29 de setembro de 2021

"A REAL ASSOCIAÇÃO PROTECTORA DA INFÂNCIA DESVALIDA"


 Esta extinta instituição que depois adotou o nome de Associação Protectora da Infância da Covilhã, mais conhecida por “Asilo”, encontra ainda o seu edifício aparentemente em bom estado, mas desocupado, há anos, onde funcionou um asilo (de duração efémera), fundado em 25 de julho de 1871, e depois uma escola e a primeira biblioteca covilhanense, já lá vão 150 anos. Situa-se na Rua Combatentes da Grande Guerra.

Este edifício que ainda ostenta uma placa no exterior do edifício com a designação da instituição e até uma haste onde se hasteava a bandeira nacional, bem se pode lamentar, e envergonhar, do ostracismo a que tem sido votado por quem de direito.

Foi a minha escola primária, onde entrei, pela primeira vez, em 7 de outubro de 1955, e o meu último professor foi o inspetor Tendeiro que ainda hoje é um grande amigo e ambos colaboramos culturalmente.

Esta instituição, antes da criação da biblioteca municipal que abriu ao público em 1917, tinha numa das suas dependências uma importante biblioteca com a designação de “Biblioteca Heitor Pinto”, tendo sido inaugurada em 1882. Chegou a ser, na altura, uma das mais importantes bibliotecas do País, a seguir a Lisboa, Porto e Coimbra. Destinava-se a servir o público, e por isso se encontrava aberta às quintas-feiras e aos sábados durante todo o dia. Possuía então, nas suas estantes, cerca de três mil volumes, na sua maioria, encadernados. Encontram-se atualmente na Biblioteca Municipal.

O principal fundador desta Associação foi Francisco Joaquim da Silva Campos Mello, Visconde da Coriscada, mas também teve em José Maria Veiga da Silva Campos Melo outro dinâmico fundador não só da Associação Protetora da Infância Desvalida como da Biblioteca Heitor Pinto.

Por razões que desconheço, o valioso recheio para além dos livros que se encontram na Biblioteca Municipal, e que era constituído por documentação, fotografias, e grandes quadros retratando as figuras dos seus fundadores, além de outro material, como o mobiliário da escola, foi atribuído judicialmente à Paróquia de Nossa Senhora da Conceição. Encontrava-se então naquele espaço do conhecido “Asilo” até abril de 2014, após o que, com base num evento cultural ali efetuado, a(s) proprietária(s) do imóvel deu(deram) imediatas ordens à paróquia para que até final do mês fosse retirado todo o material do recheio que não lhes pertencia.

Recordando esse evento, o último na vida daquele imóvel que chora de abandono, foi o facto de no dia 19 de abril de 2014 a paróquia nos ter emprestado a chave para ali podermos tão só fazer uma visita para memorizarmos os tempos da nossa escola primária, com uma minha pequena palestra, onde se encontrava o antigo aluno, fadista, Nuno da Câmara Pereira, a cujo convívio dei destaque nas páginas da comunicação social.

Alguns dos antigos alunos presentes nesse convívio de saudade já não se encontram no mundo dos vivos.

Entretanto, por desejo de quem é proprietário do imóvel, esta atitude nobre ali realizada foi transformada num ato vociferante de despejo do recheio que, felizmente, o acolheu a Santa Casa da Misericórdia da Covilhã.

Que a nova equipa que resultar das eleições autárquicas possa olhar para este imóvel, preservando o que de memória ainda existe e estabelecendo diálogo, se possível, por forma a dar uso ao mesmo, quando há tando coisa a necessitar de espaços condignos.

(In "Notícias da Covilhã", de 30-09-2021)

8 de setembro de 2021

O GRANDE INCÊNDIO DE LONDRES

 

Estamos na época de incêndios, o que já é habitual todos os anos. Na Covilhã ficou na memória o incêndio urbano, por fogo-posto, ocorrido na madrugada de 14 de junho de 1907, que foi conhecido pelo Incêndio da Mineira.

A data de 2 de setembro de 1666 ficaria na história dos ingleses, e do mundo, pelos piores motivos – o Grande Incêndio de Londres.

Em Portugal, governava nessa época D. Afonso VI, que casaria nesse mesmo ano de 1666 com D. Maria Francisca Isabel de Saboia. Também nesse mesmo ano falecia sua mãe, a rainha D. Luísa de Gusmão.

Um ano após sofrer a Peste Negra, Londres foi tomada pelas chamas e perdeu 80% da sua área central. A reconstrução que se seguiu transformou a cidade na capital do mundo.

Era de manhã e a um domingo. Ninguém se deu ao trabalho de dar a notícia ao rei Carlos II, que estava descansando nos seus aposentos do palácio de Whitehall. Não parecia haver motivos para preocupação, uma vez que, como qualquer grande cidade europeia da época, a capital britânica estava acostumada a lidar com pequenos focos, rapidamente apagados com a ajuda da própria população e seus baldes cheios de água. Desta vez, porém, seria diferente. Ao fim de quatro dias, 1800 Km2 da cidade ficaram em cinzas. A destruição de 13200 casas, 87 igrejas, incluindo a primitiva Catedral de São Paulo, e mais de 50 sedes de instituições ou corporações profissionais, portas da cidade e quatro pontes sobre o rio Tamisa, deixou 100 mil desabrigados e 9 mortos. Este episódio ficaria conhecido como acima referido.

Tudo começou na noite anterior, no forno da padaria Pudding Lane, fornecedor de pães à família real. Thomas Farriner fechou o seu estabelecimento que ficava no primeiro andar da sua casa. Eram 22 hora do dia 1 de setembro. Quatro horas depois, foi acordado por um funcionário (que dormia no piso de baixo). Os fornos não haviam sido totalmente apagados, e uma brasa alcançou uma pilha de feno que ficava ao lado. Farriner e a sua família escaparam com vida porque saltaram da janela do andar de cima para a casa ao lado – uma empregada ficou com medo de cair, tentou sair pela porta e acabou por se tornar a primeira vítima deste incêndio. Os vizinhos correram para ajudar a conter o fogo. Tornava-se importante agir com rapidez porque a cidade de Londres ainda tinha ruas estreitas e casas muito próximas umas das outras. Enquanto isso, o oficial da Marinha Samuel Pepys, que morava distanciado um Km dali, foi acordado de madrugada pelo barulho da madeira queimando, mas voltou a dormir tranquilamente. Ao acordar, de manhãzinha, ficou assustado ao verificar que 300 casas estavam destruídas e o fogo já atingia a Ponte de Londres.

Foi Pepys quem se apresentou ao rei com o primeiro relato detalhado dos acontecimentos. Carlos II pediu-lhe que que levasse ao prefeito da cidade, sir Thomas Bloodworth, a ordem para não poupar casa alguma, desde que as chamas fossem contidas. Este demorou a agir. A cidade só teria um Corpo de Bombeiros organizado no século seguinte. Grupos de soldados faziam esse papel em caso de emergência.

As chamas chegaram aos arredores do rio Tamisa, onde havia depósitos de madeira, carvão e azeite. As explosões que se seguiram pioraram um quadro que já era preocupante. O fogo ainda acabaria por barrar o acesso aos dutos de abastecimento de água do rio. Na noite de 4 de setembro chegou a vez da Catedral de São Paulo, construída em madeira e inaugurada no ano 604, tinha ganho três ampliações e uma reforma, iniciada em 1633.

Chocada, a população perdeu a paciência. O relacionamento do povo com o rei de 33 anos não era dos melhores. Foi só quando a situação ficou grave demais que ele mandou seu irmão, o duque de York, com uma tropa para ajudar no combate ao incêndio.

A classe social atingida explica a quantidade de desabrigados, assim como a baixa contagem de vítimas fatais, apenas 9, sem nenhum registo de feridos. É que os ingleses da época não tinham o hábito de fazer atestados de óbito para pessoas mais pobres, o que inviabilizou qualquer levantamento realista do número de vítimas. Por outro lado, o estado em que os restos de muitas casas ficaram indica que famílias inteiras podem ter morrido carbonizadas, sem possibilidade de identificação. O rei fez uma opção conservadora na reconstrução do centro no mesmo formato. Apenas deixou as ruas mais largas, o que reduziu o número de residências reconstruídas. As obras demoraram 50 anos, A reconstrução do centro deu origem à atual City londrina. O fantasma da Peste Negra que assombrava a Inglaterra deste o século XIV, ainda estava presente no momento do incêndio, mas agora as ruas mais largas e as casas mais afastadas entre si proporcionaram uma melhoria nas condições de higiene. Foi o começo de uma era de ouro para a cidade.


(In Jornal fórum Covilhã, de 08-09-2021)

25 de agosto de 2021

AGOSTO - DUAS EFEMÉRIDES PARADOXAIS DA HISTÓRIA DE PORTUGAL

 

Foi no mês quente de verão, em pleno agosto, que se deram dois acontecimentos históricos em Portugal: um de glória, outro de leviandade barbárie.

Entre estas duas vertentes da história em Portugal, muitas ilações se podem extrair para os tempos que vão decorrendo. Dum país, fundado em 1139, com quase nove séculos.

Outros países menos longevos estão na vanguarda. É indubitável que também tivemos sempre momentos e figuras repletas de boas intenções e na têmpera de colocar o país no mapeamento do progresso. Muitos portugueses têm honrado Portugal, em vários domínios, no planeta.

Portugal é o mais antigo Estado-nação da Europa com fronteiras definidas.

No dia 14 de agosto comemoraram-se 636 anos que Portugal venceu os castelhanos na Batalha de Aljubarrota. A peleja decorreu no final da tarde daquele ano de 1385. As tropas portuguesas com aliados ingleses, comandadas pelo rei D. João I e pelo condestável D. Nuno Álvares Pereira, defrontaram o exército castelhano e seus aliados franceses, lideradas por Juan I de Castela. As crises, peste negra e instabilidade política dominavam. Portugal não era alheio à mesma.

Ganhar uma batalha com 6 500 homens do Reino de Portugal contra 31 000 por parte de Castela é deveras notável. Só ao alcance de cérebros como o de D. Nuno Álvares Pereira que soube utilizar as táticas e as estratégias rumo à vitória.

Aquele interregno que se seguiu à morte de D. Fernando – a crise de 1383-1385, terminava e seguia-se um período áureo para a História de Portugal, com a conquista de Ceuta e prosperidade com base nos descobrimentos que se iniciavam.

De Aljubarrota, “… o próprio D. Juan I chega a Santarém, a sua praça fiel, mais morto do que vivo e com as sezões agravadas por uma fuga desesperada. Vai depois num barco que desce o Tejo de urgência e, ao largo de Lisboa, sobe para o navio que o transportou até Sevilha. Com a fina-flor da sua nobreza perdida, com a dimensão do desastre já conhecida por toda a parte, anuncia então o luto profundo em que o reino de Castela mergulhará até ao Natal de 1387”.

Rosália Amorim, no seu editorial do DN, refere que “A 14 de agosto de 1385, Aljubarrota foi palco de uma batalha decisiva para a independência e a construção de um novo Portugal. A 14 de agosto de 2021, é muito oportuno refletir sobre o que nos ensina este confronto militar que opôs portugueses e ingleses a castelhanos e franceses (e vários nobres lusitanos que defenderam o lado de Castela), numa disputa pelo trono português, após a morte de D. Fernando. Hoje, podemos discutir remodelações governamentais (…). Podemos discutir a tática do jogo de xadrez político e como se movem as peças da oposição à direita e à esquerda. Podemos ainda fingir que está tudo bem, neste verão de descompressão social em longo período de pandemia. Mas a história militar, bem como das empresas e organizações, demonstra que, mais do que jogadas táticas, é fundamental definir e aplicar uma estratégia para vencer batalhas a curto e médio prazo. (…) Perante um adversário muito mais poderoso e fortemente armado, venceu o exército de D. Nuno Álvares Pereira graças a visão estratégica, liderança genuína e corajosa, inteligente e eficaz gestão de recursos no terreno, inovação nas técnicas (…). Devemos aprender com lições de história de ilustres portugueses do final do século XIV que inovaram, souberam dar a volta a uma crise sem precedentes (invasão militar, peste negra e fome) e iniciar um novo ciclo que foi o das Descobertas. (…) Com a memória deste grande feito militar na região centro de Portugal continental, devemos olhar para os próximos anos como uma época de novas descobertas (talvez de nós próprios), sem fantasmas ou temores do passado e sempre com olhos postos num futuro mais promissor para o povo português”.

O outro acontecimento paradoxal do texto, é a triste memória da Batalha de Alcácer-Quibir, também surgida no mês quente de verão, do dia 4 de agosto do famigerado ano 1578. O exército português, comandando pelo jovem rei D. Sebastião, que aqui viria a perder a vida, estava esgotado pela fome, pelo cansaço e pelo calor, quando se deu a batalha. O exército marroquino era composto por dez mil cavaleiros e avançou cercando as alas de D. Sebastião pelos flancos. Apesar da sua doença o Sultão Abdal Malique deixou a sua liteira e liderou as suas forças a cavalo. (Também na Batalha de Aljubarrota, o rei castelhano, D. Juan I, fugiu transportado numa liteira, tão debilitado estava. Viria a morrer de peste negra.). O rei de Portugal, D. Sebastião, aos 24 anos, morre na batalha e o seu corpo jamais foi encontrado.

A batalha terminou após quatro horas de combate intenso com a completa derrota dos exércitos de D. Sebastião e Abu Abdallah Mohammed II Saadi, com quase 9 mil mortos e 16 mil prisioneiros, nos quais se incluíam grande parte da nobreza portuguesa. Talvez 100 sobreviventes tenham escapado, com custo, do local da batalha. O exército português foi completamente dizimado.

Entre os prisioneiros portugueses estava D. António, Prior do Crato, assim como o covilhanense Aires Teles de Meneses, Alcaide-mor da Covilhã, que havia servido na Índia e acompanhou D. Sebastião nesta batalha, onde ficou prisioneiro. Foi resgatado e regressou à Covilhã. Encontra-se sepultado na Igreja de Nossa Senhora da Conceição (São Francisco), da Covilhã.

(In "Notícias da Covilhã", de 26-08-2021)

11 de agosto de 2021

A MULHER - QUANDO O SONHO SE TORNA UMA REALIDADE

 

Vivemos momentos do aproximar das eleições para as autarquias em Portugal. O que hoje se fala de paridade no ambiente parlamentar ou autárquico, outrora era uma quimera.

O voto da mulher quase que não existia.

Mas seria duma mulher das Beiras a surgir o pontapé de saída para o sonho. A médica egitaniense, Carolina Beatriz Ângelo, viúva do médico covilhanense (natural de Aldeia do Souto), Januário Barreto, furava as redes pensantes dos homens da altura. Como retrógrados dos tempos bíblicos.

As próximas eleições estão à porta, marcadas para o dia 26 de setembro. Um bom momento para recordar a história de como é que as mulheres conquistaram o direito ao voto em Portugal.

Carolina Beatriz Ângelo foi a primeira mulher a votar em Portugal. Foi em 1911, ano após ter sido implementada a I República que surgiu o primeiro ato eleitoral. Estavam aptos a votar “todos os cidadãos portugueses com mais de 21 anos, que soubessem ler e fossem chefes de família”. Não sendo referido o género, a beirã Carolina Ângelo, médica, viúva, com mais de 21 anos e uma filha menor a seu cargo, dirigiu ao presidente da comissão recenseadora do 2.º Bairro de Lisboa um requerimento para que o seu nome fosse incluído. A 28 de abril de 1911, o juiz João Baptista de Castro proferiu uma sentença histórica ao incluir o nome de Carolina Beatriz Ângelo no recenseamento eleitoral, dizendo: “Excluir a mulher (…) só por ser mulher (…) é simplesmente absurdo e iníquo e em oposição com as próprias ideias da democracia e justiça proclamadas pelo Partido Republicano (…). Onde a lei não distingue, não pode o julgador distinguir (…) e mando que a reclamante seja incluída no recenseamento eleitoral.”

A 28 de maio, Carolina Ângelo dirigiu-se às urnas e votou, sagrando-se a primeira mulher a fazê-lo em Portugal. Uma notícia que se difundiu pelo estrangeiro. No entanto, durou pouco tempo, porquanto três anos depois seria aprovada uma legislação que especificava que somente os homens poderiam votar.

A conduta da médica ginecologista Carolina foi o ponto de partida para uma luta que durou duas décadas. Somente em 1931 as mulheres conseguiram o direito a voto com limitações. Eram elegíveis só as mulheres que tivessem frequentado o ensino superior ou as chamadas “chefes de família”, um termo que englobava “mulheres portuguesas, viúvas, divorciadas ou judicialmente separadas de pessoas e bens com família própria e as casas cujos maridos estejam ausentes nas colónias ou no estrangeiro”. Em 1933 a lei incluía o direito de voto à “mulher solteira, maior ou emancipada, quando de reconhecida idoneidade moral, que viva inteiramente sobre si e tenha a seu cargo ascendentes, descendentes ou colaterais”. Nesse mesmo ano foi dada a oportunidade às mulheres de se candidatarem. Em 1934, três mulheres foram eleitas para a Assembleia Nacional.

Em dezembro de 1968, com Marcelo Caetano na chefia do Governo, o número de votantes foi alargado a todos os que soubessem ler e escrever. Contudo, foi só depois do 25 de abril de 1974 que o direito ao voto se tornou universal em Portugal.

Hoje já se veem mulheres na liderança de empresas, organizações nacionais e internacionais.

Sempre trabalhei com colegas do feminino, e foi na maior parte do tempo, em duas multinacionais, que muitas das mulheres souberam ocupar cargos de chefia.

Portugal tem mais mulheres no Governo e parlamento que a média da União Europeia (UE), segundo dados, relativos a 2020, publicados pela Eurostat (Serviço de Estatística da UE).

O número de mulheres Presidentes e primeiras-ministras na UE também aumentou desde 2004.

Na Madeira, socialistas têm mais mulheres candidatas (seis) a presidente de Câmara do que homens (cinco). O PSD vai a votos com 11 homens. É caso único nos 20 distritos eleitorais.

No meu tempo nostálgico de estudante na Escola Industrial e Comercial Campos Melo da Covilhã, na disciplina de Geografia, a Drª Maria Adelaide Maia ditava-nos apontamentos que passávamos a escrito, sobre os Continentes, os quais ainda preservo como relíquia. Estávamos no ano letivo de 1960/61. A certa altura falou de Ceilão (atual Sri Lanka) e fez uma pequena observação. Este país é agora governado, pela primeira vez no mundo, por uma mulher – Sirima Bandaranaike. E tinha razão. Foi no dia 21 de julho de 1960 que se tornou a primeira mulher democraticamente eleita chefe de governo. Só depois, em 1966, surgiria Indira Gandhi, na Índia.

Nesta altura, aproveitamos para homenagear a Mulher Portuguesa no desporto, na pessoa de Patrícia Mamona que honrou o “país pequeno” ao voar acima dos 15 metros, no triplo salto dos Jogos Olímpicos do Japão, conquistando a medalha de prata.

(In "Jornal fórum Covilhã", de 11 de agosto de 2021)

21 de julho de 2021

ESTE ESTIO QUE COMEÇOU

 Entrámos no mês quente de verão, que, de quente, por vezes prega-nos umas partidas. Que o digam algumas noites. Alguns estudantes preparam-se para iniciarem suas férias enquanto outros se veem a braços com exames, sejam presenciais ou online. Com esta maldita pandemia, tudo se alterou, até mesmo as normas de conduta.

Se mais uma cadeira fora conseguida, para os universitários, ou a confirmação daquele Erasmus, para não dizer a conclusão dos seus cursos, isto já não é como era há uns tempos atrás, não muito longos, porque o coronavírus ainda anda saltitando por aí. E, quando menos se pensa, tudo se modifica. Como, mais uma vez, o chico-espertismo de alguns responsáveis pelas vacinações. Aqui, a diretora do Agrupamento de Centros de Saúde do Porto Oriental, já suspensa, “desobedeceu” ao plano, conforme referiu o coordenador da task force, com a vacinação de jovens de 18 anos, numa fase em que o auto agendamento está disponível apenas para maiores de 35 anos. Não sendo Portugal uma república das bananas, há que punir os infratores não esquecendo os primeiros que foram objeto desse atrevimento e de que a comunicação social deu ênfase na devida altura.

O precedente mês de junho foi o dia dos Santos Populares, que o bicho mau pretendeu lhes retirar toda a popularidade, não conseguindo ser concretizada no seu pleno. No Porto, do silêncio dos martelos às enchentes de foliões, a noite de São João viveu-se com poucas restrições. “De um lado, a tristeza dos comerciantes da zona de diversão das Fontaínhas, obrigados a fechar às 18 horas, do outro, o crescente movimento que tomou conta das esplanadas na Ribeira e na Cordoaria em vários ajuntamentos”. Tal como sucedeu com os tripeiros também um pouco por todo o país houve aqueles desenfiados como se dizia na tropa. E, vai daí, toca a abusar, onde as regras de distanciamento e sanitárias não tinham regra.

Depois, tivemos o governo e o presidente da República a duas vozes. Se por um lado há o dramatismo, como o momento “crítico”, “grave” e “complexo” – os casos vão “continuar a aumentar”, por outro quem ouve Marcelo vai pelo lado da esperança. O que é certo e verdade é que com a variante Delta da peste dos nossos dias, foi dado um passo atrás nalgumas zonas do país, nomeadamente Lisboa e Vale do Tejo, onde se verifica a maior permanência do novo coronavírus. Entretanto a boa notícia é que quem já tem o certificado digital vai ter luz verde para andar pelo país sem restrições.                                   

Em Portugal, com o fulgor possível do Campeonato Europeu de Futebol, não vai haver aquele período da silly season, pois continuarão também as conversas sobre a responsabilidade política de uma delação grave pelas bandas do município alfacinha. É que já estamos habituados ao caricato de atuações duma forma tão de hilariante quão de angústia. Para que serviu tanto empenho nos trabalhos da proteção de dados individuais de todos nós? Foram assinaturas e mais assinaturas de declarações de aceitação e conhecimento por essas variadíssimas instituições fora. Dá para pensar.

A Seleção de Portugal, aquela de todos nós, também nos pregou uma partida, tal como o tempo. Quando esperávamos continuar na efervescência do entusiasmo pela Seleção das Quinas, surgiu-nos aquele balde de água fria em cima do banho de entusiasmo e lá saltámos fora. Paciência, fria tem que ser agora a cabeça e passar novamente a olhar em frente para podermos voltar ao quente entusiasmo das próximas jornadas do Mundial.

Vamos esperar por melhores dias mas, convençam-se, quem tem ouvidos para ouvir e olhos para ver, que se não houver respeito pelo cumprimentos das regras estabelecidas para este tempo pandémico, tantas e tantas vezes badaladas, não sairemos da cepa torta, porque a situação normal da vida não está já por aí, ela regressa à situação do medo, e a normalização está mais que tardia.

 (In "Notícias da Covilhã", de 22-07-2021)

16 de julho de 2021

JULHO - UMA ODE AOS SANTOS

 Olhei para o calendário do mês de julho e, numa observação rápida: uma caterva de comemorações de santos, muitos sobejamente conhecidos, outros nem tanto. Pois vejamos:

No dia 2 de julho, São Bernardino Realino, italiano (n. 1-12-1530, f. 2-7-1616). 3 de julho, São Tomé, padroeiro dos pedreiros, dos arquitetos e dos cegos. Era pescador quando Cristo o aceitou como um discípulo. O episódio mais popular de São Tomé é a sua incredulidade perante a ressurreição de Jesus Cristo, que depois veio a reconhecer quando Cristo apareceu novamente aos apóstolos. Evangelizou depois pela Índia até se tornar um mártir. 4 de julho, Santa Isabel. Isabel de Aragão nasceu em 1269, em Saragoça, Reino de Aragão, e faleceu a 4 de julho de 1336, vítima de peste, em Extremoz. Isabel foi rainha consorte de Portugal, tendo casado com D. Dinis de Portugal, “o Lavrador”. Muita conhecida pelo famoso milagre das rosas. É padroeira da cidade de Coimbra. 6 de julho, Santa Maria Goretti. Maria Teresa Goretti nasceu em Itália em 1890 e faleceu em 6 de julho de 1902, com apenas 11 anos. Pertencente a uma família pobre e numerosa, Goretti sempre teve uma vida difícil. Com a morte do pai, a família teve de se mudar e de partilhar residência com outra família. Foi então que um jovem de 20 anos, chamado Alexandre Serenelli, conheceu Goretti e tentou seduzi-la às escondidas das famílias. Perante todas as suas recusas em nome de Deus, Alexandre tentou violar Goretti, acabando por esfaqueá-la catorze com uma adaga de 30 centímetros. Goretti resistiu milagrosamente aos ferimentos graves, mas acabou por morrer no hospital perante a imagem de Virgem Maria, vinte horas depois. Ainda teve tempo de perdoar o seu agressor, que foi condenado a 30 anos de prisão. Serenelli esteve presente na cerimónia de canonização de Maria Goretti, em 1947. Dia 9 de julho, Santa Paulina, uma italiana nascida em 1865 que se naturalizou brasileira. Dia 10 de julho, Santo Olavo, rei da Noruega, um viking que conheceu o cristianismo em Inglaterra e se batizou em 1014 em França. É padroeiro da Noruega e das Ilhas Faroé. Dia 11 de julho, São Bento de Núrsia que nasceu na Itália em 480, tendo como irmã gémea Santa Escolástica. Pelo seu contributo à civilização europeia, o Papa Paulo VI declarou São Bento como o padroeiro principal da Europa, em 1964. Dia 13 de julho, Santo Henrique. Henrique II nasceu a 6 de maio de 973 e faleceu na Alemanha a 13 de julho de 1024. A sua esposa, Cunegunda, princesa do Luxemburgo, também foi canonizada. Tendo feito votos de castidade, o casal não teve filhos. Ele é o padroeiro de Basileia e a esposa a padroeira do Luxemburgo. Dia 14 de julho, São Camilo. Camilo de Lellis nasceu em Itália em 1550. Fez-se soldado mas ao voltar para a sua terra natal entrou numa vida decadente, gastando tudo o que tinha no jogo. No momento mais delicado da sua vida, encontrou na graça divina um refúgio e uma inspiração e tornou-se sacerdote. É o protetor dos enfermos e o padroeiro dos hospitais. Dia 15 de julho, São Boaventura, nascido em Itália em 1218, faleceu em 15 de julho de 1274. Dia 16 de julho, Nossa Senhora do Carmo. Celebra-se neste dia porque em 1251 ocorreu a aparição de Nossa Senhora em Cambridge, Inglaterra. Também é apelidada de Nossa Senhora do Monte do Carmelo em referência ao convento construído em sua honra no Monte Carmelo, em Israel. Este lugar sagrado do Antigo e Novo Testamento foi onde o Profeta Elias evidenciou a existência de Deus. O significado de Carmelo é “vinha do Senhor”, visto que em hebraico “carmo” significa vinha e “elo” significa senhor. Dia 17 de julho, Santa Marcelina, que nasceu em Roma no ano de 327 e faleceu no mesmo local, a 397. Dia 18 de julho, São Francisco Solano, nascido em 1549 em Espanha, foi um frade missionário que evangelizou diferentes povos até falecer no Peru, em 1610. Dia 19 de julho, Santo Arsénio. Arsénio, “o Grande” nasceu em Roma no ano 354, no seio de uma família de senadores. Foi tutor dos filhos do imperador Teodósio em Constantinopla e ordenado sacerdote pessoalmente pelo Papa Dâmaso. Dia 20 de julho, Santo Aurélio. Aurélio de Cartago nasceu no século IV e faleceu por volta do ano 430. Os primeiros registos de Santo Aurélio

surgem a partir do ano 388 enquanto diácono, sendo que se tornou Bispo de Cartago em 391. Aurélio era amigo de Santo Agostinho, Bispo de Hipona, atual Argélia, que muito o admirava e louvava em cartas ainda hoje existentes. Dia 20 de julho, Santo Elias. Foi um importante profeta do século IX a. C, do reino de Israel, que defendia o culto de Deus durante o reinado de Acab, onde se adorava o deus Baal, que era considerado um culto idólatra. Mais tarde, o profeta Elias surgiria no Dia da Transfiguração do Senhor. Dia 21 de julho, São Lourenço de Brindisi. Antes chamava-se Giulio Cesari Russo e nasceu a 22 de julho de 1559, na Itália. Curiosamente, faleceu no mesmo dia 22 de julho do ano 1619, no seu 60º aniversário, em Lisboa, na sua segunda viagem à Península Ibérica. Dia 22 de julho, Santa Maria Madalena, natural de Magdala, uma cidade da costa do Mar da Galileia. A figura de Maria Madalena é envolvida em certa polémica. Tradicionalmente, Maria Madalena é identificada como a mulher convertida que perfumou os pés de Jesus, que os banhou em lágrimas e os enxugou com os seus próprios cabelos. Ela é assim considerada a padroeira dos cabeleireiros, dos boticários, dos convertidos e dos fabricantes de perfumes. Dia 23 de julho, Santa Brígida, que nasceu na Suécia em 1303 e faleceu em Roma a 23 de julho de 1373. É a padroeira da Suécia e co-padroeira da Europa, juntamente com Santa Catarina de Sena e Santa Tereza Benedita da Cruz. Dia 24 de julho, Santa Cristina. Foi uma fervorosa cristã do século III que morreu martirizada. É vista como a padroeira dos moleiros e é invocada contra a depressão. Dia 25 de julho, Santiago. Foi um dos 12 apóstolos de Jesus, o primeiro a ser martirizado. Nasceu na Palestina em data incerta e faleceu em 44 d.C. em Jerusalém, decapitado por ordem de Herodes Agripa I. Santiago foi protetor do exército português, ficando conhecido como Santiago Mata-Mouros. Por influência inglesa, Santiago foi depois substituído por São Jorge, por altura da crise de 1383-1385. Também neste dia 25 de julho se festeja o São Cristóvão segundo o calendário romano. No calendário ortodoxo, o Dia de São Cristóvão é a 9 de maio. Pouco se sabe ao certo sobre São Cristóvão. Foi decapitado pelo rei pagão que governava a região. Em Portugal São Cristóvão é o padroeiro de Mondim de Basto. O nome do santo é uma atribuição popular. São Cristóvão não foi canonizado pela Igreja Católica.  Dia 26 de julho, Santa Ana. O nome Ana significa “graça”, foi a mãe de Maria e a avó de Jesus Cristo. Era esposa de Joaquim. Neste dia 26 de julho celebra-se anualmente o Dia dos Avós em honra de Santa Ana e de São Joaquim, os avós de Jesus. Santa Ana fazia parte da família do sacerdote Aarão e São Joaquim da família real de Davi. Apesar da esterilidade de Ana e da idade avançada de ambos, foram abençoados por Deus com o nascimento de Maria. A Virgem Maria, cujo nome significa “senhora da luz” acabaria por nascer a 8 de setembro de 20 a.C. O culto a Santa Ana é muito antigo, tendo-se popularizado sobretudo na Idade Média. Em 1378 o Papa Urbano IV oficializou o seu culto e em 1584 estabeleceu-se o dia 26 de julho para a sua celebração. São Joaquim era celebrado noutra data, mas o Papa Paulo VI uniu a celebração de Santa Ana e de São Joaquim no dia 26 de julho. Dia 27 de julho, Santa Natália. Santa Natália de Córdoba nasceu nesta cidade por volta de 825 numa altura de pleno domínio muçulmano e perseguição aos cristãos. Os seus pais eram maometanos, mas após a morte do pai, a sua mãe Liliana casou em segundas núpcias com um cristão chamado Félix que as converteu ao cristianismo. Natália cresceu e anos mais tarde casou também com um cristão chamado Aurélio. Todos eles professavam a fé na clandestinidade, até que Aurélio presenciou o martírio humilhante de um cristão amarrado ao rabo de um jumento a ser arrastado a caminho da execução. Naquele dia, num ato de coragem, os dois casais distribuíram os seus bens pelos pobres e resolveram praticar a sua religião em público, para encorajar os cristãos de Córdoba. Os quatro cristãos recusaram-se a negar a fé cristã mesmo perante todas as torturas a que foram submetidos. Foram por fim condenados à morte e degolados a 27 de julho de 852. A cabeça de Santa Natália, assim como o corpo de Santo Aurélio seriam 6 anos mais tarde transladados para Saint-Germain, de Paris. Dia 28 de julho, São Vítor I. Foi Papa entre 189 e 199. Nasceu na Tunísia, na altura uma província romana. Terá morrido em 202 martirizado na quinta perseguição, movida pelo imperador Lúcio Septímio Severo. Dia 29 de julho, Santa Marta. Marta de Betânia era irmã de Lázaro e de Maria de Betânia. A sua amizade com Jesus levou o Messias a chorar e a ressuscitar Lázaro. Esta é uma das passagens mais importantes da Bíblia sobre Marta. Era em casa de Marta, Maria e Lázaro, na Betânia, que Jesus procurava momentos de descanso. Santa Marta tornou-se assim a santa padroeira dos hospedeiros, cozinheiros e nutricionistas. O nome Marta deriva mesmo do aramaico e significa “mestra”, “senhora” ou “dona de casa”. Dia 30 de julho, São Pedro Crisólogo. Nasceu por volta do ano 380 em Ímola, Bolonha e faleceu provavelmente a 30 ou 31 de julho de 450, em visita à sua cidade natal. Foi considerado um dos maiores pregadores da história da Igreja. Conhecido como “Pedro das palavras de ouro”, e merecedor do título de Doutor da Igreja pelo Papa Bento XIII em 1729. Dia 31 de julho, Santo Inácio de Loyola. Foi um presbítero e o fundador da Companhia de Jesus, a maior ordem religiosa católica do mundo. Nasceu em Loyola (atual município de Azpeitia), no País Basco, a 31 de maio de 1491 e faleceu em Roma, a 31 de julho de 1556. Entre outras obras, fundou a Companhia de Jesus, em 1534, com fins missionários e educacionais. Esta ordem religiosa dos jesuítas viria a desempenhar um papel relevante na Reforma Católica.

(Elementos consultados na Internet, in Calendarr)

(In Jornal "O Olhanense", de 15-07-2021)

NÃO AO EUROCETICISMO

 Ao longo dos últimos meses fomos bombardeados pela negatividade, pelo medo, pela notícia improvável que foi gerando um cansaço e desalento generalizado.
No entanto, no estudo Reuters Institute Digital News Report 2021, lançado em 23 de junho, indica que os níveis de confiança dos portugueses nas notícias é de 61%, o que revela uma subida de cinco pontos percentuais comparativamente com 2020. Apesar do aumento de confiança, no total de 46 países em análise, Portugal desce uma posição no ranking global, perdendo a primeira posição, em ex aequo com a Finlândia, que se destaca, agora, com 65%, enquanto o valor médio de confiança das notícias dos países em estudo subiu seis pontos percentuais, para os 44%.
Certo é que o impacto da pandemia na União Europeia gerou uma crise de confiança nos 27 países membros. Segundo Leonídio Paulo Ferreira, in DN, “há uma quebra no entusiasmo dos alemães com o projeto europeu. E também dos franceses. Estes dois pontos devem alarmar os que se preocupam com o futuro da UE. A situação é especialmente séria para um país como Portugal que, saído duma ditadura de meio século e deixando para trás um império com meio milénio, apostou forte no projeto europeu para se consolidar como uma democracia próspera.”
Note-se que foi em 1977 que Mário Soares submeteu o pedido de adesão à então CEE. Surge agora uma súbita fragilidade da UE quando dava a impressão de que o trauma do Brexit estava ultrapassado.
Pois é, a UE nasceu em 1957. A longevidade de Portugal quase a caminho de nove séculos. Com apenas 64 anos, a UE a 27 nunca conseguiu uma coesão. De facto, foi do idealismo de algumas grandes figuras, mas também do pragmatismo de quem assistiu à destruição causada pela Segunda Guerra Mundial – e querendo evitar novos conflitos –, que a atual UE assenta muito na confiança entre alemães e franceses. Só o Reino Unido entrou para depois sair. O sucesso deste ex-membro, na vacinação contra a covid-19, é evidente em comparação com a UE. Muito pela dinâmica do primeiro-ministro britânico Boris Johnson. O ganhador do Brexit. Conseguiu fazer melhor do que a presidente da Comissão Europeia, a alemã Ursula von der Leyen. Não obstante a sua boa intenção na compra centralizada de vacinas por Bruxelas para evitar concorrência entre os 27 membros, e também obter melhores condições de fornecimento junto das farmacêuticas, acabou injustamente por se virar contra os fortes desejos da União.
Neste tempo pandémico, que não mais tem fim, o Governo português tem vindo a aceitar tudo aos turistas estrangeiros. Nomeadamente os britânicos. Como sobejamente já foi visto, por via do futebol, ou mesmo fora dele. E a nós, portugueses, com tratamento diferente. Parece termos regressado aos anos 80, em terras algarvias, que eu recordo muito bem. Nessa altura, em pleno verão, sentíamo-nos estrangeiros em Portugal. Tudo era caríssimo e os menus estavam todos em inglês. Os preços eram para turistas ingleses. Eles eram reis e senhores do Algarve, a ponto de os pobres portugueses serem um empecilho para os empregados de cafés e restaurantes. Num outro ano, dessa mesma década, também no Algarve, mais propriamente no mercado de Albufeira, chamei à atenção de uma vendedora de fruta, daquelas idosas de lenço na cabeça, por não aceitar a reclamação dum estrangeiro que estava a ser ludibriado no preço. Verificou que pedia pela fruta o que não correspondia àquele que, com o dedo, apontava para a tabuleta em ardósia, que era mais baixo. Não atendendo nem a minha indicação nem a do comprador, o raio da velha limitou-se a dizer em disfarce: “É de ontem!”
Deixo-me de euroceticismos porque “o mundo pula e avança como bola colorida”. Com este poema de António Gedeão magnificamente interpretado por Manuel Freire, transponho-me para a nossa Seleção – com muitos a dizerem que se lixe a covid – em que todos os que calharam no “grupo da morte” não sobreviveram para além dos oitavos de final. Um Hazard (quero dizer, Thorgen Hazard que marcou o golo dos belgas) nunca vem só e a sorte bateu no poste. E assim Portugal caiu nos oitavos de final.

(In "Jornal fórum Covilhã", de 14-07-2021)

6 de julho de 2021

A HONRA DOS HISTÓRICOS

 

Escrevo esta crónica na véspera do grande encontro Portugal-Bélgica, para o Europeu de Futebol. Quando chegar aos prezados Leitores, já se saberá o desfecho, esperando ansiosamente pela continuidade de Portugal na senda das vitórias.

E porque foi há 15 anos que faleceu a grande estrela húngara Ferenc Puskás que deu nome ao Estádio em Budapeste onde a nossa Seleção agora realizou o seu primeiro encontro vitorioso com os magiares, me fez trazer à memória um artigo que escrevi para outros periódicos, em novembro de 2006, sob o título “O Húngaro Puskas”.

Os menos jovens recordarão, certamente, este talentoso futebolista húngaro, que deixou o mundo dos vivos em 17 de novembro de 2006, aos 79 anos. No futebol espanhol evidenciou fortes recursos futebolísticos, tanto ao serviço do Real Madrid como da selecção espanhola. Também os benfiquistas, e todos os portugueses, amantes do futebol, certamente não esquecerão o memorável dia 2 de maio de 1962. Como eu, vibraram com a excelente vitória do emblema encarnado, conseguida no Estádio Olímpico de Amesterdão, por 5-3; num jogo pouco propício a cardíacos, muito por influência de Ferenc Puskas, que, aos 17 e 23 minutos da primeira parte, já havia marcado dois golo para, após o empate, com os golos aos 25 e 34 minutos, de José Águas e Domiciano Cavem, Puskas voltar a desempatar, com um golo que deu o hat-trick, aos 38 minutos.

Por ironia do destino, todos os autores dos golos de ambas as equipas já descansam no sono da eternidade; pois os restantes haviam de ser marcados por Coluna e Eusébio (2 golos).

Já lá vão 59 anos e eu recordo bem, no início da minha juventude, ter visto este jogo na antiga Casa da Mocidade Portuguesa, ao fundo do Mercado Municipal da Covilhã, no último prédio do lado esquerdo da Rua Conselheiro António Pedroso dos Santos, que faz esquina para a rua de acesso à UBI .

Com o relato, penso que de Artur Agostinho ou Nuno Brás, via rádio, como opção de alguns colegas; todos nós (só rapazes porque não era hábito, nessa altura, as raparigas se juntarem para este efeito), estudantes de Escola Industrial, do Liceu e do Colégio Moderno; vimos o único canal televisivo, existente nesta zona, a preto e branco, com a casa repleta (nem todos, nessa altura, possuíam televisor nos seus lares).

 Apesar do orgulho de ser sportinguista de sempre, fui um dos que gritei, em uníssono, pelos golos do Benfica. Recordo o fortíssimo pé esquerdo de Puskas, como as grandes corridas do já careca Di Stefano e do Gento; como, depois, a excelente exibição do capitão José Águas e restantes elementos; a correria do baixinho Simões; o “baile” à turma madrilena, onde os defesas Casado, Miera e Santamaria sentiram enormes dificuldades com a penetração dos avançados benfiquistas, furando as redes de Araquistain.

O frenesim era enorme e a televisão mostrava os milhares de espectadores, como num cacho, e a assistência a um português, acometido de uma síncope, assim como o desfraldar de uma enorme bandeira encarnada.

Puskas deliciava os espectadores com as suas fintas e dribles; os golos foram temidos.

Representou a selecção húngara até ao momento em que a revolução de 1956 na Hungria acabou com uma lendária geração de atletas de alta craveira, onde se integrava Ferenc Puskas – o “Major Galopante”, como ficou conhecido. Marcou 83 golos em 84 jogos pela selecção do seu país, sendo considerado o melhor jogador húngaro de todos os tempos. Foi então para Espanha e é no Real Madrid que firma o seu nome, ao lado de outra lenda do Real, Di Stefano, na altura em que os “merengues” mandavam na Europa do futebol. Em Espanha representou a selecção espanhola. Passou então a ser alcunhado de “Pancho Puskas”, o “Canhão”, pois tinha um remate poderoso e uma aceleração incrível.

Serve também este apontamento para recordar outro húngaro, naturalizado francês, que, no nosso país, jogou no Sporting da Covilhã – André Simonyi – que lhe havíamos perdido o rasto, mas fruto da colaboração da Embaixada de Portugal em Paris, acabamos de saber que já faleceu em 2002.

André Simonyi, designado o “jogador modelo” e o “homem canhão” foi um dos maiores goleadores do SCC, surgindo no topo da listagem dos futebolistas de eleição, tendo jogado nos Leões da Serra, de 8/10/1949 até final de 1954.

Para os interessados, poderão verificar que Simony foi o atleta dos leões serranos que marcou mais golos na 1.ª Divisão – 74 em 86 jogos; depois, a honra de o SCC ver inscrito um seu atleta – Vitoriano Suarez, como o primeiro maior goleador de todos os tempos, na Taça de Portugal, com 15 golos, mantendo-se, até aos dias de hoje, em terceiro lugar, que viria a ser igualado por Iaúca; ultrapassado, em segundo lugar, por Mascarenhas, do Sporting; e para o primeiro lugar, por Eusébio, do Benfica.

E, nesta passagem efémera pelo mundo, vão desaparecendo aqueles que, para uns, foram ídolos; e, para a generalidade, deixaram marcas da sua vivência e na arte de jogar bom futebol.

Pois bem, se a Hungria tem a sua figura símbolo daquele orgulho magiar, também Portugal se orgulha de possuir, já várias figuras, não só do futebol como de outras modalidades, mas é no desporto-rei que mais brilham as estrelas que colocam a flutuar com mais permanência a bandeira portuguesa, naquele orgulho de ver um português – Cristiano Ronaldo – sobejamente conhecido do Planeta, a seguir nos caminhos do estrelato, de sucesso em sucesso, ganhando o que jamais outro português conseguiu tal efeito, ultrapassando atletas que os irá substituir naquela grande estrela que é a que brilha mais.

Cristiano Ronaldo tem sido quem tem mais dado a conhecer este País à beira-mar plantado.

Ficamos esperando que cintile nova estrela sob a sua ação, vir a ser o maior goleador do mundo, uma vez que, no momento em que escrevo, encontra-se empatado com o iraniano Ali Daei, com 109 golos marcados ao serviço das suas seleções. Ali Daei, do Irão, marcou 109 golos em 149 jogos. Cristiano Ronaldo, com o mesmo número de golos, em 178 jogos, ao serviço da Seleção de Portugal.


(In "O Olhanense", de 01-07-2021)

 

28 de junho de 2021

CONTE-NOS A SUA HISTÓRIA - MANUEL LOPES ESPINHO FONSECA

 



Covilhanense de que muito se orgulha, nascido no ano da graça de 1945, aos dezasseis de setembro, na freguesia de Aldeia do Carvalho (hoje Vila do Carvalho).

Casado e com ter três filhas. Completou a Instrução Primária no Asilo, instalações ainda hoje devolutas, na Rua Combatentes da Grande Guerra, na Covilhã. Por aqui passaram vários alunos, entre indigentes, pobres, remediados, e de excelentes posses.

Manuel Espinho frequentaria depois a Escola Industrial e Comercial Campos Melo da Covilhã, e desempenharia as funções de empregado de escritório na empresa Hilário Dias Freire & Cª Lda até ao seu encerramento, sendo que, já depois do serviço militar obrigatório, ainda exerceu funções administrativas na Universidade da Beira Interior (UBI).

E é precisamente sobre a sua passagem pelo serviço militar, que vemos o Manuel Espinho a caminho de Castelo Branco, para iniciar a recruta no Batalhão de Caçadores 6, naquele mês de janeiro de 1966. Como quase sempre acontece, eram muitos os conhecidos, com uns a ficarem na mesma companhia e até outros no mesmo pelotão. Após a Páscoa, surgiu o período da especialidade. Manuel Espinho é então enviado para o Regimento de Artilharia Ligeira 4 (RAL 4), em Leiria, onde aqui tira a especialidade de escriturário e SPM. Oportunidade para poder alugar um quarto na cidade do Lis, onde à socapa se vestia à civil nos fins de semana com os seus camaradas… Eles eram o Arlindo, o Gato, o Luís Filipe Rodrigues e outros mais que já não recorda. Pois é, o Manuel Espinho e o Arlindo ainda arranjaram umas namoradas em Marrazes e Marinheiros. Terminada a especialidade, em meados de junho de 1966, a maioria foi colocada nas diversas unidades militares como escriturários. No entanto, o Manuel Espinho, o Gato, o Carlos Paulo Rato, o Luís Filipe, o Tomás e o Torrão, entre outros cuja memória já não lhe ajuda, foram parar à Trafaria para obterem a especialidade de operadores cripto. Aqui ficaram até 30 de setembro. Na Trafaria assinaram termos de responsabilidade face à especialidade sensível que estavam a tirar, vindo a saber-se serem destinadas aos serviços da PIDE. Sendo certo que a maior parte do dia era passado nas aulas, também é verdade que o cais onde apanhavam o barco para Belém era perto. Daqui, de elétrico, era um saltinho para a baixa alfacinha. Mas, para além de Manuel Espinho poder ir alguns fins de semana à Covilhã, de comboio, também tinha família em Lisboa, entre o Martim Moniz e a Graça, onde era recebido com muito agrado.

Em 30 de setembro de 1966, terminada a especialidade, já como 1º. Cabo, seguiram rumo a outros destinos, sendo que Manuel Espinho, e mais uma dúzia de seus camaradas, foram colocados no Quartel-General da 2ª Região Militar, em Tomar, sendo posteriormente distribuídos por unidades militares onde havia falta de criptos, só que, por azar, não necessitavam deles quer em Castelo Branco quer na Guarda. Ficou assim em Tomar.

Uns dias antes do Natal de 1966, como era costume, a malta que não estava de serviço e saía, ao regressar passava pelo Centro Cripto para ajudar caso houvesse muito serviço. Numa dessas noites, agarrando numa mensagem, decifrou-a, para ajudar como era costume. Por ironia do destino, verificou que, dessa mensagem, na parte final da mesma, reportada à sua Unidade Militar na Trafaria,  referia que estava mobilizado para Angola. Resultado: no dia seguinte já tinha guia de marcha para seguir para a Trafaria, ficando a saber que o seu batalhão pertencia ao Regimento de Infantaria de Évora, sendo o IAO em Santa Margarida, com apresentação no Batalhão de Caçadores 1903, Companhia de Caçadores 1643. Na guia de marcha para os derradeiros 10 dias da despedida dos familiares, antes do embarque para Angola, a acontecer nos princípios de janeiro de 1967, quando chegou à Companhia encontrou-se com o José Madeira (emigrado no Canadá) e com o Ludovino Pereira (que está em França), aquele como cabo condutor e este como atirador, pois pertenciam à mesma companhia do Manuel Espinho.

No dia 18 de fevereiro de 1967 embarcaram no Vera Cruz para Angola, onde o Espinho encontrou, já no barco, o seu amigo José Baltazar que vive em Cebolais de Cima.

A chegada a Luanda aconteceu em 22 de fevereiro de 1967. Aqui, Manuel Espinho teve a alegria de ser recebido pelos seus tios que viviam em Angola, no Bairro da Cuca, onde passou sempre as suas férias. Em Luanda, ao fim da tarde, encontrava-se sempre malta da Covilhã, na cervejaria Portugália.

Foi então a partida do Grafanil para o Norte. Dormiam em viaturas e, de manhã cedo, partiam para o destino: CCS Tomboco, 1643 Lufico, 1644 Zaueva, 1645 Tomboco.

Em janeiro de 1968, a Companhia foi colocada em Ambrizete (na missão). Manuel Espinho foi logo colocado no comando do setor, pois só havia um centro cripto.

Ambrizete tinha a praia junto ao quartel, bares, cinema, avião diário, uma grande sanzala, e muita garota para ajudar a passar o tempo…

Era de facto uma terra inesquecível, já com muitos civis brancos, comércio, bares, restaurantes, um clube com bilhares e snookers, ringue para futebol de salão, cinema e outros espetáculos, polícia e até posto da PIDE, hotel e lojas de roupas e utensílios diversos, avião 6 dias por semana, hospital com um médico, e igreja. Era uma zona de passagem para Noqui, S. Salvador, Santo António do Zaire. Para além disto tudo, um pôr-do-sol inolvidável. Foram, de facto, 27 meses que Manuel Espinho não esquece, por terras do Norte de Angola. Felizmente, de coisas menos boas, não tem para contar, já que por elas não passou, sendo no entanto certo que, do que sabia de negativo, face à especificidade da sua especialidade, nada podia contar a ninguém.

Terminada o seu tempo de serviço, no regresso a Portugal, embarcou no Vera Cruz, em Luanda, nos princípios de junho de 1969, chegando nove dias depois.

 

 

 

 

DO EQUINÓCIO DA PRIMAVERA AO SOLSTÍCIO DO VERÃO

 

Entre estes dois momentos do ano, dou início a este editorial para os estimados Camaradas Antigos Combatentes e Leitores em geral. Depois do que tantos de nós temos passado, será reconfortante que a encantadora primavera nos entregue ao tentador verão, que quase todos esperamos.

Outros momentos foram surgindo desde o último número deste periódico. Por exemplo, muitos já fomos vacinados contra a Covid 19. Outros continuam ainda a aguardar pela segunda dose da vacina. O desejo é de que todos nos sintamos mais protegidos e possamos voltar aos pontos de reuniões diversificadas, incluindo os convívios no espírito dos eventos tão desejados.

Na sequência do Estatuto do Antigo Combatente aprovado pela Lei n.º 46/2020, de 20 de agosto, a que fizemos referência na edição d’O Combatente da Estrela, nº. 120 de setembro de 2020, surgiu em abril a aprovação do protocolo que isenta os antigos combatentes de taxas moderadoras nas consultas, exames complementares de diagnóstico e nos serviços de urgência do SNS, estendendo-se também às viúvas e viúvos dos mesmos.

Segundo um estudo do americano John P Cann, financiado pelo Kings College de Londres, especialistas ingleses e norte-americanos estudaram comparativamente o esforço das nações envolvidas em vários conflitos em simultâneo, principalmente no que respeita à gestão desses mesmos conflitos, no campo da logística geral, do pessoal, das economias que os suportam e dos resultados obtidos. Assim, John Cann  chegou a várias conclusões, entre as quais, que em todo o mundo só havia dois países que mantiveram três teatros de operações de guerra em simultâneo: a Grã-Bretanha, com frentes na Malásia (a 9.300 Km, de 1948 a 1960 – 12 anos); no Quénia (a 5.700 Km, de 1952 a 1956 – 4 anos); e em Chipre (a 3.000 Km, de 1954 a 1959 – 5 anos); e Portugal, com a frente na Guiné (a 3.400 Km), Angola (a 7.300 Km), e Moçambique (a 10.300 Km), de 1961 a 1974 (13 anos).

Os especialistas chegaram à conclusão de que Portugal, dadas as premissas económicas, os seus recursos, a sua pequena dimensão, as dificuldades logísticas para abastecer as três frentes, bem como a sua distância, a vastidão dos territórios em causa, e a enormidade das suas fronteiras, foi aquele que melhores resultados obteve.

Consideraram por último, que as performances obtidas por Portugal, se devem sobretudo à capacidade de adaptação e sofrimento dos seus recursos humanos, à sobrecarga que foi possível exigir a um grupo reduzido de quadros dos três Ramos das Forças Armadas, com comissões atrás de comissões, com intervalos exíguos de recuperação física e psicológica e às centenas de milhares de jovens que durante 13 anos combateram naqueles territórios. Baseiam-se estas afirmações com base em observadores internacionais.

Por várias vezes foi referido, que estes homens que serviram durante estes anos na Guerra do Ultramar, só pelo facto de aguentarem este esforço sobre humano que se reflete necessariamente em debilidades precoces de saúde, mazelas para toda a vida, invalidez total ou parcial, e morte, tudo ao serviço da Pátria, merecem o reconhecimento da Nação, mas jamais lhes foi dada essa justa oportunidade. Algumas referências em momentos como nos dias 10 de Junho, não são suficientes.

Por todo o Mundo se veneram, recordam, imortalizam e se homenageiam os soldados que combateram em teatros de guerras, sejam eles vencedores ou vencidos. Mas muitos dos nossos mortos foram abandonados nos territórios africanos. Valeu o trabalho de excelência da Liga dos Combatentes, diligenciando, tanto quanto possível, que todas as ossadas dos nossos Antigos Combatentes, com as inerentes dificuldades, fossem armazenadas nos respetivos cemitérios, sob devido registo, colocando-as assim à disposição das suas famílias.

Na opinião muito racional do antigo Combatente que nos facultou estes elementos muito pertinentes, refere, e muito acertadamente, “que somos os únicos que não seguem os exemplos generalizados do tratamento diferenciado aos que serviram a Pátria em combate. E pior ainda. O cúmulo dos cúmulos. Quem combateu é censurado, vilipendiado e ostracizado. Pelo contrário, os traidores/desertores, muitos dos quais fugiram e foram viver com mordomias de príncipes e outros que ainda pululam no sistema político vigente, apelavam à morte dos soldados portugueses.”

Muitas memórias foram escritas em livros, alguns dos quais foram objeto de apresentação na Biblioteca Municipal da Covilhã (BMC), por via deste Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes.

Refiro alguns que constam da minha biblioteca pessoal e que já tive o ensejo de os ler:

- A Tropa vai fazer de ti um Homem (Guiné 1971 – 1974), de Juvenal Sacadura Amado. Apresentado na BMC em 21-04-2016.

- Cartas do Mato, por Daniel Gouveia.

- Danos Colaterais – Angola 62/64, de J. Eduardo Tendeiro.

Apresentado na BMC em 2017.

- Memórias Combatentes na guerra do Ultramar, de João Peres, Edição da Liga dos Combatentes Núcleo de Olhão, de 02-04-2016.

- Cambança Final (Guiné – Guerra Colonial) – Contos, de Alberto Branquinho. Maio de 2013.

- Filhos d’outrem ou d’algures, de Alberto Branquinho. Maio de 2015.


Outros nomes que foram objeto de informação pública, como Gente Acenando para Alguém Que Foge, romance da expedição de Paulo Faria a Moçambique; ou Memórias de um desertor, de Sérgio Palma Brito, são sempre obras a ler por quem quiser melhor conhecer realidades demasiado esquecidas, “mas que foram componentes essenciais para compreender os anos de 1969/70 do salazarismo, do colonialismo e do exílio portugueses”.

(In "O Combatente da Estrela", nº. 123-JUL/2021)

9 de junho de 2021

BORA LÁ A RELAXAR

 

Lá vai o tempo em que por aqueles anos de 2006, e seguintes, a caminho da crise cada vez mais prenunciadora, me insurgia nas páginas dos habituais periódicos regionais, e não só, pela vivência por que todos passávamos então.

Ora nesses tempos até era um risco tomar determinadas posições face à vida profissional, mas, como jamais temi assumir a minha forma de pensar, tive o privilégio de ouvir dizer de alguns serem meus leitores atentos.

Na confidência com amigos, por vezes abordava-os como é que viam a minha conduta pelas bandas onde trabalhavam. Se, no pensamento de que fosse leninista, logo me escancaravam a porta de que era visto como muito mais que isso. Não me importunei com a opinião recolhida porquanto, embora não corporizando tal tendência, o que é certo e verdade é que não era nem nunca fui de direita. Preferia, sim, ser um cidadão “às direitas”.

A procissão dos que, logo no adro, se perfilavam para tomar lugar nas primeiras filas dos chicos-espertos, e de alguns jotas de forçada habilidade, no imediato começaram a deixar marcas nos muros para onde subiam, sempre na espreitadela de ver para que lado deveriam saltar.

E assim se foram passando, e continuam, as diatribes de disputa de lugares de topo, com ou sem ventos contrários, para que se consiga agarrar a oportunidade de ficar mais próximo do palanque.

Estamos no país das maravilhas. O Novo Banco apresentou prejuízos de 1329 milhões de euros mas quer novamente distribuir pelos administradores quase dois milhões de prémios, a pagar em 2022. Cavaco Silva acusou o PS de continuar a alimentar “monstro” da despesa pública, mas esqueceu-se das suas patrióticas administrações da Nação. Mentecapto.

O melhor é bora a “esplanadar”. Nas últimas semanas assistimos a verdadeiras romarias pelas ruas das cidades, aldeias e lugarejos. Mesas das esplanadas cheias ou quase repletas, literalmente à procura de um lugar. Enchentes aqui e ali, com a primavera a convidar, sedutora. Pois é, “esplanadar” é ótimo e a restauração agradece. Assim, por exemplo, pode-se falar da Estratégia Nacional de Combate à Corrupção. E, mais uma das maravilhas: de fora do decreto-lei ficam os gabinetes dos principais órgãos políticos e todos os órgãos de soberania, assim como o Banco de Portugal. Trata-se assim de uma mão cheia de nada, outra de coisa nenhuma, nas palavras da psicóloga clínica Joana Amaral Dias. Também, conforme refere um meu amigo sobre a garantia das pensões, “Em Portugal, país do Fado e das Cigarras, ninguém pensa a 20 anos, muito menos quem o deveria fazer, a classe política na qual os cidadãos votam precisamente para que o façam. Não há um só político que pense a mais de 4 anos. Só o estritamente necessário para ganhar a próxima eleição”.

Fico com esta máxima de Aristóteles: “É fazendo que se aprende a fazer aquilo que se deve aprender a fazer”. Concluo com uma breve narrativa, de sua boa memória, dum meu adorável vizinho. Corria o ano de 2017. Ao sairmos de nossas casas encontrei-me no patamar do prédio com o meu vizinho que descia do seu andar. De imediato dirigiu-se-me com voz forte e algo endurecida:

 - “Sabe que dia é hoje?! Sabe que dia é hoje?!”

- “Hoje?... Porquê?...” Respondi-lhe, de certo modo estupefacto.

- “Não sabe?! Não sabe?!” insistiu o vizinho.

- “Só se for por ser o Dia de São Pedro!...” – respondi-lhe.

- “É só para o lembrar que faz hoje 45 anos que fui castigado na Guarda, no RI 12, porque você estava de ronda e pediu-me a dispensa de recolher. Como não a tinha, mandou-me apresentar ao Oficial de Dia e depois, eu… que nunca tinha feito um serviço porque era radiotelegrafista, acabei por ser castigado com serviços de plantão”.

- “Olha para o que você se havia de lembrar, volvido tanto tempo! Eu já nem me lembrava disso mas fez-me agora avivar a memória. Foi apanhado irregularmente porque alguém nos havia avisado dessa irregularidade”.

Ora aqui está uma situação que serve para hilariar nestes tempos em que pretendemos que se rasgue definitivamente o véu dos confinamentos desta maldita pandemia. Como o meu vizinho certamente ficou aliviado da carga de encoberta raiva que sobre mim lançara, descarregando suas mágoas de muitos anos, e que eu desconhecia, fico satisfeito de o ver agora mais alegre e simpático. Por isso, bora lá a relaxar!


(In "Jornal fórum Covilhã", de 09-06-2021)

 

26 de maio de 2021

AQUELA BREVE TERTÚLIA COM O PROFESSOR ARNALDO SARAIVA


 

Esplanada do Centro Comercial da Estação, na Covilhã. Corria o dia onze de junho do ano da graça de dois mil e dezanove. A pandemia ainda não se fazia sentir em Portugal. Na mesa já me encontrava com os amigos comuns: Pedro Batista, natural de São Jorge da Beira, e Sérgio Saraiva, natural de Casegas. Um telefonema do professor para o seu primo Sérgio avisava que a sua deslocação do Porto retardaria um pouquinho o encontro. Afinal, sempre gostaria de conversar com o filho daquele que foi seu professor da primária em Casegas – o falecido José Martins Nunes que, posteriormente, fora funcionário da Biblioteca Municipal da Covilhã até à sua aposentação. Da parte da tarde teria de participar numa conferência no Fundão. Daí que, volvido algum tempo, surgem Fernando Paulouro Neves e Jorge Torrão.

A chegada do professor Arnaldo Saraiva surge com aqueles cumprimentos enlevados em sorrisos. Entre uns cafés e umas águas a conversa não se confina só nos principais interessados na memória do seu antigo professor da primária mas também na vivência de quase todos terem tido a sua passagem pelo Seminário do Fundão. A conversa, entretanto, é interrompida por um grupo de professoras aposentadas que se encontrava numa outra mesa e que o identificam. Entre elas, Maria do Céu Brás, de Casegas.

O professor doutor Arnaldo Saraiva descreve-nos então, dos tempos da sua infância, a alegre disputa dos jogos da bola, nas ruas de Casegas, onde alguns miúdos de então jogavam descalços, e, dentro da escola, naqueles longínquos anos de meados da década de quarenta do século XX, uma cena hilariante entre o prof. Martins Nunes e um dos alunos, seu colega da escola caseguense. Pedira então este, por duas vezes seguidas para ir à casa de banho. Perante a estranheza e o questionar do prof. Martins, o aluno responde com uma justificação em autêntico calão: “Da outra vez fui fazer ‘aquilo’… e agora vou fazer ‘isto’…” Longe estava eu de pensar que esta faceta contada há muitos anos por meu pai, durante o início do seu ensino no magistério primário, ainda seria recordada por um seu ilustre antigo aluno. Ele, Martins Nunes, que foi ainda professor da 4.ª classe, em Casegas, de três alunos que vieram a ser conhecidos dentre os padres jesuítas – José Gaspar Pires e António Costa e Silva. Também outro seu aluno, nesta classe – José de Almeida Geraldes, foi cónego sobejamente conhecido, chegando a ser diretor do Notícias da Covilhã.

Como algumas vezes referi, nasci na Pousadinha, freguesia de Aldeia do Carvalho, mas estive na iminência de nascer em Casegas. Para aqui veio o prof. Martins com minha mãe, e o seu primeiro rebento – Rita Fátima.  Meu pai, natural de Bogas de Baixo, não pôde continuar os estudos no Seminário do Fundão, tendo assim optado pelo magistério primário, sendo colocado como regente escolar na Casa do Povo do Bairro do Rodrigo, na Covilhã, num curso noturno que se iniciou no dia 07/01/1938. Depois continuou cumulativamente com o Posto Escolar Masculino da Borralheira. Seguiram-se comissões de serviço na Escola Central Masculina da Covilhã, em 1944, e, no ano seguinte, em Aldeia do Carvalho. De 1945 a 1948 foi colocado em Casegas.

Aproximando-se o meu tempo para vir ao mundo, meus pais não queriam que nascesse em Casegas por estar longe dos familiares. Segundo me contaram, em Casegas, o professor Octávio e a sua mulher, Mariana, assim como o padre Nicolau, o Zeca Craveiro e a mulher, prof. Agostinha, ainda lhes sugeriram para eu ali nascer. Não querendo ali ficar, lá foi a bagagem no dorso de uma égua, e os quatro, nos quais se contavam meu pai, minha mãe, a minha irmã, de colo, e eu ainda no ventre de minha mãe, num carro de bois, atravessando a ribeira até ao Ourondo, onde pernoitaram em casa de familiares; depois foi tomar a camioneta para Aldeia do Carvalho.

As memórias perduram e esta com o amigo professor doutor Arnaldo Saraiva reforçaram o interesse nas vivências por onde andámos e algumas raízes que ficaram.

Foto: O professor Martins Nunes com a filha mais velha ao colo, Rita Fátima, e a esposa, com o segundo filho, João.


(In Jornal "Notícias da Covilhã", de 27 de maio de 2021)

19 de maio de 2021

NA RESILIÊNCIA DO SEMANÁRIO MAIS ANTIGO DA REGIÃO

Nos tempos que correm não é fácil manter um periódico a circular sem alguns períodos de inquietações. Se agora foi a pandemia que afetou também o jornalismo, já antes surgira a questão do digital com aquele receio latente em detrimento do jornal em papel. Não nos podemos desviar da futurologia e, por isso mesmo, todos os órgãos da comunicação social souberam aproveitar as oportunidades dos momentos. É numa conjuntura de trabalho híbrido que o jornalismo hoje assenta, verificando-se que já não são só os grandes títulos da imprensa que a tal aderiram como também aqueles que nos são de proximidade – os regionais.

Felizmente que há 47 anos vivemos o estado da liberdade de imprensa, sendo certo que, segundo o DN, “num contexto de degradação geral, Portugal surge nos 12 países que a organização considera terem ambiente favorável ao jornalismo”, encontrando-se o nosso país no 9.º lugar, com o trio da liderança na Noruega, Finlândia e Suécia.

Desde o primeiro jornal português; de há 370 anos, que ajudou D. João IV a consolidar o poder em 1640, e que dava pelo nome comprido de “Gazeta, em que se relatam as novas todas, que houve nesta Corte, e que vieram de várias partes do mês de Novembro de 1641”; que, até à atualidade, subsistem os mais antigos, tendo já alguns atingido o centenário. Todos eles foram parte importante na história do nosso país, sendo que muitos dos regionais, por este país fora, foram e são de primordial importância pela sua “teimosia” em vincar as necessidades das suas regiões.

Se não fosse esta proximidade da imprensa regional, os governos sentir-se-iam menos solicitados às tarefas regionais e, consequentemente, pelo não abanão a que não seriam votados. É sempre necessário insistir naquela de que “água mole em pedra dura tanto dá até que fura”. Muito se deveu às enormes quantidades de tinta que moldou os jornais para que melhoramentos acontecessem ou necessidades existentes se dissipassem nas regiões. Mas também por via do surgimento da era digital a partir de 1986, com a Internet em Portugal.

Muito poderia servir de enumeração de acontecimentos surgidos, ao longo da vida de um jornal, mas, cá por esta região, exemplifiquemos a ação da imprensa regional para que saísse da letargia a renovação e reabertura do troço da linha da Beira Baixa, entre a Covilhã e a Guarda e vice-versa, ocorrido no passado dia 2 de maio.

O que poderei agora dizer sobre a longevidade do “Notícias da Covilhã” (NC), nos seus 102 anos da existência com este título, e 108 da sua própria existência com a designação de “A Democracia”?

Tenho a honra e o prazer de escrever neste Semanário desde 1964. Conheci-lhe quatro Diretores, para além do atual. Com eles convivi. Efetivamente, o NC é o semanário mais antigo da região, e, conforme muito já escrevi sobre o mesmo, as suas páginas narram parte importante da história da Covilhã.

Longa vida para o NC porque a sua voz é imprescindível pelo seu prestígio jornalístico.

(In "Notícias da Covilhã", de 20 de maio de 2021)


12 de maio de 2021

EM LIBERDADE

 

Os dias em que mais se falou em liberdade e trabalhador já lá vão, na espuma do tempo, esta ainda dominada pelos números da pandemia e pelos resultados provisórios do processo mais mediático da justiça portuguesa. Certo é que, quanto à doença infeciosa, já quase é um tormento ouvir-se falar de epidemiologias, virologias, pneumologias, infeciologias, e outras “logias”. Mas é indubitável que se torna necessária a literacia neste domínio.

Se o 25 de Abril será para sempre memorizado como o Dia da Liberdade, quer queiram quer não, já o 1º de Maio se repercute no Dia do Trabalhador. Sobre este último não deixa de ser confrangedor, no estudo divulgado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, o retrato que se apresenta sobre a pobreza em Portugal: 17,2% da população portuguesa, o que significa 1,7 milhões de pessoas, vivem em risco de pobreza. Sendo certo que este estudo se baseia em dados de 2018, não é difícil prever que estes números já terão sido superados na atual situação. E continuarão a subir. Tal como Eça de Queirós referiu, em Os Maias, “para aí apareceu o Satanismo, o Naturalismo e o Bandalhismo, e outros esterquilínios em ‘ismo’…”

Num artigo lúcido e acutilante de Joana Amaral Dias, in DN, refere o distanciamento de tantos da vida partidária e da intervenção pública face ao delapidar do bem comum por “um punhado de sociopatas e videirinhos cujo único objetivo é servirem-se a si mesmos”. São às resmas neste país de brandos costumes, à beira-mar plantado, sobejamente conhecidos, pelo que me dispenso de aqui nomear alguns, pois não caberiam nesta página. Mas não posso deixar de nela fazer referência a uma afirmação da diretora do DN, Rosália Amorim, de que “se o enriquecimento ilícito preocupa os portugueses, julgo que o empobrecimento ilícito preocupa ainda mais”.

Voltando ao dia da liberdade, Leonete Botelho, in Público, realça o consenso neste 25 de Abril – palco constante de disputas políticas e pretexto para frequentes ajustes de contas com a história – em torno do discurso do Presidente da República: “No dia da liberdade, Marcelo Rebelo de Sousa, filho de um governante do império e um dos artífices da constituição democrática, quis pôr o dedo na ferida da guerra colonial que começou há 60 anos e dali partiu para um apelo à reconciliação com a história”. – “Não há, nunca houve, um Portugal perfeito”. E o Parlamento aplaudiu o Presidente de pé. Alguns historiadores, como Manuel Loff, no entanto, divergiram e criticaram essa visão reconciliadora, nomeadamente no que concerne ao facto de Marcelo, em 2017, no Senegal, ter elogiado a precocidade portuguesa na história da abolição da escravatura, pretendendo que Portugal a teria abolido em 1761, pois não só sabia que o Estado português o não fez antes de passados mais de cem anos.

Nas palavras de Fernanda Câncio, in DN, num notável discurso, o presidente abordou enfim o passado como ferida, pedindo que saibamos assumir o olhar dos colonizados e entender que há várias histórias na história, incluindo a sua, filho do último ministro das colónias (Baltazar Rebelo de Sousa), príncipe imperfeito deste regime e do outro. Uma mensagem claro escuro como o país que interpela. “Nas leis, os negros classificados com ‘indígenas’, ou seja, a maioria da população de Moçambique, Angola e Guiné, eram excluídos da cidadania e tratados como sub-humanos”.

Dois dias após o 25 de Abril, pouco se falou duma efeméride que merecia destaque – os 500 anos da morte do navegador português Fernão de Magalhães, nas Filipinas, às mãos de Lapu Lapu, o chefe dos guerreiros que escusadamente Magalhães desafiou, em 27 de abril de 1521.

Falta cumprir uma liberdade, refere Rosália Amorim – a de movimentos. A Avenida da Liberdade, em Lisboa, encheu-se de portugueses para assinalar o dia da Revolução dos Cravos. Eram pessoas a mais para distâncias a menos. A pandemia ainda não desapareceu e os portugueses não atingiram a imunidade de grupo. A liberdade não é uma justificação para tudo, nunca foi, pelo que o melhor é aguardar, manter a prudência e não correr o risco de morrer na praia.

Quem Me Dera! – Termino com parte da canção de Mariza: “Quem me dera/Abraçar-te no outono, verão e primavera/Quiçá viver além uma quimera/Herdar a sorte e ganhar teu coração”.

(In "Jornal fórum Covilhã", de 12-05-2021)

 

5 de maio de 2021

DE ONTEM PARA HOJE

 

Um sonho de alguém que, como muitos do presente, ainda vão andando por aí.

Ontem ainda acariciava o tempo. E vivia a noite sem se importar de marcar os seus dias. Esses momentos de um tempo que se dissipava na contagem decrescente da sua vida. Foram mil e um projetos. Muitos deles não passaram dum contínuo sobrevoar pelo espaço sideral. As milhentas esperanças juntaram-se como que um bando de pássaros seguindo viagem para outros rumos, em mudança de estação. E ficou impávido. Esperanças então perdidas numa perplexidade constante de agir contra os ventos contrários. Que por força duma visão obscura os seus olhos, procurando o Céu, tinham, no entanto, o coração imanado na terra.

Ontem ainda se regalava com o tempo. Pensando que a vida lhe iria sempre sorrir, esbanjava esse mesmo tempo, acreditando que o podia comandar. E para que lhe pudesse imprimir a sua ordem, numa tacanhez pensante, pôs-se a correr, pensando que ia na sua frente, que o tinha ultrapassado. Começou a sentir um cansaço em demasia. Ignorou factos, mesmo do passado recente, pensando que se conduzia, por si próprio, ao futuro.

Precedia do seu egocentrismo. Rejeitava qualquer conversa sobre quem lhe aconselhava a meditar naquelas névoas que persistiam em afligir os sensatos. Permutou uma alteração da sua conduta por sorrisos irónicos. Da qual até opinava que ele queria o melhor. E, assim, por si o mundo era criticado num desplante em exuberância.

Ontem ainda não vislumbrava os erros para onde se ia direcionando. Mas, num ápice, no acordar dum sonho, não aquele que comanda a vida, sobressaltou-lhe o espírito. Tivera uma juventude insolente, atingiu o tempo de homem feito, não acompanhou o ritmo, se lancinante, também gratificante, entre esses ventos e marés da própria vida. Perdeu tempo, tempo desregrado.

A cometer loucuras, no fundo nada lhe deixa para a vida no adir dos anos, dos quais nem deu conta que iam passando. Mas não deixou de acreditar no que viu no seu espelho que lhe mostrou várias rugas no rosto, que não conseguiu disfarçar.

Ontem ainda mantinha a sua incredulidade em tudo, naquele seu indómito ceticismo.

E, assim, na morbidez do seu pensamento, naquele enfado dos continuados confinamentos, não ligou, não se importou com o que diziam, a saturação tornou-se mais do mesmo para si.

O bicho mau, que diziam existir, mas que ele jamais viu, ou sentiu, para ele não contava. Não estava no seu íntimo tapar a cara e o nariz, fugir das pessoas, deixar de se animar na copofonia.

Ontem ainda, quando acordou dum novo sonho, tinham-lhe dito que tivera uma grande sorte. Estava a sair dos cuidados intensivos. Só se lembrou, e agora indelevelmente, depois de estar fechado em quatro paredes e não reconhecer ninguém, de que, afinal, para que serviu todo este seu comportamento? Esta lição ficou-lhe bem estudada, para toda a vida! Afinal, seus amores morreram antes de existirem, e seus amigos partiram e não mais retornarão. Por sua culpa criou o vazio em torno de si mesmo.

Gastou toda a sua vida, entre o melhor e o pior, baldando-se do melhor. Já não lhe rodeiam sorrisos e verte-se em lágrimas de arrependimento.

Ontem foram aqueles seus nefastos sonhos, como castelo de cartas; hoje vive no seu isolamento que insensatamente criou.


(In "Notícias da Covilhã", de 06-05-2021)