19 de abril de 2023

PENHORADAMENTE

 

Mário Zambujal escreveu o livro “Já não se escrevem cartas de amor”. Sim, não só estas como outras, de outrora.

No tempo do correio, que nos trazia a avidez das notícias, num bom serviço, paradoxalmente ao que passou a ser prestado pelos CTT dos tempos que correm (penso que já começou a ser refletido), uma das principais tarefas, para além das encomendas postais, era a entrega das cartas, mormente nos tempos da guerra do Ultramar.

Depois veio o 25 de Abril, que, dentro de dez dias, irá comemorar o seu 49ª aniversário. O maior número de cartas passou então a ser as dos emigrantes. E também as respeitantes aos pedidos de emprego, com o envio dos currículos.

Havia, e alguns ainda vão existindo, os bilhetes-postais, com destaque para os postais de “Boas Festas”, que caíram a pique em desuso, de há poucos anos a esta parte.

A iliteracia também teve cada vez mais os seus dias negros, felizmente, e as novas tecnologias foram o forte contributo para a alteração do panorama que existia.

Este baluarte tecnológico é imparável, e em minutos ou segundos faz-se o que levaria dias, meses ou anos para se conseguir. Neste âmbito, se por um lado é um grande avanço da ciência, por outro a nova revolução através do algoritmo baseado na inteligência artificial – Chat GPT – conduz a que se criem situações deveras complicadas em termos da autenticidade do que se escreve, se não será fruto desse copianço/plágio com base num clique, ou do estado baseado em estudos e pesquisas sérias, em que se perde muito tempo.

Mas, tendo por base o título desta crónica, reportada aos tempos em que muitos comiam o pão que o diabo amassou, alguns jovens, e não só, que não pretendiam emigrar, muito menos “ir de assalto”, escreviam em desespero, pedindo emprego numa instituição pública, dirigindo essas missivas diretamente ao presidente do Conselho, António Oliveira Salazar; aos presidentes da República da ditadura, dita Estado Novo:  general Francisco Craveiro Lopes e almirante Américo Thomaz; e algumas até dirigidas às primeiras-damas, como D. Berta Craveiro Lopes, ou D. Gertrudes Thomaz. Os respetivos ministérios encaminhavam-nas para os Governos Civis e estes para as Câmaras Municipais. Alguns lá se conseguiam encaixar nas Repartições de Finanças. Pedidos dirigidos a Marcello Caetano ou à esposa, D. Teresa Elisa Teixeira de Barros, que viria a falecer em 1971, não se deu conta.

Havia a preocupação do respeitinho no teor das mesmas, e, então, às vezes bastava uma letra para mudar tudo. Ou nem sequer uma letra. Penhorado, num certo sentido da palavra quer dizer grato. “Agradeço penhoradamente a atenção de vossa excelência”, escrevia-se no remate das cartas de antanho. Estas penhoras foram passando de moda. Agora, as mais usuais, são as que o fisco determina para encher o cofre dos impostos.

Era muito em voga nos anos de aperto, as casas de penhores e o seu negócio de agiotagem. Penso que já terão perdido de moda, não tenho a certeza. Mas os mais aflitos iam diretos aos anúncios de “ouro, prata ou joias” e entregavam em definitivo o que lhes restava dos ancestrais.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 15-04-2023)


14 de abril de 2023

OS “CAÍDOS” DO BANCO




 

Memórias da minha vida profissional por terras do distrito da Guarda são muitas. Amizades geradas foram mais. Algumas ainda perduram. Nostalgia por aqueles que já partiram.

Mais de sete décadas e meia ainda a caminhar neste planeta, enquanto Deus o permitir, prometi recordar algumas facetas daquelas amizades dos anos de 70 e 80 do século passado, se o semanário “A Guarda” assim anuir, a fim de satisfazer a vontade de alguns interessados.

São pedaços de algumas páginas contextualizadas dos meus livros “O DOCUMENTO ANTIGO – Uma Outra Forma de Ver os Seguros”, que se encontra em todas as Bibliotecas Municipais do Distrito, ou da última obra: “DA MONTANHA AO VALE – As Viagens de um Grupo de Tertulianos”.

No famigerado tempo do PREC regressava a casa, já altas horas da noite, após uma longa viagem comercial por terras do distrito, quando o Lelo, do Banco Borges & Irmão, da Covilhã, foi alvejado pela GNR por ter desobedecido às ordens de parar, na E.N. 18, à Senhora do Carmo (Teixoso). Ficou paralítico. Faleceu há anos.

Era o regresso dos nossos militares destacados no Ultramar. Até retomarem as suas anteriores atividades profissionais, ou conseguirem um novo emprego, convidei alguns amigos a acompanhar-me nas minhas viagens comerciais.

Caria, Casteleiro, Santo Estêvão e Sabugal. Com uma paragem em Vila Boa para visitarmos o empresário amigo Arménio Gonçalves, depressa chegámos ao Souto para almoçarmos. No Zé Nabeiro vai de pedirmos a canja de cornos. A empresa Refrigerantes Cristalina, Lda, dos irmãos Oliveira, ainda existia nesse tempo. Aí trabalhei no escritório no ano 1972, oriundo de funcionário da edilidade covilhanense, e aí vivi um ano. No mesmo âmbito aí permaneciam os conterrâneos Humberto Cruz e Teresa Dias. Foi a vivência num contraste entre a aldeia e a cidade. Fez-me recordar “A Cidade e as Serras”, de Eça de Queirós. 

Já no Sabugal, na empresa de camionagem Vª. Monteiro & Irmão, Lda, uma paragem comercial obrigatória, bem acolhidos pelo Sr. Alcino Monteiro, então sócio-gerente da empresa, onde não faltava a simpatia dos amigos Raul Cunha e Luís Rasteiro, seus excelentes colaboradores.

Passagem breve pela oficina auto de António José Natário, no Sabugal.

Agora, no Banco Português do Atlântico, no Sabugal, cabia a vez ao subgerente, covilhanense João Manuel Petrucci, que tinha uma casa para residir por conta do Banco, na Rua das Tílias.

Entra um cliente no Banco e pergunta a um funcionário, em voz alta: “Ó Sr. Zé, já lá estão os caídos?”

- “Sim, já lá estão os caídos”.

Esperámos que o cliente saísse; na despedida, perguntámos ao subgerente: “Ó Petrucci, o que é isso dos caídos”?

Responde-nos, sorridente: “É o crédito dos juros na conta dele...”

E, assim, ficamos a saber o que eram os caídos, e sorrimos a caminho da Covilhã.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “A Guarda”, de 13-04-2023)

5 de abril de 2023

GENTILICAMENTE FALANDO

De passagem pelos diários online todas as manhãs, o tempo remanescente vai preencher os compromissos, em termos de prazos solicitados, com as publicações nos periódicos que me dão a honra de reservar um espaço para os meus textos.

Sim, é uma honra ter um espaço próprio, o que me leva a fazer algum esforço para que, no desenvolvimento cognitivo, a memória deixe de me pregar partidas com a sua indolência. De facto, é já a oxidação impregnada pelos anos da nossa vivência neste planeta.

Não se pode agradar a gregos e a troianos, mas o pluralismo de opiniões deve ser respeitado. Já me têm perguntado onde vou encontrar assuntos para tantas crónicas diferentes, dispersas por várias publicações, respondendo-lhes que se deve à organização que cada um imprime à sua maneira de trabalhar, e da observação que se faz do interesse do Leitor, ele, que se reveste na personalidade mais importante de uma publicação.

Os responsáveis pela minha veia da escrita foram, em primeiro lugar, meu Pai, então na antiga Biblioteca Municipal da Covilhã, ao Jardim; e, depois, professores de excelência que tive, in illo tempore dos anos 50 e 60 do século XX, no “Português”, que me marcaram, como foi o Dr. Manuel de Castro Martins, que dá o nome a uma das ruas desta Cidade. Também não posso esquecer que, no “Francês”, foi sua esposa, Drª. Edite Castro Martins, a minha melhor professora, para, no “Inglês”, se evidenciarem os dotes de ensino da Drª. Maria Leitoa Cerdeira.

Vários pequenos pormenores destes Mestres do Ensino ficaram assinalados na minha memória para sempre, o que me levou, por algumas vezes, no seguimento da vertente de várias facetas, a publicá-los ao longo de quase 60 anos de escrita.

É segunda-feira e sento-me para escrever a minha crónica para entregar até sexta-feira, já que acabei de enviar a que me pediram, para o quinzenário algarvio sair no dia 1 de abril.

Comecei manhã cedo, entre uns raios de sol que sorridentemente entravam pelo meu escritório, sobrepondo-se à palmeira do quintal.

Os pássaros ainda não se veem e já os teclados do computador são silenciosos em contraste com as antigas máquinas de escrever, que utilizava para os primeiros textos das décadas de 60 a 90 do século passado.

Está um tempo convidativo para uns passeios pelos encantos deste nosso País, onde a gastronomia marca pontos. Neste contexto, não me apraz escrever sobre as crises atuais, às quais já dei algum desenvolvimento em números anteriores. Escrevo, antes, sobre um tema mais prosaico – os gentílicos.

E isto vem a propósito de há uns anos, num almoço proveniente de uma confraternização em Fátima em que nos encontramos na mesma mesa com um casal desconhecido, fomos perguntando a proveniência de cada um, tendo esse casal dito que era calipolense. Alguns não sabiam que o calipolense é o natural de Vila Viçosa.

Já Bagão Félix se referia num seu artigo de 2017, in Público, que “Os substantivos gentílicos (se adjetivos igualmente conhecidos por adjetivos pátrios) são as palavras que designam uma pessoa de acordo com o seu local de nascimento ou de residência. Se observarmos a maioria dos gentílicos, verificamos que nem seguem um padrão escrito para as suas terminações, antes variam de uma maneira tão alargada que torna a coisa complicada, mas divertida. Alguns são até independentes dos nomes com que estão relacionados. Por exemplo, carioca do Rio de Janeiro (se cidade) e fluminense (se Estado), gaúcho do Rio Grande do Sul”.

Do meu tempo de escola já se conheciam os nomes gentílicos: flaviense (Chaves), escalabitano (Santarém), albicastrense (Castelo Branco), egitaniense (da Guarda ou de Idanha-a-Velha), nabantino (de Tomar, também chamados tomarenses). Existe ainda o coliponense, relativo á cidade de Leiria, com o sinónimo geral leiriense. Já salaciano é o natural ou habitante de Alcácer do Sal. O cubense (mas não cubano, nem cubista) de Cuba no Alentejo. Lacobrigense ou lacobricense é o natural de Lagos; o senense, de Seia; o amarantino, de Amarante, assim como o barranquenho é o natural Barrancos.

Gosto também do sistema duplo de alguns gentílicos menos conhecidos: em Cartaxo, cartaxeiro ou cartaxense; em Minde, minderico; em Penaguião, penaguiense e penaguiota; no Pico, picuense e picaroto.

Esta é uma pequena amostra gentílica, pois muito mais haveria a dizer, por exemplo no que concerne a cidades estrangeiras.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 05-04-2023)

 

 

3 de abril de 2023

OS JORNAIS NOS MEANDROS DO TEMPO



Longe vão os tempos em que alguns jornais – os grandes jornais – eram quase como que uns pequenos “lençóis” em papel que, de certo modo, dificultavam a leitura de cada página na sua íntegra, fosse numa biblioteca municipal ou numa coletividade, ou em casa para os poucos que os adquiriam; ou, então, numa viagem de comboio ou de avião, em que havia necessidade de encolher os braços a fim de não incomodar o parceiro de viagem, para já não referir nos bancos do jardim, que, para voltar uma página, com um pouco mais de aragem, era o enrolar delas. Mas, nas décadas de 40 a 60 do século XX, no final da leitura do jornal, das gordas ou daquele título mais apelativo, por vezes mais sensacionalista que realista, em vez de terem o destino do lixo, ou servirem para embrulhar os sapatos que levaram meias-solas, ou as castanhas assadas em seu tempo, ainda eram muito úteis para acautelar peças em vidro. A venda do papel usado tinha preços míseros pelo que hoje se traduz nalgum aproveitamento para instituições de solidariedade social. Já as crianças se divertiam a fazer aviões ou barquinhos de papel de jornal, para além das cartolas, enfim, entretenimentos de outros tempos que já lá vão.

No entanto, não deixava de ser um deleite ver também as fotos de figuras importantes, entre a leitura daquelas enormes páginas, repletas de fotografias meio desnudadas para a época, como acontecia nos jornais O Século e o Diário Popular e as beldades na revista Flama. 

Hoje, tudo se modificou, se bem que na maioria dos casos para melhor, mas ainda existem jornais, mais pela via dos semanários, em que se nota a fragilidade da escassez de leitores, obrigando alguns deles a reduzir páginas, a desvalorizar a qualidade do papel, numa contribuição para o afastamento dos leitores, e seguindo, alguns, na tentativa de renascerem das cinzas, a via do jornal gratuito.  Isto leva a que as bancas se desinteressem da sua distribuição, colocando-os quase escondidos, e as autarquias a suportarem esses encargos, para que o nome da terra não deixe de encabeçar o jornal, entrando, quantas vezes, em desnecessárias polémicas de concorrência desleal.

A qualidade dum jornal vê-se também pelo elevado número dos seus colaboradores permanentes com os seus artigos de opinião, o que acontece com o Jornal Olhanense, e o Jornal Fórum Covilhã, só para dar dois exemplos de um quinzenário e dum semanário do sul e do centro-norte do país, respetivamente. Mas há mais.

Qual terá sido o primeiro jornal da história? Não era de papel. Nem estava nas bancas...porque não as havia. O precursor do que viria a ser um jornal foi o romano Acta Diurna (“Atos Diários”, em latim). Lançado em 59 a. C. Era esculpido em pedra ou metal, dependendo da época, e ficava exposto em locais públicos, como o Fórum de Roma. Apresentava desde avisos oficiais do império, como decretos do imperador, decisões do Senado e de magistrados, até eventos da sociedade: nascimentos, casamentos e óbitos de cidadãos notáveis. Foi criado por ordem de Júlio César (100 a. C – 44 a. C.). Ele era guardado para fins de pesquisa e também tinha cópias enviadas para partes distantes do Império Romano, de modo que os governadores ficassem a par de novas leis.

E o primeiro jornal português? Nasceu um ano depois de Portugal recuperar a independência, a 1 de dezembro de 1640. A Gazeta da Restauração foi acarinhada por D. João IV e seus apoiantes que viram neste periódico “um excelente instrumento de propaganda” de legitimação do novo poder e uma forma de denegrir os efeitos dos espanhóis.

O primeiro número da “Gazeta em Que Se Relatam as Novas Que houve Nesta e Que vieram de Várias Partes” – que haveria de ficar conhecida como Gazeta da Restauração – foi publicada em novembro de 1641 e posto a circular a 3 de dezembro do mesmo ano. Tinha 12 páginas.

A Gazeta de Lisboa foi o principal periódico de informação política portuguesa entre 1715 e 1820, tendo algumas caraterísticas de um jornal oficial. Funcionou como uma arma de propaganda durante as guerras com Castela após a aclamação de D. João IV. Mas só se começou a publicar em 1715, durante o reinado de D. João V, sendo considerado o primeiro jornal oficial português.

Mas já aqui começou a haver censura. Por ordem do Ministro Sebastião José de Carvalho e Melo, futuro Marquês de Pombal, o jornal esteve suspenso de junho de 1762 a agosto de 1778, embora não se sabendo a causa imediata e concreta desta suspensão, todos os estudiosos na matéria invocam o desagrado do ministro com alguns artigos menos favoráveis à sua governação. O facto é que o jornal não voltou a publicar-se durante o reinado de D. José. Dois meses depois de ter sido suspensa, a Gazeta da Restauração, voltou a ser impressa..., mas com novas orientações editoriais e novo cabeçalho. Foi assim que nasceu a “Gazeta Primeira do Mês de Outubro de Novas Fora do Reino”.

No início do reinado de D. Maria I, no dia 4 de agosto de 1778, a “Gazeta de Lisboa” reapareceu, conservando este título até 30 de dezembro de 1820.

Ao longo dos tempos, até aos dias de hoje, muitas alterações houve nos jornais, e no âmbito da atividade jornalística. A modernidade com as novas tecnologias a isso se deveu. O mundo não para de girar.

Surgiram os diários digitais, sendo que o designado Diário Digital – o primeiro jornal online português fechou após 17 anos. Ao fim de quase 18 anos a dar notícias, o jornal Diário Digital encerrou numa sexta-feira, 30 de dezembro de 2016. Foi o primeiro jornal de cobertura nacional totalmente online em Portugal, chegando a ter cerca de 80 pessoas na redação.

Depois todos os jornais em papel tiveram também a sua versão online, surgindo assinaturas para o conjunto das duas versões ou só para cada uma delas.

Entretanto, apareceram os jornais gratuitos, mormente nos grandes meios populacionais. Crê-se que o primeiro jornal diário gratuito do mundo seja o Contra Costa Times, fundado em 1947 na Califórnia, EUA. A história da imprensa de distribuição gratuita que obedece às regras do jornalismo é bastante mais recente. Na Europa, o primeiro foi o sueco Metro, fundado em 1995.

Em Portugal, o Destak, fundado em 2004, foi o primeiro diário gratuito português, tendo sido distribuído em 8 cidades. O seu grande rival foi o Metro. Em setembro de 2007 foi lançado o Global Notícias, extinto em 2010, tal como o Meia Hora. Na vertente económica, surgia o gratuito OJE. Entre outros, que tiveram um prematuro fim, na Covilhã havia surgido o Diário XXI e o mensário Já Agora.

A primeira vez que vi jornais gratuitos, colocados na via pública, foi no ano de 2006, em Praga ou Viena de Áustria, já não me recordo. Por cá, em Lisboa ou no Porto, era usual isso verificar-se. Hoje estão a perder de moda, penso que não têm a aceitação dum jornal a ser adquirido nas bancas, ou por assinatura, onde não são impostas tantas restrições ou seleção de colaboradores, o que leva muita a gente a olhá-los de soslaio.

Para terminar, já que tenho abusado do espaço do jornal, fruto do entusiasmo que à escrita devoto, lembro aos prezados Leitores, interessados nesta curiosidade, algumas das várias alterações de formato dos jornais em papel (na generalidade ainda não havia jornais online), e da configuração dos títulos dos mesmos. Para uns deixou saudades, para outros nem tanto.

Consultados alguns primeiros e últimos números de edições jornalísticas, aqui vão alguns exemplos:

- DIÁRIOS EXTINTOS: - “A Capital” e “O Comércio do Porto” , o último número, de cada um, reporta-se a 30-07-2005, e tinham o formato 40 x 29; “O Independente”, o último número é de 01-09-2006, com o mesmo formato dos anteriores;

- DIÁRIOS QUE ALTERARAM O FORMATO: - “Expresso”, o último de grande formato (57 x 35) foi, em 02-09-2006, substituído o formato para 49 x 29, na edição seguinte: 09-09-2006; “Diário de Notícias”, se em 15-04-1974 e 03-05-1974 mantinham o grande formato (58 x 39), já em 20-02-2006, no seu número 50.000, tinha o formato reduzido para 40 x 38; o “Jornal de Notícias”, em 17-01-1998 o seu formato era 57 x 38, passando em 18-01-1998 para 45 x 28. Nos desportivos, o Jornal “A Bola” sempre contrastou em formato com o seu congénere “Record”. Enquanto que “A Bola” no dia 09-01-1995 possuía as dimensões de 56 x 38, já na edição de 10-02-1995, passou a optar pelo formato 40 x 27. O Jornal “Record” manteve quase sempre a mesma linha de formato, entre 43 x 28 (17-11-1951). O Jornal mais antigo do País – “Aurora do Lima”, na data do aniversário dos seus 150 anos, em 15-12-2005, possuía o formato 43 x 29. Os jornais “O Sol” e o “Público” têm-se mantido no formato entre 40 x 27. A extinta revista “Flama” , muito lida, variava entre os formatos 32 x 23 e 30 x 21.

E por hoje é tudo, Caros Leitores. Não percam os hábitos de boas leituras.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “O Olhanense”, de 01-04-2023)

 

 

22 de março de 2023

CADA MITRA SUA SENTENÇA


 

Há sempre casos que levam o seu encaminhamento para o enfado, tal a menção dos mesmos factos, às resmas, numa repetição irritante, tanto nos jornais diários, como nas notícias televisivas: dias, semanas e meses seguidos; em suma, na comunicação social, integralmente, onde as fotos ou imagens filmadas têm predominância.

Ainda existem muitos profissionais desta área que não sabem, não querem, ou não os deixam encontrar o antídoto para debelar aquele espaço fastidioso que afasta as pessoas da leitura de um jornal, ou na rejeição de levar para segundo plano um noticiário televisivo. Dou, como exemplo, as dezenas e dezenas de vezes que já vi a mesma imagem filmada da Alexandra Reis, na RTP, a tomar posse de Secretária de Estado do Tesouro (que já não é), a propósito da já mais que conhecida polémica sobre o recebimento dos 500 mil euros, que, penso, vai devolver ao Estado, ou se viu constrangida a tal conduta. E também da ex-CEO e presidente da TAP, Christine Ourmières-Widener. Que é isto?! Em vez da irritabilidade que causam aquelas imagens, nas inúmeras aparições (este um dos muitos exemplos de outros casos), é o sintoma de quem não tem mais nada para preencher no espaço de um telejornal, pelo que não seria preferível seguir o caminho da criatividade para encontrar outras imagens não similares, ou então evitar as constantes repetições?

Não posso negar as honrosas exceções, onde o jornalismo é assumido na autenticidade dos factos, indo de encontro à linguagem do povo, preferencialmente pela via do papel, ou numa entrevista apelativa, com aquelas figuras bem conhecidas do pequeno  écrã que nos atraem pelo respeito que nos transmitem a honestidade das suas intervenções,  num canal televisivo  não sensacionalista, e não na vertente de um intelectualismo que não abarca todos. Obviamente que há que respeitar o pluralismo opinativo.

Agora são também as muitas vezes que se fala nos mesmos números sobre as vítimas do caso dos abusos sexuais ocorridos na Igreja: a validação pela Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica: “512 dos 564 testemunhos recebidos, apontando, por extrapolação, para um número mínimo de vítimas da ordem das 4815”. Quantas vezes se fala nisto?

O tão badalado caso das vítimas dos abusos sexuais na Igreja, que há muito deveria merecer dos bispos portugueses a melhor atenção; mesmo antes do relatório da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), é outro dos casos que prolifera nas mentes dos portugueses, não só os católicos, como mesmo na dos ateístas ou agnósticos; vistos na vertente de um mau serviço dos representantes da Igreja. As desculpas de cada bispo são nalguns casos aberrantes. A tentativa de encobrir os abusadores foi notória em vários bispos, que deveriam estar na linha da exemplaridade da Igreja Católica, Apostólica, Romana. Só depois do alarido da Comunicação Social, não só a falada como a escrita, os senhores da mitra como que se envergonharam (alguns pediram desculpa, desculpas esfarrapadas) e lá foram tentando deitar um “remendo em pano velho”.

A recente transmissão da RTP1 da série do romance de Eça de Queirós – “O Crime do Padre Amaro”, terá vindo a contribuir para esta teia de desconforto entre os católicos que mais confiam na sua Igreja.

E, assim, só agora se começam a ver os afastamentos de padres suspeitos (o que deveria ter sido feito há muito mais tempo), uma conduta tardia que leva à responsabilidade da hierarquia católica portuguesa (é neste caso que me interessa falar) do afastamento dos católicos das igrejas, quando a sua redução já era evidente há tempos.

A conclusão extraída das várias informações recolhidas de tudo o que lemos e ouvimos é desoladora. Quando os católicos esperavam confiar na hierarquia dos representantes da sua Igreja, que também é a minha como católico, acabam por assistir à deceção dos elementos da extinta Comissão Independente para o Estudo dos Abusos de Menores na Igreja –, e não só, que recolheu testemunhos de vítimas e apurou que pelo menos 4815 menores terão sido alvo de abusos nos últimos 70 anos, já amplamente referido. Estava à espera de uma resposta “muito mais clara”, face aos dados apurados, no âmbito da entrevista dada, a título pessoal, por Daniel Sampaio, psiquiatra e membro daquela extinta Comissão.

Segundo a antiga governante, Alexandra Leitão, “A Igreja entendeu que não se deve responsabilizar pela reparação dos danos causados às vítimas”. “A Igreja Católica que decidiu não afastar as pessoas que estão indicadas na lista, entende que não se deve responsabilizar pela reparação dos danos. Há aqui uma situação de encobrimentos. Podia ser um movimento de viragem da Igreja, não foi, não só não deu dois passos em frente, como deu dois passos atrás, acho que revitimizou aquelas vítimas”.

José Mendes, no DN, num seu artigo de opinião, diz: “Basta, senhores Bispos! Não há outra forma de o dizer! A Conferência Episcopal Portuguesa e o Bispo José Ornelas devem estar a brincar com os portugueses. A conferência de imprensa de sexta-feira sobre os abusos sexuais sobre menores ficará na História como um  dos pontos mais baixos, miseráveis mesmo, da Igreja em Portugal. A cúpula religiosa continua convencida de que, mais uma vez, o tempo funcionará como a esponja que absorve e apaga os seus pecados, como tantas vezes aconteceu no passado. Só que estes não são já os tempos da Inquisição. Agora, a informação flui e a indignação não se abafa facilmente no perdão beato e gratuito”.

Segundo Daniel Sampaio, “A Igreja não se colocou do lado das vítimas. Foi assim uma conferência de imprensa dececionante. Esperava uma resposta “muito mais clara” da Igreja, como já cima foi referido. E lamentou que padres suspeitos não sejam afastados preventivamente.

Já Marcelo Rebelo de Sousa, como presidente da República afirmou que a Conferência Episcopal Portuguesa “ficou aquém ao não assumir a responsabilidade” e também por “não tomar medidas preventivas”.

O colunista do Público, João Miguel Tavares, num excelente artigo –”Um desenho sobre a pedofilia para os bispos portugueses” – , na parte final do mesmo diz que “As coisas mudaram? Mudaram. O espaço da Igreja é hoje mais seguro do que há 50 anos. Mas mudaram por causa da sociedade. Não mudaram por causa da Igreja, onde o discurso eclesial continua poluído pelo clericalismo, pela falta de empatia e, com boa probabilidade, pelas dores de consciência de alguns bispos ainda no ativo que também ocultaram e silenciaram, e a quem hoje falta a coragem para fazer o que se impõe: entregar o anel episcopal e renunciar ao cargo. Este é o maior escândalo da Igreja desde a Inquisição.

No meio do baralhado em que o bispo José Ornelas, presidente da Conferência Episcopal Portuguesa  se encontrou, acabou por, mais tarde, afirmar: “Não fui feliz”, fazendo mea culpa. José Ornelas mostrou incómodo perante os abusos, mas nenhuma empatia com as vítimas. Pediu perdão, mas não se comprometeu com reparação.

A poucos meses da anunciada e muito atribulada Jornada Mundial da Juventude, a prosápia e o conluio da hierarquia da Igreja, esforça-se por tentar diminuir e desvalorizar a gravidade dos testemunhos, substituindo a responsabilidade e a reparação dos danos das vítimas pelo perdão gratuito e deixando os lobos no meio do rebanho.

Consta que há uma guerra pelo barrete de cardeal. O relatório final da comissão independente que investigou abusos sexuais a menores na Igreja dividiu a Conferência Episcopal. Mas esta guerra entre os bispos, segundo o Tal & Qual, esconde uma outra – a da sucessão de D. Manuel Clemente como cardeal-patriarca de Lisboa.

Quatro bispos foram os primeiros a erguer a voz, próximo da doutrina do Papa, contra a aparente condescendência com a Conferência Episcopal, e o seu presidente, D. José Ornelas, receberam o relatório final da comissão que investigou o abuso de menores da Igreja. Assim, tudo poderá contar na hora do Papa escolher o novo bispo de Lisboa e a quem historicamente também é devido o barrete cardinalício. Entre os 25 bispos portugueses – desde diocesanos e auxiliares, mais o do Ordinariato castrense – D. Nuno de Almeida, D. Francisco Coelho e D. Armando Domingues, deram um passo de gigante no reconhecimento por parte da Santa Sé. Mas já um quarto bispo, auxiliar de Lisboa e responsável pela Jornada Mundial da Juventude, juntou-se aos três na linha de partida para a corrida ao patriarcado. Será? A ver vamos.

 

 

João de Jesus Nunes

                                                                                                                                jjnuns6200@gmail.com

 

(in “Jornal Fórum Covilhã”, de 22-03-2023)

 

18 de março de 2023

CONTE-NOS A SUA HISTÓRIA JOÃO SALVADO – COVILHÃ

 







Inserimos neste número uma figura sobejamente conhecida da Cidade, que, apesar dos seus 85 anos, na sua humildade mantém uma disposição de espírito vigorosa na simpatia com que a todos trata. Deixa cair uma ponta do véu da felicidade que vive pelo orgulho que sente das vidas profissionais dos seus três filhos.

Por duas vezes foi chamado para cumprir o serviço militar obrigatório, sendo que a segunda vez se destinou à mobilização para a Guiné logo no início da Guerra do Ultramar.

Natural da freguesia de Santa Maria Maior, da Covilhã, nasceu em 19 de abril de 1937. Começou a trabalhar aos 13 anos como aprendiz numa serralharia. Volvido um ano passou a exercer outra atividade, como aprendiz de marceneiro, até ser chamado para o serviço militar, tendo assentado praça em 14 de abril de 1958, no Grupo de Artilharia Costa Antiaérea (GACA), onde fez a recruta; e a especialidade na Escola Prática de Engenharia, em Tancos, como radiotelegrafista. Veio a tomar parte nas manobras anuais em Santa Margarida, no ano de 1959. Como ainda não tinha surgido a guerra colonial, passou à disponibilidade em 11 de agosto de 1960, regressando assim à Covilhã.

Matriculou-se então na Escola Industrial e Comercial Campos Melo, no Curso de Eletromecânico noturno, porquanto durante o dia trabalhava. Viria então a interromper o Curso em 1961 porque voltava a ser chamado para o serviço militar, com destino à sua mobilização para a Guiné. Só o concluiria em 1968, após ter regressado do Ultramar, em 1963.

Assim, voltou novamente a ser chamado para cumprir o serviço militar em 22 de junho de 1961 até 21 de novembro de 1963, apresentando-se em Torres Novas, novamente no GACA 2. Passado algum tempo, foi para Évora a Companhia que o integrou, seguindo posteriormente para o quartel de Faro. Depois transitaram para Lisboa, para o Adidas, onde receberam todo o material para embarque. Volvidas 24 horas seguiram para o aeroporto a fim tomarem o avião com destino à Guiné, em 30 de julho de 1961, fazendo parte da Bateria, tipo Companhia de Caçadores 2401, tendo feito escala na Ilha do Sal, em Cabo Verde, e depois desembarcado em Bissau, no mesmo dia.

Chegada a Companhia à Guiné não havia aquartelamento pelo que estiveram durante 15 dias ocupando as instalações do Liceu de Bissau, ficando o quartel instalado no Quartel-General, também em Bissau. Daqui partiu, durante seis meses, para uma grande praia em pleno Oceano Atlântico – a Praia de Varela. Tinha um grande casino onde se juntavam na altura os ricos: da Guiné Portuguesa (depois Guiné-Bissau), Senegal e Guiné-Conacri.

A sua missão era a exploração rádio, com deslocações a várias localidades, pelo meio do mato, com o rádio às costas, sendo Acra a última localidade. Felizmente não teve qualquer agitação de maior importância durante a sua comissão (mas havia noutras zonas, onde ouviam os tiros, geralmente à noite). Teve a sorte de não ver mortes, não existindo quaisquer baixas em combate na sua Companhia, excetuando algumas derivadas de acidentes. Diz-nos que viveu ali um tempo de tranquilidade, era o sossego para descansar. De tal forma que dava para andarem dois jipes a percorrer toda a província, destinando-se um ao padre e outro ao médico.

E assim embarcou de Bissau num navio, no dia 15 de outubro de 1963, com destino a Lisboa, voltando a fazer escala na Ilha do Sal, desembarcando na capital em 22 de outubro de 1963.

E diz-nos que o mais importante que trouxe da Guiné foi obter lá a carta de condução civil.

Chegado à Covilhã, concluiu o Curso de Eletromecânico na Escola Industrial, que se vira forçado a interromper, passando depois a desenvolver várias atividades, como encarregado numa fábrica de lanifícios – a Laneira, e depois em Aldeia do Carvalho. Chegou ainda a ser convidado pelo Dr. Duarte Simões para mestre de serralharia, onde ainda exerceu, na Escola Industrial Campos Melo. No entanto, surgindo-lhe oportunidades para técnico de máquinas de escritório, passou a exercer esta atividade, na Olivetti, e depois como empresário, até à sua aposentação.

 

(In “O Combatente da Estrela”, n.º 130 – ABR 2023)

 

SE BEM ME LEMBRO II


A caminho do equinócio da primavera, a ocorrer às 21 h e 24 m do dia 20 de março, segundo consta no Borda d’Água, ocorreu-me plagiar o título do programa semanal na RTP, entre 1969 e 1975, do prof. Vitorino Nemésio. Durante cerca de meia hora, em horário nobre, os portugueses, encantados, deixavam o prof. abrir-lhes as fronteiras da cultura e do conhecimento.

Dou o título “SE BEM ME LEMBRO II”, porquanto, em 24 de janeiro de 2008, no Notícias da Covilhã, foi publicada uma minha crónica, também com este título, da qual respigo, por envolver o final do meu serviço militar obrigatório, o que segue:

“Em 1971 já eu estava farto de tropa obrigatória e chegava o finalmente. O adeus ao Regimento de Infantaria da Guarda. Num sopro de alegria, vai de fintar a hierarquia militar. Um segredo aos três colaboradores diretos, para marcar o meu último serviço na unidade militar: os dois Soldados, da Guarda, e o 1.º Cabo, de Lamego, saíram para a rua, em pontos estratégicos, com as botas engraxadas e os distintivos do fardamento a brilhar. Nos locais combinados (O Caçador, Cine-Teatro e Café do Bonfim), o meu ordenança, do Tortosendo, ficava surpreso quando lhe pedia para anotar os números mecanográficos dos ditos cujos: ‘O que é que vai fazer aos gajos?’. Sem saber do que se passava, só ficou dissipado das suas interrogações quando saiu a ordem de serviço: ‘Foram louvados os soldados fulano e sicrano, e o 1º cabo beltrano, por terem sido abordados pela ronda desta Unidade, devidamente ataviados, numa apresentação que se evidenciavam dos demais militares desta Unidade, sendo um exemplo a seguir’. No final, dos três militares, um ‘Felicidade meu Furriel’”.

Na minha vida profissional, aquando duma reunião de dois dias em Coimbra, nos primórdios após a Revolução do 25 de Abril, encontrava-me no hotel, à noite, quando deparo com uma pequena revista deixada no quarto, onde surgia em forma interrogatória, sugerindo concordância, e com muita esperança, o surgimento duma moeda única europeia – o ECU. Pensei cá para os meus botões: “Devem andar malucos”. O que é certo e verdade é que, na evolução dos tempos, esta unidade monetária europeia, criada em 13 de março de 1979, correspondente à média ponderada de 12 moedas da então Comunidade Europeia, utilizada inicialmente apenas em transações comerciais e financeiras, foi substituída pelo EURO em 1 de janeiro de 1999. Foram sete as moedas da Europa que foram aposentadas por causa do euro (Marco alemão, Franco francês, Florim Neerlandês, Dracma Grega, Lira italiana, Peseta espanhola e o Escudo português). Bom, muito haveria a falar, se até já existem as criptomoedas, ou seja, qualquer forma de moeda que existe digital ou virtualmente e usa a criptografia para a realização de transações. Fundada em 2009, o Bitcoin foi a primeira criptomoeda e continua a ser a mais negociada.

E agora é o ChatGPT, um programa informático acessível a toda a gente, e com a apetência dos jovens pelo mundo das tecnologias onde já há muitos milhões por esse mundo fora a utilizá-lo. Desenvolvido por uma empresa do multimilionário Elon Musk, o ChatGPT é o último de uma série de programas informáticos, com capacidade para dar respostas claras e bem informadas a todo o tipo de perguntas. Não é um simples motor de busca. O programa tem acesso aos milhões de textos publicados na Internet e consegue elaborar textos que respondem a todo o género de questões.

Mas não vou alongar-me mais no mundo evolutivo, onde a tecnologia e a inteligência artificial se impõem.

Portugal é um pequeno país com uma população equivalente à de muitas cidades do mundo. No entanto, é sempre difícil atrair pessoas para fora dos grandes centros urbanos. E quando se fala no interior, então é de coçar a cabeça. Ao longo da história sempre se destacou o êxodo rural à procura de uma vida melhor, sobretudo a partir da década de 50. “Se outrora Portugal era um país essencialmente agrícola, hoje é uma nação de serviços”, conforme refere Rosália Amorim, in Público. “Os baixos rendimentos, mas também a fraca saúde e educação, fizeram com que muitos se deslocassem para as urbes. E nada mudou durante o século XXI”. E “A dureza dos números da desertificação prova que às autarquias não basta construírem gimnodesportivos, repuxos e rotundas. O interior ainda não deu o salto qualitativo que o torne realmente atrativo e que lhe dê a capacidade de segurar os mais jovens, talentosos e letrados. Mais empregos, melhor saúde e educação, precisam-se.”

Entretanto, na Covilhã podemos contar com uma das melhores universidades do país e do mundo – a Universidade da Beira Interior (UBI) e uma excelente unidade hospitalar – o Centro Hospitalar Universitário Cova da Beira (CHUCB).

Por último, há que salientar a apresentação do livro “Macau –  Um homem dois olhares – Razões de uma Descolonização exemplar”, pelo seu autor, o Presidente da Liga dos Combatentes, Tenente-General Chito Rodrigues, ocorrido no dia 13 de janeiro na Biblioteca Municipal de Castelo Branco. Refira-se que o TG Joaquim Chito Rodrigues é albicastrense e antigo aluno do Liceu Nacional Nuno Álvares, onde foi colega do poeta António Salvado, que fez algumas considerações sobre o livro. Dos semanários albicastrenses “Reconquista” (R) e “Gazeta do Interior” (GI) extraio alguns registos: “Militar que ajudou a abrir caminho a uma descolonização exemplar. Macau – Chito Rodrigues desempenhou funções no território entre 1975 e 1978 e diz que é o exemplo ‘da forma portuguesa de estar no mundo’. Em Macau, Joaquim Chito Rodrigues, o militar natural de Castelo Branco, então à beira dos 40 anos, chegou ao território cerca de um mês depois de Portugal reconhecer o governo da República Popular da China. Desempenhou aqui as funções de chefe do Estado-Maior do Comando do Chefe, comandante das Forças de Segurança, mas também Governador de Macau em exercício. Em 1999, vinte e três anos depois de a bandeira portuguesa ter sido arriada, Chito Rodrigues olha para Macau  como um exemplo ‘da forma portuguesa de estar no mundo’. ” (R). A carreira do general Chito Rodrigues é de originalidade única. Foi o melhor aluno da Academia Militar. A sua carreira foi também marcada por vários teatros de guerra nos territórios portugueses. Mas, a personalidade do General Chito Rodrigues reveste-se ainda mais de variadas facetas, pois foi diplomata, enquanto adido militar em várias embaixadas, doutorou-se numa universidade brasileira, foi articulista de ideias, bem como escritor, e preside à Liga dos Combatentes; foi poeta, tendo um livro publicado; e também é campeão olímpico de esgrima. Muito próximo do general Rocha Vieira, o general Chito Rodrigues assistiu a todas as peripécias que envolveram ao ato de entrega do território de Macau” (GI).

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Combatente da Estrela”, nº. 130 ABR/2023)

 

16 de março de 2023

VÍCIOS E RISCOS DO CÉREBRO HUMANO


Na arrumação que periodicamente faço aos arquivos acumulados de folhas soltas selecionadas, algumas já a amarelecer pelo tempo, apontamentos registados para que a memória não me atraiçoe, páginas de jornais ou revistas que vou retirando a algumas publicações após a sua leitura, não evito uma acumulação de assuntos de interesse que me incomoda deitar fora, mas que não posso abarcar nos espaços já exíguos da minha biblioteca, onde também o meu escritório se encontra sobreposto de livros aqui e acolá, na brandura de poder chegar ao fim da leitura de duas obras na simultaneidade.

De permeio não posso deixar de evitar os hiatos necessários para a colaboração nos excelentes periódicos que há muito me dão a honra de ter um espaço próprio para o vício da escrita.

E foi assim que, já com um saco repleto de papel do que da minha parte remanesce, me vejo forçado, contra a minha vontade, a ver partir memórias de vários tempos (para além do que já foi lido, de todos os jornais que assino, sem contar os digitais) com destino ao Banco Alimentar Contra a Fome, recolha destinada a ajudar Instituições de Caridade. Foi então que encontrei umas páginas interessantes, de autoria do Médico Neurocirurgião, Raimundo Fernandes.

Transcrevo parte do seu interessante texto, ao qual vou entremeando com vivências do meu tempo, contadas por quem viveu ainda no século transato.

“O cérebro humano é uma fábrica de produtos químicos que aceita, transforma e controla tudo. Quase tudo... E até chega a transformar lícitos em ilícitos. Trazemos os exemplos do álcool e do chocolate.

Dois amigos, ainda jovens, conversavam animadamente numa sala de espera de um serviço de sangue no Centro do país. Manhã invernosa, em pleno janeiro dos anos 60, com um frio de rachar na rua, mas confortável naquela sala meia despida e sem grande movimento. Florentino, com um ar descontraído, corpulento e de mãos sapudas, abria-se num sorriso fácil enquanto falava. Foi retirado da escola bem cedo, não chegando a fazer a 3ª classe. Sendo o mais velho de uma família de sete, com quatro cachopas e três rapazes, foi chamado em tenra idade ao trabalho do campo, atrás de um arado puxado por uma mula que pachorrentamente abria o coração da terra da sementeira.

Para dar força comia, quando havia, sopas de cavalo cansado. Por volta dos 15 anos ficou maltês, porque segundo dizia, o salário do velho não dava para tanta boca. A independência no trabalho e no ganho era uma imensa responsabilidade, acrescida da vigilância que tinha de fazer aos namoros das irmãs, todas elas iletradas como se usava na altura. Este adulto jovem, agora com 25 anos, envelhecido na côdea da terra ribatejana, tirou um dia de trabalho para dar sangue, em prol de um conterrâneo, vítima de acidente com uma máquina.

O Florentino, quando chamado pela médica de bata branca, foi questionado: - “Diga-me que doenças já teve. Os remédios que está a tomar. Se já foi operado. E a razão por que quer dar sangue”. Respondeu sem grandes pressas, enquanto a médica escrevinhava numa folha.

- Então e tabaco e bebidas?

- Senhora Doutora, tabaco nunca fumei, agora vinho bebo como toda a gente da minha terra. De preferência às refeições, mas às vezes ao fim de semana a jogar à malha, ou às cartas, sempre vão uns copos sem acompanhamento...

- De que quantidades é que estamos a falar?

- Bom não é uma coisa certa, mas talvez aí uns dois litros...

- (Surpresa) ... Por semana?

- (Riso aberto) ... Senhora doutora o trabalho é pesado e só um litro está incluído no contrato. Por dia. Estamos acostumados, mas realmente bebe-se bem...

A jovem clínica, que nunca tinha emborcado um copo, não acrescentou mais linhas aos antecedentes pessoais e mandou deitar o jovem na marquesa para dar início à colheita”.

Na Alemanha, durante a festa da cerveja, qualquer alemão médio bebe 10 litros de cerveja num fim-de-semana. Por cá, sem regras, e, por vezes sem decoro, também acontece cada vez mais em jovens, com cérebros imaturos. Rapazes e raparigas. Sem distinção. Até cair...

A regra básica para contornar o decréscimo do declínio cognitivo, no pressuposto de evitar o risco máximo de insanidade mental ou mesmo da própria vida é a aquisição do conhecimento adequado, a preparação para os eventos e a prudência necessária.

O inglês Thomas Quincey, escritor do século XIX, experimentou o Láudano para uma dor de dentes, ficou viciado para o resto da vida e escreveu um livro sobre a sua dependência. O ópio fez a diferença. Escritores como Eça de Queirós e Garcia Márquez, conscientes dos efeitos do Láudano, imortalizaram a mistura em sórdidas conjeturas de mortes por envenenamento em “Os Maias” e “Cem anos de solidão”.

“Quanto ao chocolate, pessoas vulneráveis podem ter mudanças bruscas de humor, depois de comerem chocolate com alto teor de cacau, sobretudo na presença de inibidores da MAO, por exemplo o fumo do tabaco e antidepressivos. Cada pessoa tem um nível de excitação inicial, determinado por fatores genéticos, pela fisiologia, situação de doença, fatores ambientais ou historial de drogas. Comer chocolate é bom, dá habituação, mas é gratificante. Contudo, pode acontecer, sobretudo nos homens, grave excitação e irritabilidade, talvez relacionado com os estrogénios nele contidos. Mas.... Chocolate preto é mesmo bom... Em doses moderadas.”

Vem agora a minha contextualização, de passagens da vida real de quem permaneceu neste mundo dos vivos, nas décadas de 50 e 60 do século XX.

É sobejamente conhecida a estória daquele envinagrado, na altura em que aquelas que são agora as instalações da Universidade da Beira Interior (UBI) percorria o passeio cambaleando, sem contar com o arco que, no final do passeio teria de se sair para o continuar após a sua saída, arco esse granítico. Ao ir de encontro à parede do mesmo, tal a sua alcoolémia, volta para trás, altamente irritado, apregoando aos quatro ventos que o arco do quartel (na altura o Batalhão de Caçadores 2 (BC2), extinto) estava fechado...

Ou daquela senhora que, condoída com o estado de embriaguez dum homem, todo enrolado num dos bancos do Jardim Municipal, sussurrava para os transeuntes: “Que miséria esta!”. A resposta não tardou do homem mesmo no estado em que se encontrava: “Miséria, não, minha senhora! Fartura! Fartura!...

Sobre os homens, e, mormente, as mulheres iletradas naqueles famigerados tempos salazaristas, de milhares de operários e operárias fabris da então denominada Manchester Portuguesa, era confrangedor verificar a indiferença em aprender a ler ou escrever, que o contar lá ia indo com os trocos atados a um lenço, em substituição dum porta-moedas, só confrontados com grande dificuldade quando era para pagar a décima, já que o que produziam numas pequenas leiras por vezes remediavam para colmatar o que faltava na mísera féria semanal.

Meu Pai, entre os anos da década de 50 e 60 foi o primeiro a reger um Curso de Educação de Adultos na Cadeia Comarcã da Covilhã, sendo muitas vezes necessário ir a casa das famílias dos presos a fim de obter documento de identificação, geralmente a Cédula Pessoal, já que ainda não era obrigatório o Bilhete de Identidade. Uma vez que o acompanhei, ainda petiz, à localidade da Borralheira, freguesia de Cantar Galo e Vila do Carvalho, recebemos a resposta da esposa do preso: “Mas para que é que ele quer fazer o exame da 3ª e 4ª classe? Para ser professor?...”. Palavras para quê? Era a morbidez cultural daqueles tempos.

Por último, o que reputo de mais interessante, passado com o médico ginecologista covilhanense, antigo Deputado da Nação e Presidente da Edilidade Covilhanense, grande amigo dos pobres, José Ranito Baltazar.

Naqueles tempos da “outra senhora”, ao qual foi um grande devoto, José Ranito Baltazar, por quem os Covilhanenses sempre tiveram muita consideração, era de uma conduta temperamental em que umas vezes se irritava; outras vezes, de um comportamento muito afável, mormente quando ao serviço da sua atividade profissional de médico ou então da autarquia covilhanense, como presidente. Quando maldisposto, diziam que estava “à Ranito”; mas quando de boa disposição, atribuíam-lhe o estado de estar “à Baltazar”. Acontece que certo dia um seu trabalhador agrícola, iletrado, foi ao seu consultório pedindo-lhe uma requisição para uma carrada de estrume para uma das propriedades agrícolas. E, entretanto, aproveitou para lhe pedir medicação para umas dores que o homem vinha tendo há já algum tempo. O médico, interrompido pela sua empregada, voltou depois a atender o seu empregado, jornaleiro, e, na receita médica, esquecendo-se da medicação, receitou: “Uma carrada de estrume suficiente para os terrenos”. O iletrado jornaleiro, vai de imediato à Farmácia Pedroso, com o sentido de lhe fornecerem a medicação quando deparam com o lapso, numa situação hilariante. E, por hoje, como dizia a minha avó: bonda!

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Jornal O Olhanense”, de 15-03-2023)

 

 

 

 

 

 

8 de março de 2023

ENVELHECER NÃO SIGNIFICA ESQUECER

 

Este é o título que a médica neurologista, Isabel Santana, inclui na revista Olhares, um registo muito oportuno que me chamou à atenção, eu que me debato com esse problema de me surgirem muitas partidas de falha da memória, essencialmente quando mais da mesma necessito, ou seja, para o desenvolvimento de um texto, ou mesmo no discernimento de uma conversação, já que várias vezes a omissão da palavra que está debaixo da língua teima em não sair. Mas, com esforço, e uma dose de tranquilidade, as memórias ofuscadas acabam por voltar à tona da água.

A caminho de sete décadas e mais sete anos de peregrinar neste planeta, recordo-me que há precisamente sete anos (a minha tendência para o número sete, talvez induzido pela resposta de Cristo aos Apóstolos de que deviam perdoar não sete vezes mas setenta vezes sete), numa consulta a uma neurologista, no âmbito das formulações da consulta, veio a propósito o meu envolvimento na publicação de mais um livro, de grande conteúdo (perto de 900 páginas), para além de manter colaboração assídua em quatro jornais. A resposta foi perentória: “Escrever artigos moderadamente, sim! Quanto a esse livro que está a escrever, esqueça!”. Bom, aceitei parte da prescrição mas a obra em curso acabou por sair, não um “ensaio” mas um autêntico “tratado sobre seguros”, aquela que foi a minha atividade de mais de quatro décadas, e ainda mantenho um grupo de amizades em redor da mesma. Depois deste livro (que se encontra em mais de centena e meia de bibliotecas e instituições deste país, Brasil e muitos particulares), mais dois se seguiram.

“Temos 800 mil milhões de neurónios, uns mais especializados que outros – é certo – e tudo o que somos, fazemos, pensamos, imaginamos e sentimos passa por ali. A informação circula a uma velocidade próxima dos 400 Km/hora e está sempre dependente da comunicação que existe entre os neurónios, as chamadas sinapses ou pontos de encontro de trocas químicas e elétricas. Quando a idade avança, este funcionamento começa a perder alguma eficácia, mas as modificações são subtis e não interferem com a vida do dia-a-dia”.

Evidentemente que respeito as orientações clínicas mas também compreendo que é muito difícil terminar com compromissos, ainda que voluntários, das atividades cognitivas.

É certo e verdade que o esquecimento nas pessoas mais idosas nem sempre é levado a sério, conforme refere Isabel Santana, admitindo alguns serem ingredientes de um processo normal de envelhecimento, o que considera errado, já que não é apenas o risco cardiovascular que importa. “O cansaço, a desmoralização, o sofrimento e a solidão, inevitavelmente irão acelerar o défice de saúde mental e física. A falha de memória deve ser um alerta, mas há outros sintomas a que devemos dar atenção: perder o entusiasmo por atividades que eram muito apreciadas; desorientação no tempo e eventualmente no espaço; arrumar objetos no lugar errado; perda de iniciativa; perda de capacidade de resolução de problemas básicos; perda de capacidade de raciocínio; alterações de humor, comportamento e personalidade; dificuldade na utilização de palavras (fala e/ou escrita); perda de memória”.

Sem o sentido de atemorizar quem ler esta crónica, deixo, no entanto, aqui este interessante alerta (que para mim também serve) da médica neurologista Isabel Santana, para as nossas capacidades cognitivas não ficarem comprometidas.

Infelizmente lê-se pouco no nosso país, e até os jornais começam a ficar preteridos. O meu melhor ambiente entre amigos é de quem gosta de cultura, e não de quem a despreza. Felizmente ainda conto com alguns bons grupos de amigos, entre as versões apontadas, onde não faltam os prazeres da comida portuguesa, e dos bons vinhos.

Quando faço uma visita à Biblioteca Municipal, lá encontro interessados pela leitura, mormente dos jornais.

E, aqui, um antigo leitor assíduo da biblioteca, que já vem da antiga Biblioteca Municipal, ao Jardim, e agora na nova Biblioteca Municipal, de seu nome Francisco Pereira de Sousa, continua numa perene ida à sala de leitura para a consulta de jornais e livros. É um prazer ver este Homem, de 85 anos, que desde os primórdios da antiga biblioteca, na década de 50 do século passado, até aos dias de hoje, se torna o mais antigo leitor da Biblioteca Municipal da Covilhã.

Recentemente encontrámo-nos e memorizou algumas páginas dum dos meus livros que lhe ofereci, ao mesmo tempo que recordou peripécias quando, menino e moço, visitava a antiga Biblioteca Municipal, ao qual não lhe facultavam todos os livros, face à mentalidade da época, em que os livros sobre amor eram tabu. Mas era o Almanaque ABCZINHO de que mais gostava, com aquelas figuras, como o boneco Narciso Pateta. Recordou o jornal do regime salazarista Diário da Manhã em que encimava “Tudo pela Nação, Nada contra a Nação”.

Convidou-me a ver a parte de trás do seu carro, onde havia livros em vários sítios, que ia lendo. Sem dúvida, um caso insofismável de amor à cultura.

Este Leitor de mais de setenta anos de leitura na Biblioteca Municipal merece ser objeto de reconhecimento municipal. Ou será que estou equivocado. Não! Não estou!

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 08-03-2023)

 


2 de março de 2023

SABER ZANGAR-SE

 

Pegando no título que Joel Neto insere no texto da sua obra “Banda Sonora para um Regresso a Casa”, serve-me de fio condutor para interpor algumas passagens em várias vertentes da vida, a fim de procurar compreender situações que sempre ocorrem em cada um de nós, quando a travagem na zanga por vezes não deixa de ser disfuncional. Eis que uns são mais tolerantes, outros menos agressivos, enquanto outros deitam para detrás das costas o desaguisado e engolem sapos vivos para não se zangarem com amigos, ou mesmo familiares.

Quem ainda não se zangou, de verdade? O negativo desta questão é o não deixarem de saber dizê-lo na cara umas das outras.

Certo e verdade é que já tinha escrito três longos parágrafos sobre casos envolvendo a zanga, em várias facetas da vida, ao longo de mais de sete décadas e meia que, felizmente, já vi passar, marcantes na juventude, na vida militar por obrigação, e mais recentemente com amigo, mas optei por deixar correr na penumbra para o esquecimento.

E isto, altura em que escrevo esta crónica, na véspera do 24 de fevereiro, em que se comemora um ano da invasão russa na Ucrânia, pelo que faz mais sentido direcionar o sentido da zanga contra o déspota Putin. O tirano faz recordar (porque estamos nas competições europeias de futebol) os nazis, em que também para eles o futebol era uma fonte de afirmação e acima de tudo uma questão de Estado. Um monumento na Ucrânia, lembra a equipa do Dínamos de Kiev, de 1942. Em plena ocupação alemã, eles cometeram a loucura de derrotar uma seleção de Hitler no estádio local. O aviso foi-lhes feito com antecedência: Se ganharem, morrem... Os jogadores do “Kiev” entraram em campo resignados a perder. Todavia, nem o medo nem a fome, os impediram de serem dignos – venceram. Quando terminou a partida, os onze briosos jogadores foram fuzilados vestidos com os seus equipamentos, no alto de um barranco.

Grande povo ucraniano, que, volvido tanto tempo, ainda mantém o seu amor patriótico, numa fortíssima zanga contra o malfeitor.

Enquanto isto, outras zangas singram por este nosso país à beira-mar plantado, mas pelos nossos governantes muito maltratado. Persistem as grandes zangas dos professores, e de outras classes sociais, com os de menores recursos a ver a esperança como palavra vã, numa zanga pelo esbanjamento dos dinheiros públicos.

E que dizer dos abusos sexuais cometidos por membros da Igreja? Ainda nos zangamos muito, é verdade. “Com a maior das facilidades nos zangamos contra inimigos abstratos, como o ‘Governo’, o ‘capitalismo selvagem’ ou mesmo apenas ‘a crise’. Com a maior das facilidades nos zangamos com aqueles que entendemos como nossos subordinados, no trabalho ou na vida em geral (afinal os nossos ‘superiores ‘acabam por pôr-nos a pata em cima, alguém vai ter de pagar a conta). Com aqueles que estão, de alguma forma, em ascendente sobre nós, já não nos zangamos, amuamos, que é a forma mais cobarde de nos zangarmos. Aos nossos iguais simplesmente não dizemos nada: engolimos e tornamos a engolir, convencendo-nos de que do outro lado está, afinal, um pobre diabo, tão pobre que nem merece uma zanga – e, quando enfim nos zangamos, é para dar-lhe um tiro na cabeça, como todos os dias nos mostram os jornais”.

“Não respondas”, aconselham-nos os sábios. Não dês troco. Não ligues. Não percas a cabeça. Tens de ser superior. E, inevitavelmente, viramos todos uns diplomatazinhos de esquina, sem capacidade para dar um grito e a seguir fazer as pazes. Tornamo-nos ainda mais hipócritas do que aquilo que a nossa contraditória condição já nos obrigava.

Eu prefiro um homem que parta a loiça a um choninhas que sublima tudo e, no final, ainda me passa a mão pelo pêlo. Quem não é capaz de zangar-se também não é capaz de uma gargalhada – e, se nos zangarmos com ele, o primeiro argumento racional que utiliza é: “Não sejas assim.” Mas que diabo é isso, “não sejas assim”? “Assim” capaz de ver uma relação pessoal deteriorar-se sem dar um murro na mesa para tentar salvá-la?

Só com frontalidade, coragem e zelo podem contar comigo.

 

João de jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 01-03-2023)

 

 

16 de fevereiro de 2023

A DESCARATERIZAÇÃO DO FUTEBOL

 




Ano de dois mil e vinte e três. O futebol, empolgante, ultrapassa os limites da sua génese. Não existem ainda evidências de como e onde o mesmo nasceu. Dos vários historiadores que descrevem, ou reclamam para os seus países a origem do futebol, ficam indubitavelmente muitas incertezas. Os jogos com bola, nas suas diversas modalidades, são conhecidos desde tempos remotos. Concluímos, no entanto, que o futebol, como atualmente se pratica, é um jogo inglês, tendo as suas longínquas origens dispersas pelos povos mais antigos do Mundo. Sendo assim certo que se considere como seu antepassado o jogo coletivo que utilizava uma bola redonda, disputado entre duas equipas. O seu objetivo principal forçosamente passa por cada equipa impulsionar a bola em sentido oposto. Entrar pelos meandros da sua génese não é fácil; e até aos dias de hoje, evoluiu em muitos sentidos.

Segundo o The Oficial History of the Football Association estabelece as datas entre 1863 e 1870 a génesis do futebol. No nosso país, enquanto os madeirenses advogam que o futebol foi, pela primeira vez, praticado em Portugal, na Camacha, no ano de 1875, já outra versão diz que foram os irmãos Pinto Basto, estudantes em Inglaterra, que dali o trouxeram, em 1886, conhecido sob a designação do jogo de “pé na bola”, sendo que o primeiro jogo teve lugar em Cascais, num domingo do mês de outubro de 1888.

Ao longo dos anos o futebol foi-se transformando numa das indústrias dos nossos tempos. E ele foi evoluindo cada vez mais O homem jamais teria jogado com uma bola antes de alcançar esse momento de um processo contínuo de adaptação.

Se repararmos nas modernas estruturas que gerem o futebol, verificamos que o envolvimento das pessoas no fenómeno, abrange todas as condições e estratos sociais, desde o abastado industrial ao humilde operário, onde, numa multidão que assiste a um jogo de futebol, impossibilita distinguir diferenças. É que muito rapidamente todos ficam iguais, unidos num só ideal: a vitória da sua equipa.

O Mundo chegou aos 8 mil milhões de pessoas no dia 15 de novembro de 2022, sendo certo que o futebol, como Desporto-Rei, é sobejamente conhecido por uma parte significativa desta população. Existem ídolos, integrantes deste enorme espetáculo que acabam por ser conhecidos por esse Mundo fora mais que o seu próprio país. Na visita, há alguns anos a Israel, alguns residentes tinham dificuldade de identificar Portugal. Numa das ruas, um velho judeu, e seus vizinhos, ao ver-nos passar em grupo perguntaram de onde éramos. Portugal! – Dissemos nós. Fizeram uma careta ou ficaram mudos, sinal de desconhecimento. Mas logo que um dos forasteiros exclamou: Ronaldo! num ápice foram os sorrisos, encontrada assim que foi a chave da resposta.

Desde longa data sou atento ao fenómeno desportivo, mormente no âmbito do futebol, com incidência mais profunda no clube do meu coração e também no da minha terra.  Como tantos de nós, a partir da geração de 40 do século XX pudemos sentir quanto amor tínhamos pelos nossos clubes. As camisolas não se apresentavam com frequentes cambiantes, como hoje. Não havia claques criadas, não havia infiltração de “hooligans”, as disputas entre adversários não atingiam os ódios de hoje entre coletividades; a corrupção não era tão patente. E hoje ao que assistimos?

A evidência do lucro! A ganância dos milhões aí está. Há que “vender” jogadores de alta qualidade. “Vender?!...”, desde criança que me fazia confusão esta palavra aplicada a humanos. Mais parece aplicada a escravos. Mas, benditos “escravos”, eles não se importam da designação, interessa sim o peso das algibeiras.

Passamos então ao cerne da questão: O futebol está hoje descaraterizado. Segundo Evandro Delgado, in “SapoDesporto”/Sport Informa, de 19 de outubro de 2018, “há hoje um problema no futebol português com a obrigatoriedade da criação das Sociedades Anónimas Desportivas (SAD), tudo tendo começado em 1997, quando o Governo, através do Decreto-Lei nº. 67/97, estabeleceu o Regime Jurídico dos Clubes das Sociedades Desportivas. Foi entretanto alvo de revisões e em 2013 o Decreto-Lei nº. 10/2013, de 25 de janeiro, estabeleceu o Novo Regime Jurídico das Sociedades Desportivas onde o Governo estipulava que, para poderem competir nos campeonatos profissionais de futebol da Primeira e Segunda Ligas, os clubes tinham de constituir uma sociedade desportiva, a partir da época 2013/2014. A maior parte dos emblemas optou pelas Sociedades Anónimas Desportivas (SADs) mas outros, de menos dimensão, formaram uma Sociedade Desportiva Unipessoal por Quotas (SDUQ) que, na maior parte das vezes, funciona como o departamento de futebol do clube. Quem opta por uma SDUQ consegue preservar a sua identidade, já que é titular do capital social do clube. A opção pela SAD é vista como uma forma de atrair investidores, que possam colocar capital no clube de forma a ajudá-lo a ser competitivo e a chegar a patamares superiores. O problema começa quando os resultados desportivos da equipa principal de futebol começam a escassear. Os sócios, sem voto na matéria,  na maioria dos casos, começam a ver o futebol, o principal impulsionador do clube, a tomar um rumo longe daquilo que imaginaram. Passam então a haver conflitos entre as direções dos clubes e as empresas e investidores individuais que dominam o futebol profissional. Depois, o vazio na legislação e a falta de supervisão sobre a origem do capital é um dos principais problemas, assim como a falta de punição para quem viola os contratos assinados. Os clubes em Portugal não estão preparados para terem SAD’s compradas por investidores estrangeiros. Se houver um incumprimento por parte do investidor, o clube originário, se quiser prosseguir, tem de começar de uma divisão distrital. Existem muitos problemas entre clubes e as respetivas SAD’s porque o que está na origem do diferendo está na lei de criação de SAD’s e na falta de um regime sancionatório para os incumpridores. Passou a haver um futebol a viver acima das suas possibilidades.”

Neste contexto, muitos clubes passaram por enormes dificuldades, com despromoções, caindo no ridículo, pois coletividades de prestígio que singraram pela I Liga de Futebol, hoje ou já não existem ou andam pelo Campeonato de Portugal ou Distritais de Futebol.

Esperemos que tudo de modifique para os verdadeiros tempos de glória de cada clube português, muitos deles centenários ou a caminho.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 15-02-2023)

 

 

15 de fevereiro de 2023

DISCORDAR OU UMA CONTRIBUIÇÃO PARA REVOLUCIONAR

 


Não podemos agradar a Deus e ao Diabo, o que pressupõe sempre a inviabilidade de nos apresentarmos com duas caras para a solução dum problema. Não é fácil afastar a tentação, por mais que exista honestidade e as boas intenções com que o cidadão seja revestido, se não houver uma força intrínseca que deite por terra todas as instigações do momento. O provérbio evidencia que “Quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é tolo ou não tem arte”. Sempre houve, e persistem, os que caminham pela ponte, numa velada atenção tendente a ver para qual dos lados devem saltar. Jamais pudemos assistir a um manancial de gente vestida de pele de cordeiro, mas com dentes afiados de lobo, quando surge a oportunidade do assalto, como nos tempos que correm. Obviamente que, felizmente, ainda existem os que querem perfilar-se honestamente no rol dos das boas intenções, com o mérito proveniente do seu talento. Mas... são mais as vezes os que ficam para a retaguarda favorecendo-se os que trouxeram empacotada a nobre cunha, ou então a anuência ao questionário para a integração partidária dum qualquer jotinha, tendo em vista a inserção num lugar de boy ou girl.

Em jovem pertenci a um movimento operário católico sob o lema “Ver, Julgar e Agir” mas também onde nos manifestávamos: “Nós não queremos a revolução, nós somos a própria revolução!”. Viviam-se então os tempos da ditadura salazarista e marcelista com o que se escrevia a passar pela Censura Prévia que, numa desejada primavera marcelista que não chegou a sê-lo, a transformou em Exame Prévio. Somente areia para os olhos.  Com a democracia institucionalizada pelo 25 de Abril de 1974 viemos a ter a liberdade plena e não coartada como dantes, mas hoje, com muitos abusos que nada deveriam ter a ver com a liberdade ganha, ficamos dececionados ao ver no seio das instituições, das autarquias, e dos governos, como da própria Igreja Católica, situações atentatórias da dignidade entre todos – ricos ou pobres. Os casos são sobejamente conhecidos entre governantes, bispos e padres a encobrirem-se e a mentirem contra o que o Mestre ensinou. Mas disto não vou falar.

No entanto não pude deixar de recordar tempos por que também passei, do medo e da repressão, em que o levantar a voz seria o suficiente para a condenação. Muito sobre isto está escrito nos meus livros e várias publicações. Neste contexto, quero agora vir a lume sobre um Homem, no reflexo da exemplaridade de outros que se encontram no manto do anonimato, que dá pelo nome de Padre José da Felicidade Alves. E isto quando a laicização da sociedade procurada pelos mais lídimos liberais e republicanos limitou a interferência da igreja católica na sociedade civil, mas reforçou a militância dos crentes. O Padre Felicidade (como era conhecido também nos meios antifascistas não católicos) foi um cidadão de enorme coragem, tendo sido uma das figuras centrais da oposição dos católicos à ditadura, sobretudo a partir de meados da década de 60. Nas suas homilias abordava temas incómodos ao regime do Estado Novo e às hierarquias eclesiásticas, tais como a guerra colonial, a perseguição política e problemas sociais. Envolveu-se militantemente nos combates contra a ditadura e a renovação da Igreja Católica, o que determinou a sua prisão e julgamento. Foi afastado das funções de pároco (o que atualmente não acontece com a conduta de alguns bispos em relação a alguns padres acusados de pedofilia, homossexualidade, e outras situações) pelo então cardeal-patriarca de Lisboa, Cardeal Cerejeira, e, mais tarde, tomou conhecimento da sua excomunhão.

Natural de Caldas da Rainha, nasceu em 1925, tendo sido ordenado sacerdote em 1948, destacando-se desde logo pela sua inteligência. Em 1956 foi nomeado pároco em Santa Maria de Belém, em Lisboa, onde se evidenciou pelo conteúdo das suas homilias. Foi no trabalho da paróquia que se foi dando conta de que o país real era muito diferente do que pensava e, a partir de 1967, as suas intervenções começaram a causar incómodo ao regime e à Igreja Católica.

Solidário com o grupo de católicos mais progressistas, o percurso de Felicidade Alves ficou definitivamente marcado após a comunicação que proferiu no Conselho Paroquial de Belém, em 19 de abril de 1968, na presença de muitas dezenas de pessoas.

Defendendo uma profunda renovação da Igreja e das suas estruturas, as ideias de Felicidade Alves desagradaram ao cardeal Cerejeira. Em consequência, foi-lhe movido um longo processo que determinou, em novembro de 1968, o afastamento das suas funções de pároco em Santa Maria de Belém, e, mais tarde, a suspensão das suas funções sacerdotais, terminando, em 1970, com a sua excomunhão.

Após o afastamento da paróquia de Belém, Felicidade Alves tornou-se o grande impulsionador, em conjunto com Nuno Teotónio Pereira e o padre Abílio Tavares Cardoso, da publicação dos Cadernos GEDOC, abordando criticamente questões ligadas à hierarquia católica e à guerra colonial. A publicação foi condenada pelo cardeal Cerejeira e considerada ilegal pela PIDE, sendo instaurado um processo aos seus responsáveis, de que resultará, em 19 de maio de 1970, a prisão de Felicidade Alves por “atividades contrárias à segurança do Estado”. Tendo sido julgado, foi absolvido.

À posição tomada perante a sua prisão, várias foram as pessoas que se apressaram a recolher assinaturas pela sua libertação, pelo país fora, e, na Covilhã, assinalam-se 24 assinaturas, entre as quais as do Prof. José Corceiro Mendes, Padre Fernando Brito dos Santos, Carlos Manuel Alçada Batista, Isilda Maria Monteiro Pinto Sousa Dória, Albino Boaventura Pereira, Dr. Manuel Antunes Ferreira, Jerónimo dos Santos, Augusto Lopes Teixeira, Engº. Luís Filipe Mesquita Nunes, Maria Humberta Pinto Roque, Maria da Ascensão Dias Rebelo, Engº. Alberto Alçada Rosa, José Geraldes Correia, e o Padre Dr. José Almeida Geraldes.

Em 10 de junho de 1994, Felicidade Alves foi agraciado com a Comenda da Ordem da Liberdade pelo então Presidente da República, Mário Soares. Veio a falecer no dia 14 de dezembro de 1998, com 73 anos.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 15-02-2023)