18 de março de 2024

JOÃO DE DEUS (1830-1896)

 


Dou hoje por findos alguns textos sobre a vida de vários dos nossos principais escritores, baseando-me na História da Literatura Portuguesa – Século XIX – XX.

Escrevo esta crónica no dia seguinte à realização das eleições legislativas para a composição da Assembleia da República. Chegará a altura em que o novo governo saído destes eleições fará o seu juramento da praxe, na sua tomada de posse: “juro, por minha honra, que cumprirei com lealdade as funções que me são confiadas”. Também eu o fiz, noutras ocasiões, mas por escrito, que era mais uma declaração que um juramento, na qualidade de funcionário duma Câmara Municipal, mas em tempos de ditadura (anos 60 do século XX), se é que queria emprego ou então levava um pontapé no rabo. Deduz-se que os investidos, sejam eles o cantoneiro, o diretor-geral ou o ministro são pessoas de bem. Todos optam por servir-se do Estado.  Ao longo da estrada, quando o pó começa a tirar a graxa aos sapatos, por vezes surgem os imponderáveis. Esperemos que os exemplos que pesaram agora nas decisões desta votação, contrariamente ao esperado, possam avivar a memória do que é honrar a Pátria e ser um exemplo clarificador da inexistência de contradições, oportunismos e mal-entendidos.  

Mas vamos então falar de João de Deus. Nasceu em S. Bartolomeu de Messines, no Algarve. Primeiros estudos na sua terra natal, em 1849, para depois se matricular na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Por ali andou dez anos a tirar um curso que normalmente se tira em cinco. Formou-se em 1849, ficando em Coimbra mais três anos. Foi nessa altura que se relacionou com moços que depressa viriam a ser glórias das letras nacionais: Antero, Eça de Queirós, Teófilo Braga, Alberto Sampaio. De 1862 a 1864 entregou-se ao jornalismo em Beja. Passados quatro anos, foi eleito deputado pelo círculo de Silves. Entretanto, foi-se tornando popularíssimo e a sua poesia era considerada como um soluçar de alma da Nação. Em 8 de março de 1895, a mocidade académica de Lisboa envolveu-o numa carinhosa e significativa homenagem, que teve foros de consagração nacional. Morreu em 11 de janeiro de 1896.

João de Deus deixou-nos estas duas obras: Cartilha Maternal (1876), e Campo de Flores (1893).

João de Deus escreveu esta obrazinha – “Cartilha Maternal” – para as crianças aprenderam a ler. As Cortes declararam-na método nacional em 1888. Foi o livrinho acarinhado por muitas pessoas, entre as quais D. Carolina Micaelis; mas também alvo de ataques verrinosos, que, em prosa e verso, o autor pretendeu neutralizar.

Com a ajuda de Teófilo Braga, compilou João de Deus todas as suas poesias, em parte já publicadas, e reuniu-as juntamente com uma peçazinha de teatro numa obra a que deu o romântico título de Campo de Flores.

João de Deus só cantou o que sentia na alma como autenticamente seu. É natural que ficasse impressionado com leituras da Bíblia, de Dante e de Petrarca, de Camões e de Tomás António Gonzaga, até mesmo de Vítor Hugo. Mas estes poetas não exerceram no seu estro outro influxo que não fosse o tornar conscientes as preocupações do seu mundo íntimo, talvez pouco variado e pouco complicado, mas precioso e delicadíssimo: o amor, a religião, a afetividade e a concórdia.

Confessa o poeta que tinha pelo tema do amor uma inclinação quase doentia, que o amor era para ele uma espécie de ideia fixa. E ninguém como ele, depois de Camões, fez vibrar o encantamento do amor em melodias tão suaves e tão espirituais.

Todavia, o amor em João de Deus não é uma pura abstração. Quase todos os seus poemas eróticos se exprimem na segunda pessoa. Quer dizer que são diálogos com supostas amadas. Mas o poeta ignora o amor sensual; não desfere tons de carnalidade como José Anastácio da Cunha e Garrett. A mulher que canta é a mulher-anjo; e o amor de que ela é objeto é o amor-adoração.

A mulher surge na poesia de João de Deus retratada sobretudo através das qualidades morais: “graça aérea, pureza, ingenuidade, timidez, candura, quanto há de frágil e delicado”

João de Deus não se notabilizou pelo arrojo das imagens, como Herculano e Soares de Passos, por exemplo. A sua natural simplicidade satisfez-se com figuras vulgarmente poéticas. As metáforas que usa, se bem que delicadas, são muito repetidas. Carrega-as, porém, de expressividade, uma vez enfiando-as em ladainha, outras vezes colocando-lhes ainda por cima atributos.

Repare-se na enumeração anafórica das metáforas com que nos dá a ideia da fugacidade da vida – dia, ai, sombra, nuvem, sonho, fumo, flor, sopro, estrela cadente, pena caída:

A vida é o dia de hoje, /a vida é ai que mal soa, /a vida é sombra que foge, /

a vida é nuvem que voa;/a vida é sonho tão leve/que se desfaz como a neve/

e como o fumo se esvai:/a vida dura um momento, /mais leve que o pensamento, /

a vida leva-o o vento, /a vida é folha que cai! / A vida é flor na corrente, /

a vida é sopro suave, /a vida é estrela cadente, /voa mais leve que a ave. /

Nuvem que o vento nos ares, / onda que o vento nos mares/uma após outra lançou:

a vida, pena caída/ da asa de ave ferida, / de vale em vale impelida,

        a vida o vento a levou!  (A Vida)   

Se bem notámos, o dia é de hoje, o ai mal soa, a sombra foge, a nuvem voa, etc., o que torna a ideia de brevidade, inerente às imagens, de uma expressividade ímpar.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 15-03-2024)

 

 

 


13 de março de 2024

A EXCELÊNCIA DA AMIZADE NA MARCA DA PERENIDADE

 

Muitos dos meus sonhos se realizaram, no caminhar dos anos que vão remanescendo da minha vida. Alguns pularam e avançaram no tempo. Dou graças a Deus por isso. Com assustadora frequência, vou tendo notícias de antigos colegas e amigos, com quem partilhámos convívios, estudos, trabalhos e amizades, que vão partindo. Por isso, dos ventos e marés que também aconteceram nos nossos caminhos, não me interessa recordar as partes intempestivas, que pretendo sejam esgotadas no véu do esquecimento.

Foi no êxtase da minha vida profissional, em Lisboa, ano da graça de 2003, já com três décadas de profissão do mesmo âmbito, num tempo em que estávamos a passar com os meus companheiros de jornada as “passas do Algarve”, numa multinacional dum grupo suíço que já foi à vida, hiperbolicamente falando, e uns quantos oportunistas de má memória, que encontrámos uma Figura portuguesa desconhecida, mas, paradoxalmente, de relevo mundial, simpática, que nos vinha liderar sob a batuta duma multinacional americana.

Como os meus Colegas não avançavam expondo as preocupações do momento, sou eu próprio que assumo a responsabilidade de me dirigir a essa Figura incontornável, e de a ter interpelado sobre “as novas” para a novel empresa que se apresentava revestida de enorme fulgor. Encontrávamo-nos no salão nobre do hotel em Lisboa, de pé, apinhado de gentes da nossa gente – centenas de antigos Colegas do País, ávidos de saber algo do destino que nos cabia duma atividade dinâmica e altamente concorrencial. Daí que, o grande líder da multinacional que passaria a ser o CEO e Presidente da Liberty Seguros em Portugal – Dr. José António de Sousa, sentiu, na atitude por mim tomada, que vínhamos dum ceticismo latente da empresa anterior, e que, por isso, as promessas que faria naquele momento seriam de enorme responsabilidade. Passada a ocasião e formulada a promessa para a data anunciada, logo de vários pontos do País, nessa mesmíssima data, alguns Colegas me telefonaram para saberem se o cumprimento da palavra da dita pessoa, ainda   quase um desconhecido, se confirmara, visitando-me na Covilhã, e, desta forma, poderem ainda “tirar nabos da púcara”. Na confirmação daquele escrupuloso cumprimento, foi um volte-face nos descontentes. Considerou o Dr. José António de Sousa que aquele 13 de junho de 2003, na sua visita às instalações da Covilhã, então sob a minha responsabilidade, seria traduzido num ato histórico para a Seguradora em Portugal.

Ficou o compromisso verbal de todos os anos ser celebrado entre nós, e o grupo de trabalho direto, um almoço comemorativo neste dia e mês.

Então várias ações se desenvolveram em prol da Covilhã e da Região, sem esquecer o patrocínio das três empresas tecnológicas em 2008, na criação do programa CRIAR 08.

Conhecedor da minha veia na escrita, não deixou de colaborar no patrocínio de todas as minhas obras, com saliência para a História dos Bombeiros da Covilhã e História do Sporting da Covilhã, entre outras. Mas o seu desafio neste domínio foi solicitar-me para escrever a História dos Seguros em Portugal, a qual já consta de muitos autores consagrados. Foi um aturado trabalho, incutindo-lhe um cunho inédito, para além de lhe inserir a história desde a sua génese no mundo a.C e d.C., saindo um ensaio sob o título “O Documento Antigo – Uma outra forma de ver os Seguros”. Pouco depois, ainda viria a lume “Da Montanha ao Vale”.

Mas, afinal, quem é José António de Sousa, com quem convivo mais um grupo de entusiastas da profissão, geralmente ainda no ativo, no periódico “Almoço dos Amigos”?

Da Revista Executiva, de 3 de janeiro de 2023, onde colabora, extraio alguns dados onde se vê a parte humana e íntegra deste Homem fantástico.

O gestor que liderou várias multinacionais na área dos seguros homenageia as mulheres que mais marcaram (e marcam) a sua existência. “Fizeram de mim o que sou. Um homem agradecido, de bem com a vida, e profundamente feliz”, afirma.

José António de Sousa acumula 42 anos de experiência de gestão de topo e de liderança (Geschäftsführer, Country Manager, Regional Manager, CEO, Presidente) em 3 multinacionais seguradoras e resseguradoras (Gerling-Konzern, Zurich Financial Services, Liberty Mutual) de relevo mundial (Fortune 100 companies). Depois de 15 anos como presidente e CEO da Liberty Seguros em Portugal, hoje é consultor independente de empresas e colunista da Executiva.

“Falar sobre as mulheres da minha vida é falar sobre a essência própria profunda, e a coluna vertebral de sustentação da minha vida, desde a sua ‘fundação’ até aos dias de hoje. Sem elas não estaria a escrever estas linhas em homenagem às mulheres que marcaram e fizeram aquilo que, para o bem e para o mal, sou e represento neste mundo. Desde a minha mãe Fernanda, falecida aos 97 anos, de uma vida feliz, bem vivida, em que repartiu amor e sorrisos por onde passava. Depois a Conceição, a mulher que me enche as medidas há 47 anos, pela qual continuo apaixonado como no primeiro dia da nossa jornada em comum, a companheira de uma vida, que me apoiou e acompanhou com carinho, amor e dedicação enquanto eu fiz carreira internacional no setor segurador para três multinacionais de relevo e muito exigente. A Conceição deu-me duas filhas maravilhosas, a Cristina e a Inês. Impossível fazer distinção entre qualquer uma delas em termos de amor irrestrito, e de paixão. Agora que a vida corporativa é já uma memória remota, e em que procuro partilhar conhecimento e ser útil à sociedade de forma interventiva e construtiva, como Consultor Independente, Mentor e Colunista, a chegada da minha neta Sofia em outubro de 2022, filha da minha filha Cristina, que teve aos 40 anos de idade, abanou de forma telúrica os meus alicerces de vida atual. Era a peça que faltava para completar o puzzle da minha vida.

As mulheres da minha vida determinaram (e continuam a determinar) a minha vida, e fizeram de mim o que sou. Um homem agradecido, de bem com a vida, e profundamente feliz”

Nos tempos que correm, que belíssima lição de vida deste Homem que é um génio, com o qual partilho o orgulho de sermos indelevelmente amigos e termos contribuído com coisas boas para a sociedade.

Contamos, certamente, encontrarmo-nos no próximo convívio de amigos, no reforço dessa amizade que há muito está no nosso âmago.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 13-03-2024)


8 de março de 2024

HOJE VAMOS FALAR DE JÚLIO DINIS

 


Neste terceiro mês do ano 2024, que agora se inicia, após o términus do ano bissexto, quis dar continuidade aos traços bibliográficos de alguns escritores portugueses de nomeada.

Assim, trago hoje para o Jornal O Olhanense:

JÚLIO DINIS(1839 – 1871)

Joaquim Guilherme Gomes Coelho era o seu nome. Júlio Dinis é pseudónimo. Passou quase toda a sua vida no Porto donde era natural. Ao mesmo tempo que fazia um curso brilhante na Escola Médica dessa cidade, entretinha-se a compor poesias e contos, que ia publicando n’A Grinalda e n’O Jornal do Comércio.

A mãe e dois dos seus irmãos morreram tuberculosos. Era um jovem médico. Sentiu também em si os sintomas desta terrível doença, e decidiu ir passar uma temporada de cura a Ovar, terra do seu pai, também médico. Foi aí que, pela primeira vez, Júlio Dinis pôde examinar o viver simples da gente provinciana. Concebeu então o plano d’As Pupilas do Senhor Reitor.

Voltou ao Porto, em 1865, publicou, entretanto, As Pupilas do Senhor Reitor (1867), Uma Família Inglesa (1868) e A Morgadinha dos Canaviais (1868).

Em 1869 fez uma cura de ares na Madeira. Experimentando algumas melhoras, retomou o trabalho na Escola Médica, mas em outubro do mesmo ano viu-se constrangido a regressar ao Funchal. Começou então a escrever Os Fidalgos da Casa Mourisca (1871), que não chegaria a ver em público. No ano anterior havia escrito Serões da Província (1870).

Cada vez pior, resolveu abandonar a ilha em maio de 1871 e veio para a Cidade da Virgem, onde faleceu, em 12 de setembro.

Os romances do infortunado médico supõem a política nacional assente numa certa estabilidade. Consideram arrumadas de vez na sombra de um passado longínquo as insurreições de descontentes ou de bandos armados e as revoluções contínuas das décadas de 1820 e 1840. É que, de facto, nos anos que vão de 1858 a 1870, dois partidos se revezavam pacificamente no poder: o regenerador e o progressista.

Nos romances de Júlio Dinis está patente ainda outra face da transformação económica de Portugal. Com a extinção dos direitos senhoriais e morgadios por Mouzinho da Silveira, muitos começaram a decair, enquanto os seus antigos feitores e caseiros, mercê de um trabalho duro e honrado, lhes iam comprando as terras. Foi o que aconteceu com Tomé da Póvoa, d’Os Fidalgos da Casa Mourisca.

Este nivelamento de fortunas deu automaticamente princípio a um nivelamento de classes, resultante de uniões matrimoniais entre fidalgos decadentes ou formados e plebeias ricas e bondosas e vice-versa. A Morgadinha casa com o Augusto, professor primário; Jorge, fidalgo da Casa Mourisca, une-se a Berta, filha de um antigo trabalhador do solar; a humilde pastora transforma-se em mulher do médico; a filha do guarda-livros desposa o filho do patrão.

Não se olvida também de assinalar a ascensão dos filhos do povo a lugares destacados na média burguesia. Lavradores ricos, como o José das Dornas d’As Pupilas do Senhor Reitor, enchem-se de esfusiante vaidade, quando um filho volta à aldeia formado em Medicina. Tomé da Póvoa tem legítimo orgulho da filha educada na cidade.

E no meio desta sociedade rural, em contínuo progresso, destacam-se o padre, o médico, o professor, individualidades que Júlio Dinis considera imprescindíveis pelo menos nos jantares das boas famílias da terra.

Pela Lei da Saúde, de 26 de novembro de 1845, foram proibidos em Portugal os enterramentos nas igrejas. O povo, porém, fez a princípio obstrução à aplicação da lei, visto não achar respeitosa a inumação dos mortos nos cemitérios.

N’A Morgadinha dos Canaviais, a propósito do enterro da pequena Ermelinda, podemos ver como os ânimos estavam exaltados por causa da quebra dessa tradição secular. Não fora a intervenção do velho e simpático cura e o cemitério ter-se-ia transformado num campo de batalha, após a invasão enfurecida dos frequentadores da taberna do Canada.

Sob outro aspeto muito diferente, é cómica e elucidativa uma conversa que o José das Dornas travou com o tasqueiro João da Esquina, a propósito da tese apresentada por Daniel na Universidade. Ali encontramos alusões ao transformismo e a outras “opiniões e teorias filosóficas mais ou menos em moda” no tempo do autor d’As Pupilas do Senhor Reitor. O diálogo entre os dois aldeões é de uma comicidade rara; mas com ele conseguiu Júlio Dinis dar ao romance um verniz de atualidade científica.

Se excetuarmos Uma Família Inglesa, que tem por ambiente a cidade do Porto, Júlio Dinis situou a ação das suas obras no meio rural de Entre Douro e Minho.

Porque melhor do que todos soube explorar o campo e os seus feitiços. Descreve com primor a paisagem e nela põe a vibrar toda a vida da aldeia, quer a vida de trabalho, quer a vida em família.

Mas há nisto um pouco de idealização. Júlio Dinis quis demonstrar que o campo é um manancial de saúde para o corpo e para o espírito.

Voltarei ao assunto com outros escritores.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 01-03-2024)


21 de fevereiro de 2024

UM TEMA PARA O MÊS DE FEVEREIRO

 

Não encontrei. Assoberbado com a arrumação do meu escritório, na base da eliminação de milhares de documentos que reputo já desnecessários, são dezenas de quilos de papel para o   Banco Alimentar. Aguardo também um novo PC já que não gosto de portátil. Esse encarrega-se de ser utilizado pela minha Mulher.

Felizmente que ainda vivo no tracinho com uma só data – a do nascimento. É trave-mestra onde a vida assenta, palco de alegrias e tristezas. Por isso, enquanto a outra data que se une ao tracinho não surgir, cá irei empenhar-me naquilo que eu mais gosto – a escrita.

Desta vez não desejo falar das reivindicações dos professores, dos médicos, das forças de segurança, dos agricultores, dos bombeiros, e de outros et ceteras. Muito embora me preocupe e revolte no sentido dos prós e dos contras. Nem mesmo das eleições antecipadas neste Portugal Continental e dos Arquipélagos dos Açores e da Madeira.  

Diz com profundidade José Paulo Fafe, in Tal & Qual de 8 de março de 2023: “Basta olhar para o plenário para perceber que o mesmo, salvo poucas e honrosas exceções, não passa de um ‘espelho’ de uma sociedade que insiste em nivelar-se por baixo, e premiar os que se dispõem a aceitar as regras de um jogo viciado, em busca de uns efémeros dois ou três minutos de fama.  Onde há 30 ou 40 anos tinha assento muito do melhor que existia na nossa sociedade. Hoje o Parlamento reúne o refugo e as sobras de um país que teima promover no seu seio não os melhores, mas apenas os que, à falta de outra coisa, encontram no exercício da política a sua ocupação principal, usando-a como trampolim e porta giratória para lugares que, de outra forma, não estariam ao seu alcance.”

Desbarata-se muito dinheiro neste Portugal de todos nós. Se há problemas com um Banco a caminho duma possível falência, logo se arranjam formas de encontrar o antídoto para o problema.  Se há despedimentos por incapacidades gestoras, ou chico-espertismo de indemnizações indevidas, abafa-se com apoios milionários. Descoberta a careca, surgem os problemas adicionais, com recursos tribunais, e por aí fora.

O depauperado povo português continua a não ser ouvido, ou só quando há eleições, para resolver a eliminação de fatores adversos ao que havia sido combinado, como o exemplo das SCUTS nas A23 e A25. E lá estou eu a entrar naquilo que acima prometi: não meter hoje o bedelho em determinados assuntos. Enfim, defeitos da peça.

Revolta-me o conhecimento que nos chega, quase no segredo dos deuses, dos milhões que António Costa doou às antigas Colónias, que brada aos céus. E até milhões para um museu de Angola, salvo erro. Bolas! Assim não! Esse dinheiro faz falta ao povo português.

Fica, para terminar numa parte humorística, um interessante acontecimento que o meu Amigo João Brás teve, indiretamente, com o seu vizinho de então, arquiteto José Guerra Tavares, na casa onde viviam perto do Campo das Festas (o João ainda lá vive).

Corria o ano de 1980. À porta do Senhor Arquiteto, certamente por ausência temporária do mesmo, alguém interessado nos seus serviços lhe deixou um galo, com as patas atadas, dentro dum saco de serapilheira, juntamente com outras coisas. Tudo bem, os vizinhos não se incomodaram com a encomenda que ficara ali durante a noite. Só que o galo, de madrugada, começou a cantar e não parava. Foi quando os vizinhos foram alertados para resolver a situação.

E, por hoje, bonda, como dizia a minha Avó, que ainda vinha da Pousadinha para pagar a décima nas Finanças da Covilhã. Até à próxima!

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 21-02-2024)


17 de fevereiro de 2024

ALGUMAS EXPRESSÕES SAÍDAS DA PUBLICIDADE



 

Existe um extenso rol de expressões que, quase sem darmos conta, usamos com frequência. Na sua generalidade são de longa data. Ainda hoje existe alguma publicidade que não perdeu a sua oportunidade. E ainda é atraente. Outras já não passam de memórias do que já desapareceu.

 Para muitos ficou-nos entranhada. Torna-se agradável a sua recordação.

Lá vai o tempo, para os mais velhos, nos anos 60, 70 e 80, em que a RTP (inicialmente não havia outros canais) tinha uma publicidade que procurava resistir aos ventos da concorrência.  

Recordo estas: “Pois, Pois, J. Pimenta, Lda”; “Tody, todo o mundo vai tomar”; “Palavras para quê? Trata-se de um artista português e usa Pasta Medicinal Couto”.  Tal como a Desgarrada do Fado do Peixe Congelado, da recém-nascida SAPP – Serviço de Abastecimento de Peixe ao País, anos 60. Não só na televisão como na rádio, a publicidade aos detergentes TIDE (responsável pelo “branco mais branco não há”) e ao OMO, este com a saída de “OMO lava mais branco”; ou, já nos anos 80, a dona de casa nas memórias da infância com os “Glutões do Presto”. Quem foi criança nesta altura provavelmente terá acreditado que existiam mesmo uns bonequinhos verdes que saiam da embalagem do detergente para dar conta das nódoas mais difíceis. “Acreditar nos glutões” passou a ser sinónimo da ingenuidade de acreditar em coisas pouco razoáveis.   Sem ter em atenção datas, recordo-me de, nos produtos, como as farinhas: “Depois de uma maleita, Farinha Amparo o endireita”.

Já o sabão Sonasol teve momentos interessantes, pois no meu tempo de estudante, na Escola Industrial, enquanto nos agrupávamos à porta da sala de aula aguardando a vinda do professor(a), um divertido colega, o falecido João José Silva Coelho, servia de maestro ao coro gritante que incutíamos naquela publicidade que dava nos anos 60, ao Sonasol, entre outras: “A Maria... não conseguia... da roupa o encardido tirar..., mas a Maria agora já sabia que havia o sabão Sonasol !!!” Era uma risada entre todos e os colegas de outras turmas, ao longo dos corredores, ouvirem cantar-nos com estas brincadeiras; e até os professores entravam na sala em risos, nessa altura já nós todos caladinhos... Alegria estudantil. Outros tempos... Entretanto, a marca deste detergente daria um anúncio em 1997 que terminava “O algodão não engana”. É que há anúncios que entram na memória coletiva e passam a fazer parte da cultura popular. O zeloso mordomo descobre toda a sujidade invisível a olho nu, através do infalível teste do algodão. A expressão é usada sobretudo quando queremos desmascarar aquilo que, à primeira vista, parecia muito limpinho.

Mas também as campanhas institucionais nos fizeram fixar um anúncio surgido em 1986 e que continuamos a repetir: “Se conduzir, não beba”.

E, das várias pesquisas, como as de Tiago Taveira, in Lifestyle/Nostalgia, do Observador, também nos podemos voltar para anúncios encomendados a pessoas da cultura, como os poetas. E aí temos a expressão “Há mar e mar, há ir e voltar”. Devemos esta frase a Alexandre O’Neill, elevada a provérbio, criada para uma campanha do Instituto de Socorros a Náufragos para prevenir os afogamentos nas praias portuguesas.

Já o anúncio que marcaria a entrada da Coca-Cola em Portugal foi encomendado à agência Hora, onde trabalhava Fernando Pessoa, nos finais dos anos 20. O poeta foi responsável pelo slogan “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”, mas a campanha não saiu do papel e a bebida foi proibida por intervenção do médico Dr.  Ricardo Jorge, diretor da Saúde de Lisboa. Havia um duplo motivo: se o produto continha coca, da qual se extraía a cocaína, não podia ser vendido ao público; se não tinha coca, então anunciá-lo com esse nome seria publicidade enganosa. A marca só começou a ser vendida em Portugal em 1977, mas a frase ficou para a história.

“Aquela máquina”. Podemos até já nem nos lembrar do que fazia o “Homem da Regisconta” mas certamente que nos repercute na memória a voz forte de Fernando Girão a cantar “Aquela máquina!”, num anúncio repetido entre 1974 e meados dos anos 80. E todos nós, seja em que tarefa for, gostamos de ser “aquela máquina”.

E, socorrendo-me ainda de Tiago Tavares, vem a propósito “O que é Nacional é bom”. Muito antes de Scolari nos encher as janelas e os carros de bandeiras portuguesas, já a secular marca de massas, farinhas, cereais e bolachas apelava ao nosso patriotismo. No léxico comum, o slogan extravasou o âmbito da marca nascida em 1849 e serve hoje para exaltar a qualidade de todo o tipo de produtos portugueses.

“Vá para fora cá dentro” – O slogan lançado pelo então Ministério do Comércio e Turismo em 1995, numa campanha que desafiava os portugueses a passear pelo seu país, tornou-se tão natural.

“Falta-te um bocadinho assim” – Esta    é uma expressão com gesto incorporado. Quando estamos quase a conseguir atingir um objetivo, mas ainda falta o quase, há sempre alguém que aproxima o indicador do polegar...

- Há uma linha que separa...” – Esta expressão é mais recente, embora a marca de telecomunicações já tenha entretanto mudado de nome. Andou na boca de todos no início da década de 2000 e até então o líder do PS, António José Seguro, comentava o slogan: “Há uma linha que separa a austeridade da imoralidade”, disse em 2012, em relação à proposta do Governo para descer a TSU.

- “Poder, podia, mas não era a mesma coisa” – Poucos anos antes, aquando da introdução da fibra na sua oferta de serviços, a Zon teve uma campanha com figuras públicas, cujo mote foi repetido vezes sem conta, substituindo o nome da marca por aquilo que se quisesse, como por exemplo: “Podia viver sem o Lifestyle do Observador? Poder, podia, mas não era a mesma coisa.”

Muitas, mas muitas mais expressões existem, como as do Gato Fedorento, inspirada num desabafo de um concorrente do Big Brother. Foi usada imensas vezes. Quase sempre para acusarem outros de falarem e não fazerem nada. Ricardo Araújo Pereira naquela expressão de “Eles falam, falam, falam e não dizem nada” fazia uma caricatura dos que desprezam a palavra.

Por último, deixo a publicidade já com muitos aninhos, que adoro, recordando-me dos muitos Natais: – “Apetecia-me tomar algo”. O pedido feito pela madame ao motorista Ambrósio entrou para a história da publicidade orelhuda em 1995, prestando-se a algumas conotações menos ortodoxas no imaginário popular das relações patroa-motorista.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 15-02-2023)

1 de fevereiro de 2024

QUANDO O FUTEBOL CHEGOU À BEIRA BAIXA

 


O distrito de Portalegre é um dos que faz parcialmente fronteira com o de Castelo Branco. Aquele distrito alentejano surge na vanguarda da implantação do futebol no nosso país. A sua   Associação de Futebol, conjuntamente com as de Lisboa e Porto, vieram dar origem à criação da União Portuguesa de Futebol, em 31-03-1914. Em 28-05-1926 daria lugar à atual designação de Federação Portuguesa de Futebol.

A Beira Baixa, onde se insere o distrito de Castelo Branco e o concelho da Covilhã, veria, um pouco mais tarde, o nascimento de vários clubes. Era a ansiedade de desenvolver o desporto que começava a abraçar multidões. Outras regiões já o praticavam. O seu alvorecer situou-se por aqui dentro das duas primeiras décadas do século XX. Após a realização de alguns jogos de exibição durante a década de 10, seria no início dos anos 20 que o futebol ganharia mais projeção na região. Motivou assim a criação dos primeiros clubes. Na maioria dos casos tiveram uma vida efémera. Faltavam estruturas e organização que garantissem a longevidade das coletividades. Com o decorrer dos anos 20, o “desporto-rei” afirmou-se definitivamente em toda a Beira Interior. Começou a sentir-se a necessidade de “internacionalizar” as partidas. A proximidade com Espanha assim o permitia.  Passaram assim a serem usuais as partidas amigáveis entre equipas da Beira e da Extremadura espanhola, em inícios dos anos 30. Por volta de 1935, o futebol na região beirã, em especial na Cova da Beira, beneficiou com a criação da Federação dos Clubes Desportivos da Covilhã e Tortosendo. Este órgão passou a regular as relações entre os clubes locais.  Criou-se um ambiente propício a visitas de equipas importantes de outras regiões. Nessa altura, a 22 de março de 1936 surgiria a Associação de Futebol de Castelo Branco. Organizaria então o primeiro campeonato regional logo na temporada seguinte. Foi uma prova em que o Sporting da Covilhã foi imbatível.  Iria vencer todas as onze edições. E seriam os serranos a primeira equipa beirã a militar na I Divisão Nacional. Estrearam-se na prova em 1948/49 graças à conquista da II Divisão em 1947/48. Evidencio apenas os Clubes que se mantiveram durante mais tempo, até aos dias de hoje, como o Sporting Clube da Covilhã. Foi fundado em 2 de junho de 1923, sendo a 8ª filial do Sporting Clube de Portugal. O Sport Benfica e Castelo Branco, fundado em 24 de março de 1924 é a 7ª filial do Benfica.  E o Sport Tortosendo e Benfica, fundado em 1 de janeiro de 1925, é a sua 4ª filial. No entanto reporta-se a 31 de janeiro de 1922 com a designação de Tortosendo Sport Clube, dispensando-me de referenciar nomes anteriores que lhe deram a sua origem, assim como ao Sport Benfica e Castelo Branco.

Se verificarmos nas modernas estruturas que gerem o futebol, constatamos que o envolvimento das pessoas no fenómeno, abarca todas as condições e estratos sociais. Há até quem afirme, “ser um estádio de futebol, o único sítio onde se esbatem as diferenças entre as várias classes sociais.” É assim o lugar onde toda a gente é verdadeiramente igual, precisamente num jogo de futebol. A enorme amálgama que se cria entre uma multidão que assiste a um jogo, impossibilita distinguir entre um abastado industrial e um humilde operário. Na Beira Baixa isso também sempre aconteceu.

Cenas interessantes do fenómeno desportivo ocorridas em Castelo Branco. No dia 9 de junho de 1929, “O jogo entre a Associação Académica Albicastrense e o Sport Lisboa e Castelo Branco terminou trinta minutos depois de iniciado por ter rebentado a bola e não haver outra para a substituir”.

 Aquando da inauguração do Campo de Futebol do Vale do Romeiro, em Castelo Branco, em setembro de 1956, ocorreram dois jogos de futebol com atribuição de duas taças: uma seria resultante do encontro entre o Sacavenense e o Benfica de Castelo Branco, ganha pelos albicastrenses. A segunda taça caberia ao desfecho do encontro entre o Sporting da Covilhã e o Sport Lisboa e Benfica, ambos da I Divisão.

Nessa altura ainda não havia os meios rápidos de gravar o nome do vencedor na taça, pelo que os responsáveis do clube albicastrense, na presunção de que o vencedor seria à partida o Benfica, logo fizeram uma chapinha para colocar na taça do vencedor, com o nome do Benfica. Só que o vencedor foi o Sporting da Covilhã.  Ganhou o encontro por 1- 0, com o resultado feito no minuto inicial da primeira parte (in jornal “A Bola”, de 3-9-1956, golo marcado por Suarez).

Deu-se então uma demora prolongada na respetiva cerimónia, motivada por ter sido necessário que um técnico de ourivesaria da Cidade fizesse, a toda a pressa, uma nova “chapinha”, então com o nome do Sporting Clube da Covilhã. O sucedido foi motivo de imensa graça, não totalmente isenta de piadas. Segundo uma testemunha que assistiu a este jogo, ainda recentemente recordou a cena, com o muito tempo de espera para fazer entrega da taça.

Embora houvesse alguns ventos e marés nos jogos entre serramos e albicastrenses, fruto do entusiasmo de dérbis, os clubes e seus dirigentes sempre foram amigos, como beirões de gema.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “O Olhanense”, de 01-02-2024)

 


31 de janeiro de 2024

O QUARTO PODER

 



A minha primeira crónica deste ano de 2024, para o Jornal Fórum Covilhã.

Das resmas de temas que gravitam sobre a minha cabeça levam-me à opção para me direcionar no sentido dos vendavais do momento.

Por vezes perco-me um pouco pelas redes sociais, e, vai daí, partilho algo que o Facebook faz o favor de recordar de anos precedentes. Desta vez, tive um certo assombro. Numa foto datada de janeiro de 1968, lá estávamos os quatro covilhanenses que partimos da estação dos caminhos de ferro da Covilhã em direção a Tavira, para cumprimento do serviço militar obrigatório. No CISMI, na parada, a fotografia da praxe. Dos quatro dois já tinham falecido, ficámos dois. Qual não foi o meu espanto quando eu digo que “já só restamos os dois primeiros”, quando um amigo antigo colega me informa que já estava sozinho. O outro também já partira.

Decidi moderar a minha escrita para um esforço do poder de síntese, o que nem sempre é possível.

Vivi a minha infância onde o meio era de iliteracia, fora da família mais chegada. Valeu-nos meu Pai que nos preparava nos primeiros estudos e na antiga Biblioteca Municipal onde trabalhou durante muitos anos.

Foi aqui, num mundo de livros nas estantes que quase chegavam ao teto da sala de leitura, mesas compridas, cadeiras pesadas e suportes de madeira para os livros, que se enraizou a minha paixão pela leitura. Mas não só. Seriam também os muitos jornais que diariamente ali chegavam, vindos pelo correio, portanto, com atraso de um dia. Eles eram o Diário de Notícias, Diário Popular, Diário de Lisboa, e, do Norte, só me recordo de lá poder ler O Comércio do Porto. O primeiro e o último eram autênticos lençóis de papel.

Alguns dos que também tinham leitura apelativa, como O Século, Primeiro de Janeiro ou Jornal de Notícias, e ainda todos os desportivos como A Bola ou o Record tinham que os leitores interessados os adquirir nas bancas, cafés ou livrarias, já que que quiosques não havia, sendo o primeiro colocado na então placa do Pelourinho para o Leal.

A única revista, muito cobiçada, de saudosa memória, era então a Flama. Mas havia outros jornais, afetos ao regime ditatorial de então, como o Diário da Manhã, ou de raiz adversa, como o República. E, noutras vertentes, o jornal A Voz e o Novidades.

Os semanários da nossa região, muito do interesse dos leitores covilhanenses, eram então Notícias da Covilhã e o Jornal do Fundão, chegando ainda a existir o Beira Baixa. De vários pontos do País, incluindo dos distritos de Castelo Branco, Guarda, Coimbra e Setúbal, chegavam muitos jornais regionais e eu até gostava de ler transversalmente o Diário do Alentejo. Depois não faltavam, com elevado atraso, os jornais oriundos das então Províncias Ultramarinas, que seriam as colónias, como o Diário de Luanda, A Província de Angola, e de outros recantos coloniais, envolvidos em cintas com a beleza dos selos temáticos.

Foi através dos jornais, muito antes das televisões terem a possibilidade de serem adquiridas para os nossos domicílios (caríssimas, só se viam nos cafés, nas coletividades e nos salões paroquiais) que se tinha conhecimento dos temores da invasão da India Portuguesa e dos terrores com as guerras na Guiné, Angola e Moçambique, onde a censura abafava muito da realidade e só revelava o que convinha ao regime salazarista.

E todos os acontecimentos mundiais se repercutiam nas páginas dos jornais.

Com a democracia, o jornalismo tornou-se o quarto poder porque pode exercer determinada influência sobre a sociedade. Chamamos-lhe este termo porque tem como referência os Três Poderes do Estado Democrático que regem a sociedade (Legislativo, Executivo e Judiciário). A influência da grande mídia pode alterar as decisões sociais, a opinião pública e as notícias que chegam à população.

Assistimos hoje a um drama com os profissionais do JN, DN, O Jogo, TSF, entre outros títulos da Global Média Group, jornais históricos e uma rádio que foi, durante tantos anos, uma referência na informação. Os seus salários estão em atraso e com o risco de fecharem por gestão danosa.

Esperemos qua ainda neste início do ano bons ventos possam soprar para as bandas deste mundo do jornalismo.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 31-01-2024)

 

19 de janeiro de 2024

LEMBRAR CAMILO E EÇA DE QUEIRÓS - II

 


EÇA DE QUEIRÓS (1845 – 1900)

José Maria Eça de Queirós nasceu na Póvoa de Varzim em 25 de novembro de 1845. Veio ao mundo em circunstâncias morais irregulares: “filho natural de José Maria de Almeida de Teixeira de Queiroz e de May incógnita” (lê-se no assento do seu batismo). O pai do escritor era, ao tempo, delegado do Procurador Régio em Ponte de Lima; a “mãe incógnita” era D. Carolina Augusta, filha do coronel José António Pereira d’Eça, na altura já falecido. Casaram em Viana do Castelo, na igreja do convento de Santo António, em 1849. O pequeno José Maria, criado até esta em Vila do Conde pela madrinha, é levado então para casa dos avós paternos, em Aveiro. Só aos dez anos se juntou aos progenitores, passando a viver com eles no Porto.

Em 1861, matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Depois de concluída a formatura em 1866, fixou-se em Lisboa, onde o pai trabalhava. Repartiu então a atividade entre a advocacia e o jornalismo. Dirigiu, durante algum tempo, o Distrito de Évora e colaborou na Gazeta de Portugal com folhetins dominicais (mais tarde reunidos em volume com o título Prosas Bárbaras).

Tendo concorrido para a diplomacia, em 1870 fez um pequeno estágio de funcionário público na cidade do Lis. Aí arquitetou O Crime do Padre Amaro. Em 1873 é colocado no consulado português de Havana, em Cuba. Dois anos mais tarde, foi transferido para Inglaterra e lá começou a escrever O Primo Basílio e a pensar n’Os Maias, n’O Mandarim e n’A Relíquia.

Em 1886, casou com uma senhora fidalga, irmã do conde de Resende, D. Maria Emília de Castro. Em 1888, foi tomar conta do Consulado de Paris.

Morreu em França em 1900.

Todas as comparações pecam por inexatas. Não deve, pois, tomar-se ao pé da letra aquilo que vai seguir-se. Talvez possamos ver Eça de Queirós retratado sucessivamente em duas personagens célebres que criou: O João de Ega de Os Maias e o Fradique Mendes de A Correspondência.

Fradique Mendes corresponderá a Eça depois de abandonar o inquérito à sociedade portuguesa do seu tempo. Criou-o o romancista muito cedo: foi no “Cenáculo” ou no Café Martinho (1867). Mais tarde (1880), porém, encontrou-o em Paris transformado num sujeito impecável na indumentária, livre e audaz, irónico na conversação, dotado de um gosto subtil pelas coisas da arte, corredor infatigável do Mundo e que vem a Portugal matar saudades de vez em quando. E então passa o tempo a escrever aos amigos e conhecidos e à madrinha sobre as coisas de cá, descobrindo ora delícias bucólicas, poéticas, em rincões edénicos no meio do povo que estremece, ora anomalias de caráter técnico no que respeita ao progresso e à evolução da sociedade lusa.

Assim também Eça, abandonado o inquérito à vida portuguesa, se vai mostrando atraído pela nossa terra e suas gentes e deixa transparecer uns laivos de saudade pelo Portugal velho, ao mesmo tempo que confia no Portugal do futuro em África, condenando o esbracejar estéril dos políticos que, europeizando a Nação, lhe estavam a adulterar o espírito. É claro que temos em mente o autor de A Cidade e as Serras e de A Ilustre Casa de Ramires.

A partir de 1870, com a colaboração n’As Farpas e a conferência no Casino, encontramo-lo todo devotado às teses do Realismo. E até 1888 surge-nos ocupado com o inquérito à sociedade portuguesa, que procurava descarnar a fim de lhe pôr os podres à vista.

A partir desta data, o escritor assiste ao início do desfazer da feira naturista: contesta-se o positivismo no campo na filosofia; o realismo na pintura é substituído pelo impressionismo; a literatura insiste na pesquisa e análise da psicologia das personagens com o uso do monólogo interior. É o naturalismo que se desintegra e leva Eça de Queirós a abraçar uma outra conceção de vida. E ei-lo a recrear-se com Fradique Mendes, turista eivado de cosmopolitismo mas capaz de sentir os encantos da Pátria, com o Gonçalo A Ilustre Casa de Ramires que se regenera no Portugal de África, com o Jacinto que trocou o progresso de todas as técnicas pelas belezas naturais de uma serra lusitana.

No fim da sua carreira, impossibilitado de modificar a sociedade portuguesa, Eça voltou as costas aos reformadores realistas e blocou-se numa redoma de imaginação com as suas criações burguesas, os endinheirados Fradique, Gonçalo e Jacinto, fazendo saborear aos leitores o que de bom Portugal e o Mundo têm.

Eça colaborou toda a vida em jornais. Depois da sua morte, muitos dos trabalhos dados à luz da publicidade na imprensa periódica foram reunidos em volume e postos nas mãos do público, em conjunto.

Votos de um Feliz Natal e um Novo Ano que nos traga saúde e paz, para todos os Prezados Leitores e meus Amigos deste Quinzenário.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 15-01-2024)

20 de dezembro de 2023

MAIS UM NATAL E UM NOVO ANO

 

Para esta minha última crónica deste ano de 2023, para o Jornal Fórum Covilhã, vou reportar-me ao papel da MULHER, ao longo dos tempos bíblicos. Ela que tem sido tão massacrada com as atuais guerras. É uma síntese retirada dos Evangelistas e de outras figuras da Igreja. Referências, muitas das quais os católicos poderão ir ao encontro do reforço da memória, que, implicitamente, não deixam de se inserir no contexto da época natalícia.  Se na sua maioria são figuras de relevo pelo seu sofrimento, humildade, submissão, outras há que foram intoleráveis pelas suas repugnantes condutas.

Entretanto, a boa notícia, em contraponto com as guerras lamentavelmente surgidas, e tão faladas, foi a aprovação do acordo inédito para abandono dos combustíveis fósseis, acordo este de mais de 200 países na COP28.

Aproximamo-nos a passos largos de mais um final de ano. Muitos de nós iremos brindar à aurora de um novo início da Terra à volta do Sol. Esperança é sempre a palavra mais consistente, adequada, para um porvir que desconhecemos.

Não vou assim referir as terríveis guerras de que uma considerável parte do mundo diabolizado parece desejar, pois que ainda umas não terminaram já outras emergiram.

Tampouco direcionar-me para este depauperado país à beira-mar plantado e tão maltratado, onde não sabemos em quem confiar. Todos apregoam que as suas promessas são de autenticidade sacra. Onde estão aqueles que respiram o sentido da verdade e não o devaneio que se oculta no seu íntimo?

E o que se passa na nossa Cidade da Covilhã, onde os comerciantes da zona sul, junto ao Centro Comercial da Estação, por exemplo, se queixam do desprezo a que são votados, com o estacionamento de viaturas ali pago, e, igual desprezo pelas iluminações de Natal com que foram contemplados, com um zero de iluminação, dando azo a que só na zona do Pelourinho se pudesse gastar uma mão cheia do pilim que certamente irá fazer falta em vertentes da solidariedade. Veja-se o que acontece com os necessitados que rodeiam com insistência as Conferências de São Vicente de Paulo.

Mas vamos ao assunto a que inicialmente me referi. Em primeiríssimo lugar o nome de Maria, a jovem Virgem que veio a ser a Mãe de Jesus, e que em variadíssimas ocasiões vai surgir em muitos momentos. Ao invés, outra Maria, chamada Madalena, que, com Joana, mulher de Cusa, administrador de Herodes, Susana e muitas outras seguiam Jesus e os discípulos. - Job teve sete filhos e três filhas. À primeira deu o nome de Pomba, à segunda o de Cássia e à terceira Azeviche. Não havia na região mulheres mais belas do que as filhas de Job. - Marta recebeu Jesus em sua casa. Sua irmã era Maria. - Abraão teve dois filhos, um da escrava, Agar, e outro da mulher livre, Sara. - Morava na Babilónia um homem chamado Joaquim. Tinha desposado uma mulher chamada Susana, muito bela e temente ao Senhor. - O homem deu o nome à mulher de Eva, porque ela foi a mãe de todos os viventes. - Maria disse ao anjo: “Como será isto, se eu não conheço homem?” E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice. - Judá gerou, de Tamar, Farés e Zara; Salmon gerou, de Raab, Booz; Booz gerou, de Rute, Obed. David, da mulher de Urias, gerou Salomão. Matã gerou Jacob; Jacob gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado Cristo. - Ana tomou Samuel consigo. - A sogra de Simão Pedro, Serafina, estava de cama com febre. - Os noivos das Bodas de Caná da Galileia, eram Samuel e Susana.  - Evoco a lembrança da tua fé sincera, que também foi a da tua avó Lóide e da tua mãe Eunice. - Herodes mandara prender João e algemá-lo no cárcere, por causa de Herodíades, a esposa de seu irmão Filipe. - Uma mulher, cuja filha tinha um espírito impuro, ao ouvir falar d’Ele, veio prostrar-se a seus pés. A mulher era pagã, siro-fenícia. - Naqueles dias, a rainha Ester, tomada de angústia mortal, procurou refúgio no Senhor.  - Veio uma mulher da Samaria para tirar água. Respondeu-lhe a samaritana: “Como é que tu, sendo judeu, me pedes de beber, sendo eu samaritana?”. - “Em verdade vos digo que havia em Israel muitas viúvas no tempo do profeta Elias, quando o céu se fechou durante três anos e seis meses e houve uma grande fome em toda a Terra; contudo, Elias não foi enviado a nenhuma delas, mas a uma viúva de Sarepta.  - Estavam ali a observar de longe, muitas mulheres que tinham seguido Jesus desde a Galileia, para O servirem. Entre elas encontrava-se Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu Estavam junto à cruz de Jesus sua Mãe, a irmã de Sua Mãe, Maria, mulher de Cléofas e Maria Madalena. - Naqueles dias, o anjo do Senhor disse a Filipe: “Levanta-te e dirige-te para o sul, pelo caminho deserto que vai de Jerusalém para Gaza”. Quando ia a caminho, encontrou-se com um eunuco etíope, que era alto funcionário da Candace, rainha da Etiópia. - No sábado, saímos pelas portas da cidade, em direção à margem do rio, onde julgávamos que havia um lugar de oração. Sentámo-nos e começámos a falar às mulheres ali reunidas. Uma delas, chamada Lídia, escutava-nos com atenção; era negociante de púrpura, natural da cidade de Tiatira. - Encontrou lá um judeu chamado Áquila, natural do Ponto, recentemente chegado de Itália, com Priscila, sua mulher. - Sob o reinado do rei Saquerdão, voltei para minha casa e foi-me restituída a companhia de minha mulher Ana e de meu filho Tobias. - No mesmo dia sucedeu que Sara, filha de Raguel, que vivia em Ecbátana da Média, também foi insultada por uma serva de seu pai.  - Naqueles dias, Ana, mulher de Tobit, estava sentada, percorrendo com a vista o caminho por onde seu filho Tobias devia voltar. - Isaac tinha voltado do poço de Laai-Roi e habitava na região de Negueb. Uma vez que ele saíra a passear pelo campo à tardinha, ergueu os olhos e viu uns camelos que acabavam de chegar. Rebeca, sua prima, ergueu também os olhos e viu Isaac. Ele desceu do camelo e perguntou ao servo: “Quem é aquele homem que vem a correr pelo campo ao nosso encontro?” O servo respondeu: “É o meu Senhor”. Rebeca tomou o véu e cobriu-se. O servo contou a Isaac tudo o que tinha feito. Isaac introduziu Rebeca na tenda de Sara, sua mãe. Depois, casou-se com ela e amou-a. - Naqueles dias, Maria e Aarão censuraram Moisés por causa da mulher etíope que ele tomara como esposa. Maria cobriu-se de lepra, branca como a neve. Aarão voltou-se para ela e viu que estava leprosa. - No tempo em que os juízes governavam, houve uma fome no país. Certo homem deixou Belém de Judá e emigrou para os campos de Moab, com a mulher e dois filhos. Elimelec, marido de Noémi, faleceu e ela ficou só com os seus dois filhos. Ambos casaram com esposas moabitas, uma chamada Orpa e a outra Rute. Depois, Booz desposou Rute que se tornou sua mulher e ela deu à luz um filho. As mulheres disseram a Noémi: “Bendito seja o Senhor, que não te recusou hoje quem assegurasse a tua descendência. O seu nome seja celebrado em Israel! Será a consolação da tua alma e o amparo da tua velhice, pois nasceu da tua nora, que é tua amiga e vale mais para ti do que sete filhos”. Noémi tomou o menino ao colo e foi ela que o criou. As vizinhas deram nome ao menino, dizendo: “Nasceu um filho a Noémi”. E deram-lhe o nome de Obed, que viria a ser o pai de Jessé, pai de David.

Muitos outros nomes de MULHERES ficaram na história da Igreja, que não foi possível abarcar no espaço de um jornal, e outras ficaram conhecidas tão só pelo nome das suas terras, como a viúva de Naim.

Ficamos por aqui neste ano que agora vai terminar. Foi uma honra escrever neste prestigiado e dinâmico Semanário. Voltaremos em 2024, se Deus quiser. Vão assim os meus votos de um Santo Natal e um Novo Ano pleno de saúde e paz, para todos os Prezados Leitores, seus Familiares, Amigos e Obreiros do Jornal Fórum Covilhã e Rádio Fórum.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 20-12-2023)


19 de dezembro de 2023

LEMBRAR CAMILO E EÇA DE QUEIRÓS - I

 




Neste último número do ano 2023, despeço-me dos Prezados Leitores e Amigos, recordando dois consagrados autores portugueses, prometendo voltar no novo ano, se Deus o permitir.

CAMILO CASTELO BRANCO (1825 – 1890)

Infância triste e adolescência leviana. Vida turbulenta no Porto. Os últimos anos em S. Miguel de Ceide.

Mulher, Joaquina Pereira. Uma transmontana se cruzou com ele, Maria do Adro. Ao morrer a mulher, Joaquina Pereira, os seus olhos lúbricos foram cair numa rapariga órfã, Patrícia Emília. Raptou-a e foi preso. Prende-se de amores vários mas efémeros. Encontra num baile a que viria a ser a sua mulher, Ana Plácido, mas, entretanto, esposa do conselheiro Pinheiro Alves. Este instaurou um processo aos adúlteros. Os dois amantes andaram foragidos e vão para a cadeia. Aqui esteve Camilo um ano a escrever o “Amor de Perdição”.

A loucura do filho, a notícia da morte de pessoas íntimas, a velhice e a cegueira incurável leva-o a pôr termo à vida em 01-06-1890.

A obra literária de Camilo chegou até nós em centenas de volumes. Cultivou os mais diversos géneros: poesia, teatro, romance, o conto, crítica literária, investigação histórico-genealógica, polémica, jornalismo. Foi no romance, género que deveras se notabilizou.

Camilo Castelo Branco imaginou muito e observou pouco. Se Camilo tivesse sido um bom observador, talvez tivesse evitado o principal senão dos seus romances: a monotonia. Mas tal não acontece porque se limitou a imaginar.  Daí a deceção que sofremos aos vermos repetir-se, de novela em novela, quase sempre o mesmo esquema romanesco.

Nestes romances, há personagens que, à semelhança dos de Herculano, encarnam ao vivo o ódio ou o amor – o remorso ou a vingança.

Camilo despreza o ambiente geográfico, e põe em relevo apenas o elemento humano, ao contrário de outros. O que queria era fazer rir ou chorar e pouco se importava com a pintura da paisagem. Com as coisas que fazem chorar vai construir o romance passional; com as coisas que fazem rir, o romance satírico.

Camilo era plebeu. Por isso, jamais pôde encarar com simpatia a conceção de vida de certos tipos sociais cuja imensa vaidade, ânsia de gozo e colossal fortuna estavam na razão direta da estupidez e da falta de senso.

No romance camiliano, a posse da mulher anda geralmente ligada à ideia de crime, à ideia de pecado. Um enredo amoroso entre solteiros, a terminar na igreja como o trata Júlio Dinis, não interessa muito a Camilo. Aí não vislumbra dramatismo. Ele prefere homens sedutores e mulheres vítimas. Tem fatalmente de misturar o amor com a ilegalidade. Por isso, o que é a mulher no romance passional de Camilo?

Quando em 1875 Camilo começou a redigir as Novelas do Minho, já a escola realista se vinha impondo, há anos, ao público português. Nesse ano saiu O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós, escrito, no entanto, em 1871. E eram bastante lidas as obras de Flaubert, Balzac e Zola.

Camilo lera os romances de Júlio Dinis. Não se pode dizer que não tenha gostado. Mas aquela quase inocência edénica dos lavradores e aquela felicidade áurea da vida do campo, não, isso não o convencia. Ele conhecia demais o viver da aldeia e as manhas dos seus habitantes. Não era a brincar que dizia que a única coisa aproveitável nos lavradores minhotos era, aqui ou ali, A Grinalda, um naco de bom presunto; o resto, só estupidez e maldade.

A ação de grande parte dos romances de Camilo Castelo Branco não se passa no seu tempo. Ele mesmo tem o cuidado de o confessar em mais de uma obra. Quase todas as intrigas têm lugar nos anos que decorreram entre as invasões francesas e a promulgação das leis de Mouzinho da Silveira.

O dinheiro é em Camilo a mola que impulsiona a marcha da ação de muitos romances. Mas é interessante constatar que, raras vezes, ele é fruto de trabalho dignificante, como o de Tomé da Póvoa d’Os Fidalgos da Casa Mourisca de Júlio Dinis. Em geral, ou provém de heranças e de tesouros escondidos casualmente descobertos, ou da árvore das patacas do Brasil, ou da roubalheira (quase sempre no Ultramar).

Não se insurge contra os princípios basilares da sociedade, isso, não. Até os defende. Só ataca os homens, em cujas virtualidades nunca acreditou.

Camilo aprendeu a língua portuguesa ouvindo o povo e lendo os clássicos.

Camilo mostra-se parco nas descrições, sumário nas narrações e procura tirar o máximo efeito do dramatismo dialogal. Era avesso a descrições, como confessa em Vingança. A paisagem mal existe na sua novelística.

(In Jornal “O Olhanense”, de 15-12-2023)