7 de dezembro de 2023

A CIDADE, O CLUBE E O JORNAL

 


No que concerne à Cidade de Olhão está na minha memória desde longa data pela história e pela geografia. Vem já dos tempos da Primária, hoje Ensino Básico, quando empinávamos os nomes dos rios e seus afluentes, das serras e seus sistemas de montanhas (Galaico-Duriense, Lusitano-Castelhano, Toledano e Mariânico), e também dos caminhos de ferro. Nos então exames de admissão aos liceus e escolas industriais e comerciais, o examinador, que era sempre professor do ensino secundário, de quando em vez, fazia a pergunta: “Diga-me lá, se quisesse ir de comboio daqui (Covilhã), para Vila Real de Santo António, quais as linhas ferroviárias que teria de apanhar?”. E o menino ou menina, bem vestidos, ele  com fatinho novo a condizer para o exame (a Covilhã geralmente não tinha grande problema porque era a terra dos lanifícios e, na altura, vendiam-se muitos tecidos ao metro, para que o alfaiate se encarregasse de o fazer à medida); e um vestido novo, que fosse  bonito, que a costureira fazia com ou sem folhos, para a menina que queria entrar no Liceu (ao tempo, o Ciclo Preparatório era iniciado nos estabelecimentos do Ensino Secundário); lá se voltava para o velho mapa de Portugal. Com o ponteiro que o examinador lhes colocava na mão, iam referindo os caminhos ferroviários (por vezes de faces coradas quando a atrapalhação surgia, noutras, com um à vontade, descontraídos, com as linhas férreas decoradas debaixo da língua, como se de comboios já viajassem muito). Daqui, na linha da Beira Baixa, vou até Lisboa - Santa Apolónia (ainda não havia a do Oriente). No cais do Terreiro do Paço apanho um barco para o Barreiro. Sigo esta linha e vou entrar na Linha do Sul: Barreiro, Pinhal Novo, Torre da Gafanha, Casa Branca, Tunes, Faro, Olhão, Tavira, Vila Real de Santo António.

Se a Covilhã foi sempre conhecida pela Cidade dos Lanifícios (hoje também Cidade Universitária), Olhão era a Cidade das Pescas.

Curiosamente, vi num Manual Encyclopédico para as Escolas de Instrucção Primária, do ano 1879, que possuo na minha biblioteca, nessa altura tinha 21 Distritos Administrativos, segundo o Diário do Governo de 16 de maio de 1877, contava apenas com 4.429.332 habitantes, e, dizia que, junta às Províncias Ultramarinas excedia os 6 milhões de almas. E, entre as principais povoações, desse tempo, já passados 144 anos nos dias de hoje, referiam-se “Outras povoações há no Algarve dignas de serem mencionadas, a saber: Albufeira, Aljezur, Castro Marim, Loulé, Monchique, Olhão, Vila Nova de Portimão, Vila Real de Santo António, etc.”.

Mas a Cidade de Olhão ficar-me-ia ainda carinhosamente na minha memória quando, naquele sábado de 25 de maio de 1968, me sentei num daqueles bancos junto ao correio, cuja foto incluo desse tempo, e escrevi num postal ilustrado adquirido naquela estação dos CTT (ainda se encontravam abertos aos sábados e também aos domingos da parte da manhã), à minha namorada com quem viria a casar, perdurando até aos dias de hoje. Encontrava-me então a prestar serviço militar no CISMI – Centro de Instrução de Sargentos Milicianos de Infantaria, em Tavira.

Clube de Olhão – o Sporting Olhanense – Como referi no número de 1 de novembro, uma nota importante fez vincar o meu afeto pelo clube algarvio, depois de acompanhar todos os clubes das I, II e III Divisões Nacionais, pelos jornais, na Biblioteca Municipal, mormente O Comércio do Porto. E foi o último encontro entre o Sporting da Covilhã e o Sporting Olhanense, encontrando-se ambos na então I Divisão, na época 1961/62, com o Olhanense regressado ao convívio dos grandes e os covilhanenses a descerem de divisão depois de muitas contrariedades havidas, nomeadamente com as arbitragens, que na simpatia dos homens de Olhão reforçou o meu apreço pelos algarvios.

Jornal O OlhanenseJamais pensaria vir a colaborar há mais de um quarto de século com este periódico de grande prestígio. Não conhecia o quinzenário, tendo ele surgido fruto das minhas pesquisas para a publicação do então meu segundo livro (de quatro) sobre o Sporting da Covilhã. Foi um então amigo, já falecido, Augusto Ramos Teixeira, que me informou, depois de o ter questionado, numa altura em que ele me indicava alguns antigos atletas que passaram pelo Olhanense e se transferiram para o Sporting da Covilhã. Vim então a entrar em contatos frequentes com o diretor do jornal da altura, Herculano Valente, que nunca conheci pessoalmente, como acontece com o atual diretor, amigo Mário Proença. As únicas personalidades do Olhanense que conheci pessoalmente foram o anterior diretor, Isidoro Silva Sousa, então presidente da direção do Olhanense, assim como a esposa, num jantar convite das comemorações do clube serrano, e, de igual modo, Manuel Cajuda. Ainda vim a conhecer num encontro de futebol, na Covilhã, entre os dois Clubes, para o campeonato Nacional da II Divisão, o Sr. Júlio Favinha.

Quando pensava terminar a minha colaborar com este periódico, após o falecimento de Herculano Valente, mão amiga do atual diretor, incentivou-me a continuar e não é que, com ele, este periódico tornou-se um jornal de referência, desconhecendo a sua posição a nível nacional, mas, nos seus 60 anos de vida fica bem à frente de muitos outros, nomeadamente desta região beirã, certamente com mais apoios que o quinzenário O Olhanense, a viver horas difíceis.

Sobre o último número, quero informar que do suplemento “A Voz de Olhão”, o texto “O Mendigo”, de Mário Proença, serviu para uma reflexão numa reunião da Conferência de São Vicente de Paulo – Paróquia de Nossa Senhora da Conceição da Covilhã, com muito agrado.

Já a crónica de João Peres, “Assim vai este mundo doentio – Crónica ao sabor da caneta...” está espetacular. Parabéns a ambos.

Deixo, para vossa apreciação, os periódicos regionais da Beira Interior, numa comparação com o quinzenário O Olhanense, a saber:

- Correio de Unhais – Unhais da Serra

Periódico mensal. ANO XXXIV, Nº. 348 – Outubro 2023 - 16 páginas

Tem editorial e 8 crónicas, correspondente a 9 autores diferentes.

- Jornal Fórum Covilhã

Periódico semanal – ANO XI, Nº. 585 – 18-10-2023 – 24 páginas

Tem editorial e 5 crónicas, correspondente a 6 autores diferentes, para além de variadíssima informação e reportagens.

- notícias da Covilhã – gratuito

Periódico semanal, renascido do anterior e mais antigo semanário da Beira Interior, mas que nada tem a ver com o anterior, a não ser o aproveitamento da sua antiguidade. ANO 110 – Nº. 5294 – 19-10-2023 – 24 páginas

Tem editorial e 3 crónicas, de 4 autores.

- Jornal do Fundão

Periódico semanal – ANO 77 – Nº.  4027 – 19-10-2023 – 24 páginas

Tem editorial e 2 crónicas, de 2 autores

- A Guarda

Periódico semanal – ANO 119 – Nº.  5905 – 19-10-2023 – 20 páginas

Neste número não teve editorial mas sim 3 crónicas de três autores diferentes.

- Gazeta do Interior – Castelo Branco

Periódico semanal – ANO XXXIV – Nº 1814 – 18-10-2023 – 16 páginas

Tem editorial mais 3 crónicas de autores diferentes.

- Reconquista – Castelo Branco

Periódico semanal – Edição 4049 – ANO 77 – 19-10-2023 – 32 páginas

Tem editorial mais 4 crónicas, de 5 autores

- O Olhanense

Periódico quinzenal, fundado em 1963 (60 anos) – Nº 1307 – 15-10-2023 – 28 páginas

Tem editorial e 12 crónicas de 10 autores

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 01-12-2023)


6 de dezembro de 2023

COMO ERA A PALESTINA ANTES DO NASCIMENTO DE ISRAEL

 


De harmonia com um trabalho da jornalista Ana Marques Maia, inserido no Público (P3), de 17 de outubro, e depois do que já tanto se escreveu (eu também) sobre Israel, a Palestina, e o Hamas, as polémicas/mal entendidos entre personalidades que se assumiram com frontalidade e depois tiveram os seus dissabores (justificados para uns, injustos para outros), como António Guterres e Marcelo Rebelo de Sousa, e os defensores de um lado e outros do adverso, nos horrores desta guerra entre Israel e o Hamas, sem me querer envolver em partidarismos, trago, tão só, com base na história ora descrita por quem sabe, elementos para algumas elucidações.

O slogan “Uma terra sem povo para um povo sem uma terra” foi inúmeras vezes repetido ao longo do século XX. Consta que quem o fez foi o movimento sionista, e seus apoiantes, no sentido de mobilizar a imigração judaica para a Palestina, a eles se reportando o período entre os anos 1898 a 1946.

Entretanto, também é contada uma história diferente, já que a Palestina era, no século XIX e XX, antes do nascimento do Estado de Israel, em 1948, um território habitado por centenas de milhares de pessoas, vivendo um “renascimento árabe”, segundo a Enciclopédia Britannica.

A localização da Palestina tornava-se num local estratégico do ponto de vista comercial. Era a partir dos portos de Gaza e Jafa que as importações e exportações decorriam com países dos continentes africano, europeu e asiático. Havia também ligações ferroviárias com outras zonas do Império Otomano. Vários jornais locais podiam-se encontrar em circulação.

Entre 1516 e 1917, o território da Palestina integrou o Império Otomano. Durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), alinhou com as Potências Centrais, o eixo que saiu derrotado do conflito. Na sequência da vitória, dois dos países Aliados, França e Reino Unido, com a concordância da Rússia, assinaram um acordo secreto, em 1916 que determinada que parte do território do Império Otomano, a ser desmembrado no pós-guerra, ficaria sob a administração francesa e britânica. Nesse acordo, foi determinado que a Palestina, devido à presença de locais sagrados para cristãos, muçulmanos e judeus, deveria ser governada por um regime internacional. As administrações dos territórios “conquistados” pelos Aliados souberam das resoluções do acordo aquando da sua publicação, sem que tivessem podido pronunciar-se favorável ou desfavoravelmente sobre elas.

Em 1917, o Reino Unido decidiu violar o acordo e, unilateralmente, determinar que o território da Palestina deveria ficar sob o seu comando e tornar-se “o Lar Nacional para o Povo Judeu”. A população autóctone não foi consultada ou chegou a qualquer acordo com o Reino Unido. Assim, este tomou as rédeas do poder na Palestina, no pós-guerra, assumindo o papel de facilitador da imigração da comunidade judaica para a região. Antes da chegada dos britânicos, a esmagadora maioria da população era árabe, mas já existia uma comunidade de judeus na Palestina, ainda que minoritária.

Se algumas estimativas apontam para cerca de 50 mil judeus a viver na Palestina, em 1918, contra 500 mil árabes, já a partir da vigência do controlo britânico, a imigração judaica intensificou-se. Em 1920, a Liga das Nações tornou oficial o governo britânico da Palestina. Na década de 1930, o número de judeus a chegar à Palestina aumentou significativamente devido à perseguição e extermínio sistemático dos judeus na Europa Central, principalmente com a chegada de Hitler ao poder da Alemanha, em 1933. Em 1935 chegaram à Palestina cerca de 62 mil judeus, menos 10 mil que nos dois anos anteriores.

Em 1937, de acordo com as Nações Unidas, a população judaica era de 400 mil e dez anos depois atingiu os 625 mil.  Segundo a Britannica havia em 1946, na Palestina, 1,2 milhões de árabes e 678 mil judeus, um crescimento de 1350% da população judaica durante 25 anos. A resistência à chegada de mais imigrantes judeus intensificou-se nesse período entre a população árabe da Palestina, e em 1933 tornaram-se frequentes manifestações em oposição à emigração e que pediam o fim do mandato britânico. Estas manifestações foram reprimidas pelos britânicos violentamente, com protesto em Jaffa, no ano de 1935. Entre 1936 e 1939, a Palestina esteve em guerra civil. Na sequência desta revolta, a Britannica  refere que “pela primeira vez, um órgão oficial britânico falou abertamente sobre a formação de um estado judaico”.

Em meados de 1940, tanto árabes como judeus opunham-se ao mandato britânico na Palestina.

A Segunda Guerra Mundial tinha tornado o Reino Unido vitorioso, mas exausto. A resolução britânica de permanecer no Médio Oriente entrava em colapso.

Em 1947, o presidente norte-americano Harry S. Truman declarou, contra o interesse britânico, o seu apoio à ideia da criação de Israel; no ano seguinte, a “solução de dois estados” seria levada a votação na recém-criada Organização das Nações Unidas (ONU). Em 1948, o Reino Unido abandonava a Palestina. No mesmo ano, as Nações Unidas partiram o território em dois e nascia Israel. Os palestinianos opuseram-se ao acordo unilateral.  A resistência árabe ao novo Estado israelita, em 1948, deu origem a um conflito armado e ao “deslocamento e expropriação em massa” dos palestinianos, com milhares deles sob ameaça de violência, obrigados a abandonar as suas aldeias e as suas casas e a encontrar refúgio na Cisjordânia, na Faixa de Gaza e em países vizinhos.

Segundo consta, em setembro de 2023, a população de Israel é de 9,8 milhões de pessoas, existindo no mundo 15,2 milhões de judeus.

Presentemente, Israel ocupa, à revelia da lei internacional que lhe destinou 55% do território em 1947, mais de 20 mil quilómetros quadrados de terra (76% do território). Aos palestinianos cabe residir numa área de 6 mil quilómetros quadrados (24%), em Gaza e na Cisjordânia.

Mais de cinco milhões de palestinianos vivem, atualmente, dispersos por vários países do Médio Oriente e do mundo.  Em Israel, dos dias de hoje, segundo a ONU, “os palestinianos continuam a ser expropriados e deslocados pelos colonatos israelitas, por despejos, confisco de terras e demolições. A Palestina é, hoje, um “estado observador” na ONU, não reconhecido pela maioria dos países do Ocidente.

Aproveito a oportunidade para desejar os maiores êxitos jornalísticos ao Jornal Fórum Covilhã, reforçado pela Rádio Fórum, na pessoa do seu Diretor, Vitor Aleixo, e demais Obreiros, pela passagem do 12º  Aniversário no passado dia 29 de novembro de 2023. Parabéns!

 

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 06-12-2023)


17 de novembro de 2023

“UMA TERRA SEM POVO PARA UM POVO SEM TERRA”

 

Longe estaríamos de pensar que iríamos viver tempos de reviravolta no planeta, numa enorme agitação entre os povos, guerreando-se freneticamente, causticamente, ao ponto de quando ainda nos encontrávamos virados para a invasão da Ucrânia pela Rússia, (re)começar uma luta feroz entre judeus e uma fação terrorista palestiniana que dá pelo nome de Hamas.

Parece termos voltado aos tempos bíblicos e da história da antiguidade. Para trás ficou-nos o espetro das duas grandes guerras mundiais, que aconteceram com as perdas de milhares de vidas humanas e destruição de património construído, além de outros nefastos problemas. Embora as guerras localizadas, outras que desmembraram países e uniões de países jamais deixassem de existir – Guerra da Coreia, do Vietname, Crise dos Mísseis, Muro de Berlim; e entre judeus e árabes a Guerra dos Seis Dias que possibilitou a Israel expandir o seu território, conquistando a Península do Sinai, a Cisjordânia, Gaza, Jerusalém oriental e as colinas de Golã, não deixou de existir um tempo um pouco “pacífico” ainda que tenha sido durante a Guerra Fria. No entanto, com estas conquistas pelos judeus viria a desencadear-se a Guerra do Yom Kipur, em 1973. Os portugueses encontravam-se envolvidos nas Guerras com as Colónias que terminariam com a Revolução do 25 de Abril de 1974.  Em meados da década de 1980, o novo líder soviético Mikhail Gorbachev introduziu as reformas liberalizantes e com a perestroika encerrou o envolvimento soviético no Afeganistão. Em 1989 foi uma onda de revoluções (com exceção da Roménia) que derrubaram pacificamente todos os governos comunistas da Europa Central e Oriental e em grande parte da África e Ásia. Os Estados Unidos foram deixados como a única superpotência do mundo. A Guerra Fria acabava com a decadência da União Soviética e do bloco socialista. Em 25 de dezembro de 1991, Gorbachev renunciou e a União Soviética foi dissolvida. No seu lugar, quinze nações conquistaram a sua independência, entre as quais a Ucrânia; e o bloco socialista deixou de existir no leste europeu. Esses acontecimentos marcaram o fim da Guerra Fria. Apesar disso, um estado renovado de tensão entre o Estado sucessor da União Soviética – a Rússia, e os Estados Unidos nos anos 2010; bem como tensão crescente entre uma China cada vez mais poderosa e os Estados Unidos e seus aliados ocidentais; passou a ser referido como a Segunda Guerra Fria.

O título desta crónica é uma frase amplamente citada e associada com o movimento para estabelecer uma pátria judia na Palestina durante os séculos XIX e XX. Embora geralmente é assumido ter sido um slogan sionista, a frase foi usada já em 1843 por um clérigo restauracionista cristão e continuou a ser usado durante quase um século por outros restauracionistas cristãos. A frase tem sido vasta em extremo na citação por políticos e ativistas políticos opondo-se às reivindicações sionistas. Na sua declaração de independência de 14 de novembro de 1988, o Conselho Nacional Palestino acusou “forças locais e internacionais” de tentativa de propagar a mentira de que “a Palestina é uma terra sem povo”.  Também o fundador e presidente da Sociedade da Terra Palestina chama a frase de “uma mentira perversa, a fim de fazer o povo palestino ficar sem teto”. No fundo, são resmas de interpretações.

O dia 14 de maio de 1948 dita a fundação do Estado de Israel. Esta fundação não remete ao surgimento de um novo país ou nação. Tal data marcou o ponto máximo da invasão da Palestina pelo movimento sionista, apoiado pelos diferentes imperialismos. Desde então, o povo palestino tem resistido à ocupação do seu território e exigido a sua devolução.

No final do século XIX, surgiu um movimento na Europa, o sionismo, “promovido pela burguesia imperialista e por proeminentes bilionários judeus”. Na Palestina, durante muitos séculos, a maioria da população árabe coexistiu pacificamente com uma pequena minoria judaica. O sionismo destruiu essa situação desde que começou a pôr em prática o seu plano de “colonização” e ocupação militar daquele território.

“Com a ajuda direta do imperialismo britânico, que era amo e senhor da região, o sionismo difundiu a falsa ‘história’ das terras vazias, que voltaram às mãos dos seus legítimos habitantes desde os tempos bíblicos”. Na realidade, milhões de palestinianos viviam ali ao lado da pequena minoria judaica. A Palestina estava sob domínio inglês desde o fim da Primeira Guerra Mundial. Longas lutas de resistência anti-imperialistas ocorreram em todo o Médio Oriente. Entre as duas guerras ocorreram numerosas insurreições contra os colonialistas britânicos e franceses. O auge da resistência na Palestina ocorreu entre 1936 e 1939, tendo a Inglaterra que mobilizar para lá metade do seu exército, um dos mais poderosos do mundo.

Na década de 1960 foi fundada a Organização para a Libertação da Palestina (OLP).

Muito mais haveria a dizer sobre os diferendos, as vontades e as lutas destes dois povos – judeus e palestinianos, mas o tempo, o espaço deste quinzenário, e a paciência dos prezados Leitores têm de ser respeitados nos seus limites. Ficamos por aqui.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 15-11-2023)


8 de novembro de 2023

A INVASÃO DOS BÁRBAROS

 

Autêntica barbárie a ocorrida no do dia 7 de outubro, inesperadamente, em território israelita, próximo da fronteira da Faixa de Gaza. Estava-se na manhã de sábado. Um ataque sem precedentes por ar, mar e terra foi lançado pelo grupo palestiniano Hamas que combinou a infiltração de terroristas armados, que passaram a massacrar civis.

Israel, apanhado de surpresa, e o Hamas a utilizar o lançamento de foguetes e a tomada de dezenas de reféns. No início da noite, já Israel contabilizava centenas de mortos e mais de 2.000 feridos.

Aconteceu então durante a festividade judaica de Simchat Torah, situação que ocorreria 50 anos e um dia depois da Guerra do Yom Kippur, considerada o último grande episódio que ameaçou a existência de Israel.  Na ocasião forças egípcias e sírias lançaram uma ofensiva durante o feriado judaico do Yom Kippur, num esforço para recuperarem território que Israel havia tomado durante a Guerra dos Seis Dias, travada em 1967.

Este ataque marca a mais ambicionada ofensiva já lançada por um grupo palestiniano. Nem mesmo a Segunda Intifada, no início dos anos 2000, que deixou mais de um milhar de israelitas mortos em quatro anos, foi palco deste tipo de incursão em massa no território israelita.

O líder do braço militar do Hamas disse que a ofensiva foi uma resposta ao bloqueio de 16 anos a Gaza, aos ataques israelitas nas cidades da Cisjordânia no ano passado, e, entre outros, ao aumento dos ataques de colonos israelitas aos palestinianos e à expansão dos assentamentos israelitas em território palestino.

Os serviços de inteligência de Israel falharam todos: Mossad, que recolhe informações e realiza operações no estrangeiro; a Agência de Segurança de Israel, que controla a segurança interna e nos territórios ocupados; o Aman, responsável pela inteligência militar. Não é normal tanto falhanço e até foram avisados pelo Egipto que o Hamas estava a preparar uma ação em grande escala. Netanyahu considerou que o aviso era uma fake news. Enfim.

Agora Israel está prisioneiro de um dilema. Segundo Jorge Almeida Fernandes, in Público, “após o selvático massacre de 7 de outubro, a opinião pública israelita exprime duas exigências: garantir a libertação dos reféns, a qualquer preço; destruir o Hamas de uma vez por todas”. Mas numa análise dum jornalista do diário Haaretz refere que “O governo israelita deve dizer aos cidadãos, e especialmente aos reféns e suas famílias, a insuportável verdade; não podemos realizar os dois objetivos, libertá-los e destruir o Hamas.”

“O resgate dos reféns é a máxima prioridade”, diz Ayraham Sela, professor de Relações Internacionais na Universidade Hebraica de Jerusalém. “Israel tem uma obrigação para com eles. Já não basta deixar que tenham sido capturados?”.

Michael Milshtein, diretor do Fórum de Estudos Palestinianos na Universidade de Telaviv diz que personalidades do Hamas “são ideólogos que acreditam na jihad e o declaram abertamente. O seu autêntico objetivo a longo prazo é destruir Israel. Eles planearam este ataque desde 2014. Têm um culto pela morte e pelo martírio. Não é por acaso que usam o termo ‘judeus’ e não ‘sionistas’. O Hamas recusou sempre a solução ‘dois estados’.”

Na prática, o 7 de outubro suscitou comparações com a Al-Queda e o Estado Islâmico.

Já Fernanda Câncio, na sua coluna habitual do DN refere que “Israel está então a fazer tudo de acordo com o plano do Hamas, e é impossível que até Netanyahu, o irresponsável, o sem-vergonha, o sangrento, não o saiba. É impossível que o homem que desguarneceu de tropas a zona sul do país, junto a Gaza e ao seu governo de terroristas, para garantir a segurança dos colonatos ilegais, ocupados pelos seus apoiantes de extrema-direita, na Cisjordânia – a ponto de não só permitir um ataque como o de 7 de outubro, mas também de não haver, durante horas, socorro para as comunidades martirizadas –, não saiba que está a fazer tudo segundo a cartilha dos atacantes”.

Mas vejamos o Hamas e Israel à luz da lei internacional. Segundo Patrícia Akester, in DN, “Tanto Israel como a Palestina são signatários das quatro Convenções de Genebra de 1949. Nestas Convenções e nos seus Protocolos Adicionais reside o cerne do Direito Internacional Humanitário, pelo que tanto Israel como a Palestina estão obrigados a cumprir os ditames básicos de um ramo de Direito que visa, no âmbito dos conflitos armados, limitar as barbáries da guerra. Quanto ao Hamas, desde 2007 que governa de facto a Faixa de Gaza e por lá comanda um Exército, encontrando-se indissoluvelmente ligado ao Estado da Palestina e tendo, por extensão, de cumprir as Convenções de Genebra. Além disso, sendo a Palestina signatária do Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional (TPI), a conduta do Hamas cai sob a égide da jurisdição do TPI, que tem competência para julgar certos crimes que ‘chocam profundamente a consciência da Humanidade´”.

António Guterres, secretário-geral da ONU, condenou os “atos de terror” e “sem precedentes” de 7 de outubro perpetrados pelo Hamas em Israel nas frisou que “esses ataques terríveis não podem justificar a punição coletiva do povo palestiniano”. O discurso não foi bem recebido por Israel.

“Os ataques do Hamas não acontecem do nada. O povo da Palestina tem sido sujeito a anos de ocupação (...). Mas as reivindicações do povo palestiniano não podem justificar os ataques terríveis do Hamas. E esses ataques não podem justificar a punição coletiva do povo palestiniano”.

É um tema extraordinariamente sensível, de paixões desabridas, na opinião de José António de Sousa, “em que é preciso saber andar descalço sobre cacos de vidro. António Guterres sempre foi cuidadoso e moderado, e como máximo responsável das Nações Unidas tem de saber unir, não tomar partido. O Hamas é um grupo terrorista que tem de ser erradicado, a população árabe na Palestina não é o Hamas, tem de ser protegida, não pode ser um ‘dano colateral’ no processo de erradicação do Hamas. Israel está na posição difícil de ter de lutar contra um inimigo que utiliza populações civis, crianças, etc. como escudos humanos. É uma luta que Israel tem que lutar com inteligência, e não força bruta, para que o Hamas não ganhe a opinião pública mundial. Acredito que fosse isso que António Guterres quis dizer, e com o qual eu concordo.”. Eu também concordo.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 08-11-2023)


3 de novembro de 2023

RUMAR CONTRA A MARÉ OS INDÓMITOS ALGARVIOS E SERRANOS

 


Em posições nada condizentes com a valia que tanto o Sporting Clube Olhanense (SCO) e o clube da minha Terra, Sporting Clube da Covilhã (SCC), respetivamente 4ª e 8ª filiais do meu clube de sempre – Sporting Clube de Portugal (SCP), representam como históricos do futebol português, fica aqui mais um apontamento de momentos que agitaram desportivamente gentes deste país.

Naquele mês de janeiro de 1962, no Estádio José dos Santos Pinto, na Covilhã, confronto entre as duas equipas para uma jornada do Campeonato Nacional da Primeira Divisão, onde a turma algarvia havia então regressado ao seio dos maiores, depois de ter vencido o Campeonato Nacional de 2ª. Divisão – Zona Sul, deixando atrás de si equipas como o Farense, Vitória de Setúbal e Oriental.

Estávamos na 2ª volta da época 1961/62 e o SCO tornava-se forasteiro do SCC. Já havia vencido os serranos, no seu reduto, na 1ª volta, numa vitória arrancada a ferros, por uma bola a zero, golo de Armando. O guarda-redes era o Filhó (ex-Farense).

Pontificavam nesta época, na 1ª Divisão, equipas como a C.U.F., Atlético, Leixões, Académica, Beira-Mar, Lusitano de Évora e Salgueiros, num total de 14 clubes. Uma vitória contava 2 pontos e não três, como hoje. Não podia haver substituições, a não ser do guarda-redes, por lesão. Entre outras modificações que posteriormente se vieram a verificar como a aplicação dos cartões amarelos e vermelhos. A expulsão dum atleta era por gestos do árbitro, indicando o caminho dos balneários. Isso não quer dizer que não deixava de haver castigos, segundo o que o árbitro registasse no seu relatório.

Neste encontro, o SCC encontrava-se a atravessar um período de castigos aplicados a jogadores, pelo que andou três jogos a jogar desfalcado de algumas peças importantes do puzzle serrano.

Reporto-me ao caso do jogo Leixões – Sp. Covilhã, em janeiro de 1962, que abalou a equipa leonina, os seus dirigentes, a cidade e até o país, como um caso inédito então vivido. O encontro, realizado em Matosinhos, tinha o Beira-Mar também a lutar pela manutenção na divisão maior, tal como o clube serrano. O jogo foi arbitrado pelo aveirense Porfírio da Silva. Os Leões da Serra empenharam-se, entretanto para não perder o jogo, e até estavam a ganhar por 1-0. O árbitro prolongou o desafio mais sete minutos, duma forma tão flagrante que enervou os atletas covilhanenses, porquanto nesse prolongamento excessivo surgiu o golo da vitória do Leixões, quando o resultado se encontrava 1-1, num golo irregular por ter sido obtido em posição de fora de jogo, como igualmente foi forjado o primeiro golo do Leixões.

Da reação dos Leões da Serra, surgiram pesados castigos para os jogadores do Sp. Covilhã: Rita, Couceiro, Lanzinha, Chacho e Palmeiro Antunes, com três jogos de suspensão. Repreensão a Adventino e 30 dias de suspensão ao treinador Mariano Amaro, com 250$00 de multa A reação dos dirigentes leoninos e da própria população da Covilhã foi tão forte que a Federação Portuguesa de Futebol – caso inédito para a época! – levantou alguns castigos aos atletas covilhanenses, como ilibar o capitão Lanzinha de qualquer culpa e o castigo de Chacho foi reduzido de três para um jogo.

”O vasto salão de conferências da sede encheu-se muito antes da hora anunciada e nas ruas de acesso também se comprimiu multidão, compacta, indiferente à chuva e ao frio, olhos e coração postos no terrível dilema criado no seu Clube: manter-se, ou não, na prova máxima com a equipa ‘Reserva’, ou melhor, com os únicos 12 elementos que o Sr. Porfírio deixou fora da alçada da Federação (...)” E, daqui o grito do Ipiranga dos covilhanenses. Registaram-se ecos da imprensa local e nacional (n’“A Bola”, por exemplo) naqueles dias de janeiro de 1962.

“Perante a gravidade da extensão dos castigos impostos e ainda o reflexo do próprio futuro da equipa no Campeonato, a Direção, visivelmente contristada pelo facto da FPF não ter sequer ligado qualquer espécie de importância à exposição acerca das revoltantes arbitrariedades cometidas pelo direto causador de quaisquer excessos, porventura cometidos no supracitado jogo em relação ao aspeto disciplinar, iniciou desde logo uma longa e trabalhosa série de diligências oficiais e extraoficiais que o caso aconselhava”. Todo o desenvolvimento deste caso encontra-se descrito no meu livro “Sporting Clube da Covilhã” – Passado e Presente” – Bodas de Diamante – 1998.

Foi neste contexto que o SCC recebeu o SCO, na segunda volta, em que os castigados não puderam jogar, apresentando-se assim as duas equipas:

Sporting da Covilhã – Alves Pereira; Patiño, Cavém e Lourenço; Lanzinha e Carlos Alberto; Manteigueiro, Adriano, Adventino, Chacho e Amilcar. Olhanense – António Paulo; Rui, Luciano e Nunes; Madeira e Reina; Matias, Campos, Cardoso, Mateus e Armando.

Árbitro – Dr. Décio de Freitas, de Lisboa.

Segundo o primeiro volume do livro “Sporting Clube Olhanense – 90 anos de História – 1912 – 1962”, de Raminhos Bispo, “O intervalo chegou com o marcador em branco. Quer algarvios, quer os serranos, proporcionaram, nos primeiros 45 minutos, um magnifico espetáculo, a decorrer numa tarde amena, sem vento nem frio, sem calor, nem chuva, antes uma temperatura ideal e convidativa para a prática do futebol.

Colocados em vantagem numérica, lesão de Lanzinha, os donos do campo tinham de se desdobrar já que para a muralha defensiva de tanta eficiência apenas dispunham de quatro pedras.

Logo nos primeiros minutos, o Sporting da Covilhã altera o marcador, com dois golos de rajada. Uma jogada do espanhol Chacho, oferece de bandeja ao seu colega Adriano, que inaugura o marcador. Três minutos depois, Reina, ao cortar um centro contrário, faz o esférico entrar na própria baliza”.

Estive presente nesse encontro. Tinha então 16 anos. No final, esperávamos o regresso dos atletas para os seus autocarros, entre sorrisos e palavras simpáticas, os votos de boa viagem.

Foi a partir daqui, naquela esperança de ver o meu clube a manter-se na Primeira Divisão, com os jogadores não habituais a darem tudo por tudo para substituírem os seus colegas punidos, e, no final, a referida simpatia dos forasteiros, que me levou a uma afeição pelo Olhanense, que, tal como outros, já acompanhava pela leitura dos jornais, na antiga Biblioteca Municipal, ao jardim. Mas, principalmente, pelos jogadores que vieram do Algarve, nomeadamente de Olhão, para o clube da minha Terra.

No final desta época 1961/62 dava-se o regresso do Olhanense à Primeira Divisão e a saída do Sporting da Covilhã, que só regressaria ao seio dos maiores volvidos 23 anos.

Espero um novo ciclo de reanimação para as duas Coletividades Históricas, tendente ao seu regresso ao seio dos maiores do futebol português.

João de Jesus Nunes                                                                                          jjnunes6200@gmail.com

 

 

(In “O Olhanense”, de 01-11-2023)

 

19 de outubro de 2023

PETAS DE ALGUNS DOS NOSSOS POLÍTICOS

 


Não penso no tempo que remanesce da minha vivência neste planeta, não obstante reconhecer já ter atingido, ou estar próximo, da média de duração da nossa existência.

Apesar de terem sido cumpridas as obrigações profissionais que abraçámos, com mais ou menos fulgor, jamais conseguimos parar de fazer algo mais (na generalidade dos casos), quer em atividades de solidariedade social ou no âmbito da cultura, quer mesmo nos pequenos trabalhos agrícolas, em espaços dos próprios ou de familiares e amigos. Quer ainda na religiosidade ou no associativismo. Há assim variadíssimas situações, num ambiente de gratidão à Vida.

Outra gratificante forma de continuidade dum desejável tempo longevo (que aberração esta da longevidade na Terra, em relação à Eternidade) é o que se dedica aos filhos e aos netos, que poderão ser os portadores do nosso espelho a sorrir pela Vida, para quem as oportunidades lhes surgiram.

Pois é, de manhã, ao acordar e olhar o dia que aí vem, chegamos ao ponto de ver que não há tempo para tudo o que tínhamos para fazer, e, como em generalíssimos casos, na vertente de quem já se encontra nas suas férias vitalícias, apesar da sua constatação, aceitamos mais isto e aquilo: um encontro, uma reunião, uma visita, uma videochamada. Acontece, por vezes, que, ao fim do dia, nem nos lembramos das caras com quem estivemos, não saboreámos os momentos bons ou refletimos sobre os pouco agradáveis.

Já corremos, ou ainda o fazemos, apressadamente atrás do sucesso, do trabalho, da carreira, do ter. Corremos, ainda, apressadamente para as redes sociais, para os likes, para os amigos virtuais, tornando-nos cúmplices, por vezes, duma vida cheia de nada, de tentação e perdição, que rouba o tempo.

Mas vamos aos assuntos em título, e comecemos pelos que envolvem casos mais prementes, como é o da habitação. Segundo Ana Sá Lopes, in Público, “Costa ficou entusiasmado por conseguir ‘melindrar’ o Presidente da República e foi inebriado pela sua ‘habilidade’ política que apareceu eufórico, deliciado, em ponto de rebuçado narcísico, dizendo o impensável: o Governo fartou-se de trabalhar para que os portugueses tenham habitação condigna. Afinal, os cidadãos que tentam alugar (ou comprar) uma casa nos maiores centros urbanos é que estão a ver mal   as coisas: o Governo desde 2015 não faz outra coisa do que resolver o problema da habitação, construir casas e mais umas coisas alienígenas”. O que é certo e verdade é que o problema da habitação persiste. António Costa informou que vêm aí 17 mil casas a caminho e não as 26 mil que prometeu. Segundo a aludida jornalista, sobre a habitação, Costa “prometeu o céu várias vezes desde 2015 e as pessoas (principalmente nos grandes centros urbanos) vivem no inferno”. Entretanto, o programa Mais Habitação tem várias medidas positivas. Vamos aguardar o que vai sair do OE que vai ser apresentado.

Saltamos agora para as eleições na Madeira, onde o presidente do PSD Madeira e do Governo Regional, Miguel Albuquerque, anunciou perentoriamente que se demita se não tivesse maioria absoluta. Aqui funcionou em pleno a patranha. Ganhou sem maioria absoluta, e, contrariamente ao que havia dito, não se demitiu e formou novo Governo madeirense, coligado com o PAN.

Voltamos uns anos atrás e temos aí Cavaco Silva, então como Presidente da República, a garantir que os portugueses podiam confiar no Banco Espírito Santo (BES), treze dias antes da queda deste mesmo Banco. Corria o ano de 2014. Pois é, Vitor Bento, que substituiu o líder histórico Ricardo Salgado, disse a 14 de julho desse ano, dia em que entrou em funções, que a prioridade no banco é reconquistar a confiança dos mercados e pôr fim à especulação. O Banco de Portugal já veio várias vezes a público garantir a solidez financeira do BES e o então Primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, tranquilizava também os depositantes do banco. O certo e verdade é que o banco caiu e Ricardo Salgado encontra-se ainda a contas com a justiça, para julgamento, o qual tem tentado esquivar-se por vários meios.

Encheria páginas deste quinzenário, ou de outra publicação, se fossemos mencionar muitos casos gritantes de petas políticas. Não quero, contudo, deixar de memorizar a célebre data de 2 de julho de 2013 respeitante à demissão “irrevogável” de Paulo Portas (PP) de ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros do Governo de Passos Coelho. Naquela patranhada que homens de palavra alguma vez tomariam, acabaria por se ver PP a dar uma machadada fatal no “irrevogável” da demissão.

Muito mais haveria para lembrar, mas não quero deixar de registar as contínuas petas do atual Governo perante a não eliminação das portagens na A23 e A25, com contínuos adiamentos, passando tão só por algumas reduções, deixando a Plataforma P’la Reposição das Scut na A 23 e A25 enraivecidas face ao incumprimento da palavra dada.

E por aqui ficamos. Até à próxima.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 15-10-2023)

 


11 de outubro de 2023

TODOS, TODOS, TODOS!

 

Começo por me referir ao editorial de Joaquim Chito Rodrigues, Tenente-general e Presidente da Liga dos Combatentes, na última revista “Combatente”, de que é o seu diretor, edição 404 de junho de 2023. No seu historial sobre as missões de paz em tempo de guerra, regista a data consagrada de 29 de maio do ano em curso, na homenagem “aos que ao serviço da ONU, da UE e da OTAN se sacrificaram e sacrificam para que a Paz no mundo procure ser uma realidade”. Três fatores se destacam neste contexto da sua intervenção: “Dia dos Combatentes das Forças Armadas e das Forças de Segurança, em forças nacionais destacadas, ao serviço da Paz. Ano em que celebramos o 75º. Aniversário da primeira Operação de Paz da ONU, em 1948, na guerra israelo-árabe e o 35º aniversário da atribuição do Prémio Nobel da Paz à ONU”.

A ONU, surgida após a segunda guerra mundial, tem hoje 128 países interessados nesta missão, cerca de 123.000 pessoas servindo nesta causa e um orçamento que ronda os sete mil milhões de dólares.

Também não podia deixar de me referir ao grandioso evento que se realizou em Portugal, de 1 a 6 de agosto – As Jornadas Mundiais da Juventude – com dois locais em destaque: Parque Eduardo VII (Missa de Abertura, Festa de Receção ao Papa Francisco e Via Sacra) e o Parque Tejo (Vigília e Missa de Envio), contando com 1,5 milhão de pessoas, jamais visto em Portugal, e irrepetível, segundo as palavras do Presidente de República, Marcelo Rebelo de Sousa.

Depois de muito do que se falou sobre os abusos sexuais no seio da Igreja, das controvérsias relativamente às opções da vivência entre pessoas do mesmo sexo, e outras que dispenso de enumerar, algumas francamente injustas, outras nem tanto, na minha opinião, surge o discurso do Papa Francisco, para aquela multidão de jovens, e não só, de todo o Mundo, numa intervenção perante 500 mil pessoas, afirmando com grande vigor que a Igreja tem lugar para “todos”, sem exceção. E pediu a cada jovem que seja o protagonista da sua vida.

Foi um discurso marcado por um grande improviso e desvios em relação ao texto que tinha sido preparado – e marcado por uma frase: “Igreja de todos, todos, todos!”. Voltou assim a defender uma Igreja de braços abertos.

O Papa Francisco apareceu rejuvenescido e revigorado pelo contágio de entusiasmo dos jovens que, juntamente com os seus pastores e educadores, chegaram a Portugal vindos de todas as partes do mundo.

Interessante a parte do jornal digital Vatican News que passo a reportar: “Num tempo em que todos comentam e ninguém escuta, numa época em que tantos procuram aparentar o que não são, não há mensagem mais atraente e revolucionária: Alguém nos ama assim como somos, perdoa-nos sempre, está ali à espera de braços abertos, vai à nossa frente disposto a nos cobrir de misericórdia. É a lógica nada humana e inteiramente divina que aprendemos com o episódio do Evangelho de Zaqueu, o pecador publicano mal visto por todos na cidade de Jericó que, curioso em relação ao profeta nazareno, sobe para um sicómoro e meio escondido entre as folhas o espera passar. Mas Jesus a olhar primeiro para ele, ama-o primeiro, se auto convida para ir a sua casa, independentemente dos comentários escandalizados dos presentes. Na Igreja há lugar para todos, assim como houve lugar para o publicano Zaqueu que teve o privilégio de receber o Nazareno na sua própria casa, à sua mesa.

Gosto de contar este episódio, pois já por duas vezes estive em Jericó.

Pegando neste tema, ocorre-me um assunto no seio dos Antigos Combatentes, que reputo de injusto e que já apresentei no Jornal “O Combatente da Estrela”, nº. 129, de dezembro de 2022, sob o título “Do Meu Ponto de Vista”. Refere-se à injustiça, na minha opinião, resultante da alteração inserida no Estatuto do Antigo Combatente em que deixaram de ser considerados nesta situação os militares que prestaram serviço fora da Guiné, Angola e Moçambique, salvo raras exceções.

Também, como o Papa Francisco, eu aqui exorto a que todos os que se consideram lesados insistam na reivindicação: “Todos, todos, todos!”.

João de Jesus Nunes

Jjnunes6200@gmail.com

(In “O Combatente da Estrela”, 132, OUT/2023)


CONTE-NOS A SUA HISTÓRIA ANTÓNIO JOSÉ SILVA

 






Trazemos hoje  estórias da história de um Antigo Combatente, Covilhanense, que, não sendo sua missão estar envolvido fisicamente em zonas de perigo iminente nos capins guineenses, teve ação preponderante nas ações que lhe foram atribuídas no segredo e alta responsabilidade da sua especialidade de Operador-Cripto, entre elas  criptografar e descriptografar mensagens por vias de técnicas de codificação para garantir manter a segurança das comunicações aos olhos dos adversários ou espiões inimigos, entre outras situações.

Mas, afinal quem é o António José da Costa Silva, de seu nome completo, mas que não o costuma usar?

Nasceu na freguesia de São Pedro (hoje, integrando a União de Freguesias da Covilhã e Canhoso), no dia 22 de dezembro do ano da graça de 1948, a três dias da celebração do Natal. É casado, tem um filho e dois netos.

Estudou na Escola Industrial e Comercial Campos Melo, onde concluiu o Curso Geral do Comércio, e já depois do serviço militar obrigatório, o antigo 7.º ano no Liceu Camões, em Lisboa, no ano de 1975, tendo ainda feito provas ad hoc de acesso à Faculdade de Letras com Avaliação de Entrada.

Foi em Lisboa Promotor de Relações Públicas na Arte Livreira e empregado de escritório durante 5 anos. Posteriormente, na Covilhã, foi empregado de fabricação na CIL e empresário em nome individual na área da prestação de serviços.

Mas António José Silva é sobejamente conhecido na Covilhã por ser um poeta de eleição, e romancista (romance poético), já com seis obras publicadas (“O Rosto da Poesia”, “Varanda dos Carqueijais”, “Chuva de Mel”, “Cem Poemas à Janela da Rua”, “Princepezinhos Encantados” e Amor-poético”). Participou em 22 Antologias e 4 Coletâneas de várias editoras. Foi ainda o autor de várias letras para instituições: “A Marcha do Leão da Serra”, o Hino da Marcha do Sport Lisboa e Benfica na Covilhã, o Hino da Associação Mutualista da Covilhã e a letra da Marcha Popular do Académico dos Penedos Altos 2022/2023.

Teve várias distinções e prémios de leitura no Casino Estoril, participou no programa da RDP Internacional sobre o “Rosto da Poesia”.

Da sua extensa ação cultural ficamos por aqui, pois tem muito mais desenvolvimentos que ultrapassariam várias páginas deste trissemanário, não ocultando, no entanto, a sua participação no dirigismo do Sporting Clube da Covilhã e do seu Jornal, assim como nos programas radiofónicos da Rádio Cova da Beira e atualmente na Rádio Fórum. E, entre outros factos biográficos, venceu em 2013 um Prémio de Poesia, pela APE.

Iniciou o serviço militar obrigatório no RI 5, nas Caldas da Rainha, no ano de 1969, seguindo depois para o RAL 4, em Leiria, em 1970, e seguidamente CICA 3, em Elvas e BRT na Trafaria, em 1971.

Foi mobilizado para a Guiné-Bissau, onde esteve em Cuntima e Bissau de novembro de 1971 a maio de 1973, data do seu regresso à Metrópole.

Se muito ainda haveria a detalhar desta personalidade covilhanense, deixamos aos prezados leitores d’O Combatente da Estrela”, uma resenha da sua participação da guerra do Ultramar, na então Colónia da Guiné, para onde foi enviado em missão obrigatória de soberania nacional.

São dele o poema e texto que segue:

 

O SOL DO CAPIM

 

O sol no capim

abria fendas no mato

e o medo espreitava

a cada passo

a compasso

no invisível das minas

em qualquer lado

que podiam rebentar

nas botas de cada soldado

o sol no capim abrasava

quando a primeira G3 disparava

coração apertado

aflito

ao longe ouvia-se o primeiro grito

rebentou!...

e o mato transformado em rebeldia

dor

angústia

gritaria

espírito bem forte

porque o sol no capim

sabia a morte.

 

 

Um sopro de tempo passava inquinado. Quis o destino que após tirar o curso de Operador-Cripto, fosse mobilizado para bem longe, até terras tórridas duma Guiné, onde o capim cheirava a morte, entrelaçado em “bolanhas” dizimais. As mensagens que cifrava e decifrava eram aterradoras no testemunho de sangue vertido na pintura selvagem de trilhos artilhados. Ainda fui colocado em serviço pela SHERET – “Serviço de reconhecimento especial e secreto de transmissões” no norte do território, Cuntima, considerada das zonas mais fustigadas da Guiné-Bissau…Via diariamente pelotões saírem rumo a patrulhas “negras”! Quantas vezes os rebentamentos ao longe me despertavam sentimentos incontáveis e revoltantes? Quantas vezes cifrava msgs dos mesmos mortos e feridos que minutos antes via sair?  Os infindáveis momentos noturnos em secretária de solidão, tantas vezes com uma lágrima corrente sem vontade de bater teclas naquela máquina triturante!

Quando saí do Norte e rumei a Bissau, mitiguei e deixei para trás tempos terríveis. Continuei com a tal máquina torturante, cifrando e decifrando feridos e mortos plasmados ao longo de toda uma Guiné-Bissau que agonizava.

Recordo os amigos, as patuscadas, o clima e aqueles loucos anos duma guerra injusta.

Recordo o tempo e os tempos. Tempos que não voltam mais, mas que ficaram gravados nos ponteiros da vida, que dentro da minha alma ocuparão lugar eterno.

 

 

Poema e texto do Autor.

António José da Silva

 

 (In "O Combatente da Estrela", 132, OUT/2023)


PARA ONDE VAMOS?

 

Neste primeiro de outubro, mais próprio de um dia de verão, as notícias climáticas não são agradáveis. Culpa do homem. O meteorologista acabou há pouco de alertar num dos canais televisivos de que em Portugal nos deveremos habituar a ter unicamente duas estações. Até o fundo dos oceanos é quente, e, como tal, nocivo para a vivência no planeta.

Depois das férias, com uns mais preocupados do que outros, os bons jornalistas, de conceituadas publicações, deparam com as notícias “num mundo em plena desordem, em que é cada vez mais difícil detetar os principais fios condutores e as grandes tendências que nos permitem, normalmente, interpretá-lo”. Nesta preocupação surge Teresa de Sousa, do Público. É que vivemos num desses momentos de grande turbulência internacional. É a transição entre duas ordens mundiais, ou seja, a que conhecemos nas últimas décadas, construída pelos Estados Unidos depois da II Guerra Mundial. Liberal e assente em regras. A outra, ainda desconhecemos os seus contornos, em grande parte. De harmonia com o que escreveu a diretora da revista britânica The Economist, começa por lembrar que desde que a China passou a integrar a economia global, nos anos 1980, o seu crescimento foi o mais espetacular que alguma vez a História registou. A economia chinesa “cresceu à taxa anualizada de apenas 3,2% no segundo trimestre”, face aos 40 anos em que a sua economia se encontrava. Terrível para os padrões chineses, sobretudo se compararmos com o crescimento da economia americana de quase 6% no mesmo período.

Segundo a tese da revista britânica, as políticas económicas defendidas pelo presidente chinês apenas agravarão o problema porque o seu objetivo principal deixou de ser o crescimento económico para passar a ser a segurança, na rivalidade com a superpotência americana.

Na cimeira dos BRICS que decorreu em Joanesburgo, na África do Sul, os países passaram a ser onze. Mais que duplicaram o número dos seus membros. Eram inicialmente quatro, sendo certo que BRIC significa Brasil, Rússia, Índia e China. Juntou-se-lhes depois a África do Sul. Agora estes convidaram mais seis países: Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Irão, Argentina, Etiópia e Egipto. Já a Indonésia não aceitou integrar este grupo, que é o maior país islâmico do mundo, com uma economia poderosa e uma população de 200 milhões e pessoas, no Sudoeste Asiático.

Não deixa de ser desagradável, quase ofensivo, o facto de países democráticos, como o Brasil, Índia ou África do Sul, terem aceitado sem qualquer problema “coabitar com teocracias ignóbeis como o Irão e a Arábia Saudita”.

A China foi o grande impulsionador deste alargamento. Sozinha, já representava 70% da riqueza dos BRICS. Consolidar um grupo de países importantes do Sul Global capaz de rivalizar com o G7 é uma parte fundamental da sua estratégia. À Índia cabe-lhe, durante este ano, presidir ao G20 criado por iniciativa da França e dos Estados Unidos, em 1999, para integrar as principais economias emergentes, grandes e médias, que não se sentiam devidamente representadas nas estruturas das Nações Unidas, e para responder ao mundo que emergia do fim da Guerra Fria.

O presidente russo não esteve presente nas cimeiras organizadas por se ter tornado uma figura muito incómoda para todos os subscritores dos estatutos do Tribunal Penal Internacional, que devem cumprir os respetivos mandados de captura, como no caso de Vladimir Putin.

O G7 reúne democracias liberais que partilham os mesmos valores fundamentais da democracia e do Estado de direito. Não existe essa unidade, neste novo grupo, que reúne teocracias violentas, regimes totalitários como o chinês, ditaduras agressivas e expansionistas como a russa, onde Putin transformou o seu país num verdadeiro Estado-máfia, em que os opositores são pura e simplesmente assassinados.

O alargamento dos BRICS representa uma tendência que não deve ser subestimada e que exige dos Estados Unidos e da Europa particular atenção.

O jornal Monde concluía, no seu editorial de 26 de agosto que “Ao passar de cinco para 11 países, os BRICS podem defender melhor os interesses do Sul Global. Mas as esperanças da China de reunir à sua volta uma frente antiamericana parecem menos realistas”.

Teresa de Sousa conclui no Público que “o nosso velho continente está a braços com uma guerra em grande escala, a maior desde a II Guerra Mundial, que ditará o nosso futuro coletivo – de paz e de prosperidade, como nos habituámos a viver, ou de insegurança e de profunda incerteza. O seu desfecho a favor da Ucrânia é vital”.

Questiono, pois, para onde iremos?

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

 

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 11-10-2023)


3 de outubro de 2023

OUTROS TEMPOS, OUTRAS VONTADES

 


Terminou o verão. Surgiu o outono.  Neste início ainda com alguns momentos de estiagem. As chuvas provocaram alguns contratempos. Ainda que necessárias.

Mais tempo para ler e escrever. Conforme os gostos, E as disponibilidades. Para uns sim, para outros não, e, para aqueloutros assim, assim. Em mão, algumas memórias de outrora. Como os tempos mudaram. Mais no âmbito da mulher. Onde a publicidade investia. E a ousadia surgia.

Aos mais novos nada lhes diz. Só a quem nasceu na “idade da pedra”. Como eu. Talvez sorriam. Na incerteza da autenticidade. Já nasceram com as novas tecnologias. Sobejamente conhecidas. Também a robótica. Agora a inteligência artificial. 

Um texto de João Ramos de Almeida, do Público. Já lá vão 15 anos. Para ele a contribuição de Luís Trindade. Doutorado sob a orientação de Fernando Rosas em História Cultural Contemporânea. “No início, encontrava-se sempre um produto, ou uma ideia. Que se pretendia vender como novo. Sob a aparência de uma mudança permanentemente radical. Muita coisa se mantém. É ver as imagens da publicidade. Em jornais e revistas. Ao longo do século XX. Revelam que a publicidade acompanhou os ventos sociais. Mas os valores e as aspirações parecem imutáveis.”

Publicidade em casa. Uma das grandes alterações foi a penetração da publicidade nos lares. Em 1925, a Vacuum Oil Company – que mais tarde deu lugar à Mobil e ExxonMobil – encenou um episódio doméstico.  Tratava-se de comercializar um fogareiro a petróleo. A originalidade do anúncio não é mostrar a dona de casa. Mas sim a criada. Roupas visivelmente rurais. Uma trouxa e lenço ao pescoço. “A creada despede-se”. Virando costas ao progresso trazido pelo “fogão”. Que “cozinha um jantar completo em menos de duas horas” ... A dona de casa, uma mulher moderna. Cabelo à “garçonne”. Sorria ao “senhor” que acabou de chegar. Ainda de sobretudo. E fato impecável. Traz nas suas mãos enluvadas a surpresa – o prosaico fogareiro. Usado pelas classes mais populares. E os dois estão felizes na cozinha. Num local onde socialmente não deveriam estar.

A mecanização das tarefas domésticas entraria muito anos depois. Sob a forma dos mais diversos produtos. A dona de casa passou a ser o elemento de contacto entre o homem cozinheiro profissional e o homem que prova o resultado. Como se vê num anúncio da margarina Vaqueiro (1958).

O homem passa a ser o sedutor. Com carro que atrai a mulher bonita. Ou socialmente bem instalada.

Num anúncio da Bosch (1999), o humor pisca o olho à independência da mulher. Mas também do homem.

Um jovem homem sem jeito para a lide doméstica: “O meu avô não lavava a louça, o meu pai não lavava a louça. Será possível continuar esta tradição?”. Sim, responde o anúncio. Compre uma máquina de lavar louça.

A revolução. Mais fugaz na publicidade é a política. A mulher “trabalhadora” do lar passa a ter uma palavra a dizer nos destinos do país (1974). Quase de torna a companheira de todos os portugueses.

Na publicidade, o sucesso será facilitado através da aparência. Se usar “a mais revolucionária das meias”, as suas pernas ficarão esguias e bonitas (1966). A rapariga que usa soutiãs Triumph (1970) “insinua-se” com um à-vontade “no ambiente de trabalho”. Maioritariamente masculino. Mas quase 30 anos depois, a evolução do ambiente parece já valorizar a mulher. Despreocupada e inteligente. Ainda que dependa de uns óculos Calvin Klein (1999).

A rápida sofisticação da publicidade funcionou igualmente, segundo Luís Trindade, in Público. Como “uma escola de ver anúncios”. Cada vez “mais subtis e mais eficazes”. O texto explicativo cedeu o lugar a uma publicidade. “Praticamente sem slogans, cujas mensagens são muito subliminares”. Nalguns casos, prescindiu até das imagens de produtos. Tornou-se abstrata. Passou a jogar-se cada vez mais com as emoções. E com os valores.

Apesar dessa evolução, o que foi que não mudou? “A resposta passa outra vez pelo mesmo: as estruturas sociais”. Como refere o professor Luís Trindade. Trata-se sempre de uma venda. E de uma “venda para as maiorias”. São mais conservadoras do que as margens da sociedade. O prestígio continua do lado dos privilegiados.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

                                                                        (In “O Olhanense”, de 01-10-2023)