21 de fevereiro de 2024

UM TEMA PARA O MÊS DE FEVEREIRO

 

Não encontrei. Assoberbado com a arrumação do meu escritório, na base da eliminação de milhares de documentos que reputo já desnecessários, são dezenas de quilos de papel para o   Banco Alimentar. Aguardo também um novo PC já que não gosto de portátil. Esse encarrega-se de ser utilizado pela minha Mulher.

Felizmente que ainda vivo no tracinho com uma só data – a do nascimento. É trave-mestra onde a vida assenta, palco de alegrias e tristezas. Por isso, enquanto a outra data que se une ao tracinho não surgir, cá irei empenhar-me naquilo que eu mais gosto – a escrita.

Desta vez não desejo falar das reivindicações dos professores, dos médicos, das forças de segurança, dos agricultores, dos bombeiros, e de outros et ceteras. Muito embora me preocupe e revolte no sentido dos prós e dos contras. Nem mesmo das eleições antecipadas neste Portugal Continental e dos Arquipélagos dos Açores e da Madeira.  

Diz com profundidade José Paulo Fafe, in Tal & Qual de 8 de março de 2023: “Basta olhar para o plenário para perceber que o mesmo, salvo poucas e honrosas exceções, não passa de um ‘espelho’ de uma sociedade que insiste em nivelar-se por baixo, e premiar os que se dispõem a aceitar as regras de um jogo viciado, em busca de uns efémeros dois ou três minutos de fama.  Onde há 30 ou 40 anos tinha assento muito do melhor que existia na nossa sociedade. Hoje o Parlamento reúne o refugo e as sobras de um país que teima promover no seu seio não os melhores, mas apenas os que, à falta de outra coisa, encontram no exercício da política a sua ocupação principal, usando-a como trampolim e porta giratória para lugares que, de outra forma, não estariam ao seu alcance.”

Desbarata-se muito dinheiro neste Portugal de todos nós. Se há problemas com um Banco a caminho duma possível falência, logo se arranjam formas de encontrar o antídoto para o problema.  Se há despedimentos por incapacidades gestoras, ou chico-espertismo de indemnizações indevidas, abafa-se com apoios milionários. Descoberta a careca, surgem os problemas adicionais, com recursos tribunais, e por aí fora.

O depauperado povo português continua a não ser ouvido, ou só quando há eleições, para resolver a eliminação de fatores adversos ao que havia sido combinado, como o exemplo das SCUTS nas A23 e A25. E lá estou eu a entrar naquilo que acima prometi: não meter hoje o bedelho em determinados assuntos. Enfim, defeitos da peça.

Revolta-me o conhecimento que nos chega, quase no segredo dos deuses, dos milhões que António Costa doou às antigas Colónias, que brada aos céus. E até milhões para um museu de Angola, salvo erro. Bolas! Assim não! Esse dinheiro faz falta ao povo português.

Fica, para terminar numa parte humorística, um interessante acontecimento que o meu Amigo João Brás teve, indiretamente, com o seu vizinho de então, arquiteto José Guerra Tavares, na casa onde viviam perto do Campo das Festas (o João ainda lá vive).

Corria o ano de 1980. À porta do Senhor Arquiteto, certamente por ausência temporária do mesmo, alguém interessado nos seus serviços lhe deixou um galo, com as patas atadas, dentro dum saco de serapilheira, juntamente com outras coisas. Tudo bem, os vizinhos não se incomodaram com a encomenda que ficara ali durante a noite. Só que o galo, de madrugada, começou a cantar e não parava. Foi quando os vizinhos foram alertados para resolver a situação.

E, por hoje, bonda, como dizia a minha Avó, que ainda vinha da Pousadinha para pagar a décima nas Finanças da Covilhã. Até à próxima!

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 21-02-2024)


17 de fevereiro de 2024

ALGUMAS EXPRESSÕES SAÍDAS DA PUBLICIDADE



 

Existe um extenso rol de expressões que, quase sem darmos conta, usamos com frequência. Na sua generalidade são de longa data. Ainda hoje existe alguma publicidade que não perdeu a sua oportunidade. E ainda é atraente. Outras já não passam de memórias do que já desapareceu.

 Para muitos ficou-nos entranhada. Torna-se agradável a sua recordação.

Lá vai o tempo, para os mais velhos, nos anos 60, 70 e 80, em que a RTP (inicialmente não havia outros canais) tinha uma publicidade que procurava resistir aos ventos da concorrência.  

Recordo estas: “Pois, Pois, J. Pimenta, Lda”; “Tody, todo o mundo vai tomar”; “Palavras para quê? Trata-se de um artista português e usa Pasta Medicinal Couto”.  Tal como a Desgarrada do Fado do Peixe Congelado, da recém-nascida SAPP – Serviço de Abastecimento de Peixe ao País, anos 60. Não só na televisão como na rádio, a publicidade aos detergentes TIDE (responsável pelo “branco mais branco não há”) e ao OMO, este com a saída de “OMO lava mais branco”; ou, já nos anos 80, a dona de casa nas memórias da infância com os “Glutões do Presto”. Quem foi criança nesta altura provavelmente terá acreditado que existiam mesmo uns bonequinhos verdes que saiam da embalagem do detergente para dar conta das nódoas mais difíceis. “Acreditar nos glutões” passou a ser sinónimo da ingenuidade de acreditar em coisas pouco razoáveis.   Sem ter em atenção datas, recordo-me de, nos produtos, como as farinhas: “Depois de uma maleita, Farinha Amparo o endireita”.

Já o sabão Sonasol teve momentos interessantes, pois no meu tempo de estudante, na Escola Industrial, enquanto nos agrupávamos à porta da sala de aula aguardando a vinda do professor(a), um divertido colega, o falecido João José Silva Coelho, servia de maestro ao coro gritante que incutíamos naquela publicidade que dava nos anos 60, ao Sonasol, entre outras: “A Maria... não conseguia... da roupa o encardido tirar..., mas a Maria agora já sabia que havia o sabão Sonasol !!!” Era uma risada entre todos e os colegas de outras turmas, ao longo dos corredores, ouvirem cantar-nos com estas brincadeiras; e até os professores entravam na sala em risos, nessa altura já nós todos caladinhos... Alegria estudantil. Outros tempos... Entretanto, a marca deste detergente daria um anúncio em 1997 que terminava “O algodão não engana”. É que há anúncios que entram na memória coletiva e passam a fazer parte da cultura popular. O zeloso mordomo descobre toda a sujidade invisível a olho nu, através do infalível teste do algodão. A expressão é usada sobretudo quando queremos desmascarar aquilo que, à primeira vista, parecia muito limpinho.

Mas também as campanhas institucionais nos fizeram fixar um anúncio surgido em 1986 e que continuamos a repetir: “Se conduzir, não beba”.

E, das várias pesquisas, como as de Tiago Taveira, in Lifestyle/Nostalgia, do Observador, também nos podemos voltar para anúncios encomendados a pessoas da cultura, como os poetas. E aí temos a expressão “Há mar e mar, há ir e voltar”. Devemos esta frase a Alexandre O’Neill, elevada a provérbio, criada para uma campanha do Instituto de Socorros a Náufragos para prevenir os afogamentos nas praias portuguesas.

Já o anúncio que marcaria a entrada da Coca-Cola em Portugal foi encomendado à agência Hora, onde trabalhava Fernando Pessoa, nos finais dos anos 20. O poeta foi responsável pelo slogan “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”, mas a campanha não saiu do papel e a bebida foi proibida por intervenção do médico Dr.  Ricardo Jorge, diretor da Saúde de Lisboa. Havia um duplo motivo: se o produto continha coca, da qual se extraía a cocaína, não podia ser vendido ao público; se não tinha coca, então anunciá-lo com esse nome seria publicidade enganosa. A marca só começou a ser vendida em Portugal em 1977, mas a frase ficou para a história.

“Aquela máquina”. Podemos até já nem nos lembrar do que fazia o “Homem da Regisconta” mas certamente que nos repercute na memória a voz forte de Fernando Girão a cantar “Aquela máquina!”, num anúncio repetido entre 1974 e meados dos anos 80. E todos nós, seja em que tarefa for, gostamos de ser “aquela máquina”.

E, socorrendo-me ainda de Tiago Tavares, vem a propósito “O que é Nacional é bom”. Muito antes de Scolari nos encher as janelas e os carros de bandeiras portuguesas, já a secular marca de massas, farinhas, cereais e bolachas apelava ao nosso patriotismo. No léxico comum, o slogan extravasou o âmbito da marca nascida em 1849 e serve hoje para exaltar a qualidade de todo o tipo de produtos portugueses.

“Vá para fora cá dentro” – O slogan lançado pelo então Ministério do Comércio e Turismo em 1995, numa campanha que desafiava os portugueses a passear pelo seu país, tornou-se tão natural.

“Falta-te um bocadinho assim” – Esta    é uma expressão com gesto incorporado. Quando estamos quase a conseguir atingir um objetivo, mas ainda falta o quase, há sempre alguém que aproxima o indicador do polegar...

- Há uma linha que separa...” – Esta expressão é mais recente, embora a marca de telecomunicações já tenha entretanto mudado de nome. Andou na boca de todos no início da década de 2000 e até então o líder do PS, António José Seguro, comentava o slogan: “Há uma linha que separa a austeridade da imoralidade”, disse em 2012, em relação à proposta do Governo para descer a TSU.

- “Poder, podia, mas não era a mesma coisa” – Poucos anos antes, aquando da introdução da fibra na sua oferta de serviços, a Zon teve uma campanha com figuras públicas, cujo mote foi repetido vezes sem conta, substituindo o nome da marca por aquilo que se quisesse, como por exemplo: “Podia viver sem o Lifestyle do Observador? Poder, podia, mas não era a mesma coisa.”

Muitas, mas muitas mais expressões existem, como as do Gato Fedorento, inspirada num desabafo de um concorrente do Big Brother. Foi usada imensas vezes. Quase sempre para acusarem outros de falarem e não fazerem nada. Ricardo Araújo Pereira naquela expressão de “Eles falam, falam, falam e não dizem nada” fazia uma caricatura dos que desprezam a palavra.

Por último, deixo a publicidade já com muitos aninhos, que adoro, recordando-me dos muitos Natais: – “Apetecia-me tomar algo”. O pedido feito pela madame ao motorista Ambrósio entrou para a história da publicidade orelhuda em 1995, prestando-se a algumas conotações menos ortodoxas no imaginário popular das relações patroa-motorista.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 15-02-2023)

1 de fevereiro de 2024

QUANDO O FUTEBOL CHEGOU À BEIRA BAIXA

 


O distrito de Portalegre é um dos que faz parcialmente fronteira com o de Castelo Branco. Aquele distrito alentejano surge na vanguarda da implantação do futebol no nosso país. A sua   Associação de Futebol, conjuntamente com as de Lisboa e Porto, vieram dar origem à criação da União Portuguesa de Futebol, em 31-03-1914. Em 28-05-1926 daria lugar à atual designação de Federação Portuguesa de Futebol.

A Beira Baixa, onde se insere o distrito de Castelo Branco e o concelho da Covilhã, veria, um pouco mais tarde, o nascimento de vários clubes. Era a ansiedade de desenvolver o desporto que começava a abraçar multidões. Outras regiões já o praticavam. O seu alvorecer situou-se por aqui dentro das duas primeiras décadas do século XX. Após a realização de alguns jogos de exibição durante a década de 10, seria no início dos anos 20 que o futebol ganharia mais projeção na região. Motivou assim a criação dos primeiros clubes. Na maioria dos casos tiveram uma vida efémera. Faltavam estruturas e organização que garantissem a longevidade das coletividades. Com o decorrer dos anos 20, o “desporto-rei” afirmou-se definitivamente em toda a Beira Interior. Começou a sentir-se a necessidade de “internacionalizar” as partidas. A proximidade com Espanha assim o permitia.  Passaram assim a serem usuais as partidas amigáveis entre equipas da Beira e da Extremadura espanhola, em inícios dos anos 30. Por volta de 1935, o futebol na região beirã, em especial na Cova da Beira, beneficiou com a criação da Federação dos Clubes Desportivos da Covilhã e Tortosendo. Este órgão passou a regular as relações entre os clubes locais.  Criou-se um ambiente propício a visitas de equipas importantes de outras regiões. Nessa altura, a 22 de março de 1936 surgiria a Associação de Futebol de Castelo Branco. Organizaria então o primeiro campeonato regional logo na temporada seguinte. Foi uma prova em que o Sporting da Covilhã foi imbatível.  Iria vencer todas as onze edições. E seriam os serranos a primeira equipa beirã a militar na I Divisão Nacional. Estrearam-se na prova em 1948/49 graças à conquista da II Divisão em 1947/48. Evidencio apenas os Clubes que se mantiveram durante mais tempo, até aos dias de hoje, como o Sporting Clube da Covilhã. Foi fundado em 2 de junho de 1923, sendo a 8ª filial do Sporting Clube de Portugal. O Sport Benfica e Castelo Branco, fundado em 24 de março de 1924 é a 7ª filial do Benfica.  E o Sport Tortosendo e Benfica, fundado em 1 de janeiro de 1925, é a sua 4ª filial. No entanto reporta-se a 31 de janeiro de 1922 com a designação de Tortosendo Sport Clube, dispensando-me de referenciar nomes anteriores que lhe deram a sua origem, assim como ao Sport Benfica e Castelo Branco.

Se verificarmos nas modernas estruturas que gerem o futebol, constatamos que o envolvimento das pessoas no fenómeno, abarca todas as condições e estratos sociais. Há até quem afirme, “ser um estádio de futebol, o único sítio onde se esbatem as diferenças entre as várias classes sociais.” É assim o lugar onde toda a gente é verdadeiramente igual, precisamente num jogo de futebol. A enorme amálgama que se cria entre uma multidão que assiste a um jogo, impossibilita distinguir entre um abastado industrial e um humilde operário. Na Beira Baixa isso também sempre aconteceu.

Cenas interessantes do fenómeno desportivo ocorridas em Castelo Branco. No dia 9 de junho de 1929, “O jogo entre a Associação Académica Albicastrense e o Sport Lisboa e Castelo Branco terminou trinta minutos depois de iniciado por ter rebentado a bola e não haver outra para a substituir”.

 Aquando da inauguração do Campo de Futebol do Vale do Romeiro, em Castelo Branco, em setembro de 1956, ocorreram dois jogos de futebol com atribuição de duas taças: uma seria resultante do encontro entre o Sacavenense e o Benfica de Castelo Branco, ganha pelos albicastrenses. A segunda taça caberia ao desfecho do encontro entre o Sporting da Covilhã e o Sport Lisboa e Benfica, ambos da I Divisão.

Nessa altura ainda não havia os meios rápidos de gravar o nome do vencedor na taça, pelo que os responsáveis do clube albicastrense, na presunção de que o vencedor seria à partida o Benfica, logo fizeram uma chapinha para colocar na taça do vencedor, com o nome do Benfica. Só que o vencedor foi o Sporting da Covilhã.  Ganhou o encontro por 1- 0, com o resultado feito no minuto inicial da primeira parte (in jornal “A Bola”, de 3-9-1956, golo marcado por Suarez).

Deu-se então uma demora prolongada na respetiva cerimónia, motivada por ter sido necessário que um técnico de ourivesaria da Cidade fizesse, a toda a pressa, uma nova “chapinha”, então com o nome do Sporting Clube da Covilhã. O sucedido foi motivo de imensa graça, não totalmente isenta de piadas. Segundo uma testemunha que assistiu a este jogo, ainda recentemente recordou a cena, com o muito tempo de espera para fazer entrega da taça.

Embora houvesse alguns ventos e marés nos jogos entre serramos e albicastrenses, fruto do entusiasmo de dérbis, os clubes e seus dirigentes sempre foram amigos, como beirões de gema.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “O Olhanense”, de 01-02-2024)

 


31 de janeiro de 2024

O QUARTO PODER

 



A minha primeira crónica deste ano de 2024, para o Jornal Fórum Covilhã.

Das resmas de temas que gravitam sobre a minha cabeça levam-me à opção para me direcionar no sentido dos vendavais do momento.

Por vezes perco-me um pouco pelas redes sociais, e, vai daí, partilho algo que o Facebook faz o favor de recordar de anos precedentes. Desta vez, tive um certo assombro. Numa foto datada de janeiro de 1968, lá estávamos os quatro covilhanenses que partimos da estação dos caminhos de ferro da Covilhã em direção a Tavira, para cumprimento do serviço militar obrigatório. No CISMI, na parada, a fotografia da praxe. Dos quatro dois já tinham falecido, ficámos dois. Qual não foi o meu espanto quando eu digo que “já só restamos os dois primeiros”, quando um amigo antigo colega me informa que já estava sozinho. O outro também já partira.

Decidi moderar a minha escrita para um esforço do poder de síntese, o que nem sempre é possível.

Vivi a minha infância onde o meio era de iliteracia, fora da família mais chegada. Valeu-nos meu Pai que nos preparava nos primeiros estudos e na antiga Biblioteca Municipal onde trabalhou durante muitos anos.

Foi aqui, num mundo de livros nas estantes que quase chegavam ao teto da sala de leitura, mesas compridas, cadeiras pesadas e suportes de madeira para os livros, que se enraizou a minha paixão pela leitura. Mas não só. Seriam também os muitos jornais que diariamente ali chegavam, vindos pelo correio, portanto, com atraso de um dia. Eles eram o Diário de Notícias, Diário Popular, Diário de Lisboa, e, do Norte, só me recordo de lá poder ler O Comércio do Porto. O primeiro e o último eram autênticos lençóis de papel.

Alguns dos que também tinham leitura apelativa, como O Século, Primeiro de Janeiro ou Jornal de Notícias, e ainda todos os desportivos como A Bola ou o Record tinham que os leitores interessados os adquirir nas bancas, cafés ou livrarias, já que que quiosques não havia, sendo o primeiro colocado na então placa do Pelourinho para o Leal.

A única revista, muito cobiçada, de saudosa memória, era então a Flama. Mas havia outros jornais, afetos ao regime ditatorial de então, como o Diário da Manhã, ou de raiz adversa, como o República. E, noutras vertentes, o jornal A Voz e o Novidades.

Os semanários da nossa região, muito do interesse dos leitores covilhanenses, eram então Notícias da Covilhã e o Jornal do Fundão, chegando ainda a existir o Beira Baixa. De vários pontos do País, incluindo dos distritos de Castelo Branco, Guarda, Coimbra e Setúbal, chegavam muitos jornais regionais e eu até gostava de ler transversalmente o Diário do Alentejo. Depois não faltavam, com elevado atraso, os jornais oriundos das então Províncias Ultramarinas, que seriam as colónias, como o Diário de Luanda, A Província de Angola, e de outros recantos coloniais, envolvidos em cintas com a beleza dos selos temáticos.

Foi através dos jornais, muito antes das televisões terem a possibilidade de serem adquiridas para os nossos domicílios (caríssimas, só se viam nos cafés, nas coletividades e nos salões paroquiais) que se tinha conhecimento dos temores da invasão da India Portuguesa e dos terrores com as guerras na Guiné, Angola e Moçambique, onde a censura abafava muito da realidade e só revelava o que convinha ao regime salazarista.

E todos os acontecimentos mundiais se repercutiam nas páginas dos jornais.

Com a democracia, o jornalismo tornou-se o quarto poder porque pode exercer determinada influência sobre a sociedade. Chamamos-lhe este termo porque tem como referência os Três Poderes do Estado Democrático que regem a sociedade (Legislativo, Executivo e Judiciário). A influência da grande mídia pode alterar as decisões sociais, a opinião pública e as notícias que chegam à população.

Assistimos hoje a um drama com os profissionais do JN, DN, O Jogo, TSF, entre outros títulos da Global Média Group, jornais históricos e uma rádio que foi, durante tantos anos, uma referência na informação. Os seus salários estão em atraso e com o risco de fecharem por gestão danosa.

Esperemos qua ainda neste início do ano bons ventos possam soprar para as bandas deste mundo do jornalismo.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 31-01-2024)

 

19 de janeiro de 2024

LEMBRAR CAMILO E EÇA DE QUEIRÓS - II

 


EÇA DE QUEIRÓS (1845 – 1900)

José Maria Eça de Queirós nasceu na Póvoa de Varzim em 25 de novembro de 1845. Veio ao mundo em circunstâncias morais irregulares: “filho natural de José Maria de Almeida de Teixeira de Queiroz e de May incógnita” (lê-se no assento do seu batismo). O pai do escritor era, ao tempo, delegado do Procurador Régio em Ponte de Lima; a “mãe incógnita” era D. Carolina Augusta, filha do coronel José António Pereira d’Eça, na altura já falecido. Casaram em Viana do Castelo, na igreja do convento de Santo António, em 1849. O pequeno José Maria, criado até esta em Vila do Conde pela madrinha, é levado então para casa dos avós paternos, em Aveiro. Só aos dez anos se juntou aos progenitores, passando a viver com eles no Porto.

Em 1861, matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Depois de concluída a formatura em 1866, fixou-se em Lisboa, onde o pai trabalhava. Repartiu então a atividade entre a advocacia e o jornalismo. Dirigiu, durante algum tempo, o Distrito de Évora e colaborou na Gazeta de Portugal com folhetins dominicais (mais tarde reunidos em volume com o título Prosas Bárbaras).

Tendo concorrido para a diplomacia, em 1870 fez um pequeno estágio de funcionário público na cidade do Lis. Aí arquitetou O Crime do Padre Amaro. Em 1873 é colocado no consulado português de Havana, em Cuba. Dois anos mais tarde, foi transferido para Inglaterra e lá começou a escrever O Primo Basílio e a pensar n’Os Maias, n’O Mandarim e n’A Relíquia.

Em 1886, casou com uma senhora fidalga, irmã do conde de Resende, D. Maria Emília de Castro. Em 1888, foi tomar conta do Consulado de Paris.

Morreu em França em 1900.

Todas as comparações pecam por inexatas. Não deve, pois, tomar-se ao pé da letra aquilo que vai seguir-se. Talvez possamos ver Eça de Queirós retratado sucessivamente em duas personagens célebres que criou: O João de Ega de Os Maias e o Fradique Mendes de A Correspondência.

Fradique Mendes corresponderá a Eça depois de abandonar o inquérito à sociedade portuguesa do seu tempo. Criou-o o romancista muito cedo: foi no “Cenáculo” ou no Café Martinho (1867). Mais tarde (1880), porém, encontrou-o em Paris transformado num sujeito impecável na indumentária, livre e audaz, irónico na conversação, dotado de um gosto subtil pelas coisas da arte, corredor infatigável do Mundo e que vem a Portugal matar saudades de vez em quando. E então passa o tempo a escrever aos amigos e conhecidos e à madrinha sobre as coisas de cá, descobrindo ora delícias bucólicas, poéticas, em rincões edénicos no meio do povo que estremece, ora anomalias de caráter técnico no que respeita ao progresso e à evolução da sociedade lusa.

Assim também Eça, abandonado o inquérito à vida portuguesa, se vai mostrando atraído pela nossa terra e suas gentes e deixa transparecer uns laivos de saudade pelo Portugal velho, ao mesmo tempo que confia no Portugal do futuro em África, condenando o esbracejar estéril dos políticos que, europeizando a Nação, lhe estavam a adulterar o espírito. É claro que temos em mente o autor de A Cidade e as Serras e de A Ilustre Casa de Ramires.

A partir de 1870, com a colaboração n’As Farpas e a conferência no Casino, encontramo-lo todo devotado às teses do Realismo. E até 1888 surge-nos ocupado com o inquérito à sociedade portuguesa, que procurava descarnar a fim de lhe pôr os podres à vista.

A partir desta data, o escritor assiste ao início do desfazer da feira naturista: contesta-se o positivismo no campo na filosofia; o realismo na pintura é substituído pelo impressionismo; a literatura insiste na pesquisa e análise da psicologia das personagens com o uso do monólogo interior. É o naturalismo que se desintegra e leva Eça de Queirós a abraçar uma outra conceção de vida. E ei-lo a recrear-se com Fradique Mendes, turista eivado de cosmopolitismo mas capaz de sentir os encantos da Pátria, com o Gonçalo A Ilustre Casa de Ramires que se regenera no Portugal de África, com o Jacinto que trocou o progresso de todas as técnicas pelas belezas naturais de uma serra lusitana.

No fim da sua carreira, impossibilitado de modificar a sociedade portuguesa, Eça voltou as costas aos reformadores realistas e blocou-se numa redoma de imaginação com as suas criações burguesas, os endinheirados Fradique, Gonçalo e Jacinto, fazendo saborear aos leitores o que de bom Portugal e o Mundo têm.

Eça colaborou toda a vida em jornais. Depois da sua morte, muitos dos trabalhos dados à luz da publicidade na imprensa periódica foram reunidos em volume e postos nas mãos do público, em conjunto.

Votos de um Feliz Natal e um Novo Ano que nos traga saúde e paz, para todos os Prezados Leitores e meus Amigos deste Quinzenário.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 15-01-2024)

20 de dezembro de 2023

MAIS UM NATAL E UM NOVO ANO

 

Para esta minha última crónica deste ano de 2023, para o Jornal Fórum Covilhã, vou reportar-me ao papel da MULHER, ao longo dos tempos bíblicos. Ela que tem sido tão massacrada com as atuais guerras. É uma síntese retirada dos Evangelistas e de outras figuras da Igreja. Referências, muitas das quais os católicos poderão ir ao encontro do reforço da memória, que, implicitamente, não deixam de se inserir no contexto da época natalícia.  Se na sua maioria são figuras de relevo pelo seu sofrimento, humildade, submissão, outras há que foram intoleráveis pelas suas repugnantes condutas.

Entretanto, a boa notícia, em contraponto com as guerras lamentavelmente surgidas, e tão faladas, foi a aprovação do acordo inédito para abandono dos combustíveis fósseis, acordo este de mais de 200 países na COP28.

Aproximamo-nos a passos largos de mais um final de ano. Muitos de nós iremos brindar à aurora de um novo início da Terra à volta do Sol. Esperança é sempre a palavra mais consistente, adequada, para um porvir que desconhecemos.

Não vou assim referir as terríveis guerras de que uma considerável parte do mundo diabolizado parece desejar, pois que ainda umas não terminaram já outras emergiram.

Tampouco direcionar-me para este depauperado país à beira-mar plantado e tão maltratado, onde não sabemos em quem confiar. Todos apregoam que as suas promessas são de autenticidade sacra. Onde estão aqueles que respiram o sentido da verdade e não o devaneio que se oculta no seu íntimo?

E o que se passa na nossa Cidade da Covilhã, onde os comerciantes da zona sul, junto ao Centro Comercial da Estação, por exemplo, se queixam do desprezo a que são votados, com o estacionamento de viaturas ali pago, e, igual desprezo pelas iluminações de Natal com que foram contemplados, com um zero de iluminação, dando azo a que só na zona do Pelourinho se pudesse gastar uma mão cheia do pilim que certamente irá fazer falta em vertentes da solidariedade. Veja-se o que acontece com os necessitados que rodeiam com insistência as Conferências de São Vicente de Paulo.

Mas vamos ao assunto a que inicialmente me referi. Em primeiríssimo lugar o nome de Maria, a jovem Virgem que veio a ser a Mãe de Jesus, e que em variadíssimas ocasiões vai surgir em muitos momentos. Ao invés, outra Maria, chamada Madalena, que, com Joana, mulher de Cusa, administrador de Herodes, Susana e muitas outras seguiam Jesus e os discípulos. - Job teve sete filhos e três filhas. À primeira deu o nome de Pomba, à segunda o de Cássia e à terceira Azeviche. Não havia na região mulheres mais belas do que as filhas de Job. - Marta recebeu Jesus em sua casa. Sua irmã era Maria. - Abraão teve dois filhos, um da escrava, Agar, e outro da mulher livre, Sara. - Morava na Babilónia um homem chamado Joaquim. Tinha desposado uma mulher chamada Susana, muito bela e temente ao Senhor. - O homem deu o nome à mulher de Eva, porque ela foi a mãe de todos os viventes. - Maria disse ao anjo: “Como será isto, se eu não conheço homem?” E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice. - Judá gerou, de Tamar, Farés e Zara; Salmon gerou, de Raab, Booz; Booz gerou, de Rute, Obed. David, da mulher de Urias, gerou Salomão. Matã gerou Jacob; Jacob gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado Cristo. - Ana tomou Samuel consigo. - A sogra de Simão Pedro, Serafina, estava de cama com febre. - Os noivos das Bodas de Caná da Galileia, eram Samuel e Susana.  - Evoco a lembrança da tua fé sincera, que também foi a da tua avó Lóide e da tua mãe Eunice. - Herodes mandara prender João e algemá-lo no cárcere, por causa de Herodíades, a esposa de seu irmão Filipe. - Uma mulher, cuja filha tinha um espírito impuro, ao ouvir falar d’Ele, veio prostrar-se a seus pés. A mulher era pagã, siro-fenícia. - Naqueles dias, a rainha Ester, tomada de angústia mortal, procurou refúgio no Senhor.  - Veio uma mulher da Samaria para tirar água. Respondeu-lhe a samaritana: “Como é que tu, sendo judeu, me pedes de beber, sendo eu samaritana?”. - “Em verdade vos digo que havia em Israel muitas viúvas no tempo do profeta Elias, quando o céu se fechou durante três anos e seis meses e houve uma grande fome em toda a Terra; contudo, Elias não foi enviado a nenhuma delas, mas a uma viúva de Sarepta.  - Estavam ali a observar de longe, muitas mulheres que tinham seguido Jesus desde a Galileia, para O servirem. Entre elas encontrava-se Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu Estavam junto à cruz de Jesus sua Mãe, a irmã de Sua Mãe, Maria, mulher de Cléofas e Maria Madalena. - Naqueles dias, o anjo do Senhor disse a Filipe: “Levanta-te e dirige-te para o sul, pelo caminho deserto que vai de Jerusalém para Gaza”. Quando ia a caminho, encontrou-se com um eunuco etíope, que era alto funcionário da Candace, rainha da Etiópia. - No sábado, saímos pelas portas da cidade, em direção à margem do rio, onde julgávamos que havia um lugar de oração. Sentámo-nos e começámos a falar às mulheres ali reunidas. Uma delas, chamada Lídia, escutava-nos com atenção; era negociante de púrpura, natural da cidade de Tiatira. - Encontrou lá um judeu chamado Áquila, natural do Ponto, recentemente chegado de Itália, com Priscila, sua mulher. - Sob o reinado do rei Saquerdão, voltei para minha casa e foi-me restituída a companhia de minha mulher Ana e de meu filho Tobias. - No mesmo dia sucedeu que Sara, filha de Raguel, que vivia em Ecbátana da Média, também foi insultada por uma serva de seu pai.  - Naqueles dias, Ana, mulher de Tobit, estava sentada, percorrendo com a vista o caminho por onde seu filho Tobias devia voltar. - Isaac tinha voltado do poço de Laai-Roi e habitava na região de Negueb. Uma vez que ele saíra a passear pelo campo à tardinha, ergueu os olhos e viu uns camelos que acabavam de chegar. Rebeca, sua prima, ergueu também os olhos e viu Isaac. Ele desceu do camelo e perguntou ao servo: “Quem é aquele homem que vem a correr pelo campo ao nosso encontro?” O servo respondeu: “É o meu Senhor”. Rebeca tomou o véu e cobriu-se. O servo contou a Isaac tudo o que tinha feito. Isaac introduziu Rebeca na tenda de Sara, sua mãe. Depois, casou-se com ela e amou-a. - Naqueles dias, Maria e Aarão censuraram Moisés por causa da mulher etíope que ele tomara como esposa. Maria cobriu-se de lepra, branca como a neve. Aarão voltou-se para ela e viu que estava leprosa. - No tempo em que os juízes governavam, houve uma fome no país. Certo homem deixou Belém de Judá e emigrou para os campos de Moab, com a mulher e dois filhos. Elimelec, marido de Noémi, faleceu e ela ficou só com os seus dois filhos. Ambos casaram com esposas moabitas, uma chamada Orpa e a outra Rute. Depois, Booz desposou Rute que se tornou sua mulher e ela deu à luz um filho. As mulheres disseram a Noémi: “Bendito seja o Senhor, que não te recusou hoje quem assegurasse a tua descendência. O seu nome seja celebrado em Israel! Será a consolação da tua alma e o amparo da tua velhice, pois nasceu da tua nora, que é tua amiga e vale mais para ti do que sete filhos”. Noémi tomou o menino ao colo e foi ela que o criou. As vizinhas deram nome ao menino, dizendo: “Nasceu um filho a Noémi”. E deram-lhe o nome de Obed, que viria a ser o pai de Jessé, pai de David.

Muitos outros nomes de MULHERES ficaram na história da Igreja, que não foi possível abarcar no espaço de um jornal, e outras ficaram conhecidas tão só pelo nome das suas terras, como a viúva de Naim.

Ficamos por aqui neste ano que agora vai terminar. Foi uma honra escrever neste prestigiado e dinâmico Semanário. Voltaremos em 2024, se Deus quiser. Vão assim os meus votos de um Santo Natal e um Novo Ano pleno de saúde e paz, para todos os Prezados Leitores, seus Familiares, Amigos e Obreiros do Jornal Fórum Covilhã e Rádio Fórum.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 20-12-2023)


19 de dezembro de 2023

LEMBRAR CAMILO E EÇA DE QUEIRÓS - I

 




Neste último número do ano 2023, despeço-me dos Prezados Leitores e Amigos, recordando dois consagrados autores portugueses, prometendo voltar no novo ano, se Deus o permitir.

CAMILO CASTELO BRANCO (1825 – 1890)

Infância triste e adolescência leviana. Vida turbulenta no Porto. Os últimos anos em S. Miguel de Ceide.

Mulher, Joaquina Pereira. Uma transmontana se cruzou com ele, Maria do Adro. Ao morrer a mulher, Joaquina Pereira, os seus olhos lúbricos foram cair numa rapariga órfã, Patrícia Emília. Raptou-a e foi preso. Prende-se de amores vários mas efémeros. Encontra num baile a que viria a ser a sua mulher, Ana Plácido, mas, entretanto, esposa do conselheiro Pinheiro Alves. Este instaurou um processo aos adúlteros. Os dois amantes andaram foragidos e vão para a cadeia. Aqui esteve Camilo um ano a escrever o “Amor de Perdição”.

A loucura do filho, a notícia da morte de pessoas íntimas, a velhice e a cegueira incurável leva-o a pôr termo à vida em 01-06-1890.

A obra literária de Camilo chegou até nós em centenas de volumes. Cultivou os mais diversos géneros: poesia, teatro, romance, o conto, crítica literária, investigação histórico-genealógica, polémica, jornalismo. Foi no romance, género que deveras se notabilizou.

Camilo Castelo Branco imaginou muito e observou pouco. Se Camilo tivesse sido um bom observador, talvez tivesse evitado o principal senão dos seus romances: a monotonia. Mas tal não acontece porque se limitou a imaginar.  Daí a deceção que sofremos aos vermos repetir-se, de novela em novela, quase sempre o mesmo esquema romanesco.

Nestes romances, há personagens que, à semelhança dos de Herculano, encarnam ao vivo o ódio ou o amor – o remorso ou a vingança.

Camilo despreza o ambiente geográfico, e põe em relevo apenas o elemento humano, ao contrário de outros. O que queria era fazer rir ou chorar e pouco se importava com a pintura da paisagem. Com as coisas que fazem chorar vai construir o romance passional; com as coisas que fazem rir, o romance satírico.

Camilo era plebeu. Por isso, jamais pôde encarar com simpatia a conceção de vida de certos tipos sociais cuja imensa vaidade, ânsia de gozo e colossal fortuna estavam na razão direta da estupidez e da falta de senso.

No romance camiliano, a posse da mulher anda geralmente ligada à ideia de crime, à ideia de pecado. Um enredo amoroso entre solteiros, a terminar na igreja como o trata Júlio Dinis, não interessa muito a Camilo. Aí não vislumbra dramatismo. Ele prefere homens sedutores e mulheres vítimas. Tem fatalmente de misturar o amor com a ilegalidade. Por isso, o que é a mulher no romance passional de Camilo?

Quando em 1875 Camilo começou a redigir as Novelas do Minho, já a escola realista se vinha impondo, há anos, ao público português. Nesse ano saiu O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós, escrito, no entanto, em 1871. E eram bastante lidas as obras de Flaubert, Balzac e Zola.

Camilo lera os romances de Júlio Dinis. Não se pode dizer que não tenha gostado. Mas aquela quase inocência edénica dos lavradores e aquela felicidade áurea da vida do campo, não, isso não o convencia. Ele conhecia demais o viver da aldeia e as manhas dos seus habitantes. Não era a brincar que dizia que a única coisa aproveitável nos lavradores minhotos era, aqui ou ali, A Grinalda, um naco de bom presunto; o resto, só estupidez e maldade.

A ação de grande parte dos romances de Camilo Castelo Branco não se passa no seu tempo. Ele mesmo tem o cuidado de o confessar em mais de uma obra. Quase todas as intrigas têm lugar nos anos que decorreram entre as invasões francesas e a promulgação das leis de Mouzinho da Silveira.

O dinheiro é em Camilo a mola que impulsiona a marcha da ação de muitos romances. Mas é interessante constatar que, raras vezes, ele é fruto de trabalho dignificante, como o de Tomé da Póvoa d’Os Fidalgos da Casa Mourisca de Júlio Dinis. Em geral, ou provém de heranças e de tesouros escondidos casualmente descobertos, ou da árvore das patacas do Brasil, ou da roubalheira (quase sempre no Ultramar).

Não se insurge contra os princípios basilares da sociedade, isso, não. Até os defende. Só ataca os homens, em cujas virtualidades nunca acreditou.

Camilo aprendeu a língua portuguesa ouvindo o povo e lendo os clássicos.

Camilo mostra-se parco nas descrições, sumário nas narrações e procura tirar o máximo efeito do dramatismo dialogal. Era avesso a descrições, como confessa em Vingança. A paisagem mal existe na sua novelística.

(In Jornal “O Olhanense”, de 15-12-2023)

8 de dezembro de 2023

A CAMINHO DO FIM DE MAIS UMA ETAPA

 

Este meu texto vai ser mais abreviado, revestido de poucas consultas, análises ou prévias leituras, tão só ao correr da pena. Motivo: Uma cirurgia muito recente às cataratas que me inibe de trabalhar como desejaria, e até o não deveria fazer.

Estamos, de facto, a caminho de mais uma etapa das nossas vidas, que é o ano que está prestes a findar, ou já terá findado para quem ler este nosso jornalzinho já depois de 2023.

As perspetivas vão no sentido de que seja acolhido em casa dos nossos prezados Leitores, Amigos e Camaradas, antes da Festa Natalícia, desejando assim que o Menino Deus abençoe todos, crentes, como eu, e também os não crentes.

Muito se falou sobre a vida do País e do Mundo. Quanto ao primeiro momento, com reflexos do mundo, ainda não estávamos libertos de uma guerra entre duas nações dentro do Velho Continente, com repercussões económicas e não só, quando outra surge tanto ou mais feroz no seio duma quase mesma geografia (Israel está localizado na Ásia, mais precisamente no Médio Oriente, mas possui muitos laços políticos e económicos com os países da Europa), onde duas vertentes religiosas jamais se entenderam ao longo de muitos anos, num ódio que não se dissipa.

Num contexto deste segundo momento – o Mundo – é confrangedor assistirmos a autênticas carnificinas, atentados à dignidade e direito às vidas humanas.

Mas, voltando ao nosso País, longe estaríamos, penso eu, de chegarmos à situação de que o mesmo se vê rodeado nesta altura, envolvido numa crise política com a qual não se contava, dada a maioria absoluta do partido que lidera na governação. As novas eleições para o próximo ano serão uma nova etapa na vida deste Portugal de todos nós, no bom sentido, ou mais do mesmo?

Ao longo do que tenho vindo a escrever em várias publicações, vinco sempre que oportuno, a vertente da credibilidade, fator importantíssimo para todos, inteligentes ou menos dotados, apáticos ou com aquele cunho de aceitarem confiar ainda nesta ou naquela personalidade, nesta ou naquela instituição, que obviamente, implicitamente, tem nela, mais que uma agora badalada inteligência artificial –, a Pessoa Humana.

Ao longo deste ano que agora finda, entre guerras externas e crises internas, debateram-se e tomaram-se decisões sobre comportamentos/hábitos/vícios, alguns entre a hilaridade e a revolta, como foi o caso dos jogos sociais, nomeadamente o Eurosorteio (sobre este assunto escrevi há oito anos, num ex-semanário covilhanense, um artigo alusivo, sob o título “A Raspadinha”) em que lançavam para a miséria algumas pessoas viciadas no jogo.

As reivindicações dos Trabalhadores e Trabalhadoras de Portugal, numa frequência de greves sem precedentes, ou há muito não vistas, na persistência de setores como os médicos (que, certamente, muitas vezes se terão esquecido do seu Juramento de Hipócrates), os Professores, Funcionários Públicos, surgem, na sua legitimidade, havendo notícias de um endividamento da economia ter acelerado para 811,2 mil milhões até agosto, ou seja, um aumento de 1,4 mil milhões de euros.

No entanto, Portugal deixou o pódio dos países da UE mais endividados no 2º semestre e obteve o 2.º maior excedente público no segundo trimestre.

No que se reporta à segurança no País, e depois de termos assistido a situações graves de terrorismo, com o Hamas na Faixa de Gaza, aquela fação palestiniana deixou pasmado o Mundo face à facilidade com que perpetraram o atentado numa festa judaica, quando, afinal, apanharam de surpresa Israel, com os seus serviços de inteligência e de alta segurança a falharem.

Quando o autor do atentado em Bruxelas, suspeito de ter matado a tiro dois cidadãos suecos, havia sido detido em Portugal pelo então SEF, em 2015, o Tribunal da Guarda decretou-lhe apenas a medida de coação e termo de identidade e residência e de apresentações semanais às autoridades. Isto apesar de, à época, o SEF ter pedido a detenção e expulsão do território nacional uma vez que o suspeito tinha já uma ordem de interdição de entrada na Suécia. O tribunal da Guarda decretou-lhe apenas as medidas atrás descritas. O atentado foi em Bruxelas mas poderia ter sido em Portugal. Não haverá que ter mais rigorosidade na aplicação das penas?

É que as profecias de Natália Correia, do ano 1993, “para as primeiras décadas do próximo milénio”, em Portugal, são assustadoras.

Fazemos votos para que este Natal de 2023 seja repleto de esperança no reflexo de melhores tempos, e que no Novo Ano possamos encontrar a PAZ de que tanto necessitamos.

BOAS FESTAS!

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Combatente da Estrela”, n~. 133 – DEZ/2023)

 

 

 


CONTE-NOS A SUA HISTÓRIA RUI CARDONA ALMEIDA








Nesta época natalícia trazemos à presença dos prezados Leitores d’ “O Combatente da Estela”, uma Figura Covilhanense, sobejamente conhecida porquanto a sua atividade profissional que abraçou, de longa data, se coaduna com os seus produtos para esta época, e em todas as festividades ao longo do ano.

Quem vê o Rui Cardona, a maior parte do tempo quase embrenhado no seu estabelecimento da indústria de pastelaria, na cidade serrana, tão de humilde quão de atencioso, brota-se-lhe um certo sorriso para com a clientela que vê crescer.

Quem não conhece a Pastelaria Almeida com os seus produtos característicos como os biscoitos de azeite, bolo-rei, filhós, e outros afins, de grande diversidade?

Bom, mas certamente a maioria das pessoas não terá conhecimento que o Rui foi um antigo combatente em Moçambique, onde passou grande parte do tempo em zonas de grande perigo que, embora não tivesse sido atingido pelos efeitos nefastos da guerra, viu entretanto sucumbirem alguns dos seus camaradas de armas.

Mas façamos uma retrospetiva desde a Covilhã, onde nasceu no dia 9 de novembro do ano da graça de 1950, até à então designada, na altura, província ultramarina de Moçambique, para cuja colónia foi enviado.

É casado. Tem 2 filhos e 2 netos e, como referido, exerce a atividade de industrial de pastelaria.

Quando jovem estudou na Escola Industrial e Comercial Campos Melo da Covilhã e veio a iniciar a sua atividade profissional numa loja de eletrodomésticos, na Covilhã (Adalberto dos Santos Luís) e posteriormente noutra (Francisco Nunes Silva).

Surge entretanto o serviço militar obrigatório, que o leva até Moçambique, e, no regresso com passagem à disponibilidade, conclui o Curso Geral do Comércio e vai trabalhar com o pai, na Padaria da Ramalha. Este estabelecimento acabou por ser vendido e o Rui Cardona Almeida passou a trabalhar de conta própria, estabelecendo-se, fundando a Padaria Almeida, até aos dias de hoje.

Relativamente ao início do serviço militar obrigatório, foi incorporado no Regimento de Infantaria 7 (RI 7), Leiria, em 16 de abril de 1971 para a frequência do 1º Ciclo do Curso de Sargentos Milicianos (CSM), passando em 15 de maio do mesmo ano para o RI 5, nas Caldas da Rainha, ficando apto para a frequência do 2º Ciclo do CSM em 4 de julho, no CISMI, em Tavira, terminando o mesmo na especialidade de Atirador de Infantaria, em 18 de setembro.

Foi entretanto promovido a 1º Cabo Miliciano em 5 de outubro de 1971, então no RI 1, na Amadora, altura em que é mobilizado para Moçambique.

Seguiu ainda para Tancos (RI 11) onde tirou o Curso de Minas e Armadilhas.

No dia 27 de junho de 1972 foi promovido a Furriel Miliciano e embarcou em Lisboa para Moçambique, no avião 747, fazendo parte da C. Caçadores 3555, B. Caçadores 3886/RT1, desembarcando na Beira no dia seguinte.

Da Beira seguiu para Tete, onde estava o Comando que o destacou para Chinhanda  e Daque. Fez Segurança à Barragem de Cabora Bassa e fazia o reconhecimento das colunas, limpando a picada das minas ou outros objetos. Era então uma zona de intenso perigo, minada, onde passavam os carros de abastecimento.

Na especialidade de Minas e Armadilhas tinha a função de organizar as equipas que iriam detetar as minas com os aparelhos de deteção, trabalho este que cabia aos sapadores.

A Companhia era mista, de brancos e pretos, incluindo oficiais. Por vezes iam nas picadas e recebiam informação da DGS de que mais adiante tinham minas, o que lhes facilitava muitas vezes o seu o salvamento. É que a DGS torturava o inimigo e este sentia-se obrigado a dizer onde se encontravam as minas... livrando-se muitas vezes da morte.

A maior parte do tempo era passado no mato, pois havia só a casa do Comando e o restante onde se encontrava a guarnição militar eram palhotas, onde estavam aquartelados.

Os grandes problemas eram nas picadas onde havia minas, chegando a haver alguns comandos que morreram, como o subcomandante da Companhia, Alferes Sá Carneiro, sobrinho de Sá Carneiro que foi 1º Ministro de Portugal. Teve o desfecho mortal ao fazer o reconhecimento da zona, de helicóptero, onde foi abatido. Todos faleceram (quatro), à vista do Furriel Miliciano Rui Cardona e seus camaradas.

Da sua Companhia teve oito baixas (3 por minas antipessoal; 3 por acidentes com viaturas; e 2 por doenças, como o paludismo).

Mas nem só de combate o Rui Cardona tem memórias. Certo é que as refeições eram geralmente à base de rações de combate. Vingavam-se muito no pão que era fabricado por eles com a farinha que lhes distribuíam. Certo dia mataram uma grande vaca do mato, mais conhecida por puma. Estavam à espera de uma coluna, e mais uma vez com as refeições referidas, o habitual arroz com conservas, mas sabiam que aquele carregamento trazia batatas, que há muito, mas muito tempo não comiam. Com a abatimento da vaca, mais as batatas que aí vinham, estavam todos ansiosos, mesmo encantados, todos alegres.  Chegado o carregamento das batatas (alguns a pensar naquelas batatinhas fritas...) ao abrirem, o contentor as batatas estavam todas podres. Foi uma autêntica deceção, que levou muitos deles a chorarem.

O Rui Cardona regressou à Metrópole em 14 de setembro de 1974, já depois da Revolução do 25 de Abril, desembarcando no Porto, no aeroporto Sá Carneiro.

Recebeu a Medalha Comemorativa das Campanhas de Moçambique com a legenda: “1972/73/74” (O.S. nº. 30 de 3555 de 28/08/1974).

(In “O Combatente da Estrela”, nº. 133-DEZ/2033)

 

 

7 de dezembro de 2023

A CIDADE, O CLUBE E O JORNAL

 


No que concerne à Cidade de Olhão está na minha memória desde longa data pela história e pela geografia. Vem já dos tempos da Primária, hoje Ensino Básico, quando empinávamos os nomes dos rios e seus afluentes, das serras e seus sistemas de montanhas (Galaico-Duriense, Lusitano-Castelhano, Toledano e Mariânico), e também dos caminhos de ferro. Nos então exames de admissão aos liceus e escolas industriais e comerciais, o examinador, que era sempre professor do ensino secundário, de quando em vez, fazia a pergunta: “Diga-me lá, se quisesse ir de comboio daqui (Covilhã), para Vila Real de Santo António, quais as linhas ferroviárias que teria de apanhar?”. E o menino ou menina, bem vestidos, ele  com fatinho novo a condizer para o exame (a Covilhã geralmente não tinha grande problema porque era a terra dos lanifícios e, na altura, vendiam-se muitos tecidos ao metro, para que o alfaiate se encarregasse de o fazer à medida); e um vestido novo, que fosse  bonito, que a costureira fazia com ou sem folhos, para a menina que queria entrar no Liceu (ao tempo, o Ciclo Preparatório era iniciado nos estabelecimentos do Ensino Secundário); lá se voltava para o velho mapa de Portugal. Com o ponteiro que o examinador lhes colocava na mão, iam referindo os caminhos ferroviários (por vezes de faces coradas quando a atrapalhação surgia, noutras, com um à vontade, descontraídos, com as linhas férreas decoradas debaixo da língua, como se de comboios já viajassem muito). Daqui, na linha da Beira Baixa, vou até Lisboa - Santa Apolónia (ainda não havia a do Oriente). No cais do Terreiro do Paço apanho um barco para o Barreiro. Sigo esta linha e vou entrar na Linha do Sul: Barreiro, Pinhal Novo, Torre da Gafanha, Casa Branca, Tunes, Faro, Olhão, Tavira, Vila Real de Santo António.

Se a Covilhã foi sempre conhecida pela Cidade dos Lanifícios (hoje também Cidade Universitária), Olhão era a Cidade das Pescas.

Curiosamente, vi num Manual Encyclopédico para as Escolas de Instrucção Primária, do ano 1879, que possuo na minha biblioteca, nessa altura tinha 21 Distritos Administrativos, segundo o Diário do Governo de 16 de maio de 1877, contava apenas com 4.429.332 habitantes, e, dizia que, junta às Províncias Ultramarinas excedia os 6 milhões de almas. E, entre as principais povoações, desse tempo, já passados 144 anos nos dias de hoje, referiam-se “Outras povoações há no Algarve dignas de serem mencionadas, a saber: Albufeira, Aljezur, Castro Marim, Loulé, Monchique, Olhão, Vila Nova de Portimão, Vila Real de Santo António, etc.”.

Mas a Cidade de Olhão ficar-me-ia ainda carinhosamente na minha memória quando, naquele sábado de 25 de maio de 1968, me sentei num daqueles bancos junto ao correio, cuja foto incluo desse tempo, e escrevi num postal ilustrado adquirido naquela estação dos CTT (ainda se encontravam abertos aos sábados e também aos domingos da parte da manhã), à minha namorada com quem viria a casar, perdurando até aos dias de hoje. Encontrava-me então a prestar serviço militar no CISMI – Centro de Instrução de Sargentos Milicianos de Infantaria, em Tavira.

Clube de Olhão – o Sporting Olhanense – Como referi no número de 1 de novembro, uma nota importante fez vincar o meu afeto pelo clube algarvio, depois de acompanhar todos os clubes das I, II e III Divisões Nacionais, pelos jornais, na Biblioteca Municipal, mormente O Comércio do Porto. E foi o último encontro entre o Sporting da Covilhã e o Sporting Olhanense, encontrando-se ambos na então I Divisão, na época 1961/62, com o Olhanense regressado ao convívio dos grandes e os covilhanenses a descerem de divisão depois de muitas contrariedades havidas, nomeadamente com as arbitragens, que na simpatia dos homens de Olhão reforçou o meu apreço pelos algarvios.

Jornal O OlhanenseJamais pensaria vir a colaborar há mais de um quarto de século com este periódico de grande prestígio. Não conhecia o quinzenário, tendo ele surgido fruto das minhas pesquisas para a publicação do então meu segundo livro (de quatro) sobre o Sporting da Covilhã. Foi um então amigo, já falecido, Augusto Ramos Teixeira, que me informou, depois de o ter questionado, numa altura em que ele me indicava alguns antigos atletas que passaram pelo Olhanense e se transferiram para o Sporting da Covilhã. Vim então a entrar em contatos frequentes com o diretor do jornal da altura, Herculano Valente, que nunca conheci pessoalmente, como acontece com o atual diretor, amigo Mário Proença. As únicas personalidades do Olhanense que conheci pessoalmente foram o anterior diretor, Isidoro Silva Sousa, então presidente da direção do Olhanense, assim como a esposa, num jantar convite das comemorações do clube serrano, e, de igual modo, Manuel Cajuda. Ainda vim a conhecer num encontro de futebol, na Covilhã, entre os dois Clubes, para o campeonato Nacional da II Divisão, o Sr. Júlio Favinha.

Quando pensava terminar a minha colaborar com este periódico, após o falecimento de Herculano Valente, mão amiga do atual diretor, incentivou-me a continuar e não é que, com ele, este periódico tornou-se um jornal de referência, desconhecendo a sua posição a nível nacional, mas, nos seus 60 anos de vida fica bem à frente de muitos outros, nomeadamente desta região beirã, certamente com mais apoios que o quinzenário O Olhanense, a viver horas difíceis.

Sobre o último número, quero informar que do suplemento “A Voz de Olhão”, o texto “O Mendigo”, de Mário Proença, serviu para uma reflexão numa reunião da Conferência de São Vicente de Paulo – Paróquia de Nossa Senhora da Conceição da Covilhã, com muito agrado.

Já a crónica de João Peres, “Assim vai este mundo doentio – Crónica ao sabor da caneta...” está espetacular. Parabéns a ambos.

Deixo, para vossa apreciação, os periódicos regionais da Beira Interior, numa comparação com o quinzenário O Olhanense, a saber:

- Correio de Unhais – Unhais da Serra

Periódico mensal. ANO XXXIV, Nº. 348 – Outubro 2023 - 16 páginas

Tem editorial e 8 crónicas, correspondente a 9 autores diferentes.

- Jornal Fórum Covilhã

Periódico semanal – ANO XI, Nº. 585 – 18-10-2023 – 24 páginas

Tem editorial e 5 crónicas, correspondente a 6 autores diferentes, para além de variadíssima informação e reportagens.

- notícias da Covilhã – gratuito

Periódico semanal, renascido do anterior e mais antigo semanário da Beira Interior, mas que nada tem a ver com o anterior, a não ser o aproveitamento da sua antiguidade. ANO 110 – Nº. 5294 – 19-10-2023 – 24 páginas

Tem editorial e 3 crónicas, de 4 autores.

- Jornal do Fundão

Periódico semanal – ANO 77 – Nº.  4027 – 19-10-2023 – 24 páginas

Tem editorial e 2 crónicas, de 2 autores

- A Guarda

Periódico semanal – ANO 119 – Nº.  5905 – 19-10-2023 – 20 páginas

Neste número não teve editorial mas sim 3 crónicas de três autores diferentes.

- Gazeta do Interior – Castelo Branco

Periódico semanal – ANO XXXIV – Nº 1814 – 18-10-2023 – 16 páginas

Tem editorial mais 3 crónicas de autores diferentes.

- Reconquista – Castelo Branco

Periódico semanal – Edição 4049 – ANO 77 – 19-10-2023 – 32 páginas

Tem editorial mais 4 crónicas, de 5 autores

- O Olhanense

Periódico quinzenal, fundado em 1963 (60 anos) – Nº 1307 – 15-10-2023 – 28 páginas

Tem editorial e 12 crónicas de 10 autores

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 01-12-2023)


6 de dezembro de 2023

COMO ERA A PALESTINA ANTES DO NASCIMENTO DE ISRAEL

 


De harmonia com um trabalho da jornalista Ana Marques Maia, inserido no Público (P3), de 17 de outubro, e depois do que já tanto se escreveu (eu também) sobre Israel, a Palestina, e o Hamas, as polémicas/mal entendidos entre personalidades que se assumiram com frontalidade e depois tiveram os seus dissabores (justificados para uns, injustos para outros), como António Guterres e Marcelo Rebelo de Sousa, e os defensores de um lado e outros do adverso, nos horrores desta guerra entre Israel e o Hamas, sem me querer envolver em partidarismos, trago, tão só, com base na história ora descrita por quem sabe, elementos para algumas elucidações.

O slogan “Uma terra sem povo para um povo sem uma terra” foi inúmeras vezes repetido ao longo do século XX. Consta que quem o fez foi o movimento sionista, e seus apoiantes, no sentido de mobilizar a imigração judaica para a Palestina, a eles se reportando o período entre os anos 1898 a 1946.

Entretanto, também é contada uma história diferente, já que a Palestina era, no século XIX e XX, antes do nascimento do Estado de Israel, em 1948, um território habitado por centenas de milhares de pessoas, vivendo um “renascimento árabe”, segundo a Enciclopédia Britannica.

A localização da Palestina tornava-se num local estratégico do ponto de vista comercial. Era a partir dos portos de Gaza e Jafa que as importações e exportações decorriam com países dos continentes africano, europeu e asiático. Havia também ligações ferroviárias com outras zonas do Império Otomano. Vários jornais locais podiam-se encontrar em circulação.

Entre 1516 e 1917, o território da Palestina integrou o Império Otomano. Durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), alinhou com as Potências Centrais, o eixo que saiu derrotado do conflito. Na sequência da vitória, dois dos países Aliados, França e Reino Unido, com a concordância da Rússia, assinaram um acordo secreto, em 1916 que determinada que parte do território do Império Otomano, a ser desmembrado no pós-guerra, ficaria sob a administração francesa e britânica. Nesse acordo, foi determinado que a Palestina, devido à presença de locais sagrados para cristãos, muçulmanos e judeus, deveria ser governada por um regime internacional. As administrações dos territórios “conquistados” pelos Aliados souberam das resoluções do acordo aquando da sua publicação, sem que tivessem podido pronunciar-se favorável ou desfavoravelmente sobre elas.

Em 1917, o Reino Unido decidiu violar o acordo e, unilateralmente, determinar que o território da Palestina deveria ficar sob o seu comando e tornar-se “o Lar Nacional para o Povo Judeu”. A população autóctone não foi consultada ou chegou a qualquer acordo com o Reino Unido. Assim, este tomou as rédeas do poder na Palestina, no pós-guerra, assumindo o papel de facilitador da imigração da comunidade judaica para a região. Antes da chegada dos britânicos, a esmagadora maioria da população era árabe, mas já existia uma comunidade de judeus na Palestina, ainda que minoritária.

Se algumas estimativas apontam para cerca de 50 mil judeus a viver na Palestina, em 1918, contra 500 mil árabes, já a partir da vigência do controlo britânico, a imigração judaica intensificou-se. Em 1920, a Liga das Nações tornou oficial o governo britânico da Palestina. Na década de 1930, o número de judeus a chegar à Palestina aumentou significativamente devido à perseguição e extermínio sistemático dos judeus na Europa Central, principalmente com a chegada de Hitler ao poder da Alemanha, em 1933. Em 1935 chegaram à Palestina cerca de 62 mil judeus, menos 10 mil que nos dois anos anteriores.

Em 1937, de acordo com as Nações Unidas, a população judaica era de 400 mil e dez anos depois atingiu os 625 mil.  Segundo a Britannica havia em 1946, na Palestina, 1,2 milhões de árabes e 678 mil judeus, um crescimento de 1350% da população judaica durante 25 anos. A resistência à chegada de mais imigrantes judeus intensificou-se nesse período entre a população árabe da Palestina, e em 1933 tornaram-se frequentes manifestações em oposição à emigração e que pediam o fim do mandato britânico. Estas manifestações foram reprimidas pelos britânicos violentamente, com protesto em Jaffa, no ano de 1935. Entre 1936 e 1939, a Palestina esteve em guerra civil. Na sequência desta revolta, a Britannica  refere que “pela primeira vez, um órgão oficial britânico falou abertamente sobre a formação de um estado judaico”.

Em meados de 1940, tanto árabes como judeus opunham-se ao mandato britânico na Palestina.

A Segunda Guerra Mundial tinha tornado o Reino Unido vitorioso, mas exausto. A resolução britânica de permanecer no Médio Oriente entrava em colapso.

Em 1947, o presidente norte-americano Harry S. Truman declarou, contra o interesse britânico, o seu apoio à ideia da criação de Israel; no ano seguinte, a “solução de dois estados” seria levada a votação na recém-criada Organização das Nações Unidas (ONU). Em 1948, o Reino Unido abandonava a Palestina. No mesmo ano, as Nações Unidas partiram o território em dois e nascia Israel. Os palestinianos opuseram-se ao acordo unilateral.  A resistência árabe ao novo Estado israelita, em 1948, deu origem a um conflito armado e ao “deslocamento e expropriação em massa” dos palestinianos, com milhares deles sob ameaça de violência, obrigados a abandonar as suas aldeias e as suas casas e a encontrar refúgio na Cisjordânia, na Faixa de Gaza e em países vizinhos.

Segundo consta, em setembro de 2023, a população de Israel é de 9,8 milhões de pessoas, existindo no mundo 15,2 milhões de judeus.

Presentemente, Israel ocupa, à revelia da lei internacional que lhe destinou 55% do território em 1947, mais de 20 mil quilómetros quadrados de terra (76% do território). Aos palestinianos cabe residir numa área de 6 mil quilómetros quadrados (24%), em Gaza e na Cisjordânia.

Mais de cinco milhões de palestinianos vivem, atualmente, dispersos por vários países do Médio Oriente e do mundo.  Em Israel, dos dias de hoje, segundo a ONU, “os palestinianos continuam a ser expropriados e deslocados pelos colonatos israelitas, por despejos, confisco de terras e demolições. A Palestina é, hoje, um “estado observador” na ONU, não reconhecido pela maioria dos países do Ocidente.

Aproveito a oportunidade para desejar os maiores êxitos jornalísticos ao Jornal Fórum Covilhã, reforçado pela Rádio Fórum, na pessoa do seu Diretor, Vitor Aleixo, e demais Obreiros, pela passagem do 12º  Aniversário no passado dia 29 de novembro de 2023. Parabéns!

 

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 06-12-2023)