5 de julho de 2023

Entrevista à Rádio Fórum em maio de 2023 - Algo mais que o constou da entrevista

 

JOÃO DE JESUS NUNES

Nasceu no lugar da Pousadinha, freguesia de Aldeia do Carvalho, atualmente, Vila do Carvalho, do concelho da Covilhã, no dia 28 de março de 1946. Casado há 53 anos, tem dois filhos e quatro netos.

Estudou na Escola Industrial e Comercial Campos Melo da Covilhã, e, mesmo antes de ter concluído o Curso Geral do Comércio e Exame de Aptidão Profissional. exerceu várias funções, ainda enquanto estudava, como trabalhador-estudante, sempre na área administrativa, como empregado de escritório. Depois, aos 17 anos, foi funcionário e progrediu na carreira para o quadro vitalício da Câmara Municipal da Covilhã, com a nota mais alta, até que surgiu o serviço militar obrigatório onde foi integrado no Curso de Sargentos Milicianos.

Após o regresso do serviço militar, ainda passou pelos escritórios de uma empresa no concelho do Sabugal, passando depois a exercer as funções de gerente da delegação duma seguradora, na Covilhã, atividade que nunca mais largou, terminando como empresário em nome individual, até à sua aposentação, nesta última atividade, num total de 40 anos.

Efetuou vários cursos profissionais e participou em muitos seminários e cursos de formação, alguns dos quais ministrou. Em representação do ISP (atualmente ASF) foi nomeado para fazer parte do júri de exames a mediadores de seguros.

Foi convidado para participar nalgumas Conferências, sobre assuntos ligados à vida cultural, e também no âmbito do jornalismo, em Casas de Cultura e na Universidade da Beira Interior.

Dedicou-se ao dirigismo, onde exerceu alguns cargos entre os quais Presidente da Direção.

Desde os 18 anos que começou a escrever nos jornais, através de artigos de opinião e crónicas, a caminho dos 59 anos de escrita, contando já com 759 artigos dispersos por 32 jornais e revistas da Covilhã, Região Beirã e País, para além de centenas de referências aos seus trabalhos em cinco periódicos nacionais e um espanhol.

Publicou já 12 livros, de âmbito monográfico e biográfico, e criou duas revistas.

Atualmente é cronista permanente num semanário, num quinzenário, num trissemanário e esporadicamente escreve noutros periódicos regionais.

 

E-mail: jjnunes6200@gmail.com

Blogue: www.https://entre-as-brumas-da-memoria.blopspot.com

A MINHA AÇÃO CULTURAL

Sempre gostei de escrever, influenciado pela minha vivência na antiga Biblioteca Municipal, ao Jardim, onde passei grande parte da minha meninice e adolescência. Era aí que meu Pai trabalhava com a responsabilidade de abrir e encerrar a mesma, o atendimento dos leitores procurando saber o que pretendiam, numa altura de forte iliteracia, na entrega dos livros e jornais solicitados, e de todo o arquivo e trabalhos inerentes. Desempenhava muitas vezes o lugar de bibliotecário, nas longas ausências da primeira bibliotecária que conheci – a Drª. Maria José Borges, nos anos 50 do século passado. Só mais tarde veio a nova bibliotecária, Drª. Maria Celeste de Moura.

As novas tecnologias ainda nem por sonhos tinham emergido. O meio universitário era inexistente, pois só o havia em Lisboa, Porto, Coimbra e Évora.

Havia a Escola Industrial e Comercial Campos Melo, com cursos muito vocacionados para a indústria local enquanto o Liceu só mais tarde passou a Nacional. Quem quisesse prosseguir via universitária teria de ter as algibeiras bem recheadas para se poder deslocar para fora da Covilhã. Aqui havia ainda o Colégio Moderno onde os estudantes podiam ir até ao 7º ano nessa altura, contrastando com o Liceu que só prosseguia até ao 5º ano, assim como a Escola Industrial, com a sua equivalência.

Como o meu Pai, antes desta atividade fora professor primário, foi ele que me ensinou a ler e a escrever, pois eu, na Primária, no Asilo, entrei logo para a 2ª classe. Terminada a 4ª classe (a obrigatoriedade escolar na altura terminava aqui) fiz exame de admissão ao ensino secundário que efetuei na Escola Industrial, e fiquei aprovado. Aqui, na Escola Industrial, iniciei o Ciclo Preparatório e vim a concluir o Curso Geral do Comércio e respetivo Exame de Aptidão Profissional.

Meus País vieram a ter uma prole de filhos, habitual para a época. As dificuldades económicas eram enormes. Não conhecíamos o que era ter férias e as nossas algibeiras andavam vazias, pois não havia hipótese de qualquer tipo de semanada. Então, incuti no meu Pai a ideia de arranjar um emprego e passar a estudar à noite. Assim sucedeu. Tive de fazer um exame de transição que me obrigou a estudar, naquele calor de verão, o livro do 2º. Ano da História Geral e Pátria, sem qualquer apoio de um professor. Estudar num mês e meio a matéria que se dava num ano. Para além de também ter de fazer exame a Francês. Isto para não atrasar um ano, já que à noite o Curso tinha mais um.

Os jovens de hoje não sabem destas dificuldades, como sói dizer-se: comer o pão que o diabo amassou.

Mas a minha veia para a escrita foi emanada do ensino de meu Pai, da vivência na biblioteca municipal, atento a tantos estudantes que por ali passaram, e que hoje vejo pelo país fora, com cursos superiores, aposentados; e outras figuras de proa que por ali conversavam com meu Pai, por quem tinham enorme consideração e respeito. Note-se que ele foi professor da 4ª classe, em Casegas, na Primária, do falecido Cónego José de Almeida Geraldes, antigo diretor do Notícias da Covilhã (NC), e do poeta, escritor, professor universitário aposentado, conhecido dos meios televisivos, Prof. Dr. Arnaldo Saraiva, além de dois padres jesuítas.  Os professores de excelência que tive na disciplina de Português, levaram-me ao desenvolvimento cognitivo, qual musa inspiradora nas redações ou composições onde geralmente tinha nota elevada.

É que, meu Pai, nas poucas horas vagas que tinha do serviço na Biblioteca Municipal, esticava o tempo ao tempo e ainda lecionava Cursos de Educação de Adultos, também a preparação para os exames de admissão ao Secundário, situação que existia na altura (a obrigatoriedade do ensino terminava na 4ª. classe, como referi), conseguiu que, pela primeira vez, fosse criado um Curso de Adultos na Cadeia Comarcã da Covilhã, destinado a meu Pai que foi ali o primeiro professor a exercer.

Com 17 anos era administrativo na Câmara Municipal da Covilhã. Concorri ao que havia na altura da minha categoria, tirei a nota mais alta e, entretanto, chega o Serviço Militar Obrigatório. Guia de marcha para Tavira, para o Curso de Sargentos Milicianos, onde me acompanharam antigos Colegas da Escola Industrial (dois já falecidos), e lá fui encontrar outros. Daqui, para Leiria, onde acabei por ficar colocado em terras do Lis, mas distante da Covilhã. Era uma unidade militar – o RAL 4 – junto ao castelo, onde iam chegando covilhanenses que ali iam tirar a especialidade de escriturário, e eu tirei a de amanuense. Vários deles passaram pela formação que eu ali estava a ministrar – datilografia.

Mas a família e o namoro faziam com que eu desenvolvesse esforços para ir para mais perto de casa. E assim, guia de marcha “sem despesas para a Fazenda Nacional” para a Guarda. No RI 12 fui encontrar mais covilhanenses, uns mais velhos que eu, antigos Colegas da Escola: o Eduardo Prata, o Bicho Nogueira, o Nuno Rato, do Teixoso; outros mais novos, como o José Marques Abrantes. Também lá se encontrava o António José Fazenda que jogava no Sporting da Covilhã, tal como o Eduardo Prata.

Como esta Unidade Militar tinha um boletim informativo, toca de me intrometer e fazer o meu primeiro artigo, fora da Covilhã, em Fronteiros da Beira.

Após 42 meses de vida militar obrigatória, chegou a vez de dar o salto para a vida civil, e regressar à Câmara Municipal.

Enquanto escrevia no NC, algumas vezes com receio da PIDE, face a algumas minhas críticas, tratei de nova vida para o setor privado, indo trabalhar durante um ano para uma empresa do Sabugal, e, de seguida, chegava um convite para chefiar a parte administrativa e comercial da Companhia Europeia de Seguros, onde me realizei, passando depois a empresário nesta área, então já com a Liberty Seguros e outras Seguradoras.

Mas o bichinho da escrita mantinha-se com artigos em vários jornais regionais e nacionais, até que, na envolvência do dirigismo duma associação que ajudei a fundar – a APAE Campos Melo -Associação de Antigos Professores, Alunos e Empregados da Escola Campos Melo, incuti naquela Associação que se homenageassem todos os antigos atletas, treinadores e dirigentes do Sporting Clube da Covilhã (SCC) dos tempos da então Primeira Divisão Nacional. Escrevi aos jornais desportivos Record e A Bola, que, na altura ainda não eram diários, num apelo para o evento. Embora tivesse o azar de ser num terrível período financeiro do clube que chegou ao ponto de ter as taças e troféus penhorados, para além das receitas dos jogos, acabou por ser um êxito, com a receção das Velhas Glórias do Clube no Salão Nobre da Câmara Municipal, no dia 28 de setembro de 1991. Tinha-me então comprometido a escrever, ainda que duma forma rudimentar, por falta de dinheiro, dentro do que foi possível na altura, o primeiro livro sobre a História do Sporting Clube da Covilhã.

E a comunicação social nacional dava notícia destes eventos, chegando ao ponto de, numa formação profissional que eu tive em Leiria, o orientador da mesma ter feito referência antes de se prosseguirem os trabalhos, do anúncio dum dos meus livros que tinha saído no jornal O Jogo.

O mesmo aconteceu com os espanhóis que vieram jogar à Covilhã, num Torneio Quadrangular, em que no jornal El Adelanto, de 14 de agosto de 1993, faziam referência a um outro livro que eu iria publicar.

Não havia muitos escritores na altura e a inexistência das novas tecnologias dificultavam a missão. Utilizava a máquina de escrever por falta de computador. As tipografias também ainda não estavam muito avançadas e quando surgiu o primeiro livro com algumas páginas a cor, era necessário empregar várias chapas. Agora é tudo muito mais fácil e económico.

Depois foi uma sequência de publicações, umas de minha iniciativa, em momentos de efemérides, outras a pedido dos responsáveis pelas associações, coletividades e instituições, conhecedores de que quando me pediam e eu aceitava sabiam que não falhava. Este aspeto de confiança na minha pessoa levou-me a assumir compromissos que para mim me ficavam caros em material necessário (jamais levei algo por direitos de autor), mas mormente nas centenas de horas gastas e no desgaste mental, chegando algumas vezes perto do desânimo, mas que jamais quis assumir.

Foi assim que, depois dos três livros sobre a história do SCC (ainda viria a surgir o quarto), veio a ser publicada a História dos Bombeiros Voluntários da Covilhã (BVC), em dois volumes, a convite do presidente da Direção, de que eu fazia parte do Conselho Fiscal.

São obras monográficas que nem todos se arrojam a avançar para uma publicação porque têm imenso desgaste, conforme já referi. E nem todos dão valor ao conteúdo histórico que ali está.

Mas a rainha das minha aventuras de historiar foi na anuência ao convite que me foi feito por um grande amigo, no Restaurante do Sangrinhal, acabando por tudo se decidir exclusivamente com um aperto de mão, sem papeis de compromisso: Fazer a História dos Seguros em Portugal. Depois da minha insistência de incapacidade para tal, face à existência de várias obras por autores consagrados, mas contra a insistência de quem em mim confiava, acabei por perder a cabeça e ceder. Foi a obra que mais me agradou fazer, incutindo-lhe um cunho inédito, “descrevendo a história dos seguros, universalmente e em Portugal, de uma forma surpreendente através do argumento de romance e de uma antologia das mais importantes fontes”. O Documento Antigo – Uma outra forma de ver os Seguros, assim se designa a obra, encontra-se em mais de 150 bibliotecas municipais do País, e também universidades e instituições diversas.

Para terminar, o ano 2022 viu publicar os meus dois últimos livros: Da Montanha ao Vale, e Recordar é Viver, este que é uma adaptação daquele que começou a nascer em 2 de julho de 1967, já lá vão 56 anos.

 

 

 

 

 

 

 

Para além da minha vida profissional na atividade seguradora, primeiro como gestor, depois como empresário, a par do espaço de tempo gasto na literária,

ainda me dediquei ao associativismo, primeiro no dirigismo da APAE Campos Melo – Associação dos Antigos Professores, Alunos e Empregados da Escola Campos Melo, da qual fui o seu segundo Presidente da Direção, depois de a ter ajudado a fundar, e na participação dos grandes trabalhos das Comemorações do Centenário da Escola Campos Melo. Foi aqui que iniciei as minhas primeiras publicações – APAE – Nove anos de atividades culturais e recreativas ao serviço da Cidade e do Concelho, em 1992, depois de ter feito uma Retrospetiva, dos sete anos desta Associação, em 2 de junho de 1990 (que eu não incluo no cômputo dos meus livros publicados). Já em 1991, após a homenagem às Velhas Glórias do SCC, saiu a 1ª edição do livro Subsídios para a História do SCC, em 28 de setembro de 1991 (que, tal como o anterior, também não incluo no cômputo dos meus livros publicados).

No meu mandato de Presidente da Direção criei a revista ECOS DA APAE, de periodicidade trimestral, que passou a ser, pelas direções seguintes, revista anual, a apresentar nas Comemorações daquela Associação.

Depois, nos Bombeiros Voluntários da Covilhã (BVC), numa altura de grande convulsão com os Presidentes da Direção cessante e a eleger, fui eleito, já pela madrugada, Vice-Presidente do Conselho Fiscal, com a presidência neste órgão do meu falecido amigo, Dr. Carlos Barradas. Pretendia o então presidente da Direção eleito, professor Ricarte Anjos de Matos, que fosse o Vice-Presidente da Direção, mas não pude aceitar por desgaste na APAE. Contudo, surgiu-me aqui o convite para escrever a História dos BVC, a qual foi concluída, com muito sacrifício, ao longo de seis ou sete anos, por escassez de tempo, e na tentativa de solucionar polémicas existentes. Saiu uma obra, em dois volumes, muito completa, desconhecendo, na altura, a existência de outra melhor no País.

Liberto um pouco da publicação de livros, mas mantendo a escrita nos jornais, sempre com leitores atentos, viria a publicar, como mais adiante refiro uma obra que foi considerada, mais que um ensaio, um autêntico Tratado de Seguros, inédito, porque lhe foi incutida uma forma romanesca no seu desenvolvimento, com personagens, na sua maioria, covilhanenses.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Conferências e Jornalismo

A convite do Professor Doutor João Manuel Messias Canavilhas, participei num painel, com debate, sobre Jornalismo e Cidadania, na UBI, em 15 de março de 2012.

A convite do Professor Doutor António dos Santos Pereira, participei na Conferência no Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, no Museu dos Lanifícios – Fábrica Veiga, sob o tema “Desporto, Um Património Comum”, em 18 de abril de 2016.

Exposições Temáticas

- 28-09-1991 (durante 30 dias) – Na Sede da APAE Campos Melo – Exposição histórico-documental sobre o Sporting Clube da Covilhã (SCC) e objetos de clubes e federações de todo o mundo, para além de algumas peças pertencentes ao SCC.

- 02 a 16 de junho de 2007 – No Espaço do Museu de Arte e Cultura da Câmara Municipal da Covilhã (reclassificado, atual Museu da Covilhã) – Exposição histórico-documental sobre o Sporting Clube da Covilhã, com todos os objetos que constituíram a exposição anterior, acrescida de mais de uma centena de livros sobre a história de clubes portugueses, bem como de jornais, revistas, variadíssimos objetos e documentação desportiva, e fotos alusivas à coletividade serrana.

Foram ainda expostos todos os desenhos sobre o SCC, incluindo os premiados, do concurso que diligenciei fosse promovido para as crianças da Escola Básica e Jardim de Infância do Rodrigo.

- 18 de abril de 2016 (durante 10 dias) – Exposição sobre algumas figuras, documentos e livros sobre o SCC, conjuntamente com outras do Museu.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PUBLICAÇÃO DE CRÓNICAS E ARTIGOS DE OPINIÃO E REFERÊNCIA DA COMUNICAÇÃO SOCIAL SOBRE OS MEUS TRABALHOS, NOS SEGUINTES PERIÓDICOS:

NOTÍCIAS DA COVILHÃ

FRONTEIROS DA BEIRA (extinto)

JORNAL DO FUNDÃO

A GUARDA

GAZETA DO INTERIOR

SPORTING

RECONQUISTA

O LEÃO DA SERRA (extinto)

A BOLA

O SPORTING OLHANENSE (atualmente O OLHANENSE)

ASSOCIAÇÃO DE FUTEBOL DE CASTELO BRANCO – COVILHÃ DESPORTIVA – I TORNEIO QUADRANGULAR CIDADE DA COVILHÃ (revista única)

ECOS DA APAE

TRIBUNA DESPORTIVA

RECORD

VOZ DO TRABALHO

VERDE E BRANCO – SPORTING CLUIBE DA COVILHÃ (revista única)

VELHAS GLÓRIAS DO SPORTING CLUBE DA COVILHÃ NUM ENCONTRO DE AMIZADE NO FUTEBOL CLUBE ESTRELA DE UNHAIS DA SERRA (revista única)

DIÁRIO XXI (extinto)

O INTERIOR

O COMBATENTE DA ESTRELA

NOTÍCIAS DE GOUVEIA

PORTA DA ESTRELA (penso que já extinto)

ESSENCIAL SEGUROS (depois SELFIE SEGUROS, atualmente FRELANCER)

NOTÍCIAS MAGAZINE (extinto)

VIDA ECONÓMICA (Separata Seguros)

BOLETIM PORTUGUÊS DA SOCIEDADE DE SÃO VICENTE DE PAULO

FÓRUM COVILHÃ (depois JORNAL FÓRUM COVILHÃ)

BOLETIM INFORMATIVO DA CASA DA COVILHÃ Nº. 1

LIBERTY EM ACÇÃO (extinta)

KAMINHOS MAGAZINE (extinto)

EUROPEIA (extinta)

JÁ AGORA (extinto)

AGENDA CULTURAL DA COVILHÃ (extinta)

URBI ET ORBI

EL ADELANTO (Salamanca)

JN

CM

O JOGO

DIÁRIO DE COIMBRA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CRÓNICAS E ARTIGOS DE OPINIÃO PUBLICADOS

ATÉ 15-05-2023

- Inseridos no blogue ...................................................   605

- Conforme discriminação na minha última análise,

Inserida em “Escrever a Caminho de 56 anos” – De

1964 (14 de novembro) a 2020 (16 de janeiro)................  154

- Total .............................................................................  759

 

Tendo em conta o número de páginas escritas (incluindo conteúdo de fotos), dos 12 livros (excluídos os que não considerei para o cômputo), acrescidas das 759 crónicas e textos de opinião, são mais de Cinco mil e seiscentas as páginas escritas ao longo dos 58 anos e meio, conforme abaixo detalho:

 

- Da minha última análise (páginas de livros) .... 4500

- “Da Montanha ao Vale” ....................................   369

- “Recordar é Viver” ............................................    58

SOMA PÁGINAS DE TODOS OS LIVROS................ 4927

CRÓNICAS E ARTIGOS DE OPINIÃO .....................   759

TOTAL ....................................................   5 686

 

 

 

 

 

LIVROS PUBLICADOS

1992 – APAE Campos Melo – 9 anos de Actividades Culturais e Recreativas ao Serviço da

Cidade e do Concelho

1992 – Subsídios para a História do Sporting Clube da Covilhã (com uma 1ª edição em 1991)

1993 – Figuras e Factos do Sporting Clube da Covilhã

1998 – Sporting Clube da Covilhã – Passado e Presente

2004 – A Conferência de São Vicente de Paulo da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição no seu Centenário – 1903 – 2003

2004 – Vida e Obra dos Bombeiros Voluntários da Covilhã (2 volumes – I – Ontem e Hoje, II – Vultos da sua História)

2007 – Sporting Clube da Covilhã na Taça de Portugal – Cinquentenário da sua participação na Final

2010 – Ernesto Cruz – Um Visionário da Indústria – Um industrial do seu tempo

2015 – Breve resenha do Centro de Recreio Popular Estrela Desportiva de São Pedro – 1944 – 1972

2018 – O Documento Antigo – Uma outra forma de ver os Seguros

2022 – Da Montanha ao Vale – As Viagens de um Grupo de Tertulianos

2022 – Recordar é Viver

 

 

 

 

 

FIM

"Paixão pela escrita nunca morre" - Entrevista à Rádio Fórum


 

29 de junho de 2023

OS ALQUEIRES E AS FANEGAS



 

Dois anos antes da Revolução do 25 de abril, troquei a minha vida profissional de funcionário público pela privada. Passagem de um ano por uma empresa do Sabugal.  Entretanto, foi a anuência a um convite de uma Seguradora, com uma delegação sediada na Covilhã. Gestão administrativa e comercial foram da minha responsabilidade. Então para os distritos de Castelo Branco e da Guarda. Também neste distrito a norte, houve momentos interessantes quão importantes no contacto com muita gente. Eu   que deixara a vida sedentária. Passei a ter cada vez mais gente da minha gente. Nesses tempos iniciais, tudo era muito difícil. Quase como o dia e a noite. Sem novas tecnologias, nem vias de acesso modernas e rápidas, quer de comunicações telefónicas quer de transportes. A necessidade de recorrer ao automóvel próprio ou da empresa. Facilmente compreensível. O tempo em que, para os agricultores, ainda lhes rendiam o cultivo de searas. Para além do trigo, centeio e aveia, também as amendoeiras em Figueira de Castelo Rodrigo.

As searas ainda só se podiam segurar através do seguro de incêndio. Mais tarde surgiu o Seguro de Colheitas, onde se incluíam já, entre outras culturas, as árvores de fruto.

José Fernandes Paixão orientava-me então pelas pequenas propriedades rústicas – as quintas – do concelho da Covilhã.  Pela primeira vez iniciei o preenchimento de uma proposta de incêndio agrícola. Então por aquelas quintas da Olivosa, Polito, Mata Mouros, Amieiro Longo, Grila, Campo de Aviação e outras que se estendiam pelas freguesias do Ferro e Peraboa. As propostas mencionavam o número de quilos de cereal a segurar.

- Quantos quilos semeou?

- Tantos alqueires de centeio, tantos de aveia e tantos de pão.

- Então e de trigo?

- Ao trigo nós chamamos pão.

- Alqueires, alqueires.... Então quantos quilos são?

- Nesta região o alqueire corresponde mais ou menos a 15 ou 16 quilos.

Feitos os cálculos manualmente (ainda sem a utilização da calculadora portátil), havia ainda que adicionar 10% para segurar a palha.

Fiquei habilitado a segurar alqueires de cereais e respetivas palhas para os animais.

Agora, chegava a vez da zona da Guarda, com o José Maria Guerra Caseira, que fora funcionário da Câmara Municipal de Figueira de Castelo Rodrigo, e antigo guarda-redes do Vilar Formoso.  Percorremos freguesias daquele Concelho e do de Almeida. Algodres, Vilar de Amargo, Almofala, Escarigo, Castelo Rodrigo, Reigada, Vilar Torpim. Escalhão, Freixeda do Torrão, Quintã de Pêro Martins, Penha de Águia, Mata de Lobos e Vermiosa.

César Espinho, informou então que tinha semeado tantas fanegas de trigo.

- Fanegas?

- Sim, uma fanega são 50 quilos nesta região.

Deixei de ficar perplexo. Sempre a aprender. E cá no meu pensamento ficou a ideia de um dia escrever sobre estas peripécias da minha vida profissional, e não só.

Mas, nesta de clientes, ficou-me gravada na memória a simpatia geradora de amizade de Trigo Benedito, da Vermiosa. Colocou-me à disposição o seu telefone (ainda não havia telemóveis) para, cerca das 23 horas poder entrar em contacto com a minha esposa, sossegando-a de que chegaria mais tarde à Covilhã.

Embora com as cautelas devidas, lá vinha eu com uns obrigatórios copos bebidos. Ainda não havia controle antidoping...  Preferia deslocar-me pela estrada antiga de Vilar Formoso – Guarda. Ainda não havia ali as autoestradas.  Evitava as perigosas curvas de Pinhel, àquelas horas da noite.

Depois de uma paragem para um chichi, à beira da estrada, ouvia o cantar dos grilos, e um ou outro pássaro que esvoaçava. Lá seguia a caminho da Covilhã. Uma das vezes, com uma lebre que, encandeada, atravessava a estrada quando passava com o carro, na vinda da Vermiosa.

Muito mais poderia contar por entre amigos dessa zona, como o meu antigo camarada de armas, na Guarda, e também funcionário da Câmara de Figueira e Castelo Rodrigo, Francisco Pereira. Ou, então, na Cidade da Guarda, através do amigo colaborador Francisco Vieira, funcionário do Montepio Egitaniense. Algumas vezes pernoitei na Pensão Aliança, com uma visita obrigatória ao proprietário da Loja das Meias. E ao quiosque para adquirir jornais da Guarda.

Tempos que já lá vão.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In Jornal “A Guarda”, de 29-06-2023)

24 de junho de 2023

OS QUE AINDA ESTAMOS NO MUNDO DOS VIVOS


 

Cada vez mais se vai reduzindo o número dos Antigos Combatentes. N’ O Combatente da Estrela, na página da necrologia, por vezes, surgem surpresas sobre os que terminaram a sua missão neste planeta. Muitos deles, senão todos, foram parte importante de algum tempo passado de confraternização, memorizando os tempos da guerra, mas também outros melhores períodos das nossas vidas, como da infância, juventude, tempo da vida escolar à profissional, as viagens, os de convívio fazedores de amizades, não esquecendo os familiares. Já não são só os filhos, mas também os netos.  Até que o prazo de validade humana termina mais cedo ou permanece mais tardio para outros Camaradas.

É a lei insofismável da vida. Esse diafragma que nos suporta mais ou menos tempo. O equador das nossas vivências. Aquele que divide os dois “hemisférios” do nosso corpo humano, embora não sendo esférico. Por um lado, o das memórias e do pensamento que nos direciona para decisões em prol do companheirismo. Por outro, aquele que nos traz o desconforto, o imprevisto, o fazedor de maleitas incontornáveis que se vão agudizando. Muitas vezes parece que nos colocam repentinamente em órbitra, e o nosso “corpo-planeta” perde o caminho a percorrer e vai-se desvanecendo.

Desde a existência do homem na Terra, sempre houve guerras. Ainda umas não acabaram já outras foram emergindo pelo território planetário.

Na última revista “O Combatente”, edição 403, de março de 2023, o diretor, Joaquim Chito Rodrigues, Tenente-General e Presidente da Liga dos Combatentes, no seu editorial, fala num “tema controverso e fraturante sobre o conflito armado que opôs Portugal aos chamados Movimentos que em Angola, Moçambique e Guiné lutaram pela independência!”. Colocou o título – “Guerra Colonial, Guerra do Ultramar, Guerra de África (1961-1975) ... ou Guerra de Libertação?” E desenvolveu o seu artigo dizendo que “Vai-se ao ponto de se considerar que quem utiliza o termo guerra do ultramar é politicamente de direita, quem utiliza o termo guerra colonial é de esquerda! Alguns historiadores tentam mesmo encostar os combatentes do ultramar politicamente, à extrema-direita”. Importante assinalar que a designação oficial de Províncias Ultramarinas durou legal e constitucionalmente 102 anos (de 1838 a 1920 e de 1951 a 1974); e a designação de colónias e de império colonial durou apenas 31 anos (de 1920 a 1951, dez anos antes da guerra do ultramar, embora houvesse Ministro das Colónias depois de 1911).

Na Liga dos Combatentes usamos genericamente a terminologia ultramar e guerra do ultramar e por vezes face à análise do universo envolvente acrescentamos ou guerra colonial se assim lhe quiserem chamar!... “Somos inclusivos – diz Chito Rodrigues. Hoje mantemos relações institucionais com as Associações de Combatentes dos países que fizeram as guerras que denominam ‘Guerras de Libertação’”.

No dia 1 de abril, realizou-se o “Dia do Combatente” e o 105º Aniversário da Batalha de La Lys.

Sobre a secretária do meu escritório, fui encontrar o livrinho de 84 páginas, ano 2012, numa 4ª edição, de Jaime Froufe Andrade, da Coleção Memória Perecível, da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto.  O seu título: “Não Sabes Como Vais Morrer”. São 7 mais 1 histórias de guerra deste autor, e regresso atribulado no Vera Cruz.  Da página 67, transcrevo parte da narração do alferes miliciano Dinis Martins: “Depois da noite em claro, fui até ao bar dos oficiais. Encontrei-o vazio. Não tardou a entrar lá um homem alto, magro, vestido de branco. Era o Comandante do Vera Cruz. Ofereci-lhe a minha mesa e falei-lhe do susto. Lembro-me de ele comentar que poderia ter sido a maior tragédia desde que Portugal se lançou nos Descobrimentos. Comentou ainda que, se tivesse surgido uma terceira vaga, a proa não conseguiria recuperar, e o Vera Cruz mergulharia no oceano para sempre. Dito isto caímos os dois em silêncio”.

Não será demais recordar a primeira parte de um artigo do politólogo, Raul de Almeida, inserido no Jornal Económico, de 07-04-2021, sobre Os Combatentes do Ultramar:

Por todo o mundo, e por muitos pontos de Portugal, há monumentos e toponímia em homenagem aos diferentes combatentes, que em diferentes guerras deram o melhor de si pela pátria, tantas vezes a própria vida. O fenómeno da guerra defensiva liga-se ao longo dos tempos a uma forte ideia de patriotismo. O soldado é por natureza alguém pronto a lutar e morrer pela pátria. Tal condição, independente de ser ou não voluntário, é premissa de coragem e heroicidade.

Os Combatentes portugueses da Guerra do Ultramar, nas suas diferentes frentes, foram homens de enorme coragem e heroicidade. Com risco da vida, a maior parte das vezes distantes das suas famílias, enfrentaram anos da sua vida à defesa de Portugal, que à altura era do Minho a Timor. Aos combatentes não cabe a decisão da guerra ou das fronteiras da nação, apenas o cumprimento da missão que esta implica.

Portugal tem uma dívida de gratidão com todos os combatentes na sua longa história. De Ourique ao Ultramar, a História e as diferentes dimensões de Portugal foram sempre garantidas por combatentes valorosos. As diferentes mudanças territoriais, as poucas derrotas, foram sempre fruto de decisões políticas, nunca podendo ser imputada ao soldado português.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “O Combatente da Estrela”, nº 131-JUL/2023)

23 de junho de 2023

CONTE-NOS A SUA HISTÓRIA JOSÉ MANUEL BRITO

 
Este antigo Combatente na Guiné é uma figura sobejamente conhecida na Cidade, tendo trabalhado num único espaço comercial – a Casa Dinis, sempre muito atencioso e de reconhecida simpatia pelos clientes. Aqui se iniciou aos 13 anos, após concluir a Instrução Primária. Até à sua aposentação completou neste estabelecimento comercial 52 anos de trabalho consecutivo, só interrompido pelo serviço militar.

Nasceu em 2 de novembro de 1941 na freguesia de Santa Maria, do concelho da Covilhã.

Vindo a propósito, memorizamos um extrato dum texto que inserimos no “Notícias da Covilhã”, de 11-04-2003, sob o título “Crónicas da Rua Direita”, como segue:

“De facto, o mais antigo empregado duma casa comercial sediada nesta rua, ainda no ativo, dá pelo nome de José Manuel Brito. Sempre na Casa Dinis, onde entrou com 13 anos, e acabaria por casar com uma sua colega, Helena Almeida. Este veterano já vai em quase meio século de trabalhador por conta de outrem, e, nos seus 48 anos de ligação aquela casa comercial, está como o Vinho do Porto, cada vez mais ativo a trabalhar. Isto contrasta com outros mais novos, que, fruto de reformas antecipadas, passeiam nessa condição, pela Rua Direita, quando há tanto trabalho a desenvolver, ainda que gratuito, no meio associativo e até da solidariedade social, cada vez mais necessária nos dias de hoje. Pois, o José Manuel, como é conhecido, além da sua “enxada” quotidiana, ainda se dedica ao associativismo, tendo pertencido a vários elencos, já lá vão 40 anos, no GIR do Rodrigo, sendo o seu esforço inegável na colaboração que tem prestado em várias atividades desenvolvidas por esta coletividade de prestígio. E como não sabe dizer não a quem dele se abeira, também participou no trabalho de colaboração nas profundas obras de melhoramento na Capela do Bairro do Rodrigo. Tem três filhos que se orgulham do pai – um exemplo de trabalhador”.

Em fevereiro de 1962 foi chamado para iniciar o serviço militar obrigatório, no CICA3, em Elvas, onde fez a recruta e a especialidade de condução autorrodas, fazendo depois exame no Porto, no Cavalaria 6. Seguiu ainda para Espinho e daqui para o BC6 em Castelo Branco, onde foi mobilizado para a Guiné. Nesta colónia esteve durante dois anos, regressando à Metrópole em junho de 1964, no navio Índia.

Ao desembarcar em Bissau no navio Ana Mafalda, seguiu para Bafatá, onde permaneceu todo o tempo.

Como condutor auto participou em várias operações no mato, onde lhe surgiram algumas emboscadas do inimigo (IN), que, embora não o tivessem felizmente atingido, ainda viu morrer em combate três camaradas, soldados do seu pelotão. Todos eles eram do Norte. Ainda passou a poucos metros de uma mina, mas foi avisado a tempo por um seu camarada, pelo que não chegou a pisá-la, o que provocaria o seu rebentamento, que seria trágico e de consequências imprevisíveis. É que, entretanto, no Esquadrão de Cavalaria de que fazia parte, houve muitos feridos nas várias ações de combate.

Veio a ser chamado para trabalhar na messe de sargentos, para servir o pessoal, sem abandonar a condução auto.

De Bafatá foi ainda para Bamadinga, onde, para aqui chegar, tiveram de atravessar o rio Geba, a pé, e, noutros locais, em canoas, sem nunca existirem problemas apesar de haver crocodilos. Chegaram mesmo a apanhar um crocodilo pequeno que levaram para o quartel e o alimentaram, metendo-o num poço. Também muitos macacos foram apanhados, sendo alguns levados para o quartel, a fim de serem domesticados. Alguns camaradas trouxeram-nos de regresso mas acabaram por morrer devido ao clima na Metrópole.

Mesmo assim, um dos sustos que teve foi quando, estando de serviço, encontrou uma jiboia “surucucu” a qual se encontrava num patamar com arame farpado, numa altura em que faziam      uma ronda, com holofote fixo para ver se viam o IN. Era de noite e foi morta pelo sargento.

Como foi referido, andou no mato sempre como condutor, tendo-se sentido feliz por nenhum dos que o acompanhavam terem tido qualquer problema, assim como na sua pessoa, mas, paradoxalmente, sente-se triste ao ter visto morrerem outros camaradas, um deles quando lhe faltava pouco tempo para terminar o serviço e regressar à Metrópole.

Sentiu sempre saudades da família.

Terminado o tempo de serviço, embarcou para a Metrópole e retomou a sua vida profissional na Casa Dinis.

Aos 81 anos, doente, faz a sua vida calma, sempre muito acarinhado pela esposa, que lhe dá todo o apoio de que necessita.

(In “O Combatente da Estrela”, nº. 131-JUL/2023)


22 de junho de 2023

DIA DE PORTUGAL, DE CAMÕES E DAS COMUNIDADES PORTUGUESAS


Quando esta crónica sair já se realizaram as comemorações do “Dia 10 de Junho”, como são mais conhecidas, as quais já tiveram várias designações ao longo dos tempos.

Referi-me a última vez sobre este assunto para as páginas dum semanário, em 16-06-2011, então sob o título “O 10 de Junho e a alma de um Povo”. Foi num período conturbado da nossa história democrática, em que, pela primeira vez em Portugal, no dia 10 de junho de 2011, na sessão solene de Estado, em Castelo Branco, reuniu dois primeiros-ministros: o do ainda Governo de gestão, José Sócrates, e o eleito nas urnas há menos de uma semana, Passos Coelho. Cavaco Silva, o então presidente da República, falou sobre o momento delicado que se vivia e parafraseou o médico albicastrense, do século XVI – Amato Lusitano: “Não há cura para aquele que não quer ser curado”.

Antes de passarmos ao presente, por curiosidade, recordo que houve várias datas de algum relevo, nos dias 10 de junho, sendo que, no ano 1943 foi patenteada a caneta esferográfica, substituindo a caneta-tinteiro, invenção do jornalista húngaro Lászio Biró.

Para além do falecimento de Luís Vaz de Camões, em 10 de junho de 1580, também houve o falecimento de Alexandre III da Macedónia, o Grande ou Magno, em 10 de junho de 323 a.C., na Babilónia, com 32 anos; foi em 10 de junho de 1940  que o líder italiano, Mussolini, declarou guerra à França e à Grã-Bretanha, e, nesse mesmo dia, o Canadá declarava guerra à Itália. Mas também, no dia 10 de junho de 1967, foi o fim da Guerra dos Seis Dias, ganha por Israel; foi ainda o acordo no Conflito do Kosovo, em 10 de junho de 1999, com a Jugoslávia a assinar o mesmo para encerrar o conflito.

Este ano de 2023, as Comemorações do 10 de Junho realizaram-se na África do Sul, com a comunidade portuguesa, e no Peso da Régua, no Douro.

A primeira referência ao caráter festivo do dia 10 de Junho é no ano 1880, por um decreto real de D. Luís I que declara “Dia de Festa Nacional e de Grande Gala” para comemorar apenas nesse   ano os 300 anos da morte de Luís Vaz de Camões.

Até ao dia 25 de Abril de 1974, o 10 de Junho era conhecido como o Dia de Camões, de Portugal e da Raça, este último epíteto criado por Salazar. A partir de 1963, o 10 de Junho tornou-se uma homenagem às Forças Armadas Portuguesas. Com uma filosofia diferente, a Terceira República, converteu-o no Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, em 1978.

A Covilhã já foi palco da celebração desta data, em 1988, era então presidente da República, Mário Soares.

Pouco se sabe com certeza da vida de Luís de Camões. Frequentou a corte de D. João III e iniciou a sua carreira como poeta lírico envolvendo-se, como narra a tradição, em amores com damas da nobreza e possivelmente plebeias. Levou ainda uma vida boémia e turbulenta. Foi preso várias vezes, combateu ao lado das forças portuguesas, onde perdeu o olho direito. Escreveu a sua obra mais conhecida, a epopeia nacionalista Os Lusíadas. Recebeu uma pequena pensão de D. Sebastião pelos serviços prestados à Corte. A sua obra lírica foi reunida na coletânea Rimas, tendo deixado também três obras de teatro cómico. Enquanto viveu queixou-se várias vezes de alegadas injustiças que sofrera e da escassa atenção que a sua obra recebia. Boa parte das informações sobre a biografia de Camões suscita dúvidas. Viveu seus anos finais num quarto de uma casa próxima da Igreja de Santa Ana, num estado, segundo foi narrado, da mais indigna pobreza. Manteve mesmo assim o escravo Jau que trouxe do Oriente. Depois viu-se amargurado pela derrota portuguesa na Batalha de Alcácer-Quibir, onde desapareceu D. Sebastião, levando Portugal a perder a independência para Espanha. Consta que Camões acabou por adoecer e vir a falecer de peste. Segundo Faria de Sousa, foi enterrado numa campa rasa na Igreja de Santa Ana, ou no cemitério dos pobres do mesmo hospital, segundo Teófilo Braga. A sua mãe, tendo-lhe sobrevivido, passou a receber a sua pensão em herança. Depois do terramoto de 1755 que destruiu a maior parte de Lisboa, foram feitas tentativas para se encontrar os despojos de Camões, todas frustradas. A ossada que foi depositada em 1880 numa tumba do Mosteiro dos Jerónimos é, com toda a probabilidade, de outra pessoa.

Camões viveu na fase final do Renascimento europeu, um período marcado por muitas mudanças na cultura e sociedade, que assinalam o final da Idade Média, o início da Idade Moderna e a transição do feudalismo para o capitalismo.

A produção de Camões divide-se em três géneros: o lírico, o épico e o teatral. A sua obra lírica foi desde logo apreciada como uma alta conquista. “A sua produção épica está sintetizada N’Os Lusíadas, uma atentada glorificação dos feitos dos portugueses, não apenas das suas vitórias militares, mas também a conquista sobre os elementos do espaço físico, com recorrente uso de alegorias clássicas”.

O amor e a mulher – Dos temas mais presentes na lírica camoniana, o do amor é central e ocorre de modo notável também n’Os Lusíadas.

Muito haveria a desenvolver dos vários Cantos que constituem esta belíssima obra. Apraz-me, nestas Comemorações, deixar este soneto, em Rimas, muito conhecido:

“Amor é fogo que arde sem se ver;/É ferida que dói e não se sente;/É um contentamento descontente/E dor que desatina sem doer: /É um querer mais que bem querer;/É solitário andar por entre a gente;/É nunca contentar-se de contente;/É cuidar que se ganha em se perder;/É querer estar preso por vontade;/É servir a quem vence, o vencedor;/É ter com quem nos mata lealdade./Mas como causar pode seu favor/Nos corações humanos amizade,/Se tão contrário a ai é o mesmo amor?”

Camões e a sua obra principal, Os Lusíadas, são os símbolos da nação portuguesa, e esta obra parece datar, como acredita Vanda Anastácio, do início da monarquia dual de Filipe II de Espanha, I de Portugal, que entendeu seria de interesse prestigiá-los como parte da sua política para assegurar a legitimidade do seu reinado sobre os portugueses.

Três anos depois da Revolução de abril de 1974 Camões foi associado publicamente às comunidades portuguesas de além-mar, tornando-se a data da sua morte o “Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas”, no intuito de dissolver a imagem de Portugal como um país colonizador e se criar um novo senso de identidade nacional que englobasse os muitos emigrantes portugueses espalhados pelo mundo.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 15-06-2023)

 


 

7 de junho de 2023

GERAÇÕES

Há 17 anos escrevi um artigo num semanário covilhanense, sob o título “A Geração dos 60” (07-09-2006). Exatamente quando eu tinha essa idade.

 

Recordo hoje, com base no mesmo, os meus tempos de menino e moço. Antes do Concílio Vaticano II, as missas eram celebradas em latim. Havia alguns meninos do coro (na Covilhã só os via na igreja dos jesuítas, em São Tiago). O sacristão tinha de acompanhar, respondendo em latim. Agora há os acólitos. Na igreja de S. Tiago, como é mais conhecida, mas que tem o nome de Sagrado Coração de Jesus, havia, da mesma Ordem, “os Irmãos”. O último foi o irmão Gaspar, que ali esteve muitos anos, até ao seu falecimento. O celebrante, durante a maior parte do ato litúrgico, estava de costas voltadas para os fiéis. Tal qual como o iniciava. Voltava-se, breves segundos, como que para quebrar um longo silêncio, na pacificidade dos fiéis, com uma voz, por vezes vibrante: Dominus Vobiscum. Talvez acordaria um ou outro sonolento. Alguns fiéis acompanhavam a missa com as orações inseridas nos seus missais. O padre, de frente para os fiéis, só durante a homilia. E, obviamente, durante a Comunhão. Os homens ficavam separados das mulheres. Estas cobriam a cabeça com um véu. No templo, elas não usavam calças nem os vestidos eram de mangas cavadas, ou atrevidos, como vai acontecendo nos dias de hoje.

Havia o conluio Salazar/Cardeal Cerejeira que procurava manter o povo contente com a trilogia:  “Fado, Futebol e Fátima”.

 

O carteiro distribuía as cartas, com mais atenção que nos tempos que correm. Já quase não se escrevem. As oficiais ou que queriam incutir uma certa deferência, terminavam com a sacrossanta expressão: “De V. Exª., atento, venerador e obrigado”, e os ofícios: “A Bem da Nação”. Os funcionários públicos, eram obrigados a assinar um documento, com assinatura reconhecida notarialmente, onde declaravam: “Declaro, por minha honra, que estou integrado na ordem social estabelecida pela Constituição Política de 1933, com ativo repúdio do comunismo e de todas as ideias subversivas”

Foi nesta geração que a juventude, em Portugal, ameaçou o regime fascista e hoje, felizmente, tudo mudou. Mas muitos portugueses ainda abusam do poder, descontextualizando o sentido da liberdade, colocando fortes nódoas na democracia. Afinal, para que foi feito o 25 de Abril?

Estivemos então na geração baby boomer, ou seja, aquela época de aumento brutal da natalidade, que se seguiu à Segunda Guerra Mundial, entre 1946 e o final dos anos 1960. Outras se lhe seguiram:

Geração X – Aquelas pessoas que nasceram sensivelmente entre o final dos anos 1960 e o início dos anos 1980.

Geração YAs que nasceram sensivelmente entre o início dos anos 1980 e o final dos anos 1990.

Geração Z Aquelas que nasceram sensivelmente entre o final dos anos 1990 e a década de 2010.

Segundo Mariana Durães, in Público, de 23 de maio 2023, “o mundo dos encontros ‘é mais saudável’ para os que têm hoje entre 18 e 25 anos”. Na Geração Z estão determinados a ser “mais honestos, mais abertos e mais focados em dar prioridade à saúde mental”. Mas já Sara Vale, do mesmo diário, de 15-09-2021 referia: “A necessidade de ligação a alguém é uma das mais básicas do ser humano, tão natural como respirar. Começa ainda na barriga da nossa mãe e nunca mais termina até a vida acabar. Ao longo das nossas vidas temos vários tipos de relações, da família aos amigos, dos amantes aos conhecidos, e todas as outras no meio. Umas mais intensas, outras mais leves, umas mais longas, outras mais curtas, mas sempre com um denominador comum: o desejo de nos conectarmos e sermos aceites pelo outro. Como tudo na vida, as relações começam, desenvolvem e acabam”.  

Geração à Rasca Foi uma expressão usada pelo jornalista Vicente Jorge Silva em 1994 num editorial do jornal Público aquando das manifestações estudantis contra a então ministra da educação Manuela Ferreira Leite. Em 2011, a expressão foi reeditada, tendo sido ajustada como mote à manifestação de 12 de março Geração à rasca. As reivindicações eram na melhoria das condições de trabalho e o fim da precaridade.

E então diziam: “Em 1994, vínhamos ao mundo, em 2011 andávamos na faculdade com todas as limitações adjacentes ao facto de estarmos em recessão económica, e agora em 2020 quando finalmente víamos prosperidade na nossa vida, estamos órfãos de pensar e sonhar o nosso futuro, desta vez com aquilo que vimos e estamos a viver de mais próximo de uma guerra”.

 Estavam, então, à rasca aqueles com menos de 30 anos que, após 2011, terminaram a licenciatura e, como esta não dava para ingressar no mercado de trabalho, foram tirar mestrado. Começaram a trabalhar mais tarde e agora estavam à rasca pois eram os primeiros a ser dispensados das empresas onde trabalhavam.

Estavam ainda à rasca, aqueles que após concluírem os seus estudos foram para fora do país em busca de uma vida melhor e agora viam-se em quarentena forçada fora de casa, muitos a milhares de quilómetros de distância, pois não conseguiam voltar.

Estavam também à rasca aqueles que, após concluir os estudos, trabalharam e como tinham ambição constituíram a sua empresa, e, de um momento para o outro ficaram à rasca para pagar contas, e, sendo sócios-gerentes da sua empresa, nem direito a lay-off tiveram.

Geração “nem-nem” Número de jovens que nem estudam, nem trabalham. Segundo Rafaela Burd Relvas, in Público, de 26-05-2023, em 2022, Portugal conseguiu, pela primeira vez, superar a meta estabelecida pela União Europeia para 2030, apresentando uma taxa de jovens que não estudam nem trabalham abaixo dos 9%. O número de jovens entre os 15 e os 29 anos que não estudam nem trabalham (os chamados “nem-nem”) está a diminuir na União Europeia. Portugal está entre os que têm das mais baixas taxas de jovens “nem-nem”. Os dados são divulgados pelo Eurostat, que dá conta de que, em 2022, 11,7% dos jovens entre os 15 e os 29 anos na União Europeia eram “nem-nem”, o mesmo que dizer que mais do que um em cada dez jovens não trabalhavam nem frequentavam qualquer tipo de educação ou formação.

Portugal é o sexto país da União Europeia com a taxa mais baixa de jovens “nem-nem”, enquanto consegue superar a meta europeia de uma taxa abaixo de 9% até 2030.

Segundo a SIC notícias, da mesma data, estima-se que em Portugal existem mais de 190 mil nesta situação (8%), mas os números oficiais esclarecem que o país é um dos Estados-membros com melhor desempenho neste âmbito.

 

                            João de Jesus Nunes                                                                             


                                                                                         
   jjunes6200@gmail.com

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 07-06-2023)

5 de junho de 2023

BILDERBERG – OS PODEROSOS

 

O que é afinal o Clube de Bilderberg? Segundo várias fontes, também é designado por Grupo Bilderberg, Conferência de Bilderberg ou Reuniões de Bilderberg. É uma conferência anual privada estabelecida em 1954 para cerca de 150 especialistas em indústria, finanças, educação e meios de comunicação que fazem parte da elite política e económica da Europa e da América.

A primeira conferência foi realizada no Hotel de Bilderberg, em Oosterbeek, Países Baixos, de 29 a 31 de maio de 1954. O encontro foi iniciado por várias pessoas, entre elas o político polaco exilado, Józef Retinger. Este estava preocupado com o crescimento do antiamericanismo na Europa Ocidental. Propôs então uma conferência internacional em que líderes de países europeus e dos Estados Unidos se reuniriam com o objetivo de promover o atlantismo, bem como a cooperação entre as culturas norte-americana e europeia em matéria de política, economia e questões de defesa.

Pois bem, a lista de convidados para estas conferências ou reuniões teria de ser formada através do convite de dois participantes de cada nação. Cada um representaria os pontos de vista “conservador” e “liberal”.

Logo na primeira Conferência de Bilderberg participaram cinquenta delegados de onze países da Europa Ocidental além de onze dos Estados Unidos. O sucesso do encontro fez com que os organizadores criassem uma conferência anual. Retinger foi então nomeado secretário permanente. Na organização da conferência, o comité diretivo manteve um registo dos nomes dos participantes e detalhes de contacto. Pretendeu-se assim criar uma rede informal de indivíduos que se poderiam comunicar de maneira privada. As conferências foram então realizadas na França, Alemanha e Dinamarca, nos três primeiros anos, e, em 1957, nos Estados Unidos.

A meta original do grupo era a de promover o atlantismo, como já foi referido, de reforçar as relações entre os Estados Unidos e a Europa e prevenir que outra guerra mundial acontecesse.

Em 2001, Denis Healey, um dos fundadores do grupo dizia: “Nós no Bilderberg sentimos que não poderíamos continuar a estabelecer conflitos uns contra os outros por nada, ao matar pessoas e criar milhões de desabrigados”. Já em 2011, o ex-presidente Étienne Davignon referia que “uma grande atração das reuniões do grupo de Bilderberg é que elas fornecem uma oportunidade para que os participantes falem e debatam abertamente e descubram o que as principais figuras mundiais realmente acham sem o risco de que comentários descontextualizados sejam usados pela mídia para a criação de controvérsias”.

Bom, mas o grupo não deixa de ser envolvido em críticas. Em parte por causa dos seus métodos de trabalho para garantir a estrita privacidade. Tem sido criticado “por falta de transparência e prestação de contas. Alguns da esquerda acusam o grupo de Bilderberg de conspirar para impor a dominação capitalista. Entretanto, alguns à direita acusam o grupo de conspirar para impor um governo mundial e uma economia planificada”.

O encontro exclusivo de Bilderberg começou este ano no dia 18 de maio em Lisboa. Entre os participantes, segundo a Lusa, esteve o secretário-geral da NATO, a presidente do Parlamento Europeu e os chefes da diplomacia ucraniana e europeia. Decorreu à porta fechada e sem cobertura jornalística, num local não especificado pelos organizadores.

Na altura em que escrevo estas linhas, existe a informação de que Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa vão marcar presença na reunião. Será, inclusive, oferecido um jantar pelo presidente da República aos 130 membros que este ano se reunirão no 69º encontro desde a fundação do grupo, como já vimos, em 1954, proveniente de 23 países, incluindo Portugal.  Prevista uma homenagem especial a Henry Kissinger, ex-secretário de Estado americano que faz neste mês de maio 100 anos e que estará presente no encontro.

Entre os temas em debate constam as ameaças transacionais, a Ucrânia, a Rússia, a China, a Europa, a Índia e a liderança dos Estados Unidos. A Inteligência Artificial, a transição energética, a política industrial e comércio, os desafios fiscais e o sistema bancário são outros dos tópicos da agenda do encontro.

Na lista dos participantes divulgada pelo clube Bilderberg constam alguns nomes portugueses, incluindo José Manuel Durão Barroso e Francisco Pinto Balsemão.

Ao longo dos anos, vários portugueses passaram por estes encontros: além dos já referidos, também António Coata, Jorge Sampaio, Vítor Constâncio, António Guterres, Pedro Santana Lopes, José Sócrates, António José Seguro, Paulo Portas, Fernando Medina ou Maria Luís Albuquerque.

Em junho de 1999, Sintra recebeu uma reunião do Grupo Bilderberg. A última edição desta reunião decorreu em Washington em junho passado.

Bilderberg é o encontro mais secreto do mundo e muitas vezes é associado a teorias da conspiração, o grupo, como vimos, reúne algumas das pessoas mais influentes do mundo para debater temas relacionados com a política e a economia mundial. Para 2023, esses nomes graúdos cá surgiram, de jato e em voos comerciais. Eles são empresários, governantes, lobistas e outros artistas, juntando-se de 19 a 21, no hotel Pestana Palace, no discreto Alto de Santo Amaro, em Alcântara, segundo informação do Tal & Qual. Regista-se, no entanto que estiveram a ser preparadas manifestações junto ao hotel e na zona de Belém por ativistas que criticam a falta de transparência destes encontros, cujas decisões, diz-se, influenciam os destinos mundiais da política e da finança.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 01-06-2023)

 


1 de junho de 2023

VOZ DO DOZE


 

Dia 20 de julho do ano da graça de 1971. Finalmente, passava à história para mim o serviço militar obrigatório no RI 12, na Guarda. Ainda cheguei a escrever no seu jornal “Fronteiros da Beira”. Amigos, não foram só antigos camaradas. Outros se juntaram.  Com eles confraternizava fora dos muros daquela Unidade. Nos vários cafés, como “A Madrilena” (onde se encontrava empregado  o Vitor, então guarda-redes da Desportiva da Guarda), no “Caçador”, perto do quartel (que em 25 de julho de 1985 se transformou em restaurante marisqueira), no “Café Estrela do Bonfim” (onde uma vez fui ver o Festival Eurovisão da Canção, a preto e branco...), n’”O Monteneve” (conhecido como café dos doutores), n’“A Cristal”, ou nos mais populares para além da já referida “A Madrilena”, como “O Mondego”. E em encontros nas ruas da Cidade. E no velho Cinema.

No RI 12 ainda tentei integrar-me na Voz do Doze. Entretanto, tinha casado. Pretendia, assim, sempre que possível, ir para a Covilhã.  Deslocava-me algumas vezes de boleia porquanto o autocarro que fazia o transporte diário Guarda - Covilhã, partia cedo em relação às horas de saída do quartel.  Era a JOALTO – José de Almeida Tonico.

A “VOZ DO DOZE” era um programa radiofónico, militar, bissemanal, do Regimento de Infantaria nº. 12, produzido pelo Centro Informativo. “Pretendia ser ligação de amizade entre militares e civis e levar uma Mensagem de Confiança e União, baseado sempre no seu lema ‘FIRMES COMO ROCHAS’”. “A VOZ DO DOZE” orgulhava-se de ter sido o 2º. Programa Militar difundido então na Metrópole (ainda não tinha surgido o 25 de Abril). O primeiro era o da Escola Prática de Cavalaria, transmitido pela Rádio Ribatejo, segundo foi afirmado no “Fronteiros da Beira”, nº 8, de junho de 1971.

Ainda que não contestando esta asserção, o que é certo e verdade é que em 1968, em Tavira, no CISMI, existia a “RÁDIO CISMI”. Talvez tivesse sido emanada exclusivamente dentro daquela Unidade Militar. Recordo-me ter ali ouvido, já sem grande surpresa, a morte do senador dos Estados Unidos, Robert F. Kennedy. Foi assassinado no dia 5 de junho de 1968.

Voltando à VOZ DO DOZE”, ia para o ar, todas as 4ªs. feiras, pelas 18 horas; e sábados pelas 11,30 h. Gentileza da RÁDIO ALTITUDE. Com agrado dos militares e da população civil, para além da egitaniense. Dava-se relevo à vida da altura, antes da independência das colónias portuguesas. E também assuntos relacionados com as cerimónias na vertente da História de Portugal e vida da Unidade. Musicalmente, tinham sempre preocupação em apresentar as últimas novidades musicais nacionais e estrangeiras. Equipa responsável pelo programa: Comandante Interino, Major de Infantaria Casimiro Dias Morgado, Tenente Miliciano João Manuel Pais Trabulo (hoje Coronel na reserva), Alferes Miliciano António Manuel Pereira, entretanto já falecido e que era um dos meus amigos, e o 1º Cabo dos Serviços Religiosos, Leitão, de Manteigas, um outro amigo. Maria José era quem fazia a locução deste programa e Emílio Aragonez, responsável musical, na Rádio Altitude.

Entre os camaradas daquele final dos anos sessenta e início dos anos setenta, do século passado: várias vedetas do futebol covilhanense, Eduardo Prata e António Fazenda. E outros que a memória já rejeitou. Um deles, o Virgílio (já falecido) e o Feliciano, que da Desportiva da Guarda depois saltaram para o Gouveia e a Riopele, respetivamente, que chegou a militar a I Divisão Nacional.

Com o camarada e antigo colega na Escola Industrial e Comercial Campos Melo da Covilhã, António José Bicho Nogueira (radicado no Canadá), todos os dias rumávamos para a Covilhã no seu FIAT 600, juntamente com o Eduardo Prata e o Nuno Rato, do Teixoso.

Para terminar: Os meus parabéns ao semanário mais antigo da região – o Jornal “A GUARDA”, pelos seus 119 anos celebrados em maio de 2023. Só passados 42 anos eu veria a luz do dia e volvidos 67 saía o extinto boletim a que me refiro nesta crónica.

João de Jesus Nunes                                                                               jjnunes6200@gmail.com

(In Semanário “A GUARDA”, de 01-06-2023)

18 de maio de 2023

SESSENTA ANOS

 


É um número redondo. São 720 meses. Não faço os cálculos às semanas, aos dias e mesmo às horas. O suficiente. É um tempo que perdura em muitas estórias da história das Pessoas. Mas também de uma Instituição. Pública ou de cariz privado. Não existem instituições sem Pessoas.

Estas necessitam de ser informadas. Mas também de encontrar espaços onde a cultura lhes abra horizontes. Em afastar aqueles défices cognitivos que a idade não perdoa. Aquelas memórias temporariamente dissipadas.

O meu contacto com este meio da comunicação social, de âmbito regional, e não só, sob o título de jornal “O Olhanense”, não é recente. Já tem umas décadas.

E tudo começou na envolvente dos nossos dois Clubes, de amor às Terras que nos viram nascer. Amor esse, seja de raiz ou mesmo de coração. Numa dualidade da mesma letra do alfabeto – M – Montanha e Mar. Pelo lado da Montanha, o Sporting Clube da Covilhã (SCC), do qual já fiz referência no último número deste quinzenário. Na perigosidade dum naufrágio, na iminência de vir a acontecer. Pela vertente do Mar, o Sporting Clube Olhanense (SCO). A sua descida mais profunda, também referido no último número. Ambos são históricos do futebol português. Ambos singraram pelos caminhos da I Divisão Nacional (hoje I Liga). Ambos se defrontaram entre si, nos Campeonatos Nacionais, na Taça Ribeiro dos Reis e na Taça de Portugal.

Mas o que estamos a comemorar nestes sessenta anos, não é exclusivamente inerente ao SCO, pois esse, em menos de uma década completará, em dobro, o tempo do que agora queremos enaltecer.

Queremos registar, por que não homenagear, significativamente em letras douradas, seis décadas da vida deste quinzenário algarvio. Ininterruptamente, mesmo no longo período da pandemia, não só transmitiu a vivência como tudo o que em redor do seu clube se passou neste espaço temporal. Assim como trouxe para as suas páginas, memórias e figuras da vida local. Não só de outrora, como dos tempos que correm: artigos de opinião, notícias jurídicas, crónicas, entrevistas, poesia, e sobre a vida da coletividade que está na génese deste periódico. Uma publicação que tem um mentor que consegue gerir as dificuldades emergentes do que se passa com o jornalismo regional.  Há que louvar a pertinácia do Homem certo no lugar certo. Não olhando a dificuldades. Incluindo as de saúde. E aqui, e na tenacidade, há dual entrega do que tenho vindo a salientar – as Pessoas. Aquelas que dão o corpo ao manifesto, como sói dizer-se. Sem opção de posarem para a fotografia.

Mário Proença e Isidoro Silva Sousa permutaram as suas posições para Diretor e Diretor Adjunto, respetivamente, há poucos meses. As pessoas que têm mantido este Jornal em continuidade. Um exemplo para muitos periódicos regionais que atingiram também metas interessantes no seu espaço temporal. Mas não aguentaram a pressão do desenvolvimento. E então dão-se ao luxo de os colocar gratuitos, após uma “ressurreição”, a ver se pega. Como surgiu na cidade serrana. E, assim, é vê-los em tristes sobras. Contrastando com outro que a Cidade já possui há 12 anos, mas com Pessoas da Terra, ou aqui radicadas, é vê-lo crescer. Quem lê e se interessa pelos eventos mas também pela diversificada opinião dos seus colaboradores, não está a olhar para os eruditos da capital, mas ombreia pelos que transmitem intrinsecamente a popularidade que lhes vai na alma.

Foi com Herculano Valente, que há 15 anos nos deixou, que eu iniciei o meu contacto com o quinzenário “O Olhanense”. Mais por via de cartas de apreço e de informação, e das apresentações dos meus livros. Mas também de comentários entre as nossas duas Coletividades. A primeira referência a uma minha publicação e carta enviada, foi inserida neste Jornal, então designado “O Sporting Olhanense”, em 15/08/1993, a caminho dos 30 anos. Mas, sem dúvida, é após o falecimento do Diretor Herculano Valente, que, após a minha perplexidade, quase em jeito de despedida da continuidade em colaborar com este excelente periódico que, pela mão do Amigo Mário Proença, que já era um grande colaborador do Jornal, me pede para continuar, já que ao Jornal iria ser-lhe incutido um cunho de melhoramento. E é assim que, por alvitre de Mário Proença, em 01-10-2010, surge a minha rubrica “Retratos da Beira-Serra” (atualmente “Ecos da Beira-Serra”), onde são publicadas as minhas crónicas sobre a minha região, na diversidade de artigos de opinião. O artigo foi então sobre “As Minas da Panasqueira”.

Já ocupei demasiado espaço deste “nosso” Quinzenário, com a minha ligação há quase três décadas, onde acabei por ter mais amigos daquela “Gente da nossa Gente”.

Os meus parabéns a todos os Obreiros do Quinzenário “O Olhanense”, muito em especial ao Homem que tem feito quase tudo por manter as suas páginas ao serviço dos Leitores, onde a maioria tem o cunho das teclas do seu computador, estimado Amigo Mário Proença Leonardo; e também ao bom Amigo, Isidoro Silva Sousa, ambos, tantas vezes, em esforços hercúleos para que não acontecesse o fim.

Longa vida para o Jornal O Olhanense e que volte bem depressa a alegria para as hostes olhanenses, para assim se poder celebrar mais um aniversário, com a cereja em cima do bolo.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 15-05-2023)

 

 

11 de maio de 2023

COMO FOI DIFÍCIL PARA HOJE SE VIVER FACILMENTE




Neste mês de maio poderia falar de muitas coisas. Para trás ficou abril, com a data histórica do 49º aniversário da Revolução de Abril, assinalando-se a liberdade que era inexistente em Portugal. Persistia a teimosia da ditadura em ver partir os jovens para a guerra subversiva. E de todos os milhares que abandonavam o País, fugindo da miséria, a caminho da emigração, de assalto, ou de comboio com malas de cartão.

Ficaram também as polémicas geradas com a vinda e receção do presidente brasileiro, Lula da Silva, na Assembleia da República Portuguesa, fruto da sua infeliz conduta sobre a  invasão da Ucrânia pela  Rússia, aquando da recente visita a este país.

Outra data importante foi assinalada no 1.º dia de maio – O Dia do Trabalhador. Maio vem de Maia, divindade romana que era celebrada nesta época. Deusa da terra e das flores, é responsável pelo crescimento das plantas que nasceram na primavera. É também a deusa romana do crescimento, mãe de Hermes ou Mercúrio. Proverbialmente, “em maio, come a velha a cereja ao borralho”, “maio claro e ventoso, faz o ano rendoso”, “maio frio, junho quente, bom pão, vinho valente”, e “maio que não der trovoada, não dá coisa estimada”.

Para os católicos romanos, mormente os portugueses, este mês é dedicado especialmente à Virgem Maria, Nossa Senhora de Fátima, a 13 de maio, sendo que o 1º dia de maio é também o Dia de São José Operário. E o Dia da Mãe celebra-se, em Portugal, no 1º domingo de maio. Foi em 3 de maio de 1455 que nasceu D. João II; e, muito para trás, D. Afonso III em 5 de maio de 1210. Em 13 de maio de 1699 nasceu o Marquês de Pombal, e, em 13 de maio de 1767, D. João VI. Em 18 de maio de 1920 nasceu o papa João Paulo II. Em 31 de maio de 1469 nasceu D. Manuel I. Assinale-se, no dia 5 de maio de 1821, a morte de Napoleão Bonaparte; e, no dia 25 de maio de 1786, a morte do rei consorte, D. Pedro III.

Mas... deixemos o mês de maio e vamos ao título da crónica.

Rebuscando os meus papéis, fui encontrar num número especial do DNA de há duas décadas, mas com grande atualidade, curiosidades sobre a origem de coisas que demoraram anos, décadas e séculos a nascer. É que nem damos por milhares de gestos de rotinas e de hábitos que diariamente fazemos, repetimos, ou vemos outros fazerem. Coisas que nada nos dizem. Banalidades, trivialidades. E, no entanto... todo aquele tempo foi necessário para que hoje possamos viver facilmente.

Noutro periódico fiz referência ao “baluarte tecnológico e imparável que, em minutos ou segundos, se faz o que levaria dias, meses ou anos para se conseguir”.

Os objetos e máquinas foram sonhos perseguidos por gerações, miragens dos nossos antepassados, futurologia há cem anos.

Pergunte-se a alguém com mais de 40/50 anos, como se vivia sem telemóvel? Sem Multibanco? Sem Internet? Pergunte-se a um avô com mais de 65 anos: e antes da esferográfica, como se escrevia? E como se via televisão sem um comando à distância?

O mais simples dos gestos diários que fazemos tem na sua origem estudo, trabalho, investigação – e séculos de escuridão. O mais banal dos produtos que usamos não existia nem se adivinhava há 100 anos. Não se vendia em massa no tempo dos nossos avós. Raras vezes falamos desses produtos. É tão óbvia a utilização de um telefone sem fios, que nem nos interrogamos sobre a sua origem ou o tempo em que ele não existia. É tão trivial usar uma máquina de fazer a barba pela manhã que não nos ocorre perguntar de onde vem, quem a inventou. Por todo o mundo, estão a ser inventados novos produtos, novas técnicas, que um dia usaremos corriqueiramente sem sobre elas nos interrogarmos. Por isso, uma homenagem aos Homens e Mulheres, e às empresas que, com os seus inventos, às vezes tão simples como um clip, às vezes tão sofisticados como um computador, facilitaram as nossas vidas, trouxeram comodidade, conforto, prazer ou mais tempo livre para pensar noutros assuntos! Reconhecemos a relevância daqueles que acrescentaram algo ao mundo em que vivemos. E também se infere que tudo isto foi feito para se viver facilmente, mas até aqui chegar foi difícil. Por agora, e por falta de espaço, apenas registo os detalhes de uma das invenções – o fecho-éclair. Nem falo das calças de bombazina, nem dos “kispos” que “nasceram” por alturas da revolução de 1974. Poderei vir a falar dos jeans, essa extraordinária invenção que mudou o nosso modo de vestir e que não há moda nem mania que retire do mercado. O que é que isto tem a ver com o fecho éclair? Bom, no meu tempo, as calças só tinham botões... depois passou a usar-se o fecho-eclair e as duas situações, até que prevaleceu a segunda opção. Deve a sua existência a Whitcomb Judson e terá surgido em 1891. Segundo consta, o inventor estava farto de perder tempo a calçar-se com atacadores e ouvir as mulheres queixarem-se da morosidade em fechar os espartilhos com fitas. Judson decidiu-se a criar um sistema alternativo em metal. Nos primeiros anos do século XX o “fecho-éclair” ganhou forma e feitio.

Mas se a curiosidade despertar, podemos vir a saber como foi inventado o simples clip, o fax, o antibiótico, a ganga, as lentes de contacto, a via verde, o computador, o post-it, o ar condicionado, o cartão multibanco, a refrigeração, o CD, as fraldas descartáveis, o telefone sem fios, o micro-ondas, o tetra pak, o telefone celular, a máquina de lavar roupa, a pílula, a esferográfica, a Internet, o telecomando, a lycra, a varinha mágica, a máquina de barbear, o edredão, a aspirina, o transístor, ou outras coisas mais.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 10-05-2023)

 

 

5 de maio de 2023

VELHAS GLÓRIAS



 

Entre o espaço que medeia escrever esta crónica e a data da sua publicação, várias posições desportivas estão a rumar com agitação dos ventos que agora se tornam mais a favor, ou contrários, sob o manto diáfano do destino traçado.

É com tristeza que vejo o Sporting Clube Olhanense (SCO) alijado da embarcação em que andou navegando, quando a sua história no futebol português estaria mais em consonância a viajar num paquete, menos propício a afundar-se. E isto quando acaba de comemorar o seu 111º Aniversário. Esperemos que depois desta tormenta venha a bonança, passando a brilhar a luz do farol determinante como guia para a rota certa mais condizente com os méritos desta prestigiosa coletividade algarvia.

Mas os contextos em que o futebol flutua nos tempos que correm permitem a abundância de incautas decisões, na avidez de colocar as embarcações a navegar independentemente de reconhecidas fragilidades existentes, e daí os resultados que surgem, já quase sem estupefação, no mapa futebolístico, onde clubes de grande prestígio hoje os vemos em lugares ventosos.

Também o Sporting Clube da Covilhã (SCC), depois de conseguir durante vários anos navegar em águas tranquilas, embora com alguns ventos e marés na sua rota, se vê arredado para uma posição que não corresponde aos pergaminhos do clube serrano, considerado, tal como o Olhanense, um dos históricos do futebol português. As comemorações do seu centenário, a ocorrer este ano com início em junho, estarão refletidas para muitos serranos, de raiz ou de coração, de tristes ou ledas madrugadas, de sonhos desfeitos ou na continuidade do barco na mesma rota em que navegava. Esperemos que também aqui a luz do farol possa brilhar.

O título da crónica vem no seguimento das pedras basilares que se evidenciaram na constituição das equipas, e, tantas vezes, como na bíblia, “aquela que os construtores rejeitaram se tornou a pedra angular”.

Há muito que, serrano, tenho vindo a escrever neste prestigiado quinzenário algarvio, de cuja região, como Olhão, o Algarve veio a ser um viveiro daquelas pedras que vierem dar à “costa” da Covilhã, porta principal para a Serra da Estrela, com destino aos Leões da Serra.

Dos valorosos, como foram Fernando Cabrita e outros que jogaram no SCO, destaco o algarvio oriundo do Lusitano de VRSA, Domiciano Barrocal Gomes Cavém que veio juntar-se a seu irmão Amílcar Cavém, envergando a camisola do SCC, respirando os ares da Serra da Estrela. Aqui jogou nas épocas 1953/54 e 1954/55. Logo se evidenciou nestas duas épocas, onde participou em 25 jogos na primeira e marcou 9 golos, logo seguido de Simonyi; e igual número de jogos na segunda e última época, onde liderou como melhor marcador do SCC, com 14 golos. Participou ainda em duas eliminatórias da Taça de Portugal, onde marcou 1 golo.

No Sporting da Covilhã, onde se evidenciou, logo teve a cobiça de outros clubes, nomeadamente o Vitória de Setúbal, onde esteve quase com um pé dentro quando surgiu o Benfica a desembolsar 225 contos, sendo 175 contos para o Vitória de Setúbal e 50 contos para o jogador, levando-o para as suas fileiras na época 1955/56, onde permaneceu 14 épocas. No Benfica efetuou 48 jogos nas provas da UEFA, duas vitórias na Taça dos Campeões Europeus (1961 e 1962), 9 vezes campeão nacional e 4 vezes vencedor da Taça de Portugal. Foi ainda 18 vezes internacional tendo marcado 5 golos.

Mas focando-nos ainda na sua vinda para o SCC, foi o guarda-redes suplente dos Leões da Serra, Isaurindo, também ele algarvio, que foi incumbido pela Direção do clube serrano de ir “estabelecer as démarches preliminares junto do Domiciano Cavém” para a sua vinda para o SCC. Segundo Isaurindo, “trata-se de um jovem de pouco mais de 20 anos, com qualidades magníficas para o futebol, a quem a Crítica tem tecido elogiosas referências. Possui ótimo remate e evidencia-se particularmente no jogo alto devido à sua facilidade de elevação e cabeceamento. Há acentuado interesse por parte da família do jovem atleta, pelo que as démarches devem ser coroadas de êxito e o SCC terá alcançado os serviços de mais um jogador de futuro, tal como aconteceu com Amílcar Cavém e Hélder, ambos vindos também do Lusitano algarvio”

O que é certo é que, como atrás foi descrito, Domiciano Cavém acabou por ir representar muito brilhantemente o Benfica.

Em sua substituição, o clube lisboeta cedeu ao SCC o seu jogador Fernando Pires, meu vizinho, felizmente ainda vivo, mas que o treinador Otto Glória não queria deixar sair, onde ganhava 800$00, passando a receber no clube serrano 2000$00 e mais 30 contos de luvas, embora tudo pago em prestações...

Domiciano Cavém participou numa homenagem promovida pela APAE Campos Melo – Associação dos Antigos Professores, Alunos e Empregados da Escola Campos Melo, onde eu era dirigente e diligenciei este evento, no dia 28/09/1991. Compareceram mais de trinta “Velhas Glórias do SCC”, todas dos tempos em que militaram na Primeira Divisão Nacional. Quase todos já não se encontram no número dos vivos, entre os quais Domiciano Cavém, que faleceu aos 72 anos, em Alcobaça, onde se havia radicado. O Benfica prestou-lhe uma homenagem póstuma, assim como a Federação Portuguesa de Futebol, mas, segundo parece constar, não lhe deu qualquer oportunidade de ajuda, já que o Domiciano, no final da sua carreira, ainda tentou ser treinador mas sem qualquer sucesso. Certamente o clube lisboeta não se tivesse recordado do episódio da sua barba que deixou crescer, em 1962, barba que só cortaria se o Benfica ganhasse ao Real Madrid e, consequentemente, seria bicampeão europeu, o que veio a suceder. Foi então que Domiciano Cavem foi cortar a barba e recolheu os pêlos todos e guardou-os...  É que havia candidatos à compra da barba! Um sócio do Benfica telefonou à comissão central das obras do estádio pedindo para ficar com a barba de Cavém, e houve mesmo alguém que alvitrou a possibilidade de se fazer um leilão com a barba do jogador, revertendo a receita para o estádio... (In “Record”).

Domiciano Cavém, não obstante a apatia do clube que durante mais de uma década representou e onde fortemente brilhou, segundo parece constar, terá vivido com dificuldades económicas, mas desconheço se as terá tido mais acentuadas conforme me fizeram chegar por via das redes sociais.

Muito mais haveria a dizer sobre memórias serranas e algarvias, que perduram e ultrapassam várias gerações, com uma ou outra pedra a salientar-se do rochedo da nostalgia.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 01-05-2023)

 

4 de maio de 2023

AMIGOS EM CASTELO BRANCO


 

Ao longo de quase quatro décadas da minha última atividade profissional que abracei, reportada entre 1973 e 2012, deixando para trás outras após ter terminado o serviço militar obrigatório em 1971, grande parte da mesma teve passagens marcantes no distrito de Castelo Branco. Muitas vezes pernoitei nesta cidade, no regresso da visita comercial aos concelhos de Proença-a-Nova, Sertã e Vila de Rei, já que Oleiros e Vila Velha de Ródão ficavam para outra volta. Já nas deslocações a Penamacor e Idanha-a-Nova, nesta última recordo, com o agente de Idanha, António Catana, várias visitas pelas freguesias do concelho, entre gente boa, humilde, de muitos anciãos numa altura de forte iliteracia, assim como conheci as grandes propriedades onde crescia o trigo, o centeio, a aveia e o tabaco, como a do Marquês da Graciosa. Em Alcains, era forçoso visitar o sempre sorridente e simpático Amável Barata Castilho, que já nos deixou, e que gostava de me oferecer laranjas do seu quintal.

Era ainda o tempo em que não havia telemóveis. Um furo num pneu ou uma avaria no automóvel, tinha de haver o desenrascanço.  Ainda não havia a assistência em viagem no seguro automóvel.  E, mesmo este seguro, ainda não era obrigatório, assim como a colocação do cinto de segurança. Outros tempos que dariam muitas estórias para contar da história de vida de cada um de nós. Os contactos telefónicos só por via de cabines telefónicas instaladas nalguns estabelecimentos comerciais, geralmente os cafés.

Mas faziam-se muito amigos, quer por via da vida profissional, quer pelos casos de velhas amizades encontradas.

Em Castelo Branco, durante vários anos, confraternizava nas noites do meu pernoitamento, com o amigo covilhanense, João José Dias Tomás, radicado nos Maxiais, onde casou.

Certamente que alguns dos que lerem esta crónica se recordarão dos tempos em que dei formação nesta cidade a vários candidatos a agentes de seguros, os levei a exame por exigências regulamentares da altura, com a consolação de sucesso na aprovação de todos perante o júri da capital.

Há dias, em contacto telefónico com o amigo albicastrense Luís Vicente Barroso, que, no futebol, como guardião, defendeu as cores do Desportivo e do Benfica de Castelo Branco, irmão de outro amigo já falecido – o Ludgero, que pertenceram aos quadros da empresa J. Castanheira, Lda, onde fazia o meu “quartel-general”, fiquei contente em saber que tem visto as suas antigas colegas Maria do Rosário, Maria dos Anjos e Madalena, com as quais contactava aquando da visita àquela empresa. Pedi lhes apresentasse os meus cumprimentos. É que, na Reconquista, vou tendo conhecimento de algumas pessoas amigas, ou de antigos contactos comerciais, que já partiram do mundo dos vivos. Há poucos anos foi o saudoso amigo José Maria Ventura da Silva Balonas, que depois passou a representar a Lusa em Castelo Branco. Foi ele que diligenciou a publicação na Reconquista, em 22 de maio de 1992, da notícia dum dos meus primeiros livros.

Tive contactos iniciais aquando da instalação da empresa Centauro, em Castelo Branco, por intermédio do já falecido sócio José Castanheira, onde conheci também o sócio Henrique. Tudo se passou há algumas décadas. Soube que o empresário Manuel Ramos Tomás e seus irmãos, também já cá não estão, como destino normal da vida neste planeta.

Da extinta empresa J. Valente & Irmãos, C.I., SARL, tive conhecimento através deste semanário, na necrologia, do desaparecimento de antigos funcionários como Maria do Céu Moreno Pires e Augusto Cravo Dias, para além de vários sócios desta empresa. Memorizei no meu livro DA MONTANHA AO VALE, alguns extratos da minha vivência profissional, no seio albicastrense, duma forma romanesca.

Aqui vão alguns deles que se reportam a personagens reais, no âmbito daquela minha facto-ficção.

“Entrámos na Belar, onde tomámos café e logo aí encontrámos dois amigos – o António Rosário Augusto e o Eduardo Fernandes – a quem informámos o porquê deste grande grupo. O António Augusto ia almoçar ao Kalifa e o Eduardo ao Palitão. O Joaquim Almeida, proprietário do Hotel Covilhã-Jardim disse: Isto tudo fecha!... Antigamente havia aqui o Arcádia, o Lusitânia, o Cine-Bar, o Café Avenida... o Avis...

- Bom, o Avis ainda existe, mas agora como restaurante – replicou o António Augusto.  E

acrescentou: mas vocês na Covilhã também viram fechar o Montalto, o Café Leitão, o Danúbio. Vá lá, ainda lá se mantém o Primor...

- Mas em Castelo Branco podemos encontrar-nos para uns bons petiscos na Marisqueira do Carlos, ou então nas tasquinhas... – disse o Eduardo. Temos a Tasca O Avião e a Tasca do Relógio (ou Tasca do Amândio, como é mais conhecida) – acrescentou o António Augusto.

Os tertulianos da Covilhã despediram-se dos amigos albicastrenses, ainda entraram no Palmeiras e depois dirigiram-se para o Fórum onde alguns desejavam fazer compras, principalmente calçado para as caminhadas. Aqui no Fórum, voltaram a encontrar o António Rosário Augusto, nome sobejamente conhecido dos albicastrenses e não só, pela sua envolvência em vários organismos chegando a ser vereador do Município de Castelo Branco. Andava acompanhado da esposa, a Isabelinha. Perguntámos-lhes por um restaurante perto e fomos dar ao Bifanas & Cª., no Parque Industrial. No final do almoço ainda passámos pela Padaria-Pastelaria Montalvão onde alguns voltaram a tomar café e adquiriram doces regionais. Aí encontraram o Luís Nisa, agente de seguros, que a todos nos veio cumprimentar. E casualmente surgiu o Eduardo Fernandes, major do Exército aposentado, e a esposa, a Deolinda, ele que esteve com o António Augusto no serviço militar em Timor.

E assim terminou o dia de convívio, em Castelo Branco, com as tertúlias covilhanenses, do Hotel Covilhã-Jardim, e do Celso”.

Muito mais haveria para contar mas ficará para outro ocasião, se a oportunidade surgir.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Reconquista”, de 04-05-2023)

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