6 de agosto de 2024

SALÁRIOS, PRODUTIVIDADE E A SESTA

 


Neste tempo de muito calor, ou não fora altura dele, ainda que, por vezes, com alterações climáticas que nos vão confundindo, não dá para a disposição de lermos artigos longos.

Vou então registando o que aqui e ali, atento a tudo o que é informação, provinda de várias fontes, me dão o prazer de apreciar o seu contexto.

E é do âmago do meu amigo José António de Sousa, que acumulou mais de quatro décadas de gestão de topo e de liderança na área seguradora, em várias multinacionais, que desde 2003 tive o prazer de o conhecer profissionalmente (desde logo nos tornando grande amigos) que me desperta a inspiração por via do que escreve.

Como consultor independente de empresas e colunista da Executiva, dá um prazer a sua escrita tão acutilante quão enternecedora.

“Nós por cá gostamos sempre de falar de salários, do baixo que são (e são mesmo), sem falar seriamente, com frontalidade, transparência e honestidade, da componente que é determinante para a sua formação), a produtividade.”

Insere um ranking dos salários e produtividade dos países estudados por revista da especialidade.

“Este ranking é claríssimo. O Luxemburgo está no topo porque é o campeão da produtividade na Europa (a produtividade é mais do dobro na nossa…). E até a Espanha tem maiores salários médios que os nossos, devido à sua maior produtividade (apesar de trabalharem menos e de gozarem mais a vida!). O que é ainda mais preocupante é que o custo de vida médio para as famílias naquilo que é essencial (compra de supermercado por exemplo) é inferior em Espanha. Já para não falar da gasolina, do gás (que os espanhóis importam maciçamente da Rússia…), da eletricidade, dos eletrodomésticos de marca (que muitos amigos importam de Barcelona e têm montagem de marca cá!), e um infindável etc. Ganhar mais, trabalhar menos horas (ai de quem quer acabar com o hábito da siesta) e ter a vida mais barata é o que acontece aqui ao lado. Os principais motivos são a produtividade, e o facto de haver maior concorrência entre prestadores de serviços e vendedores de produtos.”

E porque se falou na siesta em Espanha (sesta em Portugal, pensando numa tradução, siesta significa cochilo ou soneca), quero lembrar o seu significado. A siesta é uma prática tradicional em Espanha e de alguns países que falam espanhol, caraterizada por um breve período de descanso ou sono após o almoço.

A origem da siesta remonta ao antigo Império Romano. A palavra siesta vem do latim “sexta”, referindo-se à sexta hora do dia após o nascer do sol, o que na Espanha costuma corresponder ao período entre as 13 e as 15 horas a depender da época do ano.

Durante esse período, era comum fazer uma pausa no trabalho para descansar e se refrescar, especialmente devido ao calor intenso ao meio-dia.

Em Espanha, a siesta começou a ser praticada após a Guerra Civil, época em que as pessoas normalmente tinham mais de um trabalho – um de manhã e outro à tarde. Portanto, era comum fazer uma pausa durante a metade do dia para comer e descansar um pouco antes de ir para o trabalho de tarde. Geralmente aquele cochilinho rápido depois de almoçar, quando geralmente nos sentimos mais cheios e sonolentos!

Não existe um tempo exato para dormir a siesta. Sua duração pode variar entre 15 e 30 minutos. Contudo, algumas pessoas preferem estender esse período até 60 minutos.

Estudos apontam que uma soneca mais rápida pode apresentar muitos benefícios. Além de uma grande melhoria da produtividade e do humor, ajuda a reduzir o stress, melhorar a memória e promover uma melhor saúde cardiovascular.

Por influência da colonização, noutros países que falam espanhol, também existe essa prática. Entretanto, os países em que mais se costuma tirar uma soneca após o almoço são o Japão, Itália, Finlândia, Países Baixos, Alemanha e Reino Unido.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 01-08-2024)

23 de julho de 2024

TEMPO DE FÉRIAS MAS TAMBÉM DE REFLEXÃO

Este periódico “O Combatente da Estrela” tem procurado estar atento aos momentos que se vão vivendo no seio dos Antigos Combatentes, sem olvidar as suas memórias. Isto por via da boa vontade dos vários Colaboradores que voluntariamente aceitam disponibilizar um pouco do seu tempo para encontrar assunto para as páginas que irão de encontro à leitura dos prezados associados. E também para as instituições para quem o mesmo é enviado.

É grande o esforço que recai sobre quem tem a responsabilidade de o deixar pronto em tempo útil. Mas existe sempre o prazer de procurar encontrar meios para que este órgão trimestral não falhe na sua periodicidade programada.

Cada vez temos mais o peso dos anos sobre cada um de nós. No entanto, todo o trabalho, desde as pesquisas às formas de encontrar uma alternativa para um certo lenitivo quando o desânimo nos importuna, talvez seja uma forma de mantermos a parte cognitiva tão salutar quão possível e evitar as suas disfunções.

O carinho no acolhimento deste periódico é patente na avidez de muitos que o procuram logo que algum atraso se verifica. É a fonte de informação consumada na necrologia dos nossos camaradas antigos Combatentes. A nossa última homenagem individualizada que fica no perpétuo registo da nossa informação escrita.

A juventude de hoje poderá encontrar um ponto de reflexão do que foram os tempos de nos obrigarem a entrar numa guerra fratricida, com as inegáveis nefastas consequências para a vida de cada um e das suas famílias.  Destas, dando origem aos seus sofrimentos, dilaceradas pela eterna falta dos seus filhos, pais ou maridos, arrancados do seu seio familiar. Foram prejudicadas fortemente as suas vidas e profissões, com mortes, deficiências físicas permanentes e doenças por stress pós-traumático. Vários casos são contados nas rubricas que vamos publicando: “Conte-nos a sua História”.

Na revista “O Combatente”, de março de 2024, de que é diretor o albicastrense e nosso prezado amigo – amigo de todos os antigos Combatentes – também ele o Presidente da Liga dos Combatentes, Tenente-general Joaquim Chito Rodrigues, no seu excelente editorial, reporta-se às idades dos antigos Combatentes.  De momentos até aos dias de hoje.  E não só, pelo que me permito transcrever parcialmente algo da sua página, para que fique na mente de quem queira refletir sobre o importante assunto das guerras coloniais que nos envolveram durante 13 anos.

“Jovens e Veteranos”

“Contrastes da vida real vêm-nos à memória. Parece que foi ontem. Aos gritos o povo português entoava: ‘Angola é nossa’. Já lá vão 63 anos… Angola é hoje um país independente. Parece que foi ontem. Aos gritos o povo português entoava ‘Grândola Vila Morena’… ‘Liberdade’. Há precisamente 50 anos… Portugal é hoje um país democrático e comemora o cinquentenário do 25 de abril. Há uma parte do povo português que foi ator decisivo nestes momentos importantes da História de Portugal. Alguns deles deram a vida ao escrever essa História. Outros sobreviveram, observam e vivem hoje, na generalidade, os últimos anos das suas vidas.

De facto, quem em 1961 foi chamado às fileiras das Forças Armadas, com os seus 20 anos para marchar para Angola, tem hoje 83 anos. Quem com 20 anos, marchou em 1974, no final da guerra ou fez e comemora o 25 de abril, tem hoje 70 anos. Por outro lado, quem decide hoje em Portugal e nasceu com o 25 de abril, comemora os seus 50 anos, mas não teve a vivência nem da ditadura, nem do PREC, recebendo nas mãos a Democracia. Importa, pois, essa juventude ouvir o que os mais veteranos têm para contar e para sugerir”.

Neste ano da graça de 2024 comemoram-se também os prováveis 500 anos do nascimento de Luís Vaz de Camões. O maior poeta nacional de Portugal considerado uma das maiores figuras da literatura lusófona.

Pouco se sabe com certeza sobre a sua vida. Diz-se que, por conta de um amor frustrado, autoexilou-se em África, alistado como militar, onde perdeu o olho direito na batalha naval no Estreito de Gibraltar. Enfrentou uma série de adversidades, foi preso várias vezes, combateu ao lado das forças portuguesas e escreveu a sua obra mais conhecida, a epopeia nacionalista Os Lusíadas.

“Enquanto viveu queixou-se várias vezes de alegadas injustiças que sofrera, e da escassa atenção que a sua obra recebia, mas pouco depois de falecer a sua poesia começou a ser reconhecida como valiosa e de alto padrão estético por vários nomes importantes da literatura europeia”.

Seu pai, Simão Vaz de Camões casou com Ana de Sá e Macedo, de família fidalga, oriunda de Santarém. Seu filho único, Luís Vaz de Camões, terá nascido em Lisboa, em 23 de janeiro de 1524, baseando-se no soneto “O dia em que eu nasci moura e pereça” atribuído a Camões, e na data de um eclipse ocorrido em 1525. Três anos depois, estando a cidade ameaçada pela peste, a família mudou-se, acompanhando a corte de D. João III, para Coimbra. Por isso, o seu local e data de nascimento são considerados incertos. A sua família era pobre, mas sendo fidalga, pôde ser admitido e estabelecer contactos intelectuais frutíferos na corte de D. João III, iniciando-se na poesia.

Levava uma vida boémia, frequentando tabernas e envolvendo-se em arruaças e relações amorosas tumultuosas.

Os anos finais passados em Goa foram entretidos com a poesia e com as atividades militares, onde sempre demonstrou bravura, prontidão e lealdade à Coroa.

Depois de tantas peripécias, finalizou Os Lusíadas, tendo-os apresentado em récita para o rei D. Sebastião. O rei, ainda um adolescente, determinou que o trabalho fosse publicado em 1572, concedendo também uma pequena pensão a “Luís de Camões, cavaleiro fidalgo da minha Casa”, em paga pelos serviços prestados na Índia.

Viveu seus anos finais num quarto de uma casa próximo da Igreja de Santa Ana, num estado, segundo narra a tradição, da mais indigna pobreza, mesmo assim ainda conseguiu manter o escravo Jau que trouxera do oriente. Depois de ver-se amargurado pela derrota portuguesa na Batalha de Alcácer-Quibir, onde desapareceu D. Sebastião, levando Portugal a perder a sua independência para Espanha, adoeceu de peste, morrendo em 10 de junho de 1580.  Foi enterrado, numa campa rasa, na Igreja de Santa Ana, ou cemitério dos pobres do mesmo hospital. Depois do terramoto de 1755 que destruiu a maior parte de Lisboa, foram feitas tentativas para se encontrar os despojos de Camões, todas frustradas. A ossada que foi depositada em 1880 numa tumba do Mosteiro dos Jerónimos é, com toda a probabilidade, de outra pessoa.

E assim termina a vida de Luís de Camões, mas fica na imortalidade de Portugal e do Mundo, em que o seu linguajar literário foi sempre reconhecido como erudito. Ele não escrevera para ignorantes.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Combatente da Estrela”, nº. 135 – JUL/2024)


 

19 de julho de 2024

AS QUERIDAS TELENOVELAS BRASILEIRAS

 

Quase todos passamos nas nossas vidas por duas fases em que umas vezes surge o otimismo, outras emerge o pessimismo, neste sentimento paradoxal entre nós, humanos que somos. Também eu tenho plena consciência de que o meu prazo de validade vai sendo cada vez mais curto, contrastando com décadas precedentes. Tempos houve em que a minha apetência pelos livros se virava para muitas aquisições, onde a História era o meu ponto forte, em livrarias e bibliotecas, e o rigor na génese do que procurava em termos temáticos, chegavam por vezes a prejudicar a minha vida familiar e profissional. Não consegui ler todos os livros que fui integrando, ao longo de uma vida, da minha biblioteca, e que tinha à espera de serem lidos, em grande parte, ainda que alguns na diagonal, com o prazer de outros folhear naquela atração de alguma página me fazer parar na direção do seu conteúdo apelativo.

Resolvi há poucos meses reduzir alguns milhares dos volumes que possuía para algumas centenas, por via de doações a bibliotecas, instituições e particulares, e, outros, já sem o interesse inicial, seguiram o destino do Banco Alimentar.

O formato digital não cabe nas minhas opções de leitura, em livro, ainda que, quanto aos jornais, assino alguns diários neste formato, desde que surgiu a pandemia.

Mas enquanto nos contatavam os habituais vendedores de livros porta a porta, apareciam também as Selecções do Reader’s Digest e o Círculo de Leitores, este do Grupo Bertrand, que proporcionaram a abundância de vendas com o aliciante deste último ter a iniciativa de apresentar as obras completas dos principais autores portugueses, como Júlio Dinis, Eça de Queirós, Camilo Castelo Branco, Aquilino Ribeiro, Alexandre Herculano, Almeida Garrett, entre outros.

Foi entretanto também o tempo da transmissão das telenovelas brasileiras em Portugal, inicialmente ainda a preto e branco.

As primeiras transmissões a cores começaram em 1976, durante as eleições presidenciais, e em setembro de 1979 são transmitidos os “Jogos sem fronteiras”, também a cores, por obrigação europeia. Só em 7 de março de 1980 é que começaram as emissões regulares a cores em Portugal, com o Festival da Canção RTP.

Mesmo com a RTP a preto e branco, consegui, no tempo em que os meus Filhos eram crianças, ver a TV Espanhola a cores, que então se via perfeitamente em Portugal, com antena própria, isto por força de já me ter antecipado à aquisição de uma Grundig no Pinho.

E é então que a RTP inicia na RTP 1 e RTP 2 a emissão diária a cores na sua totalidade, a partir de 3 de novembro de 1980, após ter iniciado período experimental de emissões.

Nos anos 90 surgem a nível nacional as estações privadas: a SIC, a 6 de outubro de 1992 e a TVI em 20 de fevereiro de 1993. Nesta altura a TVI chamava-se “4”, por ser o quarto canal de TV em Portugal.

E é em meados da década de setenta do século passado que o país se deslumbra com as telenovelas brasileiras, mormente após a hora do jantar. Ficavam assim na memória os seus protagonistas – atores sem necessidade de legendas para se fazerem entender.

A primeira telenovela exibida em Portugal pela RTP 1 com um enorme sucesso em todo o país foi Gabriela, corria o ano de 1977 mas a data vem do ano 1975, iniciada no Brasil.

Começou a ser transmitida em 16 de maio de 1977 e foi um enorme sucesso em todo o país. Neste ano, o número de aparelhos televisivos era baixo em Portugal (150 televisores por mil habitantes), o que fazia com que os habitantes das aldeias, pequenas vilas e bairros populares se deslocassem de propósito a cafés, às associações de bairro e de moradores ou sedes de outras associações cooperativas, para poderem assistir à telenovela. A sua popularidade atingiu todos os estratos sociais. Esse sucesso também se refletiu em novos modos de comportamento e de relacionamento social, com algo que nunca tinha sido visto na televisão portuguesa. Influenciou a moda, incluindo os penteados, a escolha dos nomes dos bebés e da linguagem usada (palavras como bacano tornaram-se populares). Essa influência continuaria com outras novelas oriundas do Brasil. Gabriela foi um sucesso estrondoso na televisão portuguesa, abrindo horizonte para a produção de uma série  de novelas portuguesas, sendo a primeira Vila Faia, em 1982.

A transmissão teve lugar até 16 de novembro de 1977, sendo substituída por outra telenovela brasileira, O Casarão.

Por não caber tudo o que gostava de memorizar das telenovelas brasileiras, nesta crónica, apenas menciono algumas delas e alguns dos seus atores com as suas personagens: 1977 – Gabriela (Sónia Braga – Gabriela da Silva; Armando Bogus – Nacib; Paulo Gracindo – Coronel Ramiro Bastos; José Wilker – Dr. Mundinho; Nivea Maria – Jerusa Bastos).

- 1978 - Escrava Isaura (Lucélia Santos – Isaura dos Anjos; Rubens de Falco – Leôncio Correia).

- 1978 – O Casarão (Oswaldo Loureiro – Deodato Leme; Gracindo Júnior – Paulo Gracindo – João Maciel.

- 1978 – 1979 – O Astro.

- 1980 – 1981 – Dona Xepa.

- 1976 – 1988 – Roque Santeiro.

- 1995 – 1996 – Pantanal.

Votos de boas férias, e boas leiruras, para os prezados Leitores que já as puderam programar.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In quinzenário “O Olhanense”, de 15-07-2024)

       


10 de julho de 2024

FUGINDO À GUERRA DO VIETNAME E À DO ULTRAMAR, O COVILHANENSE RUI MATEUS FOI UM DOS FUNDADORES DO PS PORTUGUÊS


Podia ter dado vários títulos a uma crónica sobre esta figura covilhanense, sobejamente conhecida e falada nos meios políticos até finais do século XX.

Tenho na minha memória passagens indeléveis sobre vivências da minha vida enquanto jovem, e das minhas atividades profissionais, e esta, passada com Rui Mateus, reporta-se ao meu primeiro emprego na Rua Dr. Almeida Eusébio, na Covilhã, aos dezassete anos, onde era empregado de escritório numa empresa de representações de lãs e acessórios para a indústria de lanifícios, então em florescimento, que dava pelo nome de João Lopes Barata.

Eu andava ainda a completar o Curso Geral do Comércio na Escola Industrial e Comercial Campos Melo, mas como às minhas algibeiras não chegava nenhuma semanada, nem sequer a mais pequena nota de vinte escudos, pois o único vencimento de meu Pai, funcionário da biblioteca municipal durante largos anos, não era suficiente para sustentar oito pessoas em casa, decidi procurar um emprego e completar os estudos à noite, como trabalhador-estudante, o que veio a suceder.

Foi uma forma de passar da teoria à prática, trabalhando em contacto com o público e com os vários Bancos que prosperavam na Cidade laneira, bem como solicitadores e advogados, na penumbra de um aprendiz no horizonte da vida.

Escreviam-se ali muitas cartas para o estrangeiro, em francês e inglês. Em francês não tínhamos problema de maior, tanto eu como o meu patrão. As mais problemáticas envolviam a língua inglesa onde o meu inglês, proveniente da Drª. Maria Cerdeira, ainda não era suficiente para a fluência e desenvolvimento da escrita já que só tivera dois anos com esta excelente professora. Teria depois, até concluir o Curso, mais três professoras de Inglês, nada comparadas com a Drª Maria Cerdeira (Maria do Céu Proença, Evalina e Fernanda Pais). O meu patrão não percebia patavina desta língua. Mas havia a necessidade de entrar em negociações com fornecedores de amostras das lãs dos carneiros merinos, e de outras paragens como da Austrália, ou de pêlo de camelo, para eventuais concretizações de negócios. Quanto a rolamentos SKF para as indústrias já eu me desenrascava nos pouco mais de cinco meses que estive ao serviço daquele patrão. Fui apanhado para o meu primeiro emprego quando me preparava para fazer o exame de transição de dia para a noite, na Escola Industrial, que se realizavam em finais de setembro, e que contemplava o 2.º ano de História, Cálculo Comercial e Francês, a fim e não atrasar um ano, uma vez que de dia eram cinco anos e à noite eram seis.

Quando surgia a necessidade de escrever algumas cartas em inglês, ou para traduzir as rececionadas, dois dias por semana entrava no escritório um rapaz, antigo estudante do Colégio Moderno – o Rui Mateus, que já conhecia do meio estudantil citadino e fazia as traduções com rapidez. No final do mês recebia 50$00 pelo seu trabalho que geralmente não ultrapassava uma hora. Estávamos no ano 1963.

Como entrava na biblioteca municipal e passado muito tempo deixei de o ver, vim a tomar conhecimento de que havia estado com uma bolsa na América, obtida através da American Field Services, seguindo as pisadas do irmão mais velho, para estudar e viver com uma família norte-americana em Cedar Rapids. Foi a experiência mais marcante e formativa da sua vida, através da qual se familiarizou com a língua inglesa, um futuro precioso na sua carreira política futura.

A sua história é longa e encontra-se há muito longe de se saber o seu paradeiro. Seriam necessárias muitas páginas para se contar o suficiente sobre o covilhanense Rui Fernando Pereira Mateus, nascido em 16 de abril de 1944, na Covilhã, filho de um comerciantes da Covilhã que se associou a uma empresa de tecelagem que, graças à nossa adesão à EFTA e mercê da atividade exportadora, conheceu grande prosperidade; que lecionou nos Estados Unidos, casou na Suécia, teve envolvimentos com outra, entrou na política com elementos tão conhecidos como Mário Soares, com o qual viria a fundar o PS. Foi deputado por este partido na Assembleia da República, e estava muito interessado a vir a ser Ministro dos Negócios Estrangeiros.

Regressou a Portugal, por volta dos 18 anos, altura em que esteve no meu local de trabalho, para traduções de inglês, nessa altura, a fim de fugir a ser mobilizado, na América, para a Guerra do Vietname.

Mas pouco depois decide partir de Portugal, refratário à Guerra Colonial, para um exílio de cerca de uma década, primeiro para Inglaterra, depois para a Suécia onde viria a licenciar-se em Ciências Sociais e Políticas.

Esteve envolvido no Caso do Fax de Macau, após ter sido contactado em março de 1988 por um filho de um fundador do PS, tal como ele, com boas relações com o presidente da República, Mário Soares.

Deste imbróglio em que quis envolver o Governador de Macau, Carlos Melancia, correm rios de tinta e Rui Mateus incompatibilizou-se com Mário Soares. Com o desfecho do fax de Macau, viria a ser preso.

Das zangas com Mário Soares, escreveu um livro-bomba, “Contos Proibidos – Memórias de um PS desconhecido”, com uma colossal tiragem de 30 mil exemplares que esgotou no próprio dia.

Não vou escalpelizar o que foi do conhecimento de então e que já está no arquivo dos esquecimentos, sendo a referência feita pelo facto de momentaneamente ter convivido profissionalmente com ele, muito poucochinho, e ser do conhecimento dos covilhanenses.

Memórias do passado.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 10-07-2024)

 

3 de julho de 2024

ENTRE A PRIMEIRA MISS PORTUGAL E A PRIMEIRA INFLUENCER PORTUGUESA

 

Da leitura do Público de 2 de junho de 2024, vai a minha atenção para este tema, que eu defini, sobre o olhar da vivência da mulher de tempos que já lá vão, que deixaram marcas pela sua elegância e beleza “bem portuguesa”.

Quando a 11 de abril de 1970 Ana Maria Lucas foi coroada a primeira Miss Portugal, a imprensa elogiava-lhe a pele morena e a elegância, a par do seu sorriso, que lhe dava uma enorme beleza.

Passaram-se mais de 50 anos depois deste evento, e agora, com 75 anos, após um AVC e com dois filhos (Francisco e Miguel), fruto do seu casamento com Carlos Mendes, mantém um sentido de humor. Tem dois netos. Emociona-se quando refere que “não era nada sem a família”. É que, diz ainda: “Salvei-me por causa dos meus filhos e dos meus netos”. Era com os filhos que estava quando, em 2009, sofreu um acidente vascular cerebral, deduzindo tenha sido motivado pela depressão de que sofria. E foi por isso que se salvou.

A recuperação foi dura e longa. Nunca mais conseguiu voltar a trabalhar em televisão, onde era comentadora assídua, além de apresentadora.

Apesar de não gostar de recordar o passado, continua a ter mazelas dos tempos da ditadura, refere. “Os meus pais ficavam com o dinheiro todo que eu ganhava e só me deram o cheque quando me casei”, e não se esquece das vezes em que o pai, jornalista do Diário de Notícias, foi preso. Sempre se sentiu livre e “à parte” do resto do mundo por trabalhar em moda. Ainda antes de ser miss, aos 17 anos, já fazia “passagens de modelos” no “programa feminino” da apresentadora Maria Leonor da RTP.

A sua vida pacata havia de mudar em 1970 quando Maria Leonor a inscreveu na primeira edição do concurso Miss Portugal.

A outra concorrente a Miss, em ditadura, foi Helena Isabel. Tem 72 anos. Quer ser, e será atriz enquanto viver, segundo conta. É mãe e até quase influencer. Agora, apesar de já sentir alguns pequenos problemas da idade, é voz do envelhecimento ativo e “ainda tem muito para viajar”. É defensora das mulheres e continua na fila da frente pela igualdade do género desde antes do 25 de abril, quando ser atriz não era uma profissão digna. Esta Helena feminista quase pode ser paradoxal com a Helena Miss Portugal 1971. “Fui participante no Miss Portugal e, quase logo a seguir, arrependi-me. Nós lutávamos muito contra a mulher-objeto e o concurso era o expoente máximo disso”, recorda, lembrando que o concurso de beleza lhe deu oportunidade de viajar, uma das suas maiores paixões. “(…) O estigma vê-se também no teatro e na televisão com os atores mais velhos a serem colocados em prateleiras ou a ficarem com as sobras dos poucos papéis. Claro que os novos nomes vão sempre surgir, mas um ator não se reforma. O ator é ator até morrer”.

Lili Caneças (Maria Alice Carvalho Monteiro), hoje com 80 anos, foi a primeira influencer portuguesa, a mãe do jet set à portuguesa. Deu uma entrevista ao Público sobre o tema da longevidade. Fazem-na feliz o ter protagonismo, as pessoas olharem para ela e darem-lhe palmas, confessa. Foi assim que o seu nome próprio foi designado por Manuel Pinto Coelho por Lili Caneças. Foi ela a primeira figura pública portuguesa a falar abertamente sobre as intervenções estéticas, no tempo em que ainda eram um tabu.

Em 2001, o famoso peeling abriu os noticiários televisivos em Portugal com a socialite a  fazer uma conferência de imprensa em direto.

A sua vida de estudante universitária havia de durar pouco. Aos 19 anos começou a trabalhar como assistente de bordo na TAP. Entretanto, conheceu o marido, Álvaro Caneças. Foi ele que lhe deu acesso à vida de luxo, mas o tempo havia de tornar o divórcio uma inevitabilidade. Ela começou a trabalhar em televisão, mas manteve os contactos entre o jet set, que a continuaram a levar a Monte Carlo, no Mónaco, ou na Florida. “Tenho um sonho que é fazer uma geminação entre Monte Carlo e Cascais. Seria muito bom recebermos turistas com poder económico em Cascais”, conta a autodenominada “tia de Cascais”.

“Não sente a idade” a passar-lhe pelo corpo, até porque “detesta a velhice”. “Não gosto de repetir prazeres. Gosto de estar sempre a fazer coisas novas”, termina Lili Caneças, com o brilho de quem ainda tem muita vida a palmilhar depois dos 80.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 01-07-2024)

21 de junho de 2024

QUANDO COMEÇOU O FUTEBOL EM PORTUGAL E SE INICIOU O PRIMEIRO CAMPEONATO ORGANIZADO

 


São muitos os autores com opiniões díspares sobre as origens do futebol moderno em Portugal. Encontramo-nos envoltos por muita contradição e penumbra, embora para a grande maioria das pessoas que têm contribuído para a História do Futebol em Portugal, não haja duas opiniões contrárias em relação à introdução da modalidade no nosso país: veio da Inglaterra, pela mão de alguns jovens lusos educados nos melhores colégios daquele país.

Todavia, surgem algumas contradições no que concerne ao local, ou locais, onde se teriam dado os primeiros pontapés na bola.

Na Ilha da Madeira, num pequeno muro do parque do Jardim infantil da Camacha, inseria-se em letras metálicas: “Aqui se praticou futebol pela 1.ª vez em Portugal em 1875”.

No Continente continuou a ser difícil com exatidão saber onde se jogou pela primeira vez futebol.

Sabe-se, ou conta-se, que se jogava aos domingos em Belas, no ano de 1888. Era tal o entusiasmo que tanto os novos como os velhos, entre os quais Eduardo Pinto Bastos (pai) e D. Fernando da Silva Coutinho (Marquês de Borba) jogavam com rapazes vinte e trinta anos mais novos. Nessa peleja havia um grupo que mais tarde estaria nas origens do Sporting Clube de Portugal.

O grande dinamismo da modalidade pertence aos irmãos Pinto Basto que após regressarem dos seus estudos em Inglaterra, em 1886, trazem as famigeradas bolas que haveria de dar o pontapé de saída na grande implementação que o futebol viria a conhecer entre nós. O irmão mais velho, Guilherme Pinto Basto, considerado por alguns como o introdutor do futebol em Portugal, promoveria uma exibição a título de ensaio, em Cascais, num domingo de outubro de 1888.

No livro da história do Gimnásio Clube Português de 1875 a 1935, pode ler-se: “É importante recordar – agora que o Foot-ball tem uma apaixonante popularidade – que em 1891 o Gimnásio Clube introduziu este jogo em Lisboa apresentado no Campo Pequeno o primeiro grupo a jogar em público”, se bem que respeitável tal afirmação não nos parece completa de rigor histórico, conquanto se sabe da existência de outros jogos em 1888  e 1889.

Ter-se-á que atribuir ao “Ginásio Clube Português” (como único clube oficialmente legalizado) em conjunto com o “Lisbonense” o precursor do futebol organizado em Lisboa, numa fase ainda primária.

Surge então o primeiro Campeonato de Portugal, 1921/1922. O Sport Lisboa, cuja publicação data de 1914, foi o grande paladino para o incremento de campeonatos a nível nacional. Juntamente com o Jornal de Sport fizeram a fusão dos dois jornais que levou à criação do Sport de Lisboa.

Em 1917, Ribeiro dos Reis insistia na realização de um evento futebolístico a nível nacional.

Finalmente, em 1922, oito anos após a fundação da União Portuguesa de Futebol, surgiu a Primeira Prova Oficial a nível nacional denominada Campeonato de Portugal.

Das 17 edições deste Campeonato, iniciado na época 1921/22, teve a sua final em 18-06.22, no Porto, sendo vencedor o F. C. Porto sobre o Sporting por 3-1; na época 1922/23, com a sua final em Faro, no dia 24-06-1923, coube a vez ao Sporting que venceu a Académica por 3-0. E ao terceiro ano deste Campeonato de Portugal, realizado em Lisboa, no dia 08-06-1924, tornou-se facto histórico para o Olhanense, ao bater o F. C. Porto por 4-2, sendo assim Campeão de Portugal nesse ano. É por isso que muito meritoriamente se pode orgulhar de neste ano da graça de 2024 estar a comemorar o seu centenário de Campeão de Portugal. Foi o único representante do Algarve com o brilhantismo deste êxito.

Fora dos chamados “quatro grandes” só viria a suceder o mesmo com o Marítimo, em 1925/26, e com o Carcavelinhos, em 1927/28.

Depois deste Campeonato de Portugal, que terminaria na época 1937/38, dar-se-ia início ao Campeonato Nacional da I Divisão (hoje I Liga), até aos dias de hoje, tendo o antigo Campeonato de Portugal sido integrado na Taça de Portugal, com início na época 1938/39. A primeira final desta Taça foi realizada em Lisboa, no dia 25-06-1929, sendo vencedora a Académica que bateu o Benfica por 4-3.

Entretanto, o Sporting Clube Olhanense, como o clube da minha Terra, o Sporting Clube da Covilhã, como é sabido, jogaram vários anos na I Divisão Nacional, tendo-se defrontado com galhardia.

Nesta celebração centenária do grande evento do Sporting Olhanense, vão os nossos parabéns e votos de que surja bem depressa um futuro risonho.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “O Olhanense”, de 15-06-2024)


5 de junho de 2024

SESSENTA E UM ANOS A INFORMAR E A INCENTIVAR

 


Se formos fazer uma nova história do jornalismo em Portugal, desde os longínquos tempos da sua génese, certamente que vamos encontrar uma evolução, por vezes latente, mas mais vezes na sua evidência, que vai sendo salpicada por tempos de figuras proeminentes na vertente da história, da 
literatura, da política, do desporto.

É também a ânsia de encontrar respostas mais céleres para as necessidades do meio em que se vive, expressar os sentimentos de cada um para alegria das suas gentes, ou numa maior dimensão dum certo lenitivo, projetado no orgulho duma representatividade local que atualmente pode galgar muros além-fronteiras.

O gosto pelo cheiro do papel e o levar o jornal debaixo do braço para poder ser lido na oportunidade da apetência de curiosidades – quantas vezes com recorte da notícia para recordação – tinha grande incidência enquanto o véu das novas tecnologias ainda não havia sido aberto. 

Mas, paradoxalmente, se já por um lado o jornalismo contribuiu para alterar a tradição, também o rumo da sua revolução, no nosso planeta, nos transportou para um mundo imparável de outras formas de informação.

Quantos periódicos já desaparecerem deixando de estarem à disposição dos interessados, os verdadeiros leitores, colocados nas bancas, nos escaparates, mesmo nas bibliotecas municipais, nos quase esvaziados clubes, destes periódicos, associações ou instituições?

Variadíssimas vezes me sinto constrangido ao visitar uma biblioteca e não encontro o livro, ou jornal, que sei que foi doado à mesma, ou objeto de um encaminhamento do periódico, a pedido, numa displicência, quando se vai encontrar o mesmo, ainda envolto no plástico, ou mesmo não passa de um acumular de jornais oferecidos sem leitura dos poucos que frequentam a agremiação. E também os livros da biblioteca do clube, do grupo associativo, na sua maioria oferecidos, não passam de mais um volume, não catalogado, que vai aumentar o amontoado de papel…

Mas tenhamos calma. Se bem que segundo um inquérito à qualidade de vida do INE mostra que a satisfação dos portugueses com a vida em geral aumentou em relação ao período pré-covid-19, conforme narra Natália Faria no Público de 21 de abril de 2023, não deixa de ser preocupante que mais de metade da população portuguesa com 16 e mais anos passa um ano sem ler um único livro.

No entanto, no que concerne a jornais e revistas, segundo um estudo do Bareme Imprensa da Marktest quantifica em 6,6 milhões o número de portugueses que contactam com esta comunicação social. Ou seja, 6.575 residentes no Continente com 15 e mais anos que no período entre setembro a novembro de 2019, leram ou folhearam jornais ou revistas, o que representa 76,8% do universo em estudo.

O referido estudo Bareme Imprensa da Marktest quantifica, na vaga de 2023, em um milhão e 453 mil portugueses que leram a última edição de um jornal e em 2 milhões e 267 mil que leram a última edição de uma revista. Estes valores correspondem, respetivamente, a 16,9% e a 29,4% dos residentes no Continente com 15 e mais anos.

A análise dos dados disponíveis permite observar como a afinidade com jornais e com revistas é diversa entre os vários grupos sociodemográficos.

Os homens, os indivíduos entre os 35 e os 54 anos, assim como os empregados nos serviços, comércio e administrativos e os pertencentes às classes alta e média alta são quem aparenta consumo de jornais acima da média do universo. Já no caso das revistas, regista-se mais afinidade entre as mulheres, os indivíduos entre os 35 e os 64 anos, os desempregados e os indivíduos da classe alta.

Os momentos da vida atual, contextualizados nos tempos ocupacionais, para além da atividade profissional que tantas vezes já teve os seus dias de finalização, não são pretexto para uma redução, ou mesmo eliminação, na leitura, tão necessária para colocar a nossa parte cognitiva desperta.

Muita gente não tem ideia do quanto não é fácil escrever regularmente para um periódico de prestígio. Com a cumplicidade da sua graciosidade. Escrever por amor tantas vezes não compreendido, antes pelo contrário, muitas vezes injustamente criticado.

O quinzenário O Olhanense, que completou agora 61 anos de vida, pela mão de pessoas que, sem qualquer proveito remuneratório, o colocam atempadamente nas bancas e enviam para aqueles que ainda preservam a sua assinatura, é um exemplo de autêntico amor aos fins para que o mesmo viu a luz, no pensamento dos dinamizadores do sentido de darem a conhecer, não só a sua região e costumes, mas ainda o seu clube de coração, embora dilacerado mas no surgimento de outro que o venha “paralelamente” memorizar, no caminho da celebração do centenário de ter sido Campeão de Portugal – o saudoso Sporting Clube Olhanense.

Sou um assinante do Jornal “O Olhanense”, cumprindo os meus deveres do atempado pagamento da sua assinatura, para receber as notícias dum dos meus clubes do coração, de terras algarvias, na recordação dos tempos em que o mesmo defrontava, na então I Divião, o meu Sporting da Covilhã, serrano, também centenário, que este ano sofreu um revés com a descida à 3ª Divisão, que não conseguiu superar.

Não são só notícias da Coletividade algarvia, mas também no orgulho da minha colaboração de há um quarto de século, nas páginas deste prestigiado jornal, onde a vertente dos conteúdos não é exclusiva do desporto, mas também na integração de muitas facetas de opinião de vários autores.

Enquanto na minha região tenho vários jornais que podem falar da Coletividade mais representativa desta região serrana, penso que nessa região é o Jornal O Olhanense o que mais fala e incentiva – senão o único – na defesa do Clube da sua terra.

Será de uma enorme injustiça se não for reconhecido o trabalho insano do Homem do leme deste quinzenário, de há muito tempo, após o falecimento de Herculano Valente, na pessoa do seu Diretor e prezado Amigo, Mário Proença, num trabalho hercúleo, a maioria das vezes sozinho, o Homem dos sete ofícios no periódico, conseguindo acrescentar tempo ao tempo para diversos artigos no mesmo Jornal.

Também os méritos dos Amigos Isidoro Sousa e do atual Presidente do Clube, Manuel Cajuda.

Fico por aqui, porque o texto já vai longo, formulando votos para os êxitos dos nossos dois Clubes e os parabéns por mais uma primavera alcançada pelo Jornal O Olhanense, num abraço ao incansável Homem da corrente, que luta contra o vento, Mário Proença.

João de Jesus Nunes

                                        jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 01-06-2024)

                                                                                                 

 

HÁ 62 ANOS OS COVILHANENSES, INJUSTIÇADOS, ENVOLVERAM-SE NUM CLAMOR EM PROL DO SPORTING DA COVILHÃ

 

O Sporting Clube da Covilhã (SCC) disputava a I Divisão Nacional. A época 1961/1962 seria a última de 13 anos de permanência entre os maiores do futebol português, quase ininterruptamente, exceção feita na época de 1957/58, que baixou à II Divisão, regressando na época seguinte à I Divisão. Nas suas equipas pontificaram sempre grandes jogadores que se evidenciaram, sendo depois protagonistas de transferências para outras coletividades de maior potencial económico.

Nesta época existiam 14 jornadas onde participaram, por ordem da sua classificação final os seguintes clubes: Sporting, F. C. Porto, Benfica, CUF, Belenenses, Atlético, Leixões, Olhanense, V. Guimarães, Académica, Beira-Mar, Lusitano de Évora, Sporting da Covilhã e Salgueiros. Em caso de vitória contavam 2 pontos e não 3 como agora. Só mais tarde (1981) a Liga Ingresa instituiu os 3 pontos por vitória.  Embora houvesse ações disciplinares do árbitro, que a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) exercia perante o relatório do mesmo, ainda não tinha nascido a exibição dos cartões amarelo e vermelho. Os mesmos foram introduzidos somente no ano de 1976. Também um jogador que se lesionasse não podia ser substituído por outro, exceção feita ao guarda-redes, passando a ser possível somente no ano de 1965, e no seguinte, foi autorizada a substituição de um jogador, por qualquer motivo, em jogos da I Liga.

Era campeão nacional o 1.º classificado e baixavam à II Divisão os dois últimos. Iam ao Torneio de Competência I/II Divisão, os 11º (Beira-Mar) e 12º. (Lusitano de Évora) da I Divisão e os segundos classificados da II Divisão, das Zonas Norte (Braga) e Sul (Vitória de Setúbal). Resultou deste Torneio que ficaram na I Divisão o Vitória de Setúbal e o Lusitano de Évora; e na II Divisão, o Braga e o Beira-Mar.

Problemas de arbitragem e interesses instalados sempre houve, como ainda nos dias de hoje, independentemente de haver ou não VAR (este não existia na altura, pois tem poucos anos). No livro Sporting da Covilhã – Passado e Presente, que escrevi em 1998, é bem patente esta situação, no capítulo XXVII – “Quem vê o espetáculo do futebol e o anima” – “3 – A arbitragem, sem arbitrariedade, faz parte do espetáculo”, com a opinião de conceituados jornalistas.

Vivi intensamente os confrangedores dias que constam do assunto em título. Tinha 16 anos.

Começou no dia 7 de janeiro de 1962, domingo, 16 horas. As informações veiculadas não tinham a rapidez dos dias de hoje, nem havia meios de comunicação social como agora. O SCC jogava em Matosinhos, com o Leixões, arbitrado pelo árbitro aveirense, Porfírio da Silva. Os Leões da Serra, bem como o Beira-Mar, de Aveiro, lutavam pela permanência na I Divisão, permanência essa que não se veio a verificar para ambos.

A equipa do SCC empenhou-se para não perder o encontro, e até estava a ganhar por 1-0, golo de Adventino logo aos 5 minutos iniciais. mas encontrou no árbitro mais um adversário, de tal forma que prolongou o desafio mais sete minutos, duma forma tão flagrante que enervou os atletas covilhanenses, porquanto nesse prolongamento excessivo surgiu o segundo golo de Osvaldo Silva, que deu a vitória do Leixões, já na segunda parte. Golos que, segundo a crítica foi forjado o 1º, aos 69 minutos, e o 2º obtido em situação de fora de jogo.

Da reação dos atletas dos Leões da Serra surgiram pesados castigos para cinco jogadores do SCC (Rita, Couceiro, Lanzinha, Chacho e Palmeiro Antunes), com três jogos de suspensão.

A reação dos dirigentes leoninos e da própria população da Covilhã foi tão forte que a FPF – caso inédito para a época! – e até para os dias de hoje, levantou alguns castigos aos atletas covilhanenses, sintoma do mau serviço prestado pelo árbitro de Aveiro.

Na Comunicação Social da altura, referia-se: “Cinco jogadores da equipa covilhanense (os melhores!) suspensos pela FPF. Vai pela cidade toda uma justa e compreensível onda de surpresa e de indignação provocada pelos castigos, ou sanções que a F.P. F. aplicou (…). Não nos recorda que outro clube haja anteriormente sofrido sanção tão severa. Julgamo-la ímpar na história do Campeonato. Nenhum jogador foi expulso do retângulo de jogo e este facto, aliás sintomático, maior ‘força’ empresta à surpresa geral com que a notícia dos castigos foi recebida”. “(…) E, pressurosa, a F.P.F., sem atender a mais nada (nem à Crítica da especialidade que foi unânime em apontar os crassíssimos desmando do árbitro, nem à exposição que o SCC se apressou a enviar-lhe um dia após o jogo, e na qual se pediam providências para o autêntico defraudamento dos seus direitos), ditou a sua sentença e atirou o Clube para uma posição de tal modo melindrosa que se lhe pode ser fatal!”.

“Nesta hora difícil, o SCC encontrou no Dr. Luís Alçada e na coadjuvação do Dr. José Calheiros, os ‘timoneiros’ incansáveis que o momento grave requeria – Extraordinária manifestação e fé clubística. Na reunião magna dos sócios do SCC, realizada no transato sábado, à noite, foram tornadas públicas não só as múltiplas diligências que o famosíssimo ‘caso’ dos castigos federativos havia suscitado até aí, como a disposição em que se encontravam os Corpos Gerentes da Coletividade, de apresentar o seu pedido coletivo de demissão no caso de a justiça não ser feita ao Clube. O vasto salão de conferências da Sede encheu-se muito antes da hora marcada e nas ruas de acesso também se comprimiu multidão, compacta, indiferente à chuva e ao frio, olhos e coração postos no terrível dilema criado no seu Clube: manter-se, ou não, na prova máxima com a equipa de ‘Reserva’. Alguns castigos acabaram por ser levantados. Lanzinha, ilibado de culpas. O castigo de Chacho foi reduzido para um jogo.”

O facto, por inédito no processamento da ‘justiça’ da FPF (inédito pela rapidez do inquérito e também pela citada anulação e redução de castigos) não deixou de causar certa satisfação resultante do facto de, nesta conjuntura, não se ter, de todo, bradado no ‘deserto’ da indiferença e até da sobranceria com que, em regra, estes casos são tratados.

Em 20 de janeiro de 1962, o Comunicado do SCC referia: “Desta forma, os Corpos Diretivos do SCC, em face do que se passou e que aqui fica sumariamente anotado, verificamos que o condicionalismo de que fizeram depender a sua permanência nos cargos, foi observada, pelo que, por isso, independentemente dos votos manifestados pela Assembleia Geral, estarão dispostos a continuar à frente do Clube”. No entanto, atento à gravidade de tais acontecimentos, o que aliás, toda a imprensa da especialidade se referiu, foi deliberado apresentar uma exposição à FPF, pedindo providências. No entanto, o “caso Leixões” não ficou encerrado. Houve novas exposições e recursos para a Direção Geral de Desportos, com vista a ser alcançada a reparação total que o Clube necessitava, mas nada mais foi possível, muito embora no fundo tivesse havido superiormente o reconhecimento de que a regulamentação do futebol necessitava de revisão.

Mais pormenores podem ser obtidos no supracitado livro, páginas 272 a 275.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 05-06-2024)

 


31 de maio de 2024

A MARCA LIBERTY SEGUROS EM PORTUGAL DESAPARECE DO MERCADO PORTUGUÊS NO FIM DO MÊS DE MAIO


 

É hoje, dia 31 de maio do ano da graça de 2024, que a Liberty Seguros se desvanece no nosso País à beira-mar plantado, neste pequeno torrão retangular chamado Portugal, que muito amo, e que tem a alma de muitas gentes que se sentem fortes como os relevos notáveis do Cântaro Magro, destacado do planalto da Torre, na Serra da Estrela, depois de duas décadas a revolucionar o País. Quem se lembra da Volta a Portugal em Bicicleta onde a marca Liberty Seguros era um nome sonante e muitas vezes teve aqui a sua meta, onde estive quase sempre presente?

Bom, o que me leva a escrever este texto e a transcrever a minha resposta e a que o Homem que esteve quase sempre ao leme desta grande Seguradora, o Dr. José António de Sousa, no Linkedln, é o facto de ser difícil a leitura do que partilhei, pela redução do seu conteúdo. Então, aí vai:

“José António Duarte de Sousa

Economist, retired insurance executive

21º aniversário da Liberty Seguros em Portugal. E último. A marca desaparece do mercado português no fim do mês de Maio. Dos corações de quem viveu e ajudou a construir o sonho, a lady Liberty só desaparece no entanto quando o nosso coração deixar de bater.

Vou recordar um episódio que é apropriado à efeméride. No dia 23 de Maio de 2003, o dia em que formalmente se assinou o contrato de compra, e que passou a constituir o dia do nosso aniversário, fizemos uma grande festa no hotel Meridiam em Lisboa. Umas largas centenas de colaboradores e de parceiros de negócios. Um grande e leal amigo da casa, João de Jesus Nunes da Covilhã, no final das minha palavras, perguntou se podiam confiar numa companhia americana, porque tinham a (má) fama de não se comprometerem a longo prazo com os mercados, de entrarem e saírem com demasiada frequência. Eu respondi na altura que a Liberty estava a entrar no mercado português porque uma companhia Suíça, o Crédit Suisse/Winthertur (Europeia) tinha decidido sair do mercado. E uns anos antes todas as companhias inglesas tinham abandonado o mercado português também. Portanto, sendo certo que as companhias americanas têm a fama, outras fazem o mesmo se as condições de operação no mercado não são as adequadas para garantir a rentabilidade esperada aos acionistas… Disse também que a Liberty tinha chegado a Portugal para ficar, sempre e quando trabalhássemos bem. Em Agosto de 2004 o Presidente do Liberty Mutual Group veio a Portugal, foi entrevistado pelo Expresso e garantiu o mesmo.

Bastou uma mudança no topo da sede em Boston, e o que ontem era verdade… deixou de o ser. Aproveito este momento para agradecer a todos os que ajudaram a construir a marca em Portugal o esforço, paixão, lealdade e dedicação que puseram no desafio. Parceiros de negócios, segurados, fornecedores e os meus colaboradores e amigos e assim como as suas famílias. It was a hell of a ride!”

Também o meu agradecimento:

“Foi um privilégio e com enorme orgulho que colaborei durante anos com a Liberty Seguros sob a égide do Dr. José António de Sousa, figura incontornável na atividade seguradora, o que não encontrei na Europeia de Seguros. Se foi uma grande alegria, paradoxalmente, logo senti uma tristeza ao ter conhecimento do desfecho que tomou a Liberty, que havia revolucionado Portugal de lés a lés. Mas isto é assim: nem sempre a cereja se mantém em cima do bolo. Um abraço a todos os que ainda comigo nos irmanámos, e continuamos a confraternizar, como o Dr. José António de Sousa, ficando sempre na memória a Liberty Seguros!”.

Covilhã, às zero horas do dia 31 de maio de 2024.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

 

 

15 de maio de 2024

OS JESUÍTAS NA COVILHÃ


 

Em 1863 foi entregue aos Padres da Companhia de Jesus o Colégio dos Órfãos de S. Fiel. A partir dessa data, logo começaram a ser frequentemente visitados por dois ilustres sacerdotes da Família Grainha, os Padres João e Francisco. Não tardaram estes em pedir aos Jesuítas de S. Fiel a fundação na Covilhã de uma Residência para ministérios. Só em 23 de outubro de 1869 o Padre italiano, Vicente Ficarelli, nessa altura Superior dos Jesuítas em Portugal, enviou para a Covilhã o Padre Nicolau Rodrigues, que se hospedou em casa daqueles referidos sacerdotes.

Foi em 11 de dezembro de 1871 que o Papa Pio IX ordenou que o Padre Nicolau Rodrigues fundasse a suspirada residência. Isso veio a surgir numa casa, no largo fronteiro à Igreja de Santa Maria Maior. A casa foi cedida para esse fim por Luís António de Carvalho, um dos maiores benfeitores logo a partir da primeira hora. A sua generosidade haveria de continuar pelos seus descendentes – a família Crespo de Carvalho. Ao fundador da Residência veio juntar-se o Padre Francisco Xavier de Miranda que até então vivera no Colégio de Cernache do Bonjardim.

Como os dois religiosos jesuítas não dispunham de Igreja própria, exerciam os ministérios sagrados na Igreja de Santa Maria Maior. Não durou muito tempo a estadia do Padre Nicolau e seu companheiro nesta primeira casa. Fizeram os dois jesuítas por encontrar alguma igreja ou capela onde pudessem ter maior liberdade de ação. Compreendeu esta necessidade o Pároco de S. Pedro, que em fins de fevereiro de 1872 lhes confiou a vetusta capela de S. Tiago. Nela fundaram logo três associações: uma para operários sob o título de S. José, outra para ambos os sexos sob o título do Coração de Jesus e do Apostolado da Oração e a terceira para rapazes sob o título de S. Luís Gonzaga. Para junto desta Capela mudaram a Residência ficando instalada numa casa pertencente a Manuel de Belmonte que, generosamente, não exigiu renda. Só em 1876 se pensou na construção de edifício próprio que começou a ser habitado em 1879. É a casa atualmente pegada à Igreja do Coração de Jesus.

Apesar do aumento feito à Capela de S. Tiago, era insuficiente para conter toda a multidão de fiéis qu


e aí acorriam. Pensou por isso o Padre Nicolau por comprar a Capela para no seu lugar se erigir uma Igreja. A aquisição da mesma foi feita por Maria José de Sousa Tavares que em 1875 a vendeu à Companhia de Jesus. Em fins de março desse ano abriram-se os primeiros alicerces para a nova igreja. A primeira pedra foi benzida e colocada debaixo da porta lateral do lado da epístola em 27 de abril. Presidiu à cerimónia o Padre João Grainha estando presente o Pároco de S. Pedro em cuja paróquia ficava situado o novo templo. Tanto as autoridades camarárias, presididas pelo Visconde da Coriscada, Francisco Joaquim da Silva Campos Melo, como os fiéis auxiliarem a construção da Igreja.

A pedido do Padre Nicolau, o Presidente da Câmara com a Edilidade, permitiu o alargamento do átrio fronteiro, consentindo para isso que fosse deitado abaixo um muro alto que o impedia. A pedra desse muro foi doada à Igreja. Assim, esta ligou para sempre o seu nome à Igreja e aos seus possuidores.

Tinha a Igreja 14 metros de altura e 23 de comprimento. Foi aberta ao culto a 25 de dezembro de 1877. A esta Igreja ligou também o seu nome a Família Megre que em 1878 mandou construir um altar em que foi colocada uma imagem da Virgem Mãe, adquirida em França.

Sobrevindo os tempos calamitosos de 1910, foram os Jesuítas da Covilhã espoliados desta Igreja que foi convertida em tribunal e a Residência em dependência desse tribunal.

A 10 de outubro de 1930 regressaram os jesuítas à Covilhã instalando-se no edifício na Rua Nuno Álvares. Em 1947 adquiriu-se a antiga Igreja, ou mais exatamente, as suas paredes – a única coisa que ficara do incêndio que a devorou em 27 de novembro de 1942 (era Comandante dos Bombeiros Voluntários da Covilhã João Garcia).

A 10 de novembro de 1948 fechou-se o contrato com a sua restauração e a 10 de fevereiro de 1952 era de novo aberta ao público com grande solenidade e concorrência de fiéis.

Uma das maiores preocupações dos jesuítas na Covilhã foi a educação da juventude estudantil e operária. Em 1931 fundaram um Colégio para rapazes do 1º. Ciclo dos Liceus. Mas em 1934 teve de ser fechado para não criar, dizia-se, dificuldades ao novo liceu, fundado nesse mesmo ano. Não deixou, porém, de funcionar o Centro Académico, sempre frequentado por grande número de alunos do Liceu e Escola Industrial. Os jesuítas ajudam também, na medida do possível, os Párocos da Cidade.

Atualmente o Centro Académico já não existe tendo os Padres (chegou a haver Irmãos Jesuítas que coadjuvavam nas tarefas da Igreja), passado a residir nas novas instalações anexas à Igreja do Sagrado Coração de Jesus, mais conhecida por Igreja de S. Tiago.

- * -

Nota: As fotos (nem todas foi possível inserir, por falta de espaço) são elucidativas para quem, ainda jovem, visitou e utilizou estas instalações, como eu. Na foto, os vários padres jesuítas, acompanhada dos párocos da altura, são do conhecimento das gentes mais antigas da Covilhã. Dou uma ajuda na sua identificação: Na primeira fila, da esquerda para a direita: Padre Cândido Ferreira, jesuíta (1º); Bispo da Guarda, D. Policarpo da Costa Vaz (6º.); Sr. Clemente Alfredo da Costa Espinho Petrucci (7º.); Cónego Fernando Brito dos Santos (o único vivo com 89 anos) – (8º.).

Em cima, pela mesma ordem: Padre Barreiros, jesuíta (2º.); Cónego Joaquim dos Santos Morgadinho (3º); Padre Pina (4º.); Padre António Oliveira Pita (5º) e Padre José Batista Fernandes (7º).

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 15-05-2024)

O MÊS DE MAIO E O PAPA BEATO PIO IX

 



Giovanni Maria Mastai Ferretti, seu nome de batismo, nasceu em 13 de maio de 1792 e veio a falecer em 7 de fevereiro de 1878, perto dos 86 anos, tendo o seu pontificado sido o mais longo da Igreja, com a duração de 32 anos, depois do de São Pedro, tendo ele todo orientado para a devoção a Maria. Nasceu na Senigallia (Itália).

Oriundo de uma família de nobres, foi batizado no dia do seu nascimento. Revelando vocação para as humanidades, estudou Filosofia, Direito e Teologia em Roma.



Foi notória a sua atenção para com os mais necessitados, suavizando a dura política praticada pelo cardeal Lambruschini.

Resultante de uma separação entre conservadores e liberais, que era o caso de Pio IX, esta eleição ocorreu num panorama histórico e político complicado, onde fatores como a derrota de Napoleão, a unificação da Itália e a perda dos Estados Pontifícios dificultaram a sua obra, tornando-o num dos maiores papas de sempre. Marcado por diversas mudanças, o seu papado iniciou-se com uma amnistia a favor dos presos políticos ou exilados, que lhe valeu grande popularidade. Com a oposição dos jesuítas, Pio IX introduziu os jornais em Roma, permitindo uma maior liberdade de imprensa. A sua ação durante o papado ficou marcada pelo reformismo e pela viragem para um sentido mais conservador.

Nas suas realizações é de referir a solene proclamação do dogma da Imaculada Conceição em 1854, reforçando o poder da Igreja em Espanha, Portugal e América Latina. Também de referir são as sessões do primeiro Concílio do Vaticano, o Concílio Ecuménico Vaticano I, considerado o zénite do seu pontificado, que se iniciou em 1869 e terminou a 18 de julho de 1870.

Manobrado pelas seitas maçónicas, fervia por toda a Itália o movimento tendente à unificação nacional, que exigia o desaparecimento dos Estados Pontifícios. As forças sectárias chegaram a assassinar o primeiro-ministro Pellegrino Rossi, quando se dirigia para a inauguração do Parlamento pontifício. Pio IX vê-se forçado a refugiar-se em Gaeta, no reino de Nápoles. Daí anuncia ao mundo católico a sua fuga forçada e reitera a nulidade das concessões que, coagido, tivera que fazer aos revoltosos. Pio IX recebeu apoio de todo o mundo católico, salientando-se o da rainha portuguesa D. Maria II que lhe escreveu a oferecer asilo no nosso país. Pio IX retribuiria este gesto, assinando em 1857 com D. Pedro V uma concordata sobre o padroado, censurando, no entanto, os bispos portugueses por não terem sabido reagir contra a lastimosa situação religiosa em que caíra o país. Esta reprimenda seria muito atual para o que se passa nos dias de hoje.

A 4 de abril de 1850, o Papa dirige-se novamente para Roma, onde chega uma semana depois, entre aclamações de triunfo e simpatia.

O Papa fica reduzido a Roma e, a 17 de março de 1861, Victor Manuel é proclamado pelo Senado como rei de Itália. Inicia-se para a Santa Sé uma situação dolorosa que só encontraria solução definitiva bastantes anos depois, com o Tratado de Latrão, celebrado em 1929 entre Pio XI e Mussolini, e atualmente em vigor.

Vista à distância, a situação atual, com a Santa Sé reduzida aos 525 hectares do Vaticano, parece a mais conveniente para a Igreja que, livre de preocupações de ordem temporal, se pode dedicar com maior disponibilidade ao governo espiritual dos fiéis.

Ato de relevo neste pontificado seria a proclamação dogmática da Imaculada Conceição de Maria pela Bula Ineffabilis Deus, em 1854, sendo indescritível o júbilo com que a cristandade festejou este acontecimento que Pio IX perpetuou com uma grandiosa coluna erguida em Roma, na Praça de Espanha.

Portugal de há longos anos vivia a fé neste dogma mariano, tendo D. João IV consagrado o reino à Senhora da Conceição – prometendo solenemente “confessar e defender sempre, até dar a vida sendo necessário, que a Virgem Senhora Mãe de Deus foi concebida sem pecado original”.

Por isso, D. Pedro V, após a proclamação dogmática, determina festejos nacionais “por haver Deus inspirado ao pai comum dos fiéis uma resolução de tamanha glória para a Beatíssima Virgem que, sob o título da sua Conceição Imaculada é poderosíssima padroeira destes reinos”.

Quatro anos depois desta definição dogmática, como a confirmá-la, verificam-se em Lourdes as aparições da SS. Virgem que se apresenta como a Imaculada Conceição.

Em maio de 1851, o cardeal-patriarca de Lisboa aprova a devoção do Mês de Maria, prática e piedade popular que ainda hoje perdura.

A devoção do Sagrado Coração de Jesus que, muito espalhada e viva desde o reinado de D. Maria I, havia decaído  com a expulsão da Companhia de Jesus, sua principal alimentadora, vê-se reacendida com o regresso dos jesuítas, que fundam em Lisboa o primeiro núcleo do Apostolado da Oração, a 17 de abril de 1864 – associação que, passados breves anoa, se encontraria implantada em quase todas as paróquias do país, contribuindo eficazmente para o ressurgimento da vida eucarística, e sendo, ainda hoje, com centenas de milhares de associados, uma das principais fontes de piedade popular.

 

 

 

                                             Fontes: “O Grande Livro dos Papas – De São Pedro a Bento XVI” e

“História dos Papas – Luzes e Sombras”, de Heitor Morais, s.j.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 15-05-2024)

 

 

6 de maio de 2024

“O HOMEM BOM” – MÉDICO E MISSIONÁRIO EM ÁFRICA

 



Em pleno coração de África, há bem mais de cem anos, acampou entre os nativos de uma aldeia indígena um jovem escocês, médico e missionário, Conquistou a amizade do chefe tribal, distribuiu remédios pelos enfermos da tribo  e pregou sobre um Deus, Pai de todos os homens.

David Livingstone nasceu no dia 19 de março de 1813, na Escócia. Em pequeno, trabalhou fiação doze horas por dia. Anos depois, estudou Teologia e Medicina na Universidade de Edimburgo.

Quando chegou a África, no ano de 1840, toda a região central do Continente era um espaço vazio nos mapas. Devido, em grande parte, aos seus esforços, esta zona foi explorada e cartografada, aberta à colonização e ao comércio. Livingstone coroou todo o seu trabalho com uma cruzada incansável contra a escravatura, as superstições e o analfabetismo.

Durante trinta e três anos de trabalho árduo e de viagens, lutando constantemente contra as doenças tropicais, exposto a todo o momento ao ataque dos selvagens e dos animais ferozes, levou a luz da civilização às zonas mais atrasadas do mundo.

Livingstone sentiu-se possuído de uma profunda compaixão pelos negros africanos. O tráfico de escravos revoltou-o e desgostou-o de tal forma que fez voto de dedicar a sua vida a combater esse monstruoso comércio.

A sua atividade médica era parte indispensável da sua obra apostólica. Demonstrava, diariamente, a eficácia do quinino no tratamento da malária. Durante os primeiros cinco anos de trabalho, ele mesmo sofreu trinta e um acessos de febre. Sem quinino, não teria sobrevivido. Com este medicamento, insuflou vida a famílias e a tribos inteiras. Os negros, quando lhes tratava as doenças, chamavam-lhe, com alegria, o Homem Bom.

As façanhas de Livingstone como explorador alinham com as dos maiores aventureiros de todos os tempos. Explorou um terço do imenso Continente – do Cabo até quase ao Equador e do Atlântico ao Oceano Índico, tendo desbravado uma área mais extensa do que a descoberta por qualquer outro explorador. Traçou mapas de todas as regiões que visitou e enviou relatórios pormenorizados à Sociedade Real da Geografia de Londres.

Foi o primeiro europeu a chegar às margens do grande Lago Ngami. Descobriu, também, as magníficas cataratas, duas vezes mais altas do que as do Niagara, que batizou de Cataratas de Victória, em homenagem à sua rainha.

A partir de 1858 Livingstone foi mais explorador do que missionário. Numa lancha a vapor, ele e os seus companheiros exploraram o Zambeze e outras vias fluviais do centro e do leste de África. Descobriram o Lago Niassa, estabeleceram postos missionários, escolas e rotas comerciais.

No princípio de 1866 empreendeu a tarefa perigosa de explorar as vertentes que alimentam o Lago Niassa e o Lago Tanganica. Depois do dia em que Livingstone partiu para essa memorável expedição, só um branco o voltou a ver vivo. Os negros hostis roubaram-lhe as provisões. Chuvas incessantes e moscas trsé-tsé tornaram quase impossível a viagem. Em 1869, gravemente doente, Livingstone foi transportado em liteira até Ujiji, no Lago Tanganica, numa tormentosa viagem que durou dois meses.

Certa noite, na aldeia de Ilala, Livingstone sentiu-se tão exausto que não podia sequer falar. Carinhosamente, os ajudantes colocaram-no no leito. Pouco antes de amanhecer, encontrava-se morto, de joelhos, junto da cama tosca, com a cabeça apoiada sobre as mãos postas.

“Morreu o Homem Bom”. A notícia correu de cabana em cabana, de aldeia em aldeia. Embalsamaram o corpo mas tiraram-lhe o coração para o enterrar, respeitosamente, na terra a que verdadeiramente pertencia.

Começou, então, o cortejo fúnebre mais longo de que há memória na História. Entoando hinos do Evangelho que o “Homem Bom” lhes havia ensinado, os nativos que formavam o cortejo iniciaram uma marcha de nove meses até à costa. De Zanzibar, um navio britânico transportou o corpo para Inglaterra. A 18 de abril de 1874, David Livingstone foi sepultado com todas as honras na Abadia de Westminster.

Fonte: JMCD, “Condensado de Biografias Famosas”.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 01-05-2024)