27 de junho de 2012

SEGUNDO ENCONTRO DE AMIGAS DA TRAVESSA DO VIRIATO

Volvidos dois anos do primeiro encontro, em Abrantes, as organizadoras, desta vez, optaram pela Covilhã como palco do segundo encontro, com a receção e posterior passagem, em pormenor, pelos locais de vivência d’outrora, mais de meio século de recordações, ali mesmo, para as bandas da Travessa do Viriato.


O frenesi começou bem cedo, e, junto à Igreja de S. João de Malta, já aguardava a primeira amiga – Manuela e o marido – quando chega a Odete e marido.

Desta vez, com o grupo dilatado, e somente com a ausência da Deolinda, impossibilitada, em Leiria, aumentava este segundo encontro, de mais emoções e enorme entusiasmo.

Beijos e abraços à medida que o grupo se reunia, e elas compareciam de vários pontos deste Portugal: Carmita (Lisboa), Néné (Vila Franca de Xira), Lenita (Abrantes), Cyla (Belmonte), às quais se juntavam a Tiz, Fernanda, Zizi e a Nelita.

Após a receção, foi uma visita à Igreja de S. João de Malta, onde se recordaram “os tempos de catequese, de catequistas, do côro, dos teatros no salão paroquial, das festas de S. Pedro e de Santa Luzia, e também do Padre Carreto” (e eu acrescento, do tempo em que a Eucaristia era celebrada em latim, com as mulheres de obrigatório véu na cabeça, e a separação, nas igrejas, de homens para um lado (ao cimo) e mulheres para outro (na retaguarda)… assim como o celebrante, na cerimónia eucarística, de costas voltadas para o povo…).

Nesse tempo, de mais silêncio e ouvir que de intervenção, quase que dava o sono no decorrer do ato litúrgico, porque era quase só a voz do padre, em latim, lá vindo algum despertar quando o mesmo exclamava: “Dominus vobiscum!”; e os fiéis respondiam: “Et cum spiritu tuo!”.

E o velho sacristão, Ti Domingos, lá ia respondendo em latim, no início da missa, e sempre que necessário, como era uso nos tempos de então.


No pequeno ato de agradecimento, junto ao altar, o padre Hermínio fez notar aos presentes do quão são importantes este atos, em que o denominador comum é a amizade, com o incentivo e estima por estes gestos, nos tempos que correm.

Mas, para além da amizade que perdura ao longo de tantos anos, havia uma grande dose de respeitabilidade entre os jovens – rapazes e raparigas – que, nos tempos que correm, muito deixa a desejar…

No seio destas grandes amizades, de longa data, também se partilhou a alegria dum pequeno ato simbólico das pequenas coisas de outros tempos… quando a dinâmica organizadora deste evento, Minita, convidou todas as suas amigas a aceitarem a oferta de uma jarrinha de vidro, para, numa hilariante ida à Fonte das Galinhas, recordarem peripécias dos seus tempos de adolescência e juventude.

E tudo correu num entusiasmo transbordante, pela tarde fora, a caminho do local do repasto, num restaurante da região, com uma vontade indómita para prosseguir.

Nos tempos que correm, os convívios, ainda que de pequenos grupos como este, mas bastante significativos para a vida das pessoas, são como que um despertar para alívio destes momentos difíceis da conjuntura em que vivemos.

E, de várias pessoas presentes, com problemas de saúde, foi um lenitivo que fez esquecer as dificuldades de cada um.

É para continuar!




(In Noticias da Covilhã)

13 de junho de 2012

O REINO DAS MULHERES

Sou um republicano convicto. Vejo na monarquia como que um conto de fadas. Reis e rainhas, príncipes e princesas fazem histórias muito bonitas para contar à miudagem, principalmente quando precisam de dormir.
Mas, pelo mundo fora, e na nossa Europa, ainda se delira com as rainhas e as princesas… mesmo que se gastem rios de dinheiro nas extravagâncias de um evento, como o cerimonial de um casamento. Para isto não há troika que resista.
Irritava-me ter que gramar, na monarquia, a descendência de uma família real. Exemplificando: Na linha de sucessão, ao Rei D. Mateus I vai suceder-lhe o alucinado filho varão, príncipe Tomás, Conde de Bogalhos de Baixo.
Vejam lá se isto sucedia com o Sultão da Madeira… Alberto João I, Rei e Senhor dos Jardins de Melgaço, Boidobra da Beira Baixa, Fundada dos Pinhais de Vila de Rei, Arronches do Alto Alentejo, Troia e dos mares do Machico e Ribeira Grande…
Bom, mas Portugal já teve grandes monarcas, na maioria com filhos de outras vergonhas que não incomodaram este país de marinheiros. Nem a nossa Rainha Santa Isabel de Aragão se furtou às escapadelas do marido, D. Dinis, de sua graça, de quem pariu somente dois filhos.
Isto que, de Marias, a nossa primeira rainha, de seu nome, teve uma fobia e enlouqueceu a governar pelas mãos dos outros. Foge, que vêm aí o Napoleão! E, a caminho do Brasil, a sua nora e rainha consorte do reino unido de Portugal, Brasil e Algarves, na precipitação até deixou o marido e nosso D. João VI, levar a casaca cheia de nódoas.
Parecendo estar num dia aziago e ver toda a monarquia pela negativa, afinal, tenho dó daquela rainha Sofia, de Espanha, sempre triste com as saídas furtivas de D. Juan Carlos, em serviço pelos safáris…
E que Deus tenha em paz a linda princesa Diana, já que o enfadado Carlos, príncipe de Gales, preferiu os traços da Camilla.
O que é certo e verdade é que, neste reino das mulheres, uma se salienta pela sua longevidade – a segunda mais velha a manter-se na monarquia britânica – a Rainha Isabel II, de Inglaterra, ao completar 60 anos no trono britânico – o jubileu de diamante da rainha.
Isabel II (ou Elizabeth II) nasceu em 21 de abril de 1926 e tem agora precisamente 86 anos. Reina após a morte de seu pai, o rei Jorge VI, desde 6 de fevereiro de 1952, sendo atualmente a Chefe de Estado que está no poder há mais tempo em quatro continentes, e, portanto, a segunda no planeta, já que o detentor do “troféu” da longevidade no poder é o rei da Tailândia (Rama IX).
É atualmente a mais velha rainha britânica de sempre. A sua trisavó, Vitória, consegiu bater o recorde mais longo dum reinado, pelo que, para o bater, a rainha Isabel II terá que se manter no poder até 9 de setembro de 2015.
Esta mulher é ainda chefe de Estado dum conjunto de 125 milhões de pessoas, vivendo em 16 países que vão desde o Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte, passando pela Austrália, Canadá, Jamaica, Nova Zelândia até às Ilhas Salomão.
A rainha Isabel II – uma das mulheres mais ricas do mundo – exige sempre vestuário que a saliente e só em 26 de novembro de 1992, o então primeiro-ministro John Major anunciou no Parlamento que a Rainha estava disposta para, a partir do ano seguinte, pagar impostos sobre os seus rendimentos… Entendam bem este espírito de voluntariado, caritativo e de abnegação…
A Rainha Isabel II foi coroada em 2 de junho de 1953 mas subiu ao trono em fevereiro de 1952. Na data da coroação, antes do cortejo em Westminster, disse às virgens que lhe seguravam o manto: “Prontas, meninas?”. Ela estava coberta de pesados adereços. O cetro é de 1661 e como a monarquia sempre gostou dele, em 1907 juntou o diamante Cullinan II, o segundo maior do mundo, com 530 quilates. As pulseiras, em ouro, foram-lhe oferecidas pelos oito países de que se tornou Chefe de Estado com a coroação. O vestido foi desenhado por Norman Hartnell e bordado com as flores de todos os países da Commonwealth. A coroa imperial de Estado tem 2.868 diamantes e é uma cópia da que foi feita para a Rainha Vitória. O colar e brincos foram feitos para a Rainha Vitória em 1858 com diamantes antigos. O Lahore tem 22 quilates. O manto, de veludo e pele de arminho, tinha 5,5 metros e era levado por seis jovens virgens da nobreza britânica.
Quando a rainha falecer, para que lhe serve tanta riqueza?
Recordo-me da sua vinda a Portugal, no mês de fevereiro do ano de 1957, quando a televisão surgiu em Portugal, a preto e branco, tendo sido esta visita a primeira grande reportagem da radiotelevisão portuguesa.
Era então uma jovem rainha, de 31 anos, acompanhada pelo marido, príncipe Filipe, e pelos seus dois filhos, príncipes Carlos, de nove anos; e Ana, de sete anos. Mais tarde viriam a nascer os príncipes André e Eduardo.
Eu, que não tinha ainda televisão, e, na minha adolescência, frequentava a antiga Biblioteca Municipal, ao jardim, para onde ia estudar, aí me recordo de ver na revista Flama, e nos jornais, as notícias e imagens da visita da Rainha Isabel II a Portugal, com a sua família, ao lado do Presidente da República General Craveiro Lopes e do Presidente do Conselho, Oliveira Salazar.

(In Notícias da Covilhã de 13.06.2012 e Kaminhos e Jornal Olhanense)

14 de maio de 2012

O TEMPO PULA E AVANÇA


Não é possível fazer parar o tempo. Ele avança, devagar, devagarinho, ou tão acelerado que nem damos por ele. Este paradoxo temporal é uma das vertentes da nossa vida. Para umas coisas, o tempo deveria ser preguiçoso, mas, para outras, desejaríamos vê-lo como num corridinho algarvio.

E até, por vezes, surgem as nortadas, e, vai daí, fazem andar o tempo para trás, tal como deveria andar para a frente – mais vagaroso ou mais ligeiro no seu passinho de criança ou nas pegadas de atleta adulto.

Só que, no meio destas formas de vermos e sentirmos, muita coisa se desfila pela nossa frente, entre ventos e marés deste peregrinar na terra, para os crentes, ou o destino, para outros; e, então, temos que preencher o tempo das nossas vidas: como devemos; como gostamos; como podemos; como nos deixam.

Mas, por vezes, uma só pessoa não consegue transportar às costas toda a montanha; e, por outro lado, há que dar colorido a todas as formas de expressão, de pensamento, de amor às causas citadinas ou de âmbito mais lato.

É assim aquilo a que se chama um trabalho em equipa. Mas, para tanto, há que aceitar as boas vontades, os que sentem por via da pena (hoje mais propriamente nas teclas dum computador), um sorriso para a escrita, e, no âmbito do meio onde se inserem, e, até, numa projeção extra muros, que vejam o reconhecimento dos seus textos numa apetência pela sua leitura.

No jornalismo, podemos ver um veículo ao serviço não só da informação como também do conhecimento, da cultura, da recreação do espírito.

Não é fácil dirigir um jornal. Quantas vezes um periódico, não obstante a boa vontade dos seus obreiros, se vê na contingência de cerrar portas, face aos problemas do tempo – lá está o tempo outra vez – em vários domínios, desde o financeiro à utilidade daquelas páginas que nos passam pela frente dos olhos, para uma só leitura rápida dos títulos, ou na apetência pelos artigos de determinado autor.

Ora, um jornal sem diversidade, e no exclusivo duma vertente desportiva ou religiosa, torna-se direcionado somente para um determinado tipo de aderente, excluindo os restantes não interessados nestas duas causas.

Sucede, porém, que o quinzenário “O Olhanense" é um periódico enraizado numa vertente de muitos colaboradores – é obra! – dispersos por opiniões variadas, onde impera uma veia pela história, não exclusivamente a desportiva, mas a da nossa História de Portugal, e não só, e na expressão colorida no entusiasmo de muitos outros temas, onde a poesia também tem assento.

Gosto de ver as curiosidades históricas de várias figuras e eventos do País e do globo.

Enfim, pode o diretor do jornal e presidente do centenário clube que lhe proporcionou a sua génese, orgulhar-se de a cidade de Olhão, a Região e o País terem um periódico agradável de leitura que honra a instituição Olhanense e a Cidade.

Mas, quem está por detrás da renovação das suas páginas e dum trabalho que não é fácil, não pode deixar de se reconhecer na coordenação muito profícua do seu chefe de redação, Mário Leonardo Proença, sucessor e forte braço direito, que foi, do saudoso diretor Herculano Valente.

É, pois, no momento em que surge o 50º ano da sua publicação, que vai todo o meu apreço e estima por quantos conseguem manter este órgão da Comunicação Social, sem perder a qualidade, e conseguindo um leque de mais de uma dúzia de colaboradores regulares.

Parabéns pois a todos quantos conseguem manter, nesta “teimosia”, há cinquenta anos, o jornal “O Olhanense”.

(In jornal Olhanense de 14.05.2012)

11 de maio de 2012

ABRIL HISTÓRICO – O ANTES E O DEPOIS

Quando nasci já se exigia o fim da ditadura. Era Presidente da República o marechal Óscar Carmona; o Papa, Pio XII. Havia terminado a II Grande Guerra e Salazar apresentava o pedido de adesão de Portugal à ONU.

Na Covilhã, os operários têxteis realizavam um movimento grevista, e, do Tarrafal, chegavam a Lisboa 110 presos políticos.

Com o meu primeiro choro contribuí para o aumento da população em Portugal, nessa altura de 8.178.360 almas. Em Portugal ainda não havia televisão (e, se calhar, foi por isso eu nasci…).

No lugar altaneiro da Pousadinha, um professor, que já havia mudado de profissão, continuava a ensinar a quem lhe pedia, geralmente adultos, numa zona mais de 90% analfabeta. Talvez fosse na sua casa onde entravam os únicos jornais de toda a população. Ouvia ler algumas notícias aterradoras, como as ocupações soviéticas na Europa de Leste, culminando com a invasão da Hungria, entre outras, e a cortina-de-ferro.

Não havia luz elétrica, água canalizada ou saneamento. À noite, só o luar e as estrelas do céu.

A escolaridade obrigatória foi feita no Asilo, onde até se aprendia a marchar, direita e esquerda volver e pela direita perfilar, aos sábados, onde um sargento do Batalhão de Caçadores 2 ganhava alguns patacos. Pelo 1.º de Dezembro e Procissão dos Passos lá nos entregavam uma farda da Mocidade Portuguesa. Exibíamo-nos assim com a rapaziada da Escola Industrial e do Liceu. O Colégio Moderno não se metia nestas andanças.

E é já na Escola Industrial que voltamos a vestir o mesmo fardamento. Também a apercebermo-nos do “impercetível”, para as nossas idades: - “Esta noite vieram buscar fulano!”; “Já chegou de Caxias, sicrano”; “Revistaram a casa de beltrano!”
Nas vitrinas da Escola, uma grande referência ao que caíra morto por se ter oposto ao assalto ao Paquete Santa Maria, naquele mês de janeiro de 1961, com Henrique Galvão – era então o homem do momento, patriota, o terceiro piloto João José Nascimento Costa.

Surge o grande êxodo dos portugueses a emigrarem, na década de 60, substituindo o Brasil e a América pela França e Alemanha. Mas também o terror do início das guerras coloniais. Pede-se, não, exige-se, anuência à chamada do grande chefe: aquele malandro do Nehru deu ordens para a invasão da Índia, mas “Angola é nossa! Angola é nossa! É portuguesa!”.

Começamos a ver a aproximação da nossa partida, e as notícias de Nambuangongo e outras terras africanas são aterradoras!

A partir da meia-noite, a Rádio Portugal Livre, de Argel, inicialmente pela voz de Stela Piteira Santos, na primeira emissão de 12 de março de 1962, dá-nos conta da situação do País.

Recordamo-nos da campanha inolvidável de Humberto Delgado, no ano de 1958, para a presidência da República, na sua passagem pela Covilhã e outras terras deste Portugal amordaçado. Com alguns receios, se vai dando vós à oposição democrática, por via da Comissão Democrática Eleitoral – recusa-se participar numa eleição fantoche. No ano 1973 é ainda a contestação pela morte do presidente chileno – Salvador Allende – às mãos do general Pinochet.
Num edifício, no Pelourinho, já demolido, onde existiu o Café Central, aí se reuniu a oposição democrática. Do outro lado, no Teatro-Cine, davam-se louvas à União Nacional, num grande entusiasmo por um dos seus homens e deputados do regime, natural do Tortosendo.

Entretanto, o substituto do ditador, Marcelo Caetano, acaba com os termos em que os funcionários públicos são forçados a redigir os seus atos de posse ao serviço do Estado –  “Declaro cumprir a Constituição da República Portuguesa de 1933, com ativo repúdio do comunismo e de todas as sua ideias subversivas” –, inicia as suas “Conversas em Família” e muda o nome de “Censura”  para “Exame Prévio”. Não tem mãos e é tornado preso às ordens do inquebrantável capitão Salgueiro Maia, nesse 25 de Abril de 1974.

Repetir o que tem sido dito tantas vezes é como chover no molhado. Os jovens de hoje, nascidos depois da Revolução dos Cravos, jamais se poderão aperceber do que foi o “antes”; por isso, ainda que respeitemos democraticamente todas as opiniões, é impensável num regresso ao passado.

Há que unir as mãos em redor dos ideais dos militares de abril, no genuíno interesse do povo.

Nós bem compreendemos as farsas daqueles parlamentares maioritários, dando cores vivas ao momento, com a voz de Paulo de Carvalho a cantar “E depois do adeus”, no início; e a “Grândola Vila Morena”, no final, nas últimas comemorações da Revolução dos Cravos.

O parlamento português é uma casa de muito pouco bom exemplo, se atentarmos nas afrontas que são feitas aos portugueses que têm que entregar as casas aos bancos; que tiverem que se desfazer de coisas que lhes foram proporcionadas pelos momentos vividos em democracia; que têm que voltar a comer uma cebola com pão porque já não têm um naco de carne para acompanhar as refeições dos seus filhos. E, entre muitos outros, porque é que a presidente do Parlamento é reformada aos 42 anos e recebe ainda, das suas funções, um generoso vencimento e ajudas de custo? “Palavras para quê? É um artista português e usa pasta medicinal Couto” – lembro-me desta publicidade de outrora…
(In Jornal do Fundão de 10.05.2012)

27 de abril de 2012

HISTÓRICO DO FUTEBOL PORTUGUÊS NO SEU CENTENÁRIO


O futebol é ainda, independentemente das crises – e já atravessou várias – uma maneira de se dar azo à expressão de sentimentos, num bairrismo, algumas vezes desenfreado, sobre as terras e os países, estendendo-se esse entusiasmo além fronteiras, onde os ídolos já não são só os da mesma nacionalidade, sendo muitos deles reconhecidos como génios do esférico, verdadeiros malabaristas na arte de jogar.

É também um tempo e um espaço de alguns momentos de lenitivo pelos enfados do dia a dia, quer eles sejam do trabalho quer se envolvam no negrume de alguma solidão, momentos pensativos, tristes, desoladores.

Também uma forma de dar o grito de Ipiranga, para dentro do campo, exprimindo-se em condutas que muitas vezes não o podem fazer no emprego, na família, nos outros meios sociais.

E, por esse mundo fora, e no nosso próprio mundo, vão sendo enumeradas datas, eventos, figuras que desfraldaram as bandeiras das suas coletividades ou que, na rotina do tempo, foram absorvendo os ventos e marés de tudo o que rodeou/rodeia as suas coletividades e apaniguadas gentes. Sim, é que sem gentes não há clubes, não há eventos, não há sorrisos nem desalentos.

Outrora, nos saudosos tempos do futebol de primeira – I Divisão Nacional entenda-se – eu calcorreava a pé, como muitos, desde ao pé da Escola Industrial, até ao cimo do antigo Hospital da Misericórdia, para no velho “Santos Pinto”, ainda pelado, ver os jogos do Sporting Clube da Covilhã (SCC). Eram as velhas glórias de hoje, na sua generalidade já desaparecidas, que entravam na luta por um desfecho favorável para as cores que representavam, ainda naquele espírito de “mens sana in corpore sano”, talvez já abstraído da realidade de hoje: Simony, Tomé, Suarez, Martin, Cabrita, Pires, Manteigueiro, Lanzinha, os irmãos Cavem, Rita, Helder, Tonho, Lourenço, Amílcar, Porcel, Couceiro, Carlos Ferreira, Patiño, Chacho, Adventino e Palmeiro Antunes, entre outros.

Aos domingos, tempos de fato e gravata para os homens, mesmo no verão, como era usual; e as senhoras de vestidos como indumentária (ainda sem o uso das calças, e muito menos calções), passeavam em grupos pelas ruas mais movimentadas da cidade para verem o formigueiro de gente a caminho do campo porque “hoje há bola!”. E, se era “dia do clube” e vinham os forasteiros a acompanhar o Benfica ou o Sporting, contavam-se as dezenas e dezenas de autocarros que, com as cores garridas dos seus clubes e o entusiasmo das suas gentes, se espalhavam estacionando em todo o espaço do “Campo das Festas” e ao longo da rua do Jardim Municipal até ao Sineiro.

Depois, no final, era vê-los partir em procissão acelerada a caminho do comboio especial, destinado a estes adeptos.

Mas, independentemente dos “clubes grandes” do futebol, outros havia da simpatia dos serranos, nomeadamente o Belenenses, com o seu “Matateu”, que ainda detém muitos adeptos por estas bandas, assim como a Académica.

Pela parte que me toca, ficou na minha sensibilidade a memória de outros clubes que emparceiraram com o SCC, na I Divisão, de menor notoriedade na ribalta desportiva, como o Atlético Clube de Portugal, o Oriental, o Lusitano de Évora, o Torriense, o Caldas e o Sporting Clube Olhanense, entre outros, sendo certos que alguns destes estão a tentar ressuscitar para os grandes palcos e, lamentavelmente, outros vivem com balões de oxigénio.

Mas a base deste texto reporta-se ao clube da minha simpatia – considerado o meu terceiro clube – o Sporting Clube Olhanense (SCO) que vai completar um século de existência no próximo dia 27 de abril.

Nascido nesta data do ano 1912, mas com a ata da sua fundação a 17, realizada numa casa da Rua de S. Bartolomeu, em Olhão, por um grupo de onze atletas que vieram a dar o nome ao clube, a escolher a cor do equipamento e a constituir a sua primeira direção, não faltando que se acordasse a quotização semanal de 50 réis, viria a ser Campeão de Portugal na data em que o SCC foi fundado, em 1923, tornando-se ambos clubes ecléticos e históricos do futebol português.

Alguns atletas que vestiram as camisolas do SCO mais tarde viriam a representar as cores do SCC: Eminêncio, Fernando Cabrita, Palmeiro e o guarda-redes Rita.

Os dois clubes defrontaram-se várias vezes, em momentos importante do mundo do futebol, como na antiga I Divisão Nacional; na II Divisão por via do Torneio de Apuramento para a Primeira; na Taça de Portugal; na Taça Ribeiro dos Reis e na Divisão de Honra, deixando sempre rastos de simpatia, aquele fair-play tão necessário nos meios desportivos.

Registo todos os encontros entre os dois clubes, ao longo das suas vidas.

Na época 1948/49, à 3.ª jornada, no Estádio Santos Pinto, o SCC empatava com o SCO, por uma bola, com o golo, logo aos 3 minutos, de Carlos Ferreira. À 16.ª jornada, no Estádio da Padinha, o SCO ganhava por 4-0. Aqui, os dois grupos trocaram saudações e lembranças por se tratar da primeira visita do SCC ao campo olhanense. O guarda-redes covilhanense, Ramalhoso, lesionou-se e foi substituído por Fialho. Neste tempo não eram permitidas as substituições de suplentes.

Na época seguinte (1949/50), o SCO ganhava em Olhão ao SCC por 3-1, com dois golos de Cabrita, sendo o do SCC da autoria de Livramento. À 22.ª jornada, no “Santos Pinto”, o SCC respondia com a vitória de 2-1, com golos de Livramento e Simonyi, e uma grande penalidade falhada por este, perto do intervalo. Pelo SCO jogavam ainda Cabrita e Eminêncio. E pelo SCC jogou também Tomé, a única velha glória ainda viva desse tempo.

Em 1950/51 verificou-se o mesmo resultado em ambos os campos – 4-2 – a favor de cada turma local. Assim à 4.ª jornada, na Covilhã, o SCC esteve a perder 2-0 durante meia hora e depois recuperou com golos de Tomé (2), Carlos Ferreira e Fialho. Na 17.ª jornada, a vez pertenceu ao SCO, com o mesmo resultado, mas invertido a seu favor, jogando já Eminêncio pelo SCC, sendo os golos serranos pertencentes a Simonyi e Cabrita, já que este marcou dois golos, sendo um autogolo na baliza olhanense.

Depois dos dois clubes terem caído na II Divisão Nacional, surgiu a Fase Final do Campeonato Nacional da 2.ª Divisão, que viria a ser ganha pelo SCC, regressando à I Divisão.

À 5.ª jornada desta fase final, o SCC recebeu em casa o SCO e ganhou por 6-1, com dois golos de Tonho, dois golos de Amílcar, Oscar Silva e Martinho. Recordo estas equipas:

SCC – Rita, Helder, Lourenço e Couceiro; Lanzinha e Cabrita; Martin, Martinho, Tonho, Amílcar e Oscar Silva. SCO – Hernani, Alfredo, Bento e Nunes; Poeira e Reina; Costa, Parra, Ângelo, Vinício e Sílvio.

No Notícias da Covilhã de 19/04/1958, José de Sousa Gaspar fazia este comentário sobre os homens do Olhanense: “Frise-se, por último, a nota simpática fornecida pela aguerrida turma algarvia ao perder de cabeça erguida, sabendo, como poucas, aceitar com singular desportivismo o pesado desaire que lhe foi infligido. Bastaria isto para que o Olhanense (Coletividade prestigiosa e rica em tradições) fosse credor da nossa admiração e simpatia. E no entanto, não só neste aspeto ele se impôs. Impôs-se também pelo valor do seu “quadro”, que embora jovem e em tudo nada inexperiente, não deixou de nos revelar o agradável “conteúdo futebolístico” que a Crítica lhe tem apontado e justamente realçado. É fora de dúvida que o Olhanense foi um dos melhores “conjuntos” que este ano se exibiu no Estádio “Santos Pinto” e que são inteiramente justas as aspirações que confiadamente coloca no dia de amanhã”.

À 10.ª jornada, em Olhão, o SCC ganhou por 2-1, com golos de Martinho e Amílcar.

As equipas: SCO – Abade, Alfredo, Bento e Nunes; Poeira e Toupeiro; Simões, Ângelo, Vinício, Cavem e Costa. SCC – Garcia; Helder, Lourenço e Couceiro; Lanzinha e Cabrita; Martins, Martinho, Óscar Silva, Benje e Amílcar.

A classificação final foi a seguinte: Covilhã, Guimarães, Farense, Boavista, Atlético e Olhanense.

Na época 1961/62, o SCO ganhava ao SCC em Olhão, por 1-0, logo na 1.ª jornada – uma vitória arrancada a ferros a um minuto do termo do encontro, com Armando a bater Rita.

As equipas: SCO – Filhó; Alfredo, Luciano e José Maria; Madeira e Reina; Matias, Gralha, Campos, Mateus e Armando. SCC – Rita, Lourenço, Carlos Alberto e Couceiro; Patiño e Lanzinha; Manteigueiro, Chacho, Adventino, Adriano e Palmeiro Antunes.

À 14.ª jornada, na Covilhã, foi a vez do SCC responder com a vitória de 2-0 e com a desvantagem de jogar só com dez jogadores face à lesão de Lanzinha. Os golos foram marcados por Adriano e Reina, do Olhanense (autogolo).

As equipas: SCC – Alves Pereira, Patiño, Cavem e Lourenço; Lanzinha e Carlos Alberto; Manteigueiro, Adriano, Adventino. Chacho e Amílcar. SCO – António Paulo; Rui, Luciano e Nunes; Madeira e Reina; Matias, Campos, Cardoso, Mateus e Armando.

O árbitro foi o Dr. Décio de Freitas, de Lisboa.

Na Taça Ribeiro dos Reis, da época 1963/64, as duas equipas defrontaram-se para apuramento dos 3.º e 4.º lugares.

O SCC acabaria por se apurar para o 3.º lugar, batendo o SCO por 2-1, após prolongamento, no Estádio da Tapadinha, em Lisboa.

Já para a Taça de Portugal, quando os jogos se disputavam a duas mãos, os resultados entre os dois clubes foram os seguintes: 19960/61 – na Covilhã (1.ª mão) SCC 1, SCO, 1; em Olhão (2.ª mão) SCO 3, SCC 1. Os golos do SCC foram marcados por Picareta e Walter. Em 1974/75, o Olhanense deslocou-se à Covilhã e foi eliminado por 1-0. Na baliza olhanense encontrava-se o antigo guarda-redes Arnaldo, que foi transferido do SCC para o Benfica.

Em 1995/96, no Algarve, o SCO eliminou o SCC por 1-0.

Para a Liga de Honra, os dois clubes encontraram-se nas épocas de 2005/2006 e 2008/2009.

Na época 2005/2006, o SCC venceu em casa o SCO por 2-0 (11-09-2005) e foi perder a Olhão por 5-2, em 29.01.2006.

Em 2008/2009, o SCC venceu os dois encontros: 4-3 na Covilhã, em pleno verão (31.08.2008); e 2-1 em Olhão (08.02.2009).

Recordo as duas últimas equipas com que se defrontaram os algarvios e os serranos:

SCO – Bruno Veríssimo, Marco Couto, João Gonçalves, Stéphane, Javier Cohene, Rui Baião, Messi, Toy, Ukra (74’ Castro), João Paulo (66’ Djalmir) e Guga (81´ Moses). SCC – Igor Araújo, Márcio, Diego Navarro, Edgar, Bura, Djikine, Paulo Vaz (93´Milton), Pimenta, Elivélton (83’ Roma), Basílio Almeida e Paulo Gomes (66´Paulo Henrique).

É este clube histórico, simpático e acolhedor, desde a sua região algarvia às vertentes serranas, de quem eu gosto desde a minha adolescência que está a comemorar 100 anos da sua existência. Nem eu pensaria que um dia estaria aqui a escrever estas palavras. São no entanto de autenticidade, bem patentes no reflexo de amigos que eu não conheço pessoalmente, por via do jornal do clube, onde dá gosto colaborar.

E foi ainda, no âmbito direcional dum meio de cultura, como são as publicações monográficas, que reforcei a minha especial atenção pelo SCO, ao surgir no caminho, espontaneamente, por via telefónica, um amigo que se tornou colaborador, e que jamais viria a conhecer pessoalmente, já que partiu para a outra margem da vida. Mas, na minha memória ficou perene o seu gesto de me ter procurado no Estádio José Arcanjo, no último jogo que o meu clube aí disputou, em 8.2.2009, meses antes do seu falecimento, dirigindo-se ao grupo de adeptos covilhanenses, os quais me transmitiram a notícia e o abraço enviado pelo amigo Augusto Ramos Teixeira.

Fica assim o registo desta linda estoria para a história do futebol português, como desporto-rei, neste espaço onde todas as classes sociais se encontram, numa linguagem entendida por multidões.

Para o Senhor Presidente da Direção, José Isidoro Sousa, que pessoalmente conheci na Covilhã, e a outros grandes amigos do clube e das gentes do desporto, nas suas várias vertentes, como os Senhores Mário Proença Leonardo – a alma da “voz no papel”, do clube e dos olhanenses, e também ao Sr. Júlio Favinha, vai o meu abraço de parabéns pelo centenário do histórico Sporting Clube Olhanense e os votos de muitos êxitos desportivos.

(In Jornal Olhanense, de 27 de Abril de 2012)