17 de outubro de 2024

O FADO

 
Domingo, 6 de outubro. Neste dia, a RTP 1 transmitiu em direto uma sessão especial do programa Em Casa D’Amália, marcando os 25 anos da morte da diva do fado. Não houve propriamente homenagens ou celebrações oficiais neste dia, ao contrário do que se passou no centenário do seu nascimento.

Vem a propósito, recordei o meu artigo “E Tudo Isto é Fado” publicado no Notícias da Covilhã, de 07-12-2011, e no Jornal do Fundão, de 15-12-2011, noutros contextos.

Nascido nos meios populares, o fado sempre soube cantar a crítica social – e aos regimes. Na noite em que a censura prévia riscava as letras que eram hostis ao Estado Novo, esse quase silêncio conduziu-o a uma forte hostilidade nos dois anos imediatos ao 25 de abril. Mas esse “triste fado” soube afastar-se e ser entendido como expressão artística que é, também associado à liberdade.

O fado é a canção melancólica de um povo que também celebra alegria. Na narrativa do quotidiano nas suas várias facetas, o fado não é uma canção triste. Tem melancolia e saudade mas também alegria e festa, e até um lado solar. Gerado nas tascas e bairros pobres de Lisboa oitocentista, foi no início a expressão de uma minoria urbana restrita, mas recebeu influências dos que foram chegando de todo o País. Há na história do fado, como na história de Portugal, uma presença constante: o mar.

Segundo fonte do Diário de Notícias, aqui reporto, cronologicamente, os primeiros e principais personagens que lhe terão estado na sua génese, e lhe deram forma e significado.  

1820 – 1846 – Maria Severa – Fadista.  Há quem considere Maria Severa uma das figuras fundadoras do fado. Nasceu no bairro da Mouraria, em Lisboa. Existem poucos dados sobre a sua vida que estejam devidamente comprovados, mas acredita-se que Severa cantava nos circuitos da prostituição no Bairro Alto e na Mouraria. Morreu bastante jovem, com apenas 26 anos de idade.

1883 – 1925 – Júlia Florista – Fadista. Foi uma das fadistas lendárias da cidade de Lisboa nos primeiros anos do século XX. Ficou conhecida como florista porque desde muito nova vendia flores para seu sustento. Era considerada uma fadista sentimental.

1891 – 1946 – Armandinho – Guitarrista. De seu nome, Armando Augusto Freire, foi uma figura fundamental na transição do fado de caráter marginal e popular do século XIX para o rosto mais contemporâneo do género no séc. XX. Alargou o vocabulário musical do fado, enquanto contrariou o protagonismo então dominante do “cantador” face à figura do guitarrista.

1888 – 1982 – Alfredo Marceneiro – Fadista. Nome incontornável na história do fado. Começou a cantar esta música ainda na adolescência, num baile popular. Profissionalizou-se no início dos anos 40.

1889 – 1973 – Edmundo Bettencourt – Poeta e Cantor. Referência incontornável na canção de Coimbra.

1895 – 1969 – António Menano – Fadista. Símbolo histórico do fado de Coimbra, foi também um cantor imensamente popular abaixo do Mondego, no fado e na canção ligeira.

1902 – 1985 – Ercília Costa – Fadista. Estreou-se a cantar o fado em 1927, no Teatro da Trindade.

1907 – 1993 – Hermínia Silva – Fadista. Ficou para a história como um dos grandes símbolos do fado “castiço”. A Casa da Mariquinhas foi o seu maior sucesso.

1907 – 1969 – Carlos Ramos – Fadista. Estreou-se em 1944 com um tema de Marceneiro, Senhora do Monte. Acompanhava-se a si próprio à guitarra.

1911 – 1997 – Berta Cardoso – Fadista. Fez carreira a cantar o fado no teatro de revista, mas também em casas de fado. Teve também um papel na internacionalização desta música.

1918 – 1993 – Maria Teresa de Noronha – Fadista. Figura que se afirmou como o paradigma do fado aristocrata.

1919 – 2008 – Fernanda Baptista – Fadista. Construiu a sua carreira cantando o fado no teatro de revista.

1919 – 1998 – Lucília do Carmo – Fadista. Veio a tornar-se uma das vozes emblemáticas do fado corrido. Era mãe de Carlos do Carmo.

1920 – 1999 – Amália Rodrigues – Fadista. É ainda nos dias de hoje considerado o maior nome do fado, tendo sido a grande responsável pela sua internacionalização. Foi também Amália Rodrigues a primeira fadista a cantar poemas de nomes como David Mourão Ferreira, Ary dos Santos e até de Luís de Camões. Também teve uma carreira no cinema como atriz. Encontra-se sepultada no Panteão Nacional.

1920 – 2000 – Alberto Ribeiro – Fadista. Ator de cinema, tenor e fadista. Atuou ao lado de Amália Rodrigues no clássico filme Capas Negras.

1920 – 2021 – Joel Pina – Violista/Guitarrista. Um dos fundadores do Conjunto Raul Nery (com Nery, Fontes Rocha e Júlio Gomes), que acompanhou Amália Rodrigues. Joel Pina, natural do Rosmaninhal, Idanha-a-Nova, acompanhou a fadista durante mais de 30 anos. Começou aos 8 anos a tocar bandolim e distinguiu-se no violão baixo.

1921 – 2012 – Raul Nery – Guitarrista. Um dos maiores nomes da guitarra portuguesa no fado, formou em 1959 o Conjunto de Guitarras Raul Nery, quarteto de elite que acompanhou Amália Rodrigues durante os seus anos dourados. Fora do conjunto, tocou também com Hermínia Silva e Maria Teresa de Noronha, numa carreira que contou mais de seis décadas. Era pai do musicólogo e historiador do fado Rui Vieira Nery.

1922 – 1995 – Manuel de Almeida – Guitarrista. Figura de renome nos retiros e casas de fado lisboetas.

1923 – 2018 – Celeste Rodrigues – Fadista. Fadista tradicional e irmã de Amália Rodrigues.

1924 – 2015 – Deolinda Rodrigues – Fadista. Estreou-se no teatro de revista em 1947, ao lado de Hermínia Silva.

1925 – 2004 – Carlos Paredes – Guitarrista.

1926 – 2019 – Argentina Santos – Fadista.

1926 – 2011 – José Fontes Rocha – Guitarrista.

1928 – 1999 – António Brojo – Guitarrista.

1928 – 2016 – Vicente da Câmara – Fadista.

1928 – 1988 – Fernando Farinha – Fadista.

1933 – 2003 – Fernando Maurício – Fadista.

1933 – 2012 – Luiz Goes – Fadista. Expoente do fado de Coimbra.

1934 – 2015 – Fernando Alvim – Violista

1934 – Frei Hermano da Câmara – Fadista. É um cantor e monge beneditino português. Defende o apostolado através da música para edificar a civilização do amor e promover a cultura da paz.

Muitos mais poderíamos nomear, como Carlos do Carmo, já falecido, João Braga e Nuno da Câmara Pereira, mas a lista já vai longa, pelo que ficamos por aqui.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 15-10-2024)



9 de outubro de 2024

TEMPOS DE OUTROS TEMPOS

 

Iniciei esta crónica na manhã do último dia de setembro, ainda sem saber como lhe inserir um conteúdo que não fosse pessimista face aos tempos que correm, mas antes encontrar uma dose de otimismo mais adequada no caminho daquele lenitivo que necessitamos para os acontecimentos que nos chegam todos os dias.

Sobre a minha secretária, n’ “O Mensageiro”, de outubro 2024, na rubrica Sessão com Arte, Isabel Maria Mónica em “Tecer de Verão o Tempo”, escreve “quando damos por nós já estamos em modo de repetição desenfreada mal pensando nas nossas ações e decisões diárias. Face a este ritmo acelerado, importa recordar o verão com o coração agradecido e disponível”.

“O Papa Francisco foi o primeiro a dizer-nos que vivemos uma terceira guerra mundial aos pedaços” – escreve a jornalista Rosário Salgueiro. O mês de agosto alertou-nos que a crise atual ‘parece permanentemente imparável’. Estamos todos cansados desta tensão, destes conflitos que, mais ou menos longínquos, nos atingem a todos. Há nestes dias negros de guerras, um claro “fracasso da política e da humanidade”.

Este verão começou lindo e tranquilo, terminou violentamente, transformado em luto e trauma para várias famílias.

Olhando para a paisagem do mês de outubro, é este marcado pela mudança da cor das folhas, que começam lentamente a cair com a chegada do outono. Vai haver mudança de hora, marcando a diminuição das horas de sol. Como a vida é feita de ciclos, alguns são de declínio, de debilidade e de fim.

Das memórias que vou trazendo para os prezados Leitores, quer sejam da região serrana, com destaque a Covilhã, quer de formulada opinião, podem ser lidas nos jornais ou online.

Folheando ocasionalmente uma das minhas compilações, vieram-me à mão, do ano 1943, notícias de alguns acontecimentos marcantes na vida da cidade laneira.

No dia 1 de maio de 1943, o Notícias da Covilhã publicava no seu semanário, destacando o título “IGREJA DE SANTA MARIA”: “Estão já em curso as obras de reparação de que carecia a sua Igreja Paroquial”, que “bem se pode chamar a Igreja Matriz da Covilhã”. No entanto, no mesmo semanário de 18-07-1943, a primeira página dava conta em grandes parangonas –“Horrível Tragédia – A Covilhã Inteira de Luto –, que, no passado dia 13, no preciso momento em que se concluía a Missa em honra de Nª Sª de Fátima, desabou uma parte do teto da Igreja de Santa Maria, sepultando nos escombros uma parte dos fiéis que assistindo ao piedoso ato, uma imprevidência incompreensível e inexplicável do empreiteiro que tem a seu cargo as obras em curso na dita Igreja, provocou grande desgraça que já custou a vida a sete mulheres, havendo muitas dezenas de feridos mais ou menos graves. O pânico dos feridos e o pânico muito maior das famílias que tinham membros na Igreja era indiscritível na natural ansiedade em os procurar”.

No dia 17 de janeiro de 1943, o Notícias da Covilhã dava notícia, na primeira página, que “O Exm.º Sr. Engenheiro Duarte Pacheco é cidadão da Covilhã. O Sr. Ministro das Obras Públicas aprovou o projeto da Praça do Município, e para a sua realização concedeu a verba de 812 contos”. Entretanto, este ministro veio a falecer de acidente de viação, em Setúbal, em 16 de novembro do mesmo ano. Em 28-11-1943, a Câmara Municipal da Covilhã dignou-se promover os sufrágios que se realizaram na Igreja da Misericórdia, no 7º. Dia do passamento do desventurado ministro. O malogrado estadista louletano tratava a Covilhã com carinho e devoção inexcedíveis, de que são expoentes as obras em curso, da Praça do Município, os Bairros Económicos, a nova Cadeia e, no zénite de todas elas a Praça Fechada (designa-se atualmente Mercado Municipal, tendo sido inaugurado no dia 08-12-1943). Este Praça Fechada foi a primeira do País que o ilustre finado não teve tempo de inaugurar.

Neste ano de 1943 (*) deu-se também um grande incêndio no Tribunal Judicial, onde atualmente se situa a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, mais conhecida por Igreja de S. Tiago, o qual foi devorado pelo fogo a 27 de novembro de 1942 (**). Recuperado pelos Jesuítas em 1947, o novo edifício reabriu ao culto a 10 de fevereiro de 1952.

Ainda o Notícias da Covilhã de 04 de janeiro de 1943 dava a notícia do novo Pároco de S. Pedro: “Sem receio de contradita, podemos dizer, afoitamente, e até alegremente, que foi um acontecimento citadino a posse do novo pároco de S. Pedro, Sr. Padre José Domingues Carreto, aparentado como ilustre Reitor dos nossos seminários, Monsenhor Santos Carreto, cujas virtudes herdou. A cerimónia estava marcada para as 11,30 vendo-se a essa hora repleta de fiéis a pequena capela de S. João de Malta, servindo atualmente de Paroquial”. Substituiu o Arcipreste, Padre Gregório Lopes Arroz.

Por último, e porque falei da Igreja de S. Tiago, recordo que no dia de Todos os Santos, um domingo de 1 de novembro de 1953, faleceu, quando celebrava a Santa Missa, no momento da homilia, o Padre Jesuíta José Moreira da Cunha, com 67 anos.

Também muitos ainda se devem recordar do Irmão Tobias Gaspar (Jesuíta), falecido em 14-01-1996, com 85 anos. Esteve na Companhia de Jesus 66 anos, e a maior parte deles vividos na Covilhã (S. Tiago), durante quase 49 anos.

(*) Reportado no livro “Vida e Obra dos Bombeiros Voluntários da Covilhã”, pág. 321, cujo ano do incêndio não coincide com o referido no livro “História Urbana em Postais e Fotografias da Freguesia de São Pedro da Covilhã (1890-2000)” (**), pág. 61, pelo que carece de mais informação, para o cabal esclarecimento.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 09-10-2024)

4 de outubro de 2024

OLIVENÇA E A “REAL POLITIK”


 


Vem este texto a propósito das enérgicas palavras que disparou o Ministro da Defesa, Nuno Melo, no dia 13 de setembro, aquando da sua participação na cerimónia comemorativa do Dia do Regimento de Cavalaria nº. 3 (RC3), em Extremoz, onde passou parte do serviço militar. O seu pecado foi ter tido a coragem de lembrar que Olivença é portuguesa, “de jure” e não “de facto”, desde o tratado de Alcanizes em 1297. Só que Espanha, na sua chico- espertice anexou Olivença mantendo-a integrada na província de Badajoz. No entanto, deve ser devolvida a Portugal, conforme tratado do Congresso de Viena de 1815, e que em 1817 a Espanha reconheceu a soberania portuguesa. Por isso mesmo, aquela unidade militar portuguesa é também conhecida por Dragões de Olivença.

Não é que eu tenha qualquer simpatia por Nuno Melo, penso, contudo, que poderia ter tido um pouco mais de moderação nas suas palavras. Mas também discordo em parte das de Pedro Nuno Santos, líder do PS, bem como das de Sérgio Sousa Pinto, comentador político do mesmo partido, vindo logo a assustar com possíveis represálias de Espanha. Foram na onda do alcaide de Olivença Manuel José González Andrade, tendo dito que os discursos que procuram “separar através das fronteiras, no século XXI, foram mais que esquecidos e pertencem a séculos passados”.

Enfim, conforme refere o Público, de 13-09-2024, “apesar da diplomacia portuguesa continuar, sem reconhecer a soberania espanhola sobre Olivença, o tema chega a ser ‘não-assunto’ entre os dois Estados, não perturbando as relações”. O que é certo é que Olivença celebra o Dia de Portugal e a população continua a procurar preservar o legado português, desde a língua à nacionalidade.

Para Carlos Luna, historiador e membro do Grupo dos Amigos de Olivença, as declarações de Nuno Melo não fazem mais do que chamar à atenção para uma posição que Portugal tem mantido há dois séculos e que continua por resolver.  “Creio que o Estado português poderia pressionar Madrid, pelo menos no sentido de autorizar que os oliventinos conhecessem a sua própria história logo na escola”. Este ativista da causa de Olivença considera que a ação espanhola na localidade “só pode ser considerada como colonizadora”.

Olivença tinha 11 871 habitantes em 2021. Esta cidade dista 23 Km de Elvas, 24 Km de Badajoz, 236 Km de Lisboa e 424 Km de Madrid. Pertenceu a Portugal desde a sua fundação, no século XIII após a reconquista cristã, e foi integrada no território português pelo Tratado de Alcanizes, em 1297, conforme inicialmente referido, durante o reinado de D. Dinis. Em 1801, durante a chamada Guerra das Laranjas, Olivença foi ocupada por Espanha, e a sua posse foi confirmada pelo tratado de Badajoz, assinado nesse mesmo ano, embora Portugal nunca tenha oficialmente reconhecido a anexação. A 14 de agosto de 1805 era lavrada a última ata da Câmara e Olivença em língua portuguesa. Longe da ameaça de Napoleão, em 1 de maio de 1808, o príncipe regente D. João (futuro D. João VI) publica no Rio de Janeiro, então capital do Império Português, um manifesto no qual repudia o Tratado de Badajoz. Em 1811, Olivença é temporariamente ocupada por contingentes luso-britânicos sob o comando de Lord Beresford. Após o Congresso de Viena de 1815 que sucedeu às Guerras Napoleónicas, as potências europeias decidiram que Olivença deveria ser devolvida a Portugal, mas a Espanha nunca implementou essa restituição, e a cidade permaneceu sob administração espanhola até hoje. Em 1821, a partir do Brasil, Portugal ocupou a Província Cisplatina (atual Uruguai). Este facto serviu de justificativa espanhola para interromper as conversações sobre a devolução que decorriam. Paralelamente, Espanha argumentou (e continua a argumentar) que o Tratado de Badajoz de 1801 continua válido e que o Tratado de Viena não tem força legal suficiente para obrigar à entrega de Olivença a Portugal. Entretanto, em 1840 passou a ser proibido o uso da língua portuguesa no território, incluindo nas igrejas, conforme narrado na Wikipédia.

Na segunda metade do século XX, o general Humberto Delgado e o almirante Pinheiro de Azevedo foram fervorosos adeptos da recuperação de Olivença, tendo ambos desempenhado funções de destaque no Grupo dos Amigos de Olivença, fundado em 1944.

A Covilhã tem uma rua com o nome Rua de Olivença, que substituiu a antiga denominação de Rua do Vigário. Foi inaugurada no início do ano 1956, de harmonia com o deliberado pela edilidade covilhanense, sob a presidência do coronel António Matoso Pereira, em cuja ata da sessão camarária de 24-01-1956, referia: “Rua de Olivença – Datado de 12 do corrente, do secretário-geral do Grupo Amigos de Olivença, solicitando à Câmara que a uma das artérias desta cidade seja dado o nome de ‘Olivença’. Informo ainda que, gostosamente, o Grupo Amigos de Olivença levaria a efeito uma conferência desta cidade sobre o elevado significado do nome da nova artéria, no dia da sua inauguração. A Câmara considerou este pedido e deliberou que à atual Rua do Vigário seja dado o nome de Rua de Olivença, o que deverá ser comunicado ao Grupo dos Amigos de Olivença”.

Ora bem, recordo-me perfeitamente desta inauguração, cuja data exata desconheço pois não consultei mais atas da Câmara Municipal da Covilhã ou do Arquivo Municipal. Tinha 9 anos e andava na 3ª. Classe (hoje 3º. Ano), no Asilo – Associação Protetora da Infância Desvalida, como se designava. Nesta escola pertencíamos à Mocidade Portuguesa e entregavam-nos uma farda para os dias festivos, como participar nas comemorações do 1.º de dezembro e Procissões do Senhor dos Passos e Enterro do Senhor, como também em outros eventos que recordo: receção aos militares que regressavam da Índia Portuguesa, junto à Câmara Municipal, no Pelourinho.

Outro dos eventos seria (mas não foi da minha parte) participar fardado da Mocidade Portuguesa, junto ao local onde foi a inauguração da Rua de Olivença. Não me desloquei porque estava uma tempestade, chovia torrencialmente, e a conselho de meu Pai, não saí de casa.

Na situação atual, embora Olivença esteja sob controle espanhol, a questão permanece formalmente não resolvida. Portugal mantém a sua reivindicação, embora o assunto não cause tensões diplomáticas significativas nos dias de hoje. A cidade e a sua cultura refletem uma mistura de influências espanholas e portuguesas, com muitos dos seus habitantes falando ambos os idiomas e com tradições culturais que unem os dois países. Na atualidade, Portugal não reclama abertamente Olivença, mas também não renuncia à sua pretensão.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 01-10-2024)


ASSOBIAR PARA O LADO

 

Neste mês de setembro temos o término das férias da generalidade das gentes das nossas gentes, e das outras gentes a viver por este país fora, quer seja no Continente ou nas Regiões Autónomas, depois de um calor abrasador, apesar de flores coloridas que nos foram rodeando.

É o regresso às tarefas profissionais para uns, enquanto, para outros, além do retorno às aulas nas escolas, é também a azáfama de encontrar casas ou quartos para os que entram pela primeira vez nas universidades.  As preocupações económicas com os gastos acrescidos, são agora mais patentes, enquanto as ações governativas tendentes a serem encontradas, em devido tempo, soluções para estes problemas, é, mais uma vez, numa de assobiar para o lado.

Os partidos políticos, em vez da sua união em prol dos verdadeiros interesses dos cidadãos, vão-se guerreando, na pretensão de fazer desfraldar as suas bandeiras mais que as outras, aproveitando a agitação de alguns ventos, assobiando para o lado quando o grito de revolta dos prejudicados, e dos mais necessitados, se faz sentir.

Mas isto já não é de agora, é de sempre. As promessas vãs, entre as quais se sobressaem a irrevogabilidade das palavras ditas, cujo substantivo, certamente saído traiçoeiramente da voz de quem o pronunciou, acaba, quantas vezes adornado de outra forma de anular a decisão tomada. Basta assobiar para o lado.

Recentemente foi a fuga de cinco reclusos perigosos do Estabelecimento Prisional de Vale de Judeus, um local considerado altamente seguro, mas, talvez em situações de assobiar para o lado nas decisões ou cautelas acrescidas a tomar, vimos que “de alta segurança” transformou-se numa escada “de alta descida” dos presos que assim se aproveitaram da “incompetência” e “cadeia sucessiva de erros e falhas” nas palavras da ministra da Justiça, Rita Alarcão Júdice.

E que dizer da corrupção que cada vez mais portugueses a consideram como prática comum no nosso país? Se não se assobiasse tanto para o lado e se de frente se enfrentassem os problemas com eficácia, numa severidade na aplicação das penas, em tempo célere como noutros países e não naquele coçar da cabeça, deixando que os processos sejam anulados por terem ultrapassado o prazo, certamente tudo seria mais fácil, mandando à fava a nossa peculiaridade dos brandos costumes.

Não estou a incitar à violência, nem a olvidar a tolerância, mas o que é certo e verdade é que a paciência tem limites quando aos nossos olhos se nos depararam com tanto casos de rebeldia profissional numa só de exigência de direitos ocultando os deveres para com o cidadão, muitas vezes envoltos na manta da vitimização.

Fico por aqui, neste âmbito, para evitar más interpretações. No entanto, na edição de 2023 do Índice de Perceção da Corrupção, publicado anualmente pela Transparency International, revela que o combate à corrupção em Portugal continua a não avançar e tem falhas ao nível da integridade na política. Portugal, que é avaliado no conjunto dos países da Europa Ocidental e União Europeia, obteve 61 pontos, fixando-se na 34ª posição em 180 países.

A corrupção é vista como prática generalizada no nosso país por parte de 96% dos portugueses, um número que coloca Portugal como o segundo país da União Europeia (UE)  onde a perceção deste crime é maior, de acordo com o mais recente Eurobarómetro.

Terminado o mês de agosto, os emigrantes viram chegar o fim das suas visitas à terra, familiares e amigos. Fizeram-no numa época em que o termo migração é mais europeu e atual do que nunca. Porém, na memória coletiva, as experiências migratórias permanecem abafadas, naquele assobiar para o lado. O silêncio em torno do 60º aniversário do tratado laboral entre Portugal e a Alemanha, assinado a 17 de março de 1964, que serviu de enquadramento legal para a emigração de milhares de portugueses para um dos principais destinos diaspórios do pós-guerra é sintomático disso, segundo nos narra Clara Ervedosa, no Público de 23-8-2024. “A Alemanha e Portugal são países com uma geografia, história e cultura distintas: Portugal fica no extremo sudoeste da Europa e as suas fronteiras são as mais antigas do continente. Possui uma identidade nacional estável e absorve facilmente o que é estrangeiro. A Alemanha define-se como país situado ‘no coração da Europa’, está rodeada de nove países com quem disputou fronteiras, tendo a última alteração territorial ocorrido há apenas 33 anos”, com a reunificação alemã em 1980, que marcou o fim da divisão entre Alemanha Ocidental (República Federal da Alemanha) e Alemanha Oriental (República Democrática Alemã) que existiam separadamente desde o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945. A reunificação oficial aconteceu em 3 de outubro, após a queda do Muro de Berlim em novembro de 1989. Como se devem recordar, este processo trouxe a integração dos territórios da Alemanha Oriental à República Federal da Alemanha, resultando no que hoje é o território unificado da Alemanha.

E porque desta vez quis salientar a apatia que vai existindo em muito boa gente deste país, naquele de assobiar para o lado, qual Lucília Gago, atual Procuradora-Geral da República, no final do seu mandato, mas na saudade da recentemente falecida, Joana Marques Vidal, não posso deixar de recordar um meu artigo publicado no Notícias da Covilhã, em 24-12-2004, já lá vão 20 anos, sob o título “O ‘OH!’ E O ‘AH!’”, sobre a corrupção.

Para ultimar este texto, que já vai longo, e pegando exclusivamente nas duas interjeições atrás referidas, quero com elas retificar o último parágrafo do meu artigo do último número d’ “O Combatente da Estrela’”, nº. 135, JUL/2024, sob o título “Tempo de férias mas também de reflexão”, numa mea culpa pelo lapso ocorrido sobre Luís de Camões, onde referi: “E assim termina a vida de Luís de Camões, mas fica na imortalidade de Portugal e do Mundo, em que o seu linguajar literário foi sempre reconhecido como erudito. Ele não escrevera para ignorantes”. Deveria ser, mais ou menos neste sentido, que aquela parte deverá substituir: “E assim termina a vida de Luís de Camões, mas ele permanece na imortalidade de Portugal e do mundo, onde sua linguagem literária sempre foi reconhecida como erudita. Ele não escrevia para ignorantes”.

(Este texto foi escrito na noite do dia 12-09-2024)

 

João de Jesus Nunes

CONTE-NOS A SUA HISTÓRIA ANTÓNIO MANUEL LOPES MOREIRA



 

Inserimos neste número d’O Combatente da Estrela uma figura da sociedade covilhanense, Homem bom que dedicou toda a sua vida em prol do humanismo, multifacetado em várias vertentes como o associativismo, onde a sua terra – a Covilhã – é o cerne de todo seu bem fazer.

Tive o privilégio de o conhecer muito cedo e de ter passado por duas unidades militares aquando do serviço militar obrigatório onde ambos estivemos temporariamente: primeiro, viemos a encontrarmo-nos no RAL 4, em Leiria, onde o António Moreira tirava a especialidade de escriturário (fez a recruta em Beja, no RI 3) e eu, aí colocado, então promovido a 1º. cabo miliciano, dando formação de datilografia, viemos a partilhar um quarto, nos fins de semana, onde muitos outros covilhanenses e de outras paragens vieram a ficar, numa zona a caminho do hospital, atravessando uma ponte sobre o Rio Liz. Posteriormente, cada um foi obrigado a seguir o seu destino, tendo o António Moreira depois de frequentar o Curso de Operador Cripto, no BRT da Trafaria, seguido para o RI 12, na Guarda, onde foi mobilizado para Angola, em rendição individual. Também eu, acabei o meu serviço militar obrigatório no RI 12 – Guarda (tive a sorte de não ter sido mobilizado para o Ultramar), não tendo aqui oportunidade de me encontrar com o António Moreira. Acabei por passar à disponibilidade como furriel miliciano e já, na disponibilidade, promoveram-me a 2º. sargento miliciano.

Mas, afinal, quem é o António Moreira, tão falado, tão conhecido, dinâmico toda a sua vida, e que agora pretende repousar um pouco da sua frenética atividade empresarial na área das funerárias, que passou para seu filho? Aproveitámos uma altura em que o filho lhe pediu para o substituir a fim de poder gozar uns dias de férias, e é neste período que entrevistámos o António Moreira, memorizando um pouco do muitíssimo que tinha para nos contar que, segundo o mesmo referiu, não caberia numa página de jornal.

E é verdade! Não sei se na Cidade da Covilhã existe figura tão abrangente no associativismo.

Foi presidente da direção de vários Clubes, entre os quais o Grupo Educação e Recreio Campos Melo, o Grupo Desportivo da Mata, Banda da Covilhã, da qual atualmente é o seu presidente da assembleia geral há mais de 20 anos. Mostrou-me uma lista de 25 coletividades covilhanenses do qual é sócio (com quotas pagas), nalgumas das quais fez parte do seu elenco diretivo.

Foi jogador de basquetebol no Clube Desportivo da Covilhã (CDC), conjuntamente com antigos atletas de futebol do Sporting Clube da Covilhã, como os falecidos Nartanga, João Lanzinha, Espírito Santo, e outros conhecidos covilhanenses, já fora do mundo dos vivos, como o “Pena Branca” (funcionário bancário), o Manecas, o Bichinho, e alguns que felizmente ainda estão entre nós como o Francisco Trindade, João Lobo e Jojó.

Depois de uma conversa que se prolongou para além do tempo previsto, tal o entusiasmo que esta entrevista despertou, respigo algo que obtive deste camarada de outros tempos, a saber:

“As voltas que a vida dá” – António Moreira, pessoa bem conhecida na Covilhã e Região. Com várias distinções a nível regional e nacional: Medalha de Mérito Municipal (Prata), Medalha de Benemérito da Santa Casa da Misericórdia (Prata) e vários diplomas de mérito. Este ex-Combatente realça que muito ficou a dever à vida militar, onde aprendeu a ser Homem e a lutar por uma vida melhor, sempre com objetivos como na tropa. Cedo começou a vida militar com dificuldades: recruta em Beja. Depois, com alguma sorte tirou a especialidade de escriturário, como já referimos, sem que, no entanto, nunca tivesse visto uma máquina de escrever. A sua profissão era tecelão na indústria covilhanense – Fábrica Alberto Roseta. A sua surpresa foi ter ido para a sua segunda especialidade – Operador Cripto, terminando este curso com uma boa classificação, ficando em 32º lugar num universo de 220 instruendos. Lutou para não ir para o Ultramar mas quando não esperava, eis que é mobilizado para Angola, em rendição individual, sendo colocado no RI 20 de Luanda. Após três meses seguiu para o norte com uma companhia angolana, onde só estavam o António Moreira e mais outro operador do Continente. Foi uma vida nova. Era uma companhia com muitos jovens negros e mulatos. Para além desta surpresa conseguiu arranjar bons amigos, alguns dos quais ainda hoje se contactam.

Tendo regressado à Metrópole já na década de 70, emigrou para a Alemanha onde arranjou algum dinheiro com que adquiriu a funerária na Covilhã que fora de seu pai. Passou a nova empresa a adotar o nome de Agência Funerária Moreira tendo-lhe dado um cunho de desenvolvimento, sobejamente conhecido dos covilhanenses, tendo criado uma outra agência, com o mesmo nome, no Tortosendo.

Para além da empresa funerária, abriu também a Taberna Laranjinha, local muito concorrido na zona histórica da Covilhã.

Amante do desporto e da cultura, este carola covilhanense, do qual muito, mas muito mais haveria a narrar, foi ainda dirigente do Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes, juntamente com o atual presidente da Direção, João Azevedo, desde que em setembro de 1985 houve necessidade de renovação da Direção por impossibilidade da continuidade do Major Teixeira Lino. Este Núcleo da Covilhã foi inaugurado em 1926 e a nova Direção, então eleita, deslocou-se a Lisboa, que também integrou o António Moreira, naquele ano 1985, para falar com o Presidente da Liga dos Combatentes, General Almeida Viana, grande amigo deste Núcleo, dando luz verde para uma sede condigna. No entanto, esta acabou por se ir situando em vários locais, até aos dias de hoje.

O António Moreira, de 77 anos, casado e com dois filhos, é um autêntico Homem de ação e um exemplo a seguir.

J.J. Nunes

(In "O Combatente da Estrela", nº. 136-OUT2024)

18 de setembro de 2024

O SERMÃO DA MONTANHA E REBECA

 



Dando seguimento a uma minha publicação de 01-02-2023, num quinzenário algarvio, achei por bem, neste período dum estio quentíssimo, voltar a reunir memórias bíblicas do que escreveu Andrea Tornielli sobre a Vida de Jesus, com a concordância do Papa Francisco.

Estávamos então em agosto do ano 28 d.C. Os seus discípulos, uma dezena, procuravam estar com Ele quando saía, quando encontrava as pessoas, quando pregava. Ninguém era ainda capaz de dizer quem fosse verdadeiramente, de onde Lhe vinha tanta força. Jesus, que olhava para eles com um olhar cheio de amor, de compaixão, de amizade, naquele dia percebeu que chegara finalmente o momento de dizer mais, de anunciar o Reino de Deus. A todos, não apenas aos Seus. Por isso, depois de chamar os doze e de ficar algum tempo com eles, decidiu falar às multidões que O esperavam.

Era de manhã e o sol brilhava já alto, iluminando com reflexos brilhantes as águas, naquele dia calmíssimas, do mar da Galileia. Um dia de verão, mas sem calor intenso.

Toda a natureza ao seu redor parecia predisposta a acolher aquilo que Ele estava para dizer. Por trás, o “monte”, uma colina verdejante, do cimo do qual começara a descer uma brisa que teria ajudado a que as Suas palavras chegassem aos que estavam mais longe. Diante dele uma impressionante vastidão de pessoas, vindas não apenas de Cafarnaum e de outras cidades galileias, mas também de Jerusalém, de Sídon, de Tiro.

Estavam acampados procurando repousar à sombra de algum arbusto um pouco mais alto. Alguns estavam vestidos apenas com farrapos, outros pareciam em melhores condições. Mas o rosto de cada um exprimia mais do que as túnicas, os trapos, os alforges. Em cada um deles havia uma pergunta, uma angústia reprimida, uma dúvida, uma pena, um desejo, uma preocupação, uma ferida. Nenhum deles se podia definir saciado ou em paz. Eram estas multidões que conseguiam sempre provocar a compaixão de Jesus, uma compaixão visceral, divina e humana ao mesmo tempo.

Depois de observar por longo tempo a multidão, fez sinal a todos para se sentarem de modo a ouvirem melhor. Foi então que começou a gritar aquela palavra, repetindo-a muitas vezes: “Bem-aventurados! Bem-aventurados! Bem-aventurados!”

Um silêncio irreal cobria a colina, desde as margens do lago até ao cume. Mesmo os soluços e o choro dos mais pequenos se tinham calado. Do lado direito do planalto, à sombra de uma oliveira, estava uma mulher que fora repudiada pelo marido quando ficara grávida dele. Chama-se Rebeca. Era ainda muito bonita, não obstante a vida de privações a que estava constrangida. Mantinha o olhar baixo pela vergonha, não tinha coragem de o levantar em direção a Jesus, nem sequer ao longe como se temesse cruzar o d’Ele. O seu filho, Yehoshua, antes que ela conseguisse retê-lo, subira a correr para se aproximar do Nazareno. Queria ouvi-Lo melhor. Enquanto o Mestre começava a falar, ele sentara-se quase ao lado dos seus pés. Não chegara a tocar-lhe apenas porque Pedro o agarrara. Yehoshua tinha seis anos, dois olhos vivos e caracóis castanhos empastados de areia e suor. No pequeno ficaram impressas apenas umas poucas palavras de Jesus. “Bem-aventurados os que choram porque serão consolados”. “Os que choram…” como sua mãe, ela que não tinha de que viver e passava os dias à procura de qualquer coisa para comer em troca de um qualquer serviço humilde, envergonhando-se da sua condição de repudiada. O pequeno levantou-se bruscamente e, antes que Pedro conseguisse detê-lo, precipitou-se para ao pé da mãe. Jesus seguiu-o pelo canto do olho. Sim, falara também para ele, para aquela criança, também para ela, por aquela mãe…

“Mãe, imma…” O pequeno aproximara-se dela para lhe dizer: “És bem-aventurada também tu, porque choras… Foi Ele que disse! Disse que serás consolada!”

As lágrimas tornaram-se alegria, a pobreza riqueza. O Reino era prometido aos perdedores, aos mansos, aos misericordiosos, aos esfomeados, aos que tinham o coração ferido e sangrante, aos rejeitados, aos perseguidos, aos descartados, aos não apresentáveis.

“Não há nada de verdadeiramente errado em mim”, pensou Rebeca. “Não sou maldita…”, repetia, procurando reter as palavras de Jesus que eram uma só com o seu olhar misericordioso. Só contemplando aquele olhar é que as palavras assumiam o seu significado libertador e revolucionário. É verdade, as bem-aventuranças prometiam algo para o futuro. Mas a consolação já podia experimentar-se no ser olhada por Jesus. Rebeca ganhou finalmente a coragem e sentindo-se amada e compreendida como nunca o fora até àquele momento na sua atormentada vida, levantou os olhos para contemplar o Mestre que falava. Falava também para ela, mesmo para ela.

Jesus retomou a palavra, convidava todos os que estavam a ouvi-l’O a ser sal da terra e luz do mundo. E depois disse aquilo para que viera.

A Rebeca, abraçada ao seu pequeno Yehoshua, daquelas palavras chegaram-lhe apenas fragmentos. Mas também desta vez percebeu que estava a falar com ela e para ela, que falava dela, mulher e mãe repudiada sem ter culpa.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 18-09-2024)

 

PARADOXALMENTE

 


Por razões que se prendem com uma conversa de amigos que se manifestaram interessados em trazer à baila um artigo que publiquei num semanário covilhanense, cuja publicação remonta a 27-02-2004, ou seja, há vinte anos, então sob o título “O Paradoxo”, vou reportar-me a esse texto, uma vez que os interessados são conhecedores das personagens no mesmo inseridas e das facetas que envolveram a situação da emigração dos anos 60 do século XX.

Naquela altura, meados dos anos 60, vivíamos numa pobreza e falta de liberdade a todos os títulos devastadora, onde nem sequer se pensava no desenvolvimento do ensino, perspetivando algumas boas almas remar contra a maré na criação do ensino superior para além de Lisboa, Porto, Coimbra e Évora. Não se conheciam nem estavam para tão rápido a implantação das novas tecnologias e sistemas digitais, que se desconheciam no país, e que só, a pouco e pouco foram surgindo, muito lá para a frente.

Faz-me muita confusão e até estranho que na Beira Baixa, distrito de Castelo Branco, só agora tenha chegado, finalmente, o ensino secundário, no concelho de Vila Velha de Ródão, que era o único deste distrito em que não havia esta oferta (JF de 08-08-2024).

O resultado de dois estudos recentes da empresa de cibersegurança NordVPN mostra como as pessoas utilizam os smartphones em dois dos espaços mais privados. Os dados revelaram que uma maioria significativa (83%) leva os dispositivos inteligentes para a cama, 65% usam os smartphones na casa de banho. Estas informações ilustram como os telemóveis se tornaram indispensáveis em muitos contextos das nossas rotinas diárias. Embora estas pessoas realcem o papel significativo que os smartphones passaram a desempenhar no dia a dia, mesmo em ambientes privados, há muitas pessoas que ainda não estão sensibilizadas para os hábitos de segurança online.

Já num outro meu artigo, inserido noutro semanário covilhanense, em 09-01-2018, sob o título “O Paradoxo de Portugal em 2017” referia que “o ano que findou mostrou-nos duas facetas bem distintas na sua rotação dos 365 dias. E entre o copo meio cheio e o copo meio vazio não podemos deixar de nos firmar na realidade dos acontecimentos surgidos, uns, excessivamente otimistas, outros, justificadamente pessimistas”. O ano de 2017 foi o ano em que a economia cresceu mais do que o privado, o desemprego continuou a baixar e os juros da dívida caíram a pique. Portugal conseguiu dar um pontapé nas agências de rating e saiu do lixo. Foi ainda o ano em que Portugal foi eleito como o melhor destino turístico do mundo. Ainda neste ano António Guterres subiu ao mais alto duma organização mundial, como secretário-geral das Nações Unidas, onde ainda se mantém e Mário Centeno, hoje Governador do Banco de Portugal, havia sido eleito para presidente do Eurogrupo.

No contraste sentimos a amargura dos famigerados incêndios em Pedrógão Grande, que ceifou muitos cidadãos e destruiu imenso património principalmente florestal.

Mas vamos ao assunto a que no início faço referência para o contexto do que me propus escrever.

Os imigrantes, há vinte anos, já eram 5% da população portuguesa, tendo atingido 500 mil no final do ano 2003, com supremacia para os brasileiros.

Por todas as cidades e aldeias do nosso país se instalaram, e muitos vieram a ser acolhidos, cidadãos de diferentes nacionalidades, num cosmopolitismo e multiculturalismo jamais visto até finais da década de sessenta do século XX. Deixámos de estranhar os trajes e modos de vida dos muçulmanos, dos indianos, africanos, e outros, por essas ruas, becos e travessas fora, o que não acontecia há 60 anos em que um homem de cor geralmente só se via integrado numa equipa de futebol.

Hoje, felizmente, são milhares e milhares de homens e mulheres, geralmente fugindo das guerras e da fome, que encontram no nosso país aquele paraíso com que sonharam, contribuindo, desta forma, para que o défice de demografia não seja mais elevado, se ocupem nos trabalhos de subsistência, que, em muitos casos, os portugueses rejeitam, sendo, inclusive, os maiores contribuidores, com os descontos nos seus salários, para a sustentabilidade do sistema da Segurança Social.

Portanto, o que se passa atualmente, e há já uns anos atrás, é exatamente paradoxal ao que aconteceu nos finais da década de 50 e início da de 60 do século XX, onde um forte índice de emigração surgiu, preferencialmente para França, Alemanha, Suíça e Luxemburgo.

Nas Câmaras Municipais era o andar num rodopio diário, para os que pretendiam sair do país legalizados, ao contrário dos que partiam de assalto, muitas vezes em condições infra-humanas, na esperança de encontrar o eldorado, ultrapassando assim dificuldades e sacrifícios.         

O concelho da Covilhã também não ficou incólume a essa avalanche de gente a contribuir para a desertificação das suas terras, mas, por outro lado, a avolumar a remessa dos emigrantes que caíam muito bem nos cofres do Estado Novo.  

Este formigueiro humano vinha principalmente das freguesias rurais, a norte e a sul do Concelho: Minas da Panasqueira, S. Jorge da Beira, Casegas, Sobral de S. Miguel, Unhais da Serra, Tortosendo, Paul, Ourondo, como também de Vale Formoso, Orjais, Teixoso e Aldeia do Carvalho.         

As funcionárias da Câmara Municipal da Covilhã, e um funcionário, naquela época, batiam incessantemente as teclas das máquinas de escrever, tratando da documentação dos que pretendiam emigrar, os quais algumas vezes faziam fila pelo corredor do município, ao tempo dos presidentes da Câmara, Dr. Baltazar e Eng.º Vicente Borges Terenas. Cá fora, havia a recompensa, dos que pretendiam emigrar, para as incansáveis funcionárias, pelo menos algumas…, geralmente com produtos das suas terras, onde não faltavam alguns animeis de capoeira. Os queijos e os presuntos também compunham alguns cabazes, contribuíam para que pudessem ver o adiantamento e informação, sobre a sua documentação, na frente, bem depressa, que o país das patacas ou a terra prometida estava à espera.

 Essas recompensas davam ânimo e um certo dinamismo às senhoras funcionárias administrativas do município, encarregadas da emigração, enquanto o chefe da contabilidade, apesar da escolaridade obrigatória, conhecido influencer da edilidade, na sua popularidade, passava parte do tempo, numa salinha ao lado dos gabinetes do Presidente da Câmara e do Chefe da Secretaria, com os empreiteiros que participavam em concursos de obras municipais, principalmente quando havia Sessões de Câmara.

O Terceiro Oficial da edilidade que fora guarda-redes dos primórdios do Sporting Clube da Covilhã, aos domingos rumava ao Santos Pinto para fazer os comentários do clube serrano que depois, como correspondente do Record e d’A Bola, fazia o seu serviço via telefónica, para os jornais, após os jogos, utilizando o seu telefone da edilidade, mas a expensas dos clubes, obviamente.

Hoje, paradoxalmente, em substituição de uma emigração que agora é de cérebros, subsiste a imigração a rodos, com que as instituições de solidariedade social se veem confrontadas nos pedidos de ajuda em todas as vertentes para além da indigência propriamente dita.

Ficamos por aqui.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 15-09-2024)

5 de setembro de 2024

ESSA É DO EÇA

 

Hoje é sábado. São quinze horas e quinze minutos. Dia 24 de agosto que teima na canícula.

Os altíssimos pinheiros, juntinhos, tentam acalmar o sol escaldante. Benditas e frondosas árvores que, mesmo assim, e apesar de algumas brisas, de quando em vez, pelas frestas deixam passar alguns raios de sol. Fazem-me mudar de lugar. Para outra mesa e banco de madeira mais a jeito. Quase sempre disponível e solitário.

Acabam de sair uns miúdos com os papás. A bicicleta de um dos petizes vem de encontro à minha mesa. O pai pede desculpa. Sorrio. Chegam uns emigrantes, agora simpáticos, sem sobranceria e os “avec” de entre os anos 60 e 90 do século passado. São outros tempos, em que a emigração de hoje agora é de cérebros.

Venho procurar inspiração para a minha escrita. Nesta silly season sobressaem os fogos da Madeira, com a Laurissilva, essa memória ecológica, a mostrar-se em fumo. Por outro lado, a Ucrânia volta a surpreender o mundo com a sua incursão do início deste mês, por territórios onde os russos travaram algumas intensas batalhas contra os nazis. Esta incursão tem um enorme peso histórico e surpreendeu inimigo e aliados.

Enquanto noutra mesa uma família chegada dá satisfação aos seus estômagos, memorizo essa passagem do Eça, aliás, várias passagens do grande escritor, recordando, em síntese, algo sobre os prazeres da comida, cujo pecado ou também não posso olvidar.

Essa do Eça ter romances racistas como “Os Maias”, vamos passar em frente. A investigadora cabo-verdiana que me perdoe, embora a questão racial não seja ignorada, mas agora estão em cima da mesa os momentos eloquentes do Eça de Queirós sobres os comes e bebes.

Então vejamos, aleatoriamente, “uma côdea de ideal e duas garrafas de filosofia” como diria Eça n’Os Maias. É, pois, do “retrato de uma sociedade nas suas contradições, vícios e inércias” que o Presidente da República assim considera o autor. Não há dúvida que Eça de Queirós é o escritor português cuja obra em maior escala menciona a gastronomia como parte da sua fabulação. Nem mesmo em Camilo ou Aquilino são tão frequentes, abundantes e verdadeiramente quase avassaladoras as alusões, referências, descrições e sequências de natureza gastronómica como na obra do grande escritor.

Uma breve pausa para ir apanhar uma folha de papel que o vento me levou já que não tenho aqui o computador e escrevo, desta vez, à moda antiga. Mas voltemos ao assunto dessa do Eça ter a farta mesa literária do escritor bom garfo. A gastronomia marca presença em grande escala ao longo de toda a sua obra. Há descrições avassaladoras de comida e refeições. Alguns jantares memoráveis. Em “O Crime do Padre Amaro” e “A Cidade e as Serras” os livros são pródigos em relatos de comilanças que fazem crescer água na boca. Em “Os Maias”, João da Ega adiou o jantar no Hotel Central para convertê-lo numa “festa de cerimónia em honra de Cohen”. Como aperitivo foi servido vermute. Os criados serviram as ostras. Vinho branco: Bucelas; peixe sole normande; vinho tinto: St. Emidion; poulet aux champignons; ervilhas em molho branco; petits pois à la Cohen; champanhe, ananases, nozes, café; chartrenses e licores; conhaque. O texto tem 24 páginas do romance.

Em “A Cidade e as Serras”, à chegada de Jacinto à quinta de Tormes, segue-se a primorosa narrativa do chamado “jantarinho de Suas Incelências que não demorará um credo”.

E na Correspondência de Fradique Mendes, a cada instante, em cartas, em conversas, se lastima Fradique de não poder conseguir “um cozido vernáculo!”.

E, para terminar, e me ir embora deste local pitoresco, já que um miúdo se magoou no baloiço, grita e incomoda, mas não a uma família à frente acomodada numa mesa a deliciar-se com a comida, com uma bonita toalha estendida sobre a mesa, recordo que também viva e abundante é a presença de bebidas alcoólicas nos livros de Eça, onde constam nada menos do que 1302 referências a bebidas, sendo 227 a vinhos, de absinto a zurrapa.

Em a “Tragédia da Rua das Flores” serve-se o vinho do lavrador; uma canada de tinto bebem os estudantes de Coimbra. Nesta cidade, o estudante Fradique Mendes encharcava-se de carrascão na tasca do Camelas. Os vinhos que mais aparecem nas páginas de Eça são o do Porto, o de Colares e o bom vinho verde. Todos os da sua época. O bom vinho branco das vinhas senhoriais é vendido a vasilha. O lenhador bebe o pichel de vinho com o pão de sêmea; os odres e vinho pendiam de ganchos de ferro; as pipas de vinho enfeitadas de louro eram vendidas pelo servo do castelo.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 01-09-2024)


4 de setembro de 2024

A IGREJA DE SANTO ANTÓNIO DO BAIRRO DO RODRIGO FOI INAUGRADA HÁ 70 ANOS

 

Era o início do mês que iria dar lugar a um tempo mais fresco, situado então entre o solstício de verão e o equinócio de outono. Mas não deixava de continuar a ser verão.

Estávamos no ano de 1954 e em 24 de julho desse ano, o Sporting Clube da Covilhã inaugurava a sua Feira Popular localizada no recinto da Cidade.

Os Leões da Serra, então ainda na primeira divisão nacional, já sem o famoso André Simonyi, sofriam de um castigo imposto pela FPF, referente a um jogo da Taça de Portugal da época passada, consequência do qual esteve a jogar fora, no Campo do Tortosendo, durante os quatro primeiros jogos em casa.

Na Covilhã, tinha-se iniciado uma campanha de “Lembranças para os soldados e crianças da Índia Portuguesa, iniciativa da Cruz Vermelha Portuguesa, Cáritas Portuguesa e Diário Popular”. Prestava a sua colaboração o Núcleo do Corpo Nacional de Escutas. A guarnição militar da Índia havia sido reforçada com tropas metropolitanas. O general comandante da 3ª região militar fazia declarações carinhosas sobre a  forte impressão que lhe causou a magnífica festa militar, a que assistiu na Covilhã, “e que o Batalhão de Caçadores 2 dedicou ao seu contingente expedicionário”.

Entretanto, no princípio deste ano de 1954, iniciaram-se as obras de construção da nova capela do Rodrigo. O pároco de Nossa Senhora da Conceição, a que este bairro pertence, padre José de Andrade, acompanhou bastante de perto os trabalhos de terraplanagem, viu cavar os alicerces, subir as pedras quase uma a uma, encorajou os operários e orientou os trabalhos.

De há muito que se fazia sentir no Bairro do Rodrigo a falta de uma capela que proporcionasse aos moradores a assistência à missa dominical, dado o seu relativo afastamento da Igreja Paroquial de Nossa Senhora da Conceição. A Eucaristia vinha sendo celebrada, há cerca de dois anos, numa das salas das escolas primárias.

Mas a capela acabaria por ver a sua construção concluída e no domingo, dia 5 de setembro do ano da graça de 1954, há 70 anos, era a mesma inaugurada sob a invocação de Santo António, com que ficaria a ser conhecida. “É de linhas sóbrias, mas elegantes, a Capelinha de Santo António”, referia o NC de 04-09-1954 e acrescentava que o traçado é obra da responsabilidade da edilidade covilhanense, que soube “aliar o estilo das moradias às exigências litúrgicas”. “Olha a norte pelo lado do altar-mor, com um arco circular, cavado na parede cimeira. As grandes janelas rasgadas pelo corpo da única nave traduzem decisão e energia e iluminam o interior do templo com uma luz suficiente mas discreta. As três janelas do fundo, quase geminadas espreitam o adro e a linda avenida da frente. Vista de fora, fazendo um todo com o lindo bairro, quase se confunde com as outras casas brancas. Entrando dentro da mesma, a grande porta escancarada, no jeito da entrada das antigas fortalezas medievais, é como dois braços aberto convidando a todos para a calma religiosidade interior. O coro, que a porta fez subir, mais do que as proporções exigiam, tem o sentido da utilidade. Os tetos, em madeira, não são ricos, mas dizem bem na seriedade do templo. O altar-mor que não se ajustará, porventura, com o todo da construção, tem o valor de uma preciosa recordação. Veio da demolida Capela de Santa Marinha. O estado de conservação do seu bom e eterno castanho permitiu que o altar fosse reconstituído, respeitando, no geral, a sua antiga forma. No trono do altar, Santo António preside. Ele é o patrono. Santo António deve sorrir na casa nova e lavada que a fé de um bairro pobre mas cristão quis erguer à memória do mais português dos santos. As duas sacristias, mais espaçosa uma, outra de menores dimensões, servem admiravelmente ao fim a que se destinam. O campanário tem originalidade e sobriedade.”

A inauguração precedeu de um tríduo preparatório, todos os dias, pelas 21 horas, com pregação adequada. Na festa da inauguração teve a presença do Bispo da Guarda, que benzeu a capela e celebrou a missa solene, com sermão, havendo ainda procissão e Bênção do Santíssimo. De tarde foi arrematação de ofertas e quermesse, sendo abrilhantada pela Banda da Covilhã.

Entretanto, em 16 de janeiro de 2004, reportava-me aos cinquenta anos da inauguração da Capela do Rodrigo, em artigo com publicação no NC, onde colaborava, então sob a égide do pároco Padre Fernando Brito dos Santos, que muito tem dedicado parte da sua vida a todo um trabalho hercúleo de entusiasmo em prol das gentes deste Bairro, e de toda a Paróquia, Cidade e instituições em que está envolvido, com assistência resiliente aos mais necessitados, e num sentido para que nada lhes falte. Aqui neste Bairro do Rodrigo, na vontade inquebrantável do seu pensamento, ainda esteve presente a ideia de fazer surgir um Centro de Dia, colaboração em que também me envolveu, juntamente com outros companheiros, mas tal não foi possível, depois de muita labuta. No entanto, na mente do Padre Fernando Brito – o protetor dos pobres e dos jovens, muito empenhado da sua forte experiência dos movimentos operários no seu lema de “Ver, Julgar e Agir”, olhou para a Capela, hoje Igreja, a necessitar de ampliações e alterações adequadas aos novos tempos, num melhor conforto, e eis que eu próprio me vejo também envolvido na colaboração para as obras de remodelação da Igreja que se viriam a concluir em dezembro de 2001, sendo as Eucaristias dominicais celebradas por deferência do Grupo Instrução e Recreio, na sua Sede.

Desta Comissão, de que eu também fiz parte, constavam ainda os paroquianos José Manuel de Brito, Gregório Marques Esgalhado, José Martins (atualmente Diácono) e Manuel Pina Soares.

Nas alterações efetuadas há 23 anos, para salvaguardar a riqueza histórica do altar-mor que foi objeto de total substituição, por outro mais adaptável aos dias de hoje, houve o cuidado do aproveitamento de duas colunas desse antigo altar, oriundo da demolida Igreja de Santa Marinha e parte da pintura em madeira do mesmo, que se comtempla em dois quadros frontais.

O grande entusiasmo do incansável Padre Fernando Brito dos Santos, hoje Cónego, foi ver em grande destaque a imagem de Cristo Ressuscitado, a qual foi adquirida e colocada na altura destas alterações com fortes beneficiações na Igreja de Santo António do Bairro do Rodrigo, no ano 2001.

Hoje, o Padre Fernando Brito, como é mais conhecido, recentemente homenageado pelos seus 65 anos de sacerdócio, e a caminho de nove décadas de vida, não temendo a sua longevidade mas tendo no entanto a fragilidade da sua saúde, é o exemplo de Homem íntegro que deixou já fortes marcas na vida citadina.

Por isso, o dia 5 de setembro de 2024, na comemoração dos 70 anos da inauguração da Igreja de Santo António do Bairro do Rodrigo, é mais uma pedra deste templo a brilhar na alma do Reverendo Pároco.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 04-09-2024)

 

 



21 de agosto de 2024

OS JOGOS OLÍMPICOS E OS ROMANCES DAS FAMÍLIAS REAIS EUROPEIAS



 

Neste período da canícula, onde a Silly Season também se faz sentir, não posso deixar de expressar a minha admiração pelo diretor deste quinzenário que, não obstante o seu estado de saúde fragilizado por uma melindrosa intervenção cirúrgica, se esforça por não deixar que o Jornal O Olhanense se prolongue numa pausa para os prezados leitores. Contrasta assim com a generalidade dos periódicos regionais que pausam para férias.

Para o Amigo Mário Proença, vão assim os votos de rápido restabelecimento.

Na altura em que escrevo esta crónica ainda não terminaram os Jogos Olímpicos de Verão, que se estão a realizar em Paris, mas o seu fim aproxima-se.

Os Jogos Olímpicos são desporto, mas também são palco de muitos romances, incluindo algumas paixões reais. Os reis pioneiros desta modalidade foram Carlos Gustavo e Sílvia da Suécia, que se conheceram há mais de 50 anos nos Jogos Olímpicos de Munique.

Seguiram-se outros membros da realeza: a princesa Ana, do Reino Unido, e Mark Philips; a infanta Cristina de Espanha e Iñaki Urdangarin; Frederik e Mary da Dinamarca ou Alberto e Charlene do Mónaco.

Carlos XVI Gustavo da Suécia é atualmente o rei há mais tempo no trono na Europa e foi o primeiro a conhecer a sua consorte nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972. A rainha Silvia Sommerlath, ex-assistente de bordo alemã, mas com ascendência brasileira, é a única rainha europeia que fala português.

Foi também nos mesmos Jogos Olímpicos que encontraram a união a princesa Ana, filha de Isabel II e de Filipe,  Duque de Edimburgo, do Reino Unido,  e o capitão do Exército, Mark Philips, por força das competições equestres, dando seguimento a uma paixão da família pelos cavalos. Ana viria a tornar-se a primeira atleta olímpica real. Entretanto, o casal viria a separar-se em 1989 e a divorciar-se em 1992.

Nos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996, viriam a conhecer-se a infanta Cristina, filha do meio do rei Juan Carlos e Sofia, de Espanha, e Iñaki Urdangarin, jogador de andebol, cuja equipa ganhou a medalha de bronze. Casaram-se na catedral de Barcelona em 4 de outubro de 1997. No entanto, em janeiro deste ano, o casal divorciou-se.

Nos Jogos Olímpicos de Sydney, no ano 2000, foi a vez de se conhecerem Mary, australiana, e Frederik, dinamarquês, na marina de Sydney, horas depois da cerimónia de abertura dos Jogos. Ele era o príncipe da Dinamarca. Desde o dia 14 de maio de 2004, na Catedral de Copenhaga, Mary e Frederico X já são reis da Dinamarca.

Chegado o ano de 2006, e então nos Jogos Olímpicos de Inverno de Turim, é a vez de Alberto e Charlene do Mónaco se conhecerem.

Charlene Wittstock nasceu na Rodésia, atual Zimbabwe, mas cresceu na África do Sul e desde cedo se notabilizou na natação. Em 2000, estreou-se nos Jogos Olímpicos de Sydney como parte da equipa feminina de natação sul-africana e terminou em quinto lugar. Foi precisamente nesse ano que conheceu Alberto do Mónaco, no evento Mare Nostrum, organizado pelo principado, no qual Charlene arrecadou a medalha de ouro nos 200 metros. A experiência olímpica terá sido um dos pontos em comum entre os dois. Alberto era filho de Rainier III e de Grace Kelly. A ligação do casal com os Jogos Olímpicos não termina aí. É nos Jogos Olímpicos de Inverno em Turim, no ano 2006, que escolhem fazer a primeira aparição pública como casal

Fonte: Público, Exclusivo Monarquia, Inês Duarte de Freitas.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 15-08-2024)

6 de agosto de 2024

SALÁRIOS, PRODUTIVIDADE E A SESTA

 


Neste tempo de muito calor, ou não fora altura dele, ainda que, por vezes, com alterações climáticas que nos vão confundindo, não dá para a disposição de lermos artigos longos.

Vou então registando o que aqui e ali, atento a tudo o que é informação, provinda de várias fontes, me dão o prazer de apreciar o seu contexto.

E é do âmago do meu amigo José António de Sousa, que acumulou mais de quatro décadas de gestão de topo e de liderança na área seguradora, em várias multinacionais, que desde 2003 tive o prazer de o conhecer profissionalmente (desde logo nos tornando grande amigos) que me desperta a inspiração por via do que escreve.

Como consultor independente de empresas e colunista da Executiva, dá um prazer a sua escrita tão acutilante quão enternecedora.

“Nós por cá gostamos sempre de falar de salários, do baixo que são (e são mesmo), sem falar seriamente, com frontalidade, transparência e honestidade, da componente que é determinante para a sua formação), a produtividade.”

Insere um ranking dos salários e produtividade dos países estudados por revista da especialidade.

“Este ranking é claríssimo. O Luxemburgo está no topo porque é o campeão da produtividade na Europa (a produtividade é mais do dobro na nossa…). E até a Espanha tem maiores salários médios que os nossos, devido à sua maior produtividade (apesar de trabalharem menos e de gozarem mais a vida!). O que é ainda mais preocupante é que o custo de vida médio para as famílias naquilo que é essencial (compra de supermercado por exemplo) é inferior em Espanha. Já para não falar da gasolina, do gás (que os espanhóis importam maciçamente da Rússia…), da eletricidade, dos eletrodomésticos de marca (que muitos amigos importam de Barcelona e têm montagem de marca cá!), e um infindável etc. Ganhar mais, trabalhar menos horas (ai de quem quer acabar com o hábito da siesta) e ter a vida mais barata é o que acontece aqui ao lado. Os principais motivos são a produtividade, e o facto de haver maior concorrência entre prestadores de serviços e vendedores de produtos.”

E porque se falou na siesta em Espanha (sesta em Portugal, pensando numa tradução, siesta significa cochilo ou soneca), quero lembrar o seu significado. A siesta é uma prática tradicional em Espanha e de alguns países que falam espanhol, caraterizada por um breve período de descanso ou sono após o almoço.

A origem da siesta remonta ao antigo Império Romano. A palavra siesta vem do latim “sexta”, referindo-se à sexta hora do dia após o nascer do sol, o que na Espanha costuma corresponder ao período entre as 13 e as 15 horas a depender da época do ano.

Durante esse período, era comum fazer uma pausa no trabalho para descansar e se refrescar, especialmente devido ao calor intenso ao meio-dia.

Em Espanha, a siesta começou a ser praticada após a Guerra Civil, época em que as pessoas normalmente tinham mais de um trabalho – um de manhã e outro à tarde. Portanto, era comum fazer uma pausa durante a metade do dia para comer e descansar um pouco antes de ir para o trabalho de tarde. Geralmente aquele cochilinho rápido depois de almoçar, quando geralmente nos sentimos mais cheios e sonolentos!

Não existe um tempo exato para dormir a siesta. Sua duração pode variar entre 15 e 30 minutos. Contudo, algumas pessoas preferem estender esse período até 60 minutos.

Estudos apontam que uma soneca mais rápida pode apresentar muitos benefícios. Além de uma grande melhoria da produtividade e do humor, ajuda a reduzir o stress, melhorar a memória e promover uma melhor saúde cardiovascular.

Por influência da colonização, noutros países que falam espanhol, também existe essa prática. Entretanto, os países em que mais se costuma tirar uma soneca após o almoço são o Japão, Itália, Finlândia, Países Baixos, Alemanha e Reino Unido.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 01-08-2024)

23 de julho de 2024

TEMPO DE FÉRIAS MAS TAMBÉM DE REFLEXÃO

Este periódico “O Combatente da Estrela” tem procurado estar atento aos momentos que se vão vivendo no seio dos Antigos Combatentes, sem olvidar as suas memórias. Isto por via da boa vontade dos vários Colaboradores que voluntariamente aceitam disponibilizar um pouco do seu tempo para encontrar assunto para as páginas que irão de encontro à leitura dos prezados associados. E também para as instituições para quem o mesmo é enviado.

É grande o esforço que recai sobre quem tem a responsabilidade de o deixar pronto em tempo útil. Mas existe sempre o prazer de procurar encontrar meios para que este órgão trimestral não falhe na sua periodicidade programada.

Cada vez temos mais o peso dos anos sobre cada um de nós. No entanto, todo o trabalho, desde as pesquisas às formas de encontrar uma alternativa para um certo lenitivo quando o desânimo nos importuna, talvez seja uma forma de mantermos a parte cognitiva tão salutar quão possível e evitar as suas disfunções.

O carinho no acolhimento deste periódico é patente na avidez de muitos que o procuram logo que algum atraso se verifica. É a fonte de informação consumada na necrologia dos nossos camaradas antigos Combatentes. A nossa última homenagem individualizada que fica no perpétuo registo da nossa informação escrita.

A juventude de hoje poderá encontrar um ponto de reflexão do que foram os tempos de nos obrigarem a entrar numa guerra fratricida, com as inegáveis nefastas consequências para a vida de cada um e das suas famílias.  Destas, dando origem aos seus sofrimentos, dilaceradas pela eterna falta dos seus filhos, pais ou maridos, arrancados do seu seio familiar. Foram prejudicadas fortemente as suas vidas e profissões, com mortes, deficiências físicas permanentes e doenças por stress pós-traumático. Vários casos são contados nas rubricas que vamos publicando: “Conte-nos a sua História”.

Na revista “O Combatente”, de março de 2024, de que é diretor o albicastrense e nosso prezado amigo – amigo de todos os antigos Combatentes – também ele o Presidente da Liga dos Combatentes, Tenente-general Joaquim Chito Rodrigues, no seu excelente editorial, reporta-se às idades dos antigos Combatentes.  De momentos até aos dias de hoje.  E não só, pelo que me permito transcrever parcialmente algo da sua página, para que fique na mente de quem queira refletir sobre o importante assunto das guerras coloniais que nos envolveram durante 13 anos.

“Jovens e Veteranos”

“Contrastes da vida real vêm-nos à memória. Parece que foi ontem. Aos gritos o povo português entoava: ‘Angola é nossa’. Já lá vão 63 anos… Angola é hoje um país independente. Parece que foi ontem. Aos gritos o povo português entoava ‘Grândola Vila Morena’… ‘Liberdade’. Há precisamente 50 anos… Portugal é hoje um país democrático e comemora o cinquentenário do 25 de abril. Há uma parte do povo português que foi ator decisivo nestes momentos importantes da História de Portugal. Alguns deles deram a vida ao escrever essa História. Outros sobreviveram, observam e vivem hoje, na generalidade, os últimos anos das suas vidas.

De facto, quem em 1961 foi chamado às fileiras das Forças Armadas, com os seus 20 anos para marchar para Angola, tem hoje 83 anos. Quem com 20 anos, marchou em 1974, no final da guerra ou fez e comemora o 25 de abril, tem hoje 70 anos. Por outro lado, quem decide hoje em Portugal e nasceu com o 25 de abril, comemora os seus 50 anos, mas não teve a vivência nem da ditadura, nem do PREC, recebendo nas mãos a Democracia. Importa, pois, essa juventude ouvir o que os mais veteranos têm para contar e para sugerir”.

Neste ano da graça de 2024 comemoram-se também os prováveis 500 anos do nascimento de Luís Vaz de Camões. O maior poeta nacional de Portugal considerado uma das maiores figuras da literatura lusófona.

Pouco se sabe com certeza sobre a sua vida. Diz-se que, por conta de um amor frustrado, autoexilou-se em África, alistado como militar, onde perdeu o olho direito na batalha naval no Estreito de Gibraltar. Enfrentou uma série de adversidades, foi preso várias vezes, combateu ao lado das forças portuguesas e escreveu a sua obra mais conhecida, a epopeia nacionalista Os Lusíadas.

“Enquanto viveu queixou-se várias vezes de alegadas injustiças que sofrera, e da escassa atenção que a sua obra recebia, mas pouco depois de falecer a sua poesia começou a ser reconhecida como valiosa e de alto padrão estético por vários nomes importantes da literatura europeia”.

Seu pai, Simão Vaz de Camões casou com Ana de Sá e Macedo, de família fidalga, oriunda de Santarém. Seu filho único, Luís Vaz de Camões, terá nascido em Lisboa, em 23 de janeiro de 1524, baseando-se no soneto “O dia em que eu nasci moura e pereça” atribuído a Camões, e na data de um eclipse ocorrido em 1525. Três anos depois, estando a cidade ameaçada pela peste, a família mudou-se, acompanhando a corte de D. João III, para Coimbra. Por isso, o seu local e data de nascimento são considerados incertos. A sua família era pobre, mas sendo fidalga, pôde ser admitido e estabelecer contactos intelectuais frutíferos na corte de D. João III, iniciando-se na poesia.

Levava uma vida boémia, frequentando tabernas e envolvendo-se em arruaças e relações amorosas tumultuosas.

Os anos finais passados em Goa foram entretidos com a poesia e com as atividades militares, onde sempre demonstrou bravura, prontidão e lealdade à Coroa.

Depois de tantas peripécias, finalizou Os Lusíadas, tendo-os apresentado em récita para o rei D. Sebastião. O rei, ainda um adolescente, determinou que o trabalho fosse publicado em 1572, concedendo também uma pequena pensão a “Luís de Camões, cavaleiro fidalgo da minha Casa”, em paga pelos serviços prestados na Índia.

Viveu seus anos finais num quarto de uma casa próximo da Igreja de Santa Ana, num estado, segundo narra a tradição, da mais indigna pobreza, mesmo assim ainda conseguiu manter o escravo Jau que trouxera do oriente. Depois de ver-se amargurado pela derrota portuguesa na Batalha de Alcácer-Quibir, onde desapareceu D. Sebastião, levando Portugal a perder a sua independência para Espanha, adoeceu de peste, morrendo em 10 de junho de 1580.  Foi enterrado, numa campa rasa, na Igreja de Santa Ana, ou cemitério dos pobres do mesmo hospital. Depois do terramoto de 1755 que destruiu a maior parte de Lisboa, foram feitas tentativas para se encontrar os despojos de Camões, todas frustradas. A ossada que foi depositada em 1880 numa tumba do Mosteiro dos Jerónimos é, com toda a probabilidade, de outra pessoa.

E assim termina a vida de Luís de Camões, mas fica na imortalidade de Portugal e do Mundo, em que o seu linguajar literário foi sempre reconhecido como erudito. Ele não escrevera para ignorantes.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Combatente da Estrela”, nº. 135 – JUL/2024)