19 de fevereiro de 2025

EUFEMISMOS

 

Muitas vezes, ao folhear antigas compilações, deparo-me com textos que despertam novas reflexões. Foi o que aconteceu recentemente, quando me veio à mão um artigo de Fernanda Sampaio, publicado no Jornal do Fundão há décadas, abordando o tema dos eufemismos. Embora o texto tenha sido escrito num outro tempo, a verdade é que a tendência de suavizar a realidade através da linguagem continua mais viva do que nunca. 

A sociedade sempre encontrou formas de amenizar as palavras para tornar certas verdades mais aceitáveis. Mas, se antes os eufemismos surgiam sobretudo por questões de pudor ou respeito, hoje parecem multiplicar-se para mascarar realidades desconfortáveis. As coisas continuam as mesmas, apenas disfarçadas por novas designações.

Nos dias de hoje, o simples ato de substituir uma palavra pode transformar completamente a perceção de um conceito. Já não há desempregados, mas sim pessoas “em transição de carreira”. As escolas degradadas passaram a ser “estabelecimentos de ensino em requalificação”. Até os bêbedos passaram a ser chamados de alcoólicos e os drogados, toxicodependentes. Os doentes nos hospitais e centros de saúde agora são utentes. Os trabalhadores foram dispensados em vez de despedidos. Parece que, ao alterar as palavras, suavizamos a realidade, mas será que mudamos verdadeiramente o que está por detrás delas?

Os eufemismos infiltraram-se em todas as áreas do quotidiano. Nos discursos políticos, os “ajustes fiscais” escondem aumentos de impostos, e “as medidas de contenção” significam cortes nos serviços públicos. No mundo empresarial, um “despedimento coletivo” é apresentado como “reestruturação organizacional”.

A linguagem burocrática também encontrou nos eufemismos uma forma de disfarçar a rigidez do sistema. Os idosos são “seniores”, os pobres são “economicamente desfavorecidos” e as crianças com dificuldades escolares são “alunos com necessidades educativas específicas”. No fundo, cria-se um vocabulário que, em vez de resolver os problemas, apenas os disfarça.

Com a revolução digital e o crescimento da Inteligência Artificial, os eufemismos ganham novas dimensões. Já se fala em “profissões do futuro”, quando, na realidade, muitas funções atuais simplesmente desaparecerão. A própria IA é apresentada como uma “assistência cognitiva”, quando, na prática, está a substituir cada vez mais a intervenção humana. 

Foi com bastante interesse sobre este tema que foi debatido o programa da RTP 1 “É ou não é”, com o jornalista e apresentador Carlos Daniel, na noite do passado dia 4 de fevereiro. Falou-se: “Novos empregos que vão surgir e outros que vão desaparecer” – “Futuro Trabalho: Há emprego para todos?”. E, na Antena 1, da manhã do dia seguinte, o debate no programa “Consulta Pública”, moderado pela jornalista Sofia Freitas, onde se referia também a criação do Chat GTP português “Amália”. Temas de grande relevância para os tempos atuais.

Como bem refere António Barreto, no Público, “o mundo sempre mudou, mas hoje muda a uma velocidade que não permite adaptação”. No meio deste turbilhão, resta-nos questionar: estamos apenas a mudar palavras ou a esconder realidades? Talvez seja tempo de refletir sobre o verdadeiro impacto dos eufemismos na forma como percebemos o mundo.


João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com


(In “O Olhanense”, de 15-02-2025)



13 de fevereiro de 2025

JORNAL DO FUNDÃO SEMPRE NO TEMPO DO SEU TEMPO

 

Nasceu dois meses antes de mim. Desde a minha adolescência e juventude, logo que comecei a ler o primeiro jornal, ainda uma criança, por sinal, um diário, acompanhei o que se escrevia no Jornal do Fundão. Foi então na Biblioteca Municipal da Covilhã, situada frente ao Jardim Público, para onde ia estudar. Estava ávido de notícias novas sobre a Covilhã e região, onde se falava também muito das vedetas do meu clube de sempre. Com o passar do tempo, temas marcantes começaram a captar a minha atenção: a Região Beirã, a Serra da Estrela e a vida citadina da época. Acompanhava de perto a atividade académica do Liceu, da Escola Industrial e Comercial Campos Melo e do Colégio Moderno, bem como as festividades da sede e das aldeias do concelho. Não faltava falar das Feiras Popular, de São Tiago e de São Miguel. Também os acidentes rodoviários, e de aviação, como a queda da avioneta onde ia o Matos Soares; e os dois autocarros que, por duas vezes, bem distanciadas as datas, se despenharam na Serra da Estrela. Sem esquecer as mensagens dos que se encontravam nas guerras do Ultramar; o sentimento nostálgico dos emigrantes, e, mais tarde, o flagelo dos incêndios na Serra da Estrela.

Em tempo de ditadura, as notícias, possíveis, sobre as candidaturas à presidência da República, onde ressaltou a do general Humberto Delgado. Mas também a visita ao Jornal do Fundão do então ex-presidente da república brasileira, Juscelino Kubitschek de Oliveira, em janeiro de 1963, a convite do Diretor do Jornal, António Paulouro. O ditador Salazar ficou furioso e nunca mais esqueceu a partida que o grande estadista e o grande jornalista lhe pregaram, ordenando a censura de qualquer referência à visita.

Depois o grito pungente perante o problema da silicose nas Minas da Panasqueira. Vim a conhecer os efeitos nefastos desta doença profissional já na minha então nova profissão, pagando pensões de viuvez a várias viúvas, mulherzinhas pobres vindas das aldeias do Couto Mineiro.

Sem esquecer a persistência para que se abrisse um túnel na Serra da Gardunha – o Túnel da Gardunha; assim como a defesa da necessidade de renovar a linha da Beira Baixa, da eliminação do serpentear de estradas escabrosas do acesso rodoviário a esta região, com a construção de uma via rápida do Portugal Sul para o Portugal Interior e vice-versa, não faltando as terras com a necessidade de um regadio, donde viria a surgir o Regadio da Cova da Beira. E por aí fora. 

Numa retrospetiva, durante o meu serviço militar, e por períodos um pouco mais longos de ausência da Covilhã, pedia para me enviarem o Jornal do Fundão.

Acompanhei também a suspensão deste semanário pelo Estado Novo quando, à saída da Câmara Municipal da Covilhã, onde então me encontrava a trabalhar, o porteiro mostrava o jornal onde vinha a notícia sobre o Grande Prémio de Novela atribuído pela Sociedade Portuguesa de Autores ao escritor Luandino Vieira que se encontrava detido no Tarrafal por atividades consideradas subversivas pelo regime. Soube-se então que esse “crime” de divulgação pelo Jornal do Fundão lhe custaria uma longa suspensão – seis meses. Estávamos no mês de maio e, nessa altura, eu participava pela equipa do Estrela de São Pedro, no Torneio Primavera, em andebol, no Pavilhão do Clube Desportivo da Covilhã, nos Penedos Altos. Num dos intervalos recordo-me da preocupação que envolvia colaboradores do Jornal do Fundão, como os falecidos António José Martinho Marques e Francisco Marques Portela, assim como o José Pinheiro da Fonseca, com a suspensão deste semanário, sugerindo uma subscrição para colmatar este problema grave originado pela ditadura salazarista. 

Seria demasiado extenso enumerar todas as ações do Jornal do Fundão ao longo do tempo, mas não posso olvidar as páginas culturais na leitura de crónicas de Arnaldo Saraiva, Baptista Bastos, já falecido, ou Carlos Esperança, e muitos outras ilustres figuras da Cultura portuguesa, que me encheram de interesse pelas mesmas. 

Acompanho com interesse os textos de Nuno Francisco, Maria Antonieta Garcia e Luís Pereira Garra, assim como, quando em vida, acompanhava os de Fernanda Sampaio, José Pedro Machado e Ernesto de Melo e Castro. Não nomeio todos, mas respeito diferentes estilos, mesmo aqueles que não são da minha preferência. 

Embora não seja o periódico onde tenho mais textos publicados, ainda assim registo sete dezenas de páginas onde tive o privilégio de ver colaboração que me diz respeito. 

Está de parabéns o Jornal do Fundão. Desejo que se mantenha mesmo neste mar encapelado a prosseguir entre a revolução do papel e do digital, em prol dos interesses deste interior beirão. 


João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Jornal do Fundão”, de 13-02-2025)


5 de fevereiro de 2025

A BANDA QUE PASSA

 


Quando começar a ler esta crónica já foi arrancada mais uma folha do calendário. Janeiro, implacável, dissipou-se. Deixou o início do ano gélido e perigoso.

Entre tempestades e bonanças, vamos caminhando neste mundo e, para nós, no país mais antigo da Europa. No meio deste cenário de turbulências políticas e sociais, a vida segue o seu curso, tal como uma banda que passa, cantando coisas de amor e, quem sabe, também de ironia.

Enquanto os dias avançam, surge um país inquieto, onde políticos e cidadãos assistem, cada um à sua maneira, ao desenrolar dos acontecimentos.

Chico Buarque vem para esta metáfora como o impulsor: “Estava à toa na vida/O meu amor me chamou/ Pra ver a banda passar/ Cantando coisas de amor”. 

A flauta, o clarinete, a trompete e o trombone integram-na melodiando a descida da criminalidade violenta na área de responsabilidade do Comando Metropolitano de Lisboa (COMETLIS) da Polícia de Segurança Pública. Diz respeito ao ano passado em relação a 2023.

A banda continua na sua marcha: “A minha gente sofrida/Despediu-se da dor/Pra ver a banda passar/Cantando coisas de amor”.

Com este estribilho, corre Carlos assustado, deixa cair as Moedas, afrontado. Nem sequer vê o bombo e, muito menos o tambor. Mas logo agarra nos pratos e grita que não é verdade. É um inconcebível lapso do subintendente Rui Costa. “Estes números são positivos, mas não nos tranquilizam. Há fenómenos que existem quer na cidade de Lisboa, quer nos concelhos limite, que nos levam a ter algumas preocupações e cautela em desenhar outro tipo de estratégias no combate ao crime”.  

E a banda prossegue: “O homem sério que contava dinheiro parou/O faroleiro que contava vantagem parou/ A namorada que contava as estrelas/ Parou para ver, ouvir e dar passagem”. 

Ter-se-á recordado do homem de Boliqueime. Em 2004 dizia que estava a aplicar-se à vida política a lei económica de Gresham, segundo a qual “a má moeda expulsa a boa moeda”, ou, neste caso, “os agentes políticos incompetentes afastam os competentes”.

A banda continua: “A moça triste que vivia calada sorriu/A rosa triste que vivia fechada se abriu/E a meninada toda se assanhou/ Pra ver a banda passar/cantando coisas de amor”.

O som, agora mais voltado para a improvisação e harmonia. Além-fronteiras, Donald Trump, sempre pronto para o espetáculo, sopra no saxofone e carrega na bateria, depois de ter ensaiado o regresso ao palco. Tenta afugentar os “forasteiros” que o incomodam. Começa a tentar organizar uma enorme orquestra. Para agradar a todos os humanos.

“A minha gente sofrida/Despediu-se da dor/Pra ver a banda passar/Cantando coisas de amor”.

Quere a Gronelândia e o Canal do Panamá, por isso, a banda canta-lhe: “O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou/Que ainda era moço pra sair do terraço e dançou/A moça feia debruçou na janela/Pensando que a banda tocava pra ela”.

É então que surge Miguel Arruda, protagonista dos furtos nas zonas de bagagem açorianas, sem vigilantes. Surripia malas. É o pilha-galinhas da política nacional, lembrando-nos que neste país de brandos costumes, nem sempre a vigilância está onde deveria estar.

“A marcha alegre se espalhou na avenida e insistiu/A Lua cheia que vivia escondida surgiu/Minha cidade toda se enfeitou/Pra ver a banda passar cantando coisas de amor”.

É quando Mariana Mortágua vem, finalmente, reconhecer “erros” e “falhas” do partido no processo de despedimentos de trabalhadores na sequência da queda eleitoral. 

Entre escândalos e pequenas tragédias, a banda continua a tocar, indiferente às histórias que se cruzam no seu caminho.

Finalmente:

“Mas para meu desencanto/O que era doce acabou/Tudo tomou seu lugar/Depois que a banda passou. / E cada qual no seu canto/Em cada canto uma dor/Depois da banda passar/Cantando coisas de amor”.


João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com


(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 05-02-2025)


3 de fevereiro de 2025

A FRAUDE EM SEGUROS

 

A fraude em seguros é um fenómeno que afeta profundamente o setor segurador e a sociedade em geral. Este problema, embora não seja novo, tem evoluído em sofisticação e impacto, exigindo ações cada vez mais coordenadas e eficazes para ser combatido. Falamos mais na fraude detetada mas esquecemo-nos da fraude executada. Nessa medida, o crescimento da fraude em Portugal pode ser mais acentuado na deteção.

Segundo dados da Associação Portuguesa de Seguradores (APS) e do OBEGEF – Observatório de Economia e Gestão de Fraude (associação privada sem fins lucrativos, sediada na Faculdade de Economia da Universidade do Porto), o custo das fraudes identificadas representa uma percentagem significativa das despesas do setor, afetando diretamente os preços das apólices e a confiança dos consumidores. 

Conforme é referido no livro que publiquei em julho de 2018, sob o título “O Documento Antigo – Uma outra forma de ver os Seguros”, a fraude em seguros pode ocorrer em diversas formas, desde pequenas distorções de informações no momento da contratação até esquemas organizados que envolvem falsificação de sinistros. Um exemplo comum é o agravamento intencional de danos para obter indemnizações maiores, uma prática que, embora aparentemente inofensiva, tem impactos acumulativos que oneram todo o sistema. Em muitos casos, essas fraudes são facilitadas pela dificuldade de deteção e pela perceção de impunidade. 

A fraude não é apenas um problema financeiro, mas também ética, pois compromete a relação de confiança entre seguradoras e segurados. Este cenário torna-se ainda mais preocupante quando consideramos o papel das redes organizadas, que utilizam técnicas avançadas para explorar falhas nos sistemas de segurança e condescendência das empresas. 

Os efeitos da fraude em seguros vão além dos prejuízos financeiros diretos. Para os segurados, isso significa prémios mais elevados e uma maior desconfiança no sistema. Para as seguradoras, a fraude compromete a sua capacidade de oferecer produtos competitivos e sustentáveis. Em última instância, toda a sociedade é impactada, já que os recursos que poderiam ser investidos em inovação e em melhoria de serviços são canalizados para cobrir as perdas decorrentes de práticas fraudulentas.

É o caso das reparações efetuadas do ramo automóvel, onde existe a perceção de serviços de peritagem de algumas seguradoras se envolverem duma forma sub-reptícia por forma ardilosa de enganar o segurado lesado para benefício próprio.

Combater a fraude em seguros requer uma abordagem integrada que combine tecnologia, regulação eficaz e consciencialização. Ferramentas de análise de dados e inteligência artificial têm sido cada vez mais utilizadas para identificar padrões suspeitos e prevenir fraudes antes que elas ocorram. Além disso, o fortalecimento de legislação e a cooperação entre entidades públicas e privadas são fundamentais para criar um ambiente menos permissivo.

Outro aspeto crucial é a educação do público. Campanhas de consciencialização podem ajudar a esclarecer as consequências da fraude para os indivíduos e para o sistema como um todo, desestimulando comportamentos fraudulentos e promovendo uma cultura de transparência.

O cliente, que sempre agiu de boa-fé, e se vê enganado, no âmbito de um polvo que lhe dificulta todos os meios de defesa dos seus direitos, jamais pode ver a imagem da seguradora como sua defensora em situações de apuro, como é um sinistro. 

A fraude em seguros é um desafio complexo, mas não intransponível. Combinando tecnologia, regulação inabalável e um compromisso ético de todos os envolvidos, é possível reduzir significativamente o impacto deste problema. Como autor e estudioso da área, reafirmo a importância de um reforço coletivo para transformar o setor de seguros num exemplo de integridade e eficácia. Afinal, a confiança é o pilar fundamental que sustenta toda a estrutura deste mercado.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 01-02-2025)


21 de janeiro de 2025

CRÓNICA PARA INÍCIO DO ANO: DOS “CISNES NEGROS” ÀS PERCEPÇÕES

 

Desde que me retirei da vida profissional, há mais de 12 anos, mantenho-me intelectualmente ativo. Escrever é para mim, algo que cultivo há seis décadas. Este amor pelos livros levou-me a doar parte do meu acervo a bibliotecas e instituições. Muitos livros foram acolhidos por bibliotecas municipais de diversas regiões do país, enriquecendo o património cultural dessas localidades.

Contudo, mais de um milhar de obras tiveram outro destino: o Banco Alimentar Contra a Fome, na Cova da Beira. Ali, foram integrados na recolha de papel, cuja venda reverte para causas de solidariedade social. Esta decisão, embora necessária, deixou-me com uma certa melancolia e, literalmente, uma hérnia discal como lembrança. Doar os livros foi um ato de desprendimento, mas também uma forma de perpetuar o valor do conhecimento que tanto prezo. Mesmo assim, as estantes da minha biblioteca ficam ainda repletas de obras, tematicamente selecionadas. 

Graças a Deus, consegui já ultrapassar a esperança de vida que, segundo dados recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE), no triénio de 2021-2923, foi estimada, para os homens, em 78,37 anos, com a possibilidade de exceder este valor dependendo das condições individuais, como é óbvio.

Cisnes Negros e a Incerteza

Quantos “cisnes negros” nos esperam em 2025? Esta expressão, popularizada por Nassim Nicholas Taleb, simboliza acontecimentos imprevisíveis e de grande impacto, capazes de desestruturar o estabelecido. A sua origem remonta ao século XVII, quando a descoberta de cisnes negros na Austrália desafiou a crença de que todos os cisnes eram brancos.

Em 2024 tivemos uma amostra clara dessa realidade. Desde as alterações climáticas extremas, como o ano mais quente já registado, até acontecimentos geopolíticos e sociais inesperados, vivemos numa época em que a incerteza parece dominar. Esses eventos forçam-nos a refletir sobre a fragilidade dos nossos sistemas e a urgência de nos adaptarmos a um futuro cada vez mais imprevisível.

Percepções e a Atualidade

Outro tema que marcou o final de 2024 foi a discussão em torno das “percepções”. Exemplos não faltam: uma das ideias que ganhou força é a de que estrangeiros em situação irregular são os principais responsáveis pela sobrecarga do Serviço Nacional de Saúde (SNS). No entanto, estudos e dados concretos muitas vezes não sustentam essas afirmações, mas as percepções, ampliadas por discursos e “memes” digitais, acabam por moldar opiniões e políticas.

Como bem observa José Pacheco Pereira, vivemos numa era em que os “memes” substituem o pensamento crítico e dominam o debate público. Este fenómeno destaca a importância de questionarmos as informações que consumimos e de incentivarmos uma sociedade mais reflexiva e menos reativa. As percepções, quando mal direcionadas, podem transformar-se em preconceitos que perpetuam desigualdades e distorcem a realidade.

Ao iniciarmos um novo ano, somos chamados a olhar para o futuro com um misto de esperança e pragmatismo. As memórias que carregamos e os desafios que enfrentamos devem servir de guia para construir um caminho mais consciente e adaptável. Sejam os “cisnes negros” ou as percepções equivocadas, cada um de nós tem um papel na forma como lidamos com o inesperado e como criamos um mundo mais equilibrado.

Votos de um Feliz Ano 2025.


João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 15-01-2025)


8 de janeiro de 2025

QUANDO A MARCHA ATRÁS DEIXA DE SER UMA MANOBRA PERIGOSA


Chegou ao fim o ano mais quente das nossas vidas. O primeiro em que a temperatura média da Terra subiu 1,5 graus Celsius. Em 2024, acumulámos recordes climáticos indesejáveis e falhanços em cimeiras dedicadas ao ambiente. A única atmosfera de que dispomos está saturada de carbono e isso irá tornar a Terra cada vez mais inóspita para quase todos os seres vivos. Proveniente de quem sabe, estamos a andar para trás, recuando ao ritmo de crescimento da pré-pandemia. 

Este ano de 2025 reserva novas oportunidades de negociação internacional na área climática. Cientistas, ativistas, decisores políticos e ambientalistas já estão com os olhos postos na COP30, que terá lugar em Belém, no Brasil. Até fevereiro líderes políticos de todo o mundo devem fazer as suas promessas climáticas que se querem mais ambiciosas possível.

Pergunto muitas vezes no âmago dos meus pensamentos, se os responsáveis no âmbito da Humanidade, a começar por cada um de nós, preferem o seu desaparecimento à face da Terra, mais acelerado, ou viver nos limites para que fomos criados. Estamos, de facto, num mundo de contradições.

O ano que findou não nos deixou saudades. Foi uma galeria de horrores, sobejamente conhecidos: a guerra da Ucrânia continuou e até se intensificou com soldados norte-coreanos servindo de carne para canhão de Putin e ataques ucranianos dentro das fronteiras russas. O conflito entre Israel e Hamas estendeu-se também numa luta com o Hezbollah no Líbano e o Irão. Cerca de 100 reféns continuam aprisionados e maltratados em Gaza. A Síria depôs um ditador sanguinário. Pela segunda vez, os troca-tintas americanos, neste vendaval internacional, elegeram para a Casa Branca um agressor sexual. 

Confesso-me dececionado com a conduta de tantas gentes pensantes, que mais parecem banhados de uma ingenuidade galopante, que chegou ao nosso País de brandos costumes, frase que ainda costuma ser vezeira em ocasiões de oportunidade.

A rusga na Mouraria, com as reações à foto de dezenas de imigrantes alinhados contra a parede na Rua do Benformoso foi a vergonha nacional deste nosso governo. Muito se falou e rios de tinta correram pelos jornais.  As televisões marcaram a sua presença para destacar o lamentável espetáculo jamais visto neste País que se diz sabe acolher os imigrantes.   Eu ainda há poucos meses percorri essa rua para as comemorações do centenário da Casa da Covilhã, sediada no nº. 150-1º. B, sem problemas. Obviamente também sem o aparato policial no Martim Moniz que lembra o pior do século XX, nas palavras da deputada socialista Isabel Moreira. Podemo-nos recordar dos imigrantes, 50 ano depois, como se fez com os retornados das ex-colónias. A tónica das políticas públicas para os imigrantes tem que passar pelo emprego, no alojamento e nas qualificações, ao invés das operações policiais.

Mas disto já todos estamos fartos de ver, ouvir e ler, aqui para quem está interessado em analisar opiniões jornalísticas.  

Agora volto-me para um tema que se tornou escaldante durante vários anos.  Afetou economias de particulares e empresariais de muitos portugueses, e não só – que dá força ao título desta crónica – as SCUT – Autoestradas sem custo para o utilizador. 

Tiveram início em Portugal em 1997, durante o governo liderado por António Guterres. O objetivo principal desse modelo era promover o desenvolvimento regional e a coesão territorial, garantindo o acesso a infraestruturas modernas sem custos diretos para os utilizadores, financiadas pelo Estado através de receitas fiscais. Em 2010, no contexto da crise económica e de ajustamentos financeiros, o governo liderado por José Sócrates iniciou a introdução de portagens nas SCUT’s transformando-as em autoestradas pagas, com base no princípio do utilizador-pagador. Esta mudança gerou longos e inúmeros debates e protestos. 

Levou 13 anos para que o governo revertesse a controversa decisão de portajar as SCUTs. Finalmente os viajantes podem usufruir da A23 e A25 sem custos diretos, aliviando os bolsos de quem depende dessas vias. Aquela manobra perigosa, dos nossos governos, conseguiu fazer uma marcha-atrás sem perigosidade. 

Foi uma luta quase insana liderada pela Plataforma Pl’a Reposição das SCUTS, voltando agora a poder circular -se na A23 e na A25, sem custos diretos, como se reclamava desde o dia 8 de dezembro de 2011. E, para encanto e glória dos malfeitores de lideranças governamentais, tínhamos as portagens mais caras de todas as ex-SCUTS do País. Mas por que cargas de água isso aconteceu? Inacreditável!

Apesar dos desafios enfrentados, tanto globais como locais, há razões para acreditar que a marcha-atrás pode ser mais que uma metáfora – pode ser um caminho real para mudança e progresso. 

Votos para que 2025 venha a ser um ano que nos traga mais esperança num novo mundo, pleno de paz e amor entre todos os habitantes do Planeta.


João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com


((In “Jornal Fórum Covilhã”, de 08/01/2025)


 

14 de dezembro de 2024

CAMINHAMOS PARA O FINAL DE 2024 ENTRE DECISÕES, CONFUSÕES E ILUSÕES


 Mais uma etapa das nossas vidas se vai cumprindo e, felizmente, ainda nos podemos contar entre os vivos. O que ocorreu no início deste ano, embora algo que teve o seu prelúdio, é vasto, e tudo o que foi semeado, entre caminhos pedregosos ou em terras férteis, agora encontra seu Ómega.

A invasão da Ucrânia pela Rússia continua tendo-se iniciado em 24 de fevereiro de 2022. Nesse dia, a Rússia lançou uma ofensiva militar em larga escala contra a Ucrânia, após meses de tensões crescentes e uma escalada de movimentações militares ao longo da fronteira. A invasão foi precedida por anos de conflito na região de Donbass, onde separatistas pró-Rússia, apoiados pelo Kremelin, lutavam contra o governo ucraniano desde 2014, após a anexação da Crimeia pela Rússia. A invasão causou grandes crises humanitárias, destruição em várias cidades e milhões de deslocados, além de ampla reação internacional, com sanções económicas contra a Rússia e apoio militar e humanitário à Ucrânia.

O conflito entre Israel e o Hamas, o grupo militante que controla a Faixa de Gaza, escalou quando, em 7 de outubro de 2023, o Hamas lançou um ataque surpresa contra Israel, resultando em centenas de vítimas israelitas e a tomada de reféns. O ataque que incluiu disparos de foguetes e invasões em várias cidades israelitas, marcou uma das ações mais significativas e violentas nos últimos anos e aumentou a tensão já existente na região. Israel reagiu ao ataque com uma série de operações militares contra alvos do Hamas em Gaza, com a intensificação do conflito resultando em centenas de mortos e feridos de ambos os lados. A tomada de reféns israelitas pelo Hamas complicou ainda mais a situação, com negociações internacionais e esforços de mediação visando a libertação dos reféns e uma eventual trégua. Mantém-se ainda ativo. 

As catástrofes no planeta provenientes das alterações climáticas têm sido cada vez mais acentuadas e devastadoras. A Austrália tem enfrentado eventos climáticos extremos significativos em 2024, com incêndios, ondas de calor e tempestades intensificadas por mudanças climáticas. Um relatório do Bureau de Meteorologia e CSIRO destacou que os oceanos australianos estão aquecendo rapidamente, influenciando padrões meteorológicos, como chuvas intensas, e aumento do nível do mar, o que causa danos em áreas costeiras e urbanas suscetíveis de inundações. Além disso, a seca e a redução de chuvas no sudeste e sudoeste australianos elevam o risco de incêndios e comprometem o armazenamento de água em várias regiões, afetando a agricultura e o abastecimento urbano. Este aumento na frequência e severidade de eventos meteorológicos preocupa especialistas, que alertam para um futuro com mais extremos se as emissões de gases de efeito estufa não forem reduzidas. Esses fatores contribuem para um ambiente de desafios constantes para infraestruturas, biodiversidade e segurança humana em todo o país.

As cheias em Valência, que começaram em 29 de outubro de 2024, foram provocadas por fortes tempestades e uma queda repentina de temperatura conhecida como gota fria, resultando em precipitações intensas e devastadoras. Foram mais de 200 vítimas mortais e muitos desaparecidos, tanto na região autónoma da Comunidade Valenciana, no leste de Espanha, assim como na região de Castela La Mancha, numa zona vizinha.  As inundações destruíram infraestruturas, deixaram moradores sem eletricidade e interromperam serviço de transporte. Foi um evento climático descrito como o mais severo do século. 

Temos agora a COP 29. São 30 anos de avisos, promessas e cimeiras. As cimeiras das Nações Unidas sobre o clima já se realizaram 28 vezes, mas emissões de gases com efeito de estufa continuam a aumentar e o ano passado foi o mais quente já registado, com 2024 a caminho de ser o primeiro a ultrapassar +1,5ºC em relação à era pré-industrial. Esta é a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 2024 ou Conferência das Partes da UNFCCC, mais comumente conhecida como COP29, sendo a 29ª Conferência sobre Mudanças Climáticas. É realizada em Baku, Azerbaijão, de 11 a 22 de novembro de 2024. É certo que a sombra da eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, disposto a negar as alterações climáticas e refazer uma economia baseada em combustíveis fósseis e no protecionismo, paira sobre a conferência. Isto já aconteceu no COP22, em Marraquexe, em 2016, quando Donald Trump foi eleito Presidente pela primeira vez.

Entretanto, a eleição de Donald Trump para um novo mandato pode trazer várias preocupações tanto nos Estados Unidos quanto internacionalmente. Aqui estão alguns dos principais perigos apontados pelos analistas: 1-Relações Internacionais: A vitória de Trump pode afetar as relações dos EUA com a União Europeia, especialmente em questões de comércio e segurança. Trump tem criticado repetidamente o bloco europeu e ameaçado acabar com os laços atuais ente a UE e os EUA. 2 - Ajuda à Ucrânia: Há preocupações de que Trump possa reduzir ou cortar o fornecimento de armas e assistência financeira à Ucrânia, o que poderia enfraquecer a resistência ucraniana contra a invasão russa. 3 – Isolacionismo: Trump defende uma política de isolacionismo, o que significa que os EUA poderiam reduzir o seu envolvimento em alianças internacionais como a NATO, deixando os aliados europeus mais vulneráveis. 4 – Impunidade e Justiça: A eleição de Trump, mesmo após ser condenado em processos judiciais, levanta questões sobre a impunidade e pode servir de alerta para outros países sobre a importância de manter a integridade do sistema judicial. 5 – Impacto Económico: A vitória de Trump pode causar incertezas económicas, afetando mercados financeiros e setores específicos como energias renováveis e farmacêuticas, enquanto setores como criptomoedas e petróleo se podem beneficiar.

Voltamo-nos agora para o nosso País e também as coisas não estão famosas. O atual governo de Portugal liderado por Luis Montenegro, tomou posse em 2 de abril de 2024. É o XXIV Governo Constitucional de Portugal e foi nomeado pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, com base nos resultados das eleições legislativas de 2024. É uma coligação liderada pela Aliança Democrática (AD), que inclui o Partido Social Democrata (PSD), o Centro Democrático e Social-Partido Popular (CDS-PP) e o Partido Popular Monárquico (PPM).

Os distúrbios em Lisboa começaram na madrugada de segunda-feira, 22 de outubro de 2024, após a morte de Odair Moniz que foi baleado pela PSP na Cova da Moura. Desde então houve várias noites consecutiva de tumultos em diferentes bairros da Grande Lisboa. A ministra da Administração Interna, Margarida Blasco, envolveu-se num imbróglio em afirmações sobre o direito à greve na polícia, fazendo depois marcha atrás após “infelicidade”. 

O problema maior está com a ministra da Saúde, Ana Paula Martins, com alegados casos de 11 vítimas mortais associadas aos atrasos no atendimento de emergência médica, face à greve dos técnicos do INEM. 

Mas para não ser tudo mau, no dia 11 de novembro, dia de São Martinho, começou a nova edição da Web Summit Lisboa, 16ª., com cerca de 2750 startups presentes e dezenas de oradores na FIL, no Parque das Nações. O tema deste ano é “Onde o futuro vai nascer” e terá como foco temas como a Inteligência Artificial, as alterações climáticas, entre outros.

Sobre a Covilhã quero referir alguns aniversários que se comemoram. Este espaço foi, excecionalmente, alongado em final de ano: os 50 anos que assinalam o Teatro das Beiras neste percurso cultural; os 70 anos do CCD Oriental de São Martinho; o centenário da Casa da Covilhã em Lisboa; e os 125 anos da fundação da Conferência de São Vicente de Paulo da Paróquia de Santa Maria.

Como este é o último número deste ano, formulo os melhores votos de um Feliz Natal aos prezados Camaradas Antigos Combatentes deste Núcleo e suas Famílias, e a todos os Associados, Leitores e Obreiros deste Jornal, assim como um Novo Ano repleto das maiores venturas.


João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Combatente da Estrela”, nº. 137, DEZ/2024)


CONTE-NOS A SUA HISTÓRIA RUI LUCIANO MENDES PINTO

 

Neste último número d’ “O Combatente da Estrela”, do ano 2024, trazemos ao conhecimento dos prezados leitores uma figura amplamente conhecida desta cidade laneira, hoje marcada por forte ambiente universitário, e que nasceu na Covilhã em 5 de novembro de 1943 – o Rui Pinto.
Como muita gente do seu tempo, iniciou a sua atividade profissional na indústria de lanifícios, onde foi tecelão, até ser chamado para cumprir o serviço militar obrigatório.
Tendo ainda frequentado a Escola Industrial e Comercial Campos Melo da Covilhã, como amante da música, foi, nas horas livres, vocalista no conjunto “Manchester”.
Chegado o momento de ter de entrar nas fileiras do Exército, fez a recruta no CICA3 em Elvas, com início em 19 de outubro de 1964, ou seja, há sessenta anos. Seguiu depois para o RI 16, no Porto, onde tirou a adaptação à especialidade de condutor auto. Posteriormente o seu destino foi o RI 2, em Abrantes, já com a sina da sua mobilização para Angola. Veio a embarcar no Vera Cruz em 20 de abril de 1965 para desembarcar em Luanda em 8 de maio.
Em Angola, depois de chegado ao Grafanil, foi destacado para a Fazenda Maria Fernanda, na Zona de Zemba, uma das mais perigosas da altura. Daqui foi para Cambambe e depois Ambriz, já perto de Luanda, onde aqui viria aguardar o seu regresso à Metrópole, embarcando novamente no Vera Cruz, em Luanda, no dia 22 de maio de 1967, tendo desembarcado em Lisboa no dia 3 de junho.
Felizmente, no seu percurso em terras angolanas na guerra subversiva, embora o Rui Pinto andasse com uma GMC para rebentamento de minas, não teve qualquer situação problemática. Conta-nos que, em dado percurso, onde há já muito tempo não tinha havido conhecimento de agitações do inimigo, mas havia que ter a certeza de que as estradas não se encontravam minadas, o Comandante da Companhia deu-lhe ordens para fazer esse percurso, eventualmente perigoso. O Rui Pinto, coberto de medo, começou a chorar e o Comandante, vendo esta conduta, colocou-se ao seu lado a fim de lhe dar ânimo, com estas palavras: “Vamos, Rui, se morreres também morro eu!” E assim se cumpriu a determinação do Comandante, sem que houvesse qualquer problema de rebentamento de minas.
O condutor Rui Pinto era ainda o responsável por colocar o gerador de luz a trabalhar e bombear a água para todo o acampamento. 
Mas a parte interessante e que deixou Rui Pinto muito orgulhoso foi o louvor que se insere abaixo, do Comandante da Companhia, sem contar com outros que lhe foram atribuídos, porquanto continuou a dedicar-se à música, mesmo em “teatro de guerra”, junto dos seus camaradas. Da sua caderneta militar extraímos o seguinte: “Louvado pelo Comandante da Companhia de Caçadores 768, Batalhão 770, porque fazendo parte do conjunto musical do Batalhão de Caçadores 770 em acumulação  com as funções normais de serviço, contribuiu para a melhoria da moral do pessoal não só do Batalhão mas também de outras unidades, integrado como último recurso * no conjunto musical há cerca de 5 meses e de salientar a sua actividade entusiasta e muito dedicado sem a qual aquele conjunto teria de ser extinto (Ordem de Serviço nº. 83).”
*Esta integração, substituindo o anterior baterista, deveu-se ao facto de este ter desertado, continuando o Rui Pinto como vocalista e simultaneamente baterista.
Rui Luciano Mendes Pinto, cumprido o serviço militar obrigatório, veio a integrar os órgãos sociais deste Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes e passou a exercer nova atividade profissional na área das vendas, tendo sido vendedor em várias empresas, como a Tricogom, Lanofabril com os Fios Tricot e, por último, a Delta Cafés.
João de Jesus Nunes
(In “O Combatente da Estrela”, nº. 137-DEZ/2024)

11 de dezembro de 2024

DEDICAÇÃO À ESCRITA HÁ 60 ANOS

 


Neste milénio em que vivemos no século XXI, quase alcançando duas décadas e meia do mesmo, estamos em mais um final de ano, acrescentando muito para contar no que vai ficar para a história. Se algo há de positivo, paradoxalmente temos muito de desconfortável para as nossas vidas.
Sempre assim foi. Desde os tempos primitivos. Os humanos tendem a não se entender. Muitas e longas guerras já existiram neste Planeta. No entanto, a esperança é a última coisa a desaparecer, como sói dizer-se. 
Escrevo esta crónica num domingo de frio cortante. Na véspera do mesmo participei num Jantar de Natal, para Escritores e Músicos da Covilhã, num restaurante desta Cidade, onde tive o prazer de confraternizar com muitos outros do contexto literário e jornalístico onde nos inserimos, para além de outros de âmbito musical, e não só, onde a cultura manteve o vínculo do interesse que a todos se unia.
Em seis décadas foi a primeira vez que participei num evento desta natureza à volta de uma mesa onde os prazeres gastronómicos com os da confraternização cultural, num contexto de interesses do mesmo âmbito se evidenciaram na avidez de prosseguir em prol da cultura citadina e não só.
Lembrados que foram alguns dos que já partiram deste grupo literário e jornalístico, um ou outro soltaria da sua voz aquele “Grito do Ipiranga” em momentos do peso da poesia sentida. A longevidade daquele que, embora doente desprezou esse seu estado mórbido e declamou vibrantemente uma poesia de Alexandre O’Neill com que terminaria este excelente convívio foi a cereja em cima do bolo.
Também eu me senti orgulhoso, no sossego dos meus pensamentos, porquanto sabia que estava ali, sem que o grupo soubesse ou adivinhasse, a ter dedicado sessenta anos à escrita, cuja “efeméride” deste ano se iniciou em 14 de novembro de 1964 no semanário Notícias da Covilhã (NC). Neste periódico escrevi 397 crónicas e artigos até 15 de novembro de 2018, encerrando uma colaboração de 54 anos. 
Mas é então que encontro lugar para transmitir muito do que escrevi. Até hoje, somam-se 866 crónicas em vários periódicos, alguns já desaparecidos. Destaco o semanário Jornal Fórum Covilhã (FC), composto por jornalistas formados na Universidade da Beira Interior. Nele, publiquei 146 crónicas entre 10/09/2013 a 27/11/2024, ou seja, em 11 anos. Acresce que agora com a Rádio Jornal Fórum tornou-se um jornal de grande atratividade.
Mas um carinho muito especial vai para o quinzenário algarvio O Olhanense, o segundo onde mais colaboro em termos de crónicas, num total de 103 exclusivas, mas que, adicionadas de mais 262 que também publicava no NC e FC, num período em que a minha vida profissional não me permitia escrever em exclusivo em tantos jornais, é o periódico por quem tenho muito respeito e simpatia. Nele colaboro ininterruptamente há 30 anos, quinzenalmente, desde 15-06-1994.
Penso, por isso, que sou o cronista há mais tempo a escrever de âmbito jornalístico, na Covilhã e talvez na Região. 
Por vezes, de vários pontos do País chega-me a surpresa de que já me conhecem. À minha pergunta de qual a origem, indicam-me o Jornal.
Ao longo de 60 anos, publiquei 866 crónicas exclusivas, com 439 textos republicados em outros periódicos. O total de 1 305 textos foi publicado em 34 jornais e revistas, com destaque para: Notícias da Covilhã, Jornal do Fundão, Gazeta do Interior, Record, O Olhanense, Tribuna Desportiva, Reconquista, A Guarda, O Leão da Serra, Voz do Trabalho, Sporting, Diário XXI, O Interior, Já Agora, Notícias de Gouveia, Porta da Estrela, Essencial Seguros, Notícias Magazine, Jornal Fórum Covilhã, Boletim Português da Sociedade de São Vicente de Paulo, Selfieseguros, O Combatente da Estrela. Noutro periódicos dispersos ou revistas únicas: Fronteiros da Beira (RI 12 – Guarda), em 1971; Ecos da APAE; Associação de Futebol de Castelo Branco – Covilhã Desportiva – I Torneio Quadrangular Cidade da Covilhã, em 1995; Boletim Informativo nº. 1 (Casa da Covilhã, em Lisboa), em 2014; Maisfutebol (digital), em 2014; Euronotícia (Europeia de Seguros); WinInforma – Revista de Mediadores (Europeia/Winterthur), em 1996; Verde e Branco – Sporting Clube da Covilhã – 2022; Velhas Glórias do Sporting Clube da Covilhã num encontro de amizade no Futebol Clube Estrela de Unhais da Serra; Vida Económica (Separada de Seguros); Liberty em Acção; Cinco Quinas.
No entanto, a veia para a escrita foi ainda para a publicação de 12 obras, algumas delas por solicitação interessada de entidades: “APAE – Associação dos Antigos Professores, Alunos e Empregados da Escola Campos Melo da Covilhã – 9 Anos de Actividades Culturais ao Serviço da Cidade e do Concelho – 1983 -1992”; “Subsídios para a História do Sporting Clube da Covilhã1992”; “Figuras e Factos do Sporting Clube da Covilhã – 1993”; “Sporting Clube da Covilhã – Passado e Presente- 1998”; “A Conferência de S. Vicente de Paulo na Paróquia de Nossa Senhora da Conceição da Covilhã no seu Centenário – 19-03-1903 – 19-03-2003)”; “Vida e Obra dos Bombeiros Voluntários da Covilhã (em dois volumes): I – Ontem e Hoje, II – Vultos da Sua História – 2004”; “Sporting Clube da Covilhã na Taça de Portugal – Cinquentenário da sua Participação na Final – 2007”; “Ernesto Cruz – Um Visionário da Indústria, Um Industrial do seu Tempo – 2010”; “Breve Resenha do Centro de Recreio Popular Estrela Desportiva de São Pedro – 1944 – 1972, no ano 2015”; “O Documento Antigo – Uma Outra Forma de Ver os Seguros – 2018”; “Da Montanha ao Vale – As Viagens de Um Grupo de Tertulianos – 2022”; “Recordar é Viver – 2022”.
Por último, porquanto este detalhe certamente já estará a ser objeto de enfado para os prezados Leitores, informo que foram feitas 61 referências às minhas obras em algumas das várias publicações atrás mencionadas, e mais as seguintes: O Jogo (1992), A Bola (1992), El Adelanto (Salamanca) – 1993, Correio da Manhã (1993, Diário de Coimbra (1993), Agenda Cultural da Covilhã – Edição CMC (1999), Florinda (1999), Boletim Municipal da CMC, Ubi et Orbi – 2010, Revista do Jornal do Fundão (2010), Kaminhos (digital) – 2010.
Com estas palavras, desejo a todos os Prezados Leitores, suas famílias e a todos os obreiros deste jornal, um Santo Natal e um Próspero Ano Novo.
João de Jesus Nunes
jjnunes6200@gmail.com
(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 11-12-2024)

4 de dezembro de 2024

HÁ 52 ANOS VIVI E TRABALHEI NO SOITO

 

Corria o ano de 1972. Tinha acabado de terminar o serviço militar obrigatório no RI 12, na Guarda, trabalhava na edilidade covilhanense. Apesar de ter ficado em 1º lugar num concurso para promoção a categoria superior, enfrentei apenas barreiras e desilusões. Naquele tempo, o funcionalismo público ficava muito aquém do setor privado em oportunidades e condições de trabalho. Os serviços de saúde eram inexistentes. Mesmo assim, casei e já esperava o segundo filho, o que me levou a buscar novos horizontes profissionais. 

Face a uma confusão, acabo por encontrar emprego no Sabugal, pensava eu. Pergunto onde fica a empresa Refrigerantes Cristalina, Lda. Dizem-me que é no Soito, a cerca de 18 Km. Digo ao colega e amigo que me deu boleia da Covilhã para o Sabugal:

 - Volta para trás, s.f.f. Resposta imediata do Fernando Paiva: - Se já viemos até aqui, vamos lá! É a ele que lhe devo ter mudado a minha vida. No Soito, apresentando os meus argumentos ao empresário João Oliveira, acabei por imediatamente ficar ali. O salário mais que duplicava o que anteriormente auferia.

Era agora necessário obter a carta de condução, pois de duas vezes que vim da Covilhã para o Soito, de comboio e autocarro, com transbordos, acabava por chegar tarde ao emprego. 

Encontro no Sabugal a Escola de Condução do meu conterrâneo António Sardinha Mendes da Paula que tinha a esposa, professora primária, natural de Rapoula do Côa. Obtenho a carta de condução fazendo exame em Coimbra.

Mas começam a surgir-me convites de participações em exames que fizera, de acesso a empregos para os quais tinha concorrido. Naquela altura, só depois do serviço militar cumprido se conseguia um emprego estável. Chamaram-me para o Banco Nacional Ultramarino em Setúbal, após ter obtido “Bom” no exame realizado na sede do Banco em Lisboa. Porém, o vencimento mesmo assim inferior, a longa distância, e o nascimento do meu filho levaram-me a desistir.

Mas a minha vida no Soito, nos anos 70, contrastava com os hábitos urbanos que eu conhecia. O Soito daquela época não tinha as condições atuais. Era uma aldeia simples, com fábricas de confeções, gelados e refrigerantes, mas com infraestrutura limitada a única rua que terminava em casas de granito, muito degradadas. Dois ou três cafés. Um colégio particular servia em grande parte a população jovem que distava mais de dúzia e meia de Km da sede do concelho – o Sabugal, onde a empresa de camionagem Vª Monteiro & Irmão, Lda, já centenária, ainda desenvolve a sua atividade.

Acordar ao tilintar e mugir dos bois, e desviar-me da bosta que os animais deixavam sobre aquela estrada de alcatrão até à fábrica, era algo que me custava a habituar, enquanto via algumas mulheres a caminho da ribeira para lavaram a roupa.

A carrada de lenha que havia adquirido para a lareira da casa acabada de construir, de emigrantes, que aluguei, ali ficou quase toda na garagem. Um feliz convite para chefiar os escritórios da Companhia Europeia de Seguros na Covilhã chegou por via de um telefonema, num feliz dia, para a fábrica onde trabalhava. Aceitei o convite e iniciei um novo capítulo profissional.

Não valeram as tentativas de persuasão de João Oliveira, muito voltado para os Cursos de Cristandade, de que também ali tinha um médico residente, dentista que fazia clínica geral, e um posto de correios. Assim como a sugestão que já nos havia colocado, em um número restrito de empregados, para podermos vir a fazer parte da sociedade que estava em formação na Guarda, uma fábrica de iogurtes, com a qual o filho Fernando Oliveira, então a completar o curso de Economia, não concordava, me demoveram da intenção de seguir novo rumo. Tinha eu então adquirido um Opel Kadett usado com que já me podia deslocar, mas a Seguradora entregou-me também a parte comercial da empresa nos distritos de Castelo Branco e Guarda, e, confiou-me uma viatura nova – um Simca 1100, que trouxe de Lisboa, após ter completado uma formação.

E assim se transformou uma vida que iria desenvolver-se, em grande parte, na atividade no Sabugal, a partir de junho de 1973. Aqui dei ensejo a muitas amizades. De uma vida de sedentário quase passou a nómada, tais foram as várias moradas que tive que posteriormente conseguir.

Em agosto desse ano de 1973 estava já eu com um grupo de clientes e um agente a tomar umas cervejas à noite, na Sacor do Sabugal, antes de regressar à Covilhã. Ouvia na televisão, ainda a preto e branco, o ministro Veiga Simão a anunciar a reforma do ensino. E qual não foi a minha alegria ao ouvir a criação de vários Institutos Politécnicos, anunciando o primeiro na Covilhã, que hoje é a Universidade da Beira Interior, logo seguido de outros. De regresso à minha cidade, e com a responsabilidade comercial nos referidos distritos, bem como a gestão dum escritório afeto aos mesmos, foi um enriquecimento de conhecimentos, de amizades, de entusiasmo no que fazia, cabendo-me a formação de agentes ainda limitados a contratos com as condições gerais das seguradoras uniformes onde a liberalização só viria a surgir após a Revolução dos Cravos. Os seguros obrigatórios ainda eram inexistes, o único era o de acidentes de trabalho. Viria a surgir o primeiro seguro obrigatório de Caçadores e depois o do ramo Automóveis, sendo que ainda não havia seguros multirriscos de habitação.

Todas as facetas duma nova vida que se prolongaria por mais de quatro décadas, levaram-me a muitos recantos do país numa viragem que já não se coadunava com o mugir dos bois do Soito, mas projetaram-me também para viagens ao estrangeiro.

Embora a vida tenha seguido outro rumo, guardo no coração as amizades e aprendizagens que construí no Soito. Este capítulo foi essencial para moldar a minha trajetória. No Sabugal não posso esquecer as boas gentes sabugalenses com que viria a gerar negócios e amizades verdadeiras, tais como Alcino Monteiro, Raul e Luís Rastreiro, da empresa de camionagem já referida, António José Natário e outros. 


João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Cinco Quinas”, de dezembro de 2024)


27 de novembro de 2024

“DÁ-ME A NAVALHA SE NÃO FICAS SÓ”

 

Creio ser, nesta altura, quem escreve regularmente nos jornais há mais tempo nesta cidade, conhecida tanto pelo seu passado laneiro quanto pelo ambiente universitário atual, desde meados da década de sessenta do século XX. Entre cerca de trinta jornais e revistas distribuídos pela Covilhã, região beirã e outras partes do país, foi aqui que as digitalizações dos meus dedos, antes em máquinas de escrever e agora em computadores, transformaram inspiração e estudos em publicações impressas. Muitos desses jornais e revistas, vale notar, já não existem. 

E, porque estamos no final do ano e na aproximação da época natalícia, já se começam a fazer os arranjos alusivos com iluminações em muitas cidades e vilas de Portugal. A Covilhã não foge à regra. Em tempos, essas iluminações eram responsabilidade direta das edilidades, sendo realizadas, no caso específico da Covilhã, pelos antigos Serviços Municipalizados, sob a direção de Alexandre Galvão Aibéo, um homem de grande engenho. 

Almoços e jantares de Natal com grupos de amigos em coletividades, instituições ou de modo particular, já começaram a ser agendados, sendo que os da família têm um tratamento especial. Lá estarei na habitual “Couvada”, num desses eventos organizados no âmbito da “velha guarda” profissional e não só, com as memórias daqueles que, felizmente, ainda se podem reunir. Foi num desses ambientes, onde continuamos a partilhar nossos pontos de vista, que me foi “imposto” contar a história da atividade profissional que todos exercemos durante longos anos. Assim nasceu uma obra, envolvendo paradoxalmente aqueles que terminaram as suas carreiras e os que ainda a exercem, num denominador comum enriquecedor de cultura.

Para o Jornal Fórum Covilhã, trazemos, em ambiente descontraído, pedaços romanescos que dão substância à obra * na qual esses mesmos foram inseridos.

“O Zé do Megane interrompe e diz: - Meus amigos, há pouco falámos do ‘prémio’ que vinha do latim. A propósito, lembro-me de quando eu era menino e me preparava para fazer a primeira comunhão em Freixo de Espada à Cinta, onde vivia com os meus avós. Naquela época, a missa ainda era em latim, com o padre de costas voltadas para os fiéis. O sacristão precisava responder em latim durante a missa, e frequentemente alguns rapazes, já crescidos, faziam o papel do sacristão, ajudando o padre na Celebração Eucarística. 

Um desses rapazes tinha um canivete que usava na agricultura e brincava com ele entre os colegas, ainda na sacristia, antes de começar a missa.

O padre já o havia alertado para guardar o canivete, que era grande e, de certo modo, perigoso.  Naquele dia o rapaz ajudante acabou ficando sem a navalha, que o padre lhe retirou e guardou no bolso da batina preta, cheia de botões de cima a baixo, como se usava então.

A missa começa e quando o sacerdote dizia ‘Dominus vobiscum’ (‘O Senhor esteja convosco’), o sacristão ou o ajudante respondia ‘Et cum spiritu tuo’ (‘E com o teu espírito’). Era um sacramental antigo, uma saudação tradicional do clero no Rito Romano. Naquela época, os fiéis quase não respondiam a nada, e grande parte da missa era recitada apenas pelo padre e pelo sacristão, em latim. O rapaz estava distraído, pensativo: ‘O senhor Prior ficou-me com a navalha, raio do padre que me ficou com a navalha...’  

Um dos fiéis a seu lado bateu-lhe no ombro, lembrando-o de responder ao sacerdote, que já havia olhado para trás. Nessa altura, o padre repetiu ‘Dominus vobiscum!’  O rapaz, ainda a pensar na navalha, respondeu, em alta voz: ‘Et cum spiritu tuó, dá-me a navalha se não ficas só!’”


*In “O Documento Antigo – Uma outra forma de ver os Seguros”, com adaptação.


João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 27-11-2024)


19 de novembro de 2024

O LEITOR MAIS ANTIGO DA BIBLIOTECA MUNICIPAL DA COVILHÃ TAMBÉM LÊ “O OLHANENSE”

 

Entrei na Biblioteca Municipal para consultar uma obra, sem deixar de lado a curiosidade de ver a estante onde estão catalogados alguns dos meus primeiros livros que escrevi. Foi então que encontrei um amigo e companheiro de biblioteca dos velhos tempos, atento à leitura do jornal “O Olhanense”.

Sucedeu um avivar de memórias daqueles tempos, ainda na antiga Biblioteca Municipal, situada perto do Jardim Municipal. E não é que, palavra puxa palavra, ele me autoriza a fazer uma entrevista para este quinzenário, aproveitando a oportunidade para destacar uma figura simples, mas dedicada à leitura há mais de sete décadas?

Francisco Pereira de Sousa, natural de Caria, no concelho de Belmonte, mudou-se para a Covilhã com seus pais ainda em 1940, quando era criança (nasceu no dia 2 de setembro de 1937). Radicado na cidade desde então, aqui construiu a sua vida e segue ativo aos 87 anos. Tem três filhos.

Numa altura em que o ensino básico era quase a única opção disponível e o secundário praticamente inexistente na cidade, com dificuldades de acesso ao liceu ou à Escola Industrial, Francisco Sousa começou a trabalhar aos 12 anos no comércio local. Iniciou-se como empregado de balcão, tornando-se posteriormente encarregado de uma loja durante 20 anos. Mais tarde, atuou como vendedor ao longo de 37 anos, passando a trabalhar por conta própria com um armazém de tecidos, malhas e miudezas. 

Vivendo perto da antiga Biblioteca Municipal, encontrou nela o antídoto para a falta de entretenimento no dia a dia. Naquela época, o futebol aos domingos supria parte dessa carência para muitos, enquanto outros recorriam às tabernas ou passavam algum tempo nos Centros de Recreio Popular então existentes.

Quis o destino que sua atual morada se situasse também perto da nova Biblioteca Municipal, na parte moderna da cidade, onde deu continuidade ao seu gosto pela leitura, não só de livros, mas também de jornais. Foi assim que aconteceu com “O Olhanense”.

- “Olhe. Sr. Nunes, ainda me recordo de ver jogar pelo Olhanense, no Santos Pinto, na Covilhã, com o Sporting da Covilhã, de que era sócio, nomes como o Reina, Luciano, Madeira, Cava e o Parra, ou de ouvir falar deles”.

Pois é, os Leões da Serra jogaram na I Divisão com o Sp. Olhanense, nas épocas 1948/1949, 1949/50, 1950/51 e 1961/62, em tempos que já lá vão de boas memórias. E este facto já o reportei algumas vezes neste quinzenário.

Apesar da longevidade do entrevistado, ele mantém uma memória e gosto pela leitura invejáveis, contrastando com muitos que se deixaram envolver numa certa passividade cultural, muito fruto dos novos tempos que roubam um certo tempo ao tempo, como os canais de televisão e as redes sociais.

Deixo o amigo Francisco Sousa, que foi associado de várias coletividades e instituições antigas da Covilhã, algumas das quais ainda se mantém no ativo, como, por exemplo, sócio nº. 3 dos Leões da Floresta; integrou também os órgãos sociais de outras, como o Arsenal de São Francisco. Ele deixou uma interessante memória escrita que versa sobre a cidade naqueles tempos, altura em que o Sporting Clube da Covilhã atingiu o seu auge, com a subida à I Divisão, iniciando-se na época 1948/49, numa luta titânica com o Barreirense; a conquista da Taça “O Século”, recebida no Estádio da Tapadinha, em Alcântara, em 6/6/1948, onde foi disputar os 1/16 avos da final com o Atlético; e, posteriormente, um honroso 5º lugar na I Divisão, em 1955/56 e a final da Taça de Portugal, disputada com o Benfica, no dia 2 de junho de 1957, no Estádio Nacional. 

Hino que se cantava na cidade: “A cidade canta um hino que encanta/é uma animação, dando grandes vivas/, muitas alá-ribas/ao Sporting da Covilhã.

Que justo venceu/e assim mereceu/as festas que lhe fizeram/Honra lhe pertence/vence o Barreirense/honrando as barbas do pai.*

Na baliza, Ramalhoso tão bem se soube portar/E José Pedro, Pedro Costa e Roqui/homens de grande valor!/Fialho, Carlos Ferreira, Livramento, e Teixeira**/com Szabo*** o treinador (bis).”

*Sporting Clube de Portugal, do qual o SCC é a 8ª filial, o qual dominava na altura.

**Teixeira da Silva que mais tarde jogou no Belenenses

***Treinador e jogador do SCC.”

Francisco Sousa ainda quis recordar outros versos alusivos, e as janeiras que se cantavam na Covilhã na década de cinquenta do século passado, pela Banda da Covilhã, cuja receita era repartida a favor do Albergue dos Inválidos do Trabalho, hoje Lar de São José; e pela Creche do Menino Jesus, que se chamava na altura Florinhas da Rua. 

O nosso entrevistado aproveita esta oportunidade para desejar o renascimento do Sporting Clube Olhanense, dar os parabéns aos obreiros do Jornal Olhanense, merecendo-lhe a maior consideração por verificar que ultrapassa o âmbito desportivo, tem vários colaboradores com temas diferentes e gosta das gentes algarvias.


João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 15-11-2024)



6 de novembro de 2024

EM REDOR DE UM MONUMENTO CENTENÁRIO










 Já muito escrevi sobre o Monumento de Nossa Senhora da Conceição, da Covilhã, que foi inaugurado há 120 anos, longevidade completada no dia 10 de outubro deste ano de 2024.

Na minha crónica para o Notícias da Covilhã, em 19-03-2004, quando se aproximava o centenário, fiz referência a vários eventos que aconteceram em redor deste monumento, local aprazível e de silêncio, no recinto que é para muitos uma forma de encontrar um lenitivo, nas preces ou agradecimentos à Senhora da Conceição.

A imagem que se encontra no monumento está apresentada na configuração de Nossa Senhora de Lourdes mas é designada de Nossa Senhora da Conceição, tal como se encontra na paróquia da Covilhã com este nome. 

O engano deve-se ao facto de quando uma comissão de pessoas gradas da Covilhã resolveu mandar fazer a imagem de Nossa Senhora da Conceição, e a ter encomendado em França, aqui a confundiram com outra. Ao ser recebida a imagem encomendada, na Covilhã, verificaram então que a mesma se apresentava com as feições de Nossa Senhora de Lourdes, lapso devido ao facto de, para os franceses, o título de Conceição era para Lourdes, que apareceu a Bernardette Soubiroug, dizendo: “Eu sou a Imaculada Conceição”. Daí a confusão, que acabou normalmente por ser aceite.

Todos os acontecimentos solenes relacionados com o monumento agitaram o meio citadino, concelho e região. O ponto inicial era na Igreja de Nossa Senhora da Conceição. Multidões de pessoas, em trajetos por várias ruas e caminhos, dirigiam-se para o monumento. 

Assim aconteceu por ocasião da inauguração em 10 de outubro de 1904, pelo Bispo da Diocese da Guarda, D. Manuel Vieira de Matos. 

Outros grandes eventos aqui ocorreram, como de 26 a 29 de maio de 1954, com o “Grande Congresso Mariano da Diocese da Guarda”, no centenário de definição dogmática da Imaculada Conceição. Segundo o Notícias da Covilhã, calcularam-se em 50 000 pessoas que assistiram à procissão para o monumento de Nossa Senhora da Conceição e tomaram parte no encerramento do Congresso.  A cidade estava artisticamente engalanada, com milhares de lâmpadas no exterior das casas particulares, nos edifícios públicos e nas igrejas, ao longo do percurso. Das janelas caíam chuvas de flores e os cânticos ecoavam por toda a parte.

Vieram gentes de perto do Douro e das vizinhanças de Castelo Branco, das terras fronteiriças do Sabugal e das mais afastadas nos recantos da Serra da Estrela. Foi uma forma de celebrar por antecipação o cinquentenário da fundação do monumento. 

Recordo-me de ter lá estado com a minha família, no meio de uma imensidão de gente, distribuída por todo o recinto e fora dele, durante longas cerimónias, sentados em mantas de ourelos e almofadas, na encosta dos terrenos, à sombra dos muitos pinheiros então existentes, e com as merendas levadas de casa. Tinha 8 anos e deslumbrava-me ao ver uma avioneta a lançar flores sobre o monumento.

De 27 a 29 de junho de 1958, celebraram-se as “Festas Comemorativas do Centenário de Lourdes”. As solenidades culminaram com a romagem das freguesias do Concelho da Covilhã e de toda a região ao monumento, promovidas pela Diocese da Guarda, onde tomaram parte cerca de 20 000 pessoas, conforme regista o Notícias da Covilhã. Teve a presença do Núncio Apostólico, Cardeal D. Fernando Cento. Todos os párocos, e até escolas primárias, prepararam este evento. Distribuíram-se muitas bandeirinhas com as cores do Vaticano, aguardando a vinda do Núncio Apostólico, que foi recebido apoteoticamente no limite do distrito pelo Governador Civil e pelo Presidente da Câmara da Covilhã, Dr. José Ranito Baltazar.

À noite, a cidade apareceu com um aspeto verdadeiramente deslumbrante: as torres das igrejas, os edifícios públicos e particulares, praças, ruas e jardins surgiam iluminadas através de muitos milhares de lâmpadas e focos de luz. Espetáculo maravilhoso e raro que chamou à via pública considerável multidão. Trabalho executado sob a égide e saber de Alexandre Galvão Aibéo.

No edifício novo da Câmara Municipal da Covilhã, que iria ser inaugurado em 11 de outubro do mesmo ano, encontrava-se uma expressiva silhueta de Pio XII, aureolado pelo artístico dispositivo de luz. 

Numa sessão solene na Escola Industrial e Comercial Campos Melo da Covilhã, com a presença do Cardeal D. Fernando Cento, além da intervenção do seu Diretor, Engº. Ernesto Melo e Castro, e de outras pessoas, brilhava, num recital neste evento, com várias poesias, a antiga aluna Maria Ivone Manteigueiro (mais tarde, também Vairinho, pelo casamento), de 22 anos. *

No ano de 1961, numa impressionante romagem ao monumento, fazia-se a entrega e colocação no mesmo, duma réplica da espada de D. Nuno Álvares Pereira (hoje São Nuno Álvares Pereira), algum tempo depois da apoteótica receção das Relíquias do Santo Condestável, em 20 de maio desse ano, recebidas no largo de São João de Malta, pelo Bispo da Guarda, D. Policarpo da Costa Vaz, e demais entidades oficiais, e instituições, onde se encontrava um pelotão de militares que estavam, na altura, sediados na Torre (Serra da Estrela ) – Pelotão da Esquadra nº. 3 do Grupo de Deteção, Alerta e Conduta de Intercepção n.º 1, que  fizeram guarda de honra.  O andor, com as relíquias, que chegaram já noite avançada, fora então transportado por deputados e outras entidades oficiais, e foi objeto de uma grande saudação nos Paços do Concelho pelo Presidente da Câmara. 

Outros eventos ocorreram no Monumento de Nossa Senhora da Conceição, como a Bênção das Pastas dos finalistas da Universidade da Beira Interior (UBI). Ultimamente, face ao elevado número de finalistas, o evento tem sido transferido para o Complexo Desportivo da Covilhã.

Deixo deste local, fonte inspiradora de crónicas e de poesia para muitas gentes, a beleza de parte da que trago para os prezados Leitores, da grande poetisa covilhanense, escritora e mulher multifacetada que se radicaria em Lisboa, que já nos deixou, e que foi uma minha grande amiga, Maria Ivone Manteigueiro Vairinho:

“Covilhã, maio de 1958

Covilhã à Noite

É noite, noite de maio, calma e perfumada. Aqui do Monumento de Nossa Senhora da Conceição (local dos mais, senão o mais aprazível da cidade) contemplo a Covilhã de “fora para dentro” e, paradoxalmente, de “dentro para fora”. A imagem de Nossa Senhora ergue-se viva e suave na escuridão, olhando a cidade. Sigo o seu olhar… Espetáculo velho e sempre novo. De cada vez que a contemplo acho-lhe encantos novos, novos cambiantes, novas formas – nunca cansa. É um presépio enorme – pelo colorido e pela forma – que tenho ante os olhos. Pois se até tem o fundo habitual de qualquer presépio – serra levemente ondulada, talhada a pincel, onde um morro mais pronunciado põe um encanto especial. (…)” **

*Teve também um papel importante num recital realizado no Salão Nobre dos Paços do Concelho, no Dia da Cidade de 1998, recitando a poesia “Lua Branca em Céu Azul”.

Maria Ivone Manteigueiro Vairinho nasceu na Covilhã em 27-02-1936 e faleceu em Lisboa em 07-09-2012, encontrando-se as suas cinzas no Cemitério da Covilhã, onde já estão alguns dos seus familiares. Foi homenageada pela Câmara Municipal da Covilhã, no Dia da Cidade, a título póstumo, em 20-10-2014, com a Medalha de Mérito Municipal, categoria Prata.


**O remanescente do texto poético pode ser lido na sua obra “Livro da Dor e da Esperança”, em cuja apresentação tive o prazer de estar presente, no Salão Nobre da CMC, no dia 17-12-1999, tendo sido autografado com as sublimes palavras: “Para o querido amigo João Nunes, com um abraço grande. Maria Ivone Vairinho. 17.12.99”.

João de Jesus Nunes                                                                                            jjnunes6200@gmail.com

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 06/11/2024)


CIDADE DA COVILHÃ E O DIA DA CIDADE





 O passado da Covilhã remonta aos tempos da romanização da Península Ibérica, quando foi castro proto-histórico, abrigo de pastores lusitanos e fortaleza romana conhecida por Cava Juliana ou Silia Hermínia. Quem mandou erguer as muralhas do primitivo castelo                                                                                      foi D. Sancho I que em 1186 concedeu foral de vila à Covilhã. E, mais tarde, foi D. Dinis que mandou construir as muralhas do admirável bairro medieval das Portas do Sol.
Era já na Idade Média uma das principais “vilas do reino”, situação em seguida confirmada pelo facto de grandes figuras naturais da cidade ou dos arredores se terem tornado determinantes em todos os grandes Descobrimentos dos séculos XV e XVI: o avanço no Oceano Atlântico, o caminho marítimo para a Índia, as descobertas da América e do Brasil, a primeira viagem de circum-navegação da Terra. Em plena expansão populacional quando surge o Renascimento, o sector económico tinha particular relevo na agricultura, pastorícia, fruticultura e floresta. O comércio e a indústria estavam em franco progresso. Gil Vicente cita “os muitos panos finos”. O Infante D. Henrique, conhecendo bem esta realidade, passou a ser “senhor” da Covilhã. A gesta dos Descobrimentos exigia verbas avultadas. As gentes da vila e seu concelho colaboraram não apenas através dos impostos, mas também com o potencial humano. 
A expansão para além-mar iniciou-se com a conquista de Ceuta em 1415. Personalidades da Covilhã como Frei Diogo Alves da Cunha, que se encontra sepultado na Igreja da Conceição, participaram no acontecimento. A presença de covilhanenses em todo o processo prolonga-se com Pêro da Covilhã (primeiro português a pisar terras de Moçambique e que enviou notícias a D. João II sobre o modo de atingir os locais onde se produziam as especiarias, preparando o Caminho Marítimo para a Índia), João Ramalho, Fernão Penteado e outros.
Entre os missionários encontramos o Beato Francisco Álvares, morto a caminho do Brasil; frei Pedro da Covilhã, capelão na expedição de Vasco da Gama para a Índia, o primeiro mártir da Índia; o padre Francisco Cabral, missionário no Japão; padre Gaspar Pais que de Goa partiu para a Abissínia; e muitos outros que levaram, juntamente com a fé, o nome da Covilhã para todas as partes do mundo. Os irmãos Rui e Francisco Faleiro, cosmógrafos, tornaram-se notáveis pelo conhecimento da ciência náutica. Renascentista é Frei Heitor Pinto, um dos primeiros portugueses a defender, publicamente, a identidade portuguesa. A sua obra literária está expressa na obra “Imagem da Vida Cristã”. Um verdadeiro clássico. 
A importância da Covilhã, neste período, explica-se não apenas pelo título de “notável” que lhe concedeu o rei D. Sebastião como também pelas obras aqui realizadas e na região pelos reis castelhanos. A Praça do Município foi até há poucos anos de estilo filipino. Nas ruas circundantes encontram-se vários vestígios desse estilo. No concelho também. Exemplos de estilo manuelino também se encontram na cidade. É o caso de uma janela manuelina da judiaria da Rua das Flores. É o momento de citar o arquiteto Mateus Fernandes, covilhanense, autor do projeto da porta de entrada para as Capelas Imperfeitas, no Mosteiro da Batalha.        
As duas ribeiras que descem da Serra da Estrela, Carpinteira e Degoldra, atravessam o núcleo urbano e estiveram na génese do desenvolvimento industrial. Elas forneciam a energia hidráulica que permitiam o laborar das fábricas. Junto a essas duas ribeiras deve hoje ser visto um interessante núcleo de arqueologia industrial, composto por dezenas de edifícios em ruínas. Nos dois locais são visíveis dezenas de antigas unidades, de entre as quais se referem a fábrica-escola fundada pelo Conde de Ericeira com 1681 junto à Carpinteira e a Real Fábrica de Panos criada pelo Marquês de Pombal em 1763 junto à ribeira da Degoldra. Esta é agora a sede da Universidade da Beira Interior na qual se deve visitar o Museu de Lanifícios, já considerado o melhor núcleo museológico desta indústria na Europa. A Covilhã foi, finalmente, elevada à categoria de cidade a 20 de outubro de 1870 pelo rei D. Luís I, por ser “uma da villas mais importantes do reino pela sua população e riqueza”.                         
Volvidos 154 anos, no dia 20 de outubro de 2024, foi, mais uma vez, o ensejo para se celebrar o Dia da Cidade, com as solenidades que os momentos impõem. Foi um programa que se iniciou no início deste mês de outubro e que se estendeu até ao dia 26 do mesmo mês, com homenagens, inaugurações, visitas a obras de investimentos, bem como outras iniciativas. 
Propriamente no Dia da Cidade, domingo, 20 de outubro, foram distinguidas 12 personalidades e três instituições.
Com a medalha de ouro de mérito municipal foram agraciadas a APPACDM da Covilhã (representada pelo Presidente, António Marques), a Casa da Covilhã em Lisboa que celebra este ano o centenário da sua fundação (representada pelo Presidente da Direção, Manuel Vaz), e a Escola Pêro da Covilhã (representada pelo Diretor da Escola, Dr. Jorge Crucho). 
Com a medalha de prata de mérito municipal foram agraciados o Engº. António Correia de Sá, administrador executivo das Minas da Panasqueira; o médico e professor universitário Carlos Casteleiro, que esteve na génese da criação do serviço de gastroenterologia na ULS da Cova da Beira; o professor e presidente da Direção dos Bombeiros Voluntários da Covilhã, Joaquim Matias; o Dr. Jorge Torrão, que foi quadro técnico superior do Inatel e Coordenador Desportivo para o Distrito de Castelo Branco; o Dr. José Curto Pereirinha (a título póstumo) que exerceu funções em várias empresas da indústria têxtil da Covilhã e foi administrador das Águas da Covilhã; José Fernandes de Lemos (a título póstumo) que foi presidente do Sindicato dos Trabalhadores dos Lanifícios, um dos obreiros da greve dos mil escudos e um resistente antifascista; o Dr. José Luís de Brito Rocha, licenciado em Farmácia e especialista em análises clínicas, presidente da direção do Lar de S. José, empresário, com um vasto currículo, incluindo no associativismo, com uma marca no Sporting Clube da Covilhã que o levou à Primeira Divisão Nacional; Luís Patrão (a título póstumo), licenciado em Direito, que foi Presidente do Turismo de Portugal, chefe de gabinete de dois primeiros-ministros e secretário de Estado; Manuel Carrola (a título póstumo), que foi dirigente e e presidente da Mesa da Assembleia Geral e do Conselho Fiscal do Sindicato Têxtil da Beira Baixa e membro da União de Sindicatos de Castelo Branco; o Dr. Miguel Castelo Branco, médico, professor universitário e político, presidente da Faculdade de Ciências da Saúde e foi Presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar da Cova da Beira; Rui Lourenço, empresário hoteleiro que criou a Residencial Santa Eufémia e a empresa de Construções Lourenço, Lda, construindo centenas de casas na Covilhã e Algarve, bem como o edifício do Centro Comercial do Sporting ou o Hotel Dona Maria; o Major-General Rui Tendeiro, natural da Covilhã, piloto-aviador e comandante Operacional da Madeira, tendo sido oficial de operações com ligação à Nato.
Muito, mas muito mais foi referido sobre as três instituições agraciadas e as ações desenvolvidas e currículos das 12 personalidades mencionadas, mas o espaço deste quinzenário é limitado, como de qualquer regular publicação. Fica o essencial e já muito se deve à deferência do diretor deste quinzenário para com o autor deste longo texto.

João de Jesus Nunes
jjnunes6200@gmail.com
(In “O Olhanense”, de 01-11-2024)