22 de outubro de 2014

ENTRE HOMENS SEM ALMA

São notícias do dia-a-dia. Eles são criminosos, outros ladrões. Há corruptos e traidores. Matam inocentes por ódio e ambição. Voltam a fazer escravos. Eles são homens sem consciência. Seus corações são inexistentes e não têm alma. Vivem interiormente como bestas no cometimento das suas barbaridades. Tragédias ou desgraças são palavras que não conhecem, ou desejam omitir. Pensam e materializam esse pensamento. São homens sem alma! Fanatismo é um dos seus ideais. Um humano é como um irracional. A brutalidade, no desígnio da sua divindade, é duma feroz loucura. Inocentes condenados e famílias destroçadas. Eles são homens sem alma!
Já vai na quarta vítima dos jihadistas do Estado Islâmico, com decapitações sob as garras desses terroristas bárbaros e repugnantes. Depois dos jornalistas norte-americanos James Foley e Steven Sotloff, seguiram-se no martírio os britânicos David Haines e Alam Henning, mesmo a trabalhar no voluntariado em organizações não-governamentais, em prol dos países que lhes dão guarida. Mas os carrascos são homens sem alma!
São mais de trinta mil esses combatentes do Estado Islâmico que domina uma vasta faixa territorial entre a Síria e o Iraque, e a sua raiva já não é só sobre os americanos e britânicos, estende-se também aos franceses e aos ocidentais na sua generalidade, assim como à Austrália.
Eles aproveitaram a Primavera Árabe de 2011, e a liberdade das eleições para tentar subvertê-la a seu favor. Os extremistas islâmicos que proclamaram o califado no Iraque e na Síria apelam à violência, e violência extremamente feroz, com métodos medievais nas execuções.
E na aderência a este grupo terrorista, recrutados muitas vezes por via da Internet, também há ocidentais. Para além dos ingleses, também franceses, alemães e de outros países, e, como não podia deixar de ser, consta que há doze jihadistas de origem portuguesa na Síria e no Iraque. São filhos de emigrantes e vivem na Europa. Consta ainda que um deles já cometeu em atentado suicida no Iraque. Um é de Trás-os-Montes e outro, engenheiro de profissão, é de Lisboa.
O autodenominado Estado Islâmico (EI), que de Estado nada tem, está também agora a atrair mulheres norte-americanas, recrutadas para serem “fábricas de bébés”, com o objetivo de aumentar a população do Califado que pretendem criar, fenómeno que já não é estranho, onde se inserem adolescentes, recrutadas através da Internet.
Ora, que balanço podemos fazer da luta contra o terrorismo, treze anos volvidos sobre os bárbaros atentados que mataram milhares de pessoas nas torres gémeas de Nova Iorque? Será que o mundo está mais seguro? A Primavera Árabe acabou por se transformar num Inverno: Iraque, Líbia, Síria e Egito caíram no caos. Os que se consideram agora libertadores ultrapassaram na violação dos direitos humanos os assassinados Saddam e Kadhafi, e Assad e Mubarak. E se este pretenso Estado Islâmico, entre o Iraque e a Síria, que se propõe construir um Califado, num desejo de extermínio de milhares de infiéis que professam uma religião diferente, outro “Estado Islâmico”, a Sudoeste da Nigéria, dedica-se a raptar meninas que depois vende a pedófilos, como castigo por terem aprendido a ler e a escrever. Santo Deus! Qual é a divindade destes loucos, muito próximos dos irracionais?
Ao longo de toda a história universal encontramos guerras, conflitos, situações geradas e que poderiam ter sido evitadas. Acabou a Guerra Fria mas logo surgiram novas situações de conflitos no globo. Temos agora, para além de outras preocupações, o medo do “Estado Islâmico” (EI) – ou ISIS ou ISIL – que reúne a fação mais radical da jihad, ou seja, a guerra santa, que, apesar de recente, já se distinguiu pela sua crueldade e primitivismo.
Tem o Ocidente que fazer um esforço para separar os países que se envolveram na luta pelo Estado Islâmico, ou pelo Iraque, ou qualquer outra ambição de conquista ou vingança. E também tem que tomar as precauções necessárias para que a jihad não penetre no seu território.

(In "Notícias da Covilhã", de 23.10.2014) 

MARIA IVONE DE JESUS PINTO MANTEIGUEIRO VAIRINHO

Não é fácil falar sobre uma personalidade covilhanense por quem tive grande amizade e que nos compreendíamos pela envolvente cultural que nos tocava, tantas vezes no caminho da nossa Terra-Mãe.
Maria Ivone Manteigueiro, que nasceu na Covilhã em 27 de Fevereiro de 1936, desde muito jovem, e ainda na adolescência, se evidenciava, na Covilhã, no âmbito cultural, pelas excelsas qualidades que possuía e lhe fervilhavam da sua jovialidade, num encontro do saber e do saber fazer, de tal forma que a Covilhã, após a década de cinquenta do século XX, já era uma cidade pequena para ela.
Com 9 ou 10 anos fez a sua estreia no teatro – no teatrinho do salão paroquial de S. Pedro, como lhe chamava – e, mais tarde, ensaiou as primeiras pequenas peças de teatro que, entretanto, ia escrevendo, nos seus 13 anos.
O ensino na Covilhã, e no País, não tinha a evolução dos tempos de hoje – e o que era isso de novas tecnologias? – e, assim, o nosso Liceu só tinha o 1.º ciclo, à altura. Como Maria Ivone queria muito mais, e até  mesmo por um impulso familiar, optou pela Escola Industrial, onde o ensino se prolongava até ao 5º. ano industrial, e aí prosseguiu os seus estudos até que já no 4.º ano industrial, o então dinâmico director da Escola,
Eng.º Ernesto de Melo e Castro, conseguiu que na Escola fosse também criado o Curso Comercial. Aconselhou a jovem aluna  a mudar de curso, a qual sobressaía pelo seu valor académico.  E ei-la a ser a aluna mais distinta da Escola e a ganhar prémios entre os quais a de ter sido a 1ª classificada dos Cursos de “Formação Geral do Comércio” e “Complementar do Comércio”.
Mais tarde viria a completar os cursos do Instituto Britânico e Alliance Française, assim como a diplomar-se em estenografia portuguesa, francesa e inglesa.
E é já na sua actividade profissional ao serviço da ex-Sacor e depois Petrogal, como Secretária do Conselho de Administração que frequentou um curso internacional além de outros de informática e técnicas de secretariado.
Mas, voltando à sua juventude, na Covilhã, as peças de teatro e autos de Natal, que escrevia, foram por si representadas na Escola Industrial e Comercial Campos Melo e no já referido teatrinho do Salão Paroquial de São Pedro, mas também contos e poemas que viriam a ser publicados em diversos jornais e revistas, tendo ganho quatro primeiros prémios em contos, e uma menção honrosa em Poesia Lírica no I Concurso Literário da ex-Sacor.
Com guião e direcção do Padre José Domingues Carreto, foi a protagonista do filme “Dois Caminhos”, que relatava a luta de uma jovem operária, militante da JOCF, na defesa da mulher no mundo do trabalho, tinha Maria Ivone 15 anos.
As gentes mais antigas poder-se-ão recordar do retumbante êxito de Maria Ivone na
festa de finalistas de 1955/56, na representação de “Auto da Alma, Todo o Mundo e Ninguém” e “Súplica de Cananeia”.
Mas já antes, em 1952/53, no ressurgimento do Orfeão da Covilhã, começou a fazer parte do grupo de teatro. Declamava entre a 1.ª e a 2.ª partes da actuação do Orfeão. Foi criado o grupo folclórico que levou o folclore beirão a vários pontos do País, onde Maria Ivone fazia o papel de “Covilhã”, apresentando e explicando os números que o grupo exibia e declamando também.
Em 1954, aquando da inauguração do Teatro-Cine da Covilhã pela Companhia de Teatro Nacional Amélia Rey Colaço – Robles Monteiro, Maria Ivone representou um monólogo de Alice Ogando, tendo o casal de actores ficado muito agradado, o que proporcionou lhe  abrirem as portas do Teatro Nacional, oportunidade que não pôde concretizar.
Mas, com estes seus dotes de mulher multifacetada, colaborou em concertos da “Pró-Arte”, dizendo poemas ilustrativos de diversos andamentos de Sinfonias de Beethoven.
No cinquentenário do Monumento de NosNeves e de Maria Alberta Menéres, na sessão solene, a que presidiu o Núncio Apostólico em Portugal, Cardeal D. Fernando Cento.
sa Senhora da Conceição, na Covilhã, declamou poemas do Padre Moreira das
Com o pseudónimo de Ivone Beirão, em 1959 pertenceu ao Centro de Preparação de Artistas da Rádio. Gravou programas  nos estúdios da Emissora Nacional, na Rua do Quelhas, e estreou-se num Serão para Trabalhadores, no Pavilhão dos Desportos, no Parque Eduardo VII. Nessa altura teve também lições de arte de dizer.
Entretanto, ia escrevendo, tendo publicado quatro livros (entre os 20 e os 23 anos), dum mercado específico da Agência Portuguesa de Revistas que tinha aberto uma porta a “Novos Escritores Portugueses” – “Linhas Trocadas”, “Amor Cigano (1.ª e 2.ª edição)”, “Humilhação de Amor” e “Uma Mulher Moderna” – os romances; e, já mais recentemente,  “Livro da Dor e da Esperança”, em poesia, apresentado no Salão Nobre da Câmara Municipal da Covilhã.
Escreveu também largas dezenas de contos e crónicas que foram publicadas em revistas e muitos jornais, como já referi.  Foi colaboradora da Crónica Feminina, nos seu anos de ouro, de 1957 a 1982, com uma página semanal (conto ou crónica).
Também foi colaboradora do jornal “Poetas e Trovadores” e participou em 12 Antologias da Associação Portuguesa de Poetas.
As suas biografia e bibliografias estão incluídas em vários livros.
Em 02.10.1961, Maria Ivone casou com Victor Vairinho e foi para Lisboa, empregando-se na Sacor. Passou a ser então a Maria Ivone Manteigueiro Vairinho.
Em 1966 fez parte do “Teatro do Pessoal da Sacor”, tendo depois realizado Serões Culturais Vicentinos. Colaborou em diversos Saraus de Poesia, sempre a poesia…
A convite da ex-FNAT, representou no Teatro da Trindade, em Lisboa; no Luísa Tody, em Setúbal; e nas instalações da ex-Sacor em Lisboa, Cabo Ruivo e Faro.
Continuou a escrever os seus contos mas teve uma excelente proposta para fazer traduções de Francês, Inglês e Espanhol, e, por isso, não voltou a publicar mais romances originais. Tem várias dezenas de livros traduzidos de Espanhol, Francês e Inglês (entre eles a série Dallas, da Televisão, e Robinson Crusoe, editadas pela Agência Portuguesa de Revistas e Circulo de Leitores).
Na Biblioteca Nacional (Base Nacional de Dados Bibliográficos) tem registados em seu nome 239 livros (traduções e originais).
Reformando-se aos 56 anos, recomeçou as suas actividades literárias e artísticas e é então que começa a escrever poemas.
Foi ao auditório da RTP onde declamou e recebeu uma proposta para fazer parte da Associação de Poetas Portugueses (APP).
Proferiu diversas palestras e conferências, em vários locais do País.
Foi Presidente da Direcção da Associação Portuguesa de Poetas e Directora do seu Boletim.
Desde 2001 que Maria Ivone  dava aulas de “Ler…e Dizer – Oito Séculos de Literatura Portuguesa/Poesia”, na Universidade Sénior de Oeiras.
Era sócia da Associação Portuguesa de Poetas, Associação Portuguesa de Escritores e Sociedade Portuguesa de Autores.
Mas…poderão perguntar alguns das gerações mais novas, ou, outros, do seu tempo, menos interessados pelo fenómeno cultural: quem era Maria Ivone que aqui se narra?
Maria Ivone Manteigueiro, como era conhecida, e, depois, Vairinho pelo casamento, era  a mais nova de três irmãos: Armanda e  Francisco Manteigueiro, que foi velha glória do Sporting da Covilhã e também meu bom amigo. Quis Deus que o Francisco deixasse o mundo dos vivos em 9 de Novembro de 2011 e aguardasse pela companhia de sua querida irmã, volvidos pouco mais que dez meses, em 7 de Setembro de 2012.
A Maria Ivone era uma pessoa de raras qualidades, humilde, sem dar nas vistas, orgulhosa da sua Covilhã, amiga do seu amigo, de grande sabedoria que com facilidade assimilava e se reflectia na sua pessoa como mulher multifacetada. Depois, acabaria na sua grande paixão – a poesia, depois do teatro.
Mas isto é o suficiente para tão grande reconhecimento de mulher covilhanense?
Maria Ivone Manteigueiro Vairinho tinha na sua alma a Covilhã, sempre a Covilhã e as coisas lindas desta cidade maravilhosa!
É que, vivendo mais de meio século na cidade alfacinha, a sua voz, transcrita para o papel e para a declamação, em vários pontos da cidade lisboeta, transmitia na sua alma a Terra-Mãe que a viu nascer – a sua Covilhã, como a conheceu e a ia vendo transformar-se.
Os covilhanenses não se aperceberam!
Adicionar legenda
Houve várias ocasiões em vida, na Covilhã,  que foram merecedoras do seu reconhecimento público, mas tal não aconteceu, tendo sido  como que votada ao ostracismo. Mas, na outra cidade onde vivia – Lisboa, e também  Oeiras – Maria Ivone foi merecedora do reconhecimento dos seus méritos, tantas vezes aclamada no dizer das suas poesias, quando antes o fôra também na parte teatral.
Sabia ela que este seu amigo era ainda o que ia dando conhecimento público, na comunicação social, do valor da sua pessoa, e das suas obras, tendo a oportunidade de o fazer por várias ocasiões.
Por isso, me passou a enviar o Boletim Trimestral Informativo e Cultural da Associação Portuguesa de Poetas, à qual presidia. Guardo-os ainda religiosamente, para saborear, de quando em vez, as suas poesias, muitas delas declamadas em locais como no Centro Cultural de Belém e no Mosteiro dos Jerónimos, onde seria a sua última homenagem, já fora do mundo dos vivos.
E que doce a leitura dos seus versos, ora em redor da sua família, mormente a mãe, ora noutras direcções do seu pensamento de covilhanense de raiz. Respigo alguns títulos da sua vasta obra:  O Menino Jesus e as Crianças; Noémia; Os olhos das crianças; Lua Branca em Céu Azul (sobre a Covilhã); Tecelão da Covilhã; 25 de Abril; Olhos secos de dor; Árvore da Vida (sobre a Covilhã e a família); A Matança dos Inocentes; Meu Canto de Cisne.
Em 1 de Março de 2008, as suas amigas e amigos poetas, homenagearam a Presidente da Direcção da APP:

“Com a Lira no coração
faz da ética o seu bordão.
Tem uma chama sempre acesa
na sua alma poética
e na sua forma de amar
a nossa Língua Portuguesa”.

E, a poetisa Virgínia Branco, tesoureira da Associação Portuguesa de Poetas, referia-se assim a Maria Ivone Vairinho:
“Encontro-me hoje e aqui a prestar homenagem à grande amiga que muito prezo, à Professora, à Tradutora, à Escritora, à Conferencista, à Poetisa e Declamadora, mas acima de tudo à Digma Presidente da Associação Portuguesa de Poetas, nau que tão dignamente tem sabido levar a bom porto, servindo-a sem nunca se servir.
Para Maria Ivone não há dia ou noite, apenas conhece trabalhos a apresentar e prazos a cumprir, pois é dotada de grande carácter e firmeza, pessoa de uma só palavra.
Maria Ivone Vairinho é um Ìcone da cultura portuguesa, possuidora ela própria de uma vasta cultura é há muito um grande vulto nas Letras e na Poesia”.
O meu preito de gratidão à Maria Ivone, pela grande amizade que teve para comigo, que é, como dizer, para com a nossa Terra-Mãe – a Covilhã, e que lá dos céus possa gozar a plenitude da glória que sempre mereceu.
À família, mormente ao meu especial amigo Victor Vairinho, e à Mané, a certeza de que hoje, dia 20 de Outubro de 2014, no Salão Nobre da Câmara Municipal da Covilhã, é prestada a homenagem, há muito devida, à vossa mui amada esposa e mãe – a Maria Ivone, com a atribuição da Medalha de Mérito Municipal – Classe Prata, a título póstumo!

João de Jesus Nunes



14 de outubro de 2014

UM PAÍS ADIADO

Depois do adeus à troika, o recuperar da nossa soberania e poder de decisão independente ainda estão longe.
Continuamos um país adiado e sob tutela apertada, e assim continuaremos enquanto não tivermos juízo.
Segundo se consta, a troika tem um compromisso de nos “deitar a mão” caso as condições dos “mercados” nos obriguem, de novo, a que estendamos a mão à caridade.
Continua a haver fonte de desperdício e de dinheiro mal gasto no setor público, onde ainda não foi organizado.
Dou um exemplo recente, de desorganização, que já vem de anos atrás, e isto no que se refere à distribuição dos excedentes alimentares da União Europeia, da responsabilidade da Segurança Social.
Na Covilhã, das listas de carenciados fornecidas à Segurança Social pelas instituições de solidariedade social, como as Conferências Vicentinas, foram eliminados vários nomes, muitos deles verdadeiramente carenciados, o que causou estranheza nos meios que prestam, num autêntico espírito de voluntariado, um bem às pessoas desprotegidas.
Aconteceu, porém, como vem sendo hábito, que a Segurança Social, instituição pública, acabou por distribuir, a cada elemento das suas listagens de carenciados, quantidades enormes como, por exemplo, duas ou três dezenas de cada género alimentício (açúcar, arroz, massa) a uma única família, o que naturalmente leva a que essa pessoa não consiga consumir tudo dentro do prazo de validade, e não tenha espaço nas suas casas para tanto género alimentício, originando, várias vezes, termos visto nos contentores do lixo quantidades desses produtos deitados fora. Entretanto, para trás ficaram outros que, como já referimos, por estranho que pareça, ficaram sem esses produtos.
Será isto uma boa gestão? Já muitos contestam o trabalho das Assistentes Sociais, que deveriam andar no terreno, em ação profícua, e não nos seus gabinetes.
Entretanto, sobre este assunto, no início pretendiam que fossem as Conferências a fazer a distribuição direta dos produtos oriundos dos excedentes da UE, mas teriam que efetuar um trabalho burocrático, que não lhes competia, e para o qual as Conferências Vicentinas se negaram já que compete à Segurança Social trabalhar, como empregados públicos que são, e não quem tem já tanto serviço de voluntariado a fazer, muitas vezes sem mãos a medir.
Assim, não, não vamos lá.
“Nenhum grupo etário é tão afetado pela privação como as crianças. Segundo o Instituto Nacional de Estatística, no ano passado, 2,2% dos menores de 15 anos pertenciam a famílias que não lhes garantiam pelo menos uma refeição diária de carne ou peixe e 1,4% não comiam fruta e legumes uma vez por dia. É de gente que salta refeições ou come mal que se fala quando se fala de fome em Portugal”, segundo afirmou Eugénio Fonseca, presidente da Cáritas Diocesana.
Se formos levantar o véu doutras instituições públicas, como alguns serviços de enfermagem dos Centros de Saúde, então teríamos muito para contar.
Outro setor que nos faz um país adiado são os serviços judiciais, com a investigação criminal lenta e má, não conseguindo produzir prova de qualidade, em particular nos crimes de colarinho branco na área financeira, mas não só, o que faz com que muitos criminosos, de todas as cores e colarinhos, se consigam escapar pelas amplas malhas deixadas nas teias da lei para quem tem dinheiro para contratar bons advogados. Advogados cujos sócios “deputados” fizeram as leis com os buracos necessários para os seus conhecimentos conseguirem livrar os seus constituintes.
No entanto, mais recentemente, já vemos alguns tribunais com as suas sentenças em que as elites também já não escapam a mão pesada da Justiça.
Costa Freire foi o primeiro político condenado por atos durante o mandato, decorria o ano 1994. Dez anos depois, Maria de Lurdes Rodrigues é sentenciada a mais três anos de prisão. A Justiça portuguesa, dizem alguns juristas e advogados, segundo o jornal i, começa a ter mão pesada nos políticos e não só. Costa Freire, Isaltino de Morais, Armando Vara, Jardim Gonçalves, Ricardo Salgado e, mais recentemente, Maria de Lurdes Rodrigues, são alguns exemplos de como a Justiça portuguesa não tem olhado a elites ou postos quando em causa está uma condenação.
Esperemos que a Justiça dê o volte-face a esta situação, se bem que existe quem julgue que os banqueiros e grandes agentes económicos, assim como outras personalidades de elite, vão a tribunal em desigualdade com os outros cidadãos.
Há por este país escolas privadas muito caras, e portanto só acessíveis a uma minoria de privilegiados, conhecidas por serem excessivamente generosas na atribuição de notas destinadas a subir médias.
Assim como há universidades privadas sem quaisquer requisitos de qualidade e que oferecem “cursos superiores” sem qualquer interesse prático. O grau de exigência do setor privado deveria obrigatoriamente ser idêntico ao do setor público.
Enquanto não nos dedicarmos de corpo e alma, norteados pelos interesses do país e não pelo umbigo partidário, a estudar em profundidade, com técnicos e não políticos, a liderar o processo e a decidir sobre essas áreas não podemos viver tranquilos em Portugal.
Muito, mas muito haveria que dizer, para que este país não estivesse “entregue à bicharada” e, assim, deixasse de ser um país adiado.

(In "fórum Covilhã", de 14.10.2014)


8 de outubro de 2014

A MONUMENTAL TAÇA “O SÉCULO” GEROU CONTROVÉRSIA NA 2.ª DIVISÃO NACIONAL O ESCLARECIMENTO QUE HÁ MUITO SE IMPUNHA

Muito se falou sobre a forma “confusa” como foi atribuída a Taça “O Século” aos clubes da 2.ª Divisão, a qual acabaria por vir a ser ganha pelo Sporting Clube da Covilhã, com todo o mérito.
Dizia-se que só havia em Portugal duas monumentais taças com esta matriz – uma, ganha pelo Sporting Clube de Portugal (SCP) e, outra, pelo Sporting Clube da Covilhã (SCC).
Após aturadas pesquisas conseguiu-se o cabal esclarecimento, cujas dúvidas vinham ofuscando a transparência da informação.

A história desta Taça começa com a iniciativa do diretor do extinto jornal O Século, João Pereira da Rosa, organizando, em 1938, a “Exposição Histórica do Futebol”, para comemorar os 50 anos do futebol em Portugal e, com a respetiva receita, criou duas gigantescas taças, do mesmo tamanho, a que se chamou Monumental Taça “O Século”, destinando-se uma para os Clubes da I Divisão e outra para os Clubes da II Divisão.
“O Século, ao mesmo tempo que fez a encomenda das duas taças, elaborou um projeto de regulamento das taças, que submeteu à apreciação da Federação Portuguesa de Futebol, tendo merecido a sua melhor aprovação.
O Regulamento é do teor seguinte:
Artigo 1.º - As duas taças “O Século”, oferecidas pelo mesmo jornal, para serem disputadas, uma na I Divisão e outra na II Divisão do Campeonato Nacional de Futebol, comemorando a organização das Bodas de Ouro do Futebol Português, que promoveu em Outubro de 1938, serão disputadas nas seguintes condições:
1.º - Ficarão na posse provisória do Clube que se classificar em primeiro lugar na respetiva divisão do Campeonato Nacional de Futebol, com início na época de 1938/39.
2.º - Cada uma das taças passará à posse definitiva do Clube que ganhar em três anos consecutivos, ou cinco alternados, o Campeonato Nacional de Futebol, na respetiva divisão.
Artigo 2.º - No fim de oito épocas, se nenhuma das taças tiver passado à posse definitiva de qualquer Clube, proceder-se-á do modo seguinte:
a)      Se nessa altura nenhum Clube tiver duas inscrições na taça, será a mesma entregue ao vencedor do Campeonato de 1946/47, da respetiva divisão.
b)      Se nessa altura já houver Clubes com duas inscrições alternadas, na época de 1947/48 serão ainda as taças disputadas nos termos do n.º 2.º do art.º 1.º.
c)       Se até ao início da época de 1948/49, nenhum Clube tiver ganho as referidas taças nas condições atrás citadas, serão elas conferidas definitivamente aos Clubes que forem os vencedores das I e II divisões do Campeonato nesse décimo ano da sua disputa.
d)      Artigo 3.º - Se o Campeonato Nacional deixar de disputar-se, não sendo substituído por outra prova semelhante na qual as taças possam continuar a disputar-se, ficarão elas na posse da Federação Portuguesa de Futebol, com destino ao Museu de Futebol Nacional, quando vier a constituir-se.”

Relativamente aos Clubes da I Divisão a tarefa foi fácil na sua definição. À luz do regulamento, ganhou a 1.ª Monumental Taça “O Século” o Sporting CP porque, de 1938/39 (data do início desta Taça) até ao seu termo (1947/48) não houve nenhum requisito conseguido por qualquer clube primodivisionário.
Os vencedores dos Campeonatos das I e II Divisões foram então os seguintes:
I Divisão: 1938/39 – FC Porto; 1939/40 – FC Porto; 1940/41 – Sporting; 1941/42 – Benfica; 1942/43 – Benfica; 1943/44 – Sporting; 1944/45 – Benfica; 1945/46 – Belenenses; 1946/47 – Sporting; 1947/48 – Sporting.
II Divisão: 1938/39 – Carcavelinhos (ganhou na final ao Sp Covilhã, por 1-0); 1939/40 – Sp. Farense; 1940/41 – Olhanense; 1941/42 – Estoril; 1942/43 – Barreirense; 1943/44 – Estoril; 1944/45 – Atlético; 1945/46 – Estoril;
1946/47 – Sp. Braga; 1947/48 (Sp. Covilhã, ficando em 2.º lugar o Barreirense, com o mesmo número de pontos, 8. O SCC teve 17 golos marcados e 7 sofridos e o Barreirense 13 golos marcados e 7 sofridos, o que o inibiu de subir em favor do SCC).
Portanto, o Sporting, analisado o Regulamento da Taça “O Século”, acabou por ganhar a primeira, ao 10º ano, ou seja, na época 1947/48.
Embora tivéssemos desconhecido que o jornal “O Século” deu continuidade a nova Taça “O Século (penso que só para a I Divisão), o mesmo jornal viria a deixar de instituir este troféu a partir de 1953.
Foi entretanto ganha novamente pelo Sporting Clube de Portugal por ter sido vencedor de três campeonatos seguidos, em 1950/51, 1951/52 e 1952/53 (ganhou também o de 1953/54). Esta segunda Taça é também monumental, com 1,40 cm de altura, sendo que a primeira, igual à que possui o Sporting da Covilhã, tem 1,23 de altura.
Relativamente à II Divisão, nenhum Clube conseguiria ganhar três campeonatos seguidos, como é óbvio, já que subiam à I Divisão. Assim, ganhou a Taça “O Século” o SCC, no 10º ano, em 1947/48, precisamente quando subiu, pela primeira vez à I Divisão Nacional.
Estas Taças estiveram provisoriamente em cada Clube (I ou II Divisões), durante o ano em que ganharam os respetivos campeonatos, e iam colocando uma chapinha metálica, na Taça, com o nome do Clube e época. Portanto, as Taças, quer a da I Divisão, quer a que é pertença do SCC, esteve em poder provisório de todos os Clubes que foram ganhando os respetivos Campeonatos, daí se encontrarem algumas fotografias com esta Taça, como é o caso do Olhanense e do Barreirense.
Alguns Clubes, como o Barreirense (livro sobre a história do Clube pág.s 134 e 135), duma forma errónea, bem gravitaram na tentativa de a obter, face à má interpretação do Regulamento, ou mesmo desconhecimento do assunto que a envolveu.
Aqui fica o devido esclarecimento que se impunha.

(In "Tribuna Desportiva", de 6.10.2014; "fórum Covilhã", de 7.10.2014; e "Notícias da Covilhã", de 09.10.2014)

24 de setembro de 2014

SETEMBRO TUMULTUOSO

Do hábito de guardar muitos apontamentos, recortes e páginas de jornais e demais informação que não consigo abarcar nos momentos próprios, mas que também são as minhas delícias de consulta e memórias, levou-me a um amontoar excessivo de documentação de vários anos, para a já escassez de espaço e facilidade de consulta.
E foi assim que lá foram quatro dias numa de selecionar alguns dos milhares de documentos então reunidos, para continuar a guardar/consultar, indo os remanescentes para o Banco Alimentar, fora as centenas de documentos digitalizados.
É que o vento do aproximar da longevidade também já começa a varrer da memória muita coisa que gostaríamos de transmitir.
No entanto, nuns breves dias por terras de nuestros hermanos, na falta de imprensa portuguesa, lá vai um olhar para o “El País”, de 56 páginas, que, por azar, naquele dia cinco, nem uma palavra sobre o nosso pobre Portugal, apesar de se considerar “El periódico global”. Volto-me para o “La Vanguardia”, de 64 páginas, e dá-se a mesma coisa. Dos desportivos espanhóis que consultei, “Mundo desportivo” e “As”, ambos de 48 páginas, nada sobre Portugal, mas tão só sobre dois portugueses, emigrantes de primeira, Mourinho e Cristiano.
Já em Andorra, um companheiro de viagem – Fernando Madeira – me pergunta se vou escrever algo sobre a mesma. Fiquei satisfeito por saber que é um dos meus leitores.
Chegados ao nosso retangulozinho à beira mar plantado, confirmámos a continuidade, isto é, o nosso mundo em que só alguns portugueses foram para férias. E isto num vasto leque de portugueses insatisfeitos, pessimistas e sem esperança em que 96% acham que a situação económica do país é má. Quer dizer que todos os portugueses descreem no “milagre” económico. É que nenhum país da Europa, nem mesmo a Grécia, tem estes resultados.
Depois, também os portugueses acabam por não acreditar em nada, nem em ninguém, nem na política nem nos políticos. Andam humilhados, desprezados e maltratados, como que culpados por terem emprego, com salários e alguns direitos, e, por o terem, estarem a impedir os desempregados de aceitarem receber uma miséria e poderem ir para a rua a qualquer altura.
Para além de preocupados com o futuro, também o medo de caírem na pobreza, com o desemprego e o custo de vida.
Aquilo que todos desejávamos ver a dar confiança aos portugueses, continua num caos. Falamos da justiça e da educação.
Entretanto, os tribunais já começaram a sair do fundo do túnel, e, vai daí, o Face Oculta vai mandar para detrás das grades (vamos ver, vamos ver…) o transmontano Armando Vara que, azar meu, faz anos nas vésperas do meu aniversário, esse “grande político” que de bancário passou a banqueiro, que possui algumas ordens honoríficas, sendo que sugeria ainda recebesse a medalha de Santa Ana, padroeira dos sucateiros, e de Santa Bárbara, padroeira das tempestades, dos pescadores e dos robalos. E, com ele, o sucateiro Manuel Godinho.
E lá temos o BES que, de BEStial passou a BESta, talvez no “maior escândalo financeiro da história de Portugal”, conforme referiu o economista César das Neves. O que foi “dono disto tudo”, Ricardo Salgado, com a sua reforma anual superior a 900 mil euros, lá estava integrado no 1% da população portuguesa que corresponde a um quarto da riqueza de Portugal. O peso da fortuna dos mais ricos é maior do que se julgava, segundo um estudo publicado em julho no site do Banco Central Europeu. Quanto ao resto, já do conhecimento público, seguem-se as cenas dos próximos capítulos…
Com a saída de Durão Barroso, de Bruxelas, segue para a nova equipa do seu sucessor, como comissário europeu, o português Carlos Moedas, que vai receber o módico salário de 20 mil euros por mês. Entretanto, por cá, o valor das reservas de ouro do Banco de Portugal caiu 31% no ano passado.
Por cá, ainda, os compadres socialistas António Costa e António José Seguro não se entendem, na sua guerra fratricida, na luta de galos pelo poleiro, o que, par mim, é uma vergonha.
E, enquanto neste setembro, no regresso da chuva, continua o mundo em tumultos, com as terríveis consequências que a comunicação social nos faz chegar, desde as decapitações por elementos do Estado Islâmico, às centenas de mortes diárias nas guerras israelo-árabe, Iraque, Rússia/Ucrânia, e outros países, há ainda os empurrados para a morte de imigrantes no Mediterrâneo, a meio caminho entre o Norte de África e a Europa, com, pelo menos, 500 pessoas a perderem a vida, segundo testemunhos divulgados pela Organização Internacional para as Migrações (OIM).
Para alívio do Reino Unido, o mesmo continua unido, com o “não” à independência da Escócia. No entanto, aproveitando a boleia, aí está a Catalunha de olhos bem abertos, e daí, a ver vamos.

(In "Notícias da Covilhã", de 25.09.2014)



9 de setembro de 2014

SILLY SEASON FORA DE MODA

Entre uma agradável semana de férias em terras algarvias com inesquecíveis amigos, irmanados no mesmo espírito de confraternização e recordação dos tempos que quase todos vivemos na nossa meninice, apresso-me a escrever esta crónica tendo em conta que, dentro de algumas horas, tenho a esperança de poder desfrutar de mais um prolongado fim-de-semana por terras de nuestros hermanos.
Os jornais diários foram a minha companhia na procura de notícias que, neste período que dantes era considerado de silly season, hoje, na verdade já não o é, quer dizer, excluindo a “pimbalhada” na nossa RTP e, e até de outros canais que levam ao mais do mesmo, já que eu sou pouco avezado a fazer zapping, principalmente quando sempre que se me depara uma acentuada brejeirice.
Tal como nos últimos quatro anos, também este ano quase que se fez dissipar a silly season. Esta já não é o que era, já que entre demissões de ministros e queda de bancos, de figuras como Vítor Gaspar e Ricardo Salgado tem proporcionado muito trabalho à imprensa.
No verão de 2010, o BPN que fora liderado por Oliveira e Costa, voltou a ser falado com a reprivatização do mesmo, por via dum negócio de escândalo.
Já no estio de 2013 é a vez do ministro das Finanças, Vítor Gaspar, com críticas e “confissões” apresentar a sua demissão. É então que Passos Coelho, aceitando a demissão do seu “homem forte” se precipita numa crise política, ao nomear como sucessora no cargo vago, Maria Luís Albuquerque.
É aqui que Paulo Portas, líder do CDS, a formar coligação com o PSD, discordante da escolha do primeiro-ministro, vem anunciar, com pompa e circunstância, que irá “irrevogavelmente” demitir-se, o que, contrariando esta sua categórica decisão, não vem a acontecer e é promovido a vice primeiro-ministro. Resultado: os dicionários e enciclopédias vêem-se agora com problemas de significado daquela palavra. Quanto ao restante que se seguiu é já sobejamente conhecido do público.
E para que este período de veraneio não fosse exceção, em junho passado o Grupo Espírito Santo é extensamente noticiado na imprensa por fortes irregularidades nas sociedades que o envolvem. Entre o BES estar fora de perigo, o afastamento do seu líder e sua detenção, e o acabar por cair na desgraça, o Banco de Portugal separa o BES em dois bancos: um banco mau e um Novo Banco. Torna-se assim, pela primeira vez, o custo da operação, na história europeia, com a aplicação da nova legislação comunitária, com notícia em Portugal e no mundo. Nalguma coisa teríamos de ser os primeiros.
E já neste último agosto, o Tribunal Constitucional pega na caçadeira e aplica novo chumbo, o nono, obrigando o governo, acusado de “governar contra a lei”, a fazer um novo Orçamento Retificativo.
E, de verão quente atrás de verão quente, os últimos anos têm vindo a provar que o termo silly season está fora de moda. Tenhamos ainda em conta outros acontecimentos, como foi a chegada da troika a Portugal, em 2011, e as manifestações históricas por este país fora, em 2012, entre outros, pelo mundo fora.
E enquanto o Governo de Passos Coelho bate recorde nas alterações aos orçamentos do Estado; o BES o dividiram ao meio – o Banco bom (Novo Banco) e o Banco mau – entre “espíritos” e “santos”; o Governo continua a ser tão forte com os fracos e tão fraco com os fortes.
É que as quedas do GES e do BES puseram a nu as redes de construção de proteção do poder. Os portugueses já estão habituados aos intermináveis enredos dos processos de criminalidade económica.
A culpa de todos estes pecados será do sistema?
No Jornal de Negócios, João Pereira Coutinho dizia que “os políticos são maus porque os portugueses não exigem melhor”.
Já Manuel Carvalho (“Público” 31.08.14) se referia ao caso BES: “o que há apenas meia dúzia de anos seria um acontecimento catastrófico viveu-se como um incidente da silly season. A desilusão leva à letargia e daqui à resignação e ao conformismo, como se em questão estivesse apenas mais uma etapa do inescapável trânsito pelo purgatório a que nos condenaram”.

Vamos agora assistindo à guerra entre irmãos partidários desavindos – António Costa e António José Seguro, do PS, os quais, nesta geringonça, em vez de robustecerem a oposição para uma alternativa a um Portugal melhor, mais não passam que ser propiciadores de uma certa perplexidade nas condutas que levam à indiferença.

(In "fórum Covilhã", de 09.09.2014)

28 de agosto de 2014

DOS OITO AOS OITENTA

Gerações incomparáveis. A minha é da segunda metade dos anos quarenta. Mas a juventude é da geração de sessenta. A vivência aparentemente mais pacífica de outrora contrasta com o desenvolvimento na agitação dos dias de hoje. Predominância do não saber, e do quase proibido querer saber, daqueles tempos, em contrapartida com o fácil acesso ao meio universitário de hoje. Inexistência de liberdade, mormente de expressão, dos tempos diabólicos em que vivi, em relação a uma certa rebeldia dos tempos de hoje. Uma guerra em que a juventude do meu tempo foi obrigada a ser carne para canhão, à passividade com que os governantes de hoje olham para o passado, do qual muitos antigos combatentes, neste ano em que se comemoram 100 anos da 1ª. Grande Guerra, ainda sofrem psicologicamente os nefastos efeitos da guerra de subversão em que foram forçados a envolver-se, na Guerra do Ultramar: “Para Angola rapidamente e em força!”; “Havemos de chorar os mortos se os vivos não merecerem” (Salazar).
O primeiro filme a cores – Sarilho de Fraldas – com Madalena Iglésias e António Calvário, Nicolau Breyner e Tonicha foi uma forma de tentar renovar o filão da comédia à portuguesa, no ano de 1966, nos meus vinte anos de juventude (a maioridade era então ainda aos 21 anos), para, numa abertura à “civilização”, o então Presidente do Conselho, Marcelo Caetano, permitir alguns novos ventos na redução do atraso ao desenvolvimento, com a permissão para filmes como “Helga e o Segredo da Maternidade” (para maiores de 21 anos, não obstante se tratar do milagre da vida) que eu vi no cinema Roma, em Lisboa, quando prestava serviço militar, no ano 1969. Um filme equívoco que suscitava a curiosidade de se poder ver a nudez do corpo da mulher, filmado integralmente, coisa rara no cinema de então. E, hoje, o que vemos? Sexo, sexo e mais sexo.
A imprensa, coroada com a chancela “Visado pela Comissão de Censura” era impedida de noticiar a realidade; só o que não incomodava o regime é que servia. E se os jornais “República” ou “Jornal do Fundão”, por exemplo, transgredissem, levavam nas orelhas. Aos sábados comprava na papelaria Ideal da Beira, no Pelourinho, o “Actualidades” que, por vezes, trazia alguns atrevimentos… E hoje, para além das realidades vemos sensacionalismo e mais sensacionalismo; que o diga o sensacionalista Correio da Manhã.
Trabalhei duro desde os meus 17 anos e pendurei as botas meio século depois, sem nunca ter caído doente. Não herdei o meu trabalho ou o meu rendimento. No entanto revolta-me que os nossos (des)governantes nos obriguem a “distribuir a riqueza” do nosso trabalho para as pessoas que não querem trabalhar e não têm a ética do trabalho.
Revolta-me ainda de ver que o governo retira-me o dinheiro que eu ganho, pela força, se necessário, e o dá a vagabundos e a ladrões de colarinho branco.
No meu tempo, as pessoas de prestígio e honestas, mantinham essas qualidades durante toda a vida. Hoje, há que ficar de pé atrás, como sói dizer-se.
In illo tempore os Bancos não faliam, era quase um pecado mortal pensar-se numa situação dessas. Um Banco, uma Autarquia, uma Santa Casa da Misericórdia eram instituições de grande respeitabilidade e assaz confiança. Hoje, já não é assim, pois tudo é vulnerável, tudo é passível de com um ligeiro sopro de vento tombarem, e tombam mesmo.
No meu tempo, os reguladores, como o Banco de Portugal, eram de enorme prestígio. Hoje, colocam-se em causa os governadores, desde Vítor Constâncio até ao atual Carlos Costa, que parecem preferir ver a banda passar. É que, como Constâncio, acabou por acompanhar a banda até Bruxelas, onde passou a ser maestro.

No meu tempo, os erros, ainda que involuntários, pagavam-se caros. Nos tempos que correm, os atletas, artistas, políticos de todos os partidos, falam de erros inocentes, estúpidos ou da juventude, mas todos nós sabemos que eles pensam que seus únicos erros foi terem sido apanhados.
Apesar de tudo, no meu tempo a justiça funcionava e sentia-se receio pela “receita” dessa justiça. Hoje, brinca-se com a justiça e já se diz que a Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais está a enviar faxes a alguns tribunais de família e menores, que tinham pedido a indicação de vaga para internar menores recentemente condenados, de que os centros educativos chegaram ao limite e já não têm capacidade para acolher mais jovens que venham a ser condenados por crimes.
No meu tempo, assisti à corrente de emigração para o Brasil, depois para França, Alemanha e Suíça, de todos quantos, de menor instrução e conhecimentos, não conseguiam na sua Terra-Mãe obter os rendimentos necessários para o sustento das suas famílias, muitas delas de agregado numeroso.

Hoje, assistimos ao inverso, são os jovens cérebros, essa valiosa massa cinzenta que, forçosamente, percorre os caminhos dos de outrora, noutra vertente profissional.

(In "Notícias da Covilhã", de 21.08.2014)

A DOR – TAMBÉM É UMA ESTRELA QUE NOS GUIA

Enquanto redijo é encantador ouvir no meu escritório uma chilreada, emanada dum “convívio” de passarinhos sobre a árvore do quintal do meu vizinho. São às dezenas. Também eles têm as suas tertúlias…
Há estórias interessantíssimas das nossas histórias de vida, principalmente naqueles períodos nefastos em que se misturavam sofrimento com ansiedade, tristezas com alegrias, e, por que não, o roçar de algumas revoltas naquele período de juventude que nos fez passar, quase num ápice, de jovens para adultos de barba rija.
E, já agora, enquanto aguardava a minha consulta, no Centro Cirúrgico de Coimbra, fui dando uma olhadela pela revista “Olhares” cujo tema é a dor. Vem a propósito deste meu texto.
A dor é um mecanismo que nos assegura a sobrevivência. É impossível viver sem ela, mas não é preciso viver com ela. A dor de um não é igual à dor do outro.
“Viver sem dor, significa perigo de vida. Por muito que nos doa, precisamos desta resposta ou mecanismo sinalizador, que tem consequências benéficas para o nosso organismo. É este sinal de alarme (dor aguda) que nos avisa que algo não está bem, seja um traumatismo ou uma queimadura. A dor tem esta função de fazer disparar o alarme, protegendo-nos de agressões”.
E, como a nossa vida é uma peça de teatro que não permite ensaios, nesta perspetiva, trata-se duma passagem muito breve e, por isso, cada momento é vivido em tempo real. Não são permitidos ensaios. Contudo, na generalidade do caso de cada um de nós, convencemo-nos que a vida será melhor depois de acabar os estudos; depois de ter trabalho; quando tivermos um automóvel melhor; sei lá, a verdade é que a vida está cheia de “depois”…
Os obstáculos surgem do acaso e sem esperarmos. Seremos mais felizes se vivermos em pleno os bons momentos que surgem.
“O tamanho da dor é uma experiência sensorial e emocional e cada uma sabe qual o tamanho da sua. Pessoas diferentes sentem e reagem à dor de forma variada. A questão étnica e cultural também conta e, nascer na Líbia ou na Grã-Bretanha, equivale a ter mais ou menos resistência à dor; tal como nascer homem ou mulher”.
Na vida de antigos Combatentes, e mesmo de todos quantos cumpriram o serviço militar obrigatório; longo, em tempo de guerra fria e da chamada guerra subversiva nas então designadas Províncias Ultramarinas, sempre no frenesim de vir a ser-se chamado para a guerra do Ultramar; os acontecimentos passaram também pelas famílias, pois ainda tenho presente, na minha memória, os choros dos familiares, por essas estações de caminhos-de-ferro fora, incluindo apeadeiros que agora já não há, aquando da despedida dos seus queridos filhos, irmãos, sobrinhos, netos, namorados das filhas, e até alguns já maridos, e pais, com o destino do embarque para as Colónias.
Neste apontamento, também não posso deixar de recordar um triste acontecimento com a despedida dum antigo combatente desta cidade, meu antigo colega da escola primária, o Carlos Alberto Garcia da Cruz, num fatídico dia de setembro de 1966 (há quase meio século) na sua mobilização para S. Tomé e Príncipe. Era um domingo e, com alguns seus amigos, entre os quais o Zé Augusto Ferreira e o Valentim (mais tarde também antigos combatentes do Ultramar) havia-se despedido de sua mãe e outros seus familiares, quando, já na gare da estação dos caminhos-de-ferro da Covilhã, aguardando o comboio das 17 horas, é subitamente confrontado com pessoas que acorrem a dar-lhe a infausta notícia de que sua mãe se encontrava muito mal. Residindo perto da estação, o Carlos entra numa louca correria até sua casa (ainda não havia telemóveis), e depara com sua mãe em lágrimas que lhe diz: “Nunca mais te vou ver, meu filho!” E, num ápice, cai e sucumbe. Nesta dor da separação, o Carlos Alberto mais nada pôde fazer que estar presente no funeral realizado no dia seguinte, 2.ª feira, para, na 3.ª feira, partir de comboio para Santa Margarida e, na 4.ª feira, embarcar para São Tomé e Príncipe.
“A dor inútil é a segunda causa de internamento e, em Portugal, afeta mais de três milhões de pessoas. Depois de cumprida a sua função de alerta, a dor não deve ser vivida e, se for crónica, é completamente inútil. É um mecanismo que nos assegura sobrevivência e que serve de alerta, quando é uma dor aguda. Ou seja, com uma duração limitada no tempo e com uma causa geralmente conhecida. Contudo, quando a dor dura mais de três meses e tem causa mal definida ou desconhecida, a dor deixou de cumprir a sua função. O mecanismo de alerta passa a funcionar inadequadamente, porque surgiram doenças que se tornaram crónicas”.
É por isso que os jornais, nos seus textos de opinião, crónicas, páginas ou entrevistas adequadas ao tema, como este, podem e devem ser; para além dum encontro de memórias (que também as há alegres), emanadas das muitas gentes que viveram a Guerra do Ultramar (gentes da minha geração); como que um bálsamo momentâneo pelas marcas deixadas no corpo, e na mente, de muitos sofredores ainda; carne para canhão do satânico período do salazarismo.
É no encontro, crescente em número, em vontade, e em dinamismo, dos participantes em tertúlias e convívios de memórias do passado que se sente uma outra estrela que nos guia, numa almejada camaradagem, geralmente não vista noutros encontros.
Se este tema – a dor – pode ter alguns resquícios de enfado, o que é certo e verdade é que ela também se pode ver através da chamada dor da alma, que é uma outra, para além da física; é invisível aos olhos, abstrata e pode atingir intensidades insuportáveis. Contudo, esta dor nunca deixará de existir, pois ela não existe só no corpo. A dor psíquica facilmente se torna numa dor invisível que transpõe os sentimentos do corpo e atormenta, em surdina, para a qual não há analgésicos. Muitas pessoas consideram que a dor psíquica é mais difícil de suportar do que a dor física.
Vejamos o caso, de há umas semanas, da morte do jovem André Sousa Bessa, filho da jornalista sobejamente conhecida da televisão, Judite de Sousa, que destruiu o coração da sua mãe e certamente da sua vida profissional de excelência. Têm-se visto, na comunicação social, sentimentos profundos de dor daquela mãe. Este é um dos casos mais “emblemáticos” da dor – “Uma parte de mim morreu com o meu André”.
Falando nas várias vertentes da dor, ela não é maior nem menor que a dos outros, não é pior ou melhor que a dos outros, nem é mais ou menos insuportável que a dor dos outros. Não é, de todo, a maior dor do mundo, mas é a maior dor do nosso mundo.

(In "fórum Covilhã", de 19.08.2014)

29 de julho de 2014

DOS OITO SÉCULOS DA LÍNGUA PORTUGUESA À POBRE DIPLOMACIA

Escrevo esta crónica em 23 de julho de 2014, exatamente no dia em que, em Dili (Timor), o Presidente da República e o Primeiro-Ministro de Portugal participam na Cimeira da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, vulgo CPLP. Mas já lá vamos.
Há um mês atrás, mais precisamente no dia 27 de junho, segundo as narrativas, como agora sói dizer-se, comemoraram-se os oitocentos anos sobre o mais antigo documento oficial conhecido em língua portuguesa, a nível de Estado – o mais antigo documento régio na nossa língua, o qual se reporta ao testamento do terceiro rei de Portugal, D. Afonso II.
Poderia ter sido uma carta de amor, dum príncipe para a sua amada, por exemplo, mas não seria considerado, porque se trataria dum documento, ainda que autêntico, mas de cariz particular.
Mesmo tendo em conta que a data daquele documento é de 27 de Junho de 1214, originando assim o nascimento da Língua Portuguesa, certo é que, como qualquer ser, ele já existe antes de nascer.
Conforme refere José Ribeiro e Castro, “Comparando, digamos, pois, que esses outros textos da nossa língua, coevos ou anteriores – Notícia de Fiadores, Auto de Partilha, Notícia de Torto, Cantigas de poesia trovadoresca – são os “pontapés na barriga da mãe” da nossa língua em processo final de gestação, de afirmação e de ascensão”.
D. Afonso II limitou-se a usar uma língua que já existia e já era usada pelo seu povo, antes de ele a usar também. Aquele documento é já considerado escrito em português e não galaico-portucalense e, além disso, é arredado o latim muito antes de D. Dinis, em 1290, ter tornado oficial e obrigatório o curso e o uso do português.
Santo António de Lisboa (Fernando de Bulhões), que nascera antes do surgimento da Língua Portuguesa, viria a falecer 18 anos depois do nascimento desta mesma língua.
Assumida como oficial, séculos volvidos tem uma enorme evolução, sendo uma das mais importantes línguas globais contemporâneas: a terceira língua europeia global, terceira língua nas Américas, a terceira língua do Ocidente, a quarta mais falada do mundo, a mais usada no Hemisfério Sul e crescente em África. A língua em Portugal representa 17% do PIB. Perante os desafios da globalização, a língua portuguesa é falada em todo o mundo por quase 300 milhões de pessoas.
“A língua que falamos não é apenas comunicação ou forma de fazer um negócio. É uma forma de sentir e de lembrar; um registo, arca de muitas memórias; um modo de pensar, uma maneira de ser – e de dizer. É espaço de cultura, mar de muitas culturas, um traço de união, uma ligação. É passado e é futuro; é história. É poesia e discurso, sussurro e murmúrios, segredos, gritaria, declamação, conversa, bate-papo, discussão e debate, palestra, comércio, conto e romance, imagem, filosofia, ensaio, ciência, oração, música e canção, até silêncio. É um abraço. É raiz e é caminho. É horizonte, passado e destino” (Tribuna Manifesto 2014 - Público).
A língua portuguesa cresceu e modificou-se em caminhos diversos conforme as geografias. Portugal e Brasil manteve uma unidade ortográfica até aos últimos tempos da monarquia portuguesa mas caminhou para uma separação em termos de expressão linguística.
Devido à colonização, África viu-se em dificuldades com o português como língua oficial porquanto, nesse papel, estavam as línguas maternas; e não as do colonizador, com os seus crioulos próprios; outros, as línguas correspondentes a etnias. Os movimentos de libertação africanos optaram pelo português no momento de escolher uma língua oficial devido à necessidade de evitar divisões.
Depois da celebração destes 800 anos da Língua Portuguesa, agora, a pretexto da mesma língua, assistimos a um vergonhoso ato de submissão que a História de Portugal vai registar, através da admissão oficial da Guiné Equatorial na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), conforme referimos no primeiro parágrafo deste texto.
Tendo Brasil e Angola estado de acordo, assim como os restantes países de língua de expressão portuguesa, Portugal, conformado à sua pequenez, a fim de não ficar isolado, lá seguiu curvando-se a tamanha desfaçatez.
Não lhe foi possível levantar alto a bandeira da Língua, apesar de alguma resistência do Presidente da República e do Primeiro-Ministro portugueses.
É a diplomacia que temos, “que é, por um lado a diplomacia da concórdia e do apaziguamento e por outro a da subserviência e da permissividade”, de se sentir incapaz de dizer “basta” à farsa de apresentar um rosto “humano” a uma ditadura que só deveria merecer condenação e desprezo.
E, no meio disto, mais interessados estavam todos os outros países em trazer para a Comunidade um novo parceiro, o nono, com o seu petróleo, porque, quando Lula da Silva, então Presidente do Brasil, apoiou a candidatura de Teodoro Obiang, o responsável pelas Relações Exteriores do Brasil lá soube dizer: “Negócios são Negócios”.
Quando é o dinheirinho a cintilar não há olhos voltados para os direitos humanos, sejam lá os países que forem, e as palavras leva-as o vento. Que o digam os ausentes da Cimeira, Dilma Rousseff (Brasil) e José Eduardo dos Santos (Angola). E, até, ironia da história, o ditador Obiang foi levado de início pela mão de Xanana Gusmão e “aceite” sem qualquer votação à custa de um pontapé no protocolo, entrando para a foto de família, obviamente com ele, tirada extraordinariamente, antes de consumada a admissão.
Era tal o forte desejo que Teodoro Obiang entrasse para a CPLP, com estes atropelos ao protocolo, que a vergonha imperou na Cimeira, passando uma rasteira aos representantes do Estado Português. Agora certamente iremos pagar um preço alto que não nos livra do peso da vergonha.
Valha-nos ao menos o Presidente da República que se impôs para que ficassem registadas disposições a cumprir por Obiang no que concerne à abolição da pena de morte e à introdução da língua portuguesa no seu país, disposições a que o homem da Guiné Equatorial se estava a esquivar.

Vamos aguardar pelos novos capítulos desta novela política, que dá para pensar, lá isso dá!
(In "fórum Covilhã", de 29.07.2014)

23 de julho de 2014

DIRETORES DE UM JORNAL

Desde longa data que me familiarizei com os jornais. Mesmo nos tempos de estudante em que nos meus bolsos não havia um único tostão; pois que lá isso de “semanada” nunca soube o que era; nem sequer para tomar uma bica que custava doze ou quinze tostões, conforme fosse no Café do Sporting, no Estrela, no Central, no Café Leitão, no Solneve ou no Montalto.
Mas era na antiga biblioteca municipal, ao jardim, que aí lia os semanários da região (Notícias da Covilhã, Jornal do Fundão e o extinto Beira Baixa), mas também o Diário de Notícias, o Diário Popular, O Comércio do Porto, a Flama, a Vida Ribatejana, uma olhadela pelo Novidades e A Voz, e, sempre que estivesse disponível, a República.
Aos 18 anos (era então funcionário administrativo na Câmara Municipal) deu-me um impulso de começar a redigir o primeiro texto, em Cartas ao Diretor, aproveitando uma qualquer Hermes, Underwood ou Remington disponível nos intervalos do almoço, ou um pouco depois da hora de saída. Ainda não tinham sido inventados os computadores.
O texto já estava feito, era só datilografá-lo, por vezes com alguma curiosidade dos outros funcionários, na sua maioria já fora do mundo dos vivos.
O “Notícias da Covilhã” era ali pertinho, um pouco mais acima, e, vai daí, naquela tarde de 14 de novembro de 1964, dirijo-me a alguém da redação e é então que sou recebido, com grande simpatia, pelo único redator, Alfredo Nunes Pereira. Conversámos sobre a falta de um museu na Covilhã, naquela altura – tema do meu artigo – e, a partir daí, ainda que aleatoriamente, inicio o contato mais assíduo com os jornais. Tinha então iniciado funções como novo diretor, no “Notícias da Covilhã”, o Cónego Dr. António Mendes Fernandes, cumulativamente com a de diretor do Centro Cultural e Social, substituindo, nas duas partes, o Padre José de Andrade.
E é na vontade indómita para a escrita, com a qual sonhava, que vêm a surgir as monografias de duas das maiores instituições da cidade covilhanense, sem nunca largar as teclas das máquinas de escrever, e agora dos computadores, para as crónicas e textos informativos.
Neste âmbito, venho a conhecer outras figuras ligadas à comunicação social e ao meio social, com quem venho a desfrutar de uma amizade, e, nalguns casos, de colaboração assídua nos seus órgãos de comunicação como é o jornal “O Olhanense”, com uma página quinzenal sobre esta região, há vários anos.
Mas embora esteja em contato com os leitores noutros jornais, algumas revistas e boletins, é no “Notícias da Covilhã” que mais tempo tenho dada aos meus textos despretensiosos.
Neste contexto, por duas vezes chegaram às minhas mãos dois livros da autoria de um excelente Amigo, ex-Diretor do “Notícias da Covilhã”, o Cónego Dr. Mendes Fernandes. O primeiro – “60 Anos de Sacerdócio ao Serviço da Igreja e da Comunidade” – foi em 11.10.2006; o mais recente – “Que falta ao Mundo para Viver em Paz, Verdades Evangelizadoras para o Nosso Tempo” – chegou em 07.07.2014.
Este Homem, na sua provecta idade a caminho do centenário, apesar de se encontrar refugiado no melhor Lar que é a sua residência familiar, não suspendeu a caneta (que é um dos símbolos da sua vida), como ele diz.
A leitura deste seu livro (o último de uma vasta obra) levou-me a uma suave pausa na meditação do que escreveu, denunciando com frontalidade tudo o que se passou e passa neste nosso país empobrecido, mas também de pobreza pelos valores da vida.
Várias citações de autores, nesta sua obra, e outras expressões suas, são de uma profundeza espiritual que a um católico, como eu, deu prazer ler, num momento em que nos embrenhamos em muitas coisas, atendendo a várias solicitações às quais, por vezes, não podemos, ou não queremos, dizer não.
E, de facto, como cita, “É a paz que liberta o homem da sua condição de escravo e lhe dá o título de livre”. Depois: “Plantar e enraizar a paz é obra de Deus, arranca-la da raiz é obra do inimigo”. “Mas todos nós sabemos que os últimos dois séculos foram os mais sangrentos de toda a história. Em muitas nações desceu-se o último degrau da desumanização”. Não é o que se está a passar com estas mortes na Palestina e na Ucrânia?
E é assim que refere ainda: “Todos os humanismos baseados em filosofias que absolutizaram o finito e eclipsaram o infinito (Deus), faliram estrondosamente depois de terem provocado as maiores tragédias e convulsões sociais”.
Muito haveria a comentar sobre este interessante livro mas não quero deixar de referir, sobre uma leitura que faz de vários Papas, a influência que teve João Paulo II, seu grande admirador, e de todos nós, no acordo do desarmamento nuclear assinado em 08/12/1987 por Mikhail Gorbachev, onde interveio o presidente polaco Jaruselski, abrindo assim a possibilidade de uma coexistência pacífica entre o Leste e o Ocidente.
Quase por último, mais esta citação no seu livro: “Não esqueças – Jamais serás arrogante com os humildes mas também não sejas humilde com os arrogantes”.

Termino do muito que haveria a dizer da sua obra, e que serve para inspiração de outros textos, esta também sua inspiração sobre Nossa Senhora: “Se o mar que por todo o mundo se derrama – Tivesse tanto de amor como tem de água fria, – O seu nome não seria mar – Seria MARIA.

(In "Notícias da Covilhã", de 24.07.2014)

8 de julho de 2014

A PROSTITUTA, O CORRUPTO E O PIB

Nunca se falou tanto em prostituição e corrupção como nos últimos anos deste século XXI.
A primeira diz-se ser a profissão mais velha do mundo, pois já existia antes de Cristo. E até terá dado origem à primeira publicidade do planeta. Recordo-me, numa viagem pela Turquia, nos anos 90, algures que já não memorizo, de ver uns sinais alusivos ao sexo, gravados no chão sob granito, que ali permaneciam preservados há séculos, indiciando que, ali perto, existia uma casa de prostituição. Daí, a primeira publicidade que terá sido conhecida.
Mas, o homem corrupto emerge às mãos cheias, quando menos se espera, e, muitas vezes, donde menos se contava vir. Ele tanto é o bem-falante, o de falinhas mansas, o altivo, como o cara de santinho. Neste país de chicos espertos como de otários, não há como andar sempre desconfiado, desconfiado, sim, porque já não há palavra (salvo honrosas exceções) que faça lei, como se procedia religiosamente noutros tempos.
Os jornais estão cheios de casos, que já não causam estrondo, e que, no âmbito da corrupção, levam uma infinidade de tempo para se solucionarem pela fragilizada via judicial, um dos grandes problemas que Portugal enfrenta. E é vê-los sob fiança, pulseira eletrónica ou prisão domiciliária quando deviam estar devidamente presos.
Não é preciso se dissiparem por lugares sertanejos, em pouco conhecidas vilas ou aldeias, ou por pacatas cidades deste país, porque eles surgem perto de nós, nos ecrãs televisivos ou páginas de jornais (sem ser necessário no “Correio da Manhã”), numa foleirice institucionalizada, alguns dos quais num ardente desejo de serem chamados por doutores, engenheiros, poetas ou escritores.
E entre a que vende o seu corpinho e o que sonega e “endossa”, com ardil, para as suas algibeiras, o que é do erário público, assim vai Portugal vivendo. Este Portugal que acata sem discussão o que a União Europeia decreta, passando as estatísticas nacionais a acrescentar ao valor do Produto Interno Bruto (PIB) a riqueza produzida com atividades de prostituição, tráfico e contrabando. Neste contexto, o Instituto Nacional de Estatística avalia que a ideia, a aplicar a partir de setembro, valerá 700 milhões de euros. Chegou-se à conclusão que, para Portugal, o benefício será de 0,4%.
Nesta “genial” imoralidade, em que na receita da prostituição está sendo tido em conta também o tráfico de droga (e de tabaco, não?), transformam um roubo (o tráfico de cocaína, por exemplo) em receita. É de bradar aos céus, como já se pretende trabalhar oficialmente com dinheiro criminoso de lucros ilegais. E não será assim que se poderá fomentar o tráfico de crianças e mulheres, ao invés de o combater eficazmente, criminalizando-o?
Pois é, um dia destes, no preenchimento de algum formulário para qualquer ato oficial, aquela que é considerada a profissão mais velha do mundo já poderá, na pessoa da mulher, escrever-se “trabalhadora do sexo”. E será vê-las nos centros de saúde e consultas hospitalares a indicarem aquela como sua natural profissão, e, sabe-se lá, “publicitando” no imediato e in loco a sua “atividade profissional”.
O “Público”, de 15 de junho, referia que “a inclusão do dinheiro do tráfico de droga e da prostituição nos cálculos do PIB não suscita oposição. Mas falta permitir que as prostitutas se coletem nas Finanças e debater a criação de circuitos legais para drogas leves”. É que, já em 12 do mesmo mês, se referia, em parangonas, que “Sexo e drogas aumentam o PIB – As atividades e negócios ilegais, como a prostituição e contrabando, vão aumentar a riqueza nacional em 640 milhões de euros. O INE calcula o valor da economia paralela em 20,8 mil milhões. Cerca de 13% do PIB tem a ver com a chamada economia não observada”.
Para onde vai esta (des)União Europeia? As prostitutas a serem consideradas como “trabalhadoras do sexo”? Não! Um dia poderemos vir a ter umas quantas Cicciolinas na Assembleia da República. Como eu ando enganado, pensando que, afinal, já não é nenhum objetivo civilizacional acabar com a prostituição!
Voltando à corrupção, como é que banqueiros envolvidos em evasão fiscal e manipulação de contas não são impedidos de exercerem atividades na banca?
Como é que um antigo comandante da Proteção Civil tem o arrojo de se gabar na comunicação social de ter podido gastar 80 milhões sem prestar contas?
O que é que vai acontecer aos médicos que foram apanhados a trabalhar em vários locais à mesma hora, ou seja, em hospitais privados e, simultaneamente, a mamar o dinheiro de todos os contribuintes? E as fraudes nas farmácias?
Pelo que tenho que concordar com José Saramago quando disse que “Em Portugal, não há direita, não há esquerda, nem há centro, há sim um grupo de salafrários que se alternam nos governos, para ver quem rouba mais”.
E, nesta repulsa pelo que se passa no nosso País, lá está o eterno Eça de Queiroz, sempre atualizado como a bíblia dos nossos dias, quando, no meio desta bagunça, há sempre alguém que sofre, e, por isso “em Portugal a emigração não é, como em toda a parte, a transbordação de uma população que sobra; mas a fuga de uma população que sofre”.

(In " fórum Covilhã", de 08-07-014) 

25 de junho de 2014

GESTÃO DE TALENTO

Domingo, segundo dia do início do verão deste ano do mundial de futebol no Brasil, e também do segundo jogo de Portugal, neste mundial, com os Estados Unidos, cujo resultado verificado, já em dia de segunda-feira, é o prenúncio do regresso a casa; ano também da saída dos invasores “troikanos”, na voluntariedade portuguesa; dos cortes e recortes salariais, dos milhões de impropérios com que as gentes das nossas gentes já brindaram os nossos governantes; mas, também o lado bom do que se passa na minha rua – uma rua covilhanense.
Desço a Mateus Fernandes, e, quando regresso, já com o “Público” na mão, vou lendo as mais gordas e a crónica do Vasco Pulido Valente. A capa já nem aterroriza de tão atordoados que andamos – “Mais 311 escolas do 1.º ciclo vão fechar no próximo ano letivo”. Ainda que os meus netos tenham sido uns ases, não posso deixar de meditar nos outros meninos e meninas, deste País, que os querem descalçar.
No princípio da crise ouvia dizer que a mesma é uma forma de gerar oportunidades. E, alguns, muitos, dezenas, centenas, talvez milhares, podiam fazer das tripas coração, como sói dizer-se, e não entrar num desespero à espera que o estado-providência viesse ao seu encontro, talvez num vício do passado preferindo ver a banda passar.
Se na Covilhã há empresas, que aqui se geraram e são um sucesso geracional, também na minha rua dá gosto ver a dinâmica de dois comércios tradicionais, numa força indómita contra a crise, na alegria do trabalho que é sustento dos que ali trabalham.
No inverso, vamos encontrar outras ruas da minha cidade repletas de estabelecimentos encerrados, alguns ainda com artigos amarelecidos no seu interior, pelo abandono, na tristeza do que outrora era a alegria de um rodopiar de entradas e saídas, quando o metro, em madeira, e o peso em balanças Avery eram o suficiente para dar aviamento à clientela, em vez das novas tecnologias de hoje.
Mas a modernidade é sinónimo de progresso, o que não equivale a mais mão-de-obra, e os novos tempos, numa globalização imparável, jamais podem ser refutados no seu acompanhamento se quisermos andar no pelotão, já não digo na sua frente, mas sem o perder. Até já há três portugueses que figuram entre os 705 candidatos que passaram a segunda fase do processo de seleção do Projeto Mars One para uma viagem sem regresso a Marte em 2025.
Quando entrámos na então CEE-Comunidade Económica Europeia, no 1º de janeiro de 1986, já então se insistia nas vantagens e nas exigências em irmos pertencer a um grupo de elite. Uns marimbaram-se para o assunto; outros começaram a compreender que as exigências da formação já não eram questões de patronato. Recordo-me de um dia, na Rotunda do Marquês de Pombal, em Lisboa, dirigindo-me para a sede da empresa de que eu era um dos funcionários externos, um vendedor ambulante, de fruta, tinha um papel colado no seu carrinho, a letras garrafais, que dizia: “Cerejas da CEE” – talvez sem saber porquê, mas já num sentido de viragem para a qualidade.
De acordo com o Relatório do Capital Humano do Fórum Económico de 2013, “constata-se que, no indicador “Capacidade de reter talentos”, Portugal ocupa a posição 111, entre 148 países, o que demonstra a relevância deste tema e a necessidade de proceder a uma análise do porquê desta situação, dado tratar-se de um indicador fundamental para o desenvolvimento do país”.
Existe já um grupo de empresas fundadoras da iniciativa “Like Portugal”, “um movimento privado que pretende comunicar e promover Portugal como um País para Crescer e Investir. Trata-se de um projeto independente da sociedade civil, cujo motor são as empresas, e que tem como objetivos trabalhar e promover a imagem de Portugal nos mercados externos e, dessa forma, contribuir para o esforço nacional de captação de investimento estrangeiro e de dinamização da economia nacional.
Felizmente que ainda há empresas em Portugal, com ramificações também nesta região beirã e na minha cidade – a Covilhã – com homens e mulheres que são duma extraordinária capacidade de liderança e de sentido de alterar o rumo daquele que foi pessimismo, para um ambiente altamente alegre no trabalho, apesar da crise, crise também de valores.

Dou, como exemplo, uma multinacional que alterou o nome do seu departamento de Recursos Humanos, como geralmente existe na generalidade das empresas, para Gestão de Talento. E refere o seu CEO: “Na nossa Casa, decidimos alterar esse nome que consideramos nefasto, porque achamos que um Humano não é um recurso, é, sim, um Ser Humano. Um Ser Humano gere recursos, não gere Humanos como sendo um recurso!”
(In "Notícias da Covilhã", de 26.06.2014)

10 de junho de 2014

REINSTITUIÇÃO

O Brasil é agora a forma de darmos brado ao nosso patriotismo, no amor aos símbolos pátrios, que, desenganem-se, não são a Bandeira e o Hino Nacional, mas tão só, agora, a Seleção Nacional e Cristiano Ronaldo.
Portugal que, para nossa infelicidade, dos nossos filhos e dos nossos netos, continua a não ser livre de tomar as decisões que quer e a conduzir os seus destinos como deseja, não obstante ter passado já o famigerado 17 de maio de 2014, fim (?) da incómoda troika e que, na versão metafórica de um governante do momento chegou a considerar aquela data um novo 1640, penso que é chegada a hora de todos nós nos assumirmos no sentido de nos livrarmos do jugo dos infiéis.
E esses “infiéis” estão infiltrados e disseminados por todos os lados, e por várias formas, num sofrimento, latente para alguns homens e mulheres do trabalho, ou, sem ele, aos milhares dos que o procuram; mas de raiva na grande maioria, e são aos milhares, neste Portugal de uma dezena de milhões de habitantes, por enquanto.
A classe média, quase transformada na “arraia-miúda”, grita, com a sua honra, contra tantos néscios, numa de fartar, vilanagem! É preciso que os “ventres ao sol”, em que nos quiseram transformar, venham exigir a reinstituição de Portugal.
Já se profetiza que Portugal poderá ficar reduzido a 6,3 milhões de habitantes em 2060. Nos dias que correm, ainda com mais uns milhões de pensantes, não se encontram alternativas que não sejam quase duma república das bananas, onde não há respeitabilidade por órgãos de soberania como é o Tribunal Constitucional. Com o contributo pensante de cada um, por que não exigir, até à exaustão, decisões governativas, ainda que dolorosas para alguns senhores detentores ou candidatos ao poder?
Em primeiríssimo lugar urge que todos, mas todos os homens e mulheres da política portuguesa, destacados nos mais diversos lugares, quer do governo, quer da presidência da república, quer das autarquias, assumam um compromisso de honra, não no papel mas nas suas consciências, de que vão desempenhar os lugares tão só para servir o povo e não para se servirem, como na generalidade tem surgido.
Neste contexto, é imperioso que aceitem ser fiscalizados permanentemente sobre os seus ganhos no início do desempenho das suas funções políticas, e, depois, no final, sujeitando-se aos valores salariais e de representação estipulados por lei. Um levantamento minucioso a todos os que ocuparem cargos políticos, quer central quer local, conhecendo o seu património antes e depois dos mandatos.
Que os mesmos sejam terminantemente proibidos, sob pena de serem alvo da justiça, e de anulação dos contratos, de integrar nos seus gabinetes, dos vários ministérios, câmaras municipais ou autarquias, familiares ou protegidos, sendo obrigatório, para o efeito de casos verdadeiramente necessários e imparciais, de que sejam previamente do conhecimento público, que se pronunciará sobre o assunto, pelas vias consideradas normais.
Que se eliminem muitos excessos nos quais nenhum governo de Portugal quer mexer, num mau exemplo comparativamente a outros países europeus, e não só, com mais poder económico e muito menos despesas, destacando, por exemplo:
- Reduzir o número de deputados de 230 para 180;
- O deputado deveria receber salário somente durante o mandato (limitado a duas ou três legislaturas). Não haveria direito a “reforma pelo tempo de deputado” mas tão só contar o prazo de mandato exercido para juntar ao seu tempo de serviço, como qualquer normal cidadão;
- Manter um teto salarial, em termos de pensões, para um máximo de 5.000 euros mensais, para todos os pensionistas, independentemente da sua atividade, e dos seus ganhos no ativo, quer de uma só atividade ou do somatório de várias atividades ou reformas;
- Proibição de salários exagerados para contratações de assessores dos gabinetes, sem experiência e sem que haja prova convincente da sua real capacidade para o desempenho da tarefa e o correspondente salário, que deverá ter um teto máximo;
- Forte rigor nas despesas de representação e de viagens em serviço, devidamente controladas, quer em Portugal quer no estrangeiro;
- Grande rigor na quantidade de assessores quer da presidência da República, quer do Primeiro- Ministro, Ministros e Secretários de Estado;
- Acabar de vez com a diferenciação, na assistência na saúde e na doença, assim como nos cálculos para a aposentação, incluindo no setor bancário, de uns terem tratamento como filhos  de Deus, e outros filhos do diabo; isto pressupõe que terão que se harmonizar os meios para que os menos beneficiados se aproximem dos que beneficiam de melhores condições;
- Eliminação pura e simples dos gabinetes com despesas evitáveis e mordomias, como motorista e outras, aos ex-presidentes da República, que deveriam, tal como atrás referi, usufruir do teto máximo de pensão mensal, como qualquer cidadão, e caso já estivesse na data legal para o efeito; assim como proibir a entrega de veículos para presidentes e assessores das edilidades, e, pura e simples proibição de pessoal, como motoristas privados.
Muito, mas muito mais haveria a constar do rol de exigências para se reinstituir Portugal, como a revisão urgente do Código Penal, impondo agravamento das penas, sem contemplações, em muitos dos crimes, obrigatoriedade na celeridade dos processos judiciais; proibição da prescrição das penas e punição exemplar para todos os homens e mulheres da justiça que propositadamente usarem de subterfúgios para a morosidade e ocultação dos crimes.

No que concerne à saúde, a defesa intransigente do Serviço Nacional de Saúde, e reposição de tudo o que foi retirado em prejuízo dos doentes.

(In "fórum Covilhã", de 10.06.2014)