29 de junho de 2020

O AMOR NO TEMPO DA GUERRA COLONIAL


“Não há comparação nenhuma entre quem foi para a guerra de África e os que estão a fazer esta guerra no Afeganistão. Nós fomos porque éramos obrigados, estes vão porque são mercenários. Estão porque querem, para ganhar dinheiro” –  Carlos Pinto Coelho, in 24 horas, 20-11-2005.
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Neste tempo pandémico, muitos dos antigos Combatentes comparam o medo, aquele impulso irracional que fez as pessoas refugiarem-se em casa, fechar escolas e comércios, com o medo sentido na guerra do Ultramar. Mais uns que outros.
Se agora há verdadeiros heróis; todos aqueles que fizeram Juramento no final do Curso de Medicina, cumprindo no maior desafio clínico suas carreiras, da forma mais altruísta e humanitária, uma dedicação sem limites, para combater o invisível inimigo do ser humano, substituindo o verde e camuflado das guerras coloniais pelo branco hospitalar, fazendo frente a um inimigo de peito aberto, sem colete à prova de bala, porque este inimigo não se localiza; podemos sentir estes momentos  como pior que um ferimento de projétil.
Veneramos estes novos Heróis (masculinos e femininos) como o fizemos com os das guerras coloniais naquele famigerado período de 1961 a 1974.
Daqui que datas célebres que invocavam homenagem aos Heróis das Guerras, e depois mais lato – o 10 de junho – Dia de Portugal – teve de ser mais um de tantos eventos suprimidos.
Assim, recordamos a nossa geração neste conceito de herói, no protagonismo de uma guerra de guerrilha que afetou a sociedade portuguesa. Neste amor dos tempos de hoje fazemos uma retrospetiva do amor no tempo da guerra colonial.
Num continente de terra vermelha e calor intenso vivia-se o medo da morte. Das emboscadas. Dentro dos camuflados, o coração batia, as gotas de suor escorriam. O cheiro era outro, o som da natureza era novo. Ao longe e ao perto ouviam-se rebentamentos. O inimigo morava por ali. Era a guerra colonial. África na sua pujança. E o tempo da carne para canhão. A aldeia portuguesa, lá longe, uma miragem distante, no pensamento de jovens com 20 anos. Portugal, anos 60. (1)
E o amor, onde estava o amor neste tempo de guerra? Sobrava a lembrança das namoradas, tantas delas arranjadas à pressa, para ficar aquele elo com a metrópole, mais por eles do que por elas, alguém que personificasse a ligação afetiva. Dos meses e meses no mato, sem ver outros senão também camuflados, chegavam palavras, por cartas, ou por aerogramas (oferecidos pelo Movimento Nacional Feminino). Quando chegavam. A hora do correio, tantas vezes lançado pelo ar, era o mais importante de tudo. Umas tinham frases de amor, promessas feitas á partida, tantas vezes a própria virgindade, como um selo para marcar o compromisso do regresso. Que por vezes era quebrado. Ainda hoje há testemunhos de mortes no mato que foram mesmo suicídios, quando a notícia chegava pelo correio: ela tinha outro. Diz, quem sabe, que para elas esperarem por eles durante dois anos (quando se tem vinte) era uma eternidade. E a traição matou.
Havia as madrinhas de guerra, gente arranjada para fazer de conta que. E os casamentos por procuração.  O afeto ou o desejo do afeto tentavam suavizar aquela interrupção brutal com a vida, numa guerra não desejada, que lhes comprometia o futuro. Ainda hoje há entre nós cicatrizes que não sararam. Andam na consulta de stress pós-traumático.
Naquele tempo, quando se partia, primeiro não se sabia para onde se ia. E, segundo, não se sabia se havia regresso. Muitas lágrimas engrossaram o Tejo quando os navios zarpavam da Rocha Conde de Óbidos. Outros amores de mãe, da família, a dizerem adeus, no cais. Nos movimentos de um lenço, seria a despedida da própria vida? Muitos soldados, que da sua experiência só levavam os horizontes da remota aldeia, viveram o que pensaram ser outra liberdade. Não era como no Vietname, conta quem lá esteve. Nem havia orgias nos quartéis, nem os abusos que se possam imaginar.
Havia mulheres negras, que os outros diziam ser a pele macia e serem afáveis. A prostituição crescia à volta e dentro dos quartéis. Quem trilhou as picadas fala das negras desvirgindadas pelos missionários católicos. E do perigo das doenças venéreas, que atingiam companhias inteiras. Não havia preservativos, as bisnagas de sulfamida dadas pelos médicos militares não eram usadas. Alguém dissera que aquilo iri tirar a potência. Houve violações. Dos inúmeros soldados analfabetos, sabe-se que levavam para África experiências sexuais estranhas. Sem ternura nem afeto. De homossexualidade fala-se esporadicamente. Gestos houve-os, nem chegaram a relação, eram mais que resistir aquele sofrimento, àquela solidão do mato africano. Nas sentinelas, na calada da noite. O combate é excitante, disseram. A masturbação foi “a instituição” dos soldados. E um homem tem de ter o “escape” para as suas “necessidades”.
Do lado de cá da guerra, as mulheres viviam outro lado do amor. O compromisso continuava inviolável. De casamentos antes, foram raros os divórcios. E também aqui se marcou a diferença com o Vietname. Mas a guerra afeta o amor do após guerra. Talvez a mulher portuguesa fosse mais passiva e resistente. Como mães dos maridos?
Na consulta do stress pós-traumático há a experiência clínica desta memória da guerra colonial. Elas continuam com eles, embora com papéis distorcidos no casal. Continuam a manter o barco à tona. Uma corda a ligar ao passado. A paixão que houve. Depois da guerra, no regresso à realidade do outro, nem sempre se (re)descobre a paixão. 

(1)      Baseado num texto de Leonor Figueiredo, in DN, 27-09-1998

(In "O Combatente da Estrela", n.º 119, junho/2020)


10 de junho de 2020

CORONAVISÃO


Nunca se ouviu tanto falar no bicho. Já passei por dois séculos. Tenho muita vontade e a esperança divina de ainda poder continuar no XXI por mais alguns tempos. Se não houver ventos dominantes. Mas, neste planeta, sei que da vida tem de se pensar no aproximar do final da viagem. Paradísica que foi umas vezes. De hilariante outras. Entre familiares e amigos. Por algumas ocasiões, de permeio pequenas tempestades. Diversificadas pelos vários momentos da vida. Mas se estas são fáceis de passar, no planeta há mais teimosia. É inquebrantável. Talvez tenha razão. Revolta-se com quem se introduz nas suas entranhas. Num ápice, a Natureza dá um forte pontapé num pedaço planetário.
Clima? É um problema global! Eu quero é a minha questão local. Assim, teremos que para “palavras loucas, orelhas moucas”. Ainda que alterem as estações do ano.
O bicho estava sonolento. De repente recordou outros seus “familiares” de outras eras – 1918, 1957, 1968 – as mais evidentes. Na sua perspicácia de pezinhos de lã opta pelo seu local habitual, e aí começa a estender os seus tentáculos, qual polvo enfurecido.
Começaram a desaparecer as palavras já gastas: “Fique em casa” e “Vamos todos ficar bem”.  Outras vieram contrapor-se: “Nada vai ser igual”. Alguém se apressou a apelidar de serem vozes de “velhos do Restelo”. Tendo em conta uma das leis mais importantes do Universo, presente na essência de quase tudo o que nos cerca – a “Teoria do caos”.  Descoberta do meteorologista americano Edward Lorenz de que “fenómenos aparentemente simples têm um comportamento caótico quanto a vida”.
No dia em que escrevi este texto desci o vale de Manteigas com um amigo de longa data. Depois de tomar um cafezinho no David, nas Penhas da Saúde. Numa esplanada da vila foi a vez de uma cerveja. Havia necessidade de soltar aquele grito do Ipiranga de D. Pedro, depois de tanto tempo de confinamento. Eu e o meu amigo estivemos na mesma altura no serviço militar. A Guerra do Ultramar acabou por ter lá um de nós. Esse tempo, apesar de já a uma distância considerável, deixou marcas nas nossas vidas e nada ficou igual. Dizia-me o camarada que era a segunda vez por que passava por uma situação terrível. Como traumática foi para milhares de portugueses que ainda hoje sofrem dessa doença psicológica. As novas gerações nem sequer fazem ideia do que foi esse tormento. Também muitos poucos, ainda vivos, já centenários, passaram pela pandemia de 1918. A que mais se assemelha a esta por que estamos passando.
Naquele tempo ainda não existia a televisão nem a Internet. Nem sei se também se falava em voltar ao “novo normal”. Embora já existisse o Diário de Notícias.
A televisão só iniciaria em Portugal em 1957. De um só canal – a RTP.  A preto e branco. Os mais velhos lembram-se vagamente. Os mais novos não têm sequer ideia dos dois botões de rodar que havia na parte de trás dos televisores. E a que invariavelmente tínhamos de recorrer para ver televisão: um deles era o botão de sincronismo. Fixava a imagem na base do tempo que impedia que viajasse para cima e para baixo sem parar. O outro era o da obliquidade. Repunha as proporções certas no ecrã.
Neste ano da graça de 2020, os vários canais televisivos viram-se forçados a alterar os seus programas. Com videoconferências em vez do presencial. Por força da famigerada pandemia. Enquanto outros repetem programas. Mas o tema de todos os dias é esse – a pandemia. Os números de mortos, infetados, hospitalizados e recuperados. Em Portugal, na Europa e no Mundo, mormente Brasil e EUA. Números e mais números pandémicos. Muitas repetições ao longo do dia.
Parece que já vai abrandando. Estamos perto da época dos fogos. Mas, de quando em vez – na zona da capital – surgem agora uns novos focos. Afinal foi só mudar a letra da mesma palavra. Por sinal também uma consoante. Chegou o futebol. Os algarvios já ganharam o primeiro encontro. Tínhamos antes todos os canais saturados à noite. Não valia a pena fazer zapping. De comentadores da bola só mudavam as caras. Paradoxalmente no enfadonho de sempre as mesmas. No óbvio de cada canal. O regresso aí está. Pelo que se via com uns certos senhores dos painéis futebolísticos havia grande fervor. Chegavam às do cabo. Não vai haver problema. Porque os novos moldes de conferência assim o resolvem. Mas certamente que o enfado vai regressar.
Com este novo normal esperemos que os tempos de ocupação dos espaços televisivos possam passar a ocupar posições diversificadas de interesse geral. Há que inovar. E eliminar programas repetitivos. Como repetitivas as mesmas notícias. Sabemos que não é fácil. Tem de haver adaptações.
Pela minha parte, não vou falar mais no bicho. Outros temas esperam por mim.

(In "Jornal fórum Covilhã", de 10-06-2020)


27 de maio de 2020

ATRAVÉS DOS TRILHOS DE UM SEMANÁRIO

Ele já existia. Nesse ano de 1964 contava já 45 anos com a nova designação. Vieram-se-lhes adicionar mais seis com o título A Democracia.
Eu ainda era jovem. E foi com orgulho que vi a minha primeira publicação num jornal já a caminho do final daquele ano.
A vida de estudante foi passada entre a antiga Biblioteca Municipal, ao Jardim público, para onde ia também estudar; e a Escola Industrial onde concluí o meu Curso.
Desde muito novo me habituei à leitura de jornais diários que iam para aquela biblioteca. Sempre ávido pelos semanários da região, onde se incluía o Notícias da Covilhã.
A “semanada” não entrava nas minhas algibeiras. Nem sequer quinze tostões para uma bica em qualquer café citadino. Diligenciei assim em casa para continuar os últimos anos do meu Curso na Escola Industrial, à noite. E deste modo arranjar um emprego.
Fui então funcionário administrativo do Município Covilhanense. Entrei com 17 anos. Participei nos concursos de acesso na carreira, à altura, enquanto concluía os estudos do Secundário. Ainda não havia aqui a Universidade. Para além da Escola Industrial e o Liceu, somente o extinto Colégio Moderno. A ditadura em Portugal persistia.
Os computadores, impressoras, faxes, scâneres, fotocopiadoras, telemóveis, e todos os equipamentos e meios tecnológicos eram inexistentes. A Internet ainda era desconhecida.
A redação do Notícias da Covilhã era perto da Câmara Municipal. Conhecia muitos obreiros deste Semanário.  Desde o pessoal da secretaria ao da então tipografia. Assim como da redação e os diretores do Jornal. O Padre José Andrade já tinha passado o seu testemunho de diretor do Notícias da Covilhã ao Cónego António Mendes Fernandes.
Um impulso para começar a redigir o primeiro texto que pudesse vir a ser publicado. Aproveitando uma qualquer máquina de escrever Hermes, Underwood ou Remington disponível. Fui então ao Notícias da Covilhã apresentar o texto datilografado. Ainda timidamente.  Sou recebido pelo amável redator Alfredo Nunes Pereira.
A partir daqui foi o continuar.  Com espaços temporais mais espaçados que outros, face ao então início da vida militar e depois novas atividades profissionais. Não só seria no Notícias da Covilhã, como também noutros periódicos.
Hoje é mais fácil enviar um texto, pelos meios eletrónicos. Não é necessária a deslocação às redações dos jornais.
Tive uma excelente amizade com os saudosos antigos diretores, cónegos António Mendes Fernandes e José Almeida Geraldes. E, como não podia deixar de ser, com o especial amigo e o penúltimo diretor, cónego Fernando Brito dos Santos. Com o atual, padre Luís Freire, tudo augura uma promissora liderança à frente do Notícias da Covilhã.
Manter um jornal vivo! Nos tempos que correm, com todas as suas vicissitudes, atingindo a longevidade, é obra!
Por isso mesmo, é assaz justo o prémio, a título honorífico, com uma menção honrosa, na edição deste ano do Prémio de Jornalismo D. Manuel Falcão, promovido pelo Secretariado Nacional das Comunicações, organismo da Igreja Católica, ao Notícias da Covilhã, pelos “bons trabalhos jornalísticos”.
Como justas foram todas as atribuições de medalhas de mérito municipal que a edilidade covilhanense concedeu aos antigos diretores. E nas quais estive presente: António Mendes Fernandes, José Almeida Geraldes e Fernando Brito dos Santos.
Nos 75 anos deste Semanário, a Presidência do Conselho de Ministros atribuiu um “Louvor” ao “Notícias da Covilhã” “pelos relevantes serviços prestados à comunicação social nos seus setenta e cinco anos de existência”.
Em maio de 1962 chegou a ser bissemanário. Por pouco tempo. Voltaria a ser semanário.
25 de Abril de 1998. Apresentado no Salão Nobre da Câmara Municipal da Covilhã o primeiro livro de João J. C. Morgado. Título: “Covilhã e a Imprensa – Memórias do Primeiro Século – 1864 – 1964”. Um interessante estudo, editado pela Associação Nacional de Imprensa Diária e Não Diária. Estive presente.
O escritor fora também jornalista. Atualmente muito versado na poesia e romance histórico. Com várias obras já editadas. E vários prémios nacionais e internacionais ganhos. Aludiu na altura ao facto de que o Notícias da Covilhã tinha, não os 79 anos considerados, mas mais seis. Ou sejam, 85. Tendo em conta os da sua génese por via do semanário A Democracia que durou até 1918. “Altura em que o seu diretor, António Catalão, foi preso pelo então célebre Administrador da Covilhã, Ferraz das Barbas”.
Ainda no dia 25 de Abril de 1998. No mesmo Salão Nobre. João Morgado sugeriu ao Presidente da Câmara, Carlos Pinto, que a Rua de Santa Maria, onde se encontra sediado o Notícias da Covilhã, deveria, muito justamente, passar a chamar-se Rua Jornal Notícias da Covilhã.
O que é certo e verdade é que no ano seguinte, a 16 de janeiro de 1999, a antiga Rua de Santa Maria passou a designar-se Rua Jornal Notícias da Covilhã.
Assim também fosse atendido o alvitre, várias vezes apresentado nos semanários desta região, para que idêntica conduta fosse tomada com a atribuição de uma rua ao industrial covilhanense Ernesto Cruz. A               quem a Covilhã muito ficou a dever.
Sempre que me foi possível acompanhei o rumo, iniciativas, comemorações e também os eventos, notícias e memórias inseridas nos números do Notícias da Covilhã. Foram fontes importantes de consulta para algumas obras que publiquei. Só aqui se encontravam face à antiguidade deste semanário.
O Notícias da Covilhã continua vivo. De imagem renovada. Passou a ter presença regular na Internet. Uma página própria, entrando nas redes sociais.
Depois de algumas vicissitudes por que passou, o Notícias da Covilhã, “sob a égide da Diocese da Guarda”, volta a ter uma administração própria.  E a trilhar os caminhos por que foi fundado.
Parabéns ao Notícias da Covilhã! E a todos os que dão o seu melhor em prol do mesmo.

(In "Notícias da Covilhã", de 28-05-2020)

15 de maio de 2020

PELA PRIMEIRA VEZ, UMA EFEMÉRIDE EM TEMPO INSÓLITO

Nunca tinha acontecido no tempo das nossas vidas, um contexto de pandemia que nos obrigasse a condicionarmo-nos entre todos nós, remetidos numa primeira fase nas nossas casas, e depois um pouco mais aliviados mas sempre atentos à perigosidade latente e permanente entre todos os humanos.
Tudo se viu constrangido a uma revolução que muitos tiveram que inventar, mas na generalidade facilitada face aos meios tecnológicos que a modernidade nos trouxe e foi a forma de todo o mundo se poder adaptar à continuidade do desenvolvimento das suas atividades. Do natural passaria então ao virtual e ao digital.
Também o jornalismo teve de se fazer inventar, não deixando para trás quem já se habituara à leitura diária, semanal, quinzenal ou de outra periodicidade, em papel, a forma mais aceite para uma certa classe de longevidade.
Mas a tal modernidade que nos facultou os meios tecnológicos ao nosso alcance, quase para todos os gostos, veio também dizer-nos que a nossa adaptabilidade a uma nova vida terá de ser um facto a assinalar, terá se ser uma realidade.
No ano de 1963 nascia este jornal algarvio – O Olhanense – pela pena, coragem e persistência de Homens de rija têmpera, possivelmente aguentando algumas situações mórbidas na crítica próprias de um trabalho em movimento, mas de certeza muitos mais na contemplação positiva das páginas deste periódico, ao longo dos seus já 57 anos de existência.
Muitos jornais já nasceram e morreram durante este período. O Jornal O Olhanense tem perdurado na envolvência do amor votado ao Clube da sua Terra, e que é a base da sua génese, mas também para além do desporto, pois singra por uma veia cultural que irradia pela zona algarvia e outras abrangências.
Quem gosta de cultura e não é da zona onde o jornal tem os seus mais fervorosos leitores nota melhor as linhas direcionais que lhe incutem um cunho de satisfação para o periódico de uma região.
Por isso mesmo é de louvar a tenacidade de quem é resiliente e nalguma disrupção consegue manter o mar em águas tranquilas. Assim os que estão nas margens podem com O Olhanense desfrutar da sua leitura, ou ainda que seja do folhear das suas páginas quinzenais.
Um periódico tem muito trabalho, e muitos talvez não imaginem, mas quando o jornal tem no seu seio um Homem que se multiplica por várias vertentes do jornalismo, desde os artigos de opinião, memórias interessantes dos tempos d’outrora, entrevistas, o assim dizer “faz tudo”, é demasiado árduo para quem faz de três em um, ou até de mais. Já aqui referi em tempos que gostaria de ver também a colaboração feminina, como já tinha visto e gostado.
Da Beira Baixa e Serra da Estrela para o Algarve, em redor de Olhão, tive o privilégio de poder trazer algumas linhas do que vou escrevendo há mais de meio século,  e no Olhanense já lá vão mais de 25 anos, fruto de Personalidades que me souberam acolher na sua generosidade, numa ocasião em que escrevia a história do clube da minha Terra – a Covilhã, no contacto com a pesquisa de atletas que jogaram nos dois clubes (o mais popular Cabrita). Muito fiquei a dever na sua estima a uma figura que comigo colaborou telefonicamente, que nunca conheci, que já não está no mundo dos vivos, mas por ele tenho o maior respeito – Augusto Ramos Teixeira.
Depois viria Herculano Valente e, quando do seu falecimento pensei ver terminada a minha colaboração neste periódico, outra mão de imediato se estendeu, a do atual Diretor Adjunto, Mário Proença, por quem a minha consideração é enorme face ao que verifico nas suas tarefas em prol do Jornal. É obra!
A afabilidade do seu Diretor, José Isidoro Sousa, é para mim de incentivo a poder dar o meu modesto contributo para uma das páginas deste periódico, a quem desejo o maior sucesso, não só n’O Olhanense, jornal, mas mormente no Olhanense, clube do coração dos olhanenses, por quem tenho grande simpatia desde miúdo, quando o via deslocar-se à Covilhã para jogar nos idos tempos da I Divisão Nacional. Lembro-me de Filhó, Reina, Parra e outros. Saudades!
Os meus parabéns para o Jornal O Olhanense, e seus Obreiros, e que todos os anos possa acender a velinha do seu aniversário, mesmo que virtual, na continuidade de bem servir as gentes algarvias através dos conteúdos das suas páginas.

João de Jesus Nunes
jjnunes6200@gmail.com

(In Jornal "O Olhanense", de 15-05-2020)

12 de maio de 2020

ENTRE OS MEDOS E A ÂNSIA LIBERTADORA


Esta insólita vivência por que estamos passando nossos dias só é semelhante, em parte, aos famigerados tempos da ditadura no nosso País. Similar ao Estado Novo (paradoxalmente pleno de velhos no pensamento e no espírito) no que concerne ao medo e ao isolamento. Os receios constantes de poder ser dado um passo em falso, caindo-nos denúncias por não sabermos dizer amém às “bênçãos” salazaristas; da cadeia como quem visita um doente no hospital, ou vai ao dentista, do castigo à laia do Santo Ofício da Inquisição, das infundadas acusações de quem, a troco de benesses, apontava com um olhar virulento para o seu semelhante, que muitas vezes nem conhecia. Mas, em lugar cimeiro, da tenaz tentativa de isolar o pensamento do cidadão. Só poderia haver o pensamento único, sob a batuta do senhor todo poderoso desses tempos tenebrosos. Mas o povo português tinha bem presente que “não há machado que corte a raiz ao pensamento”.
Neste respirar de Abril, que já passou mas se mantém sempre presente, pela primeira vez nublado por uma força estranha aos humanos, a ânsia libertadora de “Vamos todos ficar bem” é ainda pesarosa quando compreendemos as afirmações dos responsáveis pela saúde em Portugal, e dos nossos governantes, de que “a pandemia continuará a fazer parte das nossas vidas”.
Felizmente que Portugal conseguiu antecipadamente ultrapassar a barreira da vil tristeza de governantes de feiras e mercados, de gritarias sarcásticas, para líderes conhecedores das suas obrigações para com os homens e as mulheres deste País – o Povo. Apraz perguntar, com veemência, se ao leme dos destinos de Portugal, nesta estranha fase pandémica estivessem os anteriores homens que mandaram a juventude às urtigas para lá das fronteiras inexistentes (mas que temporariamente agora de novo surgiram), como estaria a situação, no âmbito da prevenção e atuação na saúde deste Portugal à beira-mar plantado?
Se nestes tempos anómalos estivessem ainda à frente de Portugal, a “Gaspar de saias” assim intitulada pelo homem que “revogou o irrevogável” em vez da incontestável competência de Mário Centeno, como teriam sido decididas as normas de atuação para não se cair num desastre financeiro antecipado?
Se agora nem tudo pode correr bem, como se desejava, o que seria com Cavaco na presidência de Portugal em vez dum homem que sabe tralha para acalmar, e decidir como se impõe, Marcelo de sua graça, em vez daquele homem que uma vez disse que podíamos plenamente confiar no BES, e, logo a seguir, ficou minado de vírus?
Confinamento compreendido, não só por nós portugueses, como por quase todo o planeta. É que disto só se ouvira falar nesta grande escalada de sofrimento e mortes, em páginas da história de há mais de 100 anos, e similarmente há mais de 700 anos.
Na comparação com Caxias, Peniche, Tarrafal, esse isolamento de quem nem sequer era assintomático à rebeldia, bastava uma acusação à laia inquisitória, para ser confinado a um espaço de sofrimento. Temos alguns casos na nossa Terra, sobejamente conhecidos.
É por isso que, os 46 anos de democracia que foram celebrados duma forma imperiosamente inédita, não tendo ainda ultrapassado os 48 anos de ditadura, se revestiram dum significado forte, ainda que muitos já tenham nascido em ambiente democrático e não tenham sentido na carne ou no espírito os satânicos vírus salazaristas e de seus verdugos.
A seguir ao ditador, nem Caetano na “Primavera Marcelista” se conseguiu impor, nem as “Conversas em Família” iniciadas em 8 de janeiro de 1969, em 16 episódios, na televisão de um único canal, a preto e branco, tiveram eficácia. Tão só, na altura, o programa poderá ter revolucionado a televisão portuguesa, uma vez que foi com o mesmo que se usou um teleponto pela primeira vez. O aparelho, que nem no Telejornal era usado, foi a forma encontrada pela equipa de produção para que as falas e os gestos do primeiro-ministro (então designado presidente do conselho de ministros) parecessem mais naturais.
E não obstante uma abertura cultural antes do 25 de Abril, pela mão do ministro Prof. Veiga Simão, com a extensão do ensino superior no País, os principais homens do pensamento mantinham-se lá longe, fora da Terra-Mãe.
Ainda os receios desta pandemia não se dissiparam, e já outros estão no seu enfiamento:  a crise económica, com o seu cortejo de desempregados, falências e reduções de trabalho, não obstante o hercúleo esforço governamental, é outra pandemia, pois leva ainda a doenças mentais, associadas a reações depressivas, assim como o desemprego de longa duração, em que, ao fim de algum tempo, a pessoa desmoraliza, sente-se inútil. A ociosidade forçada acaba por se refletir negativamente na saúde mental. E, conforme um dia referiu Clara Ferreira Alves, no Expresso: “Através do progresso tresloucado, a sociedade acaba por criar o seu próprio ‘vírus social’ que vai sofrendo mutações em ciclos progressivamente mais rápidos, impedindo que o nosso organismo reaja, aumentando o número de inadaptados; ou seja, os que sofrem de depressão e ansiedade”.
Vamos ter esperança para que tudo possa vir a correr pelo melhor, e que desapareça bem depressa, sem retornar, esta maldita pandemia, naquela ânsia libertadora – voltar ao novo natural, quer dizer, podermos ser mais compreensivos uns com os outros, já que muito aprendemos com este estado mórbido, e continuamos a aprender.


(In "Jornal fórum Covilhã", de  12-05-2020)

6 de maio de 2020

UMA NOVA CIVILIZAÇÃO

Face ao insólito por que o planeta foi acometido, levando ao exasperar da quase totalidade do tempo por que se vai passando, confinados ou desenfiados, em labor presencial ou teletrabalho de todos os dias, somos constrangidos a ver, a falar, ler, ouvir, desenganar, acreditar ou desconfiar, do muito que se nos depara sobre este tema da pandemia que nos continua a chegar.
Uma boa parte de todos nós, entre os quais me incluo, já teve a experiência de tristes e ledas madrugadas, de navegar entre ventos e marés, de voar além das nuvens, na longevidade dos dias de hoje, que, imperiosamente, por força da ciência e da técnica conseguiu dilatar o tal aumento de vida.
Da história do mundo, da vivência cristã para os crentes, da criatividade e das descobertas, muito nos tem chegado pela imensidão de oportunidades que nos foram e são oferecidas.
Mas!... Sempre o traiçoeiro mas!...
Se já na Antiguidade houve várias civilizações, com conquistas e derrotas, dominação de outros povos e no imperar de outras culturas, na nossa Civilização estávamos, apesar de tudo e de outros medos – os climáticos, por exemplo – em uma grande parte da humanidade, numa situação de alguma serenidade, ainda que, desde há muito, outra parte do globo se visse mergulhada no flagelo das guerras e da fome. Disso é o exemplo das migrações.
O Homem é um ser dotado de dons que tão bem soube aproveitar para a ciência em prol do desenvolvimento humano, mas que não deixa de ser uma insignificância perante um invisível animal que se infiltra diabolicamente no mesmo ser humano para o destruir.
Crentes ou não crentes, é indubitável que esta força destruidora é como comparar o impulso vencedor entre David e Golias.
Mas a Civilização atual sempre contou com homens responsáveis, e incansáveis, nas organizações internacionais criadas exatamente para o bem do próprio Homem que vive neste planeta, como a Organização das Nações Unidas, a Organização Mundial de Saúde, entre outras. Infelizmente, sobre o mundo de hoje ainda existem líderes sem maturidade emocional, de bradar aos céus, que destroem a Terra que é de todos, quais Nero ou Hitler.
Já houve outras pandemias no Mundo, por que nós, viventes, felizmente não passámos, mas ouvimos aos nossos antepassados contar, como a gripe espanhola e a peste negra, para além das guerras mundiais. Foi nestas crises que se fizeram grandes líderes, como Churchill e Roosevelt. Portanto, só os grandes líderes atuais, responsáveis, poderão ajudar a debelar esta crise mundial.
Depois de um annus horribilis em boa parte do Mundo, e da Europa, cujos contornos foram esquecidos, ou colocados em segundo plano face ao surgimento do medonho bicho, os apitos a rebate são agora voltados para um novo normal. Ninguém parece capaz de dizer como será este novo normal “porque a mensagem é que será ditado pelas restrições impostas pela pandemia e não pelas nossas escolhas e preferências”.
É bem certo que a história é pródiga de fatalidades, desde as naturais às causadas pelo homem. No entanto, perante o homem, nada mudou quando teve várias oportunidades ao longo da sua vida.
Muitos argumentam que sempre nos soubemos adaptar às circunstâncias, ultrapassando todas as vicissitudes por que o homem passou: guerras, catástrofes naturais, mudanças de clima, doenças, perseguições.
Se é certo que é verdade também o é que houve civilizações que acabaram e exatamente quando parecia estarem no ponto mais alto do seu desenvolvimento e da sua expansão. Vejamos, por exemplo, Roma que tinha atingido um desenvolvimento técnico impensável, levando a sua cultura a pontos remotos do Globo. Mas se a ascensão tinha sido lenta e difícil, a queda do império foi rápida.
A Civilização Ocidental também conheceu na segunda metade do século XX e neste início de século um desenvolvimento tecnológico notável e a sua cultura universalizou-se. Mas, no entanto, a natalidade caiu e as sociedades começaram a envelhecer. A família começou a desfazer-se com a violência doméstica a alastrar.
Será que a nossa civilização, tal como a conhecemos, pode estar a acabar? Isto, evidentemente, não no ser humano mas na sua cultura que atingiu o seu ponto mais alto no Renascimento e que desde aí entrou em declínio, conforme questiona José António Saraiva, no “Sol”.
É certo que a tecnologia continuou a desenvolver-se, ultrapassando todos os limites que era possível imaginar; mas isso também acontecia com as civilizações que morreram: estavam no ponto mais alto do seu desenvolvimento técnico.
Bom, o modo de vida que levávamos, para já, acabou, e não se vislumbra que volte ao que era, pelo que se espera por um novo normal, a que teremos que nos habituar.

(In "Notícias da Covilhã", de  06-05-2020)

22 de abril de 2020

O SENTIDO DAS PALAVRAS


Mais perto de sete décadas e meia de vida que dum número redondo, não consigo parar de escrever. É que escrever é viver, é ter sentido de vida. Fico melancólico quando vejo desaparecer escritores e cronistas de eleição, como foram Eduardo Prado Coelho, em 2007, e agora Vasco Pulido Valente. Deles guardo algumas crónicas, não esquecendo, deste último, a “Geringonça”.
Todas as manhãs dou uma vista de olhos pelos jornais online, sendo que de alguns fica para mim o registo de algo interessante quão de importante. Fico deslumbrado quando alguma coisa coincide com as muitas minhas memórias que guardo. Memórias que para os jovens pouco ou nada lhes diz. Já a sua valorização tem eco nas gerações de 50 e 60, se bem que de alguns, já nas suas licenças vitalícias, por vezes duma forma estranhamente precoce, preferem o comodismo do sofá perante os canais televisivos.
Não sou contra as redes sociais nem as formas digitais de agora a comunicação social se ver obrigada a estar presente. Isto terá estado na futurologia das comunicações. No entanto, o cheiro e o tato do papel são ainda de grande preferência por muitos, independentemente das novas tecnologias.
Sobre este assunto me referi no dia 15 de março de 2012, num painel que integrei, na Universidade da Beira Interior, no âmbito dum fórum sob o tema “O Futuro do Jornalismo”, cuja alma foi o sobejamente conhecido jornalista Adelino Gomes.
Li a crónica de Lopes Marcelo, no número de 19 de fevereiro, da Gazeta do Interior – “Habitar as Palavras” – que muito apreciei, como, aliás, todas os seus artigos, assim como da generalidade dos cronistas deste semanário, o que me levou a puxar do baú das minhas memórias, tendo em conta, como refere, “Mais de duas centenas de crónicas. Já quase duas décadas de encontros mensais com os leitores da Gazeta”. Gostei, fez-me sentir a nostalgia de quando comecei a escrever no Notícias da Covilhã, em 14 de novembro de 1964, depois em mais de 30 jornais e revistas da Covilhã, Região Beirã e do País, até aos dias de hoje, já lá vão 56 anos, perfazendo 605 crónicas, artigos de opinião e algumas notícias.
Hoje, com regularidade mensal, são dois semanários desta região, um quinzenário algarvio e o editorial de um boletim trimestral.
Mas também tive o prazer de escrever na Gazeta do Interior, a primeira vez em 17 de maio de 1990, há quase 30 anos.
Não poderei esquecer um amigo que há pouco partiu e que nesta região se havia radicado durante muitos anos e deixou marcas do seu jornalismo, o meu amigo José Maria Ventura daa Silva Balonas.
Votos do maior sucesso para a Gazeta do Interior.

João de Jesus Nunes
jjnunes6200@gmail.com

(Texto enviado à "Gazeta do Interior", em 24-02-2020, mas que não teve publicação)

9 de abril de 2020

PONHO A MESA PARA QUANTOS?


Era assim ainda há pouco tempo, mesmo antes da primavera raiar envergonhada este tempo pandémico.
Todos os dias perguntava à esposa quantos netos vinham almoçar para adequar a mesa aos respetivos lugares. A universitária do Porto dava-nos a alegria de nos ir telefonando enquanto o da UBI várias vezes anunciava previamente ir almoçar com os avós. Já as mais novas, do Secundário, eram as mais habituais, sempre no prazer acolhedor da avó, já que era o avô que habitualmente tinha o encargo de as ir buscar, aquando da impossibilidade dos pais.
Há poucos anos um político procrastinou que o diabo vinha aí em setembro (daquele ano, entenda-se…) e o diabo não apareceu, pós vivência de uma crise política e económica. Mas no âmbito dessa crise, toda a gentinha podia livremente ir ao quiosque comprar o jornal ou a raspadinha (na sua maioria), dar um abraço a um amigo, beijar os filhos e os netos e as outras pessoas familiares e amigas.
Vivia-se num horizonte com pezinhos de lã a galgar os caminhos das perspetivas desejadas para o ambiente familiar, profissional e social.
De um momento para o outro, uma nuvem bem lá longe, para os confins asiáticos, pressagia algo de inconfundíveis diabruras de âmbito planetário, na realidade de um bichinho microscópico. Bate à porta da China e vai alongando a sua virulência sem que haja fronteiras ou impedimentos, por países fora, com um forte salto para o mais velho Continente do mundo. Em 11 de fevereiro, os jornais que ainda se podiam comprar nos tais quiosques, anunciavam que “Portugal tem risco de importação de coronavírus ‘muito baixo’”.
Puro engano, tal como o do político atrás referido, mas ao contrário, aquilo que de presságio não passava, afinal foi uma realidade jamais vista por todos nós.
Não são poupadas as famílias, os amigos, o culto religioso, as escolas, tudo o que possa proporcionar contacto social, num tsunami como alguém intitulou, que obriga ao encerramento de quase tudo o que são atividades económicas ficando somente as necessárias à subsistência das gentes nas várias vertentes da indispensabilidade.
Chegara então o tempo de ter tempo, jamais no pensamento das correrias loucas da vida.
Porquê falar do Brexit, dos casos da justiça em Portugal, nas várias “operações” a decorrer, da angolana Isabel dos Santos, do hacker Rui Pinto, da Primavera Árabe, dos problemas com que se debate o papa Francisco, das cimeiras climáticas, quando, de um momento para o outro, as gentes deste Planeta e deste retângulo à beira-mar plantado se vêm forçadas e separar-se confrangedoramente, e a recolherem-se em casa e nos hospitais.
Podemos considerar como que a teoria dos cisnes negros, conforme já me referi em 12 de fevereiro noutro periódico, conceito este para designar fenómenos raros que têm baixa probabilidade de ocorrência mas que, quando aparecem, mudam tudo. É o caso do coronavírus, que mata e cada morte é uma perda que nada pode reparar. No entanto, esta enorme pausa é má para a economia mas boa para o planeta. Tantas guerras, tanta indiferença na participação das cimeiras climáticas quando um bichinho maldito arrisca proporcionar que o ano 2020 seja o ano da queda significativa das emissões de CO2 no mundo. Temos de deixar de viver numa civilização em que a pressa é tudo, o movimento é tudo e o objetivo não é nada.
Quando surgir a bonança, os que resistirem, que possam refletir nesta consciência de pensar que uma pessoa sozinha não se salva porque todos vão no mesmo barco, como disse o papa Francisco, e que possam transmitir este forte pensamento às suas gentes e vindouros.
Uma grande lição para todos nós! Que a saibamos aproveitar.

(In "Notícias da Covilhã", de 09-04-2020)

8 de abril de 2020

REPENSAR A NOSSA VIDA


Na altura em que escrevo estas linhas, acabo de ouvir, em vozes de excelência, na RTP, a entrevista da jornalista Fátima de Campos Ferreira ao antigo Presidente da República, General Ramalho Eanes, sobre a pandemia de Covid 19.
Foi um lenitivo para os dias de emergência que vou vivendo em casa com a minha esposa, e com os filhos e os netos à distância de um telefonema ou vídeo chamada, ou então numa fugaz conversa do passeio da rua para a janela da nossa casa.
Este estado de emergência acaba de ser renovado até 17 de abril, como se impõe.
Todos já passámos por crises, umas maiores que outras, a vários níveis (guerra do Ultramar, situações climatéricas, e mesmo algumas epidemias – eu tive a gripe asiática quando andava na 4.ª classe) mas nunca pensando que iríamos passar por forçosamente termos que repensar a nossa vida, neste inconformismo do porquê de, em pleno século XX, verificarmos que o Homem é uma insignificância perante a minúcia microscópica de um vírus, que não se consegue debelar, remetendo-nos assim para as pandemias de outros tempos bem longínquos, ou, aquela que mais se vai assemelhando ao coronavírus, nas memórias da gripe espanhola ou pneumónica, de há 102 anos.
O mundo está a ver-se obrigado a desenvolver esforços quase sobrenaturais para acudir a este flagelo na humanidade, onde os braços e os equipamentos urgentíssimos para acudir aos doentes são mais que insuficientes, a par das recomendações e decisões de cada país para que sejam cumpridas as normas de evitar o contágio dos que ainda se encontram sãos.
Jamais estas últimas gerações pensariam vir a passar por uma situação daquela que se está vivendo (alguns quase que brincando com o fogo porque “esta pandemia é só para os idosos…”), mas ela é, para todos nós, quase inédita, nos termos em que o sofrimento de muitos dos atingidos é duma crueldade tal que nem os mais queridos podem ser objeto de uma atenção, de um cumprimento, de uma despedida para o eterno.
Já meu Pai contava que, na sua terra natal, Bogas de Baixo, do concelho do Fundão, no tempo da pneumónica, ouviu dizer que o coveiro, não dando lugar a tanto enterramento, e no enorme receio de contágio, chegou ao ponto de fechar os olhos ao enterrar um moribundo, que ainda mexia.
E no Brasil (no qual atualmente Bolsonaro desvaloriza esta pandemia), também em 1918 a gripe espanhola espalhou morte e pânico, chegando-se ao ponto de, como os coveiros em grande parte estavam acamados ou haviam perecido, a polícia saiu às ruas capturando os homens mais robustos, para serem forçados a abrir covas e sepultar os cadáveres, estendendo-se o trabalho pela madrugada adentro.
É por isso que é terrível ver-se o desespero dos médicos espanhóis que refletem sobre a possibilidade de deixarem salvar um doente de 50 anos em detrimento de outro de 80.
Certo é que já se sentiram vozes prontas a colocar nos pratos da balança uma escolha entre a economia e a sobrevivência, dispostas até ao sacrifício de alguns porquanto se trata das vidas das pessoas mais velhas, e quando, afinal, se a vida de um idoso não vale o sacrifício da economia, é, na opinião do jornalista Paulo Dentinho, “mandar às urtigas o juramento de Hipócrates, essa promessa solene dos médicos de consagrar a vida ao serviço da humanidade”.

O medo é também uma faceta lúgubre por que quase todos passamos face a este monstro paradoxalmente microscópico.
Depois da China, o mar de lágrimas e choros que atingiu o Continente mais antigo, corre por todo o globo, num devastar de humanos.
“A peste voltou à Europa, e já não nos lembrávamos de que podia. Tenho medo de que o vazio da Praça de São Pedro que nos gelou o coração ao ver nela o papa só, a dizer-nos perdidos, frágeis, desorientados e da noite e do silêncio que cobrem o mundo, seja, mais que uma metáfora, um presságio”, nas palavras da jornalista Fernanda Câncio.
O ano de 2020 irá ficar na memória de todos os que sobreviverem a esta pandemia. E só gentes mentecaptas poderão deixar de pensar de que nada valem os grandes projetos, os desejos de possuir mais que o vizinho, a ganância de dar nas vistas pelo que possuem, o desprezo na contribuição para a desestabilização do equilíbrio energético no planeta, produzindo aquele fenómeno que dá pelo nome de aquecimento global, mandando às malvas as Cimeiras sobre o Clima, o olhar sobranceiro sobre os que mais necessitam em contraponto com as suas algibeiras plenas de riqueza, quando, afinal, de um momento para o outro, tudo pode parar, quando menos se espera. Tudo pode parar e modificar drasticamente os nossos hábitos e os nossos costumes. Também as nossas zonas de conforto e tudo o que jamais seria impensável não acontecesse.
Mas, banhado de algum ceticismo, mantenho uma ténue esperança de que esta pandemia nos faça emendar o que fazemos de errado, valorizar mais os outros de quem neste momento nos separamos concentrando-nos mais no que de melhor nos une.
Espero que estas minhas dúvidas se dissipem e que os medos de no-pós pandemia continuar a ser tudo mais do mesmo não corresponda à realidade. É que os argumentos que a história nos mostra é de que todas as grandes tragédias nada mudaram a nossa natureza; todos os grandes medos foram sistematicamente esquecidos.

(In "Jornal fórum Covilhã", de 08-04-2020)

20 de março de 2020

DE G3 EM RISTE, O POVO ENTROU NA HISTÓRIA


Este é mais um número do nosso Jornal. Corresponde sensivelmente ao segundo trimestre deste ano. Aqui se inserem duas datas importantes entre os antigos Combatentes. O dia 9 de Abril comemora o ataque em larga escala dos alemães na batalha da Flandres, em 1917, onde começaram a lutar os 55 mil homens do Corpo Expedicionário Português (CEP) que também combatiam em África. O País não se encontrava empenhado no esforço de guerra, dado que o desejo político dos dirigentes não correspondia às realidades militares, nem à vontade da população. O ataque em larga escala lançado pelos alemães na madrugada daquele dia deu início à batalha de La Lys, de dolorosa memória para o exército português. As baixas do CEP estimaram-se em 1341 mortos, 1932 desaparecidos, 4626 feridos e 7740 prisioneiros. O País atravessava uma grave crise económica e financeira com aflitivas repercussões sociais.
Em 1924 foi oficializada a Liga dos Combatentes da Grande Guerra, através da portaria 3888. Instituição de utilidade pública, estatutariamente, tinha por principal função “proteger e auxiliar, através de pensões e socorros”, todos os militares do Corpo Expedicionário Português e respetivas famílias. A partir de 1965 passou a designar-se apenas Liga dos Combatentes e a aceitar também a inscrição dos mobilizados para a Guerra Colonial. Este dia, 9 de Abril, é também considerado Dia do Combatente.
Já não existe nenhum deste tempo mas subsistem, sim, das guerras coloniais, que se iniciaram na madrugada do dia 4 de fevereiro de 1961. Estas só terminariam com o dia 25 de Abril de 1974, por via do derrube do regime ditatorial de Salazar e Marcelo Caetano. As primeiras grandes colunas militares portuguesas partiram para o norte de Angola, para dar resposta aos massacres da UPA, em 13 de maio de 1961. Seria a guerra de uma geração – guerra do ultramar ou guerra colonial, ou ainda guerra de libertação, como a intitulavam os movimentos africanos.
Mas quero referir-me ao que dá força ao título deste texto. Durante quase meio século, a G3 foi a arma dos soldados portugueses. Fez a Guerra Colonial e o 25 de Abril, marcou o último ciclo do império português. Tornou-se ícone, lenda e objeto de um culto difícil de explicar. Por ser uma arma distribuída por todos, foi como se, de G3 em riste, o povo tivesse entrado na História, como protagonista. Não isento de culpa, na guerra, nem de heroísmo, na libertação. Entretanto, a G3 já saiu de cena.
A espingarda automática de calibre 7,62 mm que equipou as Forças Armadas portuguesas, desde os princípios dos anos 60 até outubro de 2019, tornou-se de facto um ícone e uma lenda. Ficou, na realidade e na imaginação, ligada à Guerra Colonial, mas também à Revolução do 25 de Abril, às lutas do PREC, ao golpe do 25 de Novembro, ao roubo de armas de Beirolas, aos piquetes da Maioria Silenciosa, às conspirações do caso Camarate, às missões militares portuguesas no Kosovo e em Timor-Leste.
Em várias ocasiões, esteve dos dois lados da barricada. Aconteceu no 25 de Novembro de 1975, quando se defrontaram os esquerdistas de Otelo e os moderados de Eanes. Era a arma de Salgueiro Maia e das forças do regime. Marcou presença na Reforma Agrária, quando as forças do Comando Operacional do Continente, o Copcon, apoiaram a ocupação das terras, e, mais tarde, quando a GNR garantiu a devolução das terras aos antigos proprietários.
Nas colónias africanas, confrontou-se quase sempre com a Kalashnikov, sua grande rival, usada pelos independentistas. Mas também esteve nas mãos das Forças Armadas de Libertação Nacional de Timor-Leste, as Falintil, na luta contra as forças indonésias de ocupação.
Segundo Pedro Marques de Sousa, tenente-coronel, professor de História na Academia Militar, a G3 acompanhou o último ciclo do império português. “Estava nos primeiros combates em Angola, e no contingente português de manutenção de paz em Timor, em 2000”. Agora, o seu desaparecimento fecha o ciclo para sempre.
Esta arma é o antepassado direto da G3. “Não é alemã, como geralmente se pensa. A origem da G3 é espanhola. Os espanhóis começaram a produzir a arma em 1956. Depois venderam a licença à Holanda, para produção em série.”
Quando as primeiras ações subversivas se iniciaram no Noroeste de Angola, o regime de Lisboa não estava preparado para a guerra que decidiu lançar nas colónias de África. Todo o treino das Forças Armadas portuguesas era feito nos moldes das duas guerras mundiais. Os primeiros contingentes que desembarcaram em Angola levaram armamento pesado, veículos obsoletos e treino convencional, como se fossem combater na guerra das trincheiras de 1914. Quando se percebeu que se tratava de um conflito de outra natureza, com caraterísticas de guerrilha e de guerra subversiva, foi preciso mudar tudo. E rapidamente. A guerra subversiva exigia equipamento leve, ágil e rápido, compatível com o que já estava a ser usado pelos movimentos de libertação nos três teatros de guerra. As primeiras forças portuguesas a chegar a África ainda levavam as velhas espingardas Mauser que equipavam, numa versão de 1937, as Forças Armadas. Os guerrilheiros que lutavam pela independência de Angola, Moçambique e Guiné, maioritariamente apoiados pela União Soviética, usavam espingardas automáticas AK47, conhecidas por Kalashnikov. Ou seja, os portugueses tinham armas da Segunda Guerra Mundial, enquanto os guerrilheiros já possuíam armamento típico da Guerra Fria.
A guerra da Argélia, que ainda decorria, foi o modelo para a guerra colonial portuguesa. Nas opções de armamento, prevaleceu a Alemanha, com a aquisição da licença para o fabrico de G3, que passou a fazer-se em Portugal na Fábrica de Braço de Prata, que viria também a exportar para vários países. Foram produzidas, entre 1962 e 1988, naquela unidade fabril da zona oriental de Lisboa, 442 mil espingardas G3, além de outro armamento e munições, como a metralhadora HK-21, também sob licença, ou a pistola metralhadora de 9 mm e o morteirete de 60 mm, ambos de marca original FBP (Fábrica de Braço de Prata). Fechou em 1991.
A introdução da G3 no Exército português implicou importantes alterações táticas, bem como de organização. “A espingarda automática é uma arma individual, é para todos. Antes, quase todas as armas exigiam uma operação coletiva”.
A velha Mauser tinha carregadores de cinco munições. “Podiam usar-se dois num minuto, numa cadência de dez tiros por minuto. A G3 tem carregadores de 20 balas e permite disparar 600 tiros por minuto. É uma revolução”. A G3 permitiria combater com grupos mais pequenos. “Uma secção, de 12 homens, comandada por um sargento, passa a ter um poder de fogo enorme”. A G3 transmite uma inebriante sensação de poder, mas também de dependência. De liberdade, até de heroísmo, mas, ao mesmo tempo, de insegurança. O medo de perder a arma e a alma.
Uma G3 em riste tinha exatamente o peso da lei e da boa consciência. E um preço: a responsabilidade individual. A G3 devolve ao soldado o protagonismo.
Na instrução que se dava aos soldados era-se particularmente exigente nas questões de segurança. Retirar o carregador antes de tirar a bala. Limpar a arma sempre sem as munições dentro. Culatra atrás e com a arma virada para cima. Dar um tiro para confirmar que não há bala na câmara, antes de tirar a cartucheira. No mato, nunca disparar de rajada, para não ficar sem munições, e atirar sempre ao alvo.
Adeus, G3. Se ao menos pudesses servir para combater o novo coronavírus!...

(In "O Combatente da Estrela", n.º 118, de março/2020)

11 de março de 2020

O POUCOCHINHO É MUITO


Pouco a pouco vamos encorpando o número de momentos marcantes ao longo das nossas vidas.
A expressão ficou-me retida há uns anos. A caminho da pré-primária, meu Neto embirrava com a escola. Ao tentar animá-lo dizia-lhe que era pouquinho tempo, que logo vinha para casa. Pelo caminho, insistia comigo: “Ó avô, mas um pouquinho é muito, não é?
Chega a vez de António Costa. Então presidente da Câmara de Lisboa. Preparava o assalto ao seu partido. Entendeu que a vitória de António José Seguro, de 31,4 por cento com que ganhou as eleições europeias em 2014, foi por “poucochinho”. O resto já se sabe. Apeou Seguro numas primárias. E é líder do PS desde então.
Surge o coronavírus na China. A OMS emite o primeiro alerta para a doença em 31 de dezembro de 2019. Depois das autoridades chinesas notificarem casos de uma misteriosa pneumonia na cidade de Wuhan. Metrópole chinesa com 11 milhões de habitantes. Sétima maior cidade da China. E a número 42 do mundo. Na China, em 9 de janeiro de 2020, um homem de 61 anos foi a primeira vítima. 41 pessoas já haviam sido infetadas. Era ainda poucochinho para aquela vastidão de gente. O medo não se instalara tanto como agora, numa imensidão de casos de infeção e mortes. Extravasando já a China e dispersando-se por quase todo o planeta. O poucochinho rapidamente se transformou no muito.
Noutro contexto, continuamos a assistir a muitos “poucochinhos” de pedaços da nossa vivência. De um momento para o outro transformam-se em “muitos”.
Duas dezenas de dias marcantes da última década deste século. Parcialmente já me referi por outras ocasiões. Parecem poucochinhos momentos. Mas transformaram-se numa enormidade de situações: adversas ou menos conseguidas.
As Primaveras Árabes em 2011. Começaram aos poucochinhos. Mas depressa alastraram. Não mudaram a História. Mas deixaram bem impressa na memória coletiva a vontade de os povos se apoderarem dos seus destinos. Eram acontecimentos que prenunciavam uma mudança histórica no mundo árabe. As imagens prendiam milhões de pessoas aos ecrãs das televisões. Seguiu-se uma interminável ressaca. Culminou na tragédia síria. À Tunísia, seguiu-se a Argélia, Egipto, Iémen, Bahrein, Líbia. Um fenómeno de contágio. Foram temas comuns: a persistência de regimes autocráticos, ditadores há décadas no poder, visibilidade da corrupção, uma imensa frustração social.
A troika foi chamada a Portugal em 2011. O seu programa ajudou a definir o rumo económico, social e político do País, aos poucochinhos. Mas o aceleramento não tarda. Do poucochinho passa-se ao muito, muito mesmo para além da troika. Dia 6 de abril desse famigerado ano. O pontapé de saída para mais uma era de austeridade. É poucochinho o que a generalidade dos portugueses recebem. Tornar-se muito grande o rasgão das suas algibeiras. Do “desvio colossal” ao “enorme aumento de impostos”.
Em 2019, a Cimeira do Clima – COP25. No último dia com tudo em aberto. Assim chega a 25ª. Conferência das Partes (CP25) da Convenção Quadro das Nações Unidas, em Madrid, com uma incógnita: Será mesmo o seu último dia? Isto não é poucochinho?
Dia 13 de março de 2013. Anúncio ao mundo da escolha de 115 cardeais reunidos em conclave. O novo Papa é um jesuíta de 76 anos – o argentino Jorge Mario Bergoglio. Adota o nome de Francisco.
Põe a Igreja a discutir a homossexualidade, o aborto, o fim do celibato, a ordenação de mulheres. Força o clero a encarar os abusos sexuais. Ao fim de oito anos não mexe na doutrina da Igreja. Alimenta quilómetros de notícias. Já na qualidade de Papa escapula-se do Vaticano para comprar óculos e sapatos. Trocado a limusine por um carro utilitário. Renuncia ao luxuoso apartamento papal. Reside com os funcionários da Santa Sé na Casa de Santa Marta.  Despreza os velhos símbolos do poder eclesial. Em vez dos famosos sapatos vermelhos calça uns velhos sapatos pretos. Recusa fechar as portas da Igreja aos divorciados recasados e aos homossexuais. Obriga padres, bispos e cardeais a olharem as vítimas olhos nos olhos. Critica a opulência em que se refestelam muitos dos representantes da Igreja Católica. Dos bens materiais e condições sociais quis poucochinho para ele.
Ano 2014. Queda do BES. A sua história é a história de um banco rico que afinal era pobre. O BES era afinal um castelo vazio. Com acionistas sem capital e ativos sobrevalorizados. Os supervisores (e os governos) eram distraídos. E durante duas décadas ignoraram os sinais de falta de solidez do grupo. E as falhas de idoneidade de alguns gestores. As mensagens de tranquilidade, poucochinhas, tinham partido nas vésperas do resgate de Belém, de São Bento e do Banco de Portugal. Escondiam a realidade: o Banco estava insolvente. Cavaco Silva enganou-nos. O poucochinho transformou-se num muito de problemas, muitos mesmo.
Foi num domingo de verão, a notícia em direto nas televisões: um dos bancos mais importantes da história de Portugal estava prestes a cair.
10 de novembro de 2015. António Costa quebrou “o Muro de Berlim”. Cavaco apela à rebelião dos deputados do PS contra a estratégia de alianças à esquerda que Costa está a construir. Assinaturas de António Costa, Catarina Martins, Jerónimo de Sousa e Heloísa Apolónia no papel. O PS apresenta a moção de rejeição. A esquerda parlamentar levanta-se em conjunto. Aprova-a. O Governo Passos – Portas cai. É a estreia da nova maioria. Acabou-se o poucochinho.
A queda do Governo de Passos leva Costa a primeiro-ministro. Portas faz, durante mais de vinte minutos, um sistemático e violento ataque ao líder do PS. Do púlpito do hemiciclo de S. Bento, Portas afirma: “Pedirei emprestado a Vasco Pulido Valente a definição da vossa manobra. Não é bem um governo, é uma geringonça.”
12 de dezembro de 2015 – O Acordo de Paris foi um marco. Há uma grande alegria. Adotado um acordo para limitar as emissões de gases que aquecem o planeta. Mas o mundo está longe de cumprir essas metas. A COP21, em Paris, fechou o primeiro documento. Todos os países do mundo se comprometem com metas de redução de emissões de gases de estufa. Foi um feito da diplomacia francesa, mas também produto de um acordo prévio entre os EUA e a China. O mais importante documento saído destas cimeiras promovidas pelas Nações Unidas tinha sido o Protocolo de Quioto, em 1997. Este só previa compromissos por parte dos países mais ricos. Desta vez, era o mundo todo que se punha de acordo. Do poucochinho havia surgido o muito.
Segue-se um balde de águia fria. Alertas sucessivos de que o mundo não está a seguir o caminho certo para alcançar as metas ali estabelecidas. À escala global, há um conjunto de más notícias: a eleição de Donald Trump. O anúncio de que pretende sair do acordo. Um conjunto de fake news. Põem em causa a ciência, e o crescimento de emissões. A boa notícia são as manifestações pelo clima à escala global. Estão aí, constantes e bem visíveis. Lideradas, sobretudo por jovens. Entre eles, o nome mais sonante é um dos mais improváveis. Uma sueca de apenas 16 anos. Chama-se Greta Thunberg. Sozinha, iniciou uma greve às aulas pelo clima, em agosto de 2018.
23 de junho de 2016. O Reino Unido decidiu encolher a União Europeia. Nada será como antes do referendo do Brexit. Em seis décadas de integração e alargamento, nunca a construção europeia se tinha feito a subtrair, só a adicionar. Os britânicos foram às urnas para decidirem em referendo se queriam continuar na União Europeia e o “não” venceu com 51,89% dos votos.

(In "Jornal fórum Covilhã", de 11-03-2020)

DIA INTERNACIONAL DA MULHER


 “A Mulher na Sociedade Covilhanense”. Escrevi em 10-04-2008. Já lá vão 12 anos. Reli o texto publicado. Mantenho a minha satisfação com que o redigi. A Mulher ainda continua a ser uma pessoa postergada. E até repudiada, em partes consideráveis do Globo. Segundo Albert Einstein, “Grandes almas sempre encontraram forte oposição de mentes medíocres”.
Século XV. Seguros de escravas grávidas. Desenvolveram-se com alguma facilidade. Segundo um estatuto de Génova, sendo atribuído a alguém que tivesse comércio com uma escrava de outrem, o facto de ela engravidar se devia considerar plena prova de autoria, o juramento da escrava em causa e do dono desta. Caso fosse pessoa de boa fama, para além de outros indícios. As penas relativas a estes casos eram pesadas. E podiam duplicar caso a escrava viesse a morrer de parto. Um crime que não era considerado de ofensa à pessoa, mas sim à propriedade. Os donos das escravas começavam a entrar em acordos com os imputados autores. Estes seguros eram frequentes. Porque eram também frequentes as compras de escravas grávidas. Uma razão algo insólita: nestas condições o adquirente comprava previsivelmente dois escravos pelo preço de um.
Na atualidade, outras formas de discriminação da Mulher são sobejamente conhecidas. Da maioria de todos de nós.
Mas a Mulher esteve, de forma constante, no cerne de muitos acontecimentos. Desde a criação do mundo até à atualidade. É inegável o valor que acrescentam a tudo aquilo que se dedicam. Como a manifestação pela igualdade de direitos civis em favor do voto feminino. Entre outras.
“O coração tem razões que a própria razão desconhece” – Blaise Pascal.
A Mulher tem um “espírito engenhoso, imaginativo, sempre irrequieto”. Palavras de Fernando Pessoa. Define-o ainda pela “facilidade em arranjar soluções para as dificuldades que lhe possam surgir, e é ao mesmo tempo preocupado e instável, sendo, porém, no fundo, intenso e violento em tudo. Há uma grande dose de subtileza e diplomacia feminina”.
Dia Internacional da Mulher: a origem operária do 8 de Março. Não é apenas uma data de homenagem às mulheres. Tem raízes históricas mais profundas e sérias. Oficializada pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1975. O Chamado Dia Internacional da Mulher é comemorado desde o início do século XX. Hoje, a data é cada vez mais lembrada. Como um dia para reivindicar igualdade de género. E com protestos ao redor do mundo. Aproximando a data de sua origem na luta de mulheres que trabalhavam em fábricas nos Estados Unidos. E em alguns países da Europa.
A Mulher distinguiu-se das demais desde políticas influentes, poetisas, arquitetas, gestoras, entre outras áreas de atuação. De geração em geração, atuaram e atuam para o bem comum. Relevaram sempre a educação que as distingue, o caráter, o espírito empreendedor. Apesar dos preconceitos relacionados com o género. Têm vindo a assumir um papel preponderante no crescimento económico e no bem-estar das sociedades.
A Mulher brilhou em todo o mundo e em Portugal. As Mulheres destacaram-se em várias dimensões. As que marcaram a história é extensa. Muitas outras seriam passíveis de ser enumeradas. Quer a nível internacional, quer a nível nacional.
Na exemplaridade, com desempenhos notórios: Cleópatra – figura feminina do Egito. Toda a gente recorda, pela sua beleza e capacidade de estratégia. Anne Frank – escreveu um diário com um forte testemunho sobre a Segunda Guerra Mundial. Coco Chanel – a única estilista na lista das 100 pessoas mais importantes do século XX. Segundo a revista Time. A princesa Diana – relembrada pelas causas humanitárias a que se dedicou. J. K. Rowling – destacou-se na escrita, com os livros de Harry Potter. Madonna – revolucionou a música POP. Malala – com papel de relevo no ativismo. Marie Curie – cientista e física polaca. A primeira mulher a receber um prémio Nobel. Madre Teresa de Calcutá – Santa de Calcutá e fundadora das Missionárias da Caridade. É dela: “Sei que o meu trabalho é uma gota no oceano, mas sem ele, o oceano seria menor”.
A nível nacional: Rainha Santa Isabel – ficou na história por ajudar os pobres e pela lenda do “Milagre das Rosas”. Carolina Beatriz Ângelo – a primeira Mulher a votar e a consagrar esse direito ao sexo feminino. Amália Rodrigues – a eterna rainha do fado português que levou a tradição da nação pelo mundo inteiro. Florbela Espanca – grande poetisa portuguesa. Lourdes Pintassilgo – a primeira e única Mulher a assumir o cargo de primeira-ministra de Portugal, quando nenhuma outra Mulher o tinha sido. Maria José Estanco – a primeira Mulher portuguesa a assumir o cargo de arquiteta.

(In "Notícias da Covilhã", de 12-03-2020)

6 de março de 2020

UM PEDACINHO DA COVILHÃ A CAMINHO DO CENTENÁRIO


Quero em primeiro lugar agradecer o convite que o Senhor Presidente da Direção me fez para aqui falar um pouco sobre a Casa da Covilhã.
O que é que eu vou dizer, tendo em conta o pouco espaço de tempo de que já disponho?
Foi assim que, de alguma perplexidade surgida no meu pensamento, logo a mesma se desfez e,
num relance, achei por bem dar o título a esta minha palesta, assim:

UM PEDACINHO DA COVILHÃ A CAMINHO DO CENTENÁRIO
Vou ser breve.
Entrei pela primeira vez nesta Casa em 1973 numa altura em que por aqui andei uns dias, em formação na Seguradora cuja delegação eu geria na Covilhã.
Apenas me recordo de ter estado junto ao balcão-bar, e de ter encontrado algumas pessoas que não conhecia para além do velho António Isaac. O homem do bar disse-me que era do Fundão. Estranhei o edifício sujo e arruinado, nessa altura, com alguns ébrios à mistura.
Passei assim longos tempos sem visitar esta Casa, mais pela indisponibilidade de permanecer tempo suficiente em Lisboa, cujas horas necessárias não me abundavam, ou então era a permanência exclusiva em questões profissionais.
No entanto a minha curiosidade era sempre conhecer quem presidia à Casa da Covilhã, e, pelas notícias que na oportunidade eram veiculados nos semanários da região beirã, sobre o que se passava nesta Casa, confesso, com raridade, insuflavam-me algo de vontade em ver o seu novo rosto.
Mais tarde, as notas da imprensa regional que ligeiramente davam registo de a Casa da Covilhã acolher várias personalidades, ou eventos, enchiam-me de curiosidade.
Recordo-me de na presidência do falecido Abel Ribeiro Cunha, aqui foi recebida a equipa e dirigentes do SCC, que havia subido à I Divisão Nacional, em 1985, aquando da meia final da Taça de Portugal que veio disputar a Lisboa com o Benfica;  e também Jorge Vieira, antigo internacional e ídolo do SCP, então seu sócio n.º 1, e que esteve na fundação do SCC.
Na Covilhã algumas vezes interpelava o Clementino Xavier como corriam as coisas aqui pela Casa da Covilhã.
O século XXI traria algum período de turbulência a esta Casa, ficando fechada, sem qualquer tipo de atividade, entre 2006 e 2010. No entanto, um grupo de covilhanenses radicados em Lisboa, com vontade indómita em fazer renascer esta instituição, ao redor de um almoço mensal que ainda hoje mantêm, reativou a Casa da Covilhã.
Para se poder manter este barco a flutuar em águas tranquilas foi necessário o surgimento de dirigentes tenazes, suando a camisola com o nome da sua Terra, e é desta feita que esta instituição tem atingido os seus objetivos através de iniciativas de caráter cultural e recreativo e dando a conhecer a gastronomia da nossa região, atividades que me escuso de salientar por já serem sobejamente conhecidas, devidamente divulgadas não só pela Casa da Covilhã, mormente através das redes sociais, como também pela imprensa regional, mas, contrariando um pouco o que acabo de dizer, seria grave esquecer as noites de fado, nesta Casa, e a recriação da Feira de S. Miguel que proporciona uma das maiores concentrações de Covilhanenses em Lisboa. Nunca se viu tanta gente da nossa gente a vir agora aqui apresentar as suas obras literárias, as suas poesias, e a sua arte. É obra!
Se eu, como inicialmente referi, entrei pela primeira vez nesta Casa, há quase meio século, pois bem, esta Instituição vai agora a caminho do Centenário. Entre ventos e marés, ela vai desenhando o seu percurso com a bandeira desfraldada da Covilhã, com notoriedade, e é assim que o caminho se faz caminhando.
Efetivamente, chegámos à conclusão de que são 96 primaveras! Pudera, se o Boletim da Casa da Covilhã de 1949 assinalava as Bodas de Prata, obviamente que a sua génese já vem de 5 de janeiro de 1924 e não 1929, ainda que tenha sido “autorizada a sociedade de recreio Grémio Covilhanense” neste último ano. Igualmente José Mendes dos Santos, no seu livro “Breve História Cronológica da Covilhã”, refere a sua fundação a junho de 1924.
Depois da Rua da Mouraria, 24,1º, passaria para o Largo do Caldas, nº 8, e em 1 de junho de 1940, neste nº 150-1º B, na Rua do Benformoso. Assim também me referi no Boletim Informativo n.º 1, online, de dezembro de 2014, da Casa da Covilhã, sob o título “Ressurgimento”.
“No dia 18 de junho de 1949, na Sessão Solene comemorativa da passagem do 25º. Aniversário foi inaugurada, festivamente, mais uma Estante da nossa Biblioteca”, referia-se assim o Boletim da Casa da Covilhã já mencionado.
Deixo aqui um apelo para que façam mais um esforço no sentido de organizarem a Biblioteca, onde existem muitos autores Covilhanenses.
Pois bem, queremos continuar a entrar na porta 150 desta Casa, no âmbito da nossa “Beiranidade” já que ficámos fartos de saber que o 10 é do Downing Street, lá para outras bandas a transvazar a Europa.
Parabéns à Casa da Covilhã – a nossa Casa na capital –, e também a todos os seus obreiros, com realce para esta sua dinâmica Direção.
Obrigado.

(Minha palestra na Casa da Covilhã, no dia 15-02-2020)

19 de fevereiro de 2020

ANIVERSÁRIO DA CASA DA COVILHÃ EM LISBOA


A caminho da Capital, no Intercidades. É sábado, 15 de fevereiro e são 7,53. Tomamos os nossos lugares. Reparamos de imediato que os tabuleiros das costas dos nossos bancos e o chão, assim como um pouco por todo o lado, estão sujos de miolos de pão e lixo. O João Romano toma a iniciativa e apresenta reclamação ao revisor. Diz-nos tomar nota. E que tal situação não deveria acontecer. Pudera, são sempre quatro as funcionárias de limpeza que entram nas carruagens, no final das viagens, para a (in)devida limpeza – informa-nos. Ato cívico do companheiro de viagem. Esperemos agora a devida chamada de atenção às infratoras da limpeza. E que tal não se repita. O Tó Manel Rodrigues segue na carruagem da frente.
Chegada a Santa Apolónia. À nossa espera, lá se encontra o Presidente da Casa da Covilhã, Manuel Vaz Rodrigues. E agora já estamos no número 150 da Rua do Benformoso. O João Romano, delegado regional desta Casa, carregando com a caixa de pastéis de molho, sente um bálsamo nos seus braços ao deixá-la na cozinha. Damos uma espreitadela para a sala onde vai ser o evento. Tudo pronto, ou quase. Falta só colocar na parede o n.º 96 que faz sobressair o acontecimento. O Zé Ascensão Rodrigues, um pouco agitado, diz que não o coloca lá porque o tiraram. O homem da paciência, presidente da Casa, vai lá colocar o número. Corresponde ao aniversário.
A minha curiosidade vai para a biblioteca. É preciso ainda um longo trabalho. Há muitos livros oferecidos por covilhanenses que estão amontoados. Com dois dias a tempo inteiro resolvia-se o problema. Todos são voluntários. Mas viver em Lisboa não é viver na Covilhã.Compreensível.
Começam a chegar os Covilhanenses. Radicados a sua maioria na Capital, ou limítrofes. De raiz, uns; de coração, outros. De permeio, também alguns dirigentes da Casa da Covilhã: os meus amigos António Chorão, presidente do Conselho Fiscal, e a esposa; Luís António Ranito que vem de Alverca; Elói Cardoso Paiva, presidente da Assembleia Geral. Mas também os covilhanenses, do Ourondo, mas há muitos anos em Lisboa: Mário Tomé e seu primo Alfredo Tomé Carvalho. Recordam os tempos que passaram na biblioteca municipal da Covilhã, ao Jardim Público, nos tempos do Sr. Martins. Alfredo Tomé agarra-se à conversa. Cumprimentos a João Madeira Antunes, que também recordam nostalgicamente a antiga biblioteca municipal da Covilhã, e o Sr. Martins. Ficaram a saber que ele fora professor primário em Casegas e aí foram seus alunos o falecido Padre José Almeida Geraldes, antigo diretor do Notícias da Covilhã; e o professor doutor Arnaldo Saraiva. Um denominador comum é que quase todos passaram, nesse tempo, pelo seminário. No total, na sala, são 48 pessoas.
Chega o tesoureiro, José Hermínio Rainha. Aproveito e pago já a minha quota. O Tó Manel Rodrigues também faz o mesmo.
A Daniela Runa aproxima-se também. Não podia faltar. Ela é a vice-presidente da Direção. Para além de médica e fadista.
Os convidados começaram a chegar: o presidente da Câmara Municipal da Covilhã, Vitor Pereira; Nuno Cardona Almeida, covilhanense deputado pelo Círculo de Castelo Branco; e Carlos Martins, presidente da União de Freguesias da Covilhã e Canhoso.
O almoço inicia-se. Antes do partir do bolo aniversário, Manuel Vaz, presidente da Direção, sucintamente, em cinco pontos diz o que se fez e o que se pretende fazer. Há que dar voz aos mais novos. Nunca em tão pouco tempo foi conseguida uma lista para o próximo ato eleitoral. Está aí à porta. Seguiram-se as palavras de Carlos Martins, Nuno Cardona e Vitor Pereira.
A seguir coube-me a mim. Foi um convite honroso para falar sobre a Casa da Covilhã. Teria de ser breve, quão breve foram as restantes intervenções. E que não esquecesse de divulgar este evento nos semanários da nossa Região, que são ali muito desejados. Aqui fica o repto. O tema da inspiração: “Um pedacinho da Covilhã a caminho do Centenário”. Foram algumas estórias da história da Casa da Covilhã. Chegámos à conclusão de que são efetivamente 96 primaveras!
Muito haveria que dizer. O espaço não permite. Foi um êxito global. Termino conforme ultimei a minha palestra: “Queremos continuar a entrar na porta 150 desta Casa, no âmbito da nossa ‘Beiranidade’ já que ficamos fartos de saber que o 10 é do Downing Street, lá para outras bandas a transvazar a Europa”.
Parabéns à Casa da Covilhã – a nossa Casa na Capital –, e também a todos os seus obreiros, com realce para esta sua dinâmica Direção.

(In "Jornal fórum Covilhã", de 19-02-2020)