19 de outubro de 2023

PETAS DE ALGUNS DOS NOSSOS POLÍTICOS

 


Não penso no tempo que remanesce da minha vivência neste planeta, não obstante reconhecer já ter atingido, ou estar próximo, da média de duração da nossa existência.

Apesar de terem sido cumpridas as obrigações profissionais que abraçámos, com mais ou menos fulgor, jamais conseguimos parar de fazer algo mais (na generalidade dos casos), quer em atividades de solidariedade social ou no âmbito da cultura, quer mesmo nos pequenos trabalhos agrícolas, em espaços dos próprios ou de familiares e amigos. Quer ainda na religiosidade ou no associativismo. Há assim variadíssimas situações, num ambiente de gratidão à Vida.

Outra gratificante forma de continuidade dum desejável tempo longevo (que aberração esta da longevidade na Terra, em relação à Eternidade) é o que se dedica aos filhos e aos netos, que poderão ser os portadores do nosso espelho a sorrir pela Vida, para quem as oportunidades lhes surgiram.

Pois é, de manhã, ao acordar e olhar o dia que aí vem, chegamos ao ponto de ver que não há tempo para tudo o que tínhamos para fazer, e, como em generalíssimos casos, na vertente de quem já se encontra nas suas férias vitalícias, apesar da sua constatação, aceitamos mais isto e aquilo: um encontro, uma reunião, uma visita, uma videochamada. Acontece, por vezes, que, ao fim do dia, nem nos lembramos das caras com quem estivemos, não saboreámos os momentos bons ou refletimos sobre os pouco agradáveis.

Já corremos, ou ainda o fazemos, apressadamente atrás do sucesso, do trabalho, da carreira, do ter. Corremos, ainda, apressadamente para as redes sociais, para os likes, para os amigos virtuais, tornando-nos cúmplices, por vezes, duma vida cheia de nada, de tentação e perdição, que rouba o tempo.

Mas vamos aos assuntos em título, e comecemos pelos que envolvem casos mais prementes, como é o da habitação. Segundo Ana Sá Lopes, in Público, “Costa ficou entusiasmado por conseguir ‘melindrar’ o Presidente da República e foi inebriado pela sua ‘habilidade’ política que apareceu eufórico, deliciado, em ponto de rebuçado narcísico, dizendo o impensável: o Governo fartou-se de trabalhar para que os portugueses tenham habitação condigna. Afinal, os cidadãos que tentam alugar (ou comprar) uma casa nos maiores centros urbanos é que estão a ver mal   as coisas: o Governo desde 2015 não faz outra coisa do que resolver o problema da habitação, construir casas e mais umas coisas alienígenas”. O que é certo e verdade é que o problema da habitação persiste. António Costa informou que vêm aí 17 mil casas a caminho e não as 26 mil que prometeu. Segundo a aludida jornalista, sobre a habitação, Costa “prometeu o céu várias vezes desde 2015 e as pessoas (principalmente nos grandes centros urbanos) vivem no inferno”. Entretanto, o programa Mais Habitação tem várias medidas positivas. Vamos aguardar o que vai sair do OE que vai ser apresentado.

Saltamos agora para as eleições na Madeira, onde o presidente do PSD Madeira e do Governo Regional, Miguel Albuquerque, anunciou perentoriamente que se demita se não tivesse maioria absoluta. Aqui funcionou em pleno a patranha. Ganhou sem maioria absoluta, e, contrariamente ao que havia dito, não se demitiu e formou novo Governo madeirense, coligado com o PAN.

Voltamos uns anos atrás e temos aí Cavaco Silva, então como Presidente da República, a garantir que os portugueses podiam confiar no Banco Espírito Santo (BES), treze dias antes da queda deste mesmo Banco. Corria o ano de 2014. Pois é, Vitor Bento, que substituiu o líder histórico Ricardo Salgado, disse a 14 de julho desse ano, dia em que entrou em funções, que a prioridade no banco é reconquistar a confiança dos mercados e pôr fim à especulação. O Banco de Portugal já veio várias vezes a público garantir a solidez financeira do BES e o então Primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, tranquilizava também os depositantes do banco. O certo e verdade é que o banco caiu e Ricardo Salgado encontra-se ainda a contas com a justiça, para julgamento, o qual tem tentado esquivar-se por vários meios.

Encheria páginas deste quinzenário, ou de outra publicação, se fossemos mencionar muitos casos gritantes de petas políticas. Não quero, contudo, deixar de memorizar a célebre data de 2 de julho de 2013 respeitante à demissão “irrevogável” de Paulo Portas (PP) de ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros do Governo de Passos Coelho. Naquela patranhada que homens de palavra alguma vez tomariam, acabaria por se ver PP a dar uma machadada fatal no “irrevogável” da demissão.

Muito mais haveria para lembrar, mas não quero deixar de registar as contínuas petas do atual Governo perante a não eliminação das portagens na A23 e A25, com contínuos adiamentos, passando tão só por algumas reduções, deixando a Plataforma P’la Reposição das Scut na A 23 e A25 enraivecidas face ao incumprimento da palavra dada.

E por aqui ficamos. Até à próxima.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 15-10-2023)

 


11 de outubro de 2023

TODOS, TODOS, TODOS!

 

Começo por me referir ao editorial de Joaquim Chito Rodrigues, Tenente-general e Presidente da Liga dos Combatentes, na última revista “Combatente”, de que é o seu diretor, edição 404 de junho de 2023. No seu historial sobre as missões de paz em tempo de guerra, regista a data consagrada de 29 de maio do ano em curso, na homenagem “aos que ao serviço da ONU, da UE e da OTAN se sacrificaram e sacrificam para que a Paz no mundo procure ser uma realidade”. Três fatores se destacam neste contexto da sua intervenção: “Dia dos Combatentes das Forças Armadas e das Forças de Segurança, em forças nacionais destacadas, ao serviço da Paz. Ano em que celebramos o 75º. Aniversário da primeira Operação de Paz da ONU, em 1948, na guerra israelo-árabe e o 35º aniversário da atribuição do Prémio Nobel da Paz à ONU”.

A ONU, surgida após a segunda guerra mundial, tem hoje 128 países interessados nesta missão, cerca de 123.000 pessoas servindo nesta causa e um orçamento que ronda os sete mil milhões de dólares.

Também não podia deixar de me referir ao grandioso evento que se realizou em Portugal, de 1 a 6 de agosto – As Jornadas Mundiais da Juventude – com dois locais em destaque: Parque Eduardo VII (Missa de Abertura, Festa de Receção ao Papa Francisco e Via Sacra) e o Parque Tejo (Vigília e Missa de Envio), contando com 1,5 milhão de pessoas, jamais visto em Portugal, e irrepetível, segundo as palavras do Presidente de República, Marcelo Rebelo de Sousa.

Depois de muito do que se falou sobre os abusos sexuais no seio da Igreja, das controvérsias relativamente às opções da vivência entre pessoas do mesmo sexo, e outras que dispenso de enumerar, algumas francamente injustas, outras nem tanto, na minha opinião, surge o discurso do Papa Francisco, para aquela multidão de jovens, e não só, de todo o Mundo, numa intervenção perante 500 mil pessoas, afirmando com grande vigor que a Igreja tem lugar para “todos”, sem exceção. E pediu a cada jovem que seja o protagonista da sua vida.

Foi um discurso marcado por um grande improviso e desvios em relação ao texto que tinha sido preparado – e marcado por uma frase: “Igreja de todos, todos, todos!”. Voltou assim a defender uma Igreja de braços abertos.

O Papa Francisco apareceu rejuvenescido e revigorado pelo contágio de entusiasmo dos jovens que, juntamente com os seus pastores e educadores, chegaram a Portugal vindos de todas as partes do mundo.

Interessante a parte do jornal digital Vatican News que passo a reportar: “Num tempo em que todos comentam e ninguém escuta, numa época em que tantos procuram aparentar o que não são, não há mensagem mais atraente e revolucionária: Alguém nos ama assim como somos, perdoa-nos sempre, está ali à espera de braços abertos, vai à nossa frente disposto a nos cobrir de misericórdia. É a lógica nada humana e inteiramente divina que aprendemos com o episódio do Evangelho de Zaqueu, o pecador publicano mal visto por todos na cidade de Jericó que, curioso em relação ao profeta nazareno, sobe para um sicómoro e meio escondido entre as folhas o espera passar. Mas Jesus a olhar primeiro para ele, ama-o primeiro, se auto convida para ir a sua casa, independentemente dos comentários escandalizados dos presentes. Na Igreja há lugar para todos, assim como houve lugar para o publicano Zaqueu que teve o privilégio de receber o Nazareno na sua própria casa, à sua mesa.

Gosto de contar este episódio, pois já por duas vezes estive em Jericó.

Pegando neste tema, ocorre-me um assunto no seio dos Antigos Combatentes, que reputo de injusto e que já apresentei no Jornal “O Combatente da Estrela”, nº. 129, de dezembro de 2022, sob o título “Do Meu Ponto de Vista”. Refere-se à injustiça, na minha opinião, resultante da alteração inserida no Estatuto do Antigo Combatente em que deixaram de ser considerados nesta situação os militares que prestaram serviço fora da Guiné, Angola e Moçambique, salvo raras exceções.

Também, como o Papa Francisco, eu aqui exorto a que todos os que se consideram lesados insistam na reivindicação: “Todos, todos, todos!”.

João de Jesus Nunes

Jjnunes6200@gmail.com

(In “O Combatente da Estrela”, 132, OUT/2023)


CONTE-NOS A SUA HISTÓRIA ANTÓNIO JOSÉ SILVA

 






Trazemos hoje  estórias da história de um Antigo Combatente, Covilhanense, que, não sendo sua missão estar envolvido fisicamente em zonas de perigo iminente nos capins guineenses, teve ação preponderante nas ações que lhe foram atribuídas no segredo e alta responsabilidade da sua especialidade de Operador-Cripto, entre elas  criptografar e descriptografar mensagens por vias de técnicas de codificação para garantir manter a segurança das comunicações aos olhos dos adversários ou espiões inimigos, entre outras situações.

Mas, afinal quem é o António José da Costa Silva, de seu nome completo, mas que não o costuma usar?

Nasceu na freguesia de São Pedro (hoje, integrando a União de Freguesias da Covilhã e Canhoso), no dia 22 de dezembro do ano da graça de 1948, a três dias da celebração do Natal. É casado, tem um filho e dois netos.

Estudou na Escola Industrial e Comercial Campos Melo, onde concluiu o Curso Geral do Comércio, e já depois do serviço militar obrigatório, o antigo 7.º ano no Liceu Camões, em Lisboa, no ano de 1975, tendo ainda feito provas ad hoc de acesso à Faculdade de Letras com Avaliação de Entrada.

Foi em Lisboa Promotor de Relações Públicas na Arte Livreira e empregado de escritório durante 5 anos. Posteriormente, na Covilhã, foi empregado de fabricação na CIL e empresário em nome individual na área da prestação de serviços.

Mas António José Silva é sobejamente conhecido na Covilhã por ser um poeta de eleição, e romancista (romance poético), já com seis obras publicadas (“O Rosto da Poesia”, “Varanda dos Carqueijais”, “Chuva de Mel”, “Cem Poemas à Janela da Rua”, “Princepezinhos Encantados” e Amor-poético”). Participou em 22 Antologias e 4 Coletâneas de várias editoras. Foi ainda o autor de várias letras para instituições: “A Marcha do Leão da Serra”, o Hino da Marcha do Sport Lisboa e Benfica na Covilhã, o Hino da Associação Mutualista da Covilhã e a letra da Marcha Popular do Académico dos Penedos Altos 2022/2023.

Teve várias distinções e prémios de leitura no Casino Estoril, participou no programa da RDP Internacional sobre o “Rosto da Poesia”.

Da sua extensa ação cultural ficamos por aqui, pois tem muito mais desenvolvimentos que ultrapassariam várias páginas deste trissemanário, não ocultando, no entanto, a sua participação no dirigismo do Sporting Clube da Covilhã e do seu Jornal, assim como nos programas radiofónicos da Rádio Cova da Beira e atualmente na Rádio Fórum. E, entre outros factos biográficos, venceu em 2013 um Prémio de Poesia, pela APE.

Iniciou o serviço militar obrigatório no RI 5, nas Caldas da Rainha, no ano de 1969, seguindo depois para o RAL 4, em Leiria, em 1970, e seguidamente CICA 3, em Elvas e BRT na Trafaria, em 1971.

Foi mobilizado para a Guiné-Bissau, onde esteve em Cuntima e Bissau de novembro de 1971 a maio de 1973, data do seu regresso à Metrópole.

Se muito ainda haveria a detalhar desta personalidade covilhanense, deixamos aos prezados leitores d’O Combatente da Estrela”, uma resenha da sua participação da guerra do Ultramar, na então Colónia da Guiné, para onde foi enviado em missão obrigatória de soberania nacional.

São dele o poema e texto que segue:

 

O SOL DO CAPIM

 

O sol no capim

abria fendas no mato

e o medo espreitava

a cada passo

a compasso

no invisível das minas

em qualquer lado

que podiam rebentar

nas botas de cada soldado

o sol no capim abrasava

quando a primeira G3 disparava

coração apertado

aflito

ao longe ouvia-se o primeiro grito

rebentou!...

e o mato transformado em rebeldia

dor

angústia

gritaria

espírito bem forte

porque o sol no capim

sabia a morte.

 

 

Um sopro de tempo passava inquinado. Quis o destino que após tirar o curso de Operador-Cripto, fosse mobilizado para bem longe, até terras tórridas duma Guiné, onde o capim cheirava a morte, entrelaçado em “bolanhas” dizimais. As mensagens que cifrava e decifrava eram aterradoras no testemunho de sangue vertido na pintura selvagem de trilhos artilhados. Ainda fui colocado em serviço pela SHERET – “Serviço de reconhecimento especial e secreto de transmissões” no norte do território, Cuntima, considerada das zonas mais fustigadas da Guiné-Bissau…Via diariamente pelotões saírem rumo a patrulhas “negras”! Quantas vezes os rebentamentos ao longe me despertavam sentimentos incontáveis e revoltantes? Quantas vezes cifrava msgs dos mesmos mortos e feridos que minutos antes via sair?  Os infindáveis momentos noturnos em secretária de solidão, tantas vezes com uma lágrima corrente sem vontade de bater teclas naquela máquina triturante!

Quando saí do Norte e rumei a Bissau, mitiguei e deixei para trás tempos terríveis. Continuei com a tal máquina torturante, cifrando e decifrando feridos e mortos plasmados ao longo de toda uma Guiné-Bissau que agonizava.

Recordo os amigos, as patuscadas, o clima e aqueles loucos anos duma guerra injusta.

Recordo o tempo e os tempos. Tempos que não voltam mais, mas que ficaram gravados nos ponteiros da vida, que dentro da minha alma ocuparão lugar eterno.

 

 

Poema e texto do Autor.

António José da Silva

 

 (In "O Combatente da Estrela", 132, OUT/2023)


PARA ONDE VAMOS?

 

Neste primeiro de outubro, mais próprio de um dia de verão, as notícias climáticas não são agradáveis. Culpa do homem. O meteorologista acabou há pouco de alertar num dos canais televisivos de que em Portugal nos deveremos habituar a ter unicamente duas estações. Até o fundo dos oceanos é quente, e, como tal, nocivo para a vivência no planeta.

Depois das férias, com uns mais preocupados do que outros, os bons jornalistas, de conceituadas publicações, deparam com as notícias “num mundo em plena desordem, em que é cada vez mais difícil detetar os principais fios condutores e as grandes tendências que nos permitem, normalmente, interpretá-lo”. Nesta preocupação surge Teresa de Sousa, do Público. É que vivemos num desses momentos de grande turbulência internacional. É a transição entre duas ordens mundiais, ou seja, a que conhecemos nas últimas décadas, construída pelos Estados Unidos depois da II Guerra Mundial. Liberal e assente em regras. A outra, ainda desconhecemos os seus contornos, em grande parte. De harmonia com o que escreveu a diretora da revista britânica The Economist, começa por lembrar que desde que a China passou a integrar a economia global, nos anos 1980, o seu crescimento foi o mais espetacular que alguma vez a História registou. A economia chinesa “cresceu à taxa anualizada de apenas 3,2% no segundo trimestre”, face aos 40 anos em que a sua economia se encontrava. Terrível para os padrões chineses, sobretudo se compararmos com o crescimento da economia americana de quase 6% no mesmo período.

Segundo a tese da revista britânica, as políticas económicas defendidas pelo presidente chinês apenas agravarão o problema porque o seu objetivo principal deixou de ser o crescimento económico para passar a ser a segurança, na rivalidade com a superpotência americana.

Na cimeira dos BRICS que decorreu em Joanesburgo, na África do Sul, os países passaram a ser onze. Mais que duplicaram o número dos seus membros. Eram inicialmente quatro, sendo certo que BRIC significa Brasil, Rússia, Índia e China. Juntou-se-lhes depois a África do Sul. Agora estes convidaram mais seis países: Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Irão, Argentina, Etiópia e Egipto. Já a Indonésia não aceitou integrar este grupo, que é o maior país islâmico do mundo, com uma economia poderosa e uma população de 200 milhões e pessoas, no Sudoeste Asiático.

Não deixa de ser desagradável, quase ofensivo, o facto de países democráticos, como o Brasil, Índia ou África do Sul, terem aceitado sem qualquer problema “coabitar com teocracias ignóbeis como o Irão e a Arábia Saudita”.

A China foi o grande impulsionador deste alargamento. Sozinha, já representava 70% da riqueza dos BRICS. Consolidar um grupo de países importantes do Sul Global capaz de rivalizar com o G7 é uma parte fundamental da sua estratégia. À Índia cabe-lhe, durante este ano, presidir ao G20 criado por iniciativa da França e dos Estados Unidos, em 1999, para integrar as principais economias emergentes, grandes e médias, que não se sentiam devidamente representadas nas estruturas das Nações Unidas, e para responder ao mundo que emergia do fim da Guerra Fria.

O presidente russo não esteve presente nas cimeiras organizadas por se ter tornado uma figura muito incómoda para todos os subscritores dos estatutos do Tribunal Penal Internacional, que devem cumprir os respetivos mandados de captura, como no caso de Vladimir Putin.

O G7 reúne democracias liberais que partilham os mesmos valores fundamentais da democracia e do Estado de direito. Não existe essa unidade, neste novo grupo, que reúne teocracias violentas, regimes totalitários como o chinês, ditaduras agressivas e expansionistas como a russa, onde Putin transformou o seu país num verdadeiro Estado-máfia, em que os opositores são pura e simplesmente assassinados.

O alargamento dos BRICS representa uma tendência que não deve ser subestimada e que exige dos Estados Unidos e da Europa particular atenção.

O jornal Monde concluía, no seu editorial de 26 de agosto que “Ao passar de cinco para 11 países, os BRICS podem defender melhor os interesses do Sul Global. Mas as esperanças da China de reunir à sua volta uma frente antiamericana parecem menos realistas”.

Teresa de Sousa conclui no Público que “o nosso velho continente está a braços com uma guerra em grande escala, a maior desde a II Guerra Mundial, que ditará o nosso futuro coletivo – de paz e de prosperidade, como nos habituámos a viver, ou de insegurança e de profunda incerteza. O seu desfecho a favor da Ucrânia é vital”.

Questiono, pois, para onde iremos?

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

 

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 11-10-2023)


3 de outubro de 2023

OUTROS TEMPOS, OUTRAS VONTADES

 


Terminou o verão. Surgiu o outono.  Neste início ainda com alguns momentos de estiagem. As chuvas provocaram alguns contratempos. Ainda que necessárias.

Mais tempo para ler e escrever. Conforme os gostos, E as disponibilidades. Para uns sim, para outros não, e, para aqueloutros assim, assim. Em mão, algumas memórias de outrora. Como os tempos mudaram. Mais no âmbito da mulher. Onde a publicidade investia. E a ousadia surgia.

Aos mais novos nada lhes diz. Só a quem nasceu na “idade da pedra”. Como eu. Talvez sorriam. Na incerteza da autenticidade. Já nasceram com as novas tecnologias. Sobejamente conhecidas. Também a robótica. Agora a inteligência artificial. 

Um texto de João Ramos de Almeida, do Público. Já lá vão 15 anos. Para ele a contribuição de Luís Trindade. Doutorado sob a orientação de Fernando Rosas em História Cultural Contemporânea. “No início, encontrava-se sempre um produto, ou uma ideia. Que se pretendia vender como novo. Sob a aparência de uma mudança permanentemente radical. Muita coisa se mantém. É ver as imagens da publicidade. Em jornais e revistas. Ao longo do século XX. Revelam que a publicidade acompanhou os ventos sociais. Mas os valores e as aspirações parecem imutáveis.”

Publicidade em casa. Uma das grandes alterações foi a penetração da publicidade nos lares. Em 1925, a Vacuum Oil Company – que mais tarde deu lugar à Mobil e ExxonMobil – encenou um episódio doméstico.  Tratava-se de comercializar um fogareiro a petróleo. A originalidade do anúncio não é mostrar a dona de casa. Mas sim a criada. Roupas visivelmente rurais. Uma trouxa e lenço ao pescoço. “A creada despede-se”. Virando costas ao progresso trazido pelo “fogão”. Que “cozinha um jantar completo em menos de duas horas” ... A dona de casa, uma mulher moderna. Cabelo à “garçonne”. Sorria ao “senhor” que acabou de chegar. Ainda de sobretudo. E fato impecável. Traz nas suas mãos enluvadas a surpresa – o prosaico fogareiro. Usado pelas classes mais populares. E os dois estão felizes na cozinha. Num local onde socialmente não deveriam estar.

A mecanização das tarefas domésticas entraria muito anos depois. Sob a forma dos mais diversos produtos. A dona de casa passou a ser o elemento de contacto entre o homem cozinheiro profissional e o homem que prova o resultado. Como se vê num anúncio da margarina Vaqueiro (1958).

O homem passa a ser o sedutor. Com carro que atrai a mulher bonita. Ou socialmente bem instalada.

Num anúncio da Bosch (1999), o humor pisca o olho à independência da mulher. Mas também do homem.

Um jovem homem sem jeito para a lide doméstica: “O meu avô não lavava a louça, o meu pai não lavava a louça. Será possível continuar esta tradição?”. Sim, responde o anúncio. Compre uma máquina de lavar louça.

A revolução. Mais fugaz na publicidade é a política. A mulher “trabalhadora” do lar passa a ter uma palavra a dizer nos destinos do país (1974). Quase de torna a companheira de todos os portugueses.

Na publicidade, o sucesso será facilitado através da aparência. Se usar “a mais revolucionária das meias”, as suas pernas ficarão esguias e bonitas (1966). A rapariga que usa soutiãs Triumph (1970) “insinua-se” com um à-vontade “no ambiente de trabalho”. Maioritariamente masculino. Mas quase 30 anos depois, a evolução do ambiente parece já valorizar a mulher. Despreocupada e inteligente. Ainda que dependa de uns óculos Calvin Klein (1999).

A rápida sofisticação da publicidade funcionou igualmente, segundo Luís Trindade, in Público. Como “uma escola de ver anúncios”. Cada vez “mais subtis e mais eficazes”. O texto explicativo cedeu o lugar a uma publicidade. “Praticamente sem slogans, cujas mensagens são muito subliminares”. Nalguns casos, prescindiu até das imagens de produtos. Tornou-se abstrata. Passou a jogar-se cada vez mais com as emoções. E com os valores.

Apesar dessa evolução, o que foi que não mudou? “A resposta passa outra vez pelo mesmo: as estruturas sociais”. Como refere o professor Luís Trindade. Trata-se sempre de uma venda. E de uma “venda para as maiorias”. São mais conservadoras do que as margens da sociedade. O prestígio continua do lado dos privilegiados.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

                                                                        (In “O Olhanense”, de 01-10-2023)

30 de setembro de 2023

OS MALANDROS NO FACEBOOK

Há muito tempo que uns tratantes se infiltram nas redes sociais, e, neste caso, no Facebook, com intenções malévolas, enganando os "amigos" do Face, e não só, com indicações várias, nomeadamente com novos pedidos de amizade. 

Depois surgem mensagens enganadoras, colocando algumas vezes em jogo a reputação dos verdadeiros amigos, e outras perniciosas coisas mais.

Já fui algumas vezes incauto, nestas situações, dado que utilizo muito a Internet, em várias vertentes.

Assim, venho, mais uma vez, informar que se alguém pedir amizade em meu nome, ou escrever mensagens  também em meu nome, fizer ofertas de venda da Lua, em meu nome, verifique bem a proveniência e, em caso de dúvida, ou se já for "Amigo", vale mais perguntar se fui eu que pedi novamente amizade ou coloquei novo perfil. É fácil verificar. Convém denunciar o caso. No entanto o meu telemóvel está disponível para os devidos esclarecimentos:  - 965088169. 

Obrigado.

João de Jesus Nunes

20 de setembro de 2023

DA PULHICE DO “HOMO SAPIENS” À REVIRAVOLTA PARA A DEMOCRACIA

 


Na procura de um livro numa das prateleiras da minha biblioteca, veio-me à mão, amarelecido devido ao seu envelhecimento de nove décadas, o livro Da pulhice do “Homo Sapiens”, de Humberto Delgado, o qual, entre parêntesis ainda adiciona, na capa (Da Monarquia de vigaristas pela República de bandidos – à Ditadura de papa). Publicado em 1933, foi o primeiro livro de Humberto Delgado e perfaz precisamente 90 anos neste ano de 2023.

Não é tanto pela antiguidade da obra em si, pois possuo outro ainda mais antigo, com 144 anos (Manual Encyclopedico para uso das Escolas de Instrucção Primária), editado em 1879, mas pelo simples facto da figura histórica que o mesmo envolve.

Na data da publicação do primeiro livro de Humberto Delgado, tinha ele 27 anos e Salazar já estava no governo de Portugal desde 1926 (duas semanas), e, depois (em diante), desde 1928 até 1968/70... Começou a escrevê-lo em 1931, inspirado a partir da leitura dos feitos de Mouzinho de Albuquerque em Moçambique e em particular na chamada “pacificação” dos vátuas e do seu imperador, Gungunhana.

Segundo alguns analistas, é um importante documento de história política, em que o autor, socorrendo-se de uma linguagem cáustica e interpretando o estado da sociedade e da política portuguesa de novecentos, traça um quadro em que ressaltam as grandes dificuldades de Portugal nos anos que antecederam o final da Monarquia, e criticando, de igual forma, os homens da República e a sua atuação após o 5 de outubro.

Exprime ainda o seu descontentamento acerca de certas práticas da Ditadura que se instala após o golpe de 1926, porém, a sua visão geral desta é favorável. Não se inibe de contradizer de forma colérica e aviltante os detratores ideológicos de Salazar e do Estado Novo, personalidade que descreve como “Grande Homem”.

Participou no movimento militar de 28 de maio de 1926, que derrubou a República Parlamentar e implantou a Ditadura Militar que, poucos anos mais tarde, em 1933, iria dar lugar ao Estado Novo liderado por Salazar. Durante muitos anos apoiou as posições oficiais do regime salazarista, particularmente o seu anticomunismo.

Senhor de um caráter dinâmico, extrovertido e agressivo, Humberto Delgado destacou-se pela sua oposição à democracia parlamentar nos primeiros anos do regime, escrevendo o livro polémico a que fazemos referência. Já vimos que também nele manifesta simpatia por Salazar e a sua obra, e em 1941 Humberto Delgado chega publicamente a assumir simpatia por Hitler. No entanto, com o decorrer da II Guerra Mundial, as suas simpatias passaram para os Aliados.

Surge, entretanto, a sua oposição ao regime. Os cinco anos que viveu nos Estados Unidos modificam a sua forma de encarar a política portuguesa. Convidado por opositores ao regime de Salazar para se candidatar à Presidência da República, em 1958 contra o candidato do regime, Américo Tomás, aceita, reunindo em torno de si toda a oposição ao Estado Novo.

Numa conferência de imprensa da campanha eleitoral, realizada em 10 de maio de 1958 no café Chave de Ouro, no Rossio em Lisboa, quando lhe foi perguntado por um jornalista que postura tomaria em relação ao Presidente do Conselho Oliveira Salazar, respondeu com a frase “Obviamente, demito-o!”.

Esta frase incendiou os espíritos das pessoas oprimidas pelo regime salazarista que o apoiaram e o aclamaram durante a campanha com particular destaque para a entusiástica receção popular na Praça Carlos Alberto, no Porto, em 14 de maio de 1958. Passou então a ser cognominado “General sem Medo”. Viria a ser assassinado pela PIDE, juntamente com a sua companheira, em 13 de fevereiro de 1965, em Badajoz, Espanha.

Tudo o mais que se possa acrescentar já é do conhecimento generalizado dos Portugueses.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 20-09-2023)

19 de setembro de 2023

NO TEMPO DO MEU TEMPO

 


Regressado de umas breves férias, não encontrava assunto para uma crónica, em tempo já reduzido para a sua publicação. Até que, um email do meu Amigo Fernando Pedrosa Gonçalves, do Porto, que colaborou nalguns dos meus livros, me envia memórias do velho Porto, do início do século XX.

Vai daí, eu que nasci em meados do século passado, me deu para reportar algo do que se passou no ano de 1946. Durante todo este tempo até aos dias de hoje, já lidei com neuróticos, stressados, depressivos, hipocondríacos, bipolares, dementes, delirantes, amnésicos, fóbicos, obsessivos, compulsivos, insones, bulímicos, anoréxicos, hiperativos, e sujeitos a tiques.

Mas vamos lá, é ao ano da graça de 1946 que eu me quero referir.

Era Presidente da República, o marechal António Óscar de Fragoso Carmona, num Portugal com uma população de 8 178 360 almas, em que nasceram 107 128 pessoas do sexo masculino e 98 697 do sexo feminino, sendo que os falecimentos corresponderam, respetivamente, a 62 050 e 58 750. Os casamentos registaram 62 460 contra 1 181 divórcios.

Neste ano vieram a ver a luz do dia pela primeira vez, Xanana Gusmão, de Timor-Leste; George W. Bush, presidente dos EUA; Emerson Fittipaldi, piloto de automóveis brasileiro; ou Steven Spielberg, realizador e empresário norte-americano, entre outros. Quanto aos que partiram além-túmulo, destaco neste ano Abel Salazar, pintor e ensaísta, cujo funeral deste prestigiado intelectual oposicionista, professor universitário, resultou numa manifestação de protesto contra o Estado Novo.

Mas entre nascidos e os que passaram para o outro lado da vida, não deixou de se registarem tragédias mundiais neste ano: um intenso tornado atinge Windsor, destruindo mais de 400 habitações e causando a morte a 9 pessoas; tsunami de 14 metros atinge Hawai – 173 mortos e milhares de feridos; a época do Furacão do Atlântico durou seis meses, com 6 tempestades, causando 5 vítimas.

Os líderes internacionais eram então: França: Charles de Gaulle/Félix Goulin/Georges Bidault/Léon Blum. Itália: Alcide De Gasperi. Reino Unido:  Clement Attlee. EUA: Franklin Roosevelt/Harry S. Truman. Vaticano: Papa Pio XII. Alemanha: Administrada pelas Forças Aliadas. Espanha: Francisco Franco.

Tendo como pretexto as comemorações de mais um aniversário da primeira tentativa revolucionária da instauração em Portugal de um regime republicano, Lisboa e Porto foram novamente palco de manifestações onde se exigiu o fim da ditadura e a instauração em Portugal de um regime democrático.

Várias iniciativas públicas, da responsabilidade do Governo e da União Nacional, marcam o 18.º aniversário da primeira nomeação de Oliveira Salazar para o cargo de Ministro das Finanças de um executivo de Ditadura Militar.

Ocorreram em diversos centros industriais, piscatórios e mineiros do país, greves e manifestações de protesto contra o continuado agravamento do custo de vida e em defesa de melhores salários.

O governo de Oliveira Salazar apresentou o pedido de adesão de Portugal à ONU. Esta solicitação foi, no entanto, vetada pela URSS com o argumento de que o Estado Novo continuava a ser um regime fascista, diretamente responsável pela vitória dos “nacionalistas” em Espanha, colaborante e parceiro comercial da Itália de Mussolini, da Alemanha de Hitler e da França de Pétan antes e durante a II Guerra Mundial.

Exigindo a melhoria das condições de vida e a instauração de um regime democrático, os operários têxteis da zona da Covilhã realizaram um movimento grevista de grande amplitude.

Transportados no navio Guiné, chegaram a Lisboa e foram libertados 110 dos presos políticos, até então detidos no Campo de Concentração do Tarrafal.

Falhou na Mealhada uma tentativa de golpe militar que, partindo do Porto (do Regimento de Cavalaria 6, sob o comando do capitão Fernando Queiroga) visava derrubar a ditadura.

Morre aos 58 anos, John Logie Baird, um dos inventores da televisão. Em 1946 havia 6000 aparelhos de televisão nos Estados Unidos. Cinco anos mais tarde havia 12 milhões.

Num discurso pronunciado em Fulton (nos EUA), Winston Churchil (dirigente do Partido Conservador e primeiro-ministro da Grã-Bretanha durante a II Guerra Mundial) criticou violentamente a União Soviética, referindo-se à “cortina de ferro” que dividiria a Europa em “povos livres” (a ocidente) e “povos dominados” (a leste). Tornava-se, assim, público o divórcio entre os antigos aliados e o início da Guerra Fria.

O Reino Unido prepara um plano para separar a Palestina em dois Estados independentes, um judeu e outro árabe.

O governo trabalhista de Londres anunciou a sua intenção de reconhecer o direito da Índia à independência. No entanto não chegaram a acordo quanto às modalidades concretas da estruturação do(s) novo (s) Estado(s).

A primeira Assembleia Geral das Nações Unidas, incluindo 51 países, realiza-se no Westminster Central Hall, em Londres.

Termina o julgamento por crimes de guerra celebrado em Nuremberga, Alemanha. Dos 21 dirigentes nazis sob julgamento, 11 foram condenados à morte e os restantes sentenciados a extensas penas.

O texto já vai longo pelo que não vou poder falar de cultura neste período. Faço uma exceção em novidades literárias com a publicação do romance de Natália Correia – Anoiteceu no Bairro.

Na moda ao terminar a guerra é instituído, na Inglaterra, o programa de roupa “pró-desmobilização”. As roupas eram produzidas em massa de acordo com as normas de utilidade – eram resistentes mas pouco estilizadas. Surge o espartilho curto de Rochas. Em Paris é sensação o novo fato de banho de duas peças – o bikini. O primeiro modelo foi desenhado pelo estilista Louis Réard, em 1946, mas foi somente nos anos 60 que a peça se tornou popular. O nome desta invenção, ousada para a altura, deriva de uma ilha do Pacífico – Bikini – que foi usada para testes com bombas nucleares. A intenção era, assim, sugerir que esta reduzida peça de roupa tivesse um efeito bombástico na sociedade. E teve. A sociedade tentou resistir, até que ousadas atrizes de cinema começaram a fazer uso do biquíni. Brigitte Bardot foi a primeira a fazê-lo no filme E Deus Criou a Mulher. Com o tempo, a peça popularizou-se e foi ficando cada vez mais ousada, até que nos anos 80 uma modelo brasileira lançou o “fio dental”.

João de Jesus Nunes                                                                                     jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 15-09-2023)


11 de setembro de 2023

À SOMBRA DE UM CHAPARRO

 

Tempo de férias. Agosto. Que calor! UF! Para uma grande parte dos portugueses assim acontece. De vez em quando lá vem uma brisa, um ventinho para aliviar o calorento dia.

A Volta a Portugal em Bicicleta já terminou. Mas ainda há muitos emigrantes. Aproveitam as festas e romarias existentes por todas as regiões, onde o sagrado e o profano se misturam. As JMJ que fizeram fervilhar o país, também já terminaram. O mês de agosto a caminhar para o seu final. O que ainda não terminaram são os incêndios que continuam a grassar pelo território.  E os mais de 40 graus de temperatura em boa parte deste País.

Os turistas estrangeiros dão um forte contributo à vida social, onde encontram na restauração, por exemplo, um prazer alimentar mais acessível. Não é que a sua curiosidade não deixe de visitar pontos de grande interesse histórico, e não só, que mais não seja, o sol e o mar, que é sempre um atrativo desta varanda da Europa sobre o Atlântico.

Também já começou o futebol para os periódicos desportivos e os comentadores televisivos se poderem entreter na discussão do golo mal anulado, ou daquela irregularidade que o VAR deixou passar, lançando a incredibilidade na chusma dos mandantes no desporto, ou que do mesmo se alimentam.

Daquela garota espanhola, Jenny Hermoso, campeã mundial do futebol feminino, que foi beijada na boca pelo presidente da federação espanhola, Rubiales, isso não é connosco. Nem tão pouco nos importa a morte do famigerado chefe do Grupo Wagner, Yevgeny Prigozhin, pois isso é lá com Putin.

Mesmo assim, temos um tempo de procrastinação. Quase com a sealy season no seu expoente máximo. Os artigos de opinião são de alguma pobreza e os nossos políticos, por muito graves que sejam os problemas do País, foram a banhos. Já o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa optou por uma viagem até à Ucrânia, para dar um abraço ao seu amigo Volodymyr Zelensky.

Pois é, estamos em pleno verão, tempo de férias. Como acontece todos os anos nesta época, o número de espetadores da televisão diminuiu. Os canais de televisão, que eu raramente vejo, preenchem este período com repetições e alguns programas que tiveram êxito no passado. Durante a semana preenchem-se os dias com telenovelas à tarde e/ou à noite. E nem mesmo a publicidade é agradável. Aquela enfadonha publicidade da NOS não tem nada que dela se aproveite de atraente.

É um agosto “a gosto ou sem ele...” conforme refere a escritora Antonieta Garcia, numa das suas últimas crónicas.

Mas este tempo é por demais cansativo para quem pretende escrever. O que vai valendo é o ar condicionado para dar alguma tranquilidade. Sabe bem a leitura fora de casa, como num banco de madeira do Parque Florestal, por exemplo. Em lugares aprazíveis da Serra da Estrela, interrompidos por vezes pela passagem de rebanhos de cabras e ovelhas. O cão que os guarda também é afetado pelo calor e muitas vezes vê-se pachorrento e sentado a descansar. Pudera! Ainda não chegou a sua vez de aprender a ler. Talvez com a Inteligência Artificial isso se venha a conseguir.

Gosto de ler debaixo da sombra de árvores, sejam pinheiros ou eucaliptos, árvores de fruta por preferência, mas nunca consegui fazê-lo à sombra de um chaparro. Embora já estivesse algumas vezes sentado.

Os combustíveis, mais uma vez, aumentaram. Para a próxima quinzena há mais. Boas férias!

 

João de Jesus Nunes

Jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 01-09-2023)

 


17 de agosto de 2023

SETENTA VEZES SETE

 


Embora esta crónica chegue aos prezados Leitores d’ “O OLHANENSE”, já depois do Papa Francisco ter terminado a sua viagem a Portugal, no âmbito das JMJ – Jornadas Mundiais da Juventude, ela foi escrita na segunda semana de agosto, em plena visita papal.

O entusiasmo com que os milhares de jovens do Planeta se têm manifestado em Lisboa e Fátima, e noutros locais por onde passaram, leva-nos para um percecionismo de que podemos contar com eles.

A persistência e a exemplaridade do Papa Francisco, num trabalho assaz difícil, em que nem a idade o verga, de que neste quintal planetário – a Casa Comum – cabem todos os humanos, independente das suas convicções religiosas, cor da pele, e posições políticas, sem esquecer os deficientes de várias vertentes, muitos deles corajosamente não vencidos pelas suas situações que vão para além de muitos sem problemas físicos ou mentais, é deveras notável.

“70 x 7”, expressão que tem origem na Bíblia, no Novo Testamento, mais especificamente no Evangelho de São Mateus, capítulo 18, versículo 22, Jesus respondeu a Pedro sobre quantas vezes ele deve perdoar seu irmão que peca contra ele. E cito: “Então Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou: ‘Senhor, quantas vezes deverei perdoar a meu irmão quando ele pecar contra mim? Até sete vezes? Jesus respondeu: ‘Eu digo-te: Não até sete, mas até setenta vezes sete’”

Utilizando desta vez a inteligência artificial via ChatGTP,, vamos acrescentar que a expressão “setenta vezes sete (70x7) é simbólica e não deve ser interpretada literalmente (aliás como é óbvio) como um cálculo matemático. Ela expressa a ideia de um perdão abundante, ilimitado e generoso, enfatizando a importância da misericórdia, compaixão e reconciliação no cristianismo. Na religião católica, essa passagem é frequentemente utilizada para ensinar sobre a importância do perdão mútuo entre os fiéis, refletindo a atitude de Deus em relação ao perdão dos pecados da humanidade. Portanto, o “70 x 7” na religião católica é uma referência a ensinamento de Jesus sobre o perdão contínuo e generoso que os cristãos devem praticar em suas vidas”.

Após o términus destas Jornadas Mundiais da Juventude, e depois de apurados todos os resultados dos prós e dos contras, pensamos que o país ganhou com estas Jornadas já que, conforme referiu Marcelo Rebelo de Sousa, “mais de um milhão de peregrinos é uma loucura. É uma coisa nunca vista em Portugal, é irrepetível”. Sobre o impacto da JMJ em si, Marcelo disse que “vê mais valor no evento, como Presidente, porque o país dificilmente terá um evento como este”. A Coreia do Sul recebe a próxima Jornada Mundial da Juventude.

Antes da vinda do Papa Francisco a Portugal já vários processos judiciais canónicos foram resolvidos, resultantes de abusos sexuais de menores, muitos deles com absolvição.

Estes abusos praticados na Igreja parece-me, na minha opinião, que não terão sido levados em conta, pelos cardeais e bispos portuguese, na rigorosidade do Papa Francisco, na evidência dos relatos dos ofendidos.

Voltei a reler há poucos dias, na Comunicação Social, o caso de um Bispo apanhado nas redes do crime da pedofilia, que viveu no silêncio do refúgio no Alentejo, sendo depois acolhido na residência dos salesianos, em Lisboa. Foi aqui que, em plena pandemia, no ano 2020, foi notificado da pena canónica imposta pelo Dicastério Para a Doutrina da Fé. Assim, Carlos Ximenes Belo (antigo Prémio Nobel da Paz!!!) perdia a dignidade de bispo, mas continuava autorizado a exercer o ministério sacerdotal. Só que ainda não tinham chegado ao Vaticano os relatos das aventuras de Ximenes em Moçambique. Viria então um maior castigo canónico, o segundo. Desta vez, em novembro de 2021, o Dicastério para a Doutrina da Fé, retirou-lhe o múnus sacerdotal. O então padre Ximenes foi reduzido ao estado laical. “Passou de pastor – voz heroica da Igreja na luta pela independência de Timor-Leste, à condição de ordinária ovelha negra entre o vasto rebanho apostólico romano.”

Agora, simples leigo, sem rendimentos para se poder governar, direcionado para a miséria. Cumpre o castigo com tanta humildade que nem se dá por ele nas ruas de Mogofores, uma pequena aldeia que só nos meses de verão tem alguma agitação. Impôs-se à clausura das quatro paredes dum quarto donde sai apenas para tomar as refeições do dia.

Lamentavelmente, os bispos portugueses sabiam disto.

Pela minha Diocese - a da Guarda, também se passaram coisas altamente desagradáveis com a denúncia de abuso sexual de menores. Um padre que fora vice-reitor do antigo Seminário do Fundão foi condenado a dez anos de prisão e reduzido à vida laical, hoje ajudante de cozinha num restaurante. Lamentavelmente sempre teve a defesa do bispo D. Manuel Felício, o qual não goza de boa aceitação na generalidade dos fiéis desta Diocese

E, mais recentemente, no passado mês de julho, a Diocese da Guarda levantou as medidas cautelares impostas desde março ao Padre Vitor Lourenço, de 61 anos, pároco de Figueira de Castelo Rodrigo, que paroquiou na Vila do Carvalho – Covilhã, onde se deu a denúncia de envolvimento num caso de abuso sexual com um jovem de 12 anos, atualmente sacerdote na Covilhã, de 42 nos (portanto denúncia de atos praticados há 30 anos) onde chegou a ser diretor de um Semanário.

Esperemos que estas JMJ que terminaram em Portugal, sirvam para incutir o verdadeiro espírito   clerical para quem tem vocação e afaste de vez as tendências perniciosas que fazem denegrir a fé no seio da Igreja. Que estes novos jovens, com a dinâmica do Papa Francisco, consigam transformar o mundo na direção do Criador.

 

João de Jesus Nunes

jjnuns6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 15-08-2023)


16 de agosto de 2023

RESISTÊNCIA AO ESQUECIMENTO

 


A minha memória começa a pregar-me partidas. Esqueço-me com frequência, e o sentido com que quero dizer algumas palavras, orais ou escritas, ou aquela palavra que falta para completar a frase, não sei por que cargas de água, ainda que na parte cognitiva tenha a certeza de que a conheço, não sai, ofusca-se, e quando já não necessito dela (palavra, frase ou provérbio), vem, duma forma lampeira, à recordação, que serviria para completar/discernir dos factos que necessitava em devido tempo.

Mas é na escrita, de longa data, como sobejamente tenho referido, que vou encontrar o antídoto para contradizer o esquecimento.

Quantas vezes vou a uma das estantes, pego num livro, folhei-o despreocupadamente, e não é que aí vou encontrar algo de inspiração para uma crónica?

E é tal a profusão de assuntos que se sobrepõem em folhas de papel e apontamentos uns em cima dos outros, que, por vezes, quando a memória me pretende atraiçoar, lá vou contrariando o esquecimento e surge o que avidamente procurava.

Em 2016, Miguel Esteves Cardoso, nas suas “100 Melhores Crónicas”, já referia em “O Prazer de Esquecer”: “Começo a esquecer-me e a enganar-me. Não resisto. Meu pai sempre a avisar-me: ‘É escusado perder tempo a pensar no tempo em que o tempo se perdia a fazer coisas em vez de pensar nelas’. Perde-se sempre tempo a pensar, seja qual for a idade. Pensar é uma das melhores maneiras de passar o tempo. Então pensar sobre o tempo a passar: que melhor maneira pode haver de enfrentar a morte? Nenhuma. Por enquanto ainda sei que me esqueço e me engano. Ainda sou capaz de querer procurar – e de procurar e encontrar – as coisas de que me vou esquecendo. Mas, ao mesmo tempo, sinto e sei que vem aí um tempo em que só não darei pelos esquecimentos e enganos como serei incapaz de resolvê-los. O cérebro envelhece: enche-se, erradamente, das coisas mais antigas e menos úteis”.

Já que falei do esquecimento, vamos lá numa retrospetiva do jornal online ECO, de 25-11-2016, para a recordação que então trouxe de alguns dos “Oito tesourinhos deprimentes do Parlamento”, a que o mesmo se refere: Ricardo Mourinho Félix, então secretário de Estado do Tesouro, acusou os deputados da direita de “disfuncionalidade cognitiva temporária”.

Há dias em que os deputados e governantes estão inspirados e citam Camões. Mas há outros em que o vernáculo não é tão poético e os ânimos exaltam-se, nomeadamente com expressões pouco elogiosas à capacidade de uns e de outros.

Um dos episódios tristes da Assembleia da República mais conhecido, passou-se em 2 de julho de 2009, quando José Sócrates era primeiro-ministro e Manuel Pinho chefiava a pasta da Economia. Durante o debate do Estado da Nação, discutia-se a situação das Minas de Aljustrel. Bernardino Soares, do PCP, acusou Pinho de ter ido a Aljustrel “dar um cheque”. Era José Sócrates quem usava da palavra, mas Pinho encontrou uma forma de responder: colocou os dedos na testa e fez cornos para a bancada comunista. Manuel Pinho acabou por ser demitido por Sócrates.

Em abril de 2010, Francisco Louçã, quando era líder do Bloco de Esquerda, dirigiu-se a Sócrates, nestes termos: “Sr. Primeiro-ministro, eu vejo que de intervenção em intervenção vai ficando um pouco mais manso...”. A resposta de Sócrates foi captada pelos microfones, mas ficou gravada nas imagens: “Manso é a tua tia, pá!”.

Em novembro de 2014, sobre o tema reforma do IRC, houve uma luta pelo microfone, entre Paulo Núncio, que era secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, e Eduardo Cabrita, mais tarde ministro-adjunto, mas que à data era deputado do PS na Assembleia da República. Núncio tinha acabado de intervir, acusando o PS de rasgar o acordo sobre a reforma, e Cabrita, apesar de estar a conduzir os trabalhos, decidiu tomar a palavra para contrariar o então governante. Paulo Núncio tentou ligar o microfone e interromper Eduardo Cabrita, mas o então deputado não deixou. Enquanto falavam, Eduardo Cabrita desligava sucessivamente o microfone a Paulo Núncio. “Seja verdadeiro, seja verdadeiro” pediu Núncio.

Em junho de 2014, no debate sobre o jogo online, Duarte Marques, deputado do PSD, utilizou a palavra “palhaçada” para se referir à intervenção de José Magalhães, deputado socialista. José Magalhães preparava-se para intervir, mas, antes disso, decidiu responder: “O Sr. Deputado vá chamar palhaço ao seu pai”.

Em 13 de abril de 2016, durante uma audição do ministro do Trabalho, Vieira da Silva, na comissão parlamentar da especialidade, Wanda Guimarães, deputada do PS, lançou-se contra os deputados do PSD: “As direitas – e neste caso estou-me a referir àquela que saiu adornada de social-democracia no último congresso do PSD – têm mudado, de facto, o seu comportamento. Primeiro assistimos a uma grande agressividade e agora passou para o que eu chamaria de transtorno psicótico político. Atenção, político”. À resposta de Adão e Silva, muito enervado com a de Wanda, esta, não dando o assunto por terminado, respondeu: “Se gosta mais de autismo do que de transtorno psicótico, pronto. Agora, não me interrompa porque isso é falta de educação”.

Estes são alguns dos episódios, uns hilariantes, outros vergonhosos, que se passaram no Parlamento português.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 16-08-2023)

5 de agosto de 2023

A MONUMENTAL TAÇA “O SÉCULO” DO SCP E SCC

 




Vem este artigo a propósito de reforçar o esclarecimento sobre a atribuição deste troféu, o qual foi, entretanto, já prestado nalguns órgãos da comunicação social, em outubro de 2014.

Na exposição que o Sporting Clube da Covilhã tem patente no Museu da Covilhã e que se estende até ao dia 19 de setembro, lá está a Monumental Taça “O Século” ganha em 1948, com muito mérito, por esta Coletividade que está celebrando o seu centenário.

Dizia-se que só havia em Portugal duas monumentais taças com esta matriz – uma, ganha pelo Sporting Clube de Portugal (SCP) e, outra, pelo Sporting Clube da Covilhã (SCC), em 1948.

Iguais à primeira, com 123 cm de altura, existem efetivamente duas, mas uma segunda monumental Taça, esta com 140 cm, e formato diferente, encontra-se no Museu do SCP, ganha em 1953.

A história desta Taça começa com a iniciativa do diretor do extinto jornal O Século, João Pereira da Rosa, organizando, em 1938, a “Exposição Histórica do Futebol”, para comemorar os 50 anos do futebol em Portugal e, com a respetiva receita, criou duas gigantescas taças, do mesmo tamanho, a que se chamou Monumental Taça “O Século”, destinando-se uma para os Clubes da I Divisão e outra para os Clubes da II Divisão.

O diário “O Século”, enquanto fez a encomenda das duas taças, elaborou um projeto de regulamento das mesmas que submeteu à apreciação da Federação Portuguesa de Futebol, tendo merecido a sua aprovação.

O Regulamento é do teor seguinte:

Artigo 1.º - As duas taças “O Século”, oferecidas pelo mesmo jornal, para serem disputadas, uma na I Divisão e outra na II Divisão do Campeonato Nacional de Futebol, comemorando a organização das Bodas de Ouro do Futebol Português, que promoveu em Outubro de 1938, serão disputadas nas seguintes condições:

1.º - Ficarão na posse provisória do Clube que se classificar em primeiro lugar na respetiva divisão do Campeonato Nacional de Futebol, com início na época 1938/39.

2.º - Cada uma das taças passará à posse definitiva do Clube que ganhar em três anos consecutivos, ou cindo alternados, o Campeonato Nacional de Futebol, na respetiva divisão.

Artigo 2.º - No fim de oito épocas, se nenhuma das taças, tiver passado à posse definitiva de qualquer Clube, proceder-se-á do modo seguinte:

a)      Se nessa altura nenhum Clube tiver duas inscrições na taça, será a mesma entregue ao vencedor do Campeonato de 1946/47, da respetiva divisão.

b)      Se nessa altura já houver Clubes com duas inscrições alternadas, na época de 1947/48 serão ainda as taças disputadas nos termos do n.º 2.º do art.º 1.º.

c)       Se até ao início da época de 1948/49, nenhum Clube tiver ganho as referidas taças nas condições atrás citadas, serão elas conferidas definitivamente aos Clubes que forem os vencedores das I e II divisões do Campeonato nesse décimo ano da sua disputa.

d)      Artigo 3.º - Se o Campeonato Nacional deixar de disputar-se, não sendo substituído por outra prova semelhante na qual as taças possam continuar a disputar-se, ficarão elas na posse da Federação Portuguesa de Futebol, com destino ao Museu de Futebol Nacional, quando vier a constituir-se.”

Relativamente aos Clubes da I Divisão a tarefa foi fácil na sua definição. À luz do regulamento, ganhou a 1.ª Monumental Taça “O Século” o SCP porque, de 1938/39 até ao seu termo (1947/48) não houve nenhum requisito conseguido por qualquer clube primodivisionário.

Os vencedores dos Campeonatos das I e II Divisões foram então os seguintes:

I Divisão: 1938/39 – FC Porto; 1939/40 – FC Porto; 1940/41 – Sporting; 1941/42 – Benfica; 1942/43 – Benfica; 1943/44 – Sporting; 1944/45 – Benfica; 1945/46 – Belenenses; 1946/47 – Sporting – Sporting; 1947/48 – Sporting.

II Divisão: 1938/39 – Carcavelinhos (ganhou na final ao Sp. Covilhã, por 1-0); 1939/40 – Sp. Farense; 1940/41 – Olhanense; 1941/42 – Estoril; 1942/43 – Barreirense; 1943/44 – Estoril: 1944/45 – Atlético; 1945/46 – Estoril: 1946/47 – Sp. Braga; 1947/48 (Sp. Covilhã, ficando em 2.º lugar o Barreirense, com o mesmo número de pontos, 8. O SCC teve 17 golos marcados e 7 sofridos e o Barreirense 13 golos marcados e 7 sofridos, o que o inibiu de subir em favor do SCC).

Portanto, o Sporting, analisado o Regulamento da Taça “O Século”, acabou por ganhar a primeira, ao 10º ano, ou seja, na época 1947/48.

Embora tivéssemos desconhecimento de que o jornal “O Século” deu continuidade a nova Taça “O Século” (só para a I Divisão), o mesmo jornal viria a deixar de instituir este troféu a partir de 1953.

Foi, entretanto, ganha novamente pelo Sporting Clube de Portugal por ter sido vencedor de três campeonatos seguidos, em 1950/51, 1951/52 e 1952/53 (ganhou também o de 1953/54). Esta segunda Taça é também monumental, com 140 cm de altura, sendo que a primeira, igual à que possui o Sporting da Covilhã, tem 123 cm de altura.

Relativamente à II Divisão, nenhum Clube conseguiria ganhar três campeonatos seguidos, como é óbvio, já que subiam à I Divisão. Assim, ganhou a Taça “O Século” o SCC, no 10º ano, em 1947/48, precisamente quando subiu, pela primeira vez à I Divisão Nacional.

 Estas Taças estiveram provisoriamente em cada Clube (I ou II Divisões), durante o ano em que ganharam os respetivos campeonatos, e iam colocando uma chapinha metálica, na Taça, com o nome do Clube e época. Portanto, as Taças, quer a da I Divisão, quer a que é pertença do SCC, estiveram em poder provisório de todos os Clubes que foram ganhando os respetivos Campeonatos, daí se encontrarem algumas fotografias com esta Taça, como é o caso do Olhanense e do Barreirense.

Alguns Clubes, como o Barreirense (livro sobre a história do Clube págs, 134 e 135), duma forma errónea, bem gravitaram na tentativa de a obter, face à má interpretação do Regulamento, ou mesmo desconhecimento do assunto que o envolveu.

Aqui fica, novamente, o devido esclarecimento.

                                                                                                                                   João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 01-08-2023)