8 de março de 2016

NOVAS GERAÇÕES – UMA NOVA FORMA DE SOCIEDADE

É uma sexta-feira. Num acolhedor dia de sol, espero pelo meu neto que vem, da Secundária, das Palmeiras. Enquanto no carro leio o jornal vou ouvindo à retaguarda, que depois passa por mim, o barulho do rolar dos tróleis dos jovens e moças estudantes a caminho da Central de Camionagem.
Num rasgo de memória retrospetivo, em instantes, o que fora o ensino do meu tempo, dos anos 50 e 60 do século passado – o século XX.
Ainda tenho a felicidade de algumas vezes poder cumprimentar o meu professor da 4.ª classe – José Eduardo Tendeiro. E o humor vai-se traduzindo naquele pedido que lhe faço ironicamente: “não diga que foi meu professor porquanto, com essa sua juventude, ainda irão pensar que fiz a Primária nos Cursos de Adultos…” Era o tempo de decorar, e saber na ponta da língua, toda a tabuada; somar muitas parcelas quão saber que numa divisão existe o dividendo, o divisor, o quociente e o resto. A prova dos noves já era mais para os merceeiros, como o José Soares Cruto, verificarem se o que apontavam nos livros de deve e haver estava correto, que, da Primária, exigiam mais a prova real. E de geometria, o que à mesma tudo dissesse respeito. Com cuidados especiais na gramática, para evitar pontapés na mesma, como ainda hoje por aí existe, não só no ensino básico, como no secundário e até no superior, onde o h é a letra mais inconsistente na sua utilização, com grande dificuldade em saber aplicar o há, como forma conjugada do verbo haver na 3.ª pessoa do singular do presente do indicativo; e o à, como contração da preposição a com o artigo definido feminino a (a + a = à). Depois, os reis e rainhas de Portugal, e eventos dos seus reinados, assim como os bravos da história, de menor ênfase: Viriato, Egas Moniz, Martim Moniz, O Lidador, D. Fuas Roupinho, Nuno Gonçalves, Deuladeu Martins, Brites de Almeida – a Padeira de Aljubarrota, Duarte de Almeida – o Decepado; os rios e as serras e os sistemas montanhosos; as linhas de caminhos-de-ferro… Como também as funções do corpo humano. Já as regras de três simples e composta eram destinadas para o Ciclo Preparatório, terminado o qual, entrando no chamado 3.º ano dos cursos comerciais, levava-se com um saco de disciplinas, que podiam chegar às onze, com o iniciar do francês e do inglês. E terminava-se a saber escrever corretamente várias cartas comerciais nestas línguas, que eu o diga pois saíram-me num exame teórico para acesso a um Banco.
Nesses tempos, de inexistentes tecnologias, nem ainda se conhecendo sequer uma simples calculadora, só mais tarde, já na Câmara Municipal, usava uma obsoleta máquina de somar. Acoplava-se um extenso rolo de papel e só havia duas ou três na edilidade, pelo que a tínhamos que pedir emprestada aos colegas da Secção de Contribuições e Impostos, na altura liderada pelo Hermínio Gonçalves Soares. Também aí trabalhava o Fernando Pedrosa Gonçalves, bom companheiro de velhas lutas. Serviam para a conferência das verbas inseridas nos enfadonhos orçamentos municipais, com o velho Manuel Matias de Figueiredo atento às mesmas, e, quantas vezes, solucionar um lapso que não podia passar no rigor da Tesouraria a cargo de Miguel de Freitas Pinto de Paiva. O tesoureiro adorava escrever poesia, e botava a mesma para o jornal da sua terra, sob o pseudónimo Gim Satova.
Depois, nas unidades militares, ainda se utilizavam os stencils para elaborarem as Ordens de Serviço, portadoras do diário, desde as notícias das mobilizações para o Ultramar, às muitas punições e poucos louvores.
Numa unidade industrial, no Sabugal, comecei a utilizar, pela primeira vez, as primitivas máquinas de contabilidade, mais para a faturação.
Depois, ainda que duma forma envergonhada, foram surgindo as novas máquinas de escrever algo sofisticadas, aproximando-se dos computadores, e, depois, as impressoras, em que já se dispensava o papel químico.
Mas as novas tecnologias foram avançando, começando com o PC-DOS, antigo sistema operacional da IBM, com a sua primeira versão lançada em agosto de 1981. Com a evolução do hardware e do software a continuidade do PC-DOS acabou por morrer. E surge o Microsoft Windows.

Hoje os jovens estudantes já não se conseguem dissociar da televisão ligada enquanto estudam para uma prova e fones nos ouvidos ao redigir um trabalho escolar. São cenas bem comuns na atualidade. Nasceram sob o advento da Internet e do boom tecnológico. Para eles estas maravilhas da pós-modernidade não são estranhas: videogames super modernos, computadores cada vez mais velozes e grandes avanços tecnológicos, inimagináveis há duas décadas e meia. Esta é a rotina dos jovens de hoje, para além de andarem com os telemóveis constantemente nas mãos: em casa, mesmo durante as horas de refeição, quando vão para a escola, nas ruas enquanto se deslocam, enfim, em todo o lado.

(In "fórum Covilhã", de 08-03-2016)

11 de fevereiro de 2016

A QUARTA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL

“O mundo pula e avança”, como Manuel Freire tão bem canta na Pedra Filosofal. Ao longo dos tempos, o mundo vai-se transformando, numa evolução, nem sempre ao ritmo de adaptação de todas as gerações. Obriga ao dinamismo, empenho, conhecimento. A força física do homem ou da mulher no trabalho tornou-se mais moderada, tendo em conta um “inimigo” da mão-de obra intensiva – a máquina. Menos cansaço físico mas, por vezes, alterações do ritmo cardíaco. Essa máquina também se transforma, e surge o equipamento eletrónico. Destas evoluções resultam redução de obreiros. Como resolver o problema? Consciencialização, responsabilidade, adaptação. O tempo corre e não quer contemplações. Mas… o direito ao trabalho vê-se confrontado com as más governações, dos oportunismos pessoais, usurpações, corrupções, injustiçando dessa forma o que quer ter como bandeira a honestidade.
No nosso muito adorado País, é, desta forma arreliadora, na exemplaridade dos nossos políticos, que, muitos deles, não são o espelho da verdade, que os jovens cérebros se vêm constrangidos a trazerem à memória a canção de José Mário Branco: “Eu vim de longe; de muito longe. O que eu andei pra aqui chegar. Eu vou pra longe, pra muito longe, onde nos vamos encontrar, com o que temos pra nos dar”. E têm que emigrar.
A série de mudanças nas atividades produtivas, a que se dá o nome de Revolução Industrial, foi iniciada por volta de 1760 na Inglaterra. Na sequência de invenções o ponto central foi a utilização do vapor como força motriz. Nestas transformações profundas a evolução técnica foi o centro da Revolução Industrial. Mas, principalmente, esta foi marcada pelas modificações económicas e sociais. Surgiu assim a Primeira Revolução Industrial, com todas estas mudanças tecnológicas, económicas e sociais, entre 1760 e 1860. Foi o uso das máquinas a vapor, feitas de ferro e tendo como combustível o carvão mineral. O ramo caraterístico foi o têxtil de algodão. Apareceu também a siderurgia. A tecnologia caraterística foi a máquina de fiar, o tear mecânico.
A Segunda Revolução Industrial bate à porta em 1870, substituindo o que atrás foi referido por eletricidade, petróleo e aço. Foi um fenómeno mais dos Estados Unidos. Está por trás de todo o desenvolvimento técnico, científico e de trabalho que surge nos anos das duas Grandes Guerras. Esta segunda revolução industrial tem as suas bases nos ramos metalúrgico e químico, assumindo a indústria automobilística grande importância. A tecnologia caraterística desse período é o aço, a metalurgia, a eletricidade, a eletromecânica, o petróleo, o motor a explosão e a petroquímica.
Chegada que foi a Terceira Revolução Industrial, já nos nossos tempos, na década de 1970, teve por base a alta tecnologia, a tecnologia de ponta, tornando-se as atividades mais criativas, e exigindo qualificação elevada de mão-de-obra. É uma revolução técnico-científica. A tecnologia caraterística desse período técnico (com início no Japão) é a microeletrónica, a informática, o robô. O computador é a máquina da terceira revolução industrial.
Surge assim o Fórum Económico Mundial, organização sem fins lucrativos, sediado em Genebra, Suíça, mas mais conhecido pelas suas reuniões anuais em Davos, Suíça, realizadas no final de janeiro. Aqui se reúnem os principais líderes empresariais e políticos, bem como intelectuais e jornalistas. Discutem-se as questões mais urgentes que têm que se enfrentar mundialmente, sem esquecer o meio-ambiente e a saúde. Este Fórum Económico Mundial foi fundado em 1971 por Klaus M. Schwab, professor de administração na Suíça.
Vai já na 64ª edição que este ano se realizou de 20 a 23 de janeiro. Dominar a Quarta Revolução Industrial foi o tema desta edição. Participaram mais de 2.500 líderes de empresas, governos, organizações internacionais e sociedade civil. Segundo as notícias, as conferências, debates e encontros de alto nível, chegaram a ser mais de 200 por dia a nível oficial. O fundador e Presidente Executivo do Fórum, Klaus Schwab, referiu que “devemos ter uma compreensão abrangente e global partilhada sobre o modo como a tecnologia está a mudar as nossas vidas e das gerações futuras, transformando os contextos económicos, sociais, ecológicos e culturais em que vivemos”.
Também a crise dos refugiados, as mudanças climatéricas e o aumento dos juros internacionais foram entre os grandes temas debatidos no evento deste ano. Verificou-se ainda que 1 por cento da população global detém a mesma riqueza dos 99 por cento restantes!
A preocupação com a desaceleração chinesa se intensificou quando os dados do PIB chinês registaram o menor avanço em 25 anos. Outro tema de destaque na reunião foi a mudança estrutural que está em andamento na economia mundial, o início da Quarta Revolução Industrial, cuja maior caraterística é o aprofundamento da informática e da robótica. Foi referido que a revolução trará benefício aos países mais desenvolvidos enquanto minará empregos nos países emergentes mais intensivos de mão-de-obra. Segundo cálculos do Fórum, mais de 7 milhões de empregos podem ser eliminados por inovações tecnológicas até 2020.
Pois é, com esta da robótica, vamos ficar mais ruborizados.

(In "Notícias da Covilhã", de 11.02.2016)


10 de fevereiro de 2016

DESPIR O FATO

Portugal passou a contar na história da República com 19 Presidentes. Na I República: Manuel Arriaga, Teófilo Braga, Bernardino Machado, Sidónio Pais, João do Canto e Castro, António José de Almeida e Manuel Teixeira Gomes. Na Ditadura Militar: José Mendes Cabeçadas, Manuel Gomes da Costa, Óscar Carmona, Francisco Craveiro Lopes, e Américo Tomás. Em Democracia: António de Spínola, Francisco da Costa Gomes, António Ramalho Eanes, Mário Soares, Jorge Sampaio, Aníbal Cavaco Silva, e, agora, Marcelo Rebelo de Sousa. Ainda me lembro da principal figura da instauração do Estado Novo, ou seja, este terceiro Presidente da República da Ditadura, o general Óscar Carmona, com o seu retrato a ser retirado das escolas primárias para ser substituído pelo do seu sucessor, general Craveiro Lopes. Com o meu Pai, então já retirado do ensino na Primária, mas ainda a dar aulas suplementares em Cursos de Educação de Adultos, foi azo para reter na memória estas reminiscências do passado. Tinha eu cinco anos quando faleceu o Presidente Carmona e lembro-me de, na Pousadinha, onde morava, meu Pai me mostrar as fotografias e grandes parangonas a negro (embora eu ainda não soubesse ler) dos jornais inerentes à morte de Carmona. Era um assunto então muito falado na altura: Morreu o Carmona!
Já do general Craveiro Lopes retenho outras memórias, incluindo das páginas jornalísticas que, várias vezes, evidenciavam a grande atividade social da Primeira-dama, D. Berta Craveiro Lopes, que viria a falecer aos 58 anos, um mês antes de o seu marido terminar o mandato. Em tempos também muito difíceis da década de 50 do século passado, alguns jovens escreviam à D. Berta, lamuriando-se, a solicitar emprego; as cartas algumas vezes davam resultado, sendo enviadas para as autarquias. Na Covilhã houve alguns casos com colocações na Repartição de Finanças. Mas, a melhor memória que tenho do Presidente Craveiro Lopes reporta-se à visita da Rainha Isabel II de Inglaterra a Portugal em fevereiro de 1957. A sua chegada e o desfile pelas ruas lisboetas, num coche, assim como a participação em vários eventos e banquetes marcava um fait-divers que seria as delícias da Comunicação Social. Na Biblioteca Municipal eu lia os jornais, principalmente a revista Flama, onde se podia ver, para além da Rainha Isabel II, bonita, de 30 anos, e o duque de Edimburgo, também os seus, ainda só, dois filhos: o príncipe Carlos, de 8 anos; e a princesa Ana, de 6 anos. Os príncipes André e Eduardo só viriam a nascer em 1960 e 1964, respetivamente. Eu tinha nessa altura 11 anos.
Já do último Presidente da República, em tempos de ditadura, Américo Thomaz, poucas memórias deixou, quer ele quer a Dona Gertrudes. Da Covilhã, lembro-me de uma visita que fez em que assisti à distribuição de chaves a moradores em casas de renda económica, do bairro da zona da estação de caminhos-de-ferro, isto no ano 1963, e, depois, à noite, no Pelourinho, foi vê-lo da varanda da Câmara Municipal assistindo à exibição de ranchos folclóricos; com o 3.º oficial da edilidade, José Pacheco Lança, fazendo a apresentação dos mesmos. Penso que, aquando do centenário da Covilhã-Cidade, em 1970, também cá esteve pois recordo ver o motorista da Câmara, Sebastião, dias antes, preparado para seguir para Lisboa com pessoal do Município, que, à minha pergunta curiosa, ele respondeu ir a Lisboa levar o discurso do Senhor Presidente da Câmara da Covilhã, Eng. Vicente da Costa Borges Terenas, ao Senhor Presidente da República.
Mas, na realidade, o ponto mais alto entre estes últimos dois Presidentes da República aconteceu na altura das eleições fantoches realizadas em 1958 em que Américo Thomaz foi declarado vencedor, quando, na realidade, tal façanha se verificou sim com o candidato Humberto Delgado. Se não houvesse a fraude eleitoral certamente um antecipado 25 de Abril, com outro qualquer nome, traria mais cedo a democracia ao País.
Sobre os Presidentes da República sobejamente conhecidos em democracia não vou falar, mas tão só nestas últimas eleições presidenciais, jamais vistas nos moldes em que aconteceram: uma dezena de candidatos e duas mulheres, sendo que a primeira vez que tal aconteceu (Maria de Lourdes Pintasilgo) havia sido há 30 anos, em 1986. E é à primeira volta, já esperada, que Marcelo Rebelo de Sousa ganha a nova presidência da República Portuguesa. A vitória de Marcelo Rebelo de Sousa faz-se face à derrota dos candidatos de esquerda, mas surge também perante a derrota do PS e do Governo socialista liderado por António Costa. Mas se o PS sai derrotado como partido, no seu interior mantêm-se as divisões, averbando os apaniguados de António José Seguro uma pesadíssima derrota com a baixa percentagem da sua candidata Maria Belém Roseira. Do distrito de Castelo Branco foi a Covilhã que teve menor número de votantes em Marcelo, e com a menor diferença para o segundo candidato Sampaio Nóvoa. Marisa Matias foi a melhor colocada para ser a primeira mulher presidente, tal como poderia ter vindo a surgir em situação análoga a Tsai Ong-Wen, a primeira mulher presidente de Taiwan que quer fazer frente à China.
Os portugueses continuam a marimbar-se para as eleições, com a abstenção a subir em flecha (dos 9.741.792 eleitores resultou uma abstenção de 51,16 por cento). Lá dizia Fernando Pessoa: “Chegámos ao ponto em que coletivamente estamos fartos de tudo e individualmente fartos de estar fartos”.
António Costa fez o possível por não perder as presidenciais, com a sua disparatada decisão salomónica de recomendar o voto em Maria de Belém ou Sampaio da Nóvoa.
Surge o desafio político. Para Marcelo Rebelo de Sousa já começou. ”Depois de 40 anos na vida pública, vai ter de inventar para si um novo personagem: o do homem que se senta na cadeira de Presidente da República”. Nestes 40 anos foi visto por nós quase diariamente, com roupagens diferentes: comentador, analista, popular, estratégico; criticou, elogiou, disse tudo e o contrário de tudo. Vestiu muitos fatos e, certamente, nenhum lhe vai agora servir. Será que vai despir agora o fato de professor, ou de comunicador? Disse que “será um Presidente para aproximar posições e cicatrizar feridas, para promover convergências políticas e a cultura do consenso”. Marcelo diz: “Não abdicarei do meu próprio estilo”. Portanto, vai vestir um fato à sua medida. E como viverá sem a televisão o presidente que a televisão nos deu? Na opinião de uma mão cheia de gente, os portugueses escolheram o mais popular a opinar no país. A vitória convincente nas eleições presidenciais é como que uma espécie de palmarés resultante do edifício construído com base nessa sua notoriedade televisiva. Mas pode ser o seu fim. É que Marcelo Rebelo de Sousa, o novo presidente de todos os portugueses, já não vai poder falar-nos ao ouvido todas as semanas e não vai poder manter a postura de confortável afastamento das questões concretas da vida política que tão bem cultivou. “Até agora, tivemos na presidência um militar austero, um político nato, um diplomata e um homem que se bastou a si próprio. Chegou a vez de experimentar a “vos amiga” que nos embalou durante mais de uma década”. Portanto, Marcelo vai também ter que saber vestir o seu fato de gala, e sem no mesmo deixar cair nódoas.

É que António Costa subiu ao muro, olhou e, saltando para o lado da esquerda, conseguiu dividir Portugal em duas partes (CDS e PSD do PS, PCP e BE). No entanto as feridas resultantes da peleja entre Costa e Seguro ainda não sararam e as presidenciais lançaram-lhes achas na fogueira, como aconteceu com a candidatura de Maria de Belém. Para onde vai o PS é a pergunta que muitos fazem. Tudo dependerá do sucesso ou fracasso da política económica do governo de António Costa.

(In "fórum Covilhã", de 10.02.2016)

5 de fevereiro de 2016

A BONITA IDADE DE 70 ANOS

Habituei-me, ainda menino e moço, a ler o Jornal do Fundão desde os tempos da antiga Biblioteca Municipal da Covilhã, ao jardim. Posso considerar que este semanário foi meu companheiro na sua génese, mais velho que eu exatamente dois meses. Portanto, sempre que o JF celebra o seu aniversário é uma forma de lembrar também o meu.
Recordo vários momentos, e várias personalidades, que encheram as páginas deste semanário, sempre na enérgica defesa dos interesses da região beirã, no impulso dinâmico e persistente de António Paulouro. O Jornal do Fundão foi e é ainda uma voz que é recebida pelos emigrantes deste pedaço de terra portuguesa. Não esqueço aquando das guerras nas ex-Colónias, os militares portugueses, quantas vezes em notícia e uma foto no JF. Acompanhei a suspensão do Jornal do Fundão pela maldição censória do regime ditatorial de Salazar. Ainda me recordo de à porta da Câmara Municipal, onde então eu era funcionário, o porteiro, com o último número do Jornal do Fundão mo mostrar e dizer: “Foi esta notícia que fez encerrar o Jornal do Fundão”.
Algumas vezes tive o prazer de poder ver alguns textos meus inseridos no espaço deste semanário, bem como algumas referências a eventos onde participei. Ainda tenho em meu poder uma carta do JF datada de 2 de janeiro de 1989 devolvendo-me o valor das ações que então adquirira numa ajuda solicitada pelo Jornal do Fundão e que fora subscrita por muitos amigos durante algumas semanas, oferecendo solidariedade numa hora difícil da sobrevivência do jornal. Nas estantes da minha biblioteca lá estão os livros das Jornadas da Beira Interior, promovidas pelo Jornal do Fundão.
É nesta vertente de leitor que eu desejo a continuidade da força e iniciativas deste Semanário, em prol da Beira Interior. Parabéns!
João de Jesus Nunes

Covilhã

(In "Jornal do Fundão", de 04.02.2016)

13 de janeiro de 2016

UTOPIAS

No dealbar de um novo ano, muitas coisas surgem para fazer. Outras, demasiadamente insolúveis, ficaram ainda para trás. E temos as Presidenciais na aproximação. As promessas diz-se por aí que são para serem cumpridas, com ou sem jura, seja ou não ceguinho… O comboio com a mercadoria dos compromissos vai tendo alguns fardos que se soltam descuradamente. Será que vai haver mais carga a cair? Não queremos mais cegueiras, porque só é cego quem não quer ver. Esta de na terra dos cegos quem tem um olho é rei, era na utopia do de abalada.
Talvez ensaiar a ideia de que o futuro começa agora. Vamos entregar a carta de compromissos ao divino ou ao destino, sendo certo que este depende de nós. Entre os desejos e as resoluções vai uma acentuada diferença.
Já o antigo Presidente americano John F. Kennedy dizia que “A mudança é a lei da vida. E aqueles que apenas olham para o passado ou para o presente irão com certeza perder o futuro”.
O último caixote que caiu da carruagem em andamento ficou “BANIFicado” e vamos pagar mais sem saber porquê. Isto já vão parecendo os tempos da Dona Branca ou, do lado de lá dos Oceanos, de Bernard Madoff. Mas os de cá não são presos.
Na continuidade da convulsão que está a sacudir a Europa, podemos ver o Podemos, como exemplo. Por cá, temos o feminino em evidência na política, o que não se verificava nos tempos de antanho, que é algo de muito positivo.
É preciso mudar de vida: eliminando os meandros colocados no caminho do novo Governo, ter compreensão para com os refugiados oriundos das terras do medo, encontrar formas mais condignas para os idosos que olham para paredes da solidão, e para os miúdos de narizes ranhosos para disfarçar a fome que lhes vai no estômago vazio a caminho da escola; evitar que haja mais desempregados a surgirem às mãos cheias, e os milhares de jovens tirocinados em Portugal mas a caminho da estranja. E mais, e mais, e mais!...
Depois da fartadela de acontecimentos do ano que entrou na sua necrologia, este neófito 2016 começa, como previsto, com a campanha para Presidente da República, insonsa e desinteressante, como está a ser. Com o Governo a fingir-se de morto, neste âmbito, “Marcelo espalha confusão nos eleitores: os de direita, porque acham que ele está a fazer um frete à esquerda, e os de esquerda, porque acham que ele está a usar um disfarce”. E, segundo a opinião de Vasco Pulido Valente, “Segue a fantochada”. É inconcebível como num país tão pequeno, contrastando com outros de maior território, haja tantos candidatos à presidência da República – uma dezena! – sendo que a maioria é de fraca qualidade, alguns deles notoriamente tendo surgido por protagonismo.
É também um ano de efemérides: locais, reginais, nacionais e internacionais. A Escola Secundária Campos Melo completou, no dia 3 de janeiro, 132 anos da sua criação. Tive o prazer de ter colaborado afincadamente, com outros antigos Colegas (alguns já falecidos) e a Presidente do então Conselho Diretivo daquela que foi a Escola Industrial e Comercial Campos Melo da Covilhã, nas comemorações do seu centenário, em 1984. E, também de ser um dos fundadores da então primeira associação do país, do género, de antigos professores, alunos e empregados da Escola Campos Melo – APAE, no dia 15 de junho do mesmo ano, agora a caminho dos 32 anos. Se em Viseu, em 16 de março, o Museu Grão Vasco vai comemorar o seu centenário, já em Gouveia, há 100 anos, nascia no dia 28 de janeiro, o escritor Vergílio Ferreira.
No dia 1 de janeiro de 1986 Portugal passava a fazer parte do grupo de 12 Estados membros da então CEE. Hoje a CEE é a União Europeia, integrando 28 países. E atravessa uma série de crises preocupantes. Comemoram-se assim, neste 2016, 30 anos.
Pela segunda vez, na história da República Portuguesa, e em democracia, também 30 anos volvidos, há duas mulheres candidatas à presidência da República, sendo que há três décadas fora Maria de Lurdes Pintassilgo.
Também este ano se comemoram 400 anos da morte do dramaturgo e poeta inglês, William Shakespeare, tendo escrito inúmeras tragédias. Quem não se recorda, por exemplo de “Romeu e Julieta”?
E é ainda neste ano que se comemoram os 500 anos da publicação da obra canónica de Thomas More – Utopia, publicada em 1516. Quinhentos anos depois, o sentido de utopia não se perdeu. E a sua mensagem continua a fazer sentido hoje: “existem alternativas ao que está instituído.

Utopia é uma obra marcada pela realidade, mas também pela ficção. A realidade tende a surpreender a ficção. Mas nunca se resiste ao desafio”.

(In "Notícias da Covilhã", de 14-01-2016)

12 de janeiro de 2016

O PAPEL DO PAPEL

Esta é a minha primeira crónica de 2016. Para trás ficou um ano em que sobraram mais recordações negativas do que positivas da vida pública nacional e internacional.
Refletindo sobre o papel que tiveram muitos dos jornais e a blogosfera pensamos ser preferível virar a página e ter esperança por melhores dias. O problema maior que se levanta é saber quantos dos problemas do ano anterior irão ser endossados para o presente e ainda para anos futuros.
Falar sobre acontecimentos que foram sobejamente narrados pela maioria da comunicação social, de drama, e fantasmagóricos, alguns até às entranhas, não vou repetir. A comunicação social especializada no sensacionalismo até ao enfado se encarrega de tal desiderato.
Bastaram as eleições legislativas, com aquele resultado onde quem parecia que ganhava afinal perdia e quem parecia que perdia afinal ganhava; e com a direita histérica e a esquerda excitada; com os socialistas em curto-circuito; na recordação de Mário Soares que quis ser o Presidente de todos os portugueses, contrapondo com a forma paradoxal como Cavaco acaba o mandato sendo o Presidente de nenhum português, ou melhor, de alguns, ou sejam, ou que estavam nos Jardins de má memória, das Oliveiras podres, entre os Dias desaparecidos presumivelmente por zonas de Loureiros; enfim, disfarçando para que o Estado não voltasse a ficar Salgado.
Mas nem tudo são espinhos, porque também encontramos bom jornalismo. Do relato da falência de bancos constata-se que cinco deles fecharam portas antes do Banif, sendo que, no caso mais dramático, andava todo o mundo; incluindo jornalistas, um triste Presidente da República e um distraído regulador; a elogiar a liderança de Ricardo Salgado e a solidez do BES.
O ano 2016 marcará, felizmente, o fim do “cavaquismo”, inaugurado nos anos 80. Foram mais de 30 indesejáveis anos. Mas os portugueses sempre tiveram a sina de serem um povo habituado a sofrer (na recordação das mulheres dos pescadores naufragados); ou de gostarem que os seus semelhantes sofram (se subiu na vida ou a sorte o bafejou, que os raios o partam);  ou, então, nos receios de que venham males maiores (vale mais votar nestas bestas que já conhecemos, antes que surjam cavalgaduras piores…).
Os jornais atravessam atualmente uma crise, entre o papel e o online. Mas será que o jornal em papel vai mesmo desaparecer? Não acredito! Repito o que transmiti em 15 de março de 2012, na Universidade da Beira Interior, no fórum sobre Jornalismo e Sociedade, no qual tive a honra de ser convidado a participar integrando o painel Jornalismo e Cidadania. E sobre este tema desenvolvi animada conversa com o jornalista Adelino Gomes, da organização nacional deste evento.
O tema sensacionalismo, muito salientado duma breve sondagem que havia efetuado da obtenção de várias figuras da sociedade, repercutia-se, de facto, mais sobre o Correio da Manhã. O que é certo e verdade é que este órgão “nos ensina é que nos jornais é preciso ter uma cultura das notícias”, na opinião de José Pacheco Pereira. E ainda, na sua versão, que o chamado “jornalismo de investigação” está no centro do jornalismo que ainda sobrevive em papel.
A crise dos jornais em papel tem ainda a ver com os hábitos de leitura e procura de notícias, na sua diversificação entre o papel e o online.
Todas as manhãs, as minhas primeiras notícias são áudio, seguindo-se a leitura de vários jornais online, não descurando os jornais em papel, onde a usual banca aguarda pelo seu cliente diário.
Ainda me recordo dos jornais Diário de Notícias e A Bola, que lia na biblioteca, em casa, no jardim público, ou nas unidades militares por onde passei, de grande formato (guardo religiosamente os últimos números). Tínhamos de os dobrar para conseguir ler bem uma notícia. Este facto não é de uma dose de nostalgia, mas tão só um exercício de olhar para o passado e recordar de que forma os jornais estiveram sempre nas nossas vidas de maneiras que já não se repetem.
Registo aqui o que o escritor Mário Cláudio referiu numa entrevista em Belmonte, aquando da segunda edição da Diáspora – Festival Literário de Belmonte, de 2015: “Escrevo à mão os meus livros porque não me vejo a escrever de outra maneira, até porque gosto muito de sentir o cheiro do papel, gosto de riscar e de rasgar e isso não é possível através do computador”. Bom, eu já não faço isso mas gosto, sim, de sentir o cheiro do papel, de dobrar o jornal, de recortar e guardar, evitando assim contribuir para mais abate de árvores, gastando papel com as muitas impressões. No final do mês, o saco com todos os jornais já lidos ainda vai ser útil, numa contribuindo solidária, fazendo a sua entrega no Banco Alimentar Contra a Fome.
Voltando um pouco atrás, existem as diferenciações geracionais entre os mais novos que usam a Internet para se informarem e os mais velhos que ainda mantêm o hábito de comprar os jornais na banca.
Felizmente que há mais de 40 anos passou a haver liberdade de expressão que não é só um direito, assim como o jornalismo livre não é só uma marca da democracia, mas também um dever que deve ser honrado com independência e luta contínua pela verdade, e isto doa a quem doer. Jamais poderá haver jornalismo servil e submisso.
A imprensa livre é um dos pilares de uma sociedade democrática, sendo, no entanto, cada vez mais raro o jornalismo de investigação.
É, no entanto, preciso estar-se atento, para que os media não sejam controlados. Veja-se o caso recente da Polónia, a aprovar uma lei que dá ao Governo o controlo efetivo dos media estatais.
Regressar às famigeradas Comissões de Censura salazarista, ou de Exame Prévio, marcelista, nem é bom pensar. Estamos em democracia.

Vamos esperar que este novo ano de 2016 nos traga formas de melhor encontrarmos a comunicação social, na sua vertente de um são jornalismo; se na digitalização das teclas dos computadores, que continue a manter-se o cheiro do papel.

(In "fórum Covilhã", de 12-01-2016)

23 de dezembro de 2015

VENTOS DE MUDANÇA

“Quando os ventos de mudança sopram, umas pessoas levantam barreiras, outras constroem moinhos de ventos” (Érico Veríssimo).
Neste ano que se aproxima do seu final, muitos acontecimentos ilustraram a contagem dos seus dias.
Entre a moderação e a agressividade dos tempos que vão passando no nosso caminhar quotidiano, nas várias vertentes da vida de cada um, talvez a reflexão, ou falta dela, fosse a palavra mais sublinhada.
O facto é que sonhadas certezas se transformaram na ambiguidade de momentos vividos, para uns; e na indiferença para os tempos que não correm de feição, para outros.
Vejamos, por exemplo, nesta última parte, o que de âmbito da vida política deste nosso Portugal, de quase nove séculos, se tem passado com a crescente taxa de abstenção nos atos eleitorais, atingindo neste 2015, a percentagem de 43,07.
Todos nós, como cidadãos portugueses, não podemos deixar de lançar o grito do Ipiranga nesta altura em que, volvidos 41 anos após a Revolução de Abril, nos podemos considerar falseados com todos quantos, ao leme das várias governações, não souberam encontrar formas de tornar a nossa Nação num país rico como tinha obrigação de o ser.
Eslováquia, República Checa, Polónia, entre outros, são países que tendo aderido à União Europeia mais tarde que nós já nos ultrapassaram no seu consistente crescimento.
E somos o único da Europa que em menos de 40 anos levámos, por três vezes, o país à beira da catástrofe.
O desenvolvimento não se compadece com a passividade dos portugueses, ao longo dos tempos, e o atraso continua a prevalecer em relação a outros países da mesma família da União Europeia, e não só.
Já não dependemos somente de nós, mas também dos nossos parceiros. É como num campeonato de futebol em que, para não descer de divisão, já temos que depender do resultado de outros. Os nossos já não são suficientes.
Nesta estagnação económica os portugueses são levados a olharem para outros mercados e a emigrarem, forçados pela inexistência de alternativas em Portugal.
O empobrecimento é generalizado e cai sobre todos nós. Por isso, a produtividade da economia tem que ser aumentada, sem rodeios.
Escrever este último parágrafo foi fácil. Difícil é saber quem, dos nossos governantes, ao longo destas mais de quatro décadas de democracia, foi capaz de incutir em nós esta forma de atuar, em prol do nosso desenvolvimento. E, quem, dos atuais, nestes ventos de mudança, vai descamisar-se para deixar correr o suor duma verdadeira, e não ambígua, ação de transformar o país no Portugal de todos e para todos, substituindo o pão que o diabo amassou pelo caldo quente que todos merecemos.
Enquanto houver forças partidárias retrógradas, presidentes da República pouco interventivos e parciais, ou ministros em meandros da corrupção, ainda que encapotada, ou na promiscuidade, este país continuará a marcar passo ou a ver a banda passar.
Pensamos que, neste final do ano 2015, e para um novo ano, é altura de, com muito respeito, mas com muita convicção, dizer um valente: basta!
O medo de mudar. “Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz”. (Platão). Sim, entendendo esta luz como capacidade de ser brilhante diante das adversidades que nos são colocadas pela vida e conseguirmos produzir as necessárias mudanças.
O descrédito que subsiste, nos governantes, de não serem capazes de se sacrificar, eles próprios e os seus apaniguados, na tentação do poder, pelas genuínas causas do povo português, interpretado este como todos os integrantes deste Portugal à beira-mar plantado, mas também com olhos postos no interior e periferias, são o tal fator negativo que leva à abstenção eleitoral, conforme foi referido.
Há que, de uma vez por todas, cada um de nós, estar atento e vigilante, mas também consciente de que, independentemente de diferenças partidárias, há que deixar resolver os problemas do país, que são os nossos próprios problemas. Que jamais se voltem a ver situações de oportunismo, e que se façam as correções devidas na eliminação dos “jobs for the boys”.
Quando é que, num concurso público, se pode ter a certeza, que há seriedade na admissão de um concorrente?
E não é preciso ir muito longe, o séquito de “boys e girls” permanecem por essas autarquias do país fora, e no nosso meio, o que é duma atitude confrangedora.
Paradoxalmente ao que atrás escrevemos, ainda temos esperança que haja um virar de página nas condutas políticas, para que ainda possamos apanhar a carruagem do desenvolvimento, e, assim, deixarmos de perder o comboio por chegarmos sempre atrasados.

Votos de Boas Festas e um Feliz Ano 2016!

(In "Notícias da Covilhã", de 24-12-2015)

21 de dezembro de 2015

COVILHANENSE ANTÓNIO FELICIANO – GRANDE DESPORTISTA DO PASSADO

A Covilhã pode orgulhar-se de ter, ao longo dos tempos, muitos desportistas, nas várias vertentes, que engrandecem a cidade laneira, hoje também universitária.
Uns, covilhanenses pelo coração; outros, covilhanenses por aqui serem os seus berços.
Ainda há pouco tempo nos deixou um covilhanense pelo coração que servir as cores do Sporting Clube da Covilhã – Jorge Nicolau.
Naturais do concelho da Covilhã, como César Brito, também honraram a sua Terra nesta modalidade desportiva – futebol, chegando a representar as cores da Seleção Nacional.
Já na arbitragem, pela primeira vez na história do desporto covilhanense, temos Carlos Xistra como árbitro de futebol da I Liga e também tendo chegado a internacional.
Noutras modalidades, dantes impensáveis, como o automobilismo – caso de João Fonseca – conseguem a liderança nas suas provas, sendo o campeão nacional de montanha. Mas outros há que não cabem já neste texto, mas que têm o registo indiscutível do seu mérito.
É indubitavelmente um orgulho para a terra que é deles berço – a Covilhã.
Outros ainda, apesar de terem aqui nascido, foram desportistas de alto prestígio, fora de portas. Neste caso em apreço reporto-me a António Feliciano, que eu não conheci.
Ele integrou a equipa de “Os Belenenses” que ganhou o Campeonato Nacional da I Divisão na época de 1944/45 (única vez).
António Feliciano era natural da Covilhã onde nasceu em 19 de janeiro de 1922 e foi um dos maiores futebolistas do seu tempo.
Segundo o jornal “O Olhanense”, de 15 de outubro de 2015, “a sua história de vida, começa na Rua do Outeiro na cidade serrana, onde o pai era tintureiro de fazendas e a mãe tecedeira. Aos seis anos ficou órfão de pai e, a mãe, com quatro filhos para criar, conseguiu que António Feliciano entrasse na Casa Pia.
O futebol corria nas veias do pequeno António que tinha pelo jogo da bola um fascínio e uma paixão inusitadas.
Aos 17 anos, começa a jogar, já inscrito na Associação de Futebol de Lisboa, pelo Casa Pia Atlético Clube, que lhe pagava o elétrico para ir treinar mas, o garoto, ia a pé para ficar com os 24 tostões.
Começou como defesa esquerdo mas rapidamente se fixou a defesa central.
Por vezes, para ganhar vinte escudos, jogava pelo Hotel Borges, nos jogos entre os hotéis de Lisboa. Rapidamente atingiu a primeira categoria do Casa Pia e logo de seguida o Benfica interessou-se por ele. Porém, Alejandro Scopelli que o viu jogar, ficou deslumbrado e impediu-o de partir (obviamente do Belenenses).
Também o F. C. Porto se interessou pelo atleta e levou-o para a Cidade Invicta. Por lá ficou 15 dias, para, apertado pelas saudades, regressar a Lisboa, indo treinar às Salésias”.
“O negócio feito em 1940 foi facilitado, recebendo o Belenenses três contos de réis e Feliciano o ordenado de 300 escudos, ficando ainda empregado no Grémio dos Armazenistas de Mercearias. O seu primeiro treinador foi Artur José Pereira que verificando que Feliciano só chutava com o pé esquerdo o obrigava a treinar com o pé descalço”.
“Em 1949, tendo sido excluído da equipa pelo treinador Fernando Riera, ingressou no Marinhense como jogador-treinador passando depois pelo Beja, Chaves, Famalicão e Riopele.
Em 1965, convidado por Afonso Pinto de Magalhães, ingressou no F. C. Porto para treinar as camadas jovens. Das suas mãos saiu uma geração de ouro do futebol português, nomeadamente Fernando Gomes, João Pinto, Jaime Magalhães, Zé Beto, Rui Filipe, Domingos, Vitor Baía, entre outros. Foi internacional 14 vezes. Em 1946, num jogo contra a França, foi considerado o melhor médio-centro da Europa”.
Consultado o livro de Acácio Rosa – “História do Clube de Futebol “Os Belenenses” – 1919 a 1991 – Factos, Nomes e Números”, sob o título “As Três “Torres de Belém”, a páginas 491 a 493, se refere assim: “O Feliciano – um desportista e um dos defesas mais categorizados de sempre – era de uma honestidade a toda a prova, de um belenensismo e amor à equipa como dificilmente se pode, hoje, encontrar e, mesmo antes de partir para férias, mal acabava a temporada, era o primeiro a apresentar-se. Depois desse dever cumprido, partia para as praias. Nunca exigia um tostão, nunca pediu dinheiro nem punha condições. Era do Belenenses e o Belenenses era tudo para ele. Excelente rapaz e grande jogador. No entanto, Feliciano esteve em vias de deixar Belém. O Celta de Vigo, fazendo valer a cotação da peseta em relação ao escudo, meteu na cabeça de Feliciano muitas pesetas e muitas ideias. O Belenenses era “pobreza franciscana” em comparação com a riqueza do clube galego, que mandava falar em pesetas e em escudos com o maior à-vontade. Feliciano procurou Acácio Rosa e, lealmente, expôs-lhe o problema. Tinha, na sua frente, a perspetiva de casar-se e precisava ponderar na oportunidade que se lhe deparava, se o Belenense não visse nisso inconveniente.
O Belenenses não quis destruir a grande oportunidade de António Feliciano fazer um bom contrato. O Clube, embora o seu defesa estivesse, à época, no auge da sua forma e lhe fizesse muita falta, cedeu.
Acácio Rosa redigiu as condições a apresentar ao Celta de Vigo. Juntamente com a carta, contendo as condições a exigir aquele clube, Acácio Rosa disse a António Feliciano que pensasse no ambiente que, muito provavelmente, iria ter no seio dos jogadores espanhóis, que talvez o dinheiro não compensasse e, em contrapartida, fez-lhe notar a camaradagem que reinava em Belém, onde toda a gente o considerava não apenas como um ídolo mas como um amigo imprescindível, como um membro querido da vasta família “azul”. António Feliciano partiu e levou a carta, Não deu sinal de si durante alguns tempos. Apareceu depois e apenas disse a Acácio Rosa: “Farei o que o senhor e o Belenenses quiserem”. Logo nesse dia, Feliciano assinou a ficha pelo Belenenses e o clube encontrou uma plataforma para, dentro das suas possibilidades, corresponder ao gesto do seu jogador, gesto de um desportista íntegro. E Feliciano continuou no Belenenses por muitos mais anos. Serviu-o sempre com indómita vontade e com a categoria dos jogadores que ficam na história”.
 Também o livro “Federação Portuguesa de Futebol – Os Anos de Diamante - 1914 – 1989 – No 1.º Centenário do Futebol Português”, de Henrique Parreirão, se registam o nome, fotos e a participação, como internacional, do covilhanense António Feliciano, que viria a falecer em 14 de dezembro de 2010, aos 88 anos.


(In "O Combatente da Estrela", Nº. 101, dezembro 2015/março 2016)

QUEREMOS PROSSEGUIR

Mais um dezembro chegou ao tempo das nossas vidas.
Mais um Natal se aproxima para nos reunirmos no seio familiar.
Mais um fim de ano se vai adicionar a outros tantos que fizeram as estórias da nossa própria história de vida.
Este advérbio “mais” é de tantas tristes e ledas madrugadas; de tantos sonhos desfeitos ou alegrias incontidas; de tanta ira ou alguma tolerância; de tantos gestos irrefletidos ou de formas de conduta benfazejas; de espontaneidades em atos acertados ou embirrações indesejadas.
Ano de 2015 recheado de acontecimentos díspares quer de âmbito mundial quer no contexto nacional: políticos, religiosos, solidários, demográficos, climatéricos, culturais.
Sempre o mundo se encontrou em conflitos desde os tempos imemoriais. E, quando umas lutas se dissipavam, logo noutro local outras emergiam.
Também neste pedaço planetário mais ocidental da Europa, as guerras e lutas fratricidas não nos pouparam.
Disso já demos conta nos números anteriores d’O Combatente da Estrela; e, assim, comemorámos, de âmbito nacional ou local, efemérides como foram as respeitantes à 1.ª Grande Guerra, e as memórias das guerras em África, para onde foram conduzidos, durante mais de uma década, nos anos sessenta e setenta do século passado, a maioria dos que integram a grande família dos “Antigos Combatentes”.
Por via da grande revolução das redes sociais consegue-se hoje chegar a qualquer ponto do globo num ápice, e, daí, apercebermo-nos das grandes transformações por que está passando o Planeta Terra, mas também da enorme fábrica de maldade que grassa por todo o Mundo.
Os distribuidores das sementes do mal estão por todo o lado, em todos os Continentes, na Europa, e até no nosso País.
Se o terrorismo avança em alguns países, e já chegou à França, e não só, a passos largos, e não é travado porquanto alguns países o protege, por interesses duais, originando mortandade de inocentes e uma longa marcha de milhares de refugiados, o que fazer, afinal, para sucumbir as forças do mal? Esta reflexão terá que ser incutida em cada um de nós, como pessoas de bem.
Mas, para além do terrorismo, outra situação grave afetando todo o planeta onde vivemos se sobrepõe e tem que ser encarada com todo o sentido de muita responsabilidade individual. O clima está a ser fortemente afetado pelos efeitos de estufa e há que conter o aquecimento global. Ficamos com a  esperança nos resultados positivos verificados na Cimeira que decorreu até ao dia 11 de dezembro, em Paris, para uma tomada de posição para debelar, em parte, este gravíssimo problema.
Por cá, no âmbito da governação do País, após eleições, surgiu uma situação inovadora, mudando o paradigma de quem ganha sem maioria e de quem perde com possibilidade de formar governo. Há que olhar para esta nova realidade, com toda a serenidade.
Se fizermos uma retrospetiva dos principais acontecimentos que surgiram ao longo de 2015 em todo o Mundo, a grande percentagem é fortemente de situações muito negativas. Senão, vejamos: no dia 7 de janeiro, uma série de ataques terroristas fizeram 19 mortos e 17 feridos no jornal Charlie Hebdo, em Paris; no dia 29, atentados do Daesh, o autoproclamado Estado Islâmico, ocasionaram 25 mortos e 34 feridos, no Sinai, contra forças do Egito, para, no último dia do mês divulgarem novo vídeo de decapitação de reféns. Em 4 de fevereiro, um avião da TransAsia Airways caiu minutos após a descolagem em Taiwan causando mais de 40 mortes; no dia 15, ataques terroristas numa sinagoga e num café fizeram dois mortos e dez feridos em Copenhaga, na Dinamarca; no dia 24 um avião da companhia Germanwings caiu com 150 pessoas a bordo nos Alpes franceses sem deixar sobreviventes. Nos dias 18 a 20 de março, ataques terroristas do Daesh, num museu da Tunísia e na capital do Iémen, provocaram centenas de mortes e de feridos. No dia 2 de abril, um atentado terrorista do grupo al-Shabaab, numa universidade do Quénia, matou 147 pessoas; e, no dia 25, ocorreu um sismo de 7,8 na escala de Richter, no Nepal, fazendo milhares de vítimas. No dia 18 de maio, Iraque e Síria perderam os derradeiros pontos de fronteira para o grupo terrorista do Daesh (o tal autoproclamado Estado Islâmico). No dia 26 de junho, atentado terrorista num hotel da Tunísia faz 38 mortos, entre eles uma portuguesa. No dia 8 de agosto, o tufão Soudelor causou mortos em Taiwan. Neste mês de agosto, a multiplicação de fogos em Portugal fez de 2015 um dos piores anos de sempre em termos de incêndios. No dia 3 de setembro, cinco crianças sírias que tentavam alcançar a Europa deram à costa da Turquia, criando as imagens das crianças mortas indignação nas redes sociais e aumentando o debate sobre a migração na UE. No dia 10 de outubro, um atentado terrorista na Turquia causou mais de 100 mortos e 400 feridos.
No dia 13 de Novembro, vários ataques terroristas coordenados instalaram o terror em Paris, em locais como a sala de espetáculos Bataclan e as imediações do Estádio de Paris, causando centenas de mortos, entre os quais alguns portugueses, e feridos graves. Os atentados foram reivindicados pelo Daesh. França encerrou as suas fronteiras. E, no dia 20, homens armados atacaram um hotel do Mali fazendo cerca de 170 reféns.
Mas também houve acontecimentos muito positivos, destacando, no dia 11 de abril, o encontro de Barack Obama com Raúl Castro, no Panamá, tendo em vista o fim do embargo dos Estados Unidos a Cuba. No dia 13 de julho a Grécia não saiu da zona Euro e foi acordado um terceiro pacote de ajuda económica ao país; no dia 23 foi a descoberta do exoplaneta Kepler-452b, a 1400 anos luz da Terra. No dia 28 de setembro, a Nasa anunciou ter encontrado água em Marte; assim como, no dia 8 de outubro, a Nasa anunciou ter encontrado água congelada em Plutão.
No que ao nosso País diz respeito, vários acontecimentos aconteceram ao longo de 2015, uns com mais impacto que outros, nomeadamente sob o ponto de vista das eleições que foram realizadas, mas prefiro tão só destacar o aspeto desportivo, a saber: no dia 12 de janeiro, Cristiano Ronaldo ganhou a sua terceira bota de ouro, de melhor jogador de futebol do mundo em 2014; no dia 21 de maio, o Rally de Portugal regressou ao norte do país; no dia 25 de junho, Telma Monteiro vence a medalha de ouro do judo nos Jogos Europeus de Baku; e no dia 27 de agosto, Nelson Évora vence a medalha de bronze dos Mundiais de Atletismo de Pequim.
E, no que concerne ao Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes, ao longo do ano que agora se presta a findar, para além do dinamismo e entusiasmo que já é peculiar no seio desta Instituição, também houve tristes e ledas madrugadas, pois é sempre com tristeza que se mencionam os nomes e fotos dos antigos camaradas, que já partiram, na página da necrologia, alguns duma forma insólita como foram os casos dos amigos Albino da Costa e José Gregório Menina. Que Deus os tenha em paz.
Na outra parte, o Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes esteve sempre ativo, entre a cultura, o recreio e a ação social, a saber:
- 26 de fevereiro – Realizou-se o já habitual passeio a Porto da Raiva para degustar as saborosas lampreias.
- Em março – No 89º aniversário do Núcleo foi feita a trasladação dos restos mortais dos Combatentes mortos em combate, do Cemitério da Covilhã para a Cripta do Talhão dos Combatentes, com grande dignidade, estando presente uma força militar; seguindo-se uma missa de sufrágio na Igreja da Santíssima Trindade, e depois o almoço do aniversário.
- Dia 5 de março, realizou-se uma palestra, na Biblioteca Municipal da Covilhã, sobre Stress Pós Traumático da Guerra, pela psicóloga clínica e da saúde, Dra Martina Lopes, então coordenadora do CAMPS da Beira Interior.
- Dia 9 de abril foi o Dia do Combatentes, com uma homenagem junto ao Monumento dos Combatentes, ao Jardim.
- Dia 18 de abril – Uma interessante visita a Buda Eden, Óbidos e um passeio pelo Tejo.
- Dia 24 de maio – IX Peregrinação a Fátima.
- Dia 27 de maio – Visita de trabalho ao Núcleo da Covilhã, do Presidente da Direção Central da Liga dos Combatentes, General Chito Rodrigues, tendo sido abordados vários assuntos, entre os quais os relacionados com o funcionamento do Centro de Apoio Médico Psicológico e Social da Beira Interior (CAMPS), tendo ainda, desta reunião, sido assumido o compromisso para que a Peregrinação a Fátima passe a ser anual, como, aliás, já era, mas de âmbito nacional.
- De 10 a 26 de julho – Participação na Feira de São Tiago, com um stand.
- Dia 20 de agosto – Para além das tertúlias mensais, ainda que independentes do Núcleo da Liga dos Combatentes, mas partindo do seio do mesmo, por parte de alguns antigos Combatentes, como já foi esclarecido no número anterior, celebrou-se este evento com cariz especial – foi o 50º Encontro de Combatentes da Covilhã.
- Dia 19 de setembro – Viagem ao Douro.
- Dia 27 de setembro – Sardinhada na Senhora do Carmo – Teixoso.
- Dia 28 de setembro – Participação na Feira de S. Miguel, no Tortosendo, com um stand.
- Dia 3 de outubro – Organização da XIX Feira de Trocas e Colecionismo da Covilhã, no Sporting Shopping Centro de Ativ’Idades.
- De 16 a 25 de outubro – Exposição “O Centésimo”, na Galeria do Serra Shopping, sobre as 100 publicações de “O Combatente da Estrela”.
- 21 de outubro – Colóquio na Biblioteca Municipal, sob o tema “Pequenos Jornais no Associativismo”.
- 1 de novembro – Romagem aos Talhões dos Combatentes da Covilhã e Fundão.
- 21 e 22 de novembro – Viagem a Malafaia.
Resta-nos desejar aos prezados leitores e a todos quantos constituem esta grande Instituição que é o Núcleo da Liga dos Combatentes da Covilhã, e suas famílias, um Santo Natal e um Feliz Ano de 2016.


(In "O Combatente da Estrela", N.º 101, dezembro 2015/março 2016)

9 de dezembro de 2015

O (DESA)APROVEITAMENTO DE ESPAÇOS DE LAZER

A cidade covilhanense está imbuída do espírito coletivo, no seio das suas agremiações, localizadas nas várias zonas citadinas, e seus termos, da grande aspiração para o melhor que possam oferecer aos seus associados, consequentemente também a suas famílias, para os momentos de lazer, que cada vez são mais, face ao envelhecimento da população.
Ou não fosse a Covilhã a detentora do maior número de agentes culturais e de recreação do distrito, atingindo perto de duzentas coletividades e associações.
Se bem que ao longo dos tempos algumas, que tiveram grandes pergaminhos na cultura e desporto da cidade, sucumbiram para não mais se levantarem, outras ressurgiram das cinzas e por aí vão andando, no empenho dos seus dirigentes.
Ora, houve uma via associativa no empenhamento municipal, dando a possibilidade de melhoramentos nas suas sedes, que, nalguns casos deram passos maiores que as suas pernas e hoje veem-se confrontados com elevadíssimos compromissos financeiros; outras, se a razão da sua atual existência é a quase exclusividade de um bar, não têm razão de existir.
Mas na dinâmica de outros dirigentes, conseguiram na exemplaridade do que é o fazer e o saber fazer, erguer baluartes no âmago da solidariedade, que extravasa a ação profícua para com os seus associados.
Mas já não é admissível ver alguns espaços há muito tempo desaproveitados, como as fotos documentam, retirando a possibilidade de cumprirem a missão para que foram criados, sem jamais terem sido utilizados.
Efetivamente, os dois campos de ténis que foram o sonho do Académico dos Penedos Altos, construídos há uma dúzia de anos, encontram-se quase num lameiro, encerrados, impossibilitando, já que para courts de ténis não pode assim funcionar, que as crianças que por ali andam de bicicleta não tenham a oportunidade de ali se divertirem com segurança. Este desagrado já foi sentido em tempos, ainda na liderança camarária do anterior autarca, devido ao facto de no Bairro dos Penedos Altos não existirem espaços infantis para as crianças poderem andar de bicicleta e praticarem outro tipo de atividades lúdicas.
Senhores autarcas, em colaboração com os dirigentes associativos, venham in loco e deem aproveitamento a estes espaços inativos pois as crianças, o melhor do mundo, não se compadecem com a passividade existencial.


(In "fórum Covilhã", de 09-12-2015)

DO CLIMA AMBIENTAL, DE MEDO E POLÍTICO, AOS CHOCALHOS

Dezembro, último mês da primeira década e meia do terceiro milénio da era de Cristo, nesta Idade Contemporânea. Saímos do equinócio do outono para nos prepararmos para a entrada no solstício de inverno.
O Planeta Terra, nestes primeiros anos do século XXI, e terceiro milénio, teve, na distribuição pelos seus Continentes, vários eventos, geralmente substantivados de “guerra” ou “crise”.
Começou na América e na Ásia, com os ataques às duas torres do Worl Trade Center, em Nova Iorque, e ao Pentágono, em Washington, numa fatídica 3.ª feira de 11 de setembro de 2001, provocando a morte de mais de três mil pessoas, depois dos terroristas terem desviado quatro avões comerciais.
No mesmo ano foi a Guerra do Afeganistão, e, logo a seguir, em 2003, a Guerra do Iraque, no Continente asiático.
No salto para o ano 2011, resultaria numa esperança para a África, com o início da “Primavera Árabe” que, mais tarde e paradoxalmente, se transformaria num “Inverno/Inferno Árabe”. Mas, no ano anterior (2010), surgiria a Crise da dívida pública”, na Europa.
Neste espaço temporal emergiram alguns estados soberanos: Timor Leste, em 2002, com o fim da ocupação da Indonésia; Sérvia e Montenegro (de 2003 a 2006), como último vestígio da Jugoslávia; depois, a Sérvia, em 2006, cisão da Sérvia e Montenegro; como igualmente, no mesmo ano, Montenegro, com a mesma cisão. Por último, em 2011, o Sudão do Sul, independência com a divisão do Sudão.
E, no meio de tudo isto, a nossa essência traduz-se em dois polos antagónicos: a dor e a alegria. É falsa a vida sem dor, como é falsa a vida sem alegria. Esta última depressa desaparece, qual penumbra, enquanto o sofrimento parece que não mais vai terminar.
E é assim que os justos, honestos e pacíficos se vêm confrontados com extremistas fanáticos, como é o caso do Daesh, em vez de autoproclamado Estado Islâmico, já que de Estado nada tem, uma vez que é uma organização que existe essencialmente para nos destruir; e representação islâmica também o não é. Daí, a grande avalanche de refugiados, qual êxodo para os países da Europa, fugindo à morte, como já acontecia com os terroristas do Boko Haram.
Só que, não obstante estas terríveis maldades humanas, homens e mulheres inebriados pelas carnificinas, surgem, de há muito, agora numa ação veloz, outros medos, fora da ação direta dos humanos, mas responsáveis indiretos pela mudança climática do Planeta, devido à grande envolvência industrial.
De cimeira em cimeira, chegou-se, neste mês de dezembro, até Paris, na tentativa de um acordo, no sentido de conter o aquecimento global. Esta conferência é conhecida como “COP21” por ser a vigésima primeira desde que foi aprovada a Convenção Quadro das Nações Unidas para as Alterações Climáticas, em 1992. Durante duas semanas quase duzentos países tentarão aprovar um novo tratado. Vão-se esperar dificuldades mas ou agora ou nunca, como sói dizer-se, desde a aprovação do Protocolo de Quioto, em 1997. O objetivo do acordo é estabelecer-se o que compete a cada país para evitar que a temperatura da Terra suba mais de dois graus centígrados até ao fim deste século. Efetivamente, “os dois graus de temperatura são o limite definido por políticos e cientistas a partir do qual as mudanças na Terra vão ser mais radicais e terão um impacto maior no clima”.
Desde 2007 que se vem tentando um novo acordo com o comprometimento de todos os países, quer sejam pobres ou ricos. Só que, em 2009, surgiu um fracasso em Copenhaga na conferência aqui realizada, que se pretendia decisiva.
Surgem assim duas grandes lutas: a luta contra as alterações climáticas e a luta contra o terrorismo, sendo os dois principais desafios do século XXI.
As grandes preocupações agora, entre o combate aos terroristas e o combate pelo ataque às alterações climáticas, reveste-se de maior sentido de agir no imediato sobre os efeitos de estufa, pelo que, na ordem de preocupações, é a situação climática do Globo, deitando para trás das costas o medo, principalmente depois dos atentados em Paris. A ameaça das alterações climáticas é mais grave.
A gravidade deste problema planetário já afetou o lago Chade, na África Central, que fornece água a mais de 68 milhões de pessoas de quatro países que o rodeiam, com “a perda de 90% da sua superfície inicial”. Também o Presidente do Kiribati “anunciou que as ilhas Fiji já se comprometeram a aceitar os seus habitantes, quando a subida do nível do mar tornar impossível a vida naquele arquipélago”.
Isto é, portanto, um caso muito sério, pelo que esperemos que a Conferência das Nações Unidas sobre o Clima (COP21), que decorre em Paris até 11 de dezembro, tenha um grande êxito no que ali se vier a decidir. E, assim, o clima político de todas as nações se volte no sentido único de debelar as grandes preocupações climáticas que a todos afeta.
Já há uns meses atrás que o Papa Francisco se debruçou, empenhadamente, sobre este problema gravíssimo, através da encíclica “Laudato si. Sobre a proteção da casa comum”. Uma encíclica inteiramente dedicada ao ambiente é uma novidade. O Papa advertiu: “Nosso lar comum está contaminado, não para de deteriorar-se. Precisamos do compromisso de todos. Devemos proteger o homem da sua própria destruição”.
E enquanto se debate o clima ambiental, em Paris, o clima alentejano sorri com a segunda distinção de Património Cultural Imaterial em apenas um ano. Em 27 de novembro de 2014 foi o cante alentejano a ser distinguido com este selo da UNESCO. O fabrico de chocalhos foi considerado no dia 1 de dezembro de 2015, pela UNESCO, Património Cultural Imaterial da Humanidade com Necessidade de Salvaguarda Urgente, na capital da Namíbia.
Antes do findar deste ano, queremos brindar ao “fórum Covilhã” por mais um ano de vida – o quarto – formulando os melhores votos para que continue com pujança, como o tem feito, com todos os seus obreiros, a servir a causa do jornalismo, ao serviço do bem comum, dos covilhanenses, e região beirã.

Para todo o mundo que envolve este semanário, incluindo os prezados leitores, votos de um Feliz e Santo Natal.

(In "fórum Covilhã", de 09-12-2015)

22 de novembro de 2015

PONTOS NOS “IS”

A informação que se impunha aconteceu agora com o esclarecimento do JF de 19 de novembro de 2015, independentemente da minha amizade existente com o autor do site historiascc e o jornalista do JF.
Pretende-se assim que não haja usurpação dos direitos de autor.
Não pretendo escrever mais obras sobre o SCC, pois bastam as quatro (quase cinco, com as duas edições) que, com centenas



horas de pesquisas e envolvimento de muita gente, muitos já falecidos; e com algum prejuízo de âmbito familiar, profissional (na altura) e até financeiro; deixei à Covilhã a história do maior Clube da Região, ousadia que ninguém ainda havia assumido.
E, que mais não fosse, ofereci ao Clube todos os livros, encadernados, e várias compilações sobre a nobre Coletividade Serrana, de grande volume, encadernadas, num total de 9, em 12.06.2002.
Do Clube do meu coração – o Sporting Clube da Covilhã – nada tenho de ressentimento, independentemente de pontos de vista que em determinadas ocasiões podem divergir. Posso mesmo afirmar que os Dirigentes do SCC reconheceram oficialmente, por várias vezes, todo este trabalho, com condutas que inequivocamente me honraram.
Quanto a novos elementos de estórias para a continuidade da história dos Leões da Serra, que não foram abarcados nos livros já escritos, ou a sua atualização, já que a história não se completa, é de saudar nas iniciativas dos seus mentores, mas que jamais das buscas se omitam as fontes.
Tal não aconteceu no texto de 2 de abril de 2015, do JF, com o destaque de “Grande Tema”, sob o título “A História do Futebol na Covilhã”, e, depois, lamentavelmente, na repetição do erro, na revista do JF alusiva aos “145 anos da Covilhã-Cidade”, nas páginas 50 a 53, sob o título “A Origem do Futebol na Covilhã”, parte integrante do Jornal do Fundão de 15 de outubro de 2015, se bem que um excelente trabalho do jornalista do JF, mas pecando por omissão das reais fontes.
Fica assim reposta a autenticidade da autoria da história escrita do SCC, tendo a certeza que com a minha última obra, em junho de 2007, dei a minha contribuição para lançar o clube, a nível nacional, de todas as divisões, na vanguarda daqueles que têm mais publicações sobre a sua história, só ultrapassado pelos três clubes grandes da I Liga.
Aqui vão mencionados, por ordem cronológica:

SUBSÍDIOS PARA A HISTÓRIA DO SPORTING CLUBE DA COVILHÃ – 1991
Autor: João de Jesus Nunes
Edição: A.P.A.E. Campos Melo
1ª. Edição – 150 exemplares
Composto na Gráfica do Notícias da Covilhã em 1991 – 565 páginas

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SUBSÍDIOS PARA A HISTÓRIA DO SPORTING CLUBE DA COVILHÃ – 1992
Autor: João de Jesus Nunes
Edição: A.P.A.E. Campos Melo da Covilhã
2.ª Edição (renovada) – 300 exemplares
Composto e impresso na Gráfica do Tortosendo em abril de 1992 – 696 páginas
Depósito Legal n.º 55229/92


FIGURAS E FACTOS DO SPORTING CLUBE DA COVILHÃ
Nas Comemorações do seu 70º Aniversário – 1923 – 1993
Autor: João de Jesus Nunes
Edição: Sporting Clube da Covilhã
1.ª Edição – 500 exemplares
Execução gráfica: Gráfica União da Beira, Lda – Fundão, em 1993 – 568 páginas
Depósito Legal n.º 68547/93

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SPORTING CLUBE DA COVILHÃ – PASSADO E PRESENTE
Bodas de Diamante – 1923 – 1998
Autor: João de Jesus Nunes
Edição: Sporting Clube da Covilhã
1.ª Edição: 500 exemplares
Impressão e encadernação: Tipografia do Jornal do Fundão, Lda – Fundão,
em novembro de 1998 – 424 páginas
Depósito Legal n.º 130140/98

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SPORTING CLUBE DA COVILHÃ NA TAÇA DE PORTUGAL
Cinquentenário da sua participação na Final – 2 de junho de 2007
Autor: João de Jesus Nunes
Edição: Sporting Clube da Covilhã
1.ª Edição – 1.000 exemplares
Impressão e acabamentos: Grafisete – Artes Gráficas Lda – Fundão,
em  junho de 2007 – 182 páginas
Depósito Legal n.º 256178/07
ISBN: 978-972-95503-9-3



JOÃO DE JESUS NUNES


18 de novembro de 2015

A DINÂMICA E O ENGENHO DE ALEXANDRE GALVÃO AIBÉO

Lembrei-me deste Covilhanense, nascido nos alvores do século XX, em 16 de abril de 1906, tendo deixado o mundo dos vivos aos 57 anos (escrevo exatamente no dia e mês em que faleceu: 01-11-1963) porquanto se aproxima o Natal.
Os traços da sua personalidade e a sua inteligência deram-lhe a oportunidade de deixar obras que ilustram atos importantes na vida da Cidade e do Concelho.
Quando agora se entregam as iluminações das ruas da cidade, e de certos eventos, principalmente na época natalícia, a empresas de fora, naquela altura dos anos 40 a 60 do século passado, era da autoria de Alexandre Aibéo que saíam as maravilhosas e artísticas iluminações, com a mão-de-obra dos funcionários dos então Serviços Municipalizados, onde ele era Diretor-Delegado. Contribuíam assim para o sucesso de solenidades da cidade, tais como as ornamentações com iluminações no edifício da Câmara Municipal, comemorativa do 25.º aniversário do Prof. Oliveira Salazar no Governo, em 1953, com a silhueta do então Presidente do Conselho; iluminação do monumento de Nossa Senhora da Conceição, da Covilhã, e de algumas ruas da cidade, nas festas comemorativas do centenário de Lourdes que se realizaram na Covilhã, de 27 a 29 de junho de 1958, com a presença do Núncio Apostólico, Cardeal D. Fernando Cento; na mesma altura, silhueta de Pio XII, no edifício da Câmara Municipal; iluminação da Feira Popular do Sporting da Covilhã, no Jardim público, em 1961; ainda no mesmo ano, em 20 de maio, decoração e iluminação da sua responsabilidade, do edifício da Câmara Municipal, Pelourinho e algumas ruas da cidade, aquando da visita das relíquias do Condestável, na altura Beato Nuno Álvares Pereira; por último, no mesmo ano da sua morte, ornamentação, com iluminação do edifício da Câmara Municipal e Centro Cívico, aquando das visitas do Presidente do Brasil, Juscelino Kubitschek de Oliveira, em janeiro de 1963; e do Presidente da República Portuguesa, Almirante Américo Thomaz, em junho do mesmo ano.
Os Aibéos foram nomes de destaque na vida citadina, tendo vivido à Ponte do Rato, numa casa destruída com os profundos melhoramentos e alterações que se fizeram – Rossio do Rato. Esta ponte chamava-se “Barreira” porquanto quem quisesse atravessá-la para entrar na Covilhã (há mais de um século) tinha de pagar e mostrar o que transportava.
Dos cinco irmãos, o João, o José e o António tinham uma oficina, na altura denominada “Aibéo & Irmãos” onde fabricavam peças para as fábricas de lanifícios. Foram eles que construíram o primeiro carro de bombeiros da Covilhã e os primeiros esquis de Portugal.
Alexandre Galvão Aibéo depois de ter frequentado o Liceu de Castelo Branco tirou o Curso Comercial na Escola Industrial e Comercial Campos Melo da Covilhã, e o diploma de eletricista, por correspondência.
Aos 21 anos foi indigitado pelo Eng.º Michaelis de Vasconcelos, do Porto, para organizar os Serviços Municipalizados, tornando-se gerente comercial, tendo-se dedicado de alma e coração ao seu trabalho, nunca aceitando propostas de melhores lugares fora da terra que amava acima de tudo – a Covilhã. Passados alguns anos foi nomeado Diretor-Delegado dos SMC (posteriormente com a designação de SMAS, e, atualmente, ADC-Águas da Covilhã) que ocupou até à sua morte.
Muito novo fez parte da Corporação dos Bombeiros Voluntários da Covilhã e integrou outros órgãos dirigentes de instituições e coletividades da Cidade, entre as quais o Clube Nacional de Montanhismo, do qual foi presidente.
Foi o iniciador e impulsionador do Carnaval da Neve. Fez o saneamento e eletrificação das fábricas de lanifícios da cidade e quase todo o concelho. Depois de muito instado pelo então Governador Civil de Castelo Branco, aceitou ser provedor da Santa Casa da Misericórdia da Covilhã onde mostrou bem as suas capacidades no dirigismo, com bastante rigor. Chegou a organizar o cortejo de oferendas a favor do hospital, com excelentes resultados. Era sempre chamado para fazer parte das comissões de festas da cidade, comemorações, homenagens, visitas e receções, para as quais estava sempre pronto.
Com todo este trabalho em prol da Covilhã, não temos conhecimento, nem a família, que lhe tivesse sido prestado reconhecimento por tudo o que fez.
O último projeto que não chegou a realizar foi o parque de jogos que hoje existe com o seu nome, pertencente ao Grupo Desportivo da Mata – o Parque Alexandre Aibéo.

Faleceu num acidente de automóvel, mas resultante de doença súbita, a caminho do Porto, onde ia adquirir os candeeiros para a inauguração da Barragem do Viriato, nas Penhas da Saúde (Serra da Estrela).

(In "Notícias da Covilhã", de 19-11-2015)

10 de novembro de 2015

QUIMERA APOCALÍTICA

Na altura em que escrevo esta crónica o País aguarda o desenrolar dos acontecimentos que presumivelmente irão resultar nos únicos onze dias de poder na administração do governo então empossado.
Uma considerável parte das gentes portuguesas pretende agora outro cambiante para dar forma diferente ao colorido do retângulo português: de Melgaço ao Funchal; de Seia a Rabo de Boi; ou de Miranda do Douro à Lage das Flores. Quer fugir daqueles tons escuros, pouco cinzentos, representados na tez daqueles que procuraram outro florir em terras da estranja. Foi assim que deu azo à diminuição da população portuguesa, pelo quinto ano consecutivo. Portugal é ainda o 12.º país do mundo com mais emigração, para além de ser a sexta população mais envelhecida do planeta.
E foram o “S. Pedro e o S. Paulo” do anterior famigerado governo que ainda deram uma mãozinha para que não houvesse na Europa outro país com mais emigrantes do que Portugal.
E para também continuarmos na vanguarda das necessidades, aí está Portugal com mais pobres do que em 1974.
Muito provável pouco tempo para um período governativo, sendo o pessoal da tenda constrangido a sair do seu conforto, naquele travo amargo de um Governo a prazo, do qual não rezará a História, já que o sistema político irá mudar o seu funcionamento e, talvez, algumas páginas da História possam registar tão só esta alteração.
Já não há interjeições que possam exprimir algum sentido de respeitabilidade pelo homem de Boliqueime, porque não dá para acreditar o que o representante máximo deste pedaço planetário mais ocidental da Europa está sendo de provocação. Se levarmos Cavaco a sério estamos a ir de encontro a uma crise constitucional prolongada. Ele ainda pensa como no tempo da Guerra Fria. A Maria que trate dele.
As tomadas de posição de Cavaco Silva – o Presidente da República para alguns portugueses –são monstruosas, aquando da indigitação de Passos Coelho como primeiro-ministro, aqui como ato perfeitamente normal; são também paradoxais face ao seu então discurso de tomada de posse, em que seria “o presidente de todos os portugueses”. De quais? Os do seu partido? São ainda de uma incoerência atroz, ele que dizia que “sabe o que faz e nunca se engana”. Efetivamente, afirmar que não se deveria aceitar que o BE e o PCP/PEV tenham uma participação plena nos governos de Portugal revela uma autêntica falta de cultura política e democrática.
É certo e verdade que aqueles partidos de esquerda, durante a campanha eleitoral privilegiaram como bombo da festa os socialistas, mas também haja a memória das decisões irrevogáveis, que se transformaram numa farsa de oportunismo, passando-se uma esponja sob a palavra dada de um mentiroso, que era conhecido pelo Paulinho das feiras. Mas Cavaco incitar os deputados socialistas à desobediência assenta no pressuposto que sonha com uma situação apocalítica.
Portugal pode mudar dentro de dias, e se tal funcionar bem, inaugurará uma nova era.
Mas voltando a Cavaco, aquele que prezava acima de tudo a estabilidade e as soluções de governo com apoio maioritário, agora já parece tomar como opção governos de minoria. Pois é, o importante mesmo é que o seu partido esteja presente. Total incoerência.
O homem que deveria dar o exemplo e foi um dos causadores “do estado a que isto chegou” faz gerar um alarmismo despropositado sobre a formação de um novo Governo de esquerda, apresentando essa decisão como aquela que nos pode conduzir ao fim dos tempos. E a agressividade com que a direita enfrenta qualquer desafio à sua dominação, leva a ferir a democracia. Esperemos que o caricato não surja nos ministros então empossados, ainda que por onze dias, telefonando para os seus familiares, como surgiu em 1987 com o famigerado Dias Loureiro, dizendo: “Pai, já sou ministro!”.
O discurso de Cavaco, lido no dia 22 de outubro, foi a afirmação de um verdadeiro golpe de Estado, tornando-se assim o pirómano, aquele que já era conhecido por atear fogos de instabilidade no país. Figuras importantes da vida política do País, e não só, consideraram “excessivas” as palavras de Cavaco na comunicação que fez ao país; outros que “foi o pior discurso de um Presidente da República desde 1974”; que não se “lembram, depois do PREC, de uma crise tão profunda e tão angustiante como esta que hoje vivemos”.
Pois é, o Sr. Silva, como uma vez um madeirense do seu partido lhe chamou, em demanda com ele, abriu precedentes com o gerar deste conflito mostrando como a comunicação do presidente, que deveria ser de todos os portugueses, está no limite do abuso e da usurpação de poderes.
Reconhecendo-se embora que o provável futuro governo de esquerda que se prepara para subir ao poder no dia 10 de novembro, é de poucas oportunidades e de muitos perigos, há que ter fé e esperança na mudança, já que o Presidente da República que muitos desejam vê-lo partir, não pode impor as suas convicções à soberania popular. Há que acreditar que o apocalipse vislumbrado por Cavaco não passou de uma indisposição como já lhe acontecera em público. Também é certo que, na falta de medicação atempada, tal indisposição só lhe passará quando outro o substituir. Que o tempo passe depressa!


(In "fórum Covilhã", de 10.11.2015)