4 de dezembro de 2022

A PADROEIRA DA COVILHÃ (Já publicado no “Notícias da Covilhã”, em 27-10-2016)



 

“Qual a razão de Nossa Senhora da Conceição ser a padroeira da Covilhã, ou seja, qual a justificação histórica, religiosa, cultural ou outra que levou a essa atribuição específica à nossa cidade?” É uma pergunta que me foi colocada por um covilhanense, radicado em Lisboa.

Não é fácil encontrar essa razão, duma forma particular para a Covilhã, porque as fontes consultadas são escassas e não conduzem a uma clareza, mas antes a uma suposição, sendo que também era nosso desiderato conhecer verdadeiramente a sua génese, assim como a da Paróquia da Conceição, considerada padroeira Nossa Senhora da Conceição mas cujo patrono é S. Francisco de Assis, e, por isso, a Igreja é mais conhecida por Igreja de S. Francisco.

 Várias têm sido as festas e peregrinações de Nossa Senhora (sem especificar o título, mas mais referenciadas com o de Fátima), que passaram pela Covilhã, com pompa e circunstância, nas décadas de 40, 50 e 60 do século passado, a que já fiz referência em artigos publicados no Notícias da Covilhã, em 2004, 2008 e 2012, relacionados mais com o Monumento a Nossa Senhora da Conceição. Já no atual século surgiram duas peregrinações de Nossa Senhora no Arciprestado da Covilhã: 4 de janeiro a 1 de fevereiro e 2009; e no dia 9 de outubro de 2015.

A devoção a Nossa Senhora é uma história secular e glorificante que arrancou logo nos primórdios da Nacionalidade. Sedimentou-se e alargou sobretudo com a Restauração no século XVII. A maior parte das catedrais, como a da diocese da Guarda, criada em 1203, e grande número de igrejas paroquias, tomaram a Virgem Maria para padroeira das suas catedrais. Já o Conde D. Henrique e D. Teresa, a 12 de abril de 1120, doaram o couto de Braga “à Virgem Maria, em cuja honra estava fundada, na cidade de Braga, a igreja metropolitana”. D. Afonso Henriques, ao tomar as rédeas do governo, elegeria Santa Maria de Braga para padroeira e rainha de Portugal nascente. D. João I que tinha grande devoção à Virgem Maria, particularmente à sua Assunção, cuja vigília coincidia com a da grande vitória de Aljubarrota, fez a promessa, que cumpriu, quando da batalha de Aljubarrota, de ir a “pé a Santa Maria da Oliveira, que era na vila de Guimarães”.
Todas as catedrais portuguesas foram dedicadas, em 1394, ao mistério da Assunção, por bula de Bonifácio IX. Este ambiente assuncionista levou os fiéis a tomarem a Senhora da Assunção como sua protetora e padroeira de Portugal. O Santo Condestável Nuno Álvares Pereira, como grande devoto da Virgem, ia haurir forças para os combates diante da sua imagem, andando a peregrinar de igreja em igreja, às vezes a “pé e descalço em romaria a Santa Maria”. Conquistada Ceuta, a 21 de agosto de 1415, o Infante D. Henrique enviou uma imagem de Santa Maria, mandando-lhe pôr o nome de Santa Maria de África. Assim como mandou levantar no Restelo, na margem direita do Tejo, um templo a Santa Maria de Belém. Antes de embarcarem para a viagem da descoberta do caminho marítimo para a Índia, Vasco da Gama e outros capitães passaram em vigília, nesta capela do Restelo, a noite de 7 para 8 de julho de 1497.

Encontrando na Virgem uma proteção sempre pronta, os portugueses foram levados a considerá-la como padroeira da Nação. Este padroado, embora não se conheça proclamação oficial anterior à de D. João IV em 1646, já era reconhecido desde o século XIV, pelo menos, como o demonstram vários documentos.

Mas porque também à Covilhã diz respeito, a Virgem Maria foi ainda chamada Santa Maria de Agosto, em vez de Assunção, como o fizera D. Afonso III, ao fixar, em 1260, a feira da Covilhã.
O século XIX foi também um século marcadamente mariano, e o patrocínio de Maria, nas horas amargas da descristianização de muitos, e desânimo de tantos, aparecia como uma tábua de auxílio e salvação.

Mas se Portugal tinha já uma especial e oficial devoção e crença na Imaculada Conceição (provisão do rei D. João IV, de 25/3/1646), elas ampliaram-se com a definição desse dogma (8/12/1854).

Quanto à Covilhã, enquanto que em 13 de maio de 1946 era coroada a imagem de Nossa Senhora de Fátima, da Capelinha das Aparições (coroa oferecida pelas mulheres portuguesas); em 13 de maio do ano seguinte, o pároco de S. Pedro da Covilhã, padre José Domingues Carreto, impulsionava com grande entusiasmo a coroação da imagem de Nossa Senhora de Fátima da freguesia de São Pedro, com a coroa em ouro, objeto de oferta voluntária de senhoras daquela freguesia, cujas cerimónias, com grande brilhantismo, tiveram lugar no Pelourinho.

Mas já antes, no dia 10 de outubro de 1904, era inaugurado na Covilhã o monumento a Nossa Senhora da Conceição (imagem que, tendo sido mandada construir em França, veio vestida de Nossa Senhora de Lourdes, por lapso dos franceses), fruto duma comissão de pessoas gradas da Covilhã que resolveu consagrar a Cidade a Nossa Senhora, nas comemorações das bodas de ouro da proclamação dogmática da Imaculada Conceição de Maria. Dessa comissão faziam parte, entre outros, os padres João Rodrigues Mouta, Gregório Lopes Arroz, José Costa Tavares e Oliveira Pinto. Para além da Câmara Municipal da Covilhã também integrou a comissão o 1.º Conde da Covilhã, Cândido Calheiros; o Dr. João Ferraz de Carvalho Megre e Gregório Baltazar.

Não conseguimos encontrar qualquer referência concreta à origem de Padroeira da Covilhã. No entanto, na parte final da ata n.º 19 da Reunião Ordinária da Câmara Municipal da Covilhã, de 12 de maio de 1943, o Vereador Dr. António Pereira Espiga Júnior “falou acerca do grande êxito espiritual que foi a Solene Consagração do Concelho da Covilhã a Nossa Senhora da Conceição, realizada por promoção da municipalidade, no passado dia 9. A romagem ao Monumento à Virgem foi impressionante de beleza e de fé e nela se incorporaram perto de dez mil pessoas. A consagração escrita pelo Senhor Presidente (Dr. Luís Victor Tavares Batista) e lida por ele, estando rodeado de todas as Juntas de Freguesia do Concelho, é um belo documento cristão (…)”.

No “Notícias da Covilhã” de 16 de maio de 1943 fazia grande referência à “Consagração do Concelho da Covilhã ao Imaculado Coração de Maria”: “Na Colina Sagrada do nosso Monumento à Imaculada Padroeira de Portugal, tem este lugar sido teatro de atos religiosos e patrióticos da maior grandeza e solenidade; desde a sua inauguração em 1904 têm-se ali juntado milhares de pessoas implorando a proteção da augusta Padroeira da nossa Terra. Julgamos porém poder afirmar que a romagem do passado domingo foi a mais importante de todas pela sua projeção nacional e pelos efeitos que deve ter em benefício da Covilhã. A resolução corajosa do Exm.º Presidente da Câmara de consagrar o concelho ao Imaculado Coração de Maria transcende, na ordem moral todos os empreendimentos que o seu consulado camarário tem realizado e está realizando no progresso material da Covilhã. (…) Ora, o Senhor Presidente da Câmara da Covilhã (…) quis ter a nobreza de, antecipando-se a outras regiões do país, seguir atrás do Santo Padre Pio XII e dos Venerandos Prelados Portugueses, entregando-nos e confiando-nos à proteção daquela que sendo Mãe de Deus é, tem sido e será a amada Padroeira de Portugal. (…) Com as nossas felicitações ao Senhor Presidente da Câmara, só nos resta fazer votos por que a Virgem Imaculada se tenha benigna e maternalmente dignado receber os destinos do nosso Concelho”.

A única vez que se falou no termo “Padroeira” foi aquela acima, “Padroeira da nossa Terra”, pelo que é natural que, de todos estes eventos solenes, saísse, de forma intrínseca, o reconhecimento de que Nossa Senhora passara a ser também designada Padroeira da Covilhã, como já o era do país, e de tantas outras cidades, com as várias denominações: Fátima, Assunção ou Conceição.

Seja como for, ainda que de forma consuetudinária, Nossa Senhora jamais deixará de ser a Padroeira da Covilhã e da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, na fé de todos os Covilhanenses.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Notícias da Covilhã”, de 27/10/2016)

21 de novembro de 2022

PEDRA, PAPEL OU TESOURA

 

Longe vão os tempos em que os da minha geração, aí por meados dos anos cinquenta do século passado, em plena rua, de piso térreo ou então já com calcetamento em paralelepípedo, que se iniciara na Rua Vasco da Gama, Avenida Salazar (hoje Avenida 25 de Abril), junto à Escola Industrial e Comercial Campos Melo, e quintas onde viviam as famílias Carrola e, mais abaixo, os irmãos Lobo, onde hoje existe o antigo Liceu (Escola Frei Heitor Pinto) e também junto à Cadeia, se jogava com uma bola de farrapos ou de borracha. Fazia-se uma paragem sempre que surgisse a polícia, ou, outras vezes, quando tivesse de passar uma viatura, uma motorizada, ou mesmo uma carroça. As balizas eram então feitas com duas pedras e árbitro não havia, o que gerava muitas vezes discussão sobre a dúvida de a bola ter entrado ou não na idealizada baliza.

Havia então que escolher os jogadores (cinco ou mais para cada equipa), seguindo-se, quando não houvesse entendimento, ou assim se julgasse oportuno, o método do jogo de mãos, recreativo e simples entre dois ou mais dos que pretendiam jogar à bola, que não requeria qualquer equipamento ou mesmo habilidade. Era esta uma forma de seleção, que se baseava exclusivamente em sorte, e assim “pedra-papel-tesoura” poderia ser jogado com um pouco de habilidade se este se estendesse por vários turnos com o mesmo jogador, podendo o mesmo reconhecer e explorar a lógica do comportamento do adversário, percebendo e antecedendo as suas jogadas. Os jogadores tinham que simultaneamente esticar a mão, que era colocada atrás das costas e puxada para a frente em simultâneo, através da qual cada um formava um símbolo que significa pedra (mão fechada), papel (mão aberta) e tesoura (os dois dedos da mão, indicador e médio). Os jogadores comparam então os símbolos para decidir quem ganhou, da seguinte forma: a pedra ganha da tesoura (amassando-a ou quebrando-a), a tesoura ganha do papel (cortando-o), e o papel ganha da pedra (embrulhando-a). Este método para escolher os companheiros para um jogo, podia também ser utilizado para saber quem iniciaria outra brincadeira qualquer.

Durante os intervalos das aulas do Ciclo Preparatório, um dos colegas começa a dizer muito rapidamente a palavra otorrinolaringologista e desafiava os outros colegas para que conseguissem pronunciá-la rapidamente. Na mesma altura, no filme português A Canção de Lisboa, com o ator Vasco Santana, no seu exame da faculdade, estabelece um diálogo bastante icónico com os examinadores, ao responder à pergunta, “Qual é o principal músculo latro-flexor do pescoço?”, com a resposta: “É o esternocleidomastóideo”. Estes filmes só se viam nos vários Centros Recreativos da FNAT (hoje INATEL) que existiam na Covilhã, já que a televisão só viria a surgir em Portugal em 1957.

Vem assim a propósito trazer algumas das maiores palavras da língua portuguesa, a saber:

- Inconstitucionalissimamente (27 letras) – Sinónimo de anticonstitucionalissimamente.

- Oftalmotorrinolaringologista (28 letras) – Profissional especializado nas doenças dos olhos, ouvidos, nariz e garganta.

- Anticonstitucionalissimamente (29 letras) – Maior advérbio da língua portuguesa, significa o mais alto grau de inconstitucionalidade.

Entre outras, a maior palavra da língua portuguesa, registada no dicionário Houaiss em 2001, com 46 letras, é a Pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico, que descreve o indivíduo que possui doença pulmonar causada pela inspiração de cinzas vulcânicas.

Apesar do tamanho, está longe de ser uma das maiores palavras do mundo.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 15-11-2022)


 

16 de novembro de 2022

OS JUROS SOB O OLHAR DA IGREJA DOUTRORA



 

Vivemos tempos difíceis. Mas parece avizinharem-se tempos ainda mais difíceis. Estes caraterizados por uma crescente incerteza e com tendência para gerar uma crise acentuada a curto prazo. A diretora-geral do FMI declarou recentemente que a situação económica mundial “ainda vai piorar antes de melhorar” e que “os riscos em torno de uma estabilidade financeira estão a crescer”. Foi um acumular dos impactos das crises pandémica, climática, energética, política (Brexit, guerra na Ucrânia), económica (inflação, aumento das taxas de juro, disrupções nas cadeias de abastecimento, crise do Banco Crédit Suisse, etc), que “está a conduzir para um possível cenário económico de estagflação prevendo que se possa estender pela próxima década”.

Foi noticiado há poucos dias que o Banco Central Europeu (BCE) sobe as taxas de juro em mais 0,75 pontos percentuais. A ideia do BCE é controlar a inflação, mas o risco de recessão na zona euro e em Portugal agrava-se.

Ora bem, o juro era, nos primeiros tempos da Igreja, e mesmo antes de Cristo, condenado, mormente quando se direcionava para a usura. Por isso mesmo os cobradores de impostos eram homens mal vistos e odiados pelos contribuintes da época. Recordemos o episódio do Evangelho do 31º Domingo do Tempo Comum quando Jesus atravessava a cidade de Jericó (já lá estive por duas vezes) e Lhe surge um homem, de pequena estatura, chamado Zaqueu, chefe dos publicanos e rico (cobrador de impostos), sentindo necessidade de subir a um sicómoro (de facto, existem lá muitos), que prometeu a Jesus, recebendo-O alegremente em sua casa, dar metade dos seus bens aos pobres e, naquilo que tiver defraudado alguém, restituir-lhe o quádruplo.

A condenação da usura prolongou-se por muitos séculos. A preocupação muito antiga de proibir ou limitar a remuneração (juro) do mutuante explica-se pela natureza particular dos empréstimos em tempos mais recuados, geralmente destinados a fazer face aos gastos entre duas colheitas. Se o juro não fosse limitado, os camponeses ficavam à mercê dos usurários que podiam, com as suas exigências, levar os mutuários ao extremo de se venderem como escravos para pagar dívidas.

Os filósofos gregos começaram por se manifestar contra o juro. Aristófanes desaprovou-o, Platão (428 a 347 a.C.) e Aristóteles (384 a 322 a.C.) consideravam o juro contrário à natureza das coisas. Os Romanos tomaram posições idênticas. Catão (234 a 149 a.C.) equiparou o juro ao homicídio; Séneca (3 a.C. a 65) e Plutarco (35 a 120) condenaram igualmente o juro. Mas as posições dos filósofos nem sempre foram as definidas nas leis ou as seguidas na prática corrente. Mais tarde, a Lei das Doze Tábuas (449 – 479 a.C.) limitou o juro máximo dos empréstimos a 12% ao ano. É que houve mesmo épocas em que os especuladores romanos chegavam a cobrar 48% ao ano. Marcus Julius Brutus (84 a 42 a.C.), líder político militar romano, um dos assassinos de Júlio César, foi um dos prestamistas que emprestava a este juro.

Para a Igreja, usura era toda a operação que implicava o pagamento de um juro. Assim sendo, o comércio e a banca intimamente relacionado com o juro, eram atividades interditas, ficando os mercadores e os banqueiros sujeitos à excomunhão, o que na Idade Média era uma penalização muito mais temida pelos cristãos do que seria mais tarde. Consideravam o juro contrário à misericórdia e ao humanismo. A situação acabou por mudar depois dos Concílios de Arles, Niceia e Elvira e era condenável apenas um juro cobrado por clérigos. Só a partir do Terceiro Concílio de Latrão (1170) e de Lyon (1274) é que a repreensão era também aplicada a leigos. A Igreja partia de dois pressupostos: um ligado à noção de tempo e outro ligado à profissão de comerciante. Quanto ao primeiro, considerava a Igreja que sendo o tempo pertença de Deus não era suscetível de ser vendido. E como juro era associado à ideia da venda de tempo, tinha de ser condenado. O segundo pressuposto estava relacionado com o conceito em que eram tidos os comerciantes. Os pensadores cristãos consideravam o comércio como associado à fraude e à avareza, fonte de contacto com mercadores e estrangeiros. Os jurisconsultos da época terão especulado acerca dos contornos do conceito de usura, permitindo depois chegar às soluções que justificaram uma flexibilização das posições da Igreja. Haviam-se já começado a ouvir as primeiras vozes discordantes. Assim, para essa flexibilização contribuíram também as opiniões de São Tomás de Aquino quanto á usura e aos comerciantes. Este homem de excelentes qualidades intelectuais, em 1274 foi pessoalmente convocado pelo Papa Gregório X a participar no II Concílio de Lion, como principal objetivo remediar a cisão entre as igrejas grega e romana. Adoeceu durante a viagem e morreu em 7 de março de 1274. Tomás de Aquino mostrou que entre fé cristã e razão subsiste uma harmonia natural. O motivo que mais determinou a mudança de posições da Igreja foi que os mercadores a financiavam largamente quando disso tinham necessidade. E, assim, a partir de determinada altura, vemos os mercadores a serem considerados pela Igreja como bons cristãos. A Igreja acabou por tolerar a usura e mais tarde admiti-la desde que não houvesse excessos.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In Jornal Fórum Covilhã, de 16-11-2022)

19 de outubro de 2022

ELEIÇÕES E CONTRADIÇÕES


 

“O mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos de uma criança” – assim termina a Pedra Filosofal de Manuel Freire. Mas também inicia com as letras “Eles não sabem que o sonho é uma constante da vida, tão concreta e definida como outra coisa qualquer”.

Este mundo está cada vez mais nas mãos de muitos senhores que fazem deste Planeta uma bola de farrapos, que se vai desfazendo com tantos pontapés sem sentido, retirando-lhe todos os cambiantes do bem-estar de todos os humanos. Aos outros senhores, que deveriam ser respeitados, que cumprem os acordos internacionais em prol da Casa Comum, já não lhes dão ouvidos, não passam cavaco, embirram como crianças quando lhes retiram a bola colorida.

Que mundo este sem sentido da vida! Mas, mesmo assim, existe o sonho que é uma constante da vida. Estamos atravessando um longo período que, não obstante uma pandemia ainda não terminada, uns quantos pensantes, julgando-se iluminados, são banhados no seu sonho que os irá conduzir para uma tremenda escuridão.

E neste avançar do mundo, repleto de boas intenções para uns, mas nas contradições de outros, assim vão surgindo ledos e tristes dias.

As últimas semanas foram repletas de acontecimentos se bem que relevantes também preocupantes. Faço referência, por exemplo, às eleições em Itália avançando para a extrema-direita na cena política europeia. Isto depois das vitórias alcançadas na Hungria, na Polónia e na Suécia, para além dos avanços ocorridos em França.

Pois é, já estávamos esquecidos do lema salazarista de “Deus, Pátria e Família”, quando surge agora o mesmo de Benito Mussolini, da terceira maior economia do euro e a segunda potência industrial da União Europeia.

Esperemos agora que, no Brasil, Lula da Silva, apesar de algumas contradições, possa levar de vencida, na segunda volta, em 30 de outubro, o ultra direitista Jair Bolsonaro.

Na Guerra da Ucrânia têm surgido importantes desenvolvimentos, quer no terreno quer nos bastidores. A relevância no terreno vai para as vitórias das forças ucranianas com o registo de significativos avanços, recuperando perto de 5.500 quilómetros quadrados.  Os invasores russos mostram já o seu grande nervosismo em face da humilhação provocada por estas vitórias ucranianas.

Depois, as muitas contradições entre responsáveis da Igreja Católica no encobrimento dos casos de pedofilia. Não fosse a persistência dos denunciantes e vítimas deste contexto, em casos que, muitos deles, já prescreveram, estes homens do “divino” ficavam no segredo dos deuses, muitos dos quais sem punição. Lamentáveis os encobrimentos desses desvios sexuais por homens da Igreja, que deveriam ser os primeiros a dar o exemplo, como o Bispo de Leiria-Fátima, D. José Ornelas, como dantes já haviam sido o Patriarca de Lisboa, Cardeal D. Manuel Clemente. E nesta envolvente de casos até o bispo de Timor, Prémio Nobel da Paz, viria a ser apanhado na rede, há já bastante tempo, com o ar de espanto dos portugueses perante D. Ximenes Belo.

E, para completar o ramalhete de casos deploráveis nestas circunstâncias, faltavam as palavras de agradar a Deus e ao Diabo, do Presidente da República, a tentar deitar água na fervura quando se referiu que “Haver 400 casos não me parece que seja particularmente elevado porque noutros países e com horizontes mais pequenos houve milhares de casos”. Os 424 testemunhos foram recolhidos pela designada Comissão Independente para Estudo dos Abusos Sexuais contra as Crianças na Igreja Católica Portuguesa, uma estrutura constituída por decisão da Conferência Episcopal Portuguesa e coordenada pelo pedopsiquiatra Pedro Strecht.

Face à avalanche de críticas sobre as palavras do Presidente da República, este viu-se constrangido a pedir desculpa: “A minha intenção não foi ofender as vítimas, se ofendi, peço desculpa”.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In quinzenário “O Olhanense”, de 15-10-2022)

12 de outubro de 2022

SURPRESAS PELAS ESTRATÉGIAS


 


Já não chegavam as várias lutas que se vão desenvolvendo entre os povos, por este mundo fora; a fome em muitas regiões do globo, a pandemia que nos fez muito sofrer, os problemas climáticos que os loucos deste planeta persistem em não dar ouvidos; às vozes prenunciadoras dos cataclismos cada vez mais ameaçadores da Terra; como agora o desejo malévolo de querer alimentar uma nova guerra fria.

Depois, em ambiente eleitoral com decisões nos dois hemisférios (uma eleição já realizada, numa vertente mussoliniana, na Velha Europa, mas que terá que defrontar uma democracia para se poder manter na UE – a Itália; outra, com a decisão do povo brasileiro em 2 de outubro, no hemisfério do Sul), dois países anteveem uma mudança brusca de rumo. Da Itália vem aí a extrema-direita com Meloni. É um país civilizado, a que nos habituámos, que está à espreita. Como diz Rosália Amorim, in DN, “é uma nova forma de fazer política e de liderar uma nação que, no passado, esteve sob o facho de Mussolini.” E isto passa-se no Velho Continente Europeu, onde eclodiu a Segunda Guerra Mundial, naquela que é atualmente a terceira maior economia da União Europeia. Pela primeira vez desde 1945, este país vai ser governado por uma liderança pós-fascista.

Se no hemisfério norte a Europa está perigosa, no hemisfério sul deseja-se que Lula da Silva possa destronar Jair Bolsonaro que se mostra nervoso com as sondagens a seu desfavor.

Mas a guerra veio proveniente dum hitleriano russo, sob a iniciativa, instigação e égide do diabolizado Putin, pretendendo subverter um país independente – a Ucrânia.

À partida, aquele malfeitor pensava que a invasão eram favas contadas, tudo se passaria, como profetizava, realizar-se num ápice, como um trovão. Tal não aconteceu, e o povo ucraniano, fortemente imbuído na alma do seu presidente, Volodymyr Zelensky, tem mostrado enorme patriotismo.

De tal forma, que, na recuperação de territórios ocupados pelos russos, pelas forças ucranianas, surgiu a maior contraofensiva na Europa desde 1945, ou seja, da Segunda Guerra Mundial. Foi anunciado que as tropas ucranianas recapturaram mais de 3 mil quilómetros quadrados de território em setembro, durante uma contraofensiva no nordeste do país. – “Nos últimos dias o exército russo mostrou o que tem de melhor: as suas costas. Fugir é uma boa escolha para eles”, informou Zelensky. Os russos estavam a ficar sem opções nas linhas da frente da batalha, “porque estamos a destruir as suas cadeias logísticas, armazéns, etc. Em Kharkiv, que continua permanentemente a ser bombardeada, nesta região o exército ucraniano arregaçou as mangas e iniciou uma ofensiva super eficaz e inesperada: o exército russo esperava uma ofensiva ucraniana em Kherson, a sul, mas foi surpreendido com um ataque a nordeste, em Kharkiv, conseguindo recuperar, só em três dias, mais de um terço da área ocupada nesta região. Isto foi conseguido devido a uma estratégia bem planeada de desinformação das forças armadas ucranianas, de acordo com o The Guardian, que avança que desde 29 de agosto e ao longo de vários dias, o exército ucraniano partilhou informações falsas que foram difundidas por todo o mundo, o que levou a que os russos estivessem preparados para receber o exército ucraniano em Kherson”. De acordo com Kuzan, esta ação militar foi realizada “à velocidade da luz”, o que gerou uma grande pressão para as forças militares russas, tanto a norte como a sul da Ucrânia.

Esta foi uma surpresa pela estratégia ucraniana.

Na história mundial, temos muitos exemplos de surpresas pelas estratégias aplicadas que deram bons resultados. Antes e depois de Cristo. Por exemplo, as estratégias de Viriato, da Lusitânia, e as suas surpresas, contra os Romanos, quando em 147 a. C. se opôs à rendição dos lusitanos a Caio Vetílio, que os tinha cercado no Vale de Betis, na Terdetânia. Poucos dias após a sua aclamação pela assembleia de chefes tribais, Viriato acompanhado de oito mil soldados segue em direção à Carpetânia onde tem conhecimento da nomeação do novo cônsul, apontado para tomar as rédeas dos interesses romanos na Hispânia Ulterior. Na batalha contra o pretor Plaúcio, este mandou tocar as tubas e o exército romano cerrou fileiras com uma primeira linha pejada de escudos vermelhos retangulares e lanças inclinadas. Aguardavam a carga inimiga. Viriato revê a estratégia com os seus guerreiros e avança rápida e decididamente contra os romanos mas, a pouca distância dos mesmos manda recuar os seus homens, dando a entender que se assustaram com o poder do exército inimigo. Entretanto, quando já se encontra distante dos seus perseguidores, Viriato inverte a marcha e ordena um ataque feroz pela frente e pelas alas. Apanhados de surpresa pela estratégia rápida, os romanos são rapidamente dizimados.

Já d.C. podemos dar o exemplo da Batalha de Aljubarrota, decorrida no final da tarde de 14 de agosto de 1385, entre as tropas portuguesas, com aliados ingleses, comandadas por D. João I de Portugal com o condestável D. Nuno Álvares Pereira, e o exército castelhano e seus aliados liderados por D. João I de Castela. Inovou a tática militar permitindo que homens de armas apeados fossem capazes de vencer uma poderosa cavalaria. A opção dos portugueses recaiu sobre uma pequena colina de topo plano rodeada por ribeiros, perto de Aljubarrota. Contudo o exército não se apresentou ao castelhano nesse sítio. Inicialmente formou as suas linhas noutra vertente da colina, tendo depois, já em presença das hostes castelhanas mudado para o sítio pré-definido. Isto provocou bastante confusão nas tropas de Castela. Depois de outras surpresas inseridas na estratégia de D. Nuno Álvares Pereira, precipitadamente, João de Castela ordenou a retirada geral sem organizar a cobertura. Os castelhanos debandaram então desordenadamente do campo de batalha, tendo a cavalaria portuguesa se lançado em perseguição dos fugitivos, dizimando-os sem piedade.

Seria importante que não fossem necessárias mais surpresas pelas estratégias para se ganharem batalhas, sinal de que o mundo caminharia melhor.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

 

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 12-10-2022. Este texto foi publicado incompleto, faltando a parte final do antepenúltimo parágrafo e o último parágrafo)

4 de outubro de 2022

DOIS SÉCULOS DA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL

 

Oficialmente, a data comemorativa para a independência do Brasil é de 7 de setembro de 1822. Foi neste dia que ocorreu o evento conhecido como o Grito do Ipiranga, nas margens do riacho Ipiranga, atualmente na cidade de São Paulo.

 

Em 12 de outubro de 1822, o príncipe herdeiro de Portugal foi aclamado D. Pedro I, Imperador do Brasil, sendo coroado e consagrado no 1º de dezembro desse ano. O país passou então a ser conhecido como o Império do Brasil.

Entretanto, em Portugal, chegaria a governar cumulativamente, com a designação de D. Pedro IV.

Recordemos que a partir de 15 de julho de 1799, o então Príncipe do Brasil (pai deste D. Pedro), D. João Maria de Bragança (mais tarde D. João VI), tornou-se príncipe-regente de Portugal, pois sua mãe, a rainha D. Maria I, foi declarada louca pelos médicos. Os acontecimentos na Europa, onde Napoleão Bonaparte se afirmava, sucederam-se cada vez mais repentinamente.

Numa retrospetiva muito alongada, direcionada para o ano da descoberta do Brasil, no redondo 1500, muitas estórias da história brasileira se passaram até aos dias de hoje, entre tristes e ledas madrugadas, e entre ventos e marés que viriam a acontecer neste grande país do hemisfério sul do Planeta.

Não escondo o prazer da narrativa daquele verão de 1500, na visão do Paraíso, que João Paulo Oliveira e Costa nos traz no seu livro Episódios da Monarquia Portuguesa, em que uma pequena caravela entrou no Tejo sem despertar a curiosidade dos espiões que enxameavam por Lisboa. Tampouco a administração régia deixou testemunho da chegada de Gaspar de Lemos a Lisboa depois de ter participado na descoberta da Terra de Vera Cruz. Só volvidos alguns meses quando os navios sobreviventes da armada da Pedro Álvares Cabral regressaram da Índia, se soube do achamento de novas terras no Sudoeste do mar Oceano.

Pela pena do navegador Pero Vaz de Caminha, um dos escrivães da armada, o rei de Portugal – D. Manuel I – “pudera espreitar o Paraíso: uma terra de temperatura amena e de clima benigno, vegetação luxuriante e animais estranhos, que era habitada por gente nua que parecia viver na inocência de Adão e Eva. Andam nus sem nenhuma cobertura; nem estimam nenhuma cousa cobrir, nem mostrar suas vergonhas, e estão acerca disso com tanta inocência como têm em mostrar o rosto”

E Pero Vaz de Caminha “ia mais longe ao testemunhar que a inocência daquela gente era contagiável, pois andavam entre eles três ou quatro moças bem moças e bem gentis, com cabelos muito pretos compridos pelas espáduas, e suas vergonhas (a púbis) tão altas e tão cerradinhas, e tão limpas das cabeleiras que nós de muito as bem olharmos não tínhamos nenhuma vergonha”. E aquela gente inocente tinha assistido sossegadamente à celebração da missa, pelo que o escrivão Caminha estava convicto que deixando eles ali dois degredados, el-rei devia enviar clérigo nos próximos navios “para os batizar porque já então terão mais conhecimento da nossa Fé que dous degredados”.

Segundo Renato Epifânio, presidente do Movimento Internacional Lusófono e professor universitário, “podemos dizer que Portugal não descobriu o Brasil – pela simples mas suficiente razão de que o Brasil não existia antes de os portugueses lá terem chegado. Muito mais do que isso devemos dizer que Portugal criou o Brasil – no plano linguístico, cultural e civilizacional –, naturalmente que com o contributo das comunidades indígenas e de todas as outras comunidades que, século após século, fizeram do Brasil o seu país. Custa pois, duzentos anos após a independência do Brasil, ouvir ainda algumas vozes a não reconhecerem a matriz lusófona deste imenso país. Sendo que, duzentos anos após a sua independência, a responsabilidade pelo estado do Brasil é, toda ela, dos brasileiros”.

No próximo dia 2 de outubro, esperemos que, mais uma vez, se vá virar uma nova página da história do Brasil, com as eleições presidenciais, onde vão estar onze candidatos, cujas sondagens mais recentes apontam a disputa entre Jair Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “O Olhanense”, de 01-10-2022)

 

 


3 de outubro de 2022

O SERVIÇO MILITAR OBRIGATÓRIO

 

A 19 de novembro de 2004 acabou, em Portugal, o Serviço Militar Obrigatório (SMO). Antes, pelo menos no meu tempo, no ano em que se completavam 20 anos de idade (ainda na condição de menoridade) éramos alistados para o SMO. Fui alistado em 11 de junho de 1966, que era, como se designava na altura, ir à inspeção militar, ou ir às sortes. Quem ficasse apurado para o SMO era submetido a um sorteio militar para efeitos de incorporação num dos ramos das Forças Armadas, na generalidade, no Exército. Atribuíam-lhe um número que, na caderneta militar se designava de matrícula, mas que, na gíria militar era o “número mecanográfico”. A maioridade era até então a partir dos 21 anos, tendo mudado em 25 de novembro de 1977, que baixou para os 18 anos.

Pois bem, em termos normais, após a referida “inspeção militar” dos mancebos apurados, seguia-se a incorporação numa unidade militar, no ano seguinte, para efeitos de iniciar a recruta. Daí que o meu “número mecanográfico” 011/226/67, já dava indicação do ano seguinte ao alistamento: 1967.

Mas fui incorporado somente em 1968, quase a completar 22 anos, assim como todos os do meu ano, porque houve uma alteração para a admissão para os Cursos de Sargentos Milicianos, a partir desse ano.

Até esta altura eram distribuídos para o cumprimento do SMO, iniciando no chamado Contingente Geral, os que não tivessem ainda completado o Ciclo Preparatório, sendo que, a partir daqui os que tivessem habilitações escolares mínimas do Ciclo Preparatório completo e inferiores ao 7º ano dos Liceus, ou equivalente, seguiam para o Curso de Sargentos Milicianos (CSM). Com habilitações do 7º ano liceal, no ensino médio ou superior passavam a integrar o Curso de Oficiais Milicianos (COM).

Ora, como eu já tinha o equivalente ao 5º ano liceal dessa altura, estava em condições de seguir para o Curso de Sargentos Milicianos, o que veio a acontecer, mas com um ano de atraso, que, nesse tempo, era terrível em termos da vida profissional de cada um e até de quem quisesse constituir família. Neste grupo do CSM também se incluíam os que tinham o Curso do Magistério Primário.

A morosidade da chamada dos jovens já apurados para poderem ser incorporados que, no caso em apreço, deveria ser em 1967 e saltou para 1968, deveu-se ao facto de muitos deles, com habilitações escolares baixas (antes de completarem o 5º ano liceal, ou equivalente, mas já com o Ciclo Preparatório feito) serem um exagero a integrar o CSM. E isto em tempos da Guerra do Ultramar. Começaram então a reduzir esse número, passando a admitir neste grupo só os que tivessem habilitações superiores, passando a uma certa rigorosidade durante o tempo que estavam na recruta, aos que se encontravam no Curso de Sargentos Milicianos, por forma a que alguns não o conseguissem completar e, assim, baixavam para o Contingente Geral. Sucedeu com vários meus colegas da escola e da vida profissional da altura, que depois de andarem na escola de recrutas do CSM reprovaram-nos nas provas e enviaram-nos para o Contingente Geral.

Assim, fui incorporado no CSM, no ano de 1968, sendo que todos os restantes (incluindo muitos colegas da escola que não conseguiram completar o 5º ano na altura (hoje 9º. Ano) acabaram por ir para o Contingente Geral, aumentando a capacidade de militares neste grupo.

Com a independência das Colónias portuguesas e o terminar da chamada Guerra do Ultramar, veio a acabar também o SMO como de início referimos.

Até final de 1988, a Lei do Serviço Militar (LSM) previa um serviço militar baseado na conscrição em que o recrutamento para as Forças Armadas (FA) assentava no Serviço Militar Obrigatório (SMO), estando todos os cidadãos do sexo masculino sujeitos ao cumprimento das obrigações militares, desde os 18 até aos 38 anos de idade.

Em meados de 1999, a LSM foi atualizada passando a prestação do serviço militar a efetuar-se de duas formas durante um período transitório: através do Serviço Efetivo Normal (SEN) ou do Serviço voluntário sustentado em Regimes de Contrato (RC). Para além disso, a idade limite de sujeição dos cidadãos às obrigações militares reduz-se para 35 anos de idade.

Em 2000, com a entrada em vigor do atual quadro legal, o recrutamento militar assume três formas distintas:

 . Recrutamento Normal para a prestação voluntária do Serviço Militar em RC e RV;

. Recrutamento Especial para a prestação voluntária de serviço militar nos Quadros Permanentes das FA;

. Recrutamento Excecional, para efeitos de convocação ou mobilização dos cidadãos (em caso de guerra ou catástrofe).

Após o fim do período transitório, em setembro de 2004, assiste-se ao voluntariado pleno do serviço militar com extinção do SEN, assumindo as Forças Armadas a capacidade de captar os seus próprios recursos humanos concorrendo diretamente no mercado de trabalho com outras entidades empregadoras.

Ao mesmo tempo implementa-se o Dia da Defesa Nacional (DDN) cuja comparência passa a ser um dever militar de todos os cidadãos do sexo masculino que completem 18 anos de idade. Em 2010 este dever estende-se também às jovens cidadãs do sexo feminino, nascidas a partir de 1992, universalizando-se assim os deveres militares.

Formalmente o SMO terminou a 19 de novembro de 2004, mas na prática terminou a 19 de setembro desse ano, data a partir da qual os três ramos das Forças Armadas (FA) passaram a contar apenas com voluntários contratados.

Altas patentes militares e partidos com assento na Assembleia da República desejam agora o regresso do Serviço Militar Obrigatório. Dezoito anos depois da sua extinção, peritos das Forças Armadas estudam já novas modalidades deste serviço cívico que virá resolver o grave problema da falta de mão de obra na tropa.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In "O Combatente da Estrela", n.º 128, outubro/2022)

CONTE-NOS A SUA HISTÓRIA - FRANCISCO DOS REIS SIMÕES


 Nasceu em Famalicão da Serra, concelho da Guarda, no dia 19 de dezembro do ano da graça de 1944, mas desde março de 1969 passou a residir na Covilhã. É casado e tem um filho.

Trabalhava na cidade da Guarda, na empresa Manuel Conde, do ramo da reparação de automóveis, quando, ainda sem ter completado os 19 anos, foi incorporado, como voluntário, no Curso de Paraquedismo.

Iniciou a vida militar em Tancos, no dia 14 de outubro de 1963, então na recruta, até final do curso de paraquedista, com mobilização posterior para o Ultramar.

Começou o Curso de Paraquedismo em 25 de março de 1964, no Regimento de Caçadores Paraquedistas (RCP), em Tancos, fazendo o tirocínio em 25 de setembro do mesmo ano.

Em 17 de setembro de 1965, embarcou no porto de Lisboa, com destino à 3ª. Região Aérea (BCP 31), via marítima, no Vera Cruz, desembarcando em Luanda em 26 de setembro de 1965. Embarcou no mesmo dia, via aérea, para Moçambique, tendo desembarcado no aeroporto de Lourenço Marques no dia seguinte.

Em 15 de dezembro de 1965 marchou para o Norte de Moçambique para o BCP 31, em Nacala, concelho de Nampula.  

Regressou à Metrópole, passando à disponibilidade, no CRM 3, em 27 de setembro de 1967.

Foi ainda condecorado com a medalha comemorativa das Campanhas das Forças Armadas à Província de Moçambique, no dia 2 de junho de 1967.

Na sua Caderneta Individual de Saltos e Voos (nº. 662/63) consta, por exemplo, que fez o primeiro salto de 500 metros, na Base Aérea nº. 3, em Tancos, no dia 16/03/1964, seguindo-se outros. Em Moçambique fez dois saltos: no dia 28/04/1966, num voo de 40 minutos fez um salto de 400 metros em UMBELUZI; e no dia 19/06/1966, num voo de 30 minutos, fez novamente um salto de 400 metros, no aeroporto da Beira. Todos eles eram só para demonstração, já que era perigosíssimo fazerem saltos em zonas de combate.

O pessoal paraquedista ajudava a tropa do Exército sempre que necessário. Assim, o seu pelotão ainda foi ao mato para ajudar o pessoal do Exército. Numa dessas operações faleceram três camaradas paraquedistas que ajudavam o Exército, no dia 14/03/1966. 

Regressado à vida civil, passou a residir na Covilhã, onde trabalhou na sua atividade de reparação auto, na Garagem de São João, Lda, durante sete anos, e, posteriormente, de conta própria, primeiramente numa sociedade – Auto Montanha da Covilhã – onde esteve seis anos, e depois sozinho, na Rua da Indústria, até que se aposentou por invalidez em 2001.


O COMBATENTE DA ESTRELA - APRESENTAÇÃO DO ÚLTIMO LIVRO DO NOSSO COLABORADOR JOÃO DE JESUS NUNES


 APRESENTAÇÃO DO LIVRO “DA MONTANHA AO VALE – As Viagens de um Grupo de Tertulianos”, DO NOSSO ASSOCIADO E COLABORADOR DESTE PERIÓDICO, JOÃO DE JESUS NUNES

Este evento cultural, da sua mais recente obra, aconteceu no dia 3 de setembro, no Salão Nobre da Câmara Municipal da Covilhã, para o qual a Direção deste Núcleo da Liga dos Combatentes foi convidada para o ato, tendo estado representada pelo seu Presidente João Azevedo e ainda pelos Diretores António Franco e Cassiano.

O livro foi apresentado pelo Juiz Desembargador, Dr. José Avelino Gonçalves, ele também escritor.

O Município esteve representado pelo Presidente da Câmara, Dr. Vitor Pereira e pelo seu Adjunto, Paulo Ranito.

Teve um momento musical pela violinista Susana Saraiva, sendo que dos convidados do Autor, estavam, entre outros, o Dr. José António de Sousa, ex-CEO e Presidente da Liberty Seguros em Portugal; o Dr. Vitor Alegria, jurista e quadro técnico superior da Fidelidade e ainda Presidente do Museu Virtual de Seguros; o Presidente da Casa da Covilhã em Lisboa, Manuel Vaz, e o seu Delegado Regional, João Romano; a União de Freguesias da Covilhã e Canhoso, representada pela Drª. Cristina Dias; para além de vários colegas de profissão e amigos das várias tertúlias, algumas que integram o conteúdo do próprio livro.

Com o sentido que a Cultura Covilhanense fosse objeto de evidência, numa homenagem aos vários Escritores Covilhanenses, alguns acederam ao pedido do Autor e estiveram presentes, acompanhando-o nesta sua última obra. Quis ainda salientar a Comunicação Social Regional a qual esteve presente através da Rádio Clube da Covilhã e da Rádio Cova da Beira. Os Semanários da Região, por vários motivos não puderam estar presentes, noticiaram, no entanto, este evento cultural. Mas esteve presente, conforme referido, o nosso Combatente da Estrela.

Parabéns ao João de Jesus Nunes por mais esta obra em prol da Cultura Covilhanense.

20 de setembro de 2022

A RAINHA E O NOVO REI



 

Recordo-me da vinda da Rainha Isabel II a Portugal, naquele dia 18 de fevereiro de 1957, recebida com grande pompa pelo então Presidente da República, General Francisco Craveiro Lopes, que mais tarde seria marechal.

Tinha ela 31 anos e havia sido coroada há cinco. Viera acompanhada pelo marido, Filipe, Duque de Edimburgo, e a embarcação que os transportava atracou no Terreiro do Paço, repleto de população em festa.

Com ela também vinham os seus filhos, os príncipes Carlos (hoje o novo rei), então com 8 anos, e a princesa Ana, com seis.

Tinha eu, nessa altura, quase onze anos e frequentava a Biblioteca Municipal, onde meu Pai trabalhava, sediada ao Jardim. Deliciava-me então a ver as fotos dos jornais com aquela linda família, assim como as notícias que enchiam as suas páginas. Mas a única revista que ia para aquela Biblioteca Municipal era a famosa extinta Flama, que desfolhava com todo o prazer, a contemplar a reportagem ali inserida deste enorme evento para a época.

A televisão preparava-se então para começar em Portugal, naquele mesmo ano, e o único canal, a preto e branco – RTP – apanha este evento sem material nem quase logística, pois ainda não tinha emissões regulares quando organizou uma grande operação televisiva para acompanhar a visita da monarca inglesa a Portugal.

Bom, mas com tudo o que era possível na altura, depois das honras militares, o cortejo seguiu de coche pelas ruas da cidade de Lisboa, com os acenos e sorrisos da simpática jovem rainha. Visitaria novamente Portugal no ano 1985, já com o nosso País em democracia.

Seria esta figura incontornável da História que viveria um dos reinados mais longos – 70 anos, sendo que o que viveu mais tempo situa-se entre os séculos XVII e XVIII (1643 a 1715) – Luís XIV, da França, com 72 anos. Já em Portugal, o monarca que reinou mais tempo foi D. João I, ele que também casou com uma inglesa, D. Filipa de Lencastre, sendo o seu reinado longevo de 48 anos e 130 dias. Seguiu-se-lhe D. Afonso Henriques, na longevidade, com 46 anos e 132 dias.

Esta grande monarca, que agora deixou o mundo dos vivos, na ordem natural da vida, liderou o Reino Unido e a Commonwealth ultrapassando a bisavó, a rainha Vitória, que teve o peso da coroa durante 64 anos.

“Para a história, além do reinado durante alguns dos períodos mais conturbados do país, de ultrapassar crises (internas, políticas, económicas, familiares) e de deixar a sua marca num legado extenso e completo, Isabel II tornou-se em si mesma um símbolo da nobreza, da realeza global, da graça, de entrega e de dever à Coroa inglesa”, segundo o Correio da Manhã.

Agora, o herdeiro do trono britânico, seu filho Carlos, de 73 anos, que nalguns momentos terá já quase exercido o cargo como regente (na qualidade de príncipe de Gales, assumiu funções oficiais em nome da rainha) sucede, com o seu nome próprio.  Uma decisão que foi uma das primeiras a ser tomada no seu reinado e será Carlos III, ao lado da rainha consorte Camila, esta conforme desejo expresso de Isabel II, há sete meses, deixado em testamento.

A BBC reconhece que a escolha deste nome surpreendeu os britânicos pois acreditavam que viesse a optar pelo título de Jorge VII, em homenagem ao avô, Jorge VI. É que a história por detrás do nome de Carlos não é pacífica no Reino Unido. “Tanto Carlos I como Carlos II foram monarcas com reinados polémicos. Carlos I, que reinou entre 1625 e 1649, foi o único rei executado na História inglesa, em 17 de janeiro de 1649, e liderou os destinos do país durante uma tenebrosa guerra civil” – recorda o The Telegraph, segundo o Público. Já seu filho, Carlos II, é particularmente conhecido da História inglesa pela sua vida íntima que envolve a única portuguesa a ser rainha de Inglaterra, Catarina de Bragança, filha do rei português D. João IV. “Catarina parecia ser a noiva perfeita, dada a histórica aliança entre portugueses e ingleses – até se diz que levou para Inglaterra o hábito de beber o chá da tarde. Mas o casamento não resultaria em filhos legítimos, o que alarmava o Governo preocupado com a sucessão, de cuja esposa não teve nenhum filho, sendo assim substituído por seu irmão Jaime”. D. Carlos II morreria em 1685 sem o problema de sucessão legítima resolvido e a esposa, Catarina de Bragança, “seria devolvida” a Portugal, onde habitou o Palácio de Bemposta, em Lisboa.

Surge agora o novo rei, D. Carlos III (Carlos Filipe Artur Jorge) o primeiro filho da então princesa Isabel, e do marido Filipe, nascido a 14 de novembro de 1948. Foi coroado príncipe de Gales pela mãe aos 20 anos.  Era o herdeiro do trono há mais tempo em funções e o mais velho a ser coroado, aos 73 anos.

Numa narrativa do Público, “a ascensão ao trono do novo rei da Inglaterra e da nova rainha, Camila Parker é um caso de incrível superação de escândalos em que foram protagonistas nos anos 80/90 e de uma recuperação milagrosa de imagem pública, tanto de Carlos como de Camila, outrora odiada pelo povo britânico por ser a ‘terceira pessoa’ dentro do casamento de Carlos e Diana de Gales – como a própria Diana revelou em entrevista à BBC – acabou por se tornar popular, devido à sua dedicação e boa imagem construída ao longo de quase duas décadas de casamento”.

Isto de escândalos de reis e rainhas sempre houve por esses países fora, incluindo Portugal. Atente-se que Isabel II e agora seu filho, Carlos III, só conseguem estar nesta linha de sucessão, devido a um outro “escândalo”, se assim se pode considerar, pelo facto do tio de Isabel II, o rei Eduardo VIII ter abdicado do trono a favor de seu irmão, Jorge VI, pai de Isabel II, para casar com Wallis Simpson, uma americana divorciada do primeiro marido e em processo de divórcio do segundo, gerando a chamada crise de abdicação, ocorrida em 1936.

Esperamos assim que não haja mais escândalos e que Carlos III seja um grande Rei, do Reino Unido e dos Reinos da Comunidade de Nações, em prol do desenvolvimento e da paz quer na Europa quer no Mundo.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

 

(In “O Olhanense”, de 15-09-2022)


 

 

 

7 de setembro de 2022

OS INCÊNDIOS FLORESTAIS EM PORTUGAL



 

Os incêndios florestais não são um fenómeno novo das últimas décadas em Portugal. A partir de 1970, segundo o ensaio de António Bento-Gonçalves, “com a profunda transformação verificada no país, dá-se um aumento da frequência, da dimensão, da intensidade e da capacidade destruidora dos incêndios, o que veio a culminar nas tragédias de 2017, que feriram 320 pessoas e ceifaram a vida, em apenas dois dias (17 de junho e 15 de outubro) a 116 pessoas”.

Os incêndios são alimentados, na minha opinião, pela ferocidade dos tempos que correm, com as alterações climáticas em que todos somos responsáveis por assobiarmos para o lado. Sim, quando se fala na ação que urge tomar sobre as condutas para resolver este grave problema, existe aquela apatia do deixa andar, outros resolverão por mim, não sou só eu a atuar, o que redunda nas nefastas situações que todos os anos vivemos, no verão (isto quanto a incêndios), em todo o planeta.

Mas também são os descuidos voluntários ou involuntários de todos os que passam e provocam a combustão.

Dentre muitos outros fatores, como as plantações de árvores e reflorestação indevidas, falta de limpeza dos terrenos envolventes, deixo para último os piromaníacos que uma legislação judicial, deste país à beira-mar plantado, o mantém nos brandos costumes.

Se o que rouba uma galinha para dar de comer aos filhos é punido com facilidade, porque é que não se exerce uma rigorosa aplicação das penas aos pirómanos, seus sequazes ou mandantes? Sem apelo nem agravo, para que sirva, na exemplaridade da ação judicial, que outros não venham a ser encorajados a repetir o crime abafado.

As observações ao que se passa em nosso redor, e as denúncias, devem ser acolhidas com muita atenção pelos responsáveis a quem nos dirigimos.

Corri grande parte do país, na minha vida profissional de então, e desloquei-me na tranquilidade de muitas noites, no regresso para casa, com a mulher com os meus filhos pequenos a aguardar ansiosa que eu chegasse bem, sem ainda se conhecerem os telemóveis e quando sentíamos o lenitivo de encontrar um posto telefónico para telefonar para casa (geralmente instalado num café ou outra casa comercial) ou então a simpatia de um cliente que nem aceitava o custo da chamada, muitas vezes interurbana, aguardando que do lado de lá autorizassem a chamada telefónica.

Algumas vezes perguntei aos guardas-florestais, em Figueira de Castelo Rodrigo, por que é que me pediam os documentos do carro se a missão deles era sobre as florestas e a caça.

Duma outra vez, uma indignação pela indiferença que observei na GNR de Belmonte, sobre uma denúncia de um possível fogo posto que nascia perto da estrada da Vela ou Gonçalo, com um Mercedes Benz de luz apagadas junto ao mesmo. Resposta daqueles militares de Belmonte, lá para os anos 1975 ou próximos: Se era um Mercedes não deveria ser o dono do carro a pegar o fogo... Nós vamos lá ver. Mas como à meia-noite já vinham da cama, certamente para ela regressaram.

Hoje as autoridades policiais estão mais evoluídas, com outro grau de instrução, e dão-nos mais confiança.

Só que o País não parece ter aprendido muito com os incêndios de ano para ano. Os nossos Bombeiros sempre num esforço hercúleo e a Proteção Civil procurando o melhor. Mas, como agora sucedeu com o incêndio na Serra da Estrela, parece ter havido inicialmente uma descoordenação, com muitos a mandar e as populações espavoridas sem apoios imediatos, retardando a intervenção dos soldados da paz, o que, compreensivelmente, nem sempre é possível.

Mas onde é que está o busílis da questão? Como cortar este nó górdio?

Por que não colocar os militares que exercem o serviço militar não obrigatório a fazerem o serviço de vigias? Com armas como no tempo da Guerra do Ultramar, que, esses de então hoje sofrem de stress pós-traumático, mas agora não existe esse perigo, antes pelo contrário, seria um ato patriótico, caçar esses terroristas incendiários, com o tratamento devido.

Depois da década de 70 do século passado, muitos fogos surgiram no País e nesta região da Beira Baixa e Serra da Estrela. Num deles, em agosto de 1990, faleceu um meu antigo Colega da Instrução Primária, João José Manteigueiro Mota. Seis anos mais tarde, também em agosto, faleciam três bombeiros covilhanenses na queda de um helicóptero que combatiam um incêndio na Serra da Estrela: Ricardo Bruno Jesus Cardona, António Miguel Vaz Marques e Fernando Manuel Sousa Xistra. Mais tarde, em agosto de 2013 falecia, apanhado pelas chamas, o bombeiro, da Corporação da Covilhã, Pedro Miguel de Jesus Rodrigues.

Outrora, antes da década atrás referida, pouco se ouvia falar de incêndios florestais, e a História dos Bombeiros Voluntários da Covilhã, no seu I volume, regista muitos incêndios em habitações e fábricas de lanifícios, sobrando os florestais após os anos 70 do século XX, conforme já referido.

“Ao longo dos anos, muitas foram as vítimas mortais dos incêndios florestais em Portugal. Sem sermos exaustivos (não foram aqui contabilizados os bombeiros falecidos em acidentes rodoviários, a caminho ou no regresso de incêndios florestais) contabilizam-se 257 vítimas mortais entre 1961 e 2018, sendo que 65 eram bombeiros, 7 especialistas estrangeiros, 25 militares, 4 funcionários florestais e 156 populares, verificando-se que nos 38 anos do século XX faleceram 64 pessoas, enquanto que apenas em 19 anos, no século XXI, já perderam a vida 189 pessoas, sendo o ano de 2017 responsável por 61% do total das vítimas mortais no presente século.”

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

 

 

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 07-09-2022)

 

JOÃO NUNES APRESENTA NOVO LIVRO, IN RCB - RÁDIO COVA DA BEIRA Oiça em: https://bit.ly/3etDNuk


 

18 de agosto de 2022

"COIMBRA É UMA LIÇÃO"


 

“As novas gerações não fazem a mínima ideia de que temos uma canção no nosso património que já foi um êxito espetacular em todo o mundo com mais de 1000 versões interpretadas por grandes nomes da música internacional, ou ainda por orquestras famosas.

É uma composição de Raul Ferrão, com letra de José Galhardo, e o título é ‘Coimbra’. O seu primeiro intérprete foi Alberto Ribeiro numa serenata a Amália Rodrigues, uma cena do filme ‘Capas Negras’, de 1947. Nunca se imaginou que viria a ser um superêxito mundial, mas quase sempre com o título ‘Abril em Portugal’”. Esta é uma narrativa de Carlos Cruz da sua rubrica no Tal & Qual, que ainda se reporta a um documentário transmitido pela RTP 2 sob a designação “Coimbra, a História de uma Canção”.

Não é preciso trazer à discussão a “Coimbra dos Doutores”, na letra desta canção, para fazer notar o muito que anda por aí de pontapés na gramática e irreflexões no contexto da linguagem escrita e falada, por gentes das televisões, e dos jornais, para já não falarmos nos apanhados das redes sociais.

Alguns casos que me chegaram às mãos, há mais de um ano, são bem evidentes de quanto a língua de Camões muitas vezes é ultrajada, algumas no lapso da expressão oral duma conversação, outras na precipitação de não encontrar ligação rápida adequada, mas outras são por exibição da sua oratória que acabou por cair no ridículo.

Algumas frases quase que ganharam imortalidade. Se não, vejamos:

- Estar vivo é o contrário de estar morto. – Lili Caneças

- Nós somos humanos como as pessoas. – Nuno Gomes – SL Benfica

- Quem corre agora é o Fonseca, mas está parado. – Jorge Perestrelo

- Inácio fechou os olhos e olhou para o céu! – Nuno Luz (SIC)

- Juskowiak tem a vantagem de ter duas pernas!  Chutou com o pé que tinha mais à mão –

Gabriel Alves.

- É trágico! Está a arder uma vasta área de pinhal de eucaliptos. – Jornalista da RTP

- Um morreu e o outro está morto. – Manuela Moura Guedes

- Antes de apertar o pescoço da mulher até à morte, o velho reformado suicidou-se. – João Cunha, testemunha de crime.

- Quatro hectares de trigo foram queimados. Em princípio trata-se de incêndio. – Lídia Moreno (Rádio Voz de Arganil)

- À chegada da polícia, o cadáver encontrava-se rigorosamente imóvel. – Ribeiro de Jesus, PSP de Faro

- O acidente provocou forte comoção em toda a região, onde o veículo era bem conhecido. – António Bravo (SIC)

- Ele contraiu a doença em vida. – Dr. Joaquim Infante, Hospital de Santa Maria

- Há muitos redatores que, para quem veio do nada, são muito fiéis às suas origens. – António Tadeia, Crónicas do Correio da Manhã

- Os sete artistas compõem um trio de talento. – Manuela Moura Guedes (TVI)

- Esta nova terapia traz esperanças a todos aqueles que morrem de cancro em cada ano. – Dr. Alves Macedo, oncologista

- O difícil, como vocês sabem, não é fácil. – Jardel

- Em Portugal é que é bom. Lá, a gente recebe semanalmente de 15 em 15 dias. – Argel, jogador do Benfica

- Tenho o maior orgulho de jogar na terra onde Cristo nasceu. – Djair, jogador do Belenenses ao chegar a Belém (zona do Restelo – Mosteiros dos Jerónimos) no dia que assinou contrato com este clube

- Finalmente, a água corrente foi instalada no cemitério, para satisfação dos habitantes. – Presidente da Junta de Freguesia do Fundão

E ficamos por aqui. Passemos dos momentos de tristezas, que não pagam dívidas, para alguns de hilaridade.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “ Notícias da Covilhã” digital, de 18-08-2022)

10 de agosto de 2022

O TEMPO QUE PASSA

 

Terminaram as minhas férias veraneias. De Andaluzia à Serra da Estrela vão consideráveis diferenças. Se dum lado há os encantos do mar, das colinas e dos rios, na vertente de cá existem os cambiantes da montanha, com tudo o que à mesma se liga, da flora à fauna, das maravilhas paisagísticas e de respeitabilidade até aos seus ares saudáveis.

No avanço da minha idade já estou naquela de me enfadar por longas viagens. Mormente quando o “bicho” se faz por convidado. Entrei um pouco mais naquela opção da proximidade de estar no local mais cómodo.

Regressado, vou dar uma volta pelas inúmeras recolhas de informação que avolumei no meu escritório, com a minha secretária num aconchegado ninho de folhas de apontamentos, recortes de jornais, impressões, diversos apontamentos redigidos no resumo de muitos livros lidos. Alguns destes, dispersos, que consultei, e já não necessito. Local arrumado. Resultado: mais um saco cheio de papel a caminho do Banco Alimentar. Um alívio. Mas a falta de memória é que persiste. Até nas coisas mais banais, no imediato, que só surgem com algum esforço após algum tempo. Aquela de codificarem a situação ser devida à PDI já é velha. Vale-me a persistência e o meu gosto pelas buscas, investigação e criatividade.

Fico feliz quando encontro algum documento julgado perdido, ou aquele outro de que já não me recordava. Afinal, o número de amigos é superior ao que imaginava.

Os dias que ainda remanescem para este ano, se Deus quiser, vão ser para mim empolgantes. Penso eu que tal venha a suceder, com a apresentação do meu livro, na Covilhã – DA MONTANHA AO VALE – As Viagens de um Grupo de Tertulianos – já que a primeira edição logo se esgotou quase ainda estava no prelo. Foi então apresentada em Seia e em Lisboa. Os que já se manifestaram interessados, com encomendas para esta segunda edição, limitada a 100 exemplares, poderão agora aproveitar a única oportunidade, no dia 3 de setembro, no Salão Nobre da Câmara Municipal da Covilhã, às 15 horas.

Aguardando a sua entrega, encontra-se também o meu último livro – RECORDAR É VIVER – que foi, paradoxalmente, o primeiro escrito na minha vida, em 1967, aos 21 anos, sem nunca ter sido publicado. Ficou no segredo dos deuses, durante 55 anos, datilografado e por mim encadernado, um único exemplar, altura em que o escrevi quando trabalhava na Câmara Municipal da Covilhã. Muito alterado vão agora surgir 50 exemplares, oficiais, que não serão colocados à venda.

Ainda não conhecíamos o ambiente digital. Conhecíamos, sim, o que era comum neste País de olhos vendados: entre os perigos dos informadores da PIDE, das prisões políticas, dos que procuravam na emigração legal uma forma de dar uma nova vida à sua de emagrecimento. Mas também, em Portugal, os que procuravam passar a fronteira de assalto, como ainda os contrabandistas. Mas aquele perigo maior para os jovens rapazes, depois de terem ido às sortes, era a Guerra do Ultramar. E não se podia escrever como hoje, onde a censura imperava.

Isto é sobejamente conhecido de todos nós e é quase como chover no molhado.

Temos a revolução tecnológica e cultural em velocidade alucinante. No século XXI, o homo sapiens vai converter-se assim, a olhos vistos, em homo digitalis, pois na vida da maioria das pessoas faz parte a utilização de telemóveis, computadores, internet, redes sociais, etc.

Mas neste tempo que passa, não posso esconder que aquele outro “meu tempo” de antigamente me parece, em muitos aspetos, mil vezes mais interessante do que este “meu tempo” de agora, pegando nas palavras de Jorge Morais, diretor do Tal & Qual, de 08-09-2021. E aqui vão alguns exemplos: “nesse tempo em que não passávamos o dia a escrever mensagens inúteis nos smartphones; nesse tempo em que os cantores tinham voz e os escritores Gramática; nesse tempo em que os telejornais davam notícias e os locutores não gaguejavam a lê-las; nesse tempo em que viajar não era navegar na net, as malas não tinham, rodas e os carros elétricos eram transportes coletivos; nesse tempo em que à chuva, ao vento e ao frio chamávamos simplesmente inverno, e não ‘alerta laranja’; nesse tempo em que conversávamos uns com os outros sem precisarmos de zoom; nesse tempo em que mandávamos cartas de amor com pétalas secas entre as páginas. Nesse tempo, talvez não tivéssemos ao nosso alcance tantas maravilhas da técnica, talvez não estivéssemos aconchegados em tantos códigos, politicamente corretos e talvez não pudéssemos andar à pesca do Nada em tantas ‘redes sociais´. Mas éramos, parece-me, muito mais autênticos”.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmal.com

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 10-08-2022)

 

2 de agosto de 2022

UMA ELEVADA PERMUTA DE FUNÇÕES


 

Depois de no número de 1 de julho ter sido anunciada a troca de funções do então Diretor deste periódico, estimado amigo Senhor Isidoro Sousa, pelo então Diretor Adjunto, prezado amigo Mário Proença, surge agora no número de 15 de julho com a função de Diretor, o que muito me apraz registar.

Desde que tenho o privilégio de escrever no quinzenário O Olhanense, já vai para um quarto de século, nunca tive o ensejo de conhecer pessoalmente qualquer obreiro do Jornal, com uma exceção, abaixo descrita, a começar pelo falecido Senhor Herculano Valente, com que iniciei a minha colaboração esporádica e do qual não passei de alguns contactos telefónicos e por escrito.

Quando do seu falecimento e face à minha perplexidade de continuar a escrever neste Jornal, logo recebi uma comunicação, não sei se por mensagem, email ou carta, dum colaborador que dava pelo nome de Mário Proença, animando-me no sentido de que havia quem desse continuidade a este periódico, com inovações que certamente iriam surgir, pelo que contava com a minha colaboração.

Num ápice, as brumas se afastaram das minhas hesitações e houve assim um lenitivo para que eu pudesse continuar a escrever entre o paradoxo do homem da serra e os das gentes algarvias, ou seja, de outros horizontes. Fiquei satisfeito. Imediatamente anuí a esse desiderato, até aos dias de hoje. E muito tenho aprendido, na alegria de ver muito do que aqui escreve como um genuíno investigador, sempre na sua simplicidade. Ele traz para as páginas dum periódico local, que também é regional, o encanto de narrativas, por vezes duma similaridade das que eu algumas vezes também escrevo nos periódicos da minha região beirã. Coincidências tão positivas.

Na exceção atrás referida, tive, sim, o prazer de conhecer pessoalmente o atual Diretor Adjunto, Senhor Isidoro Sousa, conjuntamente com a esposa, então como Presidente do Sporting Clube Olhanense, como hoje ainda é o seu ilustre Presidente, num jantar comemorativo do Sporting Clube da Covilhã, sob a égide do seu Presidente, José Mendes, a caminho de duas décadas na liderança do clube serrano, a fazer um excelente trabalho, que convidara vários presidentes de clubes. Estava na minha mesa. Perguntei quem era o casal, tendo-me informado que eram de Olhão. A partir daí gerou-se uma amizade por via deste excelente quinzenário.

Com o surgimento do amigo Mário Proença, este periódico foi sendo renovado com frequência, no âmbito da sua criatividade, e admiro como tem disponibilidade para fazer sair para os leitores temas tão diversos, desde a história citadina e do concelho, às curiosidades e vivências de outros tempos, com que me delicio, pois são geralmente idênticas a todos os recantos do País.

Sem menosprezar a colaboração de outros cronistas, que leio atentamente, é da veia intelectual inserida nas teclas do computador do atual Diretor d’O Olhanense, que saem o preenchimento de páginas enriquecedoras do seu conteúdo.

Estes dois Homens com Garra, souberam interpretar a valia dum órgão da Comunicação Social tão importante para a sua Terra e Região, que deram as mãos, desprovidos de quaisquer egos na ribalta, tão só o encimar tudo em prol da Coletividade histórica algarvia, das gentes olhanenses e algarvias em geral, desfraldando a sua bandeira por todo o País e estrangeiro que compreende e gosta da Cultura.

Parabéns a ambos, aos quais envolvo num abraço serrano.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In "O OLHANENSE", de 01/08/2022)