal que lhe permitiu conservar bens, apesar do voto de pobreza da regra religiosa.

Quanto aos famosos aposentos de Madre Paula, existiu uma torre construída ou adaptada para os seus encontros com o rei, posteriormente demolida em 1948. Algumas descrições contemporâneas e posteriores falam de uma decoração extraordinariamente luxuosa – embora os historiadores alertem que parte dessas descrições poderá ter sido exagerada pela lenda que se criou em torno da amante do rei.

E não foi apenas Madre Paula…

D. João V teve outras relações com mulheres, incluindo outras religiosas, e teve vários filhos ilegítimos. É daí que vem também a célebre designação de “Rei Freirático”, atribuída ao seu comportamento em relação às freiras.

Aliás, a ironia é enorme: um rei extremamente devoto e generoso para com a Igreja era, ao mesmo tempo, frequentador dos conventos por razões que pouco tinham de religiosas. Uma fonte histórica do século XIX chega a referir expressamente essa contradição.

E há uma distinção importante: não é correto dizer que todo o dinheiro gasto em Odivelas foi simplesmente “dinheiro dado às amantes”. D. João V também fez enormes doações aos conventos e instituições religiosas por razões de devoção e política religiosa.

As despesas com a Madre Paula e outras mulheres são uma parcela particular das suas prodigalidades.

Por isso a pergunta “D. João V, O Magnânimo ou o Rei Freirático?” tem bastante fundamento histórico. O cognome oficial ficou “O Magnânimo”, pela sua magnificência e grandes obras, mas a sua vida privada deu-lhe uma reputação completamente diferente.

E há uma história particularmente deliciosa sobre D. João V e as freiras de Odivelas: a dos três filhos que teve com freiras e que ficaram conhecidos como os “Meninos de Palhavã”.

A história dos “Meninos de Palhavã” é, de facto, uma das mais curiosas do reinado de D. João V – e ajuda a perceber por que razão o rei ficou associado, simultaneamente, à magnificência e à vida amorosa tão pouco discreta.

Os três Meninos de Palhavã

D. João V teve vários filhos fora do casamento, mas reconheceu oficialmente três filhos varões, num documento de 6 de agosto de 1742. O documento só seria tornado público depois da morte do rei, em 1752.

Eram:

1. D. António de Bragança (1704-1800)

Era filho de Luísa Inês Antónia Machado Monteiro. Doutorou-se em Teologia e tornou-se cavaleiro da Ordem de Cristo.

2. D. Gaspar de Bragança (1716 – 1789)

Era filho de D. Madalena Máxima da Silva de Miranda Henriques, religiosa. Seguiu a carreira eclesiástica e chegou a ser Arcebispo Primaz de Braga.

3. D. José de Bragança (1720 -1801)

Era filho de Madre Paula, a famosa religiosa do Mosteiro de Odivelas. Tornou-se Inquisidor-Geral do Reino. A Câmara Municipal de Odivelas confirma que Paula Teresa da Silva entrou no mosteiro em 1717 e que da relação com D. João V nasceu D. José, em 1720.

Mas por que “de Palhavã”?

Os três rapazes foram educados e viveram no Palácio de Palhavã, então situado nos arredores de Lisboa. Daí nasceu a designação “Meninos de Palhavã”. O palácio existe ainda hoje e é conhecido como Palácio de Palhavã, sendo atualmente a residência do embaixador de Espanha em Lisboa.

E Madre Paula?

Aqui está provavelmente a parte mais conhecida da história.

Paula Teresa da Silva nasceu em Lisboa em 1701, entrou no Mosteiro de Odivelas em 1717 e professou nesse mesmo ano. A relação com D. João V tornou-se longa e muito conhecida. O rei concedeu-lhe rendimentos e benefícios, inclusive à sua família, e Paula conseguiu até uma autorização papal que lhe permitia conservar bens pessoais, apesar do voto de pobreza.

Os aposentos de Madre Paula eram famosos pelo luxo. Existia uma torre junto ao mosteiro, onde ela vivia e onde se encontrava com o rei. A torre foi demolida em 1948.

Há, porém, uma cautela importante: muitas das histórias extraordinárias sobre o luxo dos aposentos de Madre Paula foram ampliadas pela tradição e pela literatura posterior. É preferível separar aquilo que está documentado daquilo que pertence à lenda.

E o destino dos três?

É particularmente interessante: os três tiveram carreiras importantes, apesar da sua origem ilegítima.

. D. António – teólogo e cavaleiro da Ordem de Cristo;

. D. Gaspar – Arcebispo de Braga;

. D. José – Inquisidor-Geral.

Ou seja, D. João V conseguiu colocar os seus filhos naturais em posições de enorme prestígio na Igreja portuguesa.

E há ainda um pormenor muito curioso: os três não eram todos filhos de freiras. D. José era filho de Madre Paula; D. Gaspar, de D. Madalena, religiosa; mas D. António teve como mãe Luísa Inês Antónia Machado Monteiro.

Portanto, a expressão popular de que D. João V teve “os três filhos com freiras de Odivelas” é uma simplificação. Dois estavam ligados a religiosas; o terceiro tinha outra mãe.

E há ainda outras filhas e relações amorosas atribuídas ao rei, que não entraram na declaração dos três Meninos de Palhavã. É precisamente aí que a história fica ainda mais interessante – e bastante mais escandalosa.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 01-09-2026)

 

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