
O Fernando Pedrosa Gonçalves, jovem como eu (ainda nem
sequer tínhamos sido chamados para o serviço militar) mostra-me uma caderneta
da Caixa Geral de Depósitos (CGD) depois de ter aberto a sua primeira conta
bancária. Como é que isso se faz? Perguntei-lhe. E, não é que, a partir daí,
passei também a ser cliente da CGD Crédito e Previdência, como na altura se
designava… Ala! Que já são horas! E lá subimos as escadarias do Município, cada
um para a sua secção: eu para a “Contabilidade”; ele para as “Contribuições e
Impostos”.
Rios de tinta têm passado pelos jornais, e o barulhar das
águas pelas televisões e nas redes sociais, sobre o processo pelo qual a CGD
tem passado. Ele já vem desde que a crise financeira internacional mostrou a
nudez de todos os defeitos da forma de ter um banco público no nosso País. É
que ele navega ao sabor dos ventos que sopram das interferências políticas da
cor do partido da altura. Mostra-se assim uma péssima displicência gerencial.
O já enfadonho caso da administração da CGD, com
contratação e renúncia posterior de António Domingues para a sua presidência, é
de bradar aos céus. É deveras incompreensível a conduta deste homem da breve liderança,
aceitando a gestão dum banco público com a exigência de um estatuto especialíssimo,
obviamente diferente ao de outros detentores de cargos públicos como os gestores
públicos, exigindo a omissão do seu património. Mas a que pretexto?
Não nos podemos esquecer que a CGD tem estado envolvida nos
grandes escândalos do regime, com o locupletar de figuras sobejamente
conhecidas.
Já surge na perplexidade de muitas mentes a pergunta
anónima e sentida porque é que a CGD tem que ter sempre como presidente uma
figura externa ou então um apaniguado que se move à volta do poder? Não seria
mais apropriado, é a minha opinião, encontrar, como agora foi o caso de Paulo
Macedo, um gestor de méritos e créditos firmados? E até, porque não, mesmo a
conveniência de convidar uma figura dentro dos trabalhadores da CGD? Onde está
a motivação para esses trabalhadores se empenharem verdadeiramente a darem o
melhor de si, até à exaustão, se caso fosse necessário?
Será que o vencimento que o Presidente da CGD – uma
instituição pública – dizem que vai receber de 423 mil euros anuais (igual ao
que iria receber António Domingues) não é uma grande humilhação para o grande
exército de trabalhadores portugueses a ganhar o salário mínimo como o que se
paga em Portugal?
O que foi ontem, o que é hoje, não sabemos o que será
amanhã a CGD!... De uma casa que foi de grande confiança no passado por ser um
banco do Estado, consequentemente pensando-se ser a garantia das poupanças e
dos empréstimos, mormente da habitação, dos portugueses de boas intenções,
passou hoje a ser uma autêntica geringonça dourada para ainda muitos dos que a
vão tentar direcionar para águas mais tranquilas destes ventos agitados, quais
passagens do Cabo das Tormentas que depois foi batizado de Boa Esperança pelos
nossos descobridores do século XV.
E mais, a comissão executiva da CGD irá custar em salários
cerca de 2.465 milhões de euros brutos por ano, é o que consta.
A Caixa deveria ser 100% pública, muito forte e ter uma
missão bem definida: regulador do mercado; fazer mudar de intenção os abusos na
banca privada (já que o Banco de Portugal, como regulador, é tantas vezes
inerte) e financiadora da economia real, que, em boa verdade, não são as
grandes empresas mas sim as PME e as microempresas que são aquelas que geram
90% do emprego em Portugal. Claramente que não é arruinar crédito, mas sim dar
crédito a empresas de grande viabilidade com projetos sérios e com
possibilidade forte de serem conseguidos, atribuindo-se-lhes esse crédito à
medida que se vai vendo a sua aplicação na empresa. Obviamente que também haveria
a necessidade da concessão de crédito a particulares em condições acessíveis e
exigentes ajudando assim a classe média a cimentar-se.
Não é a CGD que mantém o grosso do número de clientes nos
funcionários públicos deste País, e os reformados? Então, com uma boa gestão
certamente a CGD tem a obrigação de ser altamente rentável.
Neste ano prestes a terminar, e agora que há uma nova
liderança nesta instituição, haja a esperança de se dar a volta ao texto, como
sói dizer-se, e os líderes, que têm salários dourados, sintam a obrigação de
transmitir rápida confiança à população portuguesa, e aos emigrantes, que
sempre viram na Caixa uma entidade credível, com aquela garantia de
estabilidade e de proteção para as poupanças de uma vida, cujo património se
transformou na tal geringonça nas últimas duas décadas.
O espaço não permite mais narrativas, ainda que muito
houvesse a dizer, pelo que vamos ficar por aqui.
Desejamos a todos os leitores e suas famílias um Santo
Natal e um Feliz Ano 2017.
(In "Notícias da Covilhã", de 29-12-2016)