21 de julho de 2021

ESTE ESTIO QUE COMEÇOU

 Entrámos no mês quente de verão, que, de quente, por vezes prega-nos umas partidas. Que o digam algumas noites. Alguns estudantes preparam-se para iniciarem suas férias enquanto outros se veem a braços com exames, sejam presenciais ou online. Com esta maldita pandemia, tudo se alterou, até mesmo as normas de conduta.

Se mais uma cadeira fora conseguida, para os universitários, ou a confirmação daquele Erasmus, para não dizer a conclusão dos seus cursos, isto já não é como era há uns tempos atrás, não muito longos, porque o coronavírus ainda anda saltitando por aí. E, quando menos se pensa, tudo se modifica. Como, mais uma vez, o chico-espertismo de alguns responsáveis pelas vacinações. Aqui, a diretora do Agrupamento de Centros de Saúde do Porto Oriental, já suspensa, “desobedeceu” ao plano, conforme referiu o coordenador da task force, com a vacinação de jovens de 18 anos, numa fase em que o auto agendamento está disponível apenas para maiores de 35 anos. Não sendo Portugal uma república das bananas, há que punir os infratores não esquecendo os primeiros que foram objeto desse atrevimento e de que a comunicação social deu ênfase na devida altura.

O precedente mês de junho foi o dia dos Santos Populares, que o bicho mau pretendeu lhes retirar toda a popularidade, não conseguindo ser concretizada no seu pleno. No Porto, do silêncio dos martelos às enchentes de foliões, a noite de São João viveu-se com poucas restrições. “De um lado, a tristeza dos comerciantes da zona de diversão das Fontaínhas, obrigados a fechar às 18 horas, do outro, o crescente movimento que tomou conta das esplanadas na Ribeira e na Cordoaria em vários ajuntamentos”. Tal como sucedeu com os tripeiros também um pouco por todo o país houve aqueles desenfiados como se dizia na tropa. E, vai daí, toca a abusar, onde as regras de distanciamento e sanitárias não tinham regra.

Depois, tivemos o governo e o presidente da República a duas vozes. Se por um lado há o dramatismo, como o momento “crítico”, “grave” e “complexo” – os casos vão “continuar a aumentar”, por outro quem ouve Marcelo vai pelo lado da esperança. O que é certo e verdade é que com a variante Delta da peste dos nossos dias, foi dado um passo atrás nalgumas zonas do país, nomeadamente Lisboa e Vale do Tejo, onde se verifica a maior permanência do novo coronavírus. Entretanto a boa notícia é que quem já tem o certificado digital vai ter luz verde para andar pelo país sem restrições.                                   

Em Portugal, com o fulgor possível do Campeonato Europeu de Futebol, não vai haver aquele período da silly season, pois continuarão também as conversas sobre a responsabilidade política de uma delação grave pelas bandas do município alfacinha. É que já estamos habituados ao caricato de atuações duma forma tão de hilariante quão de angústia. Para que serviu tanto empenho nos trabalhos da proteção de dados individuais de todos nós? Foram assinaturas e mais assinaturas de declarações de aceitação e conhecimento por essas variadíssimas instituições fora. Dá para pensar.

A Seleção de Portugal, aquela de todos nós, também nos pregou uma partida, tal como o tempo. Quando esperávamos continuar na efervescência do entusiasmo pela Seleção das Quinas, surgiu-nos aquele balde de água fria em cima do banho de entusiasmo e lá saltámos fora. Paciência, fria tem que ser agora a cabeça e passar novamente a olhar em frente para podermos voltar ao quente entusiasmo das próximas jornadas do Mundial.

Vamos esperar por melhores dias mas, convençam-se, quem tem ouvidos para ouvir e olhos para ver, que se não houver respeito pelo cumprimentos das regras estabelecidas para este tempo pandémico, tantas e tantas vezes badaladas, não sairemos da cepa torta, porque a situação normal da vida não está já por aí, ela regressa à situação do medo, e a normalização está mais que tardia.

 (In "Notícias da Covilhã", de 22-07-2021)

16 de julho de 2021

JULHO - UMA ODE AOS SANTOS

 Olhei para o calendário do mês de julho e, numa observação rápida: uma caterva de comemorações de santos, muitos sobejamente conhecidos, outros nem tanto. Pois vejamos:

No dia 2 de julho, São Bernardino Realino, italiano (n. 1-12-1530, f. 2-7-1616). 3 de julho, São Tomé, padroeiro dos pedreiros, dos arquitetos e dos cegos. Era pescador quando Cristo o aceitou como um discípulo. O episódio mais popular de São Tomé é a sua incredulidade perante a ressurreição de Jesus Cristo, que depois veio a reconhecer quando Cristo apareceu novamente aos apóstolos. Evangelizou depois pela Índia até se tornar um mártir. 4 de julho, Santa Isabel. Isabel de Aragão nasceu em 1269, em Saragoça, Reino de Aragão, e faleceu a 4 de julho de 1336, vítima de peste, em Extremoz. Isabel foi rainha consorte de Portugal, tendo casado com D. Dinis de Portugal, “o Lavrador”. Muita conhecida pelo famoso milagre das rosas. É padroeira da cidade de Coimbra. 6 de julho, Santa Maria Goretti. Maria Teresa Goretti nasceu em Itália em 1890 e faleceu em 6 de julho de 1902, com apenas 11 anos. Pertencente a uma família pobre e numerosa, Goretti sempre teve uma vida difícil. Com a morte do pai, a família teve de se mudar e de partilhar residência com outra família. Foi então que um jovem de 20 anos, chamado Alexandre Serenelli, conheceu Goretti e tentou seduzi-la às escondidas das famílias. Perante todas as suas recusas em nome de Deus, Alexandre tentou violar Goretti, acabando por esfaqueá-la catorze com uma adaga de 30 centímetros. Goretti resistiu milagrosamente aos ferimentos graves, mas acabou por morrer no hospital perante a imagem de Virgem Maria, vinte horas depois. Ainda teve tempo de perdoar o seu agressor, que foi condenado a 30 anos de prisão. Serenelli esteve presente na cerimónia de canonização de Maria Goretti, em 1947. Dia 9 de julho, Santa Paulina, uma italiana nascida em 1865 que se naturalizou brasileira. Dia 10 de julho, Santo Olavo, rei da Noruega, um viking que conheceu o cristianismo em Inglaterra e se batizou em 1014 em França. É padroeiro da Noruega e das Ilhas Faroé. Dia 11 de julho, São Bento de Núrsia que nasceu na Itália em 480, tendo como irmã gémea Santa Escolástica. Pelo seu contributo à civilização europeia, o Papa Paulo VI declarou São Bento como o padroeiro principal da Europa, em 1964. Dia 13 de julho, Santo Henrique. Henrique II nasceu a 6 de maio de 973 e faleceu na Alemanha a 13 de julho de 1024. A sua esposa, Cunegunda, princesa do Luxemburgo, também foi canonizada. Tendo feito votos de castidade, o casal não teve filhos. Ele é o padroeiro de Basileia e a esposa a padroeira do Luxemburgo. Dia 14 de julho, São Camilo. Camilo de Lellis nasceu em Itália em 1550. Fez-se soldado mas ao voltar para a sua terra natal entrou numa vida decadente, gastando tudo o que tinha no jogo. No momento mais delicado da sua vida, encontrou na graça divina um refúgio e uma inspiração e tornou-se sacerdote. É o protetor dos enfermos e o padroeiro dos hospitais. Dia 15 de julho, São Boaventura, nascido em Itália em 1218, faleceu em 15 de julho de 1274. Dia 16 de julho, Nossa Senhora do Carmo. Celebra-se neste dia porque em 1251 ocorreu a aparição de Nossa Senhora em Cambridge, Inglaterra. Também é apelidada de Nossa Senhora do Monte do Carmelo em referência ao convento construído em sua honra no Monte Carmelo, em Israel. Este lugar sagrado do Antigo e Novo Testamento foi onde o Profeta Elias evidenciou a existência de Deus. O significado de Carmelo é “vinha do Senhor”, visto que em hebraico “carmo” significa vinha e “elo” significa senhor. Dia 17 de julho, Santa Marcelina, que nasceu em Roma no ano de 327 e faleceu no mesmo local, a 397. Dia 18 de julho, São Francisco Solano, nascido em 1549 em Espanha, foi um frade missionário que evangelizou diferentes povos até falecer no Peru, em 1610. Dia 19 de julho, Santo Arsénio. Arsénio, “o Grande” nasceu em Roma no ano 354, no seio de uma família de senadores. Foi tutor dos filhos do imperador Teodósio em Constantinopla e ordenado sacerdote pessoalmente pelo Papa Dâmaso. Dia 20 de julho, Santo Aurélio. Aurélio de Cartago nasceu no século IV e faleceu por volta do ano 430. Os primeiros registos de Santo Aurélio

surgem a partir do ano 388 enquanto diácono, sendo que se tornou Bispo de Cartago em 391. Aurélio era amigo de Santo Agostinho, Bispo de Hipona, atual Argélia, que muito o admirava e louvava em cartas ainda hoje existentes. Dia 20 de julho, Santo Elias. Foi um importante profeta do século IX a. C, do reino de Israel, que defendia o culto de Deus durante o reinado de Acab, onde se adorava o deus Baal, que era considerado um culto idólatra. Mais tarde, o profeta Elias surgiria no Dia da Transfiguração do Senhor. Dia 21 de julho, São Lourenço de Brindisi. Antes chamava-se Giulio Cesari Russo e nasceu a 22 de julho de 1559, na Itália. Curiosamente, faleceu no mesmo dia 22 de julho do ano 1619, no seu 60º aniversário, em Lisboa, na sua segunda viagem à Península Ibérica. Dia 22 de julho, Santa Maria Madalena, natural de Magdala, uma cidade da costa do Mar da Galileia. A figura de Maria Madalena é envolvida em certa polémica. Tradicionalmente, Maria Madalena é identificada como a mulher convertida que perfumou os pés de Jesus, que os banhou em lágrimas e os enxugou com os seus próprios cabelos. Ela é assim considerada a padroeira dos cabeleireiros, dos boticários, dos convertidos e dos fabricantes de perfumes. Dia 23 de julho, Santa Brígida, que nasceu na Suécia em 1303 e faleceu em Roma a 23 de julho de 1373. É a padroeira da Suécia e co-padroeira da Europa, juntamente com Santa Catarina de Sena e Santa Tereza Benedita da Cruz. Dia 24 de julho, Santa Cristina. Foi uma fervorosa cristã do século III que morreu martirizada. É vista como a padroeira dos moleiros e é invocada contra a depressão. Dia 25 de julho, Santiago. Foi um dos 12 apóstolos de Jesus, o primeiro a ser martirizado. Nasceu na Palestina em data incerta e faleceu em 44 d.C. em Jerusalém, decapitado por ordem de Herodes Agripa I. Santiago foi protetor do exército português, ficando conhecido como Santiago Mata-Mouros. Por influência inglesa, Santiago foi depois substituído por São Jorge, por altura da crise de 1383-1385. Também neste dia 25 de julho se festeja o São Cristóvão segundo o calendário romano. No calendário ortodoxo, o Dia de São Cristóvão é a 9 de maio. Pouco se sabe ao certo sobre São Cristóvão. Foi decapitado pelo rei pagão que governava a região. Em Portugal São Cristóvão é o padroeiro de Mondim de Basto. O nome do santo é uma atribuição popular. São Cristóvão não foi canonizado pela Igreja Católica.  Dia 26 de julho, Santa Ana. O nome Ana significa “graça”, foi a mãe de Maria e a avó de Jesus Cristo. Era esposa de Joaquim. Neste dia 26 de julho celebra-se anualmente o Dia dos Avós em honra de Santa Ana e de São Joaquim, os avós de Jesus. Santa Ana fazia parte da família do sacerdote Aarão e São Joaquim da família real de Davi. Apesar da esterilidade de Ana e da idade avançada de ambos, foram abençoados por Deus com o nascimento de Maria. A Virgem Maria, cujo nome significa “senhora da luz” acabaria por nascer a 8 de setembro de 20 a.C. O culto a Santa Ana é muito antigo, tendo-se popularizado sobretudo na Idade Média. Em 1378 o Papa Urbano IV oficializou o seu culto e em 1584 estabeleceu-se o dia 26 de julho para a sua celebração. São Joaquim era celebrado noutra data, mas o Papa Paulo VI uniu a celebração de Santa Ana e de São Joaquim no dia 26 de julho. Dia 27 de julho, Santa Natália. Santa Natália de Córdoba nasceu nesta cidade por volta de 825 numa altura de pleno domínio muçulmano e perseguição aos cristãos. Os seus pais eram maometanos, mas após a morte do pai, a sua mãe Liliana casou em segundas núpcias com um cristão chamado Félix que as converteu ao cristianismo. Natália cresceu e anos mais tarde casou também com um cristão chamado Aurélio. Todos eles professavam a fé na clandestinidade, até que Aurélio presenciou o martírio humilhante de um cristão amarrado ao rabo de um jumento a ser arrastado a caminho da execução. Naquele dia, num ato de coragem, os dois casais distribuíram os seus bens pelos pobres e resolveram praticar a sua religião em público, para encorajar os cristãos de Córdoba. Os quatro cristãos recusaram-se a negar a fé cristã mesmo perante todas as torturas a que foram submetidos. Foram por fim condenados à morte e degolados a 27 de julho de 852. A cabeça de Santa Natália, assim como o corpo de Santo Aurélio seriam 6 anos mais tarde transladados para Saint-Germain, de Paris. Dia 28 de julho, São Vítor I. Foi Papa entre 189 e 199. Nasceu na Tunísia, na altura uma província romana. Terá morrido em 202 martirizado na quinta perseguição, movida pelo imperador Lúcio Septímio Severo. Dia 29 de julho, Santa Marta. Marta de Betânia era irmã de Lázaro e de Maria de Betânia. A sua amizade com Jesus levou o Messias a chorar e a ressuscitar Lázaro. Esta é uma das passagens mais importantes da Bíblia sobre Marta. Era em casa de Marta, Maria e Lázaro, na Betânia, que Jesus procurava momentos de descanso. Santa Marta tornou-se assim a santa padroeira dos hospedeiros, cozinheiros e nutricionistas. O nome Marta deriva mesmo do aramaico e significa “mestra”, “senhora” ou “dona de casa”. Dia 30 de julho, São Pedro Crisólogo. Nasceu por volta do ano 380 em Ímola, Bolonha e faleceu provavelmente a 30 ou 31 de julho de 450, em visita à sua cidade natal. Foi considerado um dos maiores pregadores da história da Igreja. Conhecido como “Pedro das palavras de ouro”, e merecedor do título de Doutor da Igreja pelo Papa Bento XIII em 1729. Dia 31 de julho, Santo Inácio de Loyola. Foi um presbítero e o fundador da Companhia de Jesus, a maior ordem religiosa católica do mundo. Nasceu em Loyola (atual município de Azpeitia), no País Basco, a 31 de maio de 1491 e faleceu em Roma, a 31 de julho de 1556. Entre outras obras, fundou a Companhia de Jesus, em 1534, com fins missionários e educacionais. Esta ordem religiosa dos jesuítas viria a desempenhar um papel relevante na Reforma Católica.

(Elementos consultados na Internet, in Calendarr)

(In Jornal "O Olhanense", de 15-07-2021)

NÃO AO EUROCETICISMO

 Ao longo dos últimos meses fomos bombardeados pela negatividade, pelo medo, pela notícia improvável que foi gerando um cansaço e desalento generalizado.
No entanto, no estudo Reuters Institute Digital News Report 2021, lançado em 23 de junho, indica que os níveis de confiança dos portugueses nas notícias é de 61%, o que revela uma subida de cinco pontos percentuais comparativamente com 2020. Apesar do aumento de confiança, no total de 46 países em análise, Portugal desce uma posição no ranking global, perdendo a primeira posição, em ex aequo com a Finlândia, que se destaca, agora, com 65%, enquanto o valor médio de confiança das notícias dos países em estudo subiu seis pontos percentuais, para os 44%.
Certo é que o impacto da pandemia na União Europeia gerou uma crise de confiança nos 27 países membros. Segundo Leonídio Paulo Ferreira, in DN, “há uma quebra no entusiasmo dos alemães com o projeto europeu. E também dos franceses. Estes dois pontos devem alarmar os que se preocupam com o futuro da UE. A situação é especialmente séria para um país como Portugal que, saído duma ditadura de meio século e deixando para trás um império com meio milénio, apostou forte no projeto europeu para se consolidar como uma democracia próspera.”
Note-se que foi em 1977 que Mário Soares submeteu o pedido de adesão à então CEE. Surge agora uma súbita fragilidade da UE quando dava a impressão de que o trauma do Brexit estava ultrapassado.
Pois é, a UE nasceu em 1957. A longevidade de Portugal quase a caminho de nove séculos. Com apenas 64 anos, a UE a 27 nunca conseguiu uma coesão. De facto, foi do idealismo de algumas grandes figuras, mas também do pragmatismo de quem assistiu à destruição causada pela Segunda Guerra Mundial – e querendo evitar novos conflitos –, que a atual UE assenta muito na confiança entre alemães e franceses. Só o Reino Unido entrou para depois sair. O sucesso deste ex-membro, na vacinação contra a covid-19, é evidente em comparação com a UE. Muito pela dinâmica do primeiro-ministro britânico Boris Johnson. O ganhador do Brexit. Conseguiu fazer melhor do que a presidente da Comissão Europeia, a alemã Ursula von der Leyen. Não obstante a sua boa intenção na compra centralizada de vacinas por Bruxelas para evitar concorrência entre os 27 membros, e também obter melhores condições de fornecimento junto das farmacêuticas, acabou injustamente por se virar contra os fortes desejos da União.
Neste tempo pandémico, que não mais tem fim, o Governo português tem vindo a aceitar tudo aos turistas estrangeiros. Nomeadamente os britânicos. Como sobejamente já foi visto, por via do futebol, ou mesmo fora dele. E a nós, portugueses, com tratamento diferente. Parece termos regressado aos anos 80, em terras algarvias, que eu recordo muito bem. Nessa altura, em pleno verão, sentíamo-nos estrangeiros em Portugal. Tudo era caríssimo e os menus estavam todos em inglês. Os preços eram para turistas ingleses. Eles eram reis e senhores do Algarve, a ponto de os pobres portugueses serem um empecilho para os empregados de cafés e restaurantes. Num outro ano, dessa mesma década, também no Algarve, mais propriamente no mercado de Albufeira, chamei à atenção de uma vendedora de fruta, daquelas idosas de lenço na cabeça, por não aceitar a reclamação dum estrangeiro que estava a ser ludibriado no preço. Verificou que pedia pela fruta o que não correspondia àquele que, com o dedo, apontava para a tabuleta em ardósia, que era mais baixo. Não atendendo nem a minha indicação nem a do comprador, o raio da velha limitou-se a dizer em disfarce: “É de ontem!”
Deixo-me de euroceticismos porque “o mundo pula e avança como bola colorida”. Com este poema de António Gedeão magnificamente interpretado por Manuel Freire, transponho-me para a nossa Seleção – com muitos a dizerem que se lixe a covid – em que todos os que calharam no “grupo da morte” não sobreviveram para além dos oitavos de final. Um Hazard (quero dizer, Thorgen Hazard que marcou o golo dos belgas) nunca vem só e a sorte bateu no poste. E assim Portugal caiu nos oitavos de final.

(In "Jornal fórum Covilhã", de 14-07-2021)

6 de julho de 2021

A HONRA DOS HISTÓRICOS

 

Escrevo esta crónica na véspera do grande encontro Portugal-Bélgica, para o Europeu de Futebol. Quando chegar aos prezados Leitores, já se saberá o desfecho, esperando ansiosamente pela continuidade de Portugal na senda das vitórias.

E porque foi há 15 anos que faleceu a grande estrela húngara Ferenc Puskás que deu nome ao Estádio em Budapeste onde a nossa Seleção agora realizou o seu primeiro encontro vitorioso com os magiares, me fez trazer à memória um artigo que escrevi para outros periódicos, em novembro de 2006, sob o título “O Húngaro Puskas”.

Os menos jovens recordarão, certamente, este talentoso futebolista húngaro, que deixou o mundo dos vivos em 17 de novembro de 2006, aos 79 anos. No futebol espanhol evidenciou fortes recursos futebolísticos, tanto ao serviço do Real Madrid como da selecção espanhola. Também os benfiquistas, e todos os portugueses, amantes do futebol, certamente não esquecerão o memorável dia 2 de maio de 1962. Como eu, vibraram com a excelente vitória do emblema encarnado, conseguida no Estádio Olímpico de Amesterdão, por 5-3; num jogo pouco propício a cardíacos, muito por influência de Ferenc Puskas, que, aos 17 e 23 minutos da primeira parte, já havia marcado dois golo para, após o empate, com os golos aos 25 e 34 minutos, de José Águas e Domiciano Cavem, Puskas voltar a desempatar, com um golo que deu o hat-trick, aos 38 minutos.

Por ironia do destino, todos os autores dos golos de ambas as equipas já descansam no sono da eternidade; pois os restantes haviam de ser marcados por Coluna e Eusébio (2 golos).

Já lá vão 59 anos e eu recordo bem, no início da minha juventude, ter visto este jogo na antiga Casa da Mocidade Portuguesa, ao fundo do Mercado Municipal da Covilhã, no último prédio do lado esquerdo da Rua Conselheiro António Pedroso dos Santos, que faz esquina para a rua de acesso à UBI .

Com o relato, penso que de Artur Agostinho ou Nuno Brás, via rádio, como opção de alguns colegas; todos nós (só rapazes porque não era hábito, nessa altura, as raparigas se juntarem para este efeito), estudantes de Escola Industrial, do Liceu e do Colégio Moderno; vimos o único canal televisivo, existente nesta zona, a preto e branco, com a casa repleta (nem todos, nessa altura, possuíam televisor nos seus lares).

 Apesar do orgulho de ser sportinguista de sempre, fui um dos que gritei, em uníssono, pelos golos do Benfica. Recordo o fortíssimo pé esquerdo de Puskas, como as grandes corridas do já careca Di Stefano e do Gento; como, depois, a excelente exibição do capitão José Águas e restantes elementos; a correria do baixinho Simões; o “baile” à turma madrilena, onde os defesas Casado, Miera e Santamaria sentiram enormes dificuldades com a penetração dos avançados benfiquistas, furando as redes de Araquistain.

O frenesim era enorme e a televisão mostrava os milhares de espectadores, como num cacho, e a assistência a um português, acometido de uma síncope, assim como o desfraldar de uma enorme bandeira encarnada.

Puskas deliciava os espectadores com as suas fintas e dribles; os golos foram temidos.

Representou a selecção húngara até ao momento em que a revolução de 1956 na Hungria acabou com uma lendária geração de atletas de alta craveira, onde se integrava Ferenc Puskas – o “Major Galopante”, como ficou conhecido. Marcou 83 golos em 84 jogos pela selecção do seu país, sendo considerado o melhor jogador húngaro de todos os tempos. Foi então para Espanha e é no Real Madrid que firma o seu nome, ao lado de outra lenda do Real, Di Stefano, na altura em que os “merengues” mandavam na Europa do futebol. Em Espanha representou a selecção espanhola. Passou então a ser alcunhado de “Pancho Puskas”, o “Canhão”, pois tinha um remate poderoso e uma aceleração incrível.

Serve também este apontamento para recordar outro húngaro, naturalizado francês, que, no nosso país, jogou no Sporting da Covilhã – André Simonyi – que lhe havíamos perdido o rasto, mas fruto da colaboração da Embaixada de Portugal em Paris, acabamos de saber que já faleceu em 2002.

André Simonyi, designado o “jogador modelo” e o “homem canhão” foi um dos maiores goleadores do SCC, surgindo no topo da listagem dos futebolistas de eleição, tendo jogado nos Leões da Serra, de 8/10/1949 até final de 1954.

Para os interessados, poderão verificar que Simony foi o atleta dos leões serranos que marcou mais golos na 1.ª Divisão – 74 em 86 jogos; depois, a honra de o SCC ver inscrito um seu atleta – Vitoriano Suarez, como o primeiro maior goleador de todos os tempos, na Taça de Portugal, com 15 golos, mantendo-se, até aos dias de hoje, em terceiro lugar, que viria a ser igualado por Iaúca; ultrapassado, em segundo lugar, por Mascarenhas, do Sporting; e para o primeiro lugar, por Eusébio, do Benfica.

E, nesta passagem efémera pelo mundo, vão desaparecendo aqueles que, para uns, foram ídolos; e, para a generalidade, deixaram marcas da sua vivência e na arte de jogar bom futebol.

Pois bem, se a Hungria tem a sua figura símbolo daquele orgulho magiar, também Portugal se orgulha de possuir, já várias figuras, não só do futebol como de outras modalidades, mas é no desporto-rei que mais brilham as estrelas que colocam a flutuar com mais permanência a bandeira portuguesa, naquele orgulho de ver um português – Cristiano Ronaldo – sobejamente conhecido do Planeta, a seguir nos caminhos do estrelato, de sucesso em sucesso, ganhando o que jamais outro português conseguiu tal efeito, ultrapassando atletas que os irá substituir naquela grande estrela que é a que brilha mais.

Cristiano Ronaldo tem sido quem tem mais dado a conhecer este País à beira-mar plantado.

Ficamos esperando que cintile nova estrela sob a sua ação, vir a ser o maior goleador do mundo, uma vez que, no momento em que escrevo, encontra-se empatado com o iraniano Ali Daei, com 109 golos marcados ao serviço das suas seleções. Ali Daei, do Irão, marcou 109 golos em 149 jogos. Cristiano Ronaldo, com o mesmo número de golos, em 178 jogos, ao serviço da Seleção de Portugal.


(In "O Olhanense", de 01-07-2021)

 

28 de junho de 2021

CONTE-NOS A SUA HISTÓRIA - MANUEL LOPES ESPINHO FONSECA

 



Covilhanense de que muito se orgulha, nascido no ano da graça de 1945, aos dezasseis de setembro, na freguesia de Aldeia do Carvalho (hoje Vila do Carvalho).

Casado e com ter três filhas. Completou a Instrução Primária no Asilo, instalações ainda hoje devolutas, na Rua Combatentes da Grande Guerra, na Covilhã. Por aqui passaram vários alunos, entre indigentes, pobres, remediados, e de excelentes posses.

Manuel Espinho frequentaria depois a Escola Industrial e Comercial Campos Melo da Covilhã, e desempenharia as funções de empregado de escritório na empresa Hilário Dias Freire & Cª Lda até ao seu encerramento, sendo que, já depois do serviço militar obrigatório, ainda exerceu funções administrativas na Universidade da Beira Interior (UBI).

E é precisamente sobre a sua passagem pelo serviço militar, que vemos o Manuel Espinho a caminho de Castelo Branco, para iniciar a recruta no Batalhão de Caçadores 6, naquele mês de janeiro de 1966. Como quase sempre acontece, eram muitos os conhecidos, com uns a ficarem na mesma companhia e até outros no mesmo pelotão. Após a Páscoa, surgiu o período da especialidade. Manuel Espinho é então enviado para o Regimento de Artilharia Ligeira 4 (RAL 4), em Leiria, onde aqui tira a especialidade de escriturário e SPM. Oportunidade para poder alugar um quarto na cidade do Lis, onde à socapa se vestia à civil nos fins de semana com os seus camaradas… Eles eram o Arlindo, o Gato, o Luís Filipe Rodrigues e outros mais que já não recorda. Pois é, o Manuel Espinho e o Arlindo ainda arranjaram umas namoradas em Marrazes e Marinheiros. Terminada a especialidade, em meados de junho de 1966, a maioria foi colocada nas diversas unidades militares como escriturários. No entanto, o Manuel Espinho, o Gato, o Carlos Paulo Rato, o Luís Filipe, o Tomás e o Torrão, entre outros cuja memória já não lhe ajuda, foram parar à Trafaria para obterem a especialidade de operadores cripto. Aqui ficaram até 30 de setembro. Na Trafaria assinaram termos de responsabilidade face à especialidade sensível que estavam a tirar, vindo a saber-se serem destinadas aos serviços da PIDE. Sendo certo que a maior parte do dia era passado nas aulas, também é verdade que o cais onde apanhavam o barco para Belém era perto. Daqui, de elétrico, era um saltinho para a baixa alfacinha. Mas, para além de Manuel Espinho poder ir alguns fins de semana à Covilhã, de comboio, também tinha família em Lisboa, entre o Martim Moniz e a Graça, onde era recebido com muito agrado.

Em 30 de setembro de 1966, terminada a especialidade, já como 1º. Cabo, seguiram rumo a outros destinos, sendo que Manuel Espinho, e mais uma dúzia de seus camaradas, foram colocados no Quartel-General da 2ª Região Militar, em Tomar, sendo posteriormente distribuídos por unidades militares onde havia falta de criptos, só que, por azar, não necessitavam deles quer em Castelo Branco quer na Guarda. Ficou assim em Tomar.

Uns dias antes do Natal de 1966, como era costume, a malta que não estava de serviço e saía, ao regressar passava pelo Centro Cripto para ajudar caso houvesse muito serviço. Numa dessas noites, agarrando numa mensagem, decifrou-a, para ajudar como era costume. Por ironia do destino, verificou que, dessa mensagem, na parte final da mesma, reportada à sua Unidade Militar na Trafaria,  referia que estava mobilizado para Angola. Resultado: no dia seguinte já tinha guia de marcha para seguir para a Trafaria, ficando a saber que o seu batalhão pertencia ao Regimento de Infantaria de Évora, sendo o IAO em Santa Margarida, com apresentação no Batalhão de Caçadores 1903, Companhia de Caçadores 1643. Na guia de marcha para os derradeiros 10 dias da despedida dos familiares, antes do embarque para Angola, a acontecer nos princípios de janeiro de 1967, quando chegou à Companhia encontrou-se com o José Madeira (emigrado no Canadá) e com o Ludovino Pereira (que está em França), aquele como cabo condutor e este como atirador, pois pertenciam à mesma companhia do Manuel Espinho.

No dia 18 de fevereiro de 1967 embarcaram no Vera Cruz para Angola, onde o Espinho encontrou, já no barco, o seu amigo José Baltazar que vive em Cebolais de Cima.

A chegada a Luanda aconteceu em 22 de fevereiro de 1967. Aqui, Manuel Espinho teve a alegria de ser recebido pelos seus tios que viviam em Angola, no Bairro da Cuca, onde passou sempre as suas férias. Em Luanda, ao fim da tarde, encontrava-se sempre malta da Covilhã, na cervejaria Portugália.

Foi então a partida do Grafanil para o Norte. Dormiam em viaturas e, de manhã cedo, partiam para o destino: CCS Tomboco, 1643 Lufico, 1644 Zaueva, 1645 Tomboco.

Em janeiro de 1968, a Companhia foi colocada em Ambrizete (na missão). Manuel Espinho foi logo colocado no comando do setor, pois só havia um centro cripto.

Ambrizete tinha a praia junto ao quartel, bares, cinema, avião diário, uma grande sanzala, e muita garota para ajudar a passar o tempo…

Era de facto uma terra inesquecível, já com muitos civis brancos, comércio, bares, restaurantes, um clube com bilhares e snookers, ringue para futebol de salão, cinema e outros espetáculos, polícia e até posto da PIDE, hotel e lojas de roupas e utensílios diversos, avião 6 dias por semana, hospital com um médico, e igreja. Era uma zona de passagem para Noqui, S. Salvador, Santo António do Zaire. Para além disto tudo, um pôr-do-sol inolvidável. Foram, de facto, 27 meses que Manuel Espinho não esquece, por terras do Norte de Angola. Felizmente, de coisas menos boas, não tem para contar, já que por elas não passou, sendo no entanto certo que, do que sabia de negativo, face à especificidade da sua especialidade, nada podia contar a ninguém.

Terminada o seu tempo de serviço, no regresso a Portugal, embarcou no Vera Cruz, em Luanda, nos princípios de junho de 1969, chegando nove dias depois.

 

 

 

 

DO EQUINÓCIO DA PRIMAVERA AO SOLSTÍCIO DO VERÃO

 

Entre estes dois momentos do ano, dou início a este editorial para os estimados Camaradas Antigos Combatentes e Leitores em geral. Depois do que tantos de nós temos passado, será reconfortante que a encantadora primavera nos entregue ao tentador verão, que quase todos esperamos.

Outros momentos foram surgindo desde o último número deste periódico. Por exemplo, muitos já fomos vacinados contra a Covid 19. Outros continuam ainda a aguardar pela segunda dose da vacina. O desejo é de que todos nos sintamos mais protegidos e possamos voltar aos pontos de reuniões diversificadas, incluindo os convívios no espírito dos eventos tão desejados.

Na sequência do Estatuto do Antigo Combatente aprovado pela Lei n.º 46/2020, de 20 de agosto, a que fizemos referência na edição d’O Combatente da Estrela, nº. 120 de setembro de 2020, surgiu em abril a aprovação do protocolo que isenta os antigos combatentes de taxas moderadoras nas consultas, exames complementares de diagnóstico e nos serviços de urgência do SNS, estendendo-se também às viúvas e viúvos dos mesmos.

Segundo um estudo do americano John P Cann, financiado pelo Kings College de Londres, especialistas ingleses e norte-americanos estudaram comparativamente o esforço das nações envolvidas em vários conflitos em simultâneo, principalmente no que respeita à gestão desses mesmos conflitos, no campo da logística geral, do pessoal, das economias que os suportam e dos resultados obtidos. Assim, John Cann  chegou a várias conclusões, entre as quais, que em todo o mundo só havia dois países que mantiveram três teatros de operações de guerra em simultâneo: a Grã-Bretanha, com frentes na Malásia (a 9.300 Km, de 1948 a 1960 – 12 anos); no Quénia (a 5.700 Km, de 1952 a 1956 – 4 anos); e em Chipre (a 3.000 Km, de 1954 a 1959 – 5 anos); e Portugal, com a frente na Guiné (a 3.400 Km), Angola (a 7.300 Km), e Moçambique (a 10.300 Km), de 1961 a 1974 (13 anos).

Os especialistas chegaram à conclusão de que Portugal, dadas as premissas económicas, os seus recursos, a sua pequena dimensão, as dificuldades logísticas para abastecer as três frentes, bem como a sua distância, a vastidão dos territórios em causa, e a enormidade das suas fronteiras, foi aquele que melhores resultados obteve.

Consideraram por último, que as performances obtidas por Portugal, se devem sobretudo à capacidade de adaptação e sofrimento dos seus recursos humanos, à sobrecarga que foi possível exigir a um grupo reduzido de quadros dos três Ramos das Forças Armadas, com comissões atrás de comissões, com intervalos exíguos de recuperação física e psicológica e às centenas de milhares de jovens que durante 13 anos combateram naqueles territórios. Baseiam-se estas afirmações com base em observadores internacionais.

Por várias vezes foi referido, que estes homens que serviram durante estes anos na Guerra do Ultramar, só pelo facto de aguentarem este esforço sobre humano que se reflete necessariamente em debilidades precoces de saúde, mazelas para toda a vida, invalidez total ou parcial, e morte, tudo ao serviço da Pátria, merecem o reconhecimento da Nação, mas jamais lhes foi dada essa justa oportunidade. Algumas referências em momentos como nos dias 10 de Junho, não são suficientes.

Por todo o Mundo se veneram, recordam, imortalizam e se homenageiam os soldados que combateram em teatros de guerras, sejam eles vencedores ou vencidos. Mas muitos dos nossos mortos foram abandonados nos territórios africanos. Valeu o trabalho de excelência da Liga dos Combatentes, diligenciando, tanto quanto possível, que todas as ossadas dos nossos Antigos Combatentes, com as inerentes dificuldades, fossem armazenadas nos respetivos cemitérios, sob devido registo, colocando-as assim à disposição das suas famílias.

Na opinião muito racional do antigo Combatente que nos facultou estes elementos muito pertinentes, refere, e muito acertadamente, “que somos os únicos que não seguem os exemplos generalizados do tratamento diferenciado aos que serviram a Pátria em combate. E pior ainda. O cúmulo dos cúmulos. Quem combateu é censurado, vilipendiado e ostracizado. Pelo contrário, os traidores/desertores, muitos dos quais fugiram e foram viver com mordomias de príncipes e outros que ainda pululam no sistema político vigente, apelavam à morte dos soldados portugueses.”

Muitas memórias foram escritas em livros, alguns dos quais foram objeto de apresentação na Biblioteca Municipal da Covilhã (BMC), por via deste Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes.

Refiro alguns que constam da minha biblioteca pessoal e que já tive o ensejo de os ler:

- A Tropa vai fazer de ti um Homem (Guiné 1971 – 1974), de Juvenal Sacadura Amado. Apresentado na BMC em 21-04-2016.

- Cartas do Mato, por Daniel Gouveia.

- Danos Colaterais – Angola 62/64, de J. Eduardo Tendeiro.

Apresentado na BMC em 2017.

- Memórias Combatentes na guerra do Ultramar, de João Peres, Edição da Liga dos Combatentes Núcleo de Olhão, de 02-04-2016.

- Cambança Final (Guiné – Guerra Colonial) – Contos, de Alberto Branquinho. Maio de 2013.

- Filhos d’outrem ou d’algures, de Alberto Branquinho. Maio de 2015.


Outros nomes que foram objeto de informação pública, como Gente Acenando para Alguém Que Foge, romance da expedição de Paulo Faria a Moçambique; ou Memórias de um desertor, de Sérgio Palma Brito, são sempre obras a ler por quem quiser melhor conhecer realidades demasiado esquecidas, “mas que foram componentes essenciais para compreender os anos de 1969/70 do salazarismo, do colonialismo e do exílio portugueses”.

(In "O Combatente da Estrela", nº. 123-JUL/2021)

9 de junho de 2021

BORA LÁ A RELAXAR

 

Lá vai o tempo em que por aqueles anos de 2006, e seguintes, a caminho da crise cada vez mais prenunciadora, me insurgia nas páginas dos habituais periódicos regionais, e não só, pela vivência por que todos passávamos então.

Ora nesses tempos até era um risco tomar determinadas posições face à vida profissional, mas, como jamais temi assumir a minha forma de pensar, tive o privilégio de ouvir dizer de alguns serem meus leitores atentos.

Na confidência com amigos, por vezes abordava-os como é que viam a minha conduta pelas bandas onde trabalhavam. Se, no pensamento de que fosse leninista, logo me escancaravam a porta de que era visto como muito mais que isso. Não me importunei com a opinião recolhida porquanto, embora não corporizando tal tendência, o que é certo e verdade é que não era nem nunca fui de direita. Preferia, sim, ser um cidadão “às direitas”.

A procissão dos que, logo no adro, se perfilavam para tomar lugar nas primeiras filas dos chicos-espertos, e de alguns jotas de forçada habilidade, no imediato começaram a deixar marcas nos muros para onde subiam, sempre na espreitadela de ver para que lado deveriam saltar.

E assim se foram passando, e continuam, as diatribes de disputa de lugares de topo, com ou sem ventos contrários, para que se consiga agarrar a oportunidade de ficar mais próximo do palanque.

Estamos no país das maravilhas. O Novo Banco apresentou prejuízos de 1329 milhões de euros mas quer novamente distribuir pelos administradores quase dois milhões de prémios, a pagar em 2022. Cavaco Silva acusou o PS de continuar a alimentar “monstro” da despesa pública, mas esqueceu-se das suas patrióticas administrações da Nação. Mentecapto.

O melhor é bora a “esplanadar”. Nas últimas semanas assistimos a verdadeiras romarias pelas ruas das cidades, aldeias e lugarejos. Mesas das esplanadas cheias ou quase repletas, literalmente à procura de um lugar. Enchentes aqui e ali, com a primavera a convidar, sedutora. Pois é, “esplanadar” é ótimo e a restauração agradece. Assim, por exemplo, pode-se falar da Estratégia Nacional de Combate à Corrupção. E, mais uma das maravilhas: de fora do decreto-lei ficam os gabinetes dos principais órgãos políticos e todos os órgãos de soberania, assim como o Banco de Portugal. Trata-se assim de uma mão cheia de nada, outra de coisa nenhuma, nas palavras da psicóloga clínica Joana Amaral Dias. Também, conforme refere um meu amigo sobre a garantia das pensões, “Em Portugal, país do Fado e das Cigarras, ninguém pensa a 20 anos, muito menos quem o deveria fazer, a classe política na qual os cidadãos votam precisamente para que o façam. Não há um só político que pense a mais de 4 anos. Só o estritamente necessário para ganhar a próxima eleição”.

Fico com esta máxima de Aristóteles: “É fazendo que se aprende a fazer aquilo que se deve aprender a fazer”. Concluo com uma breve narrativa, de sua boa memória, dum meu adorável vizinho. Corria o ano de 2017. Ao sairmos de nossas casas encontrei-me no patamar do prédio com o meu vizinho que descia do seu andar. De imediato dirigiu-se-me com voz forte e algo endurecida:

 - “Sabe que dia é hoje?! Sabe que dia é hoje?!”

- “Hoje?... Porquê?...” Respondi-lhe, de certo modo estupefacto.

- “Não sabe?! Não sabe?!” insistiu o vizinho.

- “Só se for por ser o Dia de São Pedro!...” – respondi-lhe.

- “É só para o lembrar que faz hoje 45 anos que fui castigado na Guarda, no RI 12, porque você estava de ronda e pediu-me a dispensa de recolher. Como não a tinha, mandou-me apresentar ao Oficial de Dia e depois, eu… que nunca tinha feito um serviço porque era radiotelegrafista, acabei por ser castigado com serviços de plantão”.

- “Olha para o que você se havia de lembrar, volvido tanto tempo! Eu já nem me lembrava disso mas fez-me agora avivar a memória. Foi apanhado irregularmente porque alguém nos havia avisado dessa irregularidade”.

Ora aqui está uma situação que serve para hilariar nestes tempos em que pretendemos que se rasgue definitivamente o véu dos confinamentos desta maldita pandemia. Como o meu vizinho certamente ficou aliviado da carga de encoberta raiva que sobre mim lançara, descarregando suas mágoas de muitos anos, e que eu desconhecia, fico satisfeito de o ver agora mais alegre e simpático. Por isso, bora lá a relaxar!


(In "Jornal fórum Covilhã", de 09-06-2021)

 

26 de maio de 2021

AQUELA BREVE TERTÚLIA COM O PROFESSOR ARNALDO SARAIVA


 

Esplanada do Centro Comercial da Estação, na Covilhã. Corria o dia onze de junho do ano da graça de dois mil e dezanove. A pandemia ainda não se fazia sentir em Portugal. Na mesa já me encontrava com os amigos comuns: Pedro Batista, natural de São Jorge da Beira, e Sérgio Saraiva, natural de Casegas. Um telefonema do professor para o seu primo Sérgio avisava que a sua deslocação do Porto retardaria um pouquinho o encontro. Afinal, sempre gostaria de conversar com o filho daquele que foi seu professor da primária em Casegas – o falecido José Martins Nunes que, posteriormente, fora funcionário da Biblioteca Municipal da Covilhã até à sua aposentação. Da parte da tarde teria de participar numa conferência no Fundão. Daí que, volvido algum tempo, surgem Fernando Paulouro Neves e Jorge Torrão.

A chegada do professor Arnaldo Saraiva surge com aqueles cumprimentos enlevados em sorrisos. Entre uns cafés e umas águas a conversa não se confina só nos principais interessados na memória do seu antigo professor da primária mas também na vivência de quase todos terem tido a sua passagem pelo Seminário do Fundão. A conversa, entretanto, é interrompida por um grupo de professoras aposentadas que se encontrava numa outra mesa e que o identificam. Entre elas, Maria do Céu Brás, de Casegas.

O professor doutor Arnaldo Saraiva descreve-nos então, dos tempos da sua infância, a alegre disputa dos jogos da bola, nas ruas de Casegas, onde alguns miúdos de então jogavam descalços, e, dentro da escola, naqueles longínquos anos de meados da década de quarenta do século XX, uma cena hilariante entre o prof. Martins Nunes e um dos alunos, seu colega da escola caseguense. Pedira então este, por duas vezes seguidas para ir à casa de banho. Perante a estranheza e o questionar do prof. Martins, o aluno responde com uma justificação em autêntico calão: “Da outra vez fui fazer ‘aquilo’… e agora vou fazer ‘isto’…” Longe estava eu de pensar que esta faceta contada há muitos anos por meu pai, durante o início do seu ensino no magistério primário, ainda seria recordada por um seu ilustre antigo aluno. Ele, Martins Nunes, que foi ainda professor da 4.ª classe, em Casegas, de três alunos que vieram a ser conhecidos dentre os padres jesuítas – José Gaspar Pires e António Costa e Silva. Também outro seu aluno, nesta classe – José de Almeida Geraldes, foi cónego sobejamente conhecido, chegando a ser diretor do Notícias da Covilhã.

Como algumas vezes referi, nasci na Pousadinha, freguesia de Aldeia do Carvalho, mas estive na iminência de nascer em Casegas. Para aqui veio o prof. Martins com minha mãe, e o seu primeiro rebento – Rita Fátima.  Meu pai, natural de Bogas de Baixo, não pôde continuar os estudos no Seminário do Fundão, tendo assim optado pelo magistério primário, sendo colocado como regente escolar na Casa do Povo do Bairro do Rodrigo, na Covilhã, num curso noturno que se iniciou no dia 07/01/1938. Depois continuou cumulativamente com o Posto Escolar Masculino da Borralheira. Seguiram-se comissões de serviço na Escola Central Masculina da Covilhã, em 1944, e, no ano seguinte, em Aldeia do Carvalho. De 1945 a 1948 foi colocado em Casegas.

Aproximando-se o meu tempo para vir ao mundo, meus pais não queriam que nascesse em Casegas por estar longe dos familiares. Segundo me contaram, em Casegas, o professor Octávio e a sua mulher, Mariana, assim como o padre Nicolau, o Zeca Craveiro e a mulher, prof. Agostinha, ainda lhes sugeriram para eu ali nascer. Não querendo ali ficar, lá foi a bagagem no dorso de uma égua, e os quatro, nos quais se contavam meu pai, minha mãe, a minha irmã, de colo, e eu ainda no ventre de minha mãe, num carro de bois, atravessando a ribeira até ao Ourondo, onde pernoitaram em casa de familiares; depois foi tomar a camioneta para Aldeia do Carvalho.

As memórias perduram e esta com o amigo professor doutor Arnaldo Saraiva reforçaram o interesse nas vivências por onde andámos e algumas raízes que ficaram.

Foto: O professor Martins Nunes com a filha mais velha ao colo, Rita Fátima, e a esposa, com o segundo filho, João.


(In Jornal "Notícias da Covilhã", de 27 de maio de 2021)

19 de maio de 2021

NA RESILIÊNCIA DO SEMANÁRIO MAIS ANTIGO DA REGIÃO

Nos tempos que correm não é fácil manter um periódico a circular sem alguns períodos de inquietações. Se agora foi a pandemia que afetou também o jornalismo, já antes surgira a questão do digital com aquele receio latente em detrimento do jornal em papel. Não nos podemos desviar da futurologia e, por isso mesmo, todos os órgãos da comunicação social souberam aproveitar as oportunidades dos momentos. É numa conjuntura de trabalho híbrido que o jornalismo hoje assenta, verificando-se que já não são só os grandes títulos da imprensa que a tal aderiram como também aqueles que nos são de proximidade – os regionais.

Felizmente que há 47 anos vivemos o estado da liberdade de imprensa, sendo certo que, segundo o DN, “num contexto de degradação geral, Portugal surge nos 12 países que a organização considera terem ambiente favorável ao jornalismo”, encontrando-se o nosso país no 9.º lugar, com o trio da liderança na Noruega, Finlândia e Suécia.

Desde o primeiro jornal português; de há 370 anos, que ajudou D. João IV a consolidar o poder em 1640, e que dava pelo nome comprido de “Gazeta, em que se relatam as novas todas, que houve nesta Corte, e que vieram de várias partes do mês de Novembro de 1641”; que, até à atualidade, subsistem os mais antigos, tendo já alguns atingido o centenário. Todos eles foram parte importante na história do nosso país, sendo que muitos dos regionais, por este país fora, foram e são de primordial importância pela sua “teimosia” em vincar as necessidades das suas regiões.

Se não fosse esta proximidade da imprensa regional, os governos sentir-se-iam menos solicitados às tarefas regionais e, consequentemente, pelo não abanão a que não seriam votados. É sempre necessário insistir naquela de que “água mole em pedra dura tanto dá até que fura”. Muito se deveu às enormes quantidades de tinta que moldou os jornais para que melhoramentos acontecessem ou necessidades existentes se dissipassem nas regiões. Mas também por via do surgimento da era digital a partir de 1986, com a Internet em Portugal.

Muito poderia servir de enumeração de acontecimentos surgidos, ao longo da vida de um jornal, mas, cá por esta região, exemplifiquemos a ação da imprensa regional para que saísse da letargia a renovação e reabertura do troço da linha da Beira Baixa, entre a Covilhã e a Guarda e vice-versa, ocorrido no passado dia 2 de maio.

O que poderei agora dizer sobre a longevidade do “Notícias da Covilhã” (NC), nos seus 102 anos da existência com este título, e 108 da sua própria existência com a designação de “A Democracia”?

Tenho a honra e o prazer de escrever neste Semanário desde 1964. Conheci-lhe quatro Diretores, para além do atual. Com eles convivi. Efetivamente, o NC é o semanário mais antigo da região, e, conforme muito já escrevi sobre o mesmo, as suas páginas narram parte importante da história da Covilhã.

Longa vida para o NC porque a sua voz é imprescindível pelo seu prestígio jornalístico.

(In "Notícias da Covilhã", de 20 de maio de 2021)


12 de maio de 2021

EM LIBERDADE

 

Os dias em que mais se falou em liberdade e trabalhador já lá vão, na espuma do tempo, esta ainda dominada pelos números da pandemia e pelos resultados provisórios do processo mais mediático da justiça portuguesa. Certo é que, quanto à doença infeciosa, já quase é um tormento ouvir-se falar de epidemiologias, virologias, pneumologias, infeciologias, e outras “logias”. Mas é indubitável que se torna necessária a literacia neste domínio.

Se o 25 de Abril será para sempre memorizado como o Dia da Liberdade, quer queiram quer não, já o 1º de Maio se repercute no Dia do Trabalhador. Sobre este último não deixa de ser confrangedor, no estudo divulgado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, o retrato que se apresenta sobre a pobreza em Portugal: 17,2% da população portuguesa, o que significa 1,7 milhões de pessoas, vivem em risco de pobreza. Sendo certo que este estudo se baseia em dados de 2018, não é difícil prever que estes números já terão sido superados na atual situação. E continuarão a subir. Tal como Eça de Queirós referiu, em Os Maias, “para aí apareceu o Satanismo, o Naturalismo e o Bandalhismo, e outros esterquilínios em ‘ismo’…”

Num artigo lúcido e acutilante de Joana Amaral Dias, in DN, refere o distanciamento de tantos da vida partidária e da intervenção pública face ao delapidar do bem comum por “um punhado de sociopatas e videirinhos cujo único objetivo é servirem-se a si mesmos”. São às resmas neste país de brandos costumes, à beira-mar plantado, sobejamente conhecidos, pelo que me dispenso de aqui nomear alguns, pois não caberiam nesta página. Mas não posso deixar de nela fazer referência a uma afirmação da diretora do DN, Rosália Amorim, de que “se o enriquecimento ilícito preocupa os portugueses, julgo que o empobrecimento ilícito preocupa ainda mais”.

Voltando ao dia da liberdade, Leonete Botelho, in Público, realça o consenso neste 25 de Abril – palco constante de disputas políticas e pretexto para frequentes ajustes de contas com a história – em torno do discurso do Presidente da República: “No dia da liberdade, Marcelo Rebelo de Sousa, filho de um governante do império e um dos artífices da constituição democrática, quis pôr o dedo na ferida da guerra colonial que começou há 60 anos e dali partiu para um apelo à reconciliação com a história”. – “Não há, nunca houve, um Portugal perfeito”. E o Parlamento aplaudiu o Presidente de pé. Alguns historiadores, como Manuel Loff, no entanto, divergiram e criticaram essa visão reconciliadora, nomeadamente no que concerne ao facto de Marcelo, em 2017, no Senegal, ter elogiado a precocidade portuguesa na história da abolição da escravatura, pretendendo que Portugal a teria abolido em 1761, pois não só sabia que o Estado português o não fez antes de passados mais de cem anos.

Nas palavras de Fernanda Câncio, in DN, num notável discurso, o presidente abordou enfim o passado como ferida, pedindo que saibamos assumir o olhar dos colonizados e entender que há várias histórias na história, incluindo a sua, filho do último ministro das colónias (Baltazar Rebelo de Sousa), príncipe imperfeito deste regime e do outro. Uma mensagem claro escuro como o país que interpela. “Nas leis, os negros classificados com ‘indígenas’, ou seja, a maioria da população de Moçambique, Angola e Guiné, eram excluídos da cidadania e tratados como sub-humanos”.

Dois dias após o 25 de Abril, pouco se falou duma efeméride que merecia destaque – os 500 anos da morte do navegador português Fernão de Magalhães, nas Filipinas, às mãos de Lapu Lapu, o chefe dos guerreiros que escusadamente Magalhães desafiou, em 27 de abril de 1521.

Falta cumprir uma liberdade, refere Rosália Amorim – a de movimentos. A Avenida da Liberdade, em Lisboa, encheu-se de portugueses para assinalar o dia da Revolução dos Cravos. Eram pessoas a mais para distâncias a menos. A pandemia ainda não desapareceu e os portugueses não atingiram a imunidade de grupo. A liberdade não é uma justificação para tudo, nunca foi, pelo que o melhor é aguardar, manter a prudência e não correr o risco de morrer na praia.

Quem Me Dera! – Termino com parte da canção de Mariza: “Quem me dera/Abraçar-te no outono, verão e primavera/Quiçá viver além uma quimera/Herdar a sorte e ganhar teu coração”.

(In "Jornal fórum Covilhã", de 12-05-2021)

 

5 de maio de 2021

DE ONTEM PARA HOJE

 

Um sonho de alguém que, como muitos do presente, ainda vão andando por aí.

Ontem ainda acariciava o tempo. E vivia a noite sem se importar de marcar os seus dias. Esses momentos de um tempo que se dissipava na contagem decrescente da sua vida. Foram mil e um projetos. Muitos deles não passaram dum contínuo sobrevoar pelo espaço sideral. As milhentas esperanças juntaram-se como que um bando de pássaros seguindo viagem para outros rumos, em mudança de estação. E ficou impávido. Esperanças então perdidas numa perplexidade constante de agir contra os ventos contrários. Que por força duma visão obscura os seus olhos, procurando o Céu, tinham, no entanto, o coração imanado na terra.

Ontem ainda se regalava com o tempo. Pensando que a vida lhe iria sempre sorrir, esbanjava esse mesmo tempo, acreditando que o podia comandar. E para que lhe pudesse imprimir a sua ordem, numa tacanhez pensante, pôs-se a correr, pensando que ia na sua frente, que o tinha ultrapassado. Começou a sentir um cansaço em demasia. Ignorou factos, mesmo do passado recente, pensando que se conduzia, por si próprio, ao futuro.

Precedia do seu egocentrismo. Rejeitava qualquer conversa sobre quem lhe aconselhava a meditar naquelas névoas que persistiam em afligir os sensatos. Permutou uma alteração da sua conduta por sorrisos irónicos. Da qual até opinava que ele queria o melhor. E, assim, por si o mundo era criticado num desplante em exuberância.

Ontem ainda não vislumbrava os erros para onde se ia direcionando. Mas, num ápice, no acordar dum sonho, não aquele que comanda a vida, sobressaltou-lhe o espírito. Tivera uma juventude insolente, atingiu o tempo de homem feito, não acompanhou o ritmo, se lancinante, também gratificante, entre esses ventos e marés da própria vida. Perdeu tempo, tempo desregrado.

A cometer loucuras, no fundo nada lhe deixa para a vida no adir dos anos, dos quais nem deu conta que iam passando. Mas não deixou de acreditar no que viu no seu espelho que lhe mostrou várias rugas no rosto, que não conseguiu disfarçar.

Ontem ainda mantinha a sua incredulidade em tudo, naquele seu indómito ceticismo.

E, assim, na morbidez do seu pensamento, naquele enfado dos continuados confinamentos, não ligou, não se importou com o que diziam, a saturação tornou-se mais do mesmo para si.

O bicho mau, que diziam existir, mas que ele jamais viu, ou sentiu, para ele não contava. Não estava no seu íntimo tapar a cara e o nariz, fugir das pessoas, deixar de se animar na copofonia.

Ontem ainda, quando acordou dum novo sonho, tinham-lhe dito que tivera uma grande sorte. Estava a sair dos cuidados intensivos. Só se lembrou, e agora indelevelmente, depois de estar fechado em quatro paredes e não reconhecer ninguém, de que, afinal, para que serviu todo este seu comportamento? Esta lição ficou-lhe bem estudada, para toda a vida! Afinal, seus amores morreram antes de existirem, e seus amigos partiram e não mais retornarão. Por sua culpa criou o vazio em torno de si mesmo.

Gastou toda a sua vida, entre o melhor e o pior, baldando-se do melhor. Já não lhe rodeiam sorrisos e verte-se em lágrimas de arrependimento.

Ontem foram aqueles seus nefastos sonhos, como castelo de cartas; hoje vive no seu isolamento que insensatamente criou.


(In "Notícias da Covilhã", de 06-05-2021)

14 de abril de 2021

NESTE TEMPO DE PRIMAVERA

 

No dia em que os prezados leitores lerem este texto, já passou a Páscoa, mas ele foi ainda escrito à beira da mesma, com o país a recear uma subida do índice de transmissibilidade (Rt). Na reunião do Infarmed foram deixados vários alertas. Entre eles, o do último relatório do estado de emergência que chama a atenção para os ajuntamentos. Que persistem na teimosia das pessoas irresponsáveis. Assim como o não uso da máscara. Num tal descaramento. Que também persiste. Como se as pessoas vivessem exclusivamente num mundo rural de iletrados.

Depois de um inverno duro, chuvoso, rigoroso, fechado, os portugueses sonharam com a primavera. Ela aí está. Mas o sonho dos portugueses, isto é, de todos nós, é de uma primavera que traga boas notícias, desconfinamento e alguma estabilidade. Precisamos, sim, duma primavera que seja um tempo de confiança e esperança, de reenergizar e renascer para aquela força de vários horizontes que se foi dissipando com a maldita doença infeciosa.

Começa-se agora a indagar a génese do vírus que deu lugar a esta pandemia, tendo-se iniciado, para esse efeito, a conferência da Organização Mundial da Saúde (OMS). E já se diz que Wuhan e o mercado chinês não podem ser vistos como sua origem.

Com Portugal a baixar o número de mortos e internados, a vacina da AstraZeneca que tantos receios têm causado nas pessoas, mudou o nome para Vaxzevria, vá-se lá saber porquê.

Estes últimos dias foram preenchidos de momentos simbólicos marcando o regresso de dois grandes blocos mundiais: EUA e UE por um lado, China e Rússia por outro. Foi assim uma demonstração de unidade, com Pequim e Moscovo a acusarem os países ocidentais de interferirem nos seus assuntos internos, depois do anúncio de sanções por graves violações de direitos humanos, e defenderam a realização de uma cimeira do Conselho de Segurança das Nações Unidas para debater a “turbulência política crescente” no mundo.

E, se de vacinas nos reportamos acima, ficou também à vista a fragilidade da UE para dar resposta conjunta aos desafios impostos pela covid-19. Segundo o Público, “além da dependência em matéria de vacinas, continua a viver a pandemia a várias velocidades: uns países fecham portas enquanto outros, como Portugal, desconfinam. Com tanta indefinição, o regresso do turismo no verão pode ser ‘um passo maior do que a perna’”.

Este país à beira-mar plantado tem sido um “eldorado” para alguns. Senão vejamos: ainda fulguram, estiveram na ribalta dois grandes negócios nacionais. Eles provieram em momentos diferentes, com governos diferentes, mas com um denominador comum – o Estado saiu a perder. O primeiro reporta-se à venda de seis barragens da EDP, “que afinal não foi uma venda em sentido jurídico estrito, e assim quem comprou sem comprar acabou por poupar a módica quantia de 110 milhões de euros em imposto de selo” Tudo “devido a uma alteração ao Estatuto dos Benefícios Fiscais no Orçamento de 2020”, que o Governo nega ter feito para beneficiar a luso-chinesa EDP. O outro negócio deste “eldorado” refere-se à compra da Groundforce por Alfredo Casimiro. Foi resumido pelo ministro Pedro Nuno dos Santos no Parlamento de que Casimiro “não comprou empresa nenhuma, recebeu dinheiro para a ter”. Contou ainda que o maior acionista da empresa de assistência em terra recebeu 7,6 milhões entre 2012 e 2018, e que só depois disso é que pagou 3,7 milhões pela maioria do capital que adquiriu em 2012.

Palavras para quê?... Trata-se de uns “artistas” portugueses e usam a tal pasta medicinal…

Reverso da medalha: Enquanto isto, do lado de baixo da escala social, cresce a pobreza. Conforme conta Cristina Pereira, in Público, “Portugal voltou a ter cem mil famílias abrangidas pelo Rendimento Social de Inserção, algo que não se verificava há dois anos. Só um mês de confinamento empurrou quase três mil famílias para esta medida, destinada a quem vive na pobreza extrema”.

Será que depois da Páscoa podemos esperar por um desabrochar da vida, num desconfinamento pleno? É indubitável que tudo depende da conduta de cada um.

Aproveito a oportunidade para desejar ao Jornal fórum Covilhã as maiores felicidades na senda dum jornalismo de isenção, como é seu apanágio, num aceno de parabéns pelo seu décimo aniversário, ao serviço do Concelho da Covilhã, da Região Beirã e do País.


(In "Jornal fórum Covilhã", de 14-04-2021)

 

9 de abril de 2021

ANTAGONISMOS

 

Este tempo pandémico não nos permite fazer as atividades desejadas. A Direção do Núcleo da Liga dos Combatentes da Covilhã não refuta o arregaçar as mangas para ajudar os seus associados.

Com a Covid 19 faleceu o mais temido comando africano do Exército português. Marcelino da Mata morreu aos 81 anos. Foi através da falta de consensos sobre esta figura – a mais condecorada como oficial português, que se geraram controvérsias. Não teve honras militares. Marcelino da Mata terá vestido a pele de vilão sanguinário, e, paradoxalmente, de herói destemido. Este comando negro, que combateu ao serviço do Exército português, por todos foi reconhecida a sua bravura na guerra colonial. Mas há quem não lhe perdoe os “crimes de guerra” que dizem ter cometido, mas pelos quais nunca foi acusado.

Personalidade que jamais gerará consenso em Portugal e na Guiné-Bissau, pois os atos de bravura militar que alguns consideram de heroísmo serão sempre vistos nestes dois países de forma diversa, segundo opina o historiador guineense Julião Soares Sousa. Já para Sofia Palma Rodrigues, do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, doutoranda em Pós-Colonialismos e Cidadania Global, “O colonialismo foi algo hediondo e Marcelino da Mata é fruto disso; e os comandos são fruto de um regime que massacrou pessoas durante mais de 500 anos”.

Não se pode olhar para a história de África dessa altura com os olhos de hoje. O serviço militar era obrigatório. Marcelino da Mata era português. Não havia escola: ou se ia para a tropa ou se entrava na ilegalidade. Na altura todos os guineenses estavam sob o domínio português e os movimentos de libertação eram apresentados como terroristas. A população era pobre e iletrada sob o Estado colonial.

Marcelino da Mata estava em Portugal quando foi a independência da Guiné-Bissau, mas os que não deixaram a África “ficaram do lado errado da história”, tendo sido abandonados pelo Estado português. Muitos deles foram mortos pelos novos dirigentes dos países independentes. Os negros nativos à altura eram tão portugueses como os outros militares.

Julião Soares de Sousa, que tem uma das áreas de especialização – O “Colonialismo, Anticolonialismo e a Identidade Nacional”, recorda “o homem com uma coragem inaudita e transcendental, que protagonizou com o seu grupo de Comandos, a mais de 2000 operações militares, alguma delas arriscadas e de grande complexidade.

O Presidente da Liga dos Combatentes, general Joaquim Chito Rodrigues, recorda em Marcelino da Mata, “feitos da maior coragem, bravura e lealdade à bandeira de Portugal, que jurou servir”.

Já o coronel Raul Folques, um dos oficiais vivos do Exército mais condecorado, que eu conheci em 1968 em Tavira, no CISMI, como capitão (era ele o comandante das Companhias de Instrução e Formação), esteve com Marcelino da Mata numa operação militar levada a cabo pelo Batalhão de Comandos da Guiné, em 1973, refere: “naturalmente considero este português como o mais excelente e extraordinário combatente das nossas campanhas na guerra que mantivemos durante cerca de 14 anos, de 1961 a 1975, inigualável em determinação, persistência no esforço, firmeza de ânimo, audácia e coragem”.

Também Vasco Lourenço, militar da revolução dos cravos e que preside à Associação 25 de Abril concorda que Marcelino “foi um grande combatente, corajoso, extraordinário e destemido, mas que cometeu crimes de guerra, e torná-lo um herói é ofender todos os antigos combatentes que combateram dentro das regras. Na guerra nem tudo se justifica”.

O Tenente-Coronel Marcelino da Mata foi tema no programa “Circulatura do Quadrado”, da TVI24, e, das várias opiniões, Ana Catarina Mendes, líder parlamentar do PS, considerou que “temos de olhar para o passado e não negar nada do que aconteceu. É muito difícil achar que matar ou degolar transforma pessoas em heróis. Nenhum de nós consegue olhar para a Guerra Colonial e não dizer a tragédia, a desgraça que foi, não só quando ela aconteceu, mas com todas as sequelas que deixou em milhares de portugueses que combateram”.

Do outro lado da barricada esteve o ativista antirracismo Mamadou BA, dirigente da associação    SOS Racismo, com comentários depreciativos sobre o falecido militar condecorado Marcelino da Mata, proferindo declarações caluniosas na rede social Twitter. De imediato, um movimento de quase quinze mil pessoas, exigiram a deportação daquele ativista. Nestes contraditórios se geraram polémicas entre as duas partes, em acesas fogueiras de ódio.

E, tudo isto, proveniente das guerras coloniais, donde surgiram imensos problemas que alguns antigos Combatentes ainda continuam a sentir e sem uma justa reparação do Estado português.

Para terminar, renovo os sentidos pêsames, ao Presidente da Direção do Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes e Diretor deste periódico, João Cruz Azevedo, pelo falecimento da sua esposa, D. Maria Manuela Azevedo, ocorrido no dia 11 de fevereiro. Era sócia extraordinária deste Núcleo. Que Deus a tenha no eterno descanso. Para o amigo João Azevedo, um grande abraço.


(In "O Combatente da Estrela", nº. 122, de abril de 2021)

CONTE-NOS A SUA HISTÓRIA - MANUEL VAZ RODRIGUES

 Covilhanense de gema, radicado há muitos anos em Lisboa, ele é, atualmente, de há vários anos, o Presidente da Direção da Casa da Covilhã em Lisboa.

Não foi com facilidade que conseguimos obter a sua colaboração para este número, já que os seus dois netinhos (problema de muita gente) o têm ocupado, por força da sua filha e genro, médicos, com frequência se encontram impossibilitados de se ocupar totalmente dos filhos.

Figura amante do desporto, que ainda hoje pratica, esteve e continua ligado ao associativismo. Nasceu na freguesia de São Martinho e não esquece o Oriental, nem o Sporting da Covilhã que chegou a vestir a sua camisola nas camadas jovens. Sou uma das testemunhas da sua grande força em prol dos interesses do Concelho da Covilhã, em Lisboa, pronto para colaborar. Várias ações culturais se desenvolveram já na Casa da Covilhã, em Lisboa, não esquecendo a réplica da Feira de S. Miguel, que a pandemia veio interromper.

Se considerarmos que quem foi obrigatoriamente mobilizado para Timor foi bafejado pela sorte, temos que considerar que só o facto de se estar longe da família, em terras tão distantes, é já um problema, mas, neste caso, a sorte esteve do lado de Manuel Vaz.

Corria o ano de 1970 quando o mancebo Manuel entrou pela primeira vez numa unidade militar, por obrigação, neste caso o Batalhão de Caçadores 6, em Castelo Branco, onde fez a recruta e depois seguiu para as terras do Lis, onde tirou a especialidade de escriturário, no RAL 4. Daqui foi colocado em Abrantes, onde descreve a sua vida até ser mobilizado:

REESCREVER A HISTÓRIA OU COMPREENDÊ-LA

Como qualquer cidadão aprendi a História de Portugal nos livros oficiais do nosso ensino. Ainda na escola primária, no livro de história, recordo uma foto de Mouzinho de Albuquerque prendendo Gungunhana. A foto revelava a força do militar português contra a impotência do rei da Gaza que liderava a luta contra o colonizador português. Com o tempo, compreendi melhor o significado daquela foto…

Hoje, como naquela época, continuo a considerar Mouzinho de Albuquerque um grande militar português e convivo muito bem com o facto de Gungunhana ser um herói, um símbolo da luta pela independência para os moçambicanos.

Estávamos em julho de 1970. Cumpria o serviço militar em Abrantes (RI 8). Era uma quinta-feira. Recebo a informação verbal: “Foste mobilizado, vais para Timor”. Naquela época, mais cedo ou mais tarde todos aguardavam uma notícia daquelas. Bom, pensei, é melhor do que ir para a Guiné, onde, pelo que se sabe, a guerra estava bem “acesa”. No dia seguinte, segunda-feira, eu e um companheiro covilhanense, mobilizado para a Guiné, viajámos para a Covilhã para passar o fim de semana. Marcámos o retorno à Unidade para o domingo à noite, mas o meu amigo não apareceu… Alguns dias depois, recebi a informação de que ele tinha telefonado. Estava em França. Tenho para mim que, ao contrário de algumas respeitáveis opiniões, o ato de renúncia à guerra do Ultramar era, acima de tudo, um ato de muita coragem!... A 14 de fevereiro de 1971, meio ano após a mobilização embarquei no navio Timor que zarpou do cais de Alcântara. Em Timor comemorei 22 anos em pleno oceano Índico. A chegada ao Porto de Dili foi a 1 de abril, após 46 dias de viagem.

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O militar covilhanense, Manuel Vaz, por lá passou todo o tempo, no Quartel-General, cumprindo a sua missão, regressando à Covilhã em 10 de maio de 1973.

(In "O Combatente da Estrela", N.º 122, de abril de 2021)


17 de março de 2021

NO TEMPO EM QUE HAVIA TEMPO

 

Longe vão os tempos que nem se sonhava vir a existir a era digital. A minha geração jamais sentiu os efeitos nefastos da vivência da pandemia. Sempre existiram as gripes sazonais. Que o chazinho e o quentinho muitas vezes as debelavam. Se de maleitas se tratassem. Outras doenças desconhecidas, mas graves, os antigos chamavam-lhes as doenças ruins. A Ciência, teve, no entanto, na sua caminhada, os passos cada vez mais apressados e longos.  Foi-se posicionando contra os males do planeta. Só que a voracidade do surto desta terrível doença, numa distribuição geográfica fortemente alargada e simultânea, não teve nem tem ainda, em muitíssimos casos, a colaboração da população para a extinguir. Que parece brincar com o fogo.

O trabalho, fosse fabril, comercial ou de serviços, tinha a presença das pessoas. Era personalizado. Hoje, é feito à distância. Parecemos uns robots. As doenças do foro psíquico parecem agora aflorar mais. O teletrabalho, muito persistente, se ajuda a distanciarmo-nos da doença, também vem provocar outras. O social deixa de existir. A presença física é também muito importante.

Neste contexto, começam a avolumar-se formas abusivas de olhar com mais intensidade para o mundo do dinheiro. O que significa, na sua generalidade, no direcionamento dos trabalhadores para o indesejável.

Recentemente, uma Seguradora que se havia engrandecido, com uma forte notoriedade, jamais alguma vez vista no País, sob a égide do antigo administrador, considerada vários anos como o melhor local para se trabalhar, novos ventos obrigaram agora todos os seus Colaboradores “de forma definitiva, a trabalhar a partir de qualquer lugar, seguindo um modelo de trabalho remoto”. A notícia tem corrido a maioria da comunicação social.  Se o êxodo dos melhores quadros da empresa se fez há muito sentir, quer por imposição quer voluntariamente, os efeitos desta decisão fizeram sobressair o medo e a revolta. Já nem uma voz existe.

Se dantes emergiram os Call Centers, agora são estes novos meios digitais, onde a informação pelas suas redes são a forma de contactar as pessoas. Que se vêm defraudadas. Sem respostas atempadas. Os períodos longos de teletrabalho são nocivos para a psique da maioria dos trabalhadores. Acrescido de dificuldades quando os colaboradores das empresas têm crianças em casa.

No tempo em que havia tempo, até se escreviam cartas de amor. Na década de cinquenta, vivia-se sem telemóveis, televisão (que só chegaria em 1957), semáforos, viadutos, metro, centros comerciais, pontes sobre o Tejo, micro-ondas, escadas rolantes, computadores, filmes sem cortes, a Gulbenkian, o Centro Cultural de Belém, e um sem número de comodidades. Mas havia outras distrações para esses tempos, que mais não fossem os bailes associativos, entre outras coisas.

Quem não viveu nessa época ignora que dar beijos glutões entre namorados era caso de polícia, por atentado ao pudor e à moralidade pública… Se nem os cumprimentos ao feminino eram de beijinhos, quem diria que agora até dum outro normal nos cumprimentamos à cotovelada ou a soco…

E quem gosta do desporto-rei, como ainda não existia televisão, todos os jogos se disputavam à mesma hora. E não existindo, igualmente, rádios portáteis, mal acabava um jogo corria-se para diante dos placards informativos, na avidez de conhecer os resultados dos outros. Na Covilhã, situavam-se à porta do Turismo, então sedeado no Pelourinho. Ou na Tabacaria Sky Neve, do Matos Pombo, onde se encontrava o Leal dos jornais, antes do quiosque, na entrada do edifício do Solneve.

Outros tempos, outras vontades. Hoje, temos um mundo de facilidades, mas, quando o telefone da rede continua enguiçado e nova tentativa para o aparelho se esbarra numa voz clara e sem apelo: “Neste momento não é possível aceder ao número que marcou. Tente mais tarde”, então lembro-me dos tempos em que se vivia sem telemóvel e sabíamos esperar. Grande novidade tinha sido a automatização da rede telefónica, passávamos a marcar os números em vez de pedir a uma telefonista a bondade da ligação. Eram outros os ritmos.

 (In "Notícias da Covilhã", de 18 de março de 2021)