14 de outubro de 2020

150 ANOS DA CIDADE DA COVILHÃ, 110 ANOS DA IMPLANTAÇÃO DA REPÚBLICA

 

Como a Covilhã viu a chegada da República ao País

 

Todos nós, face ao longevo das datas, temos conhecimento dos acontecimentos por via da história, a nossa história, dos nossos avós, num contexto de fazermos parte da integração da própria História de Portugal.

Numa quinta-feira do dia 20 de outubro de mil oitocentos e setenta, D. Luís I, monarca português, reconhecia a Covilhã com a sua elevação à condição de Cidade, por ser “uma das villas mais importante do reino pela sua população e riqueza”.

Falar de figuras proeminentes da história covilhanense, da sua génese e da sua indústria e laboriosa luta das gentes covilhanenses, dos grandes empreendimentos e dos imensos anseios, da cidade universitária de hoje, já muito foi dito ao longo de muitos momentos nestes tempos que vão passando, e se encontram nos seus anais.

Tal como no centenário da elevação da Covilhã a Cidade, acontecido a uma terça-feira também o mesmo surgirá no mesmo dia de semana, nos seus 150 anos.

Mas porque muito pouco se ouve falar da Implantação da República, ocorrida há 110 anos, trago à curiosidade de quem gosta das efemérides, as reações que surgiram na Cidade da Covilhã por força dos acontecimentos surgidos, alongando-me na retrospetiva do assassinato de D. Carlos I, cujo Regicídio ocorreu naquele sábado do primeiro dia de fevereiro de 1908.

Na reunião da Comissão Administrativa Municipal, realizada em 12/02/1908, presidida pelo Dr. João das Neves, e com a presença dos vogais, Dr. Alfredo Leal dos Santos Gascão, Guilhermino de Melo e Castro, José da Fonseca Teixeira e António Bernardo da Fonseca e Cunha, além do Administrador do Concelho, José Maria de Campos Mello, o vogal, Guilhermino de Mello e Castro propôs que se celebrassem solenes exéquias em sufrágio das almas de Sua Majestade o Senhor D. Carlos I, e de Sua Alteza o Príncipe Real, D. Luís Filippe.

Por proposta do vogal, Sr. Teixeira, deliberou a Comissão adquirir um retrato de Sua Majestade El-Rei D. Manuel II, para a sala das sessões. Foram recebidos telegramas de Suas Majestades El-Rei e das Rainhas D. Amélia e D. Maria Pia, agradecendo as condolências da Comissão.

“Aos seis dias do mês de Maio de mil novecentos e oito, pelas duas horas da tarde, nos Paços do Concelho e de regresso de solene Tedeum celebrado na Igreja de Santa Maria Maior desta cidade, a que todos os abaixo assinados assistiram em acção de graças pela aclamação de Sua Majestade El-Rei D. Manuel II, tendo feito a guarda de honra o Regimento de Infantaria 21, constituiu-se em sessão extraordinária e solene a Câmara Municipal da Covilhã, sob a presidência do Exmº. Senhor Dr. Luís Neves Alves Batista (…)”.

Sobre a Implantação da República em 5 de outubro de 1910:

11 de outubro de 1910 – “Nos Paços do Concelho, pelas duas horas da tarde, onde se reuniu muito povo e oficialidade do Infantaria 21, compareceu o cidadão Senhor António Firmo, que, assumindo a presidência da Assembleia leu um alvará do Exmº Governador Civil do distrito de 10 do corrente que nomeia a seguinte COMISSÃO para administrar os negócios deste município, em substituição da antiga CÂMARA MUNICIPAL. Presidente – António Firmo. Vogais efectivos – Júlio Henriques Nunes da Cruz, José Maria Rodrigues Garcia, João Alves da Silva, João da Silva Matos, Carmeno Supardo Bárbara, José Ferreira Bicho, Manuel d’Almeida Ribeiro, Luís Rodrigues Marques. Vogais substitutos – José Miraldes Tavares Cardona, Carlos Palhina, Manuel Olegário das Neves, João Paulo Rato, José Ferreira de Campos Dourado, José Ferreira Mendes de Castro, João António Moreira Leitão, José d’Almeida Teixeira, Manuel Lino Roseta (…)”.

Entretanto, já na reunião do dia anterior, o Presidente em exercício, José da Fonseca Teixeira disse “que tendo sido proclamada a República Portuguesa no dia 5 do corrente, na Capital, e sabendo por comunicação de seus colegas o desejo que tinham de aderir a este regime, justamente também nesta cidade, a República, convocara para esse fim uma sessão extraordinária, levando ao conhecimento do Exmº. Comandante Militar, no dia 8 do corrente, o desejo desta Corporação.

A Câmara, aprovando a resolução do Senhor Presidente, deliberou por unanimidade, interpretando o sentir de todos os munícipes do concelho, proclamar desde já, com toda a solenidade, a República Portuguesa; e com manifestação de regozijo ainda pelo advento de um regime de que tanto necessitava o país, a fim de resolver todos os problemas económicos e progresso para o seu desenvolvimento e bem-estar – levantar a sessão – dar feriado a todos os seus empregados e enviar ao Exmº. Presidente do Governo Provisório da República o seguinte telegrama: A Câmara Municipal da Covilhã, reunida em sessão extraordinária, interpretando o sentir unânime dos munícipes de todo o concelho, aderiu à proclamação da República Portuguesa, saúda e felicita o Governo Provisório e faz votos pela prosperidade da sua querida Pátria.

Pelo Senhor Vereador Dr. Alfredo Gascão, foi proposto e aprovado pela Câmara, retirar da sala das sessões o retrato do rei deposto, ficando em seu lugar o estandarte do município para ser substituído oportunamente pelo busto simbólico da República. Em seguida, foi também deliberado iluminar hoje o edifício dos Paços do Concelho, e que desta acta se envie cópia ao Exmº. Comandante Militar”.

José da Fonseca Teixeira foi sócio fundador dos Bombeiros Voluntários da Covilhã e nomeado Comandante da Corporação em 14/12/1886 e também Presidente da Direção. Foi ainda o primeiro Diretor da Escola Industrial Campos Melo e seu professor.

Nas Comemorações dos 150 anos da elevação da Covilhã a Cidade, votos do maior progresso em prol dos Covilhanenses de raiz e de coração. Parabéns à Covilhã!

(In "Notícias da Covilhã", de 15-10-2020)

 

QUANDO UM PRESIDENTE ENTRA COM A MONARQUIA E SAI COM A REPÚBLICA

 A data de 5 de outubro de 1910 foi há 110 anos. Os pontos nevrálgicos da passagem de testemunho forçado, da Monarquia para a República, passaram-se na Rotunda – a Praça Marquês de Pombal assim oficialmente denominada desde 1882, embora popularmente seja ainda hoje conhecida como Rotunda, tanto pela sua configuração pouco comum na época, como por esta denominação ter sido reforçada na memória dos lisboetas pelo nome de estação do Metropolitano de Lisboa, que durou desde a sua inauguração em 29 de dezembro de 1959 até 1998. Só a partir desta data, a estação, já com duas linhas diferentes, passou a denominar-se Marquês de Pombal.

O nome popular de Rotunda individualizou-se por então as Rotundas serem pouco frequentes. Passou também a fazer parte da história por ter sido o local de concentração dos Republicanos no 5 de outubro de 1910.

Efetivamente, o regime político que vigorou em Portugal entre 1143 e 1910 – a Monarquia – composto por quatro dinastias sucessivas (Borgonha ou Afonsina, Avis, Filipina e Bragança), teve os seus êxitos. Sobressaíram-se as grandes conquistas que alargaram o território do País, e os descobrimentos que contribuíram para a primeira globalização e de novos mundos. Mas também teve os seus fracassos. Estes trouxeram consequências desastrosas para Portugal. Salientaram-se assim a Batalha de Alcácer Quibir, as Invasões Francesas e o Ultimato Britânico de 1890. Desta feita os senhores britânicos desrespeitaram o “Mapa Cor-de-Rosa” como agora querem desrespeitar o Brexit. Também a subjugação do país aos interesses coloniais britânicos, os gastos da família real, o poder da Igreja, a instabilidade política e social; depois a ditadura do beirão João Franco (natural do Alcaide, Fundão), Presidente do Conselho de Ministros; e a aparente incapacidade de acompanhar a evolução dos tempos e de se adaptar à modernidade levou a um “inexorável processo de erosão da monarquia portuguesa” do qual os defensores da República souberam tirar o melhor proveito. Foi o Partido Republicano que se apresentava como o único que tinha um programa capaz de devolver ao país o prestígio perdido e colocar Portugal na senda do progresso.

Fazendo uma retrospetiva de períodos antecedentes, depois do regime absolutista até à segunda década do século XIX, grupos militares do Porto conseguem impor-se fortemente no Campo de Santo Ovídeo (atual Praça da República) no dia 24 de agosto de 1820 e, pacificamente, depois de uma missa campal, proclamaram solenemente o Manifesto aos portugueses, exigindo a convocação de Cortes para elaborar uma Constituição. Foi a base da ação e da vitória das forças liberais de D. Pedro, depois do desembarque dos bravos do Mindelo em julho de 1832. Esta Revolução de 1820 deu lugar à Constituição de 1822. Sobre este assunto já me havia referido num outro artigo.

Volvidos 70 anos da Revolução Liberal do Porto surge o Ultimato Britânico como atrás verificámos, e, no reinado de D. Carlos, a pronta cedência às exigências britânicas foi vista como uma humilhação nacional, iniciando-se um profundo movimento de descontentamento em relação ao monarca, à família real e à instituição da monarquia, vistos como responsáveis pelo alegado processo de decadência nacional. A situação agravou-se com a crise financeira ocorrida na última década do século XIX, quando as remessas dos emigrantes do Brasil caíram abruptamente. Os republicanos souberam aproveitar este descontentamento e iniciaram um crescimento e alargamento da sua base social de apoio que acabaria por culminar no derrube do regime.

Na cidade do Porto, no dia 31 de janeiro de 1891 registou-se um levantamento militar contra a monarquia constituído principalmente por sargentos e praças. Os revoltosos, que tinham como hino uma canção – A Portuguesa – tomaram os Paços do Concelho e proclamaram a implantação da República em Portugal. O movimento acabaria pouco depois por ser sufocado, resultando nalguns mortos e feridos e muitos deles condenados, sendo A Portuguesa proibida. Este símbolo nacional de Portugal nasceu como uma canção de cariz patriótico em resposta ao ultimato britânico que defendia o abandono das posições portuguesas em África no território compreendido estre as colónias de Moçambique e Angola. Daí que, ainda que sem autenticidade, se tenha considerado que a parte dos versos do hino “Pela pátria lutar! Contra os canhões marchar, marchar!” tivesse sido inicialmente “Contra os bretões, marchar, marchar!”. Foi a primeira grande ameaça sentida pelo regime monárquico. Apesar dos evidentes êxitos eleitorais alcançados pelo movimento republicano, o setor mais revolucionário do partido pedia a luta armada como melhor meio de tomar o poder a curto prazo. E assim, surge o regicídio de 1908, com o assassinato de D. Carlos e do príncipe herdeiro Luís Filipe, tendo também morrido os regicidas Manuel Buíça, professor primário, e Alfredo Costa, empregado do comércio e editor.

Já no ano 1910, com o D. Manuel II à frente dos destinos de Portugal, a 3 de outubro deste ano estalou a revolta republicana que já se avizinhava no contexto da instabilidade política. Esta acabou por suceder graças à incapacidade de resposta do governo de Teixeira de Sousa, que não conseguiu reunir tropas que dominassem os cerca de duzentos revolucionários que na Rotunda resistiam de armas na mão.

Entretanto, encontrava-se de visita de Estado a Portugal o presidente brasileiro Hermes da Fonseca. Na véspera do 5 de outubro, com as tropas da guarnição da cidade de prevenção, o presidente brasileiro ofereceu a D. Manuel II um jantar em sua honra, tendo depois o monarca português recolhido ao Paço das Necessidades. As gentes em prol da República encontravam-se agitadas e não dormiam. Havia tiroteio aqui e ali. Até o almirante Cândido dos Reis se suicidou pensando que tudo falhara e a implantação da República não ia por diante. Entretanto, lá estava novamente a Rotunda, num aparente sossego que desalentava de tal maneira os revoltosos que os oficiais acharam melhor desistir. Mas a persistência de Machado dos Santos, ao assumir o comando, toma uma decisão que viria a ser fundamental para o sucesso da revolução. Entretanto, D. Manuel II recusou-se a partir mas viu-se obrigado a refugiar-se numa pequena casa no parque do palácio de onde conseguiu telefonar a Teixeira de Sousa. Foi aconselhado a chamar a Mafra as rainhas D. Amélia e D. Maria Pia que estavam nos Palácios da Pena e da Vila, em Sintra, preparando-se para seguir para o Porto para aí organizar a resistência. À noite do dia 4 a moral encontrava-se baixa entre as tropas monárquicas.

Às 9 horas da manhã, no edifício da Câmara Municipal de Lisboa, era proclamada a República por José Relvas, após o que foi nomeado um Governo Provisório.

D. Manuel II, com a família, via-se forçado a seguir para o exílio em Londres.

Em 1910, a grande maioria dos Estados europeus eram monarquias. Apenas a França, Suíça e San Marino eram repúblicas.

Como o presidente do Brasil, marechal Hermes da Fonseca, presenciou pessoalmente todo o processo de transição do regime, tendo chegado a Portugal em visita oficial quando o país ainda era uma monarquia e saída já na república, não foi de estranhar que tenha sido o Brasil o primeiro país a reconhecer de jure o novo regime político português.

(In "Jornal fórum Covilhã, de 14-10-2020)

2 de outubro de 2020

Jornal "O OLHANENSE" - Falando com o nosso colaborador João Nunes

 

Natural da Covilhã, João de Jesus Nunes é colaborador do nosso jornal vai para mais de vinte anos e, por esse facto, muitos nos questionam quem é este Homem que nos escreve da Região mais alta de Portugal, com a pontualidade de um relógio suíço. Aqui mantém uma rubrica de elevado interesse, muito apreciada pelos nossos leitores.

Para sabermos tudo isso e muito mais, já que a tecnologia assim nos permite, “conversámos” com este homem de letras que foi funcionário de uma Companhia de Seguros e depois empresário na atividade seguradora, e hoje, como passatempo, vai escrevendo para diversos periódicos de entre os quais o jornal “O Olhanense”.

Feita esta breve apresentação, “disparámos” a primeira pergunta:

 


Jornal “O Olhanense” (JO): - Apesar da nossa apresentação, diga-nos quem é verdadeiramente João de Jesus Nunes e como surgiu o gosto pela escrita.

João de Jesus Nunes (JN): - Em primeiro lugar quero agradecer o amável convite deste quinzenário, na pessoa do seu diretor adjunto e amigo Mário Proença. Nasci num lugar paradisíaco, a Pousadinha, pertencente à freguesia de Aldeia do Carvalho, hoje vila, do concelho da Covilhã, e que atualmente integra a União das Freguesias de Cantar-Galo e Vila do Carvalho. A minha génese provém de uma família simples e que foi repleta de dificuldades, como a maioria das pessoas da época, pós-II Guerra Mundial. Sou o segundo de seis irmãos, tendo já falecido duas irmãs. Paradoxalmente, o lugar, apesar de paradisíaco, não possuía na altura as infraestruturas necessárias para uma habitação condigna, entre as quais, eletricidade, água canalizada e saneamento. Um dos pecados do Estado Novo e dos seus séquitos autárquicos, por mais vontade que tivessem para alterar um estado mórbido desses tempos.

Depois, os iletrados eram de uma enorme percentagem, o que dificultava a convivência cultural, onde o ponto de reunião eram as tabernas, e, durante a semana, após o regresso das fábricas de lanifícios onde se empregava a maioria da população (mesmo ainda menores), aproveitavam as horas que sobravam dos tempos livres para tratar dos seus pequenos terrenos agrícolas.

JO: - Tendo nascido na Pousadinha, lugar paradisíaco mas de muitos iletrados à altura, como refere, quanto tempo lá viveu e como se sentiu nesse ambiente?

JN: - Ali vivi com os meus pais e irmãos, todos vindos ao mundo em casa, excetuando-se o mais novo que já viria a nascer na maternidade do hospital da Covilhã; os avós e tios até aos sete anos de idade, sendo que nós éramos os mais velhos de todos os primos que viriam a nascer. Fica-me na memória toda a paisagem envolvente em zona de pinhal, e, no horizonte, os casarios que identificávamos serem a Covilhã, a quatro quilómetros, e as freguesias rurais e de outros concelhos limítrofes, mais distantes. Não havendo ali energia elétrica, as noites de luar ajudavam um pouco as deslocações no escuro dos caminhos, onde surgiam muitos pirilampos; e as miríades de estrelas davam mais a nitidez da grandiosidade do Universo na pequenez do Planeta e, acima de tudo, de nós como humanos. Havia o sossego que contrastava, a poucos quilómetros, com o barulho ensurdecedor dos teares das fábricas de lanifícios.

25 de setembro de 2020

HÁ QUE CONTINUAR A DAR FORÇA À VIDA

 A maioria dos Combatentes do Ultramar já ultrapassou os 65 anos. Na generalidade quase podemos dizer que se situam acima das sete décadas de vida. Como se costuma dizer, a idade não perdoa. Por isso, as nossas vontades indómitas vão forçosamente perdendo alguma vitalidade. Nos tempos que correm, em tempo de pandemia, muitos de nós temos de nos preservar da envolvência em ações de risco, porque somos pessoas de risco. Esta última palavra diz muito à nossa juventude de então; ou seja, dos já longos tempos do segundo ano da década de sessenta a meados da de 70, do século transato, que por todos nós já passou; de onde o perigo era iminente. Foram muitas vicissitudes na perigosidade constante duma guerra não desejada. Longe da família. Longe de um fim de semana. Longe de tudo. Queríamos imaginar um sorriso aos entes queridos deixados na Metrópole. Quantas folhinhas desdobráveis chamadas aerogramas não terão sido utilizadas! Para chegarem ao destino passado não sei quanto tempo…  Surgiriam as primeiras tatuagens, algumas exuberantes, no braço direito de alguns soldados: “amor de mãe”. E quando algum ferido grave soltava desesperado aquele espontâneo grito pela mãe, sentiam algum bálsamo quando alguma jovem enfermeira paraquedista, ou nos hospitais, tentava atenuar as suas dores. Esta, uma de várias e muitas situações do risco concretizado que então se corria todos os dias.

Noutro contexto, mas similar, são os tempos que correm com o COVID 19. Quantos Combatentes, ainda dominados pelas patologias resultantes da exposição a fatores traumáticos de stress durante a sua permanência no Ultramar, urgem da necessária prestação de serviços de apoio médico, psicológico e social, e se refugiam nos Corpos Médico e de Enfermagem, e nos Psicólogos, a que estão afetos, variadíssimas vezes por via dos Núcleos da Liga dos Combatentes da sua área. Tal como nos tempos da guerra subversiva, são agora esses Homens e Mulheres dos Serviços de Saúde em Portugal que se encontram na linha da frente tentando vencer um inimigo invisível, que tem conseguido dominar exércitos, tratando democraticamente grandes e pequenas potências. O vírus, esse inimigo desconhecido, mas potente e invisível, omnipresente e mortal do homem, com prevalência para os mais idosos e fragilizados, tem sido ocasião de muitos tormentos para muita gente da nossa gente, onde se englobam os Combatentes do Ultramar e suas famílias.

Depois de muita tinta, e muitos esforços da Liga dos Combatentes, com destaque para o seu Presidente da Direção Central, Tenente-general, Joaquim Chito Rodrigues, conseguiu ser aprovado o Estatuto do Antigo Combatente. Assim, a comissão parlamentar da Defesa Nacional aprovou no dia 15 de julho, na especialidade, por unanimidade, a maioria dos artigos do novo Estatuto do Antigo Combatente. E, em 20 de agosto, no Diário da República, por força da Lei n.º 46/2020, foi definitivamente aprovado o Estatuto do Antigo Combatente.

Procedeu assim à sétima alteração ao Decreto-Lei n.º 503/99, de 20 de novembro; à primeira alteração à Lei n.º 9/2002, de 11 de fevereiro; e à primeira alteração à Lei nº. 3/2009, de 13 de janeiro.

Salientamos alguns artigos:

Artigo 2.º - Âmbito da aplicação –  1 – São considerados antigos combatentes para efeitos do presente Estatuto:

a)       Os ex-militares mobilizados, entre 1961 e 1975, para os territórios de Angola, Guiné-Bissau e Moçambique;

b)      Os ex-militares que se encontravam em Goa, Damão e Diu, bem como em Dadra e Nagar-Aveli, aquando da integração destes territórios na União Indiana;

c)       Os ex-militares que se encontravam no território de Timor-Leste entre o dia 25 de abril de 1974 e a saída das Forças Armadas desse território;

d)      Os ex-militares oriundos do recrutamento local que se encontrem abrangidos pelo exposto nas alíneas anteriores;

e)      Os militares dos quadros permanentes abrangidos por qualquer uma das situações previstas nas alíneas a) a c).

2 – São ainda considerados antigos combatentes os militares e ex-militares que tenham participado em missões humanitárias de apoio à paz ou à manutenção da ordem pública em teatros de operação classificados nos termos da Portaria n. 87/99, de 28 de janeiro, publicada no Diário da República, 2.ª série, n.º 23, de 28 de janeiro de 1999.

3 – O Estatuto aplica-se apenas aos deficientes das Forças Armadas que estejam incluídos no âmbito dos números anteriores.

4 – O Estatuto não prejudica a natureza e as necessidades específicas dos deficientes das Forças Armadas, nem exclui a possibilidade de adotarem um estatuto próprio, tendo em conta o regime legal específico que lhes é aplicável.

5 – As disposições previstas no presente Estatuto aplicam-se ainda às viúvas dos antigos combatentes identificados no n.º 1 do presente artigo naquilo que, estritamente, lhes for aplicável.

Artigo 3º. – Dia do antigo combatente

             1 – Como forma de reconhecimento aos antigos combatentes identificados nos termos do artigo anterior pelos serviços prestados à Nação, é estabelecido o dia do antigo combatente, para que sejam relembrados, homenageados e agraciados pelo esforço prestado no cumprimento do serviço militar.

             2 – O dia do antigo combatente é celebrado anualmente no dia 9 de abril, data em que se comemoram os feitos históricos dos antigos combatentes por Portugal.

            3 – Não obstante o disposto no número anterior, o Estado, através do Ministério da Defesa Nacional, pode evocar a memória e feitos dos antigos combatentes no Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades e no dia 11 de novembro, data em que se comemora o fim da Primeira Grande Guerra, em colaboração com a Liga dos Combatentes e as associações de antigos combatentes.

Com surpresa verificamos que os militares que foram mobilizados para os territórios de Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste até 24 de abril de 1974, em missão de soberania e com obrigações idênticas aos visados nos números do artigo 2.º, que até aqui eram notoriamente considerados antigos Combatentes, constam deste novo Estatuto duma forma pouco abonatória para os mesmos, na minha maneira de ver, integrados no âmbito da Portaria nº. 87/99, de 28 de janeiro, na forma ambígua de interpretação, no que concerne à designação de “militares envolvidos em missões de paz e humanitárias ou que cumpram ações de cooperação técnico-militar, fora do território nacional”, em países de classe A, B ou C. 

(In "O Combatente da Estrela", n.º 120, setembro 2020)

 

CONTE-NOS A SUA HISTÓRIA - Rui Manuel da Conceição Martinho Marques

 

Neste número trazemos a este espaço um antigo combatente cujo cariz peculiar é a alegria com que se depara perante os amigos. Naquele adjetivo, ou locução francesa que se designa por um bon vivant.

Duma família de quatro irmãos, todos conhecidos da Cidade onde nasceram – os Martinho Marques –, é do Rui que esta pequena estória da história dos antigos combatentes, cuja rubrica foi criada para memória individual de factos das suas passagens pelas antigas colónias, vamos tratar.

Nasceu na Covilhã, na freguesia de Santa Maria (bastou para isso vir ao mundo no antigo Hospital da Santa Casa da Misericórdia da Covilhã), no primeiro dia do mês de dezembro do ano da graça de 1950.

Tendo frequentado o curso geral do comércio na então Escola Industrial e Comercial Campos Melo, dispersaria, no entanto, o seu tempo de estudante e não o acabaria por concluir. Mas, como ocupações profissionais, teve uma mão cheia delas. Na Covilhã teve o seu primeiro emprego na Casa Ilídio, seguindo-se no escritório da fábrica de pastéis, a S. Silvestre, de Artur Almeida Campos. Os ventos voltam-no para trabalhar na Companhia de Seguros Tranquilidade, mas logo a seguir, num estabelecimento comercial de fazendas, de José Garrido dos Santos. Não fica por aqui, e é o estabelecimento comercial de Camolino & Cª que lhe dá seguimento à sua vida profissional, sempre naquela de jovem folgazão, seguindo-se um novo estabelecimento comercial de fazendas – Gomes & Cª., até que vem experimentar nova vida noutro estabelecimento comercial da Cidade – os Lanifícios Montestrela.

Chega a altura do serviço militar obrigatório, pelo que é incorporado no Exército. Assentou praça no Regimento de Infantaria 7 (RI 7), em Leiria. Destinava-se ao curso especial de Sargentos Milicianos. No entanto, como bon vivant em ambiente de tropa (não sendo lá muito aconselhável), viria a ter alguns sobressaltos que para o Rui pouco significado tinham, face à sua peculiaridade de vida.

Do RI 7 desenfiou-se para casa, na Covilhã, com um camarada que o ficou de ajudar… mas, como ficou mais de três dias ilegalmente, a pena de 15 dias de prisão disciplinar agravada que o Rui não se importa de aqui relatar, aconteceu. Estava ainda no período de recruta, sendo então enviado para Coimbra para aí cumprir a pena. Só que daqui transferiram-no para Faro. Regressaria ao RI 7, em Leiria, onde aqui fez o Juramento de Bandeira.

Entretanto, em Coimbra, onde começara a cumprir o castigo imposto, no Regimento de Serviço de Saúde, tirou a especialidade de Enfermeiro. Depois da passagem por Faro, ainda esteve nas unidades militares de Elvas, Évora e Santa Margarida.

Em Santa Margarida foi mobilizado para Angola, onde esteve de 1971 a 1974, integrando a Companhia CART 3516. Foi de avião com a Companhia até Luanda, ficando em Grafanil durante 8 dias. Seguiu para Bessa Monteiro. Aqui esteve durante 18 meses. É então que segue para Quimaria norte, onde completou o tempo de serviço militar.

Durante toda a comissão de serviço em Angola tiveram dois ataques, na Pedra Verde, tendo morrido um soldado e dois feridos.

E em 30 de maio de 1974, já depois do 25 de Abril, regressou à Metrópole, também de avião.

Retomando a sua atividade profissional, em Portugal, foi funcionário do Banco Borges & Irmão, em Coimbra e depois na Covilhã, onde se aposentou.

Tem uma filha e um filho, e é divorciado. Vive atualmente nas Penhas da Saúde – Serra da Estrela.

(In "O Combatente da Estrela", n.º 120, de setembro 2020)



E. M. DE MELO E CASTRO, O AUTOR COVILHANENSE QUE FEZ EMERGIR A POESIA EXPERIMENTAL PORTUGUESA


 Residia no Brasil e tinha 88 anos. O poeta covilhanense, escritor, ensaísta, precursor da Poesia Concreta Experimental e Visual em Portugal faleceu em São Paulo na noite de 29 de agosto.

E. M. de Melo e Castro, como assinava, era uma figura multifacetada, autor de uma obra caraterizada pela construção de experiências com vários materiais e vários média, tendo a sua ação sido particularmente marcante na emergência da poesia experimental em Portugal.

Filho de Ernesto de Campos Melo e Castro, antigo diretor da Escola Industrial e Comercial Campos Melo da Covilhã, onde ambos foram professores, sua mãe era Maria Gonzaga de Campos e Melo Geraldes, tinha duas filhas, Eugénia de Melo e Castro e Alberta Melo e Castro. Foi casado com a conhecida escritora e poetisa Maria Alberta Menéres, com grande obra infantojuvenil, que, com ele organizou a “Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa”.

Licenciou-se em Engenharia Têxtil pela Universidade de Bradford (1956); terminou o doutoramento em Letras pela Universidade de São Paulo (1998). Foi professor no Instituto Superior de Arte, Design e Marketing (IADE) e na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Brasil.

A sua prolífera atividade artística foi apresentada em numerosas exposições coletivas, em Portugal e no estrangeiro.

Sobre esta figura ímpar covilhanense, de grande projeção no País e Brasil foi, como atrás referimos, professor na Escola Industrial e Comercial da nossa geração, nos anos sessenta. Daí que alguns dos seus antigos alunos promoveram com ele um convívio na Senhora do Carmo – Teixoso, de feliz memória para  todos, pelo que insiro o texto que publiquei sobre este evento nalguns periódicos, evento este realizado em junho de 2015 e do qual recordou aquando da homenagem que lhe foi efetuada pela  edilidade covilhanense em maio de 2016, informando-me que duma recolha de memórias que estava a preparar contava inserir o texto abaixo.

 “SAUDADE E AMIZADE DE MÃOS DADAS (1)

Pois é, também lá estive!... Neste matar de saudades de outros tempos – os da então Escola Industrial e Comercial Campos Melo – fábrica do ensino para muitos obreiros da indústria rainha de então – os lanifícios, nesta Terra – a minha Covilhã – daquela têmpera forte de Viriato, dos Montes Hermínios!

Havia lido algures que antigos alunos da Escola Campos Melo, onde o Engº. Ernesto Manuel Melo e Castro lecionou iam confraternizar com ele, vindo do Brasil, num almoço-convívio, ali para as bandas do Teixoso.

Inscritos eram só os alunos dos Cursos Técnico de Tecelagem e Debuxo… mas, qual “intruso”, cabia-me fazer o papel tipo “Crónica dos Bons Malandros”, de Mário Zambujal, já que eu era do Curso Geral do Comércio, e, desta vertente, fui o único presente na confraternização, participando também da felicidade dos outros antigos colegas.

- “Trouxeste a máquina fotográfica?” Logo na minha receção, a voz do Gregório Menina, que isto de ajudar na entrada lá estava o João Lázaro, o pequeno grande jogador dos tempos dos Leões da Serra… que outro, também tendo envergado a camisola verde-branca, briosamente, estava lá dentro – Jorge Cipriano, vindo do norte.

Os cumprimentos na mistura de alguma curiosidade lá prosseguiam: à entrada, sentado já estava o poeta, escritor, mas antes o antigo professor de debuxo, junto de sua filha Maria Alberta; e, com orgulho do seu professor, o Américo Maceiras Caetano, promotor da iniciativa, que veio de Vila Nova de Famalicão, lhe mostrava o seu 1º. Livro de Debuxo.

- “Olha o Aníbal Gonçalves, do Retaxo!” “E tu, quês és?” “O Neto”. “Eh! Pá, desculpa que não te conhecia, és o Olívio Costa Neto!”

As entradas, o bom vinho da região… e, não faltou o belíssimo pão-de-ló.

José Esteves Patrocínio veio de Torres Vedras; e, enquanto o Ferreira Andrade me mostrava umas fotos antigas, de antigos colegas do 2.º ano do Curso Técnico de Tecelagem, em conversa com o Jorge Almeida, entrava o também antigo professor, Engº. César Oliveira, que fôra colega do homenageado.

João José Milhano recordava os tempos de meu vizinho, junto à Escola Industrial, e, sequenciando, chegavam outros, ou já entre si cavaqueavam, entre eles, o Cravino, Carlos Gouveia, Jerónimo Serra, António Nave, João António Coelho.

Já havia chegado o Rui Pereira, com o filho, quando se avista o Jorge Trindade e o Castro Martins; da Figueira da Foz não quis deixar de estar presente o Jorge Correia, acompanhado da esposa. Eram mais de três dezenas, onde estava também o Mangana e o Prof. Dr. Santos Silva.

Na altura do café, eis que o José Rosa Dias, da organização, dita de sua justiça: vão falar, em nome dos antigos alunos, o Américo Maceiras Caetano; em nome dos antigos professores, o Engº. César Oliveira; e encerra o Engº Ernesto Melo e Castro.

Neste feliz encontro de antigos alunos do curso de Debuxo da Escola Industrial da Covilhã, como abreviadamente era conhecida, com os seus antigos professores de Debuxo, atrás referidos, num almoço muito bem servido, a festa foi permanente, na recordação de tempos idos, no matar de saudades.

Maceiras Caetano agradeceu a presença de todos; o Engº. César Oliveira recordou a sua passagem por Bradford na mesma altura do Engº. Ernesto Melo e Castro, em 1956, altura em que conheceu Ernesto Melo e Castro, tendo este o ajudado a adaptar-se à nova realidade, uma vez que havia vários alunos da Covilhã e ele era o único de Lisboa.

No encerramento das breves palavras dos oradores, falou o Engº. Ernesto Manuel Geraldes de Melo e Castro (que vai a Itália participar num encontro de poetas), informando que, estando no Brasil, ficou muito sensibilizado por ter sido convidado para este almoço de confraternização, recordando que no período que exerceu a sua missão docente na Escola Campos Melo formou 143 debuxadores, também ele tendo aprendido ao longo desse tempo a ser cada vez melhor, tanto na área do debuxo como na área das letras: “Estava deprimido face a um grave problema de saúde, e dizia: o que é que eu agora faço? Vou ao Teixoso estar com os meus amigos. Vocês não foram os meus únicos alunos, foram os primeiros!” E falando sobre os tecidos, que têm vida, concluiu: “O tecido é uma metáfora da vida”.

Recordou ainda, nestes ambientes de repasto, o que dizia o professor de Religião e Moral, Padre Joaquim Santos Morgadinho, do seu tempo: “Tudo estava muito bom, mas o melhor prato foi o da confraternização”.

Por fim terminou: “Orgulho-me de ter sido vosso professor! Estou muito feliz!”

E, de facto, também todos saíram deste convívio, muito alegres, muito felizes.”

 

 (1) 



Deste convívio, para além do Eng.º Ernesto Manuel de Melo e Castro, também já faleceram os antigos Colegas Castro Martins, Gregório Menina, Jorge Correia, José Cravino e Aníbal Gonçalves.


(In "O Combatente da Estrela", nº 120, de setembro 2020)


17 de setembro de 2020

HISTÓRIAS PARA CONTAR EM REMINISCÊNCIAS PARA PERDURAR

 

Inserem-se na envolvente da vida daquele cidadão que, cruzando vários caminhos, encontrou um deles comum na sua perenidade.

Desde criança que via nas portas exteriores das casas, principalmente no meio rural, umas chapas metálicas, redondas ou retangulares, com o nome de companhias de seguros. Era sinal indicador de que aquele imóvel se encontrava seguro contra incêndio. Os meus avós lá tinham um da Europêa, muito para além depois de falecerem. (1)

Um senhor, de pasta na mão, anualmente ia cobrar a meu pai o seguro de incêndio do seu recheio de habitação, na Companhia de Seguros O Alentejo.

Anúncios luminosos acrílicos ou de outro material, na sua publicidade muitos deles significativos, como o das figuras do cão (Fidelidade), águia (Açoreana e a  A Mundial), Nuno Álvares (O Alentejo); outros muito sugestivos (A Pátria, Aliança Madeirense, Atlas, Bonança, Comércio e Indústria, Douro, Europêa, Mutualidade, A Nacional, Portugal Previdente, Sagres, A Seguradora Industrial, A Social); ou com o homem de negócios representando a Império; ou  D. Afonso Henriques, na Ourique; ou ainda uma caravela representando a Sociedade Portuguesa de Seguros; como a abelha representando a Companhia de Seguros O Trabalho, e, como não podia deixar de ser, o leão, na Companhia de Seguros União. Estas, uma pequena amostra, sem nomear as estrangeiras. Todas já desapareceram por encerramento ou fusão com outras, encimando-se ou lateralizando-se em posições estratégicas de estabelecimentos comerciais e edifícios.

Também a Covilhã teve a sede da Companhia de Seguros A Beira, fundada em 1918, na Praça do Município, nº 30, passando em 1922 a sede social para Lisboa, na Travessa da Espera, nº 8-2º. Explorava os ramos de Incêndio e Transportes. No ano de 1924 foi objeto de penhora e extinta.

Quando estudava lá vinham os seguros na disciplina de Direito Comercial, mas que, para mim, longe de um dia via a abraçar esta atividade de alto prestígio e de enorme importância para a economia do País e do Mundo, passava-me ao lado para além da memória dos símbolos referidos e de quando em vez por via de um sinistro de automóvel em que a polícia tinha que intervir em divergências de assunção de responsabilidade quando nessa altura ainda não havia seguro obrigatório de responsabilidade civil automóvel.

E em alguns fogos em habitações, que atingiam por vezes palheiros e estábulos de animais, mas longe da existência anual de época de incêndios florestais (o que era isso nessa altura?), lá surgiam as exclamações “tinha seguro” ou “não tinha seguro”, que se reportava exclusivamente ao de incêndio, pois que nas décadas de 50 e 60 do pretérito século ainda eram inexistentes os hoje “modernos” seguros multirriscos.

Vim a abraçar esta atividade como profissional na sua profundidade durante quatro décadas e ainda hoje, longe dessas responsabilidades, sou um apaixonado pela mesma.

Já retirado destas lides, um amigo de prestígio nacional, pediu-me para escrever a história desta atividade quando ela já estava contada, em diversas obras, por autores consagrados. Numa aventura desmedida comecei a entrar em buscas por caminhos, veredas e estradas mais acessíveis e lá saiu a obra, talvez um tratado de seguros, O Documento Antigo – Uma Outra Forma de ver os seguros – já em mais de centena e meia de bibliotecas municipais e instituições do País.

Deste vasto preâmbulo resulta na alegria de ver criado o Museu do Seguro que foi sempre um objetivo muito presente desde 2011, por iniciativa de uma dezena de pessoas ligadas profissionalmente a empresas de seguros, que teve em mente e o levou por diante até à sua concretização. Integram o Clube CHAPAS (Clube, História e Acervo Português da Atividade Seguradora). Se falei na alegria que senti, a coincidência é que o principal mentor e dinamizador deste Museu é o presidente do Clube CHAPAS e quadro superior da Fidelidade, Dr. Victor Alegria.

No entanto, a alma seguradora das gentes desta gente, levou à fundação do Museu Virtual do Seguro (MVS), mesmo em tempo pandémico, que ocorreu em 6 de agosto de 2020, contando, em apenas três semanas cerca de 5000 visualizações. Já existe o Museu físico em Lisboa, com exposições permanentes.

No entanto, “A criação do Museu do Seguro foi sempre um objetivo muito presente desde 2011, pela importância em divulgar a coleção que possuímos, e contar as suas histórias. Em setembro de 2017 a Associação Portuguesa de Seguradores (APS) e o Clube CHAPAS celebraram um protocolo de colaboração no âmbito da “exposição permanente” denominada “Memória do Seguro”, a instalar na sede da APS, a qual foi inaugurada em maio de 2019, e designada EPMS-Exposição Permanente Memória do Seguro. Até março de 2020 foram realizadas centenas de visitas guiadas à EPMS, sendo que por força da pandemia Covid-19 o espaço foi encerrado temporariamente”, informou numa entrevista ao jornal online ECO o Dr. Victor Alegria.

Os mais de 4000 itens da coleção destacam-se pela sua originalidade e revestem-se de inegável interesse histórico, evocando diversos aspetos da história do seguro, constituindo, desta forma, uma fonte importante para o estudo e compreensão desta atividade, refere ainda o mentor do MVS.

Pela minha parte, já entreguei naquela instituição diverso material alusivo à atividade, mas os responsáveis continuam a solicitar que lhes façam chegar documentos, peças e as histórias para memória futura.

 

 

(1) Esta chapa, já oxidada, da Companhia Europeia de Seguros, esteve colocada durante mais de setenta anos, na casa de que o signatário é um dos herdeiros, e que ali permaneceu durante o tempo dos seus avós, na Pousadinha (Covilhã), ininterruptamente, na porta exterior do prédio. Foi oferecida ao Museu dos Seguros.

(In "Jornal fórum Covilhã", de 16-09-2020)





Figuras proeminentes do Ensino doutros tempos - Professores de Eleição: JOSÉ EDUARDO DOS SANTOS TENDEIRO

 

Trago à memória dos que gostam destas “coisas” do passado, um pouco sobre o tema que reporto. Para que não se esfumem as estórias das nossas histórias de vida, autênticas narrativas que o tempo acabará por encobrir.

O ensino de hoje é diferente, cada vez mais científico, envolvido pelas tecnologias que vão emergindo constantemente.

O ensino de antigamente, sensivelmente até à década de sessenta, apoiava-se na memorização das matérias e, por imposição do regime de então as figuras notórias da nossa História eram empoladas escondendo as suas vivências nem sempre exemplares como agora se sabe.

As várias disciplinas do currículo de então obrigavam as crianças a um esforço de memória dos rios às serras, passando pelas ferrovias até das colónias ultramarinas.

De um modo geral havia bons professores alguns de excelência e, neste quadro, na minha quarta classe frequentada no Asilo – Associação Protetora da Infância da Covilhã – tive a felicidade de ter o professor José Eduardo Santos Tendeiro que habilmente ia “ignorando” alguns exageros nacionalistas sem contudo desprezar a preparação para o exame da quarta classe que, à luz de hoje era uma “barbaridade” e preparar alguns de nós para o exame de admissão ao liceu e escola industrial e comercial, outro tormento para crianças de dez anos.

Por felicidade de ambos, ainda convivo com o meu antigo professor da quarta classe, que tive em 1957/58, José Eduardo dos Santos Tendeiro, hoje com 82 anos. Natural de Elvas veio para a Covilhã onde exerceu a sua missão de professor no Asilo – Associação Protetora da Infância, onde eu andava. Depois voou para outros destinos, incluindo o serviço militar em Angola, nos primórdios da guerra, tendo sido chamado por duas vezes. Casou com uma colega e radicou-se na Covilhã.

Nunca mais nos havíamos encontrado até que em agosto de 1995, numa viagem a Itália, fui encontrá-lo como companheiro de viagem, tendo-lhe memorizado a minha presença na qualidade de seu antigo aluno. Quase quatro décadas sem darmos conta um do outro.

A partir deste feliz encontro, cimentámos uma real amizade, e daí o início de participações em interessantes ações culturais, numa colaboração mútua, quer por via do órgão do Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes, quer em publicações e eventos culturais comuns.

De extraordinária simpatia, num trato invejável, procurei na sua pessoa as opiniões julgadas necessárias para alguns dos meus trabalhos, onde teve um cunho marcante de intervenção. Isto porque encontrei aquele professor de outros tempos, de excelência.

O professor J. Eduardo Tendeiro teve os primeiros prémios literários com trabalhos para a Semana das Colónias e para a celebração escolar no dia 10 de junho. Posteriormente foi distinguido em Jogos Florais dos quais destaca os “Jogos Florais Luso-Brasileiros”.

Exerceu funções de inspeção integrado por concurso no Quadro Superior da Inspeção-Geral de Educação até à sua aposentação, tendo anteriormente lecionado nos primeiro e segundo ciclos do ensino oficial e participado em experiências do ensino programado. Cooperou em atividades da Telescola como Assistente das classes que tinham proliferado pelo País.

Chamado de novo às fileiras do Exército em 1961, frequentou o estágio de Caçadores Especiais no Centro de Instrução de Operações Especiais (CIOE) em Lamego e integrou a Companhia de Caçadores Especiais n.º 306 com destino a Angola, onde chegou a 12 de maio de 1962, seguindo para o norte da “província”. Aí, durante cerca de um ano, enquanto sargento de transmissões, foi anotando vivências suas e relatos dos companheiros de armas que mais tarde lhe serviram de base para a compilação de episódios com a tónica posta no stress dos combatentes que se prolongou muito para além do fim da guerra. Daqui viria a publicar, em julho 2017, o livro “Danos Colaterais”.

Colabora pontualmente nas revistas “Combatente”, “O Combatente da Estrela”, edição do Núcleo da Covilhã; teve participação na coletânea “A Mulher Portuguesa na Guerra e nas Forças Armadas”, edição da Liga dos Combatentes – 2008 e na edição da Quidnovi “Guerra Colonial – A História na Primeira Pessoa” (2011). Escreve ainda na Revista da Academia Sénior da Covilhã da qual é Sócio Fundador, agraciado com Diploma de Sócio de Mérito.

(In "Notícias da Covilhã", de 17-09-2020)

9 de setembro de 2020

HÁ 200 ANOS O PRIMEIRO PASSO PARA EDIFICAR UM PORTUGAL MODERNO

 

Um ano antes (15 de junho de 1819) já o jovem estudante de Leis, Almeida Garrett, inseria, numa nota a uns versos, no Porto, um dos seus ditos mais célebres: “Se na nossa cidade, há muito quem troque o b por v, há muito pouco quem troque a honra pela infâmia, e a liberdade pela servidão”. Parecia que os seus desabafos não caíam em saco roto. Como que adivinhava.

O dia 24 de agosto de 1820, há precisamente 200 anos, era decisivo para construção do Portugal contemporâneo. O derrube da monarquia absoluta e a construção de um novo regime de monarquia constitucional.

Tal como aquando do 25 de Abril de 1974, também o sucesso do pronunciamento militar se ficou a dever a uma cuidadosa preparação a cargo dos magistrados e homens de negócio que integravam o Sinédrio, uma associação política criada em janeiro de 1818. O respeitável magistrado Manuel Fernandes Tomás foi o principal mentor deste movimento.

Havia que derrubar o antigo regime de privilégios, de interesses e de formas de exercício do poder.

O medroso e indeciso Regente do Reino D. João, mais tarde D. João VI, sentia-se bem no Brasil com a família, ausente desde o início das invasões francesas em 1808. Do Brasil governava Portugal, tornando-se praticamente Portugal uma sua colónia, ao invés do que na realidade deveria ser. Os seus súbditos eram mal governados por uma regência na metrópole incapaz de acudir às maiores urgências do Estado, onde não faltava a provocatória presença e influência inglesa. Até hoje, em tempos de pandemia, sentimos alguma nefasta ameaça britânica aos turistas que se querem deslocar ao nosso País. A ida de D. João VI para o Brasil era o único caso do mundo de um rei instalado numa colónia.

O que é certo é que D. João VI viu-se constrangido a regressar a Portugal, após 14 anos de ausência do país. Deixava de ser monarca absoluto para passar a ser rei constitucional por via da instituição de um governo provisório mandatado para a preparação de eleições de Cortes Constituintes. E lá estava, emocionado, o jovem Almeida Garrett, escrevendo: “A última hora da tirania soou: o fanatismo, que ocupava a face da terra, desapareceu; o sol da liberdade brilhou no nosso horizonte, e as derradeiras trevas do despotismo foram, dissipadas por seus raios, sepultar-se no inferno”.

Mas o tímido D. João VI originava mais um momento crítico com a sua permanência no Brasil após o restabelecimento da paz na Europa, não obstante os britânicos enviarem uma frota para que regressasse a Portugal, mas a vontade de contrariar o Governo de Londres poderia explicar as razões da sua permanência. O centro efetivo dos domínios da Casa de Bragança era o Rio de Janeiro. Em 1815 D. João VI formaliza a criação do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarve. O segundo momento crítico ocorre com a Revolução de 1820, acabando por ser forçado a regressar a Portugal, como já foi atrás referido. E, já depois da Revolução, em 1824 passa pelo momento mais dramático com seu filho D. Miguel a encabeçar um golpe militar com a deposição do pai e a prisão de muitos membros da elite política. É nesta fase que castiga o filho e o envia para o exílio. Regressa desse exílio dourado em 22 de fevereiro de 1828 para assumir a regência do reino em nome de ser irmão D. Pedro (seu pai havia morrido dois anos antes) e desde logo aproveitou a ocasião para escolher quem lhe fosse fiel e desafeto à Carta, afastando todos os indesejáveis. Dissolveu a Câmara dos Deputados e promoveu a sua aclamação como rei absoluto. A censura e a polícia silenciavam os liberais e as prisões ficaram repletas. Muitos chefes militares prestigiados como Saldanha e Vila Flor saíram do país. O silêncio liberal, aparente, ia-se desfazendo como na noite de 30 de abril de 1828, com milhares de portuenses, concentrados no Campo de Santo Ovídio a soltarem vivas a D. Pedro, à Rainha e à Carta, em resposta à aclamação de D. Miguel. É que a Revolução estaria a ser traída. Os liberais começavam a enfrentar as agruras do exílio.

Em finais de agosto de 1828, um único ponto do território nacional continuava no poder dos liberais: a Ilha Terceira. A sua resistência permitiu que a Regência nomeada por D. Pedro em 15 de junho de 1829 instalasse o palácio do governo em Angra, em março de 1830. Foi daqui que os liberais partiram à conquista do Reino. Entre abril e agosto de 1831, foram tomadas todas as ilhas dos Açores pelo exército liberal. Em fevereiro de 1832, D. Pedro chegou à Terceira, nomeou um governo e concentrou-se na preparação do seu exército. Na sua maioria constituído por militares e voluntários emigrados, conhecidos como “os bravos do Mindelo”. No dia 8 de julho de 1832, a expedição liberal desembarcou em Arnosa do Pampelido para, no dia seguinte, o exército de 7.500 bravos de D. Pedro entrar no Porto, e tomar o poder.

Não obstante as tentativas de golpe de estado, por D. Miguel, em 1824, conhecido por Abrilada, que visava destituir o governo moderado, formado por D. João depois do restabelecimento do absolutismo em 1823 (sendo este último movimento conhecido por Vilafrancada que derrubara a 1ª Constituição portuguesa, elaborada a partir do movimento iniciado na cidade do Porto, em 24 de agosto de 1820, como já referido), é derrotada definitivamente a causa miguelista do ponto de vista militar em 1834. No entanto, apesar do exílio de D. Miguel, a resistência ao liberalismo foi mantida até quase ao fim dos anos de 1840. A Vilafrancada (1823) e a Abrilada (1824) ficaram como dois dos momentos emblemáticos das dificuldades que o Liberalismo teria para se instalar em Portugal.

Como curiosidade, para terminar, é feita uma referência numa peça importante da exposição levada a efeito pela Câmara Municipal do Porto, de que no livro de vereações onde se encontra a ata daquela edilidade, do dia 24 de agosto de 1820, tem a particularidade de estar cheia de passagens rasuradas a preto, uma intervenção que se ficou a dever aos partidários de D. Miguel  após a reviravolta absolutista. Efetivamente, qual não foi o meu espanto quando, nas pesquisas que efetuei na ata de 26 de agosto de 1820 da Câmara Municipal da Covilhã (a mais próxima daquela data), presidida pelo Juiz de Fora, José António Correia da Costa Pereira do Lago, de difícil leitura, nada refere sobre a Revolta de 1820. Contudo, a ata seguinte, datada de 8 de setembro de 1820 está toda danificada, rasurada e riscada em todas as suas linhas, para ficar inutilizada, e ainda com riscos verticais, pretos, em nove páginas seguidas. Seguem-se, com normalidade, mas com muita dificuldade de leitura, quase impercetíveis, as atas da CMC de 16 e 19-09-1820, onde nada consta sobre este acontecimento da História de Portugal.


(In "Jornal fórum Covilhã", de 09-09-2020)

19 de agosto de 2020

O TERCEIRO CONGRESSO NACIONAL DE BOMBEIROS REALIZADO NA COVILHÃ

 Foi um grande evento que se realizou há 88 anos. A cidade laneira daquele tempo passou a ter uma maior expressão na comunicação social. Que não era tão fácil como nos dias de hoje. Percorreu muitas páginas das publicações diárias e periódicas de então. Haviam já sido muitos e variados os importantes temas tratados nos Congressos anteriores. O da Covilhã foi realizado de 21 a 25 de julho de 1932. O I Congresso foi no Estoril, de 16 a 18 de agosto de 1930; e o II Congresso teve lugar em Setúbal, de 21 a 23 de novembro de 1931.

Anteriormente já se haviam realizado outros designados Congressos, o primeiro no Porto, em 1889, por iniciativa de duas publicações especializadas existentes que se publicavam na época – Jornal dos Bombeiros e O Bombeiro Portuguez – sendo entretanto o principal inspirador do Congresso, o inspetor-geral de incêndios do Porto, Guilherme Gomes Fernandes. Já em 1877 tentara promover uma reunião magna de bombeiros portugueses. Este Primeiro Congresso dos Bombeiros Portugueses, da primeira fase, constituiu um marco decisivo da sua história. Mas, entretanto, vieram a surgir profundas divisões entre os bombeiros, que caraterizou toda a década de 20 do século XX, o que veio inviabilizar uma nova edição credível do Congresso Nacional de Bombeiros Portugueses.

Nos primeiros meses de 1930, no decorrer de um dos muitos almoços de confraternização promovidos pelo diretor do periódico “O Fogo” foi constituída uma Comissão Organizadora do Segundo Congresso dos Bombeiros Portugueses. Assim, ao contrário das anteriores tentativas de organização de um congresso verdadeiramente nacional de bombeiros portugueses, surgiram aqui, num curto espaço de tempo, um elevado número de adesões. Convocado para reunir no Estoril o Congresso Nacional dos Bombeiros Portugueses viria a consagrar a fundação da Liga dos Bombeiros Portugueses. Iniciou-se assim o I Congresso do segundo ciclo.

O III Congresso, realizado na Covilhã, tornou-se um grande evento. Foi talvez uma das maiores realizações jamais vistas e que trouxe grande evidência à cidade dos lanifícios. Foi com grande orgulho que as gentes covilhanenses souberem receber os participantes, naquela hospitalidade que lhes é peculiar. Depois dos congressistas em Setúbal, no II Congresso, terem votado a favor da Covilhã, esta decisão foi aplaudida entusiasticamente.

Com este evento, raro para a época, foi um grande êxito para os Bombeiros Voluntários da Covilhã. Mas também muitas das forças da organização citadina proporcionaram que toda a imprensa fizesse frequentemente ressaltar o nome desta cidade serrana, hoje universitária de excelência, como o fora de laneira naquela altura, conforme já referido.

Este evento ficou indelevelmente como marca na história dos bombeiros portugueses, onde viriam a ser tomadas importante decisões para a vida dos bombeiros.

O III Congresso teve sete sessões, em vários locais, com visitas a fábricas de lanifícios do concelho, e à Serra da Estrela.

 No cortejo, e desfile pelas ruas da cidade, realizado no dia 24 de julho daquele ano, participaram 56 Corporações, 620 bombeiros, 33 viaturas, muitas bandeiras e algumas bandas. Toda a Covilhã os esperava, com suas ruas, portas, janelas, torres, terraços e telhados repletos de gente. Uma formidável aluvião inundou a cidade. Eram verdadeiros cachos humanos por toda a parte. Vibravam no ar as marchas animantes, ouviam-se os clarins estridentes, com a cidade a viver uma hora de emoção como nunca viveu. Era o desfile pelas ruas dum exército tranquilo e pacífico que marchava sem tibiezas, cônscio dos seus deveres, levando por armas, como nos dias de hoje, a abnegação e o altruísmo, e por lema estrelado o seu eterno guia: VIDA POR VIDA!

Do Regimento de Infantaria 21 para o Pelourinho foi o desfile, ouvindo-se o estralejar de foguetes, os repiques dos sinos, os toques dos clarins e os acordes das bandas produzindo um estado de alma indescritível. Das várias autoridades civis e militares, estiveram presentes: o Comandante do Regimento de Infantaria 21, coronel Gustavo Piçarra que entregou as insígnias de Cavaleiro da Ordem de Torre e Espada com que o falecido Comandante dos BVC, Sebastião dos Santos Júlio, fora condecorado pelo Governo da República, a título póstumo, ao Comandante dos BVC, Jerónimo Monteiro Ranito.

No estandarte dos BVC, foram então colocadas várias fitas artisticamente pintadas, oferecidas por algumas entidades, salientando-se as das Senhoras da Covilhã. O Presidente da Assembleia Geral dos BVC, Guilhermino Melo e Castro, agradeceu todas as homenagens que acabavam de prestar à sua Corporação.

A Liga dos Bombeiros Portugueses não podia ficar indiferente perante tantas distinções das gentilíssimas Senhoras da Covilhã, e, assim, para que a sua gratidão se perpetuasse pelos tempos fora, tinha disposto no edifício da Câmara Municipal uma lápide, afirmando o sentir unânime de todos, tendo o presidente da edilidade, Dr. Francisco Xavier de Almeida Garrett, descerrado a referida lápide no meio de grandes aclamações de todos os Bombeiros presentes. A lápide de mármore branco contém a seguinte inscrição: “Homenagem de reconhecimento à Mulher da Covilhã. A Liga dos Bombeiros Portugueses. Julho de 1932”.

O Presidente da Direção dos BVC, que participou neste Congresso, era José Carvalho Nunes Tavares; o Presidente do Conselho Fiscal, Dr. João Ferraz Carvalho Megre; e o 2.º Comandante dos BVC, António Garcia. O já referido Comandante dos BVC, Jerónimo Monteiro Ranito, sucedeu a Sebastião dos Santos Júlio, de que era seu 2.º Comandante, devido ao seu  falecimento num acidente de viação que o vitimou em 10/09/1931, aos 33 anos, quando pelas 20 horas se dirigia no pronto-socorro “Lancia” para um incêndio no sítio denominado “Casas Novas”.

(In "Notícias da Covilhã", de 20-08-2020)

16 de agosto de 2020

FÉRIAS COM MEDO

 

Independentemente dos receios que acometem a maioria dos portugueses, face a este tempo pandémico, há necessidades que se sobrepõem aos medos de contágios, e outros males que possam advir. O que não era habitual. Uns são mais afoitos que outros. Os jovens são talvez os mais transgressores das regras que um estado desta natureza impõe.

Em tempos normais estaríamos naquele período da silly season. Atualmente, a comunicação social inunda-nos com as notícias que chegam de várias fontes dos recantos planetários, no âmbito da pandemia que a todos assola, democraticamente.

Não sendo o meu forte o poder de síntese, achei interessante o que na data em que redijo este texto (30 de julho) acabo de ler na interessante crónica de Miguel Esteves Cardoso, no Público: “Avança a causa de não usar poucas palavras quando se pode usar muitas. E para quê usar curtas se há compridas?”; “Há”, por exemplo, pode substituir por “existe a possibilidade”, ou “encontram-se à nossa disposição”. “Hoje em dia é preciso dizer que há muitas palavras compridas que são úteis e que não podem ser convertidas em palavras pequenas sem perdas de significado”.

Alguns periódicos regionais entram num breve período de férias. É o tempo de retemperar forças. Quantas vezes acontece que entre banhos no mar, no rio ou na piscina, vêm-se juntar banhos de novas inspirações para o papel ou o online que os leitores gostam de ver nos seus jornais.

Também nos cabe procurar um pouco de descanso, fora do local habitual, e, como tal, regressaremos a este espaço em setembro.

Quando escrevo a última crónica deste julho quente, sinto-me envolvido numa indignação face ao que vou lendo na comunicação social, sobre a regulação bancária em Portugal. “Tribunal de Contas arrasa papel de Carlos Costa no BES e Banif”. Supervisor a decidir resolução de supervisionados revela conflito de interesses que lesa contribuintes, diz o órgão fiscalizador, que fala em mais risco. A falta de independência, instrumentos insuficientes e conflito de interesses parecem ter existido. Não são assim brandas as conclusões do Tribunal de Contas à atuação do regulador nos processos de resolução do BES e do Banif, com aquele órgão de fiscalização a considerar que a mistura de águas no Banco de Portugal lesou o país e os contribuintes. Recorde-se que coube a Carlos Costa decidir as intervenções nos bancos que o mesmo supervisionava.

Enfim, e continuamos com a novela do Novo Banco. Este que foi dividido ao meio, naqueles famigerados tempos em que a regulação também não funcionou: o Banco Mau e o Novo Banco. Ao que nos vamos apercebendo, neste país de brandos costumes, o Novo Banco está a transformar-se num “Mau Novo Banco”.

Neste ano dominado por um problema comum no Planeta e na Europa, é no Velho Continente que estamos inseridos e que aqui Portugal tem de procurar a necessária ajuda (e tem-no feito sem descanso) para a solução dos problemas que nos afeta. As notícias esperadas resultantes do mal que a todos atingiu, são evidentes, como a pandemia está a abalar os números do emprego em Portugal, apagando metade do emprego criado nos governos de António Costa.

O desemprego oficial esteve escondido, dizem notícias de hoje, mas o desconfinamento começa a revelar a triste realidade. Desapareceram 181 mil empregos ao todo, desde março.

No entanto, em “Notícias ao Minuto”, de 30 de julho, refere que o clima económico continua a recuperar mas fica a dúvida sobre a confiança dos consumidores. Segundo o Instituto Nacional de Estatística o indicador de clima económico manteve a trajetória de recuperação entre maio e julho. Entretanto, os indicadores de confiança recuperaram em todos os setores, com destaque para a Indústria Transformadora.

O que é certo e verdade é que a pobreza veio ter com muito mais gente; como pessoas que foram atingidas pela avalanche não esperada da pandemia. Que o digam quem trabalha afincadamente nas Conferências de São Vicente de Paulo e organismos que constituem um movimento de cidadania, na Covilhã, para dar lugar à possibilidade de assistência aos mais necessitados, face aos condicionalismos atuais.

(In Jornal fórum Covilhã, de 12/08/2020)

5 de agosto de 2020

NÃO OLHAR COM UM SÓ OLHAR - No meu apreço pelo ex- árbitro covilhanense Carlos Xistra

Chegámos ao final de carreiras, etapas, campeonatos, alegrias e tristezas, algumas (des)ilusões, e outros eteceteras.

Todos nós já percorremos alguns destes caminhos. Desde que o futebol existe em Portugal já passámos por situações de êxtase, outras de frustração.

No dia 11 de julho de 2000, ou seja, há duas décadas, enviei para a imprensa desta região um artigo sob o título “A Covilhã e o Distrito na Primeira Divisão”, pelo que me apraz, nesta oportunidade, transcrever algumas partes do mesmo: “Sendo nós da Beira Interior, e da Covilhã pela génese, com muita honra, não podemos deixar de manifestar nossa grande satisfação pelo facto de vermos ascender ao escalão máximo da arbitragem nacional um jovem covilhanense, facto inédito na história da arbitragem do futebol desta região. Carlos Miguel Xistra é assim o primeiro homem do Conselho de Arbitragem do distrito de Castelo Branco a poder dirigir jogos das I e II Ligas. (…) A Associação de Futebol de Castelo Branco merece ver reconhecida justiça aos seus árbitros, pois a qualidade não tem andado arredada desta região, contrastando, várias vezes, com outros árbitros, de regiões de maior influência e pressão, que singraram, não se sabe muitas vezes como, para escalões superiores da arbitragem. (…) A Covilhã pode orgulhar-se de ter dado à arbitragem regional bons elementos, contudo o ostracismo a que muitos governos votaram o Interior, mormente esta região beirã, foi a nota negra de impedimento dos mesmos no quadro de honra de acesso aos maiores. (…) Mas o Interior continua a não se aproximar do litoral, tendo-se verificado novamente em 1998, que um árbitro da Covilhã é impedido de subir à primeira categoria a escassas 33 décimas daquele que viria a ter o seu acesso, deixando algumas dúvidas. Esse jovem é precisamente aquele que agora vê os seus méritos com razão e justiça, e, aí está, Carlos Miguel Xistra honrando a sua família, ligada à prática e ao dirigismo do desporto na região; honrando também a Covilhã que o viu nascer e o distrito de Castelo Branco. As maiores felicidades para o jovem árbitro covilhanense da PRIMEIRA CATEGORIA.”

Pois bem, Carlos Xistra, aos 46 anos, terminou a sua carreira de árbitro profissional de Portugal, de categoria internacional, no jogo entre o F.C. Porto e o Moreirense, no dia 20 de julho. Foram 28 anos dedicados à arbitragem dos quais 20 no futebol profissional.

Em devido tempo, a edilidade covilhanense soube agraciá-lo, com toda a justiça.

Sendo a arbitragem objeto de grandes atenções e críticas, quantas vezes severas, porque mexe com emoções, Carlos Xistra viu-se várias vezes envolvido nelas, e é com aquele constrangimento que verifico nas redes sociais ferocidades de opinião, mesmo de gentes covilhanenses, não aceitando que o erro é humano, optando pela ênfase da pedra que sempre trazem no sapato.

Até aos dias de hoje, ainda nenhum Covilhanense alcançou o galarim na arbitragem, que a qualidade de Carlos Xistra soube honrar, dando a conhecer indiretamente, tantas vezes, a sua Terra – a Covilhã, por esses relvados de Portugal.

As lágrimas de Carlos Xistra, após o seu apito final, e a t-shirt a homenagear os seus mais próximos ficaram a marca nostálgica deste bom Covilhanense.

(In "Jornal Fórum Covilhã", de 05-08-2020 e "O Olhanense", de 01-08-2020)