8 de março de 2023

ENVELHECER NÃO SIGNIFICA ESQUECER

 

Este é o título que a médica neurologista, Isabel Santana, inclui na revista Olhares, um registo muito oportuno que me chamou à atenção, eu que me debato com esse problema de me surgirem muitas partidas de falha da memória, essencialmente quando mais da mesma necessito, ou seja, para o desenvolvimento de um texto, ou mesmo no discernimento de uma conversação, já que várias vezes a omissão da palavra que está debaixo da língua teima em não sair. Mas, com esforço, e uma dose de tranquilidade, as memórias ofuscadas acabam por voltar à tona da água.

A caminho de sete décadas e mais sete anos de peregrinar neste planeta, recordo-me que há precisamente sete anos (a minha tendência para o número sete, talvez induzido pela resposta de Cristo aos Apóstolos de que deviam perdoar não sete vezes mas setenta vezes sete), numa consulta a uma neurologista, no âmbito das formulações da consulta, veio a propósito o meu envolvimento na publicação de mais um livro, de grande conteúdo (perto de 900 páginas), para além de manter colaboração assídua em quatro jornais. A resposta foi perentória: “Escrever artigos moderadamente, sim! Quanto a esse livro que está a escrever, esqueça!”. Bom, aceitei parte da prescrição mas a obra em curso acabou por sair, não um “ensaio” mas um autêntico “tratado sobre seguros”, aquela que foi a minha atividade de mais de quatro décadas, e ainda mantenho um grupo de amizades em redor da mesma. Depois deste livro (que se encontra em mais de centena e meia de bibliotecas e instituições deste país, Brasil e muitos particulares), mais dois se seguiram.

“Temos 800 mil milhões de neurónios, uns mais especializados que outros – é certo – e tudo o que somos, fazemos, pensamos, imaginamos e sentimos passa por ali. A informação circula a uma velocidade próxima dos 400 Km/hora e está sempre dependente da comunicação que existe entre os neurónios, as chamadas sinapses ou pontos de encontro de trocas químicas e elétricas. Quando a idade avança, este funcionamento começa a perder alguma eficácia, mas as modificações são subtis e não interferem com a vida do dia-a-dia”.

Evidentemente que respeito as orientações clínicas mas também compreendo que é muito difícil terminar com compromissos, ainda que voluntários, das atividades cognitivas.

É certo e verdade que o esquecimento nas pessoas mais idosas nem sempre é levado a sério, conforme refere Isabel Santana, admitindo alguns serem ingredientes de um processo normal de envelhecimento, o que considera errado, já que não é apenas o risco cardiovascular que importa. “O cansaço, a desmoralização, o sofrimento e a solidão, inevitavelmente irão acelerar o défice de saúde mental e física. A falha de memória deve ser um alerta, mas há outros sintomas a que devemos dar atenção: perder o entusiasmo por atividades que eram muito apreciadas; desorientação no tempo e eventualmente no espaço; arrumar objetos no lugar errado; perda de iniciativa; perda de capacidade de resolução de problemas básicos; perda de capacidade de raciocínio; alterações de humor, comportamento e personalidade; dificuldade na utilização de palavras (fala e/ou escrita); perda de memória”.

Sem o sentido de atemorizar quem ler esta crónica, deixo, no entanto, aqui este interessante alerta (que para mim também serve) da médica neurologista Isabel Santana, para as nossas capacidades cognitivas não ficarem comprometidas.

Infelizmente lê-se pouco no nosso país, e até os jornais começam a ficar preteridos. O meu melhor ambiente entre amigos é de quem gosta de cultura, e não de quem a despreza. Felizmente ainda conto com alguns bons grupos de amigos, entre as versões apontadas, onde não faltam os prazeres da comida portuguesa, e dos bons vinhos.

Quando faço uma visita à Biblioteca Municipal, lá encontro interessados pela leitura, mormente dos jornais.

E, aqui, um antigo leitor assíduo da biblioteca, que já vem da antiga Biblioteca Municipal, ao Jardim, e agora na nova Biblioteca Municipal, de seu nome Francisco Pereira de Sousa, continua numa perene ida à sala de leitura para a consulta de jornais e livros. É um prazer ver este Homem, de 85 anos, que desde os primórdios da antiga biblioteca, na década de 50 do século passado, até aos dias de hoje, se torna o mais antigo leitor da Biblioteca Municipal da Covilhã.

Recentemente encontrámo-nos e memorizou algumas páginas dum dos meus livros que lhe ofereci, ao mesmo tempo que recordou peripécias quando, menino e moço, visitava a antiga Biblioteca Municipal, ao qual não lhe facultavam todos os livros, face à mentalidade da época, em que os livros sobre amor eram tabu. Mas era o Almanaque ABCZINHO de que mais gostava, com aquelas figuras, como o boneco Narciso Pateta. Recordou o jornal do regime salazarista Diário da Manhã em que encimava “Tudo pela Nação, Nada contra a Nação”.

Convidou-me a ver a parte de trás do seu carro, onde havia livros em vários sítios, que ia lendo. Sem dúvida, um caso insofismável de amor à cultura.

Este Leitor de mais de setenta anos de leitura na Biblioteca Municipal merece ser objeto de reconhecimento municipal. Ou será que estou equivocado. Não! Não estou!

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 08-03-2023)

 


2 de março de 2023

SABER ZANGAR-SE

 

Pegando no título que Joel Neto insere no texto da sua obra “Banda Sonora para um Regresso a Casa”, serve-me de fio condutor para interpor algumas passagens em várias vertentes da vida, a fim de procurar compreender situações que sempre ocorrem em cada um de nós, quando a travagem na zanga por vezes não deixa de ser disfuncional. Eis que uns são mais tolerantes, outros menos agressivos, enquanto outros deitam para detrás das costas o desaguisado e engolem sapos vivos para não se zangarem com amigos, ou mesmo familiares.

Quem ainda não se zangou, de verdade? O negativo desta questão é o não deixarem de saber dizê-lo na cara umas das outras.

Certo e verdade é que já tinha escrito três longos parágrafos sobre casos envolvendo a zanga, em várias facetas da vida, ao longo de mais de sete décadas e meia que, felizmente, já vi passar, marcantes na juventude, na vida militar por obrigação, e mais recentemente com amigo, mas optei por deixar correr na penumbra para o esquecimento.

E isto, altura em que escrevo esta crónica, na véspera do 24 de fevereiro, em que se comemora um ano da invasão russa na Ucrânia, pelo que faz mais sentido direcionar o sentido da zanga contra o déspota Putin. O tirano faz recordar (porque estamos nas competições europeias de futebol) os nazis, em que também para eles o futebol era uma fonte de afirmação e acima de tudo uma questão de Estado. Um monumento na Ucrânia, lembra a equipa do Dínamos de Kiev, de 1942. Em plena ocupação alemã, eles cometeram a loucura de derrotar uma seleção de Hitler no estádio local. O aviso foi-lhes feito com antecedência: Se ganharem, morrem... Os jogadores do “Kiev” entraram em campo resignados a perder. Todavia, nem o medo nem a fome, os impediram de serem dignos – venceram. Quando terminou a partida, os onze briosos jogadores foram fuzilados vestidos com os seus equipamentos, no alto de um barranco.

Grande povo ucraniano, que, volvido tanto tempo, ainda mantém o seu amor patriótico, numa fortíssima zanga contra o malfeitor.

Enquanto isto, outras zangas singram por este nosso país à beira-mar plantado, mas pelos nossos governantes muito maltratado. Persistem as grandes zangas dos professores, e de outras classes sociais, com os de menores recursos a ver a esperança como palavra vã, numa zanga pelo esbanjamento dos dinheiros públicos.

E que dizer dos abusos sexuais cometidos por membros da Igreja? Ainda nos zangamos muito, é verdade. “Com a maior das facilidades nos zangamos contra inimigos abstratos, como o ‘Governo’, o ‘capitalismo selvagem’ ou mesmo apenas ‘a crise’. Com a maior das facilidades nos zangamos com aqueles que entendemos como nossos subordinados, no trabalho ou na vida em geral (afinal os nossos ‘superiores ‘acabam por pôr-nos a pata em cima, alguém vai ter de pagar a conta). Com aqueles que estão, de alguma forma, em ascendente sobre nós, já não nos zangamos, amuamos, que é a forma mais cobarde de nos zangarmos. Aos nossos iguais simplesmente não dizemos nada: engolimos e tornamos a engolir, convencendo-nos de que do outro lado está, afinal, um pobre diabo, tão pobre que nem merece uma zanga – e, quando enfim nos zangamos, é para dar-lhe um tiro na cabeça, como todos os dias nos mostram os jornais”.

“Não respondas”, aconselham-nos os sábios. Não dês troco. Não ligues. Não percas a cabeça. Tens de ser superior. E, inevitavelmente, viramos todos uns diplomatazinhos de esquina, sem capacidade para dar um grito e a seguir fazer as pazes. Tornamo-nos ainda mais hipócritas do que aquilo que a nossa contraditória condição já nos obrigava.

Eu prefiro um homem que parta a loiça a um choninhas que sublima tudo e, no final, ainda me passa a mão pelo pêlo. Quem não é capaz de zangar-se também não é capaz de uma gargalhada – e, se nos zangarmos com ele, o primeiro argumento racional que utiliza é: “Não sejas assim.” Mas que diabo é isso, “não sejas assim”? “Assim” capaz de ver uma relação pessoal deteriorar-se sem dar um murro na mesa para tentar salvá-la?

Só com frontalidade, coragem e zelo podem contar comigo.

 

João de jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 01-03-2023)

 

 

16 de fevereiro de 2023

A DESCARATERIZAÇÃO DO FUTEBOL

 




Ano de dois mil e vinte e três. O futebol, empolgante, ultrapassa os limites da sua génese. Não existem ainda evidências de como e onde o mesmo nasceu. Dos vários historiadores que descrevem, ou reclamam para os seus países a origem do futebol, ficam indubitavelmente muitas incertezas. Os jogos com bola, nas suas diversas modalidades, são conhecidos desde tempos remotos. Concluímos, no entanto, que o futebol, como atualmente se pratica, é um jogo inglês, tendo as suas longínquas origens dispersas pelos povos mais antigos do Mundo. Sendo assim certo que se considere como seu antepassado o jogo coletivo que utilizava uma bola redonda, disputado entre duas equipas. O seu objetivo principal forçosamente passa por cada equipa impulsionar a bola em sentido oposto. Entrar pelos meandros da sua génese não é fácil; e até aos dias de hoje, evoluiu em muitos sentidos.

Segundo o The Oficial History of the Football Association estabelece as datas entre 1863 e 1870 a génesis do futebol. No nosso país, enquanto os madeirenses advogam que o futebol foi, pela primeira vez, praticado em Portugal, na Camacha, no ano de 1875, já outra versão diz que foram os irmãos Pinto Basto, estudantes em Inglaterra, que dali o trouxeram, em 1886, conhecido sob a designação do jogo de “pé na bola”, sendo que o primeiro jogo teve lugar em Cascais, num domingo do mês de outubro de 1888.

Ao longo dos anos o futebol foi-se transformando numa das indústrias dos nossos tempos. E ele foi evoluindo cada vez mais O homem jamais teria jogado com uma bola antes de alcançar esse momento de um processo contínuo de adaptação.

Se repararmos nas modernas estruturas que gerem o futebol, verificamos que o envolvimento das pessoas no fenómeno, abrange todas as condições e estratos sociais, desde o abastado industrial ao humilde operário, onde, numa multidão que assiste a um jogo de futebol, impossibilita distinguir diferenças. É que muito rapidamente todos ficam iguais, unidos num só ideal: a vitória da sua equipa.

O Mundo chegou aos 8 mil milhões de pessoas no dia 15 de novembro de 2022, sendo certo que o futebol, como Desporto-Rei, é sobejamente conhecido por uma parte significativa desta população. Existem ídolos, integrantes deste enorme espetáculo que acabam por ser conhecidos por esse Mundo fora mais que o seu próprio país. Na visita, há alguns anos a Israel, alguns residentes tinham dificuldade de identificar Portugal. Numa das ruas, um velho judeu, e seus vizinhos, ao ver-nos passar em grupo perguntaram de onde éramos. Portugal! – Dissemos nós. Fizeram uma careta ou ficaram mudos, sinal de desconhecimento. Mas logo que um dos forasteiros exclamou: Ronaldo! num ápice foram os sorrisos, encontrada assim que foi a chave da resposta.

Desde longa data sou atento ao fenómeno desportivo, mormente no âmbito do futebol, com incidência mais profunda no clube do meu coração e também no da minha terra.  Como tantos de nós, a partir da geração de 40 do século XX pudemos sentir quanto amor tínhamos pelos nossos clubes. As camisolas não se apresentavam com frequentes cambiantes, como hoje. Não havia claques criadas, não havia infiltração de “hooligans”, as disputas entre adversários não atingiam os ódios de hoje entre coletividades; a corrupção não era tão patente. E hoje ao que assistimos?

A evidência do lucro! A ganância dos milhões aí está. Há que “vender” jogadores de alta qualidade. “Vender?!...”, desde criança que me fazia confusão esta palavra aplicada a humanos. Mais parece aplicada a escravos. Mas, benditos “escravos”, eles não se importam da designação, interessa sim o peso das algibeiras.

Passamos então ao cerne da questão: O futebol está hoje descaraterizado. Segundo Evandro Delgado, in “SapoDesporto”/Sport Informa, de 19 de outubro de 2018, “há hoje um problema no futebol português com a obrigatoriedade da criação das Sociedades Anónimas Desportivas (SAD), tudo tendo começado em 1997, quando o Governo, através do Decreto-Lei nº. 67/97, estabeleceu o Regime Jurídico dos Clubes das Sociedades Desportivas. Foi entretanto alvo de revisões e em 2013 o Decreto-Lei nº. 10/2013, de 25 de janeiro, estabeleceu o Novo Regime Jurídico das Sociedades Desportivas onde o Governo estipulava que, para poderem competir nos campeonatos profissionais de futebol da Primeira e Segunda Ligas, os clubes tinham de constituir uma sociedade desportiva, a partir da época 2013/2014. A maior parte dos emblemas optou pelas Sociedades Anónimas Desportivas (SADs) mas outros, de menos dimensão, formaram uma Sociedade Desportiva Unipessoal por Quotas (SDUQ) que, na maior parte das vezes, funciona como o departamento de futebol do clube. Quem opta por uma SDUQ consegue preservar a sua identidade, já que é titular do capital social do clube. A opção pela SAD é vista como uma forma de atrair investidores, que possam colocar capital no clube de forma a ajudá-lo a ser competitivo e a chegar a patamares superiores. O problema começa quando os resultados desportivos da equipa principal de futebol começam a escassear. Os sócios, sem voto na matéria,  na maioria dos casos, começam a ver o futebol, o principal impulsionador do clube, a tomar um rumo longe daquilo que imaginaram. Passam então a haver conflitos entre as direções dos clubes e as empresas e investidores individuais que dominam o futebol profissional. Depois, o vazio na legislação e a falta de supervisão sobre a origem do capital é um dos principais problemas, assim como a falta de punição para quem viola os contratos assinados. Os clubes em Portugal não estão preparados para terem SAD’s compradas por investidores estrangeiros. Se houver um incumprimento por parte do investidor, o clube originário, se quiser prosseguir, tem de começar de uma divisão distrital. Existem muitos problemas entre clubes e as respetivas SAD’s porque o que está na origem do diferendo está na lei de criação de SAD’s e na falta de um regime sancionatório para os incumpridores. Passou a haver um futebol a viver acima das suas possibilidades.”

Neste contexto, muitos clubes passaram por enormes dificuldades, com despromoções, caindo no ridículo, pois coletividades de prestígio que singraram pela I Liga de Futebol, hoje ou já não existem ou andam pelo Campeonato de Portugal ou Distritais de Futebol.

Esperemos que tudo de modifique para os verdadeiros tempos de glória de cada clube português, muitos deles centenários ou a caminho.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 15-02-2023)

 

 

15 de fevereiro de 2023

DISCORDAR OU UMA CONTRIBUIÇÃO PARA REVOLUCIONAR

 


Não podemos agradar a Deus e ao Diabo, o que pressupõe sempre a inviabilidade de nos apresentarmos com duas caras para a solução dum problema. Não é fácil afastar a tentação, por mais que exista honestidade e as boas intenções com que o cidadão seja revestido, se não houver uma força intrínseca que deite por terra todas as instigações do momento. O provérbio evidencia que “Quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é tolo ou não tem arte”. Sempre houve, e persistem, os que caminham pela ponte, numa velada atenção tendente a ver para qual dos lados devem saltar. Jamais pudemos assistir a um manancial de gente vestida de pele de cordeiro, mas com dentes afiados de lobo, quando surge a oportunidade do assalto, como nos tempos que correm. Obviamente que, felizmente, ainda existem os que querem perfilar-se honestamente no rol dos das boas intenções, com o mérito proveniente do seu talento. Mas... são mais as vezes os que ficam para a retaguarda favorecendo-se os que trouxeram empacotada a nobre cunha, ou então a anuência ao questionário para a integração partidária dum qualquer jotinha, tendo em vista a inserção num lugar de boy ou girl.

Em jovem pertenci a um movimento operário católico sob o lema “Ver, Julgar e Agir” mas também onde nos manifestávamos: “Nós não queremos a revolução, nós somos a própria revolução!”. Viviam-se então os tempos da ditadura salazarista e marcelista com o que se escrevia a passar pela Censura Prévia que, numa desejada primavera marcelista que não chegou a sê-lo, a transformou em Exame Prévio. Somente areia para os olhos.  Com a democracia institucionalizada pelo 25 de Abril de 1974 viemos a ter a liberdade plena e não coartada como dantes, mas hoje, com muitos abusos que nada deveriam ter a ver com a liberdade ganha, ficamos dececionados ao ver no seio das instituições, das autarquias, e dos governos, como da própria Igreja Católica, situações atentatórias da dignidade entre todos – ricos ou pobres. Os casos são sobejamente conhecidos entre governantes, bispos e padres a encobrirem-se e a mentirem contra o que o Mestre ensinou. Mas disto não vou falar.

No entanto não pude deixar de recordar tempos por que também passei, do medo e da repressão, em que o levantar a voz seria o suficiente para a condenação. Muito sobre isto está escrito nos meus livros e várias publicações. Neste contexto, quero agora vir a lume sobre um Homem, no reflexo da exemplaridade de outros que se encontram no manto do anonimato, que dá pelo nome de Padre José da Felicidade Alves. E isto quando a laicização da sociedade procurada pelos mais lídimos liberais e republicanos limitou a interferência da igreja católica na sociedade civil, mas reforçou a militância dos crentes. O Padre Felicidade (como era conhecido também nos meios antifascistas não católicos) foi um cidadão de enorme coragem, tendo sido uma das figuras centrais da oposição dos católicos à ditadura, sobretudo a partir de meados da década de 60. Nas suas homilias abordava temas incómodos ao regime do Estado Novo e às hierarquias eclesiásticas, tais como a guerra colonial, a perseguição política e problemas sociais. Envolveu-se militantemente nos combates contra a ditadura e a renovação da Igreja Católica, o que determinou a sua prisão e julgamento. Foi afastado das funções de pároco (o que atualmente não acontece com a conduta de alguns bispos em relação a alguns padres acusados de pedofilia, homossexualidade, e outras situações) pelo então cardeal-patriarca de Lisboa, Cardeal Cerejeira, e, mais tarde, tomou conhecimento da sua excomunhão.

Natural de Caldas da Rainha, nasceu em 1925, tendo sido ordenado sacerdote em 1948, destacando-se desde logo pela sua inteligência. Em 1956 foi nomeado pároco em Santa Maria de Belém, em Lisboa, onde se evidenciou pelo conteúdo das suas homilias. Foi no trabalho da paróquia que se foi dando conta de que o país real era muito diferente do que pensava e, a partir de 1967, as suas intervenções começaram a causar incómodo ao regime e à Igreja Católica.

Solidário com o grupo de católicos mais progressistas, o percurso de Felicidade Alves ficou definitivamente marcado após a comunicação que proferiu no Conselho Paroquial de Belém, em 19 de abril de 1968, na presença de muitas dezenas de pessoas.

Defendendo uma profunda renovação da Igreja e das suas estruturas, as ideias de Felicidade Alves desagradaram ao cardeal Cerejeira. Em consequência, foi-lhe movido um longo processo que determinou, em novembro de 1968, o afastamento das suas funções de pároco em Santa Maria de Belém, e, mais tarde, a suspensão das suas funções sacerdotais, terminando, em 1970, com a sua excomunhão.

Após o afastamento da paróquia de Belém, Felicidade Alves tornou-se o grande impulsionador, em conjunto com Nuno Teotónio Pereira e o padre Abílio Tavares Cardoso, da publicação dos Cadernos GEDOC, abordando criticamente questões ligadas à hierarquia católica e à guerra colonial. A publicação foi condenada pelo cardeal Cerejeira e considerada ilegal pela PIDE, sendo instaurado um processo aos seus responsáveis, de que resultará, em 19 de maio de 1970, a prisão de Felicidade Alves por “atividades contrárias à segurança do Estado”. Tendo sido julgado, foi absolvido.

À posição tomada perante a sua prisão, várias foram as pessoas que se apressaram a recolher assinaturas pela sua libertação, pelo país fora, e, na Covilhã, assinalam-se 24 assinaturas, entre as quais as do Prof. José Corceiro Mendes, Padre Fernando Brito dos Santos, Carlos Manuel Alçada Batista, Isilda Maria Monteiro Pinto Sousa Dória, Albino Boaventura Pereira, Dr. Manuel Antunes Ferreira, Jerónimo dos Santos, Augusto Lopes Teixeira, Engº. Luís Filipe Mesquita Nunes, Maria Humberta Pinto Roque, Maria da Ascensão Dias Rebelo, Engº. Alberto Alçada Rosa, José Geraldes Correia, e o Padre Dr. José Almeida Geraldes.

Em 10 de junho de 1994, Felicidade Alves foi agraciado com a Comenda da Ordem da Liberdade pelo então Presidente da República, Mário Soares. Veio a falecer no dia 14 de dezembro de 1998, com 73 anos.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 15-02-2023)

2 de fevereiro de 2023

OS NOIVOS SUSANA E SAMUEL E O SEU CASAMENTO EM CANÁ DA GALILEIA

 Nem sempre se conseguem encontrar todas as fontes para satisfazer a curiosidade dos interessados pela história, incluindo a sacra.

No livro “A Vida de Jesus”, com comentários do Papa Francisco, escrito por Andrea Tornielli, uma edição de Publicações Dom Quixote, encontram-se algumas interessantes descrições não encontradas noutras publicações. O autor “fá-lo unindo numa narração única os textos dos quatro Evangelhos – os testemunhos dos amigos de Jesus, dos apóstolos, das testemunhas oculares que O seguiram durante três anos ao longo dos caminhos da Galileia e da Judeia – e alterna-os com uma tentativa pessoal de reconstruir com a imaginação, e com a ajuda dos mais autorizados estudos históricos, tudo aquilo que os evangelistas não escreveram”.

Consta-se que Jesus rezava sozinho no Seu pequeno quarto, na casa de Nazaré, a mesma em que vivera desde que era criança e em que agora depois da morte de José, Seu pai adotivo, ficara sozinho com Sua mãe. O momento chegara enfim e aquela espada que lhe trespassaria o coração, segundo a profecia de Simeão, começava lentamente a mexer-se. A última noite antes da partida ficaram à mesa juntos mais tempo do que era costume. Jesus acabara de construir uma carroça robusta e explicou-lhe o que deveria dizer ao comitente que na manhã seguinte viria buscá-la. Iniciaria o Seu caminho enquanto Nazaré estava ainda envolvida na escuridão.

Levantou-se de noite e encontrou preparado para Ele um alforge com comida e água. Pegando nele entre as mãos, Jesus sorriu e sussurrou: “Mãe...” Pensou também no que O esperava, naquela viagem que mudaria tudo, no início da Sua vida pública. Na obscuridade, reconheceu as vozes dos amigos com quem se poria a caminho, com destino a Betânia sobre o Jordão.

Jesus passara então quarenta dias e quarenta noites no deserto, jejuando e rezando. Agora estava pronto para voltar a descer para o vale, em direção ao Jordão, fazendo em sentido contrário o caminho que O conduziria ao lugar onde João batizava.

Chegou ao rio por volta do meio-dia. Havia ainda um vaivém de gente que pedia o Batismo e que ouvia as pregações de João, Seu primo. Tudo começara. João Batista estava para acabar nas garras do tetrarca Herodes, que iria metê-lo na prisão e depois matá-lo decapitando-o, por um capricho de Herodias, a mulher do irmão. O mais jovem dos discípulos gravou na mente a hora em que alcançou o lugar onde Jesus estava acampado, com outros nazarenos. A hora décima (as quatro da tarde). Tinham andado durante uma hora atrás d’Ele, seguindo-O à distância.

Simão era mais baixo do que o irmão André. Também ele de físico robusto. Haviam nascido os dois em Betsaida, mas partilhavam o trabalho na pequena cooperativa de pesca ao longo da costa que conduz a Cafarnaum, também nas margens do mar da Galileia, onde ambos viviam com as respetivas famílias. Simão tinha um feitio generoso e impetuoso. Era um humilde judeu praticante, que frequentava regularmente a sinagoga. Sabia ocupar-se dos seus e tirar partido das oportunidades de Cafarnaum, encruzilhada de trocas e comércios, que podia oferecer. Como pescador era considerado o melhor. Sabia perscrutar as nuvens e, ouvindo o vento, era capaz de predizer se haveria uma tempestade. Sabia vender o peixe e o seu barco era um dos maiores da cidade. Quando o irmão André lhe disse que encontrara o Messias, Simão não hesitara. Partira com ele para chegar ao acampamento onde se encontrava Jesus.

No dia seguinte, partiram com Jesus para regressar à Galileia e pararam em Betsaida. Aqui, o Nazareno encontrou Filipe, um jovem homem magro e alto, amigo de infância dos dois irmãos com os quais viajara até àquele momento.

Estavam sentados a almoçar em casa de Filipe, saboreando juntos o bom peixe grelhado e temperado com ervas aromáticas, quando bateu à porta ofegante Judas Tadeu, um primo de Jesus do lado de José, que daquela família herdara também a força física. Trazia uma mensagem de Maria para o seu Filho. “Está à Tua espera, e dos Teus amigos, amanhã em Caná para o casamento de Susana, que ambos conheceis”. A boda era em Caná da Galileia, perto de Nazaré e de Tiberíadas, o país de Natanael Bartolomeu. Jesus abraçou o primo que se unira ao grupo dos primeiros seguidores e fê-lo acomodar-se à mesa partilhando metade da comida que tinha do Seu prato. Disse: “Qualquer desejo de minha mãe é meu desejo. Iremos lá”. Assim acabaram de almoçar depressa para se prepararem e porem a caminho já no princípio da tarde, levando consigo a melhor túnica que tinham para participar no casamento.

Chegaram a tempo para a festa, depois de pararem para comer e dormir algumas horas em casa de amigos ao longo do caminho. Maria já estava em Caná há alguns dias para ajudar a noiva. A casa do noivo, Samuel, encontrava-se na periferia da cidade. A sala principal, no rés do chão, estava decorada com tecidos coloridos, flores, ramos verdes. Sobre a mesa comprida ao centro, as mulheres tinham começado desde a madrugada a acumular doces de mel e pão acabado de desenformar. Na parte de trás da casa, assava-se a carne. A festa duraria vários dias. Um amigo do noivo, designado “mestre de mesa”, vigiava os preparativos. Encostados a uma parede da sala, ao pé da mesa de serviço onde se encontravam os molhos, estavam preparados seis jarros de água para a purificação ritual.

Entretanto, a menos de dois quilómetros de distância, a noiva ajudada pelas amigas colocava as joias de família e quando ficou pronta, toda arranjada, veio acompanhada de um cortejo de sua casa até à do seu noivo. Saía assim para sempre da sua família de origem para formar uma nova família. Maria seguia Susana juntamente com outras mulheres, recordando o seu casamento trinta anos antes. Nessa altura, tudo fora mais sóbrio, e nela, enquanto percorria o breve percurso até à casa de José, a alegria misturava-se às perguntas sobre aquele ser que já levava no ventre depois do anúncio do anjo. O cortejo nupcial avançava e a cidade inteira saiu à rua para ver passar a noiva, acompanhada com os cantos, aclamações e bênçãos. O Nazareno e os amigos estavam à espera da sua chegada em casa do noivo. Em seguida, a festa começou. Jesus estava sentado à mesa do lado de Sua mãe, que O revia pela primeira vez depois de quase dois meses. Tinham muito para conversar, mas não falaram apenas entre eles, participando ambos com boa disposição na alegria da festa. Maria estava radiante ao lado do Filho.

O banquete durou horas. Alternavam-se momentos sentados à mesa e pausas durante as quais se dançava. Em todos os momentos da festa, Jesus estava à vontade. Estava com a Sua mãe, com os Seus primeiros discípulos e participava na grande alegria dos Seus amigos. Mas depois aconteceu uma coisa.

Tendo faltado vinho, a Mãe de Jesus disse-lhe: “Não têm vinho”.

A comida era abundante, mas por um erro do “mestre de mesa” improvisado, cuja profissão era a de peleiro, e não a de organizador de banquetes nupciais, não havia vinho suficiente. Acabara-se. Como seria possível continuar o banquete? Maria, com o olhar atencioso, seguia também os movimentos dos criados e das cozinheiras, pelo que foi a primeira a aperceber-se de que havia um problema.

Jesus voltou-se para ela e respondeu: “Que importa a mim e a ti, mulher? Ainda não chegou a minha hora!”.

Não houve mais palavras, apenas olhares. O olhar da mãe não se afastou do olhar do Filho. Não mais baixou os olhos. Olhou para Ele como uma mãe quando pede ao filho para fazer alguma coisa, certa de que ele lhe obedecerá.

Estavam ali seis talhas de água de pedra para purificação dos judeus. Jesus disse aos servos: Enchei as talhas de água, e disse-lhes ainda: Pegai nelas agora e levai-as ao chefe de mesa. Quando o chefe de mesa provou a água tornada vinho – ele não sabia de onde era, mas sabiam os servos –, o chefe de mesa chamou o noivo e disse-lhe: “Todos põem primeiro vinho bom e, quando estão embriagados, o inferior. Tu guardaste o vinho bom até agora!”

Tudo aconteceu em poucos minutos, sem que os convidados se apercebessem.

A festa continuou abençoada pelo vinho refinado e abundante. Quando o banquete do casamento acabou, Jesus desceu de Caná a Cafarnaum por alguns dias.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 01-02-2023)




18 de janeiro de 2023

REFLEXÕES PARA O NOVO ANO



 

Para 2023 perfilam-se os desejos de saúde, felicidade e paz e, no âmbito de todos os sonhos, o bom para as nossas vidas, para que as ambições de cada um possam ser concretizadas.

É também o tempo de se fazerem retrospetivas do que se passou no ano findo. Entre o celebrar sucessos e o analisar os desaires.

O ano de 2022 foi marcado pela inesperada invasão da Ucrânia pela Rússia, “juntando um novo ‘cisne negro’ (segundo Paulo Vaz, do Vida Económica), a um outro que ainda não desapareceu, o qual acabou por ser secundarizado, a pandemia”. Ou seja, uma crise depois de uma outra crise. Também a reeleição de Xi Jinping para a liderança da China não surpreendeu, até porque foi uma trama há muito preparada que iria dar lugar ao endurecimento do regime cada vez mais controlado pelo Partido Comunista Chinês. Este ditador não hesitou em usar a “política de Covid zero” para tolher a liberdade dos seus cidadãos, esmagando qualquer resistência ou contestação que pudesse surgir.

Noutros quadrantes geográficos e políticos, há que realçar o desaparecimento da Rainha Isabel II, que marca o fim de uma era. Também a eleição de Lula da Silva, que vai governar o Brasil dividido. Os falecimentos do “Rei” Pelé e do Papa emérito Bento XVI, este no último dia do ano.

Destaco em Portugal, os 50 anos da Vigília pela Paz, na Capela do Rato, em Lisboa, onde aconteceu o sobressalto, nos dias 30 e 31 de dezembro de 1972, com a ditadura a não esconder o seu incómodo. A Capela do Rato foi o momento decisivo de desafeto de setores que estavam no meio da ponte na crítica ao regime, gente que já tinha entre os seus familiares ou amigos mortos na guerra colonial. Foram presos os Padres Janela e Armando Garcia que ali iam celebrar o culto. Era capelão e responsável pela capela o fundanense, do Souto da Casa, Padre Alberto Neto. Encontrando-se doente com uma pneumonia, não pôde celebrar a missa. Fez no entanto saber que, embora não tivesse conhecimento da iniciativa, não se opunha a ela. Este sacerdote acabaria por ser assassinado em 6 de julho de 1987, à beira da EN5, em Águas de Moura, perto de Setúbal, no meio do mato, cujo autor do crime nunca foi capturado ou sequer identificado.

António Costa voltou a ser reeleito Primeiro-Ministro. O seu governo foi afetado por casos e escândalos sucessivos, com demissões no seu governo que atingiram o número recorde de uma dúzia até ao momento em que escrevo esta crónica.

Neste contexto de tantas demissões e novas nomeações faz-me recordar quando, no verão de 1975, encontrando-me de férias em São Pedro de Muel, ter lido no então recém-fundado (e já extinto) Jornal Novo, por Artur Portela Filho (falecido aos 83 anos, em Abrantes, em 10 de novembro de 2020, vítima de pneumonia e covid 19), o mesmo narrar, duma forma humorística, como surgiam então os governos em catadupa. Eram tantas as respetivas nomeações e demissões de ministros e secretários de Estado. Simulou os ministérios no último andar de um prédio de muitos pisos, onde começavam a trabalhar os novos governantes. Os seus tempos de duração de funções era o decorrido do términos dos seus trabalhos e o regresso ao mesmo local, no dia seguinte, onde iam deparar-se em encontrar já outros nos seus lugares. Foi de facto o período pós 25 de Abril, que teve seis governos provisórios até ao 1º governo constitucional, em 23 de julho de 1976.

Verifica-se uma oposição que reclama, reclama, mas também não apresenta alternativas. É inconcebível.

Também o Presidente da República poderia ser mais incisivo junto da maioria absoluta dos socialistas, para que casos como os que lamentavelmente surgiram em redor da TAP, não viessem a ridicularizar a governação, como o aberrante caso de Alexandra Reis, ex-Secretária de Estado do Tesouro. Onde está a necessária fiscalização política ao Governo? Isto tem sido sobejamente debatido e ainda vai durar mais algum tempo. Razão teve João Miguel Tavares, com o título dado a um seu artigo no Público, sobre este famigerado acontecimento – “O caso Alexandra Reis: isto é gozar com quem trabalha”.

E, para terminar, porquanto muito ainda haveria para dizer sobre o ficar em apuros ou o viver à barba longa, não esquecer que a triste campanha da seleção de futebol no Campeonato do Mundo no Qatar pode ser oferecida como uma metáfora do país: matéria-prima de boa qualidade, talento desaproveitado e liderança sem projeto ou ambição, jogando sempre na retranca, condicionada por personalidades com um ego e ambição pessoal superior ao coletivo.

Temos de olhar em frente para este novo ano, pois a única coisa que podemos esperar é a continuidade da incerteza que vivemos e que, com tempo, se pode tornar ainda mais inquietante, o que não desejamos. Há que ter fé, e “Falar a verdade aos Portugueses” como referiu perentoriamente o falecido Henrique Medina Carreira, que foi Ministro das Finanças no I Governo Constitucional.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 18-01-2023)

 

 

 

 

 

 

 

17 de janeiro de 2023

O SIGNIFICADO DO NOME DOS DIAS DA SEMANA NA LINGUA PORTUGUESA



 Os nomes dos dias da semana na língua portuguesa são muito diferentes dos outros idiomas.

“Segunda-feira” é como se diz em português, o que já todos sabemos, mas em inglês é Monday, e em espanhol Lunes, ambas significando “dia da Lua”. A responsabilidade pelo nome adotado no nosso país é do antigo bispo de Braga, São Martinho de Dume, que além de mudar o nome dos dias da semana também queria mudar o nome dos planetas.

Sendo para nós muito pouco originais, para os restantes países ocidentais os nomes dos dias da semana são uma referência aos deuses patronos de cada dia. Nas línguas latinas, estes dias derivam dos deuses romanos referentes aos astros conhecidos da época.

No original temos: Solis dies, o dia do Sol (daí “Sunday”). Reconheceu-se que a semana deveria começar com um dia de descanso, de culto aos deuses, e ao maior astro, o Sol, para serem abençoados pelos dias que se seguiriam; o segundo dia da semana, Lunae dies, o dia da Lua. Tratava-se do segundo astro mais importante para o culto romano, e, assim, o segundo dia da semana era dedicado à lua, e a sua influência no plantio e nas marés. Martis dies, dia de Marte, é o terceiro dia da semana. É o deus da guerra e dos exercícios físicos e desportivos. O quarto dia da semana é Mercurii dies, dia de Mercúrio, sendo o dia dedicado ao patrono dos comerciantes e viajantes. O quinto dia da semana é Jovies dies, o dia de Júpiter. O “deus pai”, Júpiter era o criador da natureza, das chuvas, das colheitas, portanto este dia era dedicado à natureza e seu criador. O sexto dia é Veneris dies, o dia de Vénus. O astro mais brilhante do céu era também o símbolo do ouro, e por isso dedicado a Vénus, pois era neste dia que os soldados romanos recebiam os seus pagamentos, em ouro. O último dia da semana é Saturni dies, o dia de Saturno, que era o deus do tempo, ou seja, septi mana – sete manhãs, sendo um dia dedicado à reflexão, descanso e às ceias com a família.

Com a influência da igreja católica no império romano, após o Concílio de Nicéia, no século IV, o sétimo dia da semana passou a ser dedicado ao Shabbatt judeu, o dia em que Deus descansou da sua criação; e o primeiro dia da semana passou a ser dedicado ao próprio Senhor Jesus, para se combater o culto do Senhor do Sol, tornando-se assim, o dia do Senhor, o Dies Dominica.

Essa primeira modificação só influenciou a Europa latina. Na Europa germânica os nomes dos dias dedicados a Saturno e ao sol permaneceram, como aliás podemos ver no inglês: Saturday e Sunday.

Foi São Martinho de Dume, bispo de Braga e conhecido por apóstolo dos suevos, que, dirigindo o Primeiro Concílio de Braga, pelos anos de 561 a 563, seguindo uma orientação de São Cesário, bispo de Arles, veio a modificar completamente os nomes dos dias da semana. Note-se que os concílios de Braga foram concílios regionais e só abrangiam as decisões da Igreja dentro do seu território de influência, que era precisamente a geografia do que veio mais tarde a ser Portugal.

É por esta razão que somente na região do que veio depois a ser Portugal se seguiu a tradição bracarense dos nomes dos dias da semana modificados pela Igreja. No resto da Europa católica essa orientação não foi seguida pelos outros episcopados.

São Martinho, combatendo o paganismo romano nas nomenclaturas conhecidas, substituiu os antigos nomes romanos por dias que deviam ser dedicados a festas litúrgicas. Assim, foi decidido que a partir deste Concílio de Braga, naquela região, os dias deveriam ser denominados como: Dominica dies, Feria Secunda, Feria Tertia, Feria Quarta, Ferias Quinta, Feria Sexta, Sabbatum. No latim, Feria tinha o sentido de Festa (neste caso, festa litúrgica, de onde veio o nome Feriado).

Com o passar dos anos, e com o desenvolvimento da língua portuguesa, a palavra Feria foi substituída pela palavra Feira, porque Feira era o dia do mercado. Assim, os nomes dos dias da semana em português tiveram sua atual modificação: Domingo, Segunda-feira, Terça-feira, Quarta-feira, Quinta Feira, Sexta-feira e Sábado. A Terça-feira não foi nomeada como Terceira-feira porque seguiu a pronúncia latina do seu original – Tertia.

Quando Portugal se tornou um Estado unificado, a tradição já passava de meio século, tradição esta repassada aos países que Portugal colonizou, como é o caso do Brasil.

Segundo o autor donde extraímos esta informação, regista como conclusão que, apesar de São Martinho ter sido um Doutor da Igreja de importância fundamental para a união das regiões que formaram Portugal, infelizmente deixou como legado também um significado medíocre para os dias da semana, na quinta língua mais falada do mundo.

Desejo os maiores votos de um Santo Natal e um próspero Ano Novo para os prezados Leitores, Diretor e todos os Obreiros, e suas Famílias, deste Quinzenário.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 15-01-2023)

 

16 de dezembro de 2022

FIGURAS MEDIÁTICAS DOS PROGRAMAS TELEVISIVOS








 


Neste final do ano da graça de 2022, trago aos prezados Leitores do quinzenário “O Olhanense”, e não só, figuras que foram e continuam a ser mediáticas, ao longo do ano que agora finda, prazerosas para uns, contestadas por outros. 

Algumas delas têm proximidades das suas origens nas Beiras. Esta teimosia de me alongar demasiado reverte-se no prazer que dedico às páginas desta prestigiosa publicação, ao longo de um quarto de século. Por isso as minhas desculpas para todos quantos se sentirem lesados com a minha pertinácia, sem olvidar o precioso espaço que ocupo neste Jornal.

Poderia ter escolhido outro tema, mas não era a mesma coisa. Assim, vamos ao assunto em título:

Ricardo Artur Araújo Pereira: - Nasceu em Lisboa em 28 de abril de 1974, é um humorista, jornalista e comentador político. O seu percurso escolar e académico foi inteiramente realizado em instituições ligadas à Igreja Católica – fez o ensino básico e secundário em colégios de freiras vicentinas e padres franciscanos e jesuítas. Licenciou-se em Comunicação Social e Cultural, na Universidade Católica Portuguesa. Antes do jornalismo, já revelava o seu gosto pela escrita e, particularmente, pela escrita para humor. No final do ano 1990 foi descoberto por Nuno Artur Silva e chamado a colaborar com este na Produções Fictícias, de onde saíram os textos para programas de Herman José. Por volta de 2003, depois das primeiras aparições na televisão, designadamente no programa de humor stand-up comedy, Levanta-te e ri, na SIC, Ricardo Araújo Pereira começa a fazer, junto de Zé Diogo Quintela, Tiago Dores e Miguel Góis, várias rubricas no programa de Fernando Alvim e Nuno Markl, O Perfeito Anormal, na SIC Radical. Seria a partir dessa experiência que davam arranque para o projeto Gato Fedorento, na SIC Radical e na RTP1. Também na RTP1 apresentou Diz Que É Uma Espécie de Magazine em 2007. Escreveu semanalmente no jornal A Bola e atualmente na revista Visão. Na TSF, depois na TVI24 e atualmente na SIC, integra o painel de debate Governo Sombra, apresentado por Carlos Vaz Marques e os comentadores Pedro Mexia e João Miguel Tavares.

Catarina Cardoso Garcia da Fonseca Furtado: - Nasceu em Lisboa em 25 de agosto de 1972, é apresentadora de televisão e atriz. Como apresentadora, já trabalhou no canal SIC e na RTP. Ao longo da sua carreira tem abraçado diversos projetos como atriz. Desde 2000 exerce a função de Embaixadora de Boa Vontade do Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA). É fundadora e Presidente da Associação Corações com Coroa. É filha do conhecido jornalista Joaquim Furtado (Joaquim da Silva Furtado), natural da Beira Baixa (Penamacor), que foi diretor de programação da RTP na década de 1990. No Rádio Clube, onde Joaquim Furtado regressou ao fim de três anos, lá se encontrava na madrugada do golpe de 25 de Abril de 1974. Com a ocupação da estação pelos militares do Movimento das Forças Armadas, seria a Joaquim Furtado que caberia a leitura do primeiro comunicado oficial do movimento. Casado com Maria Helena Cardoso Garcia da Fonseca, natural da Beira Alta, Souto, freguesia do concelho do Sabugal.

Catarina Furtado, a convite de Maria Elisa, mudou-se para SIC, em 1992. Em 1993 foi convidada para apresentar “Chuva de Estrelas”, programa que se tornou um fenómeno de popularidade, tornando a SIC em líder de audiências pela primeira vez. Passou a ser um dos rostos mais populares da televisão portuguesa e ganhou o epíteto de “namoradinha de Portugal”. Efetuou outros programas, assim como apresentou algumas galas daquela estação como os “Globos de Ouro”. Voltou à RTP em 2003, para apresentar o programa “Operação Triunfo”. Além de variados programas, em 2014 foi a apresentadora do programa “The Voice Portugal”, tendo em 2015 e 2016, com Vasco Palmeirim, apresentado novas edições deste programa. Em 2018 apresenta o Festival Eurovisão da Canção juntamente com Daniela Ruah, Filomena Cautela e Sílvia Alberto.

Em 2010 foi convidada pelo Secretário-Geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, para participar como Oradora na Cimeira do Milénio em Nova Iorque enquanto “Campeã dos ODM” e na Abertura Oficial do Ano Internacional da Juventude. Desde essa altura tem sido oradora convidada na Apresentação Pública do Relatório sobre o Estado da População Mundial, na Assembleia da República e no Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Do namoro com o músico e compositor João Gil, natural da Covilhã, nasceram algumas letras de canções. Essa colaboração ficou registada em vários álbuns e projetos do músico, como a Ala dos Namorados e Filarmónica Gil. Foi também editado o álbum Perdidamente – As Melhores do João Gil.

Cristina Maria Jorge Ferreira: - Nasceu na Malveira em 9 de setembro de 1977, é apresentadora de televisão e empresária.

Como acabou por não ficar na RTP, entrou no curso de apresentação lecionado por Emídio Rangel na Universidade Independente. Nos 6 meses de formação teve Manuel Luís Goucha e Júlia Pinheiro como seus professores. No final do curso fez castings e foi selecionada para o Extra, o programa diário do Big Brother, onde fez os seus primeiros diretos na televisão. Com menos de um ano de experiência na TV, foi convidada por Júlia Pinheiro e José Eduardo Moniz para apresentar, em conjunto com Manuel Luís Goucha, o programa Você na TV, talk show matinal transmitido pela TVI desde 2004 e que entre 2007 e 2019 foi o programa líder de audiências no seu horário de emissão. Em 2006 participou como concorrente no programa Canta Por Mim. Em 2009 teve uma pequena participação na novela da TVI Sentimentos, fazendo de si própria. Apresentou em 2011, também em conjunto com Manuel Luís Goucha, a 4ª edição do talent show Uma Canção para Ti. Em abril de 2011 foi considerada a melhor apresentadora da televisão do ano, na II Gala Troféus TV7Dias, sucedendo assim a Júlia Pinheiro que tinha sido a vencedora da 1.ª edição. Em 2012 voltou a apresentar um programa de horário nobre a um domingo, o talent show A Tua Cara Não Me é Estranha, ao lado de Manuel Luís Goucha, o mesmo acontecendo em 2013. Neste ano estreou-se a solo num programa de entretenimento ao domingo e em horário nobre na TVI, intitulado de Dança com as Estrelas, que decorreu durante o verão. De 1 de dezembro de 2013 até 2018, Cristina Ferreira foi Diretora de Conteúdos Não Informativos na TVI, em acumulação com o seu trabalho de apresentadora. A partir de março de 2017, passou a apresentar o concurso Apanha Se Puderes, que chegou a destronar o programa que era líder de audiências naquele horário (19h), O Preço Certo (RTP1). A 22 de agosto de 2018 é anunciada a mudança de Cristina Ferreira da TVI para a SIC. Após 16 anos na estação de Queluz de Baixo, a apresentadora mudou-se para a rival SIC, onde assume o comando do novo programa das manhãs e o cargo de Consultora Executiva da Direção-Geral de Entretenimento. Esta terá sido a contratação televisiva mais mediática da década de 2010 em Portugal. Assim, em agosto de 2018 Cristina Ferreira deixa de apresentar o “Você na TVI”. A 7 de janeiro de 2019, estreia na SIC “O Programa Cristina”, o primeiro programa apresentado por si desde a sua saída da TVI. Contudo, até dia 22 de fevereiro de 2019 ainda foram emitidos episódios de “Apanha Se Puderes” apresentados por Cristina Ferreira, criando assim uma situação pouco comum na TV portuguesa (em que uma personalidade televisiva de destaque aparece regularmente em dois canais rivais de TV, neste caso a SIC e a TVI). Tal situação prende-se com o facto de terem sido gravados vários episódios do concurso antes do anúncio da saída de Cristina Ferreira da TVI. Em 2019 também apresentou a Gala de premiação dos Globos de Ouro de 2019 no qual foi vencedora de uma das categorias a de “Personalidade do ano” na área de entretenimento. Durante a década de 2010, Cristina Ferreira passou a ser uma das figuras públicas mais mediáticas de Portugal. À data de 2017, Cristina Ferreira já era a profissional de apresentação de televisão mais bem paga em Portugal, mantendo esse mesmo estatuto aquando da mudança para a SIC, onde passou a receber um salário ainda maior.

A 17 de julho de 2020, Cristina Ferreira abandonou a SIC para voltar à TVI de onde saiu em agosto de 2018. Regressa à estação de Queluz de Baixo como diretora de entretenimento e ficção e como acionista da Média Capital, a detentora da TVI. A SIC pediu a Cristina Ferreira 20.202.501,21 euros pelo incumprimento do contrato de forma unilateral que vigorava até dezembro de 2022. No verão de 2021, Cristina Ferreira pôs fim à relação com António Casinhas. No mesmo ano foi considerada pelo Correio da Manhã através de uma votação feita pelo público, a mulher mais sexy de Portugal.






Filomena José Dias Fernandes Cautela: - Nasceu em Lisboa em 16 de dezembro de 1984, é atriz e apresentadora. Tem no currículo a participação em diversas telenovelas portuguesas e ainda a apresentação de programas de relevo na MTV Portugal e nos canais da RTP. Em 2003 participou na série infantil/juvenil “Morangos com Açúcar”. Participou no cinema e na televisão. Em 2005, vence o projeto MTV VJ Casting, lançado em junho com o objetivo de escolher o novo apresentador da MTV Portugal.

Após várias participações em programas e festivais, apresenta novamente o talk-show da RTP1, 5 Para a Meia-Noite, de 2015 a 2020. Em 2020 apresenta na RTP1 o concurso “Quem Quer Ser Milionário? – Alta Pressão”. Em 2021, apresenta na RTP1, um novo talk-show semanal com o nome “Programa Cautelar”. Este programa de 45 minutos junta informação com humor, bem como cada um dos seus episódios, abordando, com factos e análise, um tema importante do momento.

Sílvia Alberto: - Nasceu em Lisboa em 18 de maio de 1981. É apresentadora. Iniciou-se em televisão em 2000 como apresentadora do programa Clube Disney na RTP1, seguindo-se Clube da Europa na RTP2, em 2001. Simultaneamente apresenta o Programa da Manhã, na Mix FM, até 2002. Nesse ano, muda de estação e torna-se repórter da SIC. Popularizou-se como apresentadora do concurso musical Ídolos. Ainda na SIC, apresentou as edições de 2004 e 2005 dos Globos de Ouro com Herman José e Fátima Lopes. Regressou à RTP1 em 2006 com Dança Comigo. Entre outros programas de entretenimento esteve na apresentação de formatos como Operação Triunfo (2007/2008 e 2010/2011), Masterchef (2011), entre outros, bem como apresentou várias edições do Festival RTP da Canção. Desde 2015 até final de 2018 conduziu as entrevistas da Sociedade Recreativa. Apresentou o programa de talentos Got Talent Portugal na RTP 1.

Marco Paulo: - Nome artístico de João Simão da Silva, nasceu no Alentejo, em Mourão, no dia 21 de janeiro de 1945. É um dos mais populares cantores portugueses. Recebeu até hoje 140 galardões de platina, ouro e prata – e até um de diamante – por vender mais de um milhão de cópias, um recorde em Portugal. Marco é um dos músicos recordistas de vendas em Portugal, com vendas superiores a 5 milhões de cópias. Ficou em terceiro lugar no Festival da Canção da Figueira da Foz. Em 1967 participa no Festival RTP da Canção com “Sou Tão Feliz”. Foi depois para a Madeira cantar com Madalena Iglésias. A partir daí passou a profissional. É chamado para a tropa tendo ido para a Guiné-Bissau onde foi escriturário. No ano de 1972 fica em quarto lugar no concurso Rei da Rádio desse ano. O single “Eu Tenho Dois Amores”, editado em 1980 torna-se no seu maior êxito. Em 1981 é editado o single “Mais e Mais Amor” que atinge um disco de prata e dois de ouro, com 130 mil discos vendido. Em 1982 regressa ao Festival RTP da Canção com “Se Este Amor Acabar é o Fim do Mundo”. Disco de Ouro para o single “Anita”. Também é editada a coletânea “O Disco de Ouro” com os maiores êxitos dos primeiros 15 anos de carreira. O álbum vende mais de 140 mil exemplares (4 discos de ouro). Participou no Festival OIT com “Rosa Morena”. Na continuidade do seu sucesso, em 1990 é editado o álbum “De Todo o Coração”, com o grande sucesso desse disco nas canções “Um Amor Em Cada Porto”, “Ai Ai Meu Amor” e “O Amor é tudo”. Com o single “Taras e Manias”, de 1991, obtém cinco discos de platina (160 mil discos vendidos). É ainda lançada a coletânea “Maravilhoso Coração” com 25 sucessos. Em janeiro de 1993 é editado o álbum “Amor Total” que se torna em mais um campeão de vendas. A partir de abril de 1994 apresenta na RTP o programa de televisão “Eu Tenho Dois Amores” com grande sucesso. Desde 5 de junho de 2021 o artista tem um programa semanal na SIC, “Alô Marco Paulo”, apresentado por si e por Ana Marques.

Tânia Ribas Dias de Oliveira: - Nasceu em 18 de junho de 1976, em Lisboa. É apresentadora de televisão. É casada pela Igreja desde 25 de julho de 2009, sendo católica praticante. O seu primeiro trabalho televisivo foi como repórter de exteriores da Sport TV, no ano 2000. Estagiou na RTP em 2002-2003, canal onde se encontra atualmente no programa Bom Dia Portugal, como repórter de exteriores na Volta a Portugal em Bicicleta, na Operação Triunfo, no programa Praça da Alegria. Além de outros, desde o dia 17 de setembro de 2007 até janeiro de 2013 apresentou o programa “Portugal no Coração” (talk show da tarde), com João Baião, e depois sozinha. Apresentou também Fatura da Sorte, e desde 22 de setembro de 2014, “Agora Nós”, também na RTP. Em 2018 apresentou juntamente com Sónia Araújo, a segunda semifinal do Festival da RTP da Canção 2018. O novo programa das tardes da RTP, talk show “A Nossa Tarde”, apresentado por Tânia Ribas de Oliveira que se estreou em 22 de abril de 2019, substituiu o “Agora Nós”. Foi pensado a partir da essência da apresentadora. Tem, por isso, um lado mais emocional, com base em histórias com final feliz, e um lado muito divertido, ou não fosse a nossa Tânia uma pessoa que gosta de dar umas belas e sonoras gargalhadas.

Mental Samurai: - É um concurso de televisão apresentado por Pedro Teixeira e transmitido nas noites de sábado na TVI. Até final da 3ª. temporada, apenas 1 concorrente arrecadou o primeiro lugar, tendo respondido acertadamente a 20 perguntas e vencido os 50.000 euros. O episódio ocorreu na 2.ª temporada, no dia 18 de janeiro de 2020, no momento em que Beatriz Albergaria se tornou a primeira Mental Samurai de Portugal.

Circulatura do Quadrado: - É um programa de televisão, emitido na TVI24 por volta das 23 horas de quinta-feira, que anteriormente passava na SIC Notícias com o nome de Quadratura do Círculo, que se dedica a comentar questões de caráter político, social e económico. O programa esteve no ar na SIC entre 2004 e janeiro de 2019, e na TVI24 desde 2019. Desde 2020, o elenco é o historiador José Pacheco Pereira, Ana Catarina Mendes e o advogado e gestor de empresas António Lobo Xavier, com a moderação do jornalista Carlos Andrade. Na sua última versão antes de mudar de canal fazia parte do elenco o gestor de empresas e ex-ministro Jorge Coelho, entretanto falecido. O programa é retomado na T&VI24, a 7 de fevereiro de 2019, mas comn outro nome, “Circulatura do Quadrado”. Entretanto, ainda antes de falecer, o comentador Jorge Coelho foi substituído por Ana Catarina Mendes.

Geometria Variável – Antena 1 e RTP Play: - É um programa matinal, diário, da jornalista Maria Flor Pedroso, com Nuno Severiano Teixeira e Carlos Coelho. Geometria variável, um nome que encerra um conceito: pode ter convidados e emissões especiais.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 01-12-2022 e 15-12-2022)


14 de dezembro de 2022

QUANDO O MENINO SUCEDEU AO SOL

 


Aproximamo-nos da Quadra Natalícia, este ano, da tarde do sábado de 24 de dezembro até à tarde de quinta-feira, 5 de janeiro de 2023, nesta sucessão de datas comemorativas que acontecem no final do ano e início do ano gregoriano. Engloba quatro cerimónias importantes na maioria das igrejas cristãs, sendo os eventos que ocorrem nesta época, o dia de Natal (25 de dezembro), Ano Novo (31 de dezembro), Paz (1º de janeiro), a Epifania do Senhor/Dias de Reis (6 de janeiro). O Natal, a Paz e a Epifania do Senhor são duma forma geral cerimónias cristãs, sendo que as restantes são de comemoração coletiva, quer nos crentes católicos quer noutros não crentes. É assim que a junção destas quatro cerimónias dão origem À Quadra Festiva ou Quadra Natalícia.

Poderia vir falar de variadíssimos temas de que o ano 2022 foi rico, mas direcionei-me para a vertente natalícia, tão desejoso do encontro de perspetivas de paz, de que este período é favorável.

Conforme refere Helena Neves num artigo no Público, de há dúzia e meia de anos, antes do Menino foi o Sol, esta estrela que é fonte e símbolo de vida que, ciclicamente desaparecia cada vez mais cedo no horizonte e tardava cada vez mais a nascer. O mistério das noites tornadas mais longas inquietava os povos como ameaça à vida. Havia sempre a esperança de que o sol crescendo de novo, sucedesse a esse tempo de trevas teimosas que os romanos denominariam de solstício – do latim sol e de stare, parar – de inverno, mas também o temor de que assim não fosse. Daí os rituais de todos os lugares, desde o período do Neolítico. Apelando a um outro ciclo de luz, porque luz é, por excelência, o símbolo da vida. Em todas as manifestações cósmicas, a luz sucede às trevas. Por isso, o parto é designado como “dar á luz” a vida que vem do interior, sombrio e húmido, do corpo da mulher. Em contraste, as trevas, associadas à morte, representam um universo misterioso, temível. É na noite que despertam os nossos medos. É neste contexto de medos e de esperança, de ultrapassagem da terra nua e sombria para a terra prometida, que nasce o Natal. Enraizando-se nos cultos mais remotos, depois da Igreja instituída ter compreendido que somente integrando o simbolismo inerente aos rituais do solstício de inverno, transformando-o num sentido cristão, poderia neutralizar toda a energia pagã e utilizá-la na expansão do cristianismo favorecida por condições políticas e sociais específicas: a conversão do imperador Constantino, consagrando-o como religião do Estado, o desenvolvimento do comércio entre os povos e o proselitismo dos missionários, essencialmente a partir dos séculos XV e XVI, com as descobertas e o início da colonização europeia.

Tornada impulso estratégico neste processo, a celebração do Natal como nascimento de Cristo ultrapassaria as fronteiras originárias pagãs e religiosas, impondo-se como uma festa universal.

A míngua dos dias levava os povos a temerem as noites do solstício de inverno e a ascenderem fogueiras e madeiros, chamas vivas de luz, apelando à aurora. E, finalmente, quando passava a noite mais longa e a manhã nascia, os povos saudavam o sol. Para os judeus, era a Festa das Luzes, e os fenícios chamavam-lhe o “Despertar de Hércules”. Em Roma celebravam-se as saturnais, festas em honra de Saturno, deus das sementeiras. As festas celebravam-se de 19 de dezembro a 1 de janeiro assinalando 12 dias e 14 noites, intervalados entre ciclos opostos da lua. A pressão dos cultos pagãos e de correntes no seio da Igreja levaria, no entanto, a Igreja a assumir como celebração o nascimento de Cristo no mundo. Mas como datá-lo? Os textos evangélicos que o referem, os Evangelhos de S. Lucas e de S. Mateus são omissos. S. Lucas fala dos pastores e dos seus rebanhos vindo saudar o Menino (S. Lucas,II.8), o que obviamente se enquadra na primavera. E, efetivamente, foram fixados o dia 25 de março, equinócio da primavera e até o dia 20 de maio. O que não resolvia a continuidade dos rituais ancestrais. Daí que a Igreja se aproprie de datas de interiorizado simbolismo no imaginário popular, escolhendo-as para assinalar o nascimento de Jesus, que passa a ser festejado a partir do século IV, depois de o cristianismo ser declarado religião oficial do Estado pelo convertido imperador Constantino. Todavia não se verificará unanimidade no universo cristão que se divide em duas datas. A Igreja do Oriente escolhe para nascimento e simultaneamente para adoração dos Reis Magos e batismo de Jesus, o 6 de janeiro, Dia da Epifania. A Igreja do Ocidente escolhe o 25 de dezembro, nascimento de Cristo, dia fixado definitivamente em 354 pelo calendário fitocaliano, e, a partir de 379, imposto por Roma a todo o Império. O Sol cede assim o lugar ao Menino. Santo Agostinho, admitindo, implicitamente, a origem pagã da data natalícia, exorta os cristãos a festejarem a 25 de dezembro não o Sol, mas aquele que criou o Sol.

Aproveito esta oportunidade para desejar ao Fórum Covilhã as maiores felicidades para a continuidade do seu sucesso editorial, após os seus onze anos de vida, celebração ocorrida em 29 de novembro.

Votos de um Feliz Natal para todos os prezados Leitores do Jornal Fórum Covilhã, Diretor e todos os seus Obreiros e Familiares.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 14-12-2022)