11 de outubro de 2023

PARA ONDE VAMOS?

 

Neste primeiro de outubro, mais próprio de um dia de verão, as notícias climáticas não são agradáveis. Culpa do homem. O meteorologista acabou há pouco de alertar num dos canais televisivos de que em Portugal nos deveremos habituar a ter unicamente duas estações. Até o fundo dos oceanos é quente, e, como tal, nocivo para a vivência no planeta.

Depois das férias, com uns mais preocupados do que outros, os bons jornalistas, de conceituadas publicações, deparam com as notícias “num mundo em plena desordem, em que é cada vez mais difícil detetar os principais fios condutores e as grandes tendências que nos permitem, normalmente, interpretá-lo”. Nesta preocupação surge Teresa de Sousa, do Público. É que vivemos num desses momentos de grande turbulência internacional. É a transição entre duas ordens mundiais, ou seja, a que conhecemos nas últimas décadas, construída pelos Estados Unidos depois da II Guerra Mundial. Liberal e assente em regras. A outra, ainda desconhecemos os seus contornos, em grande parte. De harmonia com o que escreveu a diretora da revista britânica The Economist, começa por lembrar que desde que a China passou a integrar a economia global, nos anos 1980, o seu crescimento foi o mais espetacular que alguma vez a História registou. A economia chinesa “cresceu à taxa anualizada de apenas 3,2% no segundo trimestre”, face aos 40 anos em que a sua economia se encontrava. Terrível para os padrões chineses, sobretudo se compararmos com o crescimento da economia americana de quase 6% no mesmo período.

Segundo a tese da revista britânica, as políticas económicas defendidas pelo presidente chinês apenas agravarão o problema porque o seu objetivo principal deixou de ser o crescimento económico para passar a ser a segurança, na rivalidade com a superpotência americana.

Na cimeira dos BRICS que decorreu em Joanesburgo, na África do Sul, os países passaram a ser onze. Mais que duplicaram o número dos seus membros. Eram inicialmente quatro, sendo certo que BRIC significa Brasil, Rússia, Índia e China. Juntou-se-lhes depois a África do Sul. Agora estes convidaram mais seis países: Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Irão, Argentina, Etiópia e Egipto. Já a Indonésia não aceitou integrar este grupo, que é o maior país islâmico do mundo, com uma economia poderosa e uma população de 200 milhões e pessoas, no Sudoeste Asiático.

Não deixa de ser desagradável, quase ofensivo, o facto de países democráticos, como o Brasil, Índia ou África do Sul, terem aceitado sem qualquer problema “coabitar com teocracias ignóbeis como o Irão e a Arábia Saudita”.

A China foi o grande impulsionador deste alargamento. Sozinha, já representava 70% da riqueza dos BRICS. Consolidar um grupo de países importantes do Sul Global capaz de rivalizar com o G7 é uma parte fundamental da sua estratégia. À Índia cabe-lhe, durante este ano, presidir ao G20 criado por iniciativa da França e dos Estados Unidos, em 1999, para integrar as principais economias emergentes, grandes e médias, que não se sentiam devidamente representadas nas estruturas das Nações Unidas, e para responder ao mundo que emergia do fim da Guerra Fria.

O presidente russo não esteve presente nas cimeiras organizadas por se ter tornado uma figura muito incómoda para todos os subscritores dos estatutos do Tribunal Penal Internacional, que devem cumprir os respetivos mandados de captura, como no caso de Vladimir Putin.

O G7 reúne democracias liberais que partilham os mesmos valores fundamentais da democracia e do Estado de direito. Não existe essa unidade, neste novo grupo, que reúne teocracias violentas, regimes totalitários como o chinês, ditaduras agressivas e expansionistas como a russa, onde Putin transformou o seu país num verdadeiro Estado-máfia, em que os opositores são pura e simplesmente assassinados.

O alargamento dos BRICS representa uma tendência que não deve ser subestimada e que exige dos Estados Unidos e da Europa particular atenção.

O jornal Monde concluía, no seu editorial de 26 de agosto que “Ao passar de cinco para 11 países, os BRICS podem defender melhor os interesses do Sul Global. Mas as esperanças da China de reunir à sua volta uma frente antiamericana parecem menos realistas”.

Teresa de Sousa conclui no Público que “o nosso velho continente está a braços com uma guerra em grande escala, a maior desde a II Guerra Mundial, que ditará o nosso futuro coletivo – de paz e de prosperidade, como nos habituámos a viver, ou de insegurança e de profunda incerteza. O seu desfecho a favor da Ucrânia é vital”.

Questiono, pois, para onde iremos?

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

 

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 11-10-2023)


3 de outubro de 2023

OUTROS TEMPOS, OUTRAS VONTADES

 


Terminou o verão. Surgiu o outono.  Neste início ainda com alguns momentos de estiagem. As chuvas provocaram alguns contratempos. Ainda que necessárias.

Mais tempo para ler e escrever. Conforme os gostos, E as disponibilidades. Para uns sim, para outros não, e, para aqueloutros assim, assim. Em mão, algumas memórias de outrora. Como os tempos mudaram. Mais no âmbito da mulher. Onde a publicidade investia. E a ousadia surgia.

Aos mais novos nada lhes diz. Só a quem nasceu na “idade da pedra”. Como eu. Talvez sorriam. Na incerteza da autenticidade. Já nasceram com as novas tecnologias. Sobejamente conhecidas. Também a robótica. Agora a inteligência artificial. 

Um texto de João Ramos de Almeida, do Público. Já lá vão 15 anos. Para ele a contribuição de Luís Trindade. Doutorado sob a orientação de Fernando Rosas em História Cultural Contemporânea. “No início, encontrava-se sempre um produto, ou uma ideia. Que se pretendia vender como novo. Sob a aparência de uma mudança permanentemente radical. Muita coisa se mantém. É ver as imagens da publicidade. Em jornais e revistas. Ao longo do século XX. Revelam que a publicidade acompanhou os ventos sociais. Mas os valores e as aspirações parecem imutáveis.”

Publicidade em casa. Uma das grandes alterações foi a penetração da publicidade nos lares. Em 1925, a Vacuum Oil Company – que mais tarde deu lugar à Mobil e ExxonMobil – encenou um episódio doméstico.  Tratava-se de comercializar um fogareiro a petróleo. A originalidade do anúncio não é mostrar a dona de casa. Mas sim a criada. Roupas visivelmente rurais. Uma trouxa e lenço ao pescoço. “A creada despede-se”. Virando costas ao progresso trazido pelo “fogão”. Que “cozinha um jantar completo em menos de duas horas” ... A dona de casa, uma mulher moderna. Cabelo à “garçonne”. Sorria ao “senhor” que acabou de chegar. Ainda de sobretudo. E fato impecável. Traz nas suas mãos enluvadas a surpresa – o prosaico fogareiro. Usado pelas classes mais populares. E os dois estão felizes na cozinha. Num local onde socialmente não deveriam estar.

A mecanização das tarefas domésticas entraria muito anos depois. Sob a forma dos mais diversos produtos. A dona de casa passou a ser o elemento de contacto entre o homem cozinheiro profissional e o homem que prova o resultado. Como se vê num anúncio da margarina Vaqueiro (1958).

O homem passa a ser o sedutor. Com carro que atrai a mulher bonita. Ou socialmente bem instalada.

Num anúncio da Bosch (1999), o humor pisca o olho à independência da mulher. Mas também do homem.

Um jovem homem sem jeito para a lide doméstica: “O meu avô não lavava a louça, o meu pai não lavava a louça. Será possível continuar esta tradição?”. Sim, responde o anúncio. Compre uma máquina de lavar louça.

A revolução. Mais fugaz na publicidade é a política. A mulher “trabalhadora” do lar passa a ter uma palavra a dizer nos destinos do país (1974). Quase de torna a companheira de todos os portugueses.

Na publicidade, o sucesso será facilitado através da aparência. Se usar “a mais revolucionária das meias”, as suas pernas ficarão esguias e bonitas (1966). A rapariga que usa soutiãs Triumph (1970) “insinua-se” com um à-vontade “no ambiente de trabalho”. Maioritariamente masculino. Mas quase 30 anos depois, a evolução do ambiente parece já valorizar a mulher. Despreocupada e inteligente. Ainda que dependa de uns óculos Calvin Klein (1999).

A rápida sofisticação da publicidade funcionou igualmente, segundo Luís Trindade, in Público. Como “uma escola de ver anúncios”. Cada vez “mais subtis e mais eficazes”. O texto explicativo cedeu o lugar a uma publicidade. “Praticamente sem slogans, cujas mensagens são muito subliminares”. Nalguns casos, prescindiu até das imagens de produtos. Tornou-se abstrata. Passou a jogar-se cada vez mais com as emoções. E com os valores.

Apesar dessa evolução, o que foi que não mudou? “A resposta passa outra vez pelo mesmo: as estruturas sociais”. Como refere o professor Luís Trindade. Trata-se sempre de uma venda. E de uma “venda para as maiorias”. São mais conservadoras do que as margens da sociedade. O prestígio continua do lado dos privilegiados.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

                                                                        (In “O Olhanense”, de 01-10-2023)

30 de setembro de 2023

OS MALANDROS NO FACEBOOK

Há muito tempo que uns tratantes se infiltram nas redes sociais, e, neste caso, no Facebook, com intenções malévolas, enganando os "amigos" do Face, e não só, com indicações várias, nomeadamente com novos pedidos de amizade. 

Depois surgem mensagens enganadoras, colocando algumas vezes em jogo a reputação dos verdadeiros amigos, e outras perniciosas coisas mais.

Já fui algumas vezes incauto, nestas situações, dado que utilizo muito a Internet, em várias vertentes.

Assim, venho, mais uma vez, informar que se alguém pedir amizade em meu nome, ou escrever mensagens  também em meu nome, fizer ofertas de venda da Lua, em meu nome, verifique bem a proveniência e, em caso de dúvida, ou se já for "Amigo", vale mais perguntar se fui eu que pedi novamente amizade ou coloquei novo perfil. É fácil verificar. Convém denunciar o caso. No entanto o meu telemóvel está disponível para os devidos esclarecimentos:  - 965088169. 

Obrigado.

João de Jesus Nunes

20 de setembro de 2023

DA PULHICE DO “HOMO SAPIENS” À REVIRAVOLTA PARA A DEMOCRACIA

 


Na procura de um livro numa das prateleiras da minha biblioteca, veio-me à mão, amarelecido devido ao seu envelhecimento de nove décadas, o livro Da pulhice do “Homo Sapiens”, de Humberto Delgado, o qual, entre parêntesis ainda adiciona, na capa (Da Monarquia de vigaristas pela República de bandidos – à Ditadura de papa). Publicado em 1933, foi o primeiro livro de Humberto Delgado e perfaz precisamente 90 anos neste ano de 2023.

Não é tanto pela antiguidade da obra em si, pois possuo outro ainda mais antigo, com 144 anos (Manual Encyclopedico para uso das Escolas de Instrucção Primária), editado em 1879, mas pelo simples facto da figura histórica que o mesmo envolve.

Na data da publicação do primeiro livro de Humberto Delgado, tinha ele 27 anos e Salazar já estava no governo de Portugal desde 1926 (duas semanas), e, depois (em diante), desde 1928 até 1968/70... Começou a escrevê-lo em 1931, inspirado a partir da leitura dos feitos de Mouzinho de Albuquerque em Moçambique e em particular na chamada “pacificação” dos vátuas e do seu imperador, Gungunhana.

Segundo alguns analistas, é um importante documento de história política, em que o autor, socorrendo-se de uma linguagem cáustica e interpretando o estado da sociedade e da política portuguesa de novecentos, traça um quadro em que ressaltam as grandes dificuldades de Portugal nos anos que antecederam o final da Monarquia, e criticando, de igual forma, os homens da República e a sua atuação após o 5 de outubro.

Exprime ainda o seu descontentamento acerca de certas práticas da Ditadura que se instala após o golpe de 1926, porém, a sua visão geral desta é favorável. Não se inibe de contradizer de forma colérica e aviltante os detratores ideológicos de Salazar e do Estado Novo, personalidade que descreve como “Grande Homem”.

Participou no movimento militar de 28 de maio de 1926, que derrubou a República Parlamentar e implantou a Ditadura Militar que, poucos anos mais tarde, em 1933, iria dar lugar ao Estado Novo liderado por Salazar. Durante muitos anos apoiou as posições oficiais do regime salazarista, particularmente o seu anticomunismo.

Senhor de um caráter dinâmico, extrovertido e agressivo, Humberto Delgado destacou-se pela sua oposição à democracia parlamentar nos primeiros anos do regime, escrevendo o livro polémico a que fazemos referência. Já vimos que também nele manifesta simpatia por Salazar e a sua obra, e em 1941 Humberto Delgado chega publicamente a assumir simpatia por Hitler. No entanto, com o decorrer da II Guerra Mundial, as suas simpatias passaram para os Aliados.

Surge, entretanto, a sua oposição ao regime. Os cinco anos que viveu nos Estados Unidos modificam a sua forma de encarar a política portuguesa. Convidado por opositores ao regime de Salazar para se candidatar à Presidência da República, em 1958 contra o candidato do regime, Américo Tomás, aceita, reunindo em torno de si toda a oposição ao Estado Novo.

Numa conferência de imprensa da campanha eleitoral, realizada em 10 de maio de 1958 no café Chave de Ouro, no Rossio em Lisboa, quando lhe foi perguntado por um jornalista que postura tomaria em relação ao Presidente do Conselho Oliveira Salazar, respondeu com a frase “Obviamente, demito-o!”.

Esta frase incendiou os espíritos das pessoas oprimidas pelo regime salazarista que o apoiaram e o aclamaram durante a campanha com particular destaque para a entusiástica receção popular na Praça Carlos Alberto, no Porto, em 14 de maio de 1958. Passou então a ser cognominado “General sem Medo”. Viria a ser assassinado pela PIDE, juntamente com a sua companheira, em 13 de fevereiro de 1965, em Badajoz, Espanha.

Tudo o mais que se possa acrescentar já é do conhecimento generalizado dos Portugueses.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 20-09-2023)

19 de setembro de 2023

NO TEMPO DO MEU TEMPO

 


Regressado de umas breves férias, não encontrava assunto para uma crónica, em tempo já reduzido para a sua publicação. Até que, um email do meu Amigo Fernando Pedrosa Gonçalves, do Porto, que colaborou nalguns dos meus livros, me envia memórias do velho Porto, do início do século XX.

Vai daí, eu que nasci em meados do século passado, me deu para reportar algo do que se passou no ano de 1946. Durante todo este tempo até aos dias de hoje, já lidei com neuróticos, stressados, depressivos, hipocondríacos, bipolares, dementes, delirantes, amnésicos, fóbicos, obsessivos, compulsivos, insones, bulímicos, anoréxicos, hiperativos, e sujeitos a tiques.

Mas vamos lá, é ao ano da graça de 1946 que eu me quero referir.

Era Presidente da República, o marechal António Óscar de Fragoso Carmona, num Portugal com uma população de 8 178 360 almas, em que nasceram 107 128 pessoas do sexo masculino e 98 697 do sexo feminino, sendo que os falecimentos corresponderam, respetivamente, a 62 050 e 58 750. Os casamentos registaram 62 460 contra 1 181 divórcios.

Neste ano vieram a ver a luz do dia pela primeira vez, Xanana Gusmão, de Timor-Leste; George W. Bush, presidente dos EUA; Emerson Fittipaldi, piloto de automóveis brasileiro; ou Steven Spielberg, realizador e empresário norte-americano, entre outros. Quanto aos que partiram além-túmulo, destaco neste ano Abel Salazar, pintor e ensaísta, cujo funeral deste prestigiado intelectual oposicionista, professor universitário, resultou numa manifestação de protesto contra o Estado Novo.

Mas entre nascidos e os que passaram para o outro lado da vida, não deixou de se registarem tragédias mundiais neste ano: um intenso tornado atinge Windsor, destruindo mais de 400 habitações e causando a morte a 9 pessoas; tsunami de 14 metros atinge Hawai – 173 mortos e milhares de feridos; a época do Furacão do Atlântico durou seis meses, com 6 tempestades, causando 5 vítimas.

Os líderes internacionais eram então: França: Charles de Gaulle/Félix Goulin/Georges Bidault/Léon Blum. Itália: Alcide De Gasperi. Reino Unido:  Clement Attlee. EUA: Franklin Roosevelt/Harry S. Truman. Vaticano: Papa Pio XII. Alemanha: Administrada pelas Forças Aliadas. Espanha: Francisco Franco.

Tendo como pretexto as comemorações de mais um aniversário da primeira tentativa revolucionária da instauração em Portugal de um regime republicano, Lisboa e Porto foram novamente palco de manifestações onde se exigiu o fim da ditadura e a instauração em Portugal de um regime democrático.

Várias iniciativas públicas, da responsabilidade do Governo e da União Nacional, marcam o 18.º aniversário da primeira nomeação de Oliveira Salazar para o cargo de Ministro das Finanças de um executivo de Ditadura Militar.

Ocorreram em diversos centros industriais, piscatórios e mineiros do país, greves e manifestações de protesto contra o continuado agravamento do custo de vida e em defesa de melhores salários.

O governo de Oliveira Salazar apresentou o pedido de adesão de Portugal à ONU. Esta solicitação foi, no entanto, vetada pela URSS com o argumento de que o Estado Novo continuava a ser um regime fascista, diretamente responsável pela vitória dos “nacionalistas” em Espanha, colaborante e parceiro comercial da Itália de Mussolini, da Alemanha de Hitler e da França de Pétan antes e durante a II Guerra Mundial.

Exigindo a melhoria das condições de vida e a instauração de um regime democrático, os operários têxteis da zona da Covilhã realizaram um movimento grevista de grande amplitude.

Transportados no navio Guiné, chegaram a Lisboa e foram libertados 110 dos presos políticos, até então detidos no Campo de Concentração do Tarrafal.

Falhou na Mealhada uma tentativa de golpe militar que, partindo do Porto (do Regimento de Cavalaria 6, sob o comando do capitão Fernando Queiroga) visava derrubar a ditadura.

Morre aos 58 anos, John Logie Baird, um dos inventores da televisão. Em 1946 havia 6000 aparelhos de televisão nos Estados Unidos. Cinco anos mais tarde havia 12 milhões.

Num discurso pronunciado em Fulton (nos EUA), Winston Churchil (dirigente do Partido Conservador e primeiro-ministro da Grã-Bretanha durante a II Guerra Mundial) criticou violentamente a União Soviética, referindo-se à “cortina de ferro” que dividiria a Europa em “povos livres” (a ocidente) e “povos dominados” (a leste). Tornava-se, assim, público o divórcio entre os antigos aliados e o início da Guerra Fria.

O Reino Unido prepara um plano para separar a Palestina em dois Estados independentes, um judeu e outro árabe.

O governo trabalhista de Londres anunciou a sua intenção de reconhecer o direito da Índia à independência. No entanto não chegaram a acordo quanto às modalidades concretas da estruturação do(s) novo (s) Estado(s).

A primeira Assembleia Geral das Nações Unidas, incluindo 51 países, realiza-se no Westminster Central Hall, em Londres.

Termina o julgamento por crimes de guerra celebrado em Nuremberga, Alemanha. Dos 21 dirigentes nazis sob julgamento, 11 foram condenados à morte e os restantes sentenciados a extensas penas.

O texto já vai longo pelo que não vou poder falar de cultura neste período. Faço uma exceção em novidades literárias com a publicação do romance de Natália Correia – Anoiteceu no Bairro.

Na moda ao terminar a guerra é instituído, na Inglaterra, o programa de roupa “pró-desmobilização”. As roupas eram produzidas em massa de acordo com as normas de utilidade – eram resistentes mas pouco estilizadas. Surge o espartilho curto de Rochas. Em Paris é sensação o novo fato de banho de duas peças – o bikini. O primeiro modelo foi desenhado pelo estilista Louis Réard, em 1946, mas foi somente nos anos 60 que a peça se tornou popular. O nome desta invenção, ousada para a altura, deriva de uma ilha do Pacífico – Bikini – que foi usada para testes com bombas nucleares. A intenção era, assim, sugerir que esta reduzida peça de roupa tivesse um efeito bombástico na sociedade. E teve. A sociedade tentou resistir, até que ousadas atrizes de cinema começaram a fazer uso do biquíni. Brigitte Bardot foi a primeira a fazê-lo no filme E Deus Criou a Mulher. Com o tempo, a peça popularizou-se e foi ficando cada vez mais ousada, até que nos anos 80 uma modelo brasileira lançou o “fio dental”.

João de Jesus Nunes                                                                                     jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 15-09-2023)


11 de setembro de 2023

À SOMBRA DE UM CHAPARRO

 

Tempo de férias. Agosto. Que calor! UF! Para uma grande parte dos portugueses assim acontece. De vez em quando lá vem uma brisa, um ventinho para aliviar o calorento dia.

A Volta a Portugal em Bicicleta já terminou. Mas ainda há muitos emigrantes. Aproveitam as festas e romarias existentes por todas as regiões, onde o sagrado e o profano se misturam. As JMJ que fizeram fervilhar o país, também já terminaram. O mês de agosto a caminhar para o seu final. O que ainda não terminaram são os incêndios que continuam a grassar pelo território.  E os mais de 40 graus de temperatura em boa parte deste País.

Os turistas estrangeiros dão um forte contributo à vida social, onde encontram na restauração, por exemplo, um prazer alimentar mais acessível. Não é que a sua curiosidade não deixe de visitar pontos de grande interesse histórico, e não só, que mais não seja, o sol e o mar, que é sempre um atrativo desta varanda da Europa sobre o Atlântico.

Também já começou o futebol para os periódicos desportivos e os comentadores televisivos se poderem entreter na discussão do golo mal anulado, ou daquela irregularidade que o VAR deixou passar, lançando a incredibilidade na chusma dos mandantes no desporto, ou que do mesmo se alimentam.

Daquela garota espanhola, Jenny Hermoso, campeã mundial do futebol feminino, que foi beijada na boca pelo presidente da federação espanhola, Rubiales, isso não é connosco. Nem tão pouco nos importa a morte do famigerado chefe do Grupo Wagner, Yevgeny Prigozhin, pois isso é lá com Putin.

Mesmo assim, temos um tempo de procrastinação. Quase com a sealy season no seu expoente máximo. Os artigos de opinião são de alguma pobreza e os nossos políticos, por muito graves que sejam os problemas do País, foram a banhos. Já o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa optou por uma viagem até à Ucrânia, para dar um abraço ao seu amigo Volodymyr Zelensky.

Pois é, estamos em pleno verão, tempo de férias. Como acontece todos os anos nesta época, o número de espetadores da televisão diminuiu. Os canais de televisão, que eu raramente vejo, preenchem este período com repetições e alguns programas que tiveram êxito no passado. Durante a semana preenchem-se os dias com telenovelas à tarde e/ou à noite. E nem mesmo a publicidade é agradável. Aquela enfadonha publicidade da NOS não tem nada que dela se aproveite de atraente.

É um agosto “a gosto ou sem ele...” conforme refere a escritora Antonieta Garcia, numa das suas últimas crónicas.

Mas este tempo é por demais cansativo para quem pretende escrever. O que vai valendo é o ar condicionado para dar alguma tranquilidade. Sabe bem a leitura fora de casa, como num banco de madeira do Parque Florestal, por exemplo. Em lugares aprazíveis da Serra da Estrela, interrompidos por vezes pela passagem de rebanhos de cabras e ovelhas. O cão que os guarda também é afetado pelo calor e muitas vezes vê-se pachorrento e sentado a descansar. Pudera! Ainda não chegou a sua vez de aprender a ler. Talvez com a Inteligência Artificial isso se venha a conseguir.

Gosto de ler debaixo da sombra de árvores, sejam pinheiros ou eucaliptos, árvores de fruta por preferência, mas nunca consegui fazê-lo à sombra de um chaparro. Embora já estivesse algumas vezes sentado.

Os combustíveis, mais uma vez, aumentaram. Para a próxima quinzena há mais. Boas férias!

 

João de Jesus Nunes

Jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 01-09-2023)

 


17 de agosto de 2023

SETENTA VEZES SETE

 


Embora esta crónica chegue aos prezados Leitores d’ “O OLHANENSE”, já depois do Papa Francisco ter terminado a sua viagem a Portugal, no âmbito das JMJ – Jornadas Mundiais da Juventude, ela foi escrita na segunda semana de agosto, em plena visita papal.

O entusiasmo com que os milhares de jovens do Planeta se têm manifestado em Lisboa e Fátima, e noutros locais por onde passaram, leva-nos para um percecionismo de que podemos contar com eles.

A persistência e a exemplaridade do Papa Francisco, num trabalho assaz difícil, em que nem a idade o verga, de que neste quintal planetário – a Casa Comum – cabem todos os humanos, independente das suas convicções religiosas, cor da pele, e posições políticas, sem esquecer os deficientes de várias vertentes, muitos deles corajosamente não vencidos pelas suas situações que vão para além de muitos sem problemas físicos ou mentais, é deveras notável.

“70 x 7”, expressão que tem origem na Bíblia, no Novo Testamento, mais especificamente no Evangelho de São Mateus, capítulo 18, versículo 22, Jesus respondeu a Pedro sobre quantas vezes ele deve perdoar seu irmão que peca contra ele. E cito: “Então Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou: ‘Senhor, quantas vezes deverei perdoar a meu irmão quando ele pecar contra mim? Até sete vezes? Jesus respondeu: ‘Eu digo-te: Não até sete, mas até setenta vezes sete’”

Utilizando desta vez a inteligência artificial via ChatGTP,, vamos acrescentar que a expressão “setenta vezes sete (70x7) é simbólica e não deve ser interpretada literalmente (aliás como é óbvio) como um cálculo matemático. Ela expressa a ideia de um perdão abundante, ilimitado e generoso, enfatizando a importância da misericórdia, compaixão e reconciliação no cristianismo. Na religião católica, essa passagem é frequentemente utilizada para ensinar sobre a importância do perdão mútuo entre os fiéis, refletindo a atitude de Deus em relação ao perdão dos pecados da humanidade. Portanto, o “70 x 7” na religião católica é uma referência a ensinamento de Jesus sobre o perdão contínuo e generoso que os cristãos devem praticar em suas vidas”.

Após o términus destas Jornadas Mundiais da Juventude, e depois de apurados todos os resultados dos prós e dos contras, pensamos que o país ganhou com estas Jornadas já que, conforme referiu Marcelo Rebelo de Sousa, “mais de um milhão de peregrinos é uma loucura. É uma coisa nunca vista em Portugal, é irrepetível”. Sobre o impacto da JMJ em si, Marcelo disse que “vê mais valor no evento, como Presidente, porque o país dificilmente terá um evento como este”. A Coreia do Sul recebe a próxima Jornada Mundial da Juventude.

Antes da vinda do Papa Francisco a Portugal já vários processos judiciais canónicos foram resolvidos, resultantes de abusos sexuais de menores, muitos deles com absolvição.

Estes abusos praticados na Igreja parece-me, na minha opinião, que não terão sido levados em conta, pelos cardeais e bispos portuguese, na rigorosidade do Papa Francisco, na evidência dos relatos dos ofendidos.

Voltei a reler há poucos dias, na Comunicação Social, o caso de um Bispo apanhado nas redes do crime da pedofilia, que viveu no silêncio do refúgio no Alentejo, sendo depois acolhido na residência dos salesianos, em Lisboa. Foi aqui que, em plena pandemia, no ano 2020, foi notificado da pena canónica imposta pelo Dicastério Para a Doutrina da Fé. Assim, Carlos Ximenes Belo (antigo Prémio Nobel da Paz!!!) perdia a dignidade de bispo, mas continuava autorizado a exercer o ministério sacerdotal. Só que ainda não tinham chegado ao Vaticano os relatos das aventuras de Ximenes em Moçambique. Viria então um maior castigo canónico, o segundo. Desta vez, em novembro de 2021, o Dicastério para a Doutrina da Fé, retirou-lhe o múnus sacerdotal. O então padre Ximenes foi reduzido ao estado laical. “Passou de pastor – voz heroica da Igreja na luta pela independência de Timor-Leste, à condição de ordinária ovelha negra entre o vasto rebanho apostólico romano.”

Agora, simples leigo, sem rendimentos para se poder governar, direcionado para a miséria. Cumpre o castigo com tanta humildade que nem se dá por ele nas ruas de Mogofores, uma pequena aldeia que só nos meses de verão tem alguma agitação. Impôs-se à clausura das quatro paredes dum quarto donde sai apenas para tomar as refeições do dia.

Lamentavelmente, os bispos portugueses sabiam disto.

Pela minha Diocese - a da Guarda, também se passaram coisas altamente desagradáveis com a denúncia de abuso sexual de menores. Um padre que fora vice-reitor do antigo Seminário do Fundão foi condenado a dez anos de prisão e reduzido à vida laical, hoje ajudante de cozinha num restaurante. Lamentavelmente sempre teve a defesa do bispo D. Manuel Felício, o qual não goza de boa aceitação na generalidade dos fiéis desta Diocese

E, mais recentemente, no passado mês de julho, a Diocese da Guarda levantou as medidas cautelares impostas desde março ao Padre Vitor Lourenço, de 61 anos, pároco de Figueira de Castelo Rodrigo, que paroquiou na Vila do Carvalho – Covilhã, onde se deu a denúncia de envolvimento num caso de abuso sexual com um jovem de 12 anos, atualmente sacerdote na Covilhã, de 42 nos (portanto denúncia de atos praticados há 30 anos) onde chegou a ser diretor de um Semanário.

Esperemos que estas JMJ que terminaram em Portugal, sirvam para incutir o verdadeiro espírito   clerical para quem tem vocação e afaste de vez as tendências perniciosas que fazem denegrir a fé no seio da Igreja. Que estes novos jovens, com a dinâmica do Papa Francisco, consigam transformar o mundo na direção do Criador.

 

João de Jesus Nunes

jjnuns6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 15-08-2023)


16 de agosto de 2023

RESISTÊNCIA AO ESQUECIMENTO

 


A minha memória começa a pregar-me partidas. Esqueço-me com frequência, e o sentido com que quero dizer algumas palavras, orais ou escritas, ou aquela palavra que falta para completar a frase, não sei por que cargas de água, ainda que na parte cognitiva tenha a certeza de que a conheço, não sai, ofusca-se, e quando já não necessito dela (palavra, frase ou provérbio), vem, duma forma lampeira, à recordação, que serviria para completar/discernir dos factos que necessitava em devido tempo.

Mas é na escrita, de longa data, como sobejamente tenho referido, que vou encontrar o antídoto para contradizer o esquecimento.

Quantas vezes vou a uma das estantes, pego num livro, folhei-o despreocupadamente, e não é que aí vou encontrar algo de inspiração para uma crónica?

E é tal a profusão de assuntos que se sobrepõem em folhas de papel e apontamentos uns em cima dos outros, que, por vezes, quando a memória me pretende atraiçoar, lá vou contrariando o esquecimento e surge o que avidamente procurava.

Em 2016, Miguel Esteves Cardoso, nas suas “100 Melhores Crónicas”, já referia em “O Prazer de Esquecer”: “Começo a esquecer-me e a enganar-me. Não resisto. Meu pai sempre a avisar-me: ‘É escusado perder tempo a pensar no tempo em que o tempo se perdia a fazer coisas em vez de pensar nelas’. Perde-se sempre tempo a pensar, seja qual for a idade. Pensar é uma das melhores maneiras de passar o tempo. Então pensar sobre o tempo a passar: que melhor maneira pode haver de enfrentar a morte? Nenhuma. Por enquanto ainda sei que me esqueço e me engano. Ainda sou capaz de querer procurar – e de procurar e encontrar – as coisas de que me vou esquecendo. Mas, ao mesmo tempo, sinto e sei que vem aí um tempo em que só não darei pelos esquecimentos e enganos como serei incapaz de resolvê-los. O cérebro envelhece: enche-se, erradamente, das coisas mais antigas e menos úteis”.

Já que falei do esquecimento, vamos lá numa retrospetiva do jornal online ECO, de 25-11-2016, para a recordação que então trouxe de alguns dos “Oito tesourinhos deprimentes do Parlamento”, a que o mesmo se refere: Ricardo Mourinho Félix, então secretário de Estado do Tesouro, acusou os deputados da direita de “disfuncionalidade cognitiva temporária”.

Há dias em que os deputados e governantes estão inspirados e citam Camões. Mas há outros em que o vernáculo não é tão poético e os ânimos exaltam-se, nomeadamente com expressões pouco elogiosas à capacidade de uns e de outros.

Um dos episódios tristes da Assembleia da República mais conhecido, passou-se em 2 de julho de 2009, quando José Sócrates era primeiro-ministro e Manuel Pinho chefiava a pasta da Economia. Durante o debate do Estado da Nação, discutia-se a situação das Minas de Aljustrel. Bernardino Soares, do PCP, acusou Pinho de ter ido a Aljustrel “dar um cheque”. Era José Sócrates quem usava da palavra, mas Pinho encontrou uma forma de responder: colocou os dedos na testa e fez cornos para a bancada comunista. Manuel Pinho acabou por ser demitido por Sócrates.

Em abril de 2010, Francisco Louçã, quando era líder do Bloco de Esquerda, dirigiu-se a Sócrates, nestes termos: “Sr. Primeiro-ministro, eu vejo que de intervenção em intervenção vai ficando um pouco mais manso...”. A resposta de Sócrates foi captada pelos microfones, mas ficou gravada nas imagens: “Manso é a tua tia, pá!”.

Em novembro de 2014, sobre o tema reforma do IRC, houve uma luta pelo microfone, entre Paulo Núncio, que era secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, e Eduardo Cabrita, mais tarde ministro-adjunto, mas que à data era deputado do PS na Assembleia da República. Núncio tinha acabado de intervir, acusando o PS de rasgar o acordo sobre a reforma, e Cabrita, apesar de estar a conduzir os trabalhos, decidiu tomar a palavra para contrariar o então governante. Paulo Núncio tentou ligar o microfone e interromper Eduardo Cabrita, mas o então deputado não deixou. Enquanto falavam, Eduardo Cabrita desligava sucessivamente o microfone a Paulo Núncio. “Seja verdadeiro, seja verdadeiro” pediu Núncio.

Em junho de 2014, no debate sobre o jogo online, Duarte Marques, deputado do PSD, utilizou a palavra “palhaçada” para se referir à intervenção de José Magalhães, deputado socialista. José Magalhães preparava-se para intervir, mas, antes disso, decidiu responder: “O Sr. Deputado vá chamar palhaço ao seu pai”.

Em 13 de abril de 2016, durante uma audição do ministro do Trabalho, Vieira da Silva, na comissão parlamentar da especialidade, Wanda Guimarães, deputada do PS, lançou-se contra os deputados do PSD: “As direitas – e neste caso estou-me a referir àquela que saiu adornada de social-democracia no último congresso do PSD – têm mudado, de facto, o seu comportamento. Primeiro assistimos a uma grande agressividade e agora passou para o que eu chamaria de transtorno psicótico político. Atenção, político”. À resposta de Adão e Silva, muito enervado com a de Wanda, esta, não dando o assunto por terminado, respondeu: “Se gosta mais de autismo do que de transtorno psicótico, pronto. Agora, não me interrompa porque isso é falta de educação”.

Estes são alguns dos episódios, uns hilariantes, outros vergonhosos, que se passaram no Parlamento português.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 16-08-2023)

5 de agosto de 2023

A MONUMENTAL TAÇA “O SÉCULO” DO SCP E SCC

 




Vem este artigo a propósito de reforçar o esclarecimento sobre a atribuição deste troféu, o qual foi, entretanto, já prestado nalguns órgãos da comunicação social, em outubro de 2014.

Na exposição que o Sporting Clube da Covilhã tem patente no Museu da Covilhã e que se estende até ao dia 19 de setembro, lá está a Monumental Taça “O Século” ganha em 1948, com muito mérito, por esta Coletividade que está celebrando o seu centenário.

Dizia-se que só havia em Portugal duas monumentais taças com esta matriz – uma, ganha pelo Sporting Clube de Portugal (SCP) e, outra, pelo Sporting Clube da Covilhã (SCC), em 1948.

Iguais à primeira, com 123 cm de altura, existem efetivamente duas, mas uma segunda monumental Taça, esta com 140 cm, e formato diferente, encontra-se no Museu do SCP, ganha em 1953.

A história desta Taça começa com a iniciativa do diretor do extinto jornal O Século, João Pereira da Rosa, organizando, em 1938, a “Exposição Histórica do Futebol”, para comemorar os 50 anos do futebol em Portugal e, com a respetiva receita, criou duas gigantescas taças, do mesmo tamanho, a que se chamou Monumental Taça “O Século”, destinando-se uma para os Clubes da I Divisão e outra para os Clubes da II Divisão.

O diário “O Século”, enquanto fez a encomenda das duas taças, elaborou um projeto de regulamento das mesmas que submeteu à apreciação da Federação Portuguesa de Futebol, tendo merecido a sua aprovação.

O Regulamento é do teor seguinte:

Artigo 1.º - As duas taças “O Século”, oferecidas pelo mesmo jornal, para serem disputadas, uma na I Divisão e outra na II Divisão do Campeonato Nacional de Futebol, comemorando a organização das Bodas de Ouro do Futebol Português, que promoveu em Outubro de 1938, serão disputadas nas seguintes condições:

1.º - Ficarão na posse provisória do Clube que se classificar em primeiro lugar na respetiva divisão do Campeonato Nacional de Futebol, com início na época 1938/39.

2.º - Cada uma das taças passará à posse definitiva do Clube que ganhar em três anos consecutivos, ou cindo alternados, o Campeonato Nacional de Futebol, na respetiva divisão.

Artigo 2.º - No fim de oito épocas, se nenhuma das taças, tiver passado à posse definitiva de qualquer Clube, proceder-se-á do modo seguinte:

a)      Se nessa altura nenhum Clube tiver duas inscrições na taça, será a mesma entregue ao vencedor do Campeonato de 1946/47, da respetiva divisão.

b)      Se nessa altura já houver Clubes com duas inscrições alternadas, na época de 1947/48 serão ainda as taças disputadas nos termos do n.º 2.º do art.º 1.º.

c)       Se até ao início da época de 1948/49, nenhum Clube tiver ganho as referidas taças nas condições atrás citadas, serão elas conferidas definitivamente aos Clubes que forem os vencedores das I e II divisões do Campeonato nesse décimo ano da sua disputa.

d)      Artigo 3.º - Se o Campeonato Nacional deixar de disputar-se, não sendo substituído por outra prova semelhante na qual as taças possam continuar a disputar-se, ficarão elas na posse da Federação Portuguesa de Futebol, com destino ao Museu de Futebol Nacional, quando vier a constituir-se.”

Relativamente aos Clubes da I Divisão a tarefa foi fácil na sua definição. À luz do regulamento, ganhou a 1.ª Monumental Taça “O Século” o SCP porque, de 1938/39 até ao seu termo (1947/48) não houve nenhum requisito conseguido por qualquer clube primodivisionário.

Os vencedores dos Campeonatos das I e II Divisões foram então os seguintes:

I Divisão: 1938/39 – FC Porto; 1939/40 – FC Porto; 1940/41 – Sporting; 1941/42 – Benfica; 1942/43 – Benfica; 1943/44 – Sporting; 1944/45 – Benfica; 1945/46 – Belenenses; 1946/47 – Sporting – Sporting; 1947/48 – Sporting.

II Divisão: 1938/39 – Carcavelinhos (ganhou na final ao Sp. Covilhã, por 1-0); 1939/40 – Sp. Farense; 1940/41 – Olhanense; 1941/42 – Estoril; 1942/43 – Barreirense; 1943/44 – Estoril: 1944/45 – Atlético; 1945/46 – Estoril: 1946/47 – Sp. Braga; 1947/48 (Sp. Covilhã, ficando em 2.º lugar o Barreirense, com o mesmo número de pontos, 8. O SCC teve 17 golos marcados e 7 sofridos e o Barreirense 13 golos marcados e 7 sofridos, o que o inibiu de subir em favor do SCC).

Portanto, o Sporting, analisado o Regulamento da Taça “O Século”, acabou por ganhar a primeira, ao 10º ano, ou seja, na época 1947/48.

Embora tivéssemos desconhecimento de que o jornal “O Século” deu continuidade a nova Taça “O Século” (só para a I Divisão), o mesmo jornal viria a deixar de instituir este troféu a partir de 1953.

Foi, entretanto, ganha novamente pelo Sporting Clube de Portugal por ter sido vencedor de três campeonatos seguidos, em 1950/51, 1951/52 e 1952/53 (ganhou também o de 1953/54). Esta segunda Taça é também monumental, com 140 cm de altura, sendo que a primeira, igual à que possui o Sporting da Covilhã, tem 123 cm de altura.

Relativamente à II Divisão, nenhum Clube conseguiria ganhar três campeonatos seguidos, como é óbvio, já que subiam à I Divisão. Assim, ganhou a Taça “O Século” o SCC, no 10º ano, em 1947/48, precisamente quando subiu, pela primeira vez à I Divisão Nacional.

 Estas Taças estiveram provisoriamente em cada Clube (I ou II Divisões), durante o ano em que ganharam os respetivos campeonatos, e iam colocando uma chapinha metálica, na Taça, com o nome do Clube e época. Portanto, as Taças, quer a da I Divisão, quer a que é pertença do SCC, estiveram em poder provisório de todos os Clubes que foram ganhando os respetivos Campeonatos, daí se encontrarem algumas fotografias com esta Taça, como é o caso do Olhanense e do Barreirense.

Alguns Clubes, como o Barreirense (livro sobre a história do Clube págs, 134 e 135), duma forma errónea, bem gravitaram na tentativa de a obter, face à má interpretação do Regulamento, ou mesmo desconhecimento do assunto que o envolveu.

Aqui fica, novamente, o devido esclarecimento.

                                                                                                                                   João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 01-08-2023)


20 de julho de 2023

TRÊS MONUMENTAIS TAÇAS “O SÉCULO”


 Na exposição que o Sporting Clube da Covilhã tem patente no Museu da Covilhã e que se estende até ao dia 19 de setembro, lá está a Monumental Taça “O Século” ganha em 1948, com muito mérito, por esta Coletividade que está celebrando o seu centenário.

Dizia-se que só havia em Portugal duas monumentais taças com esta matriz – uma, ganha pelo Sporting Clube de Portugal (SCP) e, outra, pelo Sporting Clube da Covilhã (SCC), em 1948.

Iguais à primeira, com 123 cm de altura, existem efetivamente duas, mas uma segunda monumental Taça, esta com 140 cm, e formato diferente, encontra-se no Museu do SCP, ganha em 1953.

A história desta Taça começa com a iniciativa do diretor do extinto jornal O Século, João Pereira da Rosa, organizando, em 1938, a “Exposição Histórica do Futebol”, para comemorar os 50 anos do futebol em Portugal e, com a respetiva receita, criou duas gigantescas taças, do mesmo tamanho, a que se chamou Monumental Taça “O Século”, destinando-se uma para os Clubes da I Divisão e outra para os Clubes da II Divisão.

O diário “O Século” elaborou então um projeto de regulamento das mesmas que submeteu à apreciação da Federação Portuguesa de Futebol, tendo merecido a sua aprovação.

Deste regulamento, que é extenso, resultou que houve dois Clubes que, no 10º ano da sua instituição, ganharam a monumental taça. Foram eles, o SCP (I Divisão) e SCC (II Divisão). Durante estes 10 anos, a taça esteve provisoriamente em cada Coletividade que ganhava o Campeonato Nacional, quer da Primeira quer da Segunda Divisão Nacional, ficando propriedade do Clube, quem a ganhasse no décimo ano, dado que os pressupostos do regulamento não foram atingidos antes deste período.

Os vencedores dos Campeonatos das I e II Divisões foram então os seguintes:

I Divisão: 1938/39 – FC Porto; 1939/40 – FC Porto; 1940/41 – Sporting; 1941/42 – Benfica; 1942/43 – Benfica; 1943/44 – Sporting; 1944/45 – Benfica; 1945/46 – Belenenses; 1946/47 – Sporting – Sporting; 1947/48 – Sporting.

II Divisão: 1938/39 – Carcavelinhos (ganhou na final ao Sp. Covilhã, por 1-0); 1939/40 – Sp. Farense; 1940/41 – Olhanense; 1941/42 – Estoril; 1942/43 – Barreirense; 1943/44 – Estoril: 1944/45 – Atlético; 1945/46 – Estoril: 1946/47 – Sp. Braga; 1947/48 (Sp. Covilhã, ficando em 2.º lugar o Barreirense, com o mesmo número de pontos, 8. O SCC teve 17 golos marcados e 7 sofridos e o Barreirense 13 golos marcados e 7 sofridos, o que o inibiu de subir em favor do SCC).

Embora tivéssemos desconhecimento de que o jornal “O Século” deu continuidade a nova Taça “O Século” (só para a I Divisão), o mesmo jornal viria a deixar de instituir este troféu a partir de 1953.

Foi, entretanto, ganha novamente pelo Sporting Clube de Portugal por ter sido vencedor de três campeonatos seguidos, em 1950/51, 1951/52 e 1952/53 (ganhou também o de 1953/54).

                                                                                                                                   João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Gazeta do Interior”, de 19-07-2023)

17 de julho de 2023

O HÁBITO DE LER JORNAIS


 

Sou um insaciável pela leitura de jornais. Não um, nem dois, mas uma dose suficiente para me subtrair tempo ao tempo que tenho disponível diariamente. Já vem dos tempos antes da televisão e da Internet, ou seja, antes dos digitais. Um velho hábito gerado na Biblioteca Municipal, e, também em minha casa; antes destes, mesmo os boletins paroquiais que me iam ter à residência. Neles, jornais, se incluíam as revistas exclusivas ou fazendo parte dos próprios jornais, como “O Século Ilustrado”. Tão só um exemplo.

Agora é uma panóplia de jornais online. Para além dos que assino, logo que abro o computador, caem-me as notícias, mais ou menos sensacionalistas; e a exaustão de convites para aceitar e/ou assinar mais um título.

Se, outrora, eram os tempos dos tempos em que os tempos eram outros, de pouca abundância de conteúdos, quer por via da censura, quer num contexto de um Portugal atrasado, hoje, são os tempos da concorrência desenfreada da Comunicação Social, tantas vezes sem sentido no tempo dos conteúdos jornalísticos, sobrepondo-se na duplicidade de notícias e de textos análogos.

O hábito de ler jornais me levou, desde sempre, a outra mania: a de recortar, selecionar e guardar certas notícias que me pareciam importantes, ou algo curiosas. O facto é que as páginas ou recortes extraídos dos jornais ou revistas se acumularam, ainda que de quando em vez fizesse uma limpeza geral.

Mas a avidez de guardar, guardar, levava-me a gastar horas, e alguns aborrecimentos, para descobrir uma bendita página que a minha memória me garantia se encontrava nas resmas que iam subtraindo espaços que começavam a fazer falta.

Até que aquele maldito tempo de prisão nos nossos domicílios fruto da pandemia, paradoxalmente me veio dar oportunidade de fazer uma seleção, tão temática quanto possível, de consultas, compilando, encadernada, uma grande parte dos conteúdos. Outra enorme quantidade de papel então excluído, ainda serviu para ser entregue no Banco Alimentar contra a Fome em vez de ir parar ao lixo.

Mas, além dos jornais, ainda há os livros. Segundo o INE, 58 por cento dos portugueses não leram um único livro em 2022.

Segundo Jorge Morais, in “Tal & Qual”, naquele ano, a imprensa portuguesa manteve praticamente o número de leitores que tinha em 2021. E, citando os dados do Bareme Imprensa da Marktest, “Ao longo de 2022, foram 5,7 milhões os portugueses que contataram com jornais ou revistas. O Bareme Imprensa contabilizou 5 milhões e 662 mil residentes no Continente com 15 e mais anos que, em 2022, leram ou folhearam jornais ou revistas, o que representa 66,1% do universo em estudo. Isto significa que dois em três portugueses contataram com este meio ao longo do ano. A audiência média de Imprensa no mesmo período foi de 35,7%, percentagem de portugueses que leram ou folhearam a última edição de um qualquer título de imprensa estudado no Bareme Imprensa, num total de três milhões e 59 mil indivíduos”.

Segundo Jorge Morais, “a maior afinidade com a Imprensa continua nos leitores entre os 35 e os 54 anos, nos quadros médios e superiores e nos indivíduos das classes mais elevadas”.

Chegou-se a pensar que os jornais estavam a acabar, mas o tempo provou que a notícia da morte da Imprensa era manifestamente exagerada, tanto por cá como no resto da Europa. Desenvolveram-se, é certo, outras formas de comunicação rápida.

A Imprensa continua a ser o veículo privilegiado do jornalismo de esclarecimento.

Abaixo dos 35 anos, existe uma substancial abstinência de leitura. Muitos dos mais jovens abstêm-se de ler também seja o que for, com reflexos de participação na vida comunitária.

O que é certo e verdade é que para muitas destas pessoas, tudo o que ultrapasse o tamanho do ecrã do telemóvel já constitui esforço excessivo.

Não é à imprensa que cabe resolver este problema, mas tão só “os parlamentos, os governos e as comunidades pedagógicas a tomar o encargo de inverter, na urgência de uma ou duas gerações, a tendência arrepiante para a inutilidade mental”.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 15-07-2023)

 

 

13 de julho de 2023

E TUDO O VENTO LEVOU


 

Não, não se trata de falar do filme romântico e histórico com este título, de 1939, um dos mais conhecidos da história do cinema. Amor e ódio foi o que envolveu uma das principais personagens – Scarlett O’Hara, jovem mulher duramente atingida pela guerra, numa relação com um charmoso aventureiro. Quanto ao filme ficamos por aqui.

Do meu artigo de 4 de maio, sobre “Amigos em Castelo Branco”, houve reflexos interessantes que chegaram até mim. São reminiscências dum passado que o vento levou.

Voltei à carga com dois desses amigos – o João José Dias Tomás e o Luís Vicente Barroso, residentes em Castelo Branco, mas que na minha intromissão telefónica foi encontrar o Luís na sua aldeia, na Fonte Longa, para me darem notícias sobre pessoas e instituições com quem eu contatava nas décadas de 70 e 80 do século passado. Foi de certo modo confrangedor verificar que muitos deles já partiram ainda cedo, como o Joaquim Sobreira, de Cebolais de Cima, que foi motorista da edilidade albicastrense e tocava acordéon; e o Jorge Manuel Torrado Valente, ligado aos automóveis.

Ainda no meu tempo ativo havia perdido, precocemente, um antigo Colega e amigo, o albicastrense José Beato Ferreira.

Neste dia em que escrevo estas linhas, e rebusco informações doutrora, com o sol a brilhar mais alto sobre a montanha, e o calor a fazer-nos sonhar com oc caminhos idílicos do nosso País, recordo as grandes temperaturas na cidade albicastrense, que dificultava andar a pé, mas a força de uma atividade profissional assim nos obrigava.

Afinal, a empresa J. Valente & Irmãos, Comércio e Indústria, S.A. ainda existe, e no mesmo local. Dela recordo o sócio Ricardo Valente, que faleceu de acidente automóvel, no regresso da Covilhã, onde tinham um stand Ford. Seu filho, economista, Dr. Luís Filipe Valente, com quem tratei vários assuntos ligados à minha atividade profissional, incluindo quando se encontrava a estudar na Bélgica, também já partiu. Desconheço o paradeiro de seu irmão, Nuno Valente.

Artur Valente estava ligado à venda dos automóveis, sendo que, no lugar do falecido Ricardo Valente, assumiu as funções de gestão, Rafael Valente. Esta família dos Valentes era grande, e, por isso, ali conheci um idoso, simpático, Isidro Valente, e também o Dr. Manuel Valente que, nalgumas conversas me dizia, sorridentemente, face a tantos funcionários que por ali passaram: “Aqui foi e é uma autêntica escola de vida”.

Algumas vezes acontecia, quando eu já estava de regresso à Covilhã, ter de voltar para trás, porque o Eng.º José Maria Valente necessitava de segurar tantas arrobas de cortiça abadia e outras tantas de nacional. São memórias que perduram.

Surgiria então uma grande empresa de iogurtes, em 1979 – a “Iophil – Produtora de Iogurtes, S.A.”, criada pela família Gomes Filipe, na altura retornados da antiga colónia de Moçambique, mas naturais da aldeia de Paradanta, freguesia de São Vicente da Beira, no concelho de Castelo Branco. Esta foi a primeira empresa a instalar-se na primitiva zona industrial de Castelo Branco, quando tudo aquilo não passava de um enorme descampado nos arredores da cidade. Por curiosidade, houve anos depois outra grande empresa de Castelo Branco – a Centauro – à qual fiz referência na minha anterior crónica, que partiu também de um retornado de Angola.

Foi com um grande espírito empreendedor, dedicação e empenho dos seus fundadores, e a simpatia do administrador Luís Filipe Gomes, que conseguiram pôr de pé a empresa Iophil e fazê-la crescer. Chegou a atingir, em poucos anos, mais de uma centena de postos de trabalho. A marca Iophil começou a singrar no mercado nacional. Em 1989, a Danone adquiriu 70% do capital da Iophil, chegando aos 85% em 1991. Ampliou a fábrica em Castelo Branco, com o lançamento de novos produtos para, em 1994 atingir a liderança do mercado nacional de produtos lácteos. Em 2013 a Danone vendeu a sua atividade industrial da fábrica de Castelo Branco à empresa americana Schreiber Foods.

Ainda como Iophil, a empresa teve uma grande atividade recreativa, para além do apoio financeiro que a própria Iophil/Danone deu ao longo dos anos no patrocínio a equipas desportivas da cidade e também ao Sporting Clube da Covilhã.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Reconquista”, de 13-07-2023)

 

 

12 de julho de 2023

A GERUNDIAL FORMA DE NOS CONTACTARMOS




 

Somos um povo de gerúndios. Esta palavra é um tempo verbal que indica uma ação em andamento, um processo verbal não finalizado.

- “Então como é que vai?” – É uma pergunta usual nos cumprimentos de quase todos nós.

- “Vou andando” – Lá está a grande probabilidade de resposta, no gerúndio. Poderia ter sido dito tão só: “bem” ou “mal”.

Pois é, neste contexto de gerundismo, vamos tendo em conta que os problemas que estamos “vivendo”, são para se ir “resolvendo”; as coisas para se ir “fazendo”, e as dívidas para se ir “pagando”. E enquanto isto, quem tem crianças, elas vão “crescendo”, e, pela lógica, também vão “estudando”. Será que, com esta excitação dos professores, elas verdadeiramente se vão “apercebendo” neste ensino, do que vão “aprendendo?”.

Nas comemorações do 10 de junho, no Peso da Régua, o procedimento de um grupo de professores foi “envergonhando” a sua classe e o país, com as suas condutas muito injuriosas e humilhantes, com aquela ideia saloia de retratarem nos seus cartazes o primeiro-ministro com nariz de porco e lápis espetados nos olhos, na visão de António Costa como “racismo”, “foi um tiro no pé da parte dos professores, que se pensam que ganham alguma coisa com isto, não, só perdem”, na opinião de Marques Mendes. Já antes, noutro cartaz, empunhado por uma professora, bem visível, apregoando RESPEITO. Esses professores que se afastaram de condignamente representarem a classe e a professora que empunhava o outro cartaz, como é que vai explicar aos infelizes dos seus alunos o conceito de “RESPEITO?”, lia-se nas redes sociais. O enfado das suas greves, com os sindicatos na teimosia da imediata recuperação do tempo de serviço de 6 anos, 4 meses e 2 dias, congelados no período da crise económica e financeira, levam-nos a perder a razão, pois quantos cidadãos ficaram também com as suas carreiras congeladas? Parece que só existe uma vítima – os professores. Este congelamento do tempo de serviço afeta outros trabalhadores da Função Pública e o ministro da Educação não aceita negociar, pelos reflexos que teria nas contas públicas.

Bom, mas não vou falar mais nos professores, ainda que lhes “reconhecendo” justiça no que vão “reivindicando”, porque para isso teria de ir “mencionando” muitas outras injustiças noutras classes trabalhadoras.

O gerúndio traduz bem a nossa forma de sentir e de agir. Parece que vamos “gostando” desta   fórmula gramatical que nos permite ir “arrastando” as situações e os estados de alma no tempo. Vamos “tendo” dificuldade em ser diretos, assertivos, “de pegar o touro pelos cornos”. Vamos “tentando” contemporizar, “evitando” comprometer-nos, “querendo” sempre um meio-termo, “procurando” as zonas cinzentas em vez de optarmos pelas pretas ou brancas. Somos assim.  Desta feita, o gerúndio está-nos tão entranhado nos genes que nem nos ocorre ser/dizer de outra maneira. Mas há alturas em que temos mesmo de conjugar os verbos nos seus modos mais perfeitos, conforme refere Sofia Barrocas na extinta revista Notícias Magazine. Como o presente e o futuro do indicativo. Não há espaço para condicionais ou conjuntivos sob pena de ficarmos presos aos pretéritos (passados). O país que queremos ser não pode ser conjugado no gerúndio.

No tempo em que ainda fomos “louvando” ações governamentais, passámos depois “diabolizando” tudo, num país “parecendo” ter perdido o norte.

Vai-se “brincando” com os portugueses, sem sentido, numa de finca-pé, e com um governo de maioria absoluta entre sorrisos e beijoqueiras dum presidente da República que quer agradar a Deus e ao Diabo. Que quer ficar bem na foto da futurologia.

Portugal necessita de gentes, com líderes nas vertentes da verdade, em que a palavra confiança deve ser levada muito a sério. E só porque este (des)governo optou por ocupar o tempo numa de brincar às casinhas, queria dizer aos casos e casinhos, não se riam os antecessores, das várias cores políticas, e os que se pretendem perfilar à substituição, porque todos tiveram mais culpa, ou menos culpa, no cartório.

Todos reivindicam, e ninguém exige rigor nas atuações, “ponderando” para que se façam leis para cumprir e não para “faz de conta”. É que passamos o tempo a enervar-nos, “galambando” (permitam-me a acepção desta palavra num neologismo caseiro), em vez do ponto final em João Galamba.

E mais não vou “dizendo”, para não enfadar de tanto gerúndio.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 12-07-2023)

5 de julho de 2023

A CONTAGEM DOS ANOS NA ERA CRISTÃ



 

Todos nós sabemos que os anos começaram a ser contados a partir do nascimento de Cristo. Dividiu-se assim a história da humanidade em antes de Cristo (a.C.) e depois de Cristo (d. C.).

Como e quando se tomou essa decisão?

Entre outros historiadores, de harmonia com o narrado por Rodnei Domingues, por volta dos anos 600 d.C. imaginou-se considerar a data de nascimento de Cristo com o ano zero.

O monge Dionísio, o Pequeno, que viveu no século VI, foi quem se preocupou e quem estabeleceu a data de nascimento de Cristo, fixada então em 25 de dezembro de 753 da fundação de Roma.

A Igreja acolheu a data de 25 de dezembro como o dia do nascimento de Jesus Cristo porque o dia de Natal se sobreporta, assim, às celebrações do solstício de inverno e à festa de Mitra, deus da luz, que os antigos festejavam juntamente nesse dia. Assim, a Igreja cristianizou essas festividades pagãs, fornecendo-lhes simbolismos cristãos e uma nova linguagem cristã.

A fonte cronológica relativa ao ano do nascimento de Cristo é uma passagem do Evangelho de Lucas (2,1-2). Segundo essa passagem, naqueles dias, apareceu um edito de César Augusto ordenando o recenseamento de todo o mundo habitado. Esse recenseamento foi o primeiro realizado quando Quirino era governador da Síria, com o alistamento de todos, cada um em sua própria cidade. Nessa época, consta que José saiu da região da Galileia, da cidade de Nazaré, para a região da Judeia, para a cidade de Davi, chamada Belém, a fim de se inscrever no recenseamento com Maria, sua esposa, que estava grávida.

Mateus (2,1-2) acrescentou a estrela dos Magos à narrativa e, sobretudo, colocou o nascimento de Jesus no tempo do reino de Herodes, também mencionado por Lucas (I,5), indiretamente.

A partir dessas fontes e depois de muitos cálculos, Dionísio pensou que poderia estabelecer o ano preciso da morte de Herodes – consta que Jesus nasceu no ano em que Herodes morreu. Mas se enganou, pois o soberano morreu certamente no ano 4 a.C. É ainda mais difícil estabelecer o tempo exato do recenseamento de Quirino, que aconteceu, de qualquer forma, entre os anos 7 e 6 a.C.

O sistema estabelecido por Dionísio foi adotado muito lentamente. Pode-se dizer que só se difundiu realmente no século IX d.C. (no tempo de Carlos Magno). Hoje, os historiadores concordam em considerar que Cristo nasceu cinco ou seis anos antes do que propõem os cálculos do monge; portanto, o nosso milénio terminou antes que nos déssemos conta. Mesmo assim, a datação do nascimento de Cristo, impôs-se em todo o mundo, independentemente da religião praticada. Para os muçulmanos, o ano de 622, teoricamente o primeiro da sua era, foi substituído pela contagem à maneira ocidental.

Portanto, todas as nossas dúvidas, são ligadas à convenção da Igreja e ao cálculo – ainda que errado – de um monge medieval.

Todas as citações hodiernas que envolvem datas são influenciadas pelo nascimento de Cristo. Por isso, normalmente, dizemos 200 depois de Cristo (d.C.) para falar do ano 200 após o nascimento de Jesus ou também 100 antes de Cristo (a.C.), quando queremos citar um evento acontecido 100 anos antes do nascimento de Jesus.

Esse modo de marcar os anos a partir do nascimento de Cristo começou a ser praticado no século V, graças ao monge Dionísio, o Pequeno. Até essa data, o ponto de referência para a história era o ano da fundação de Roma, em 753 antes de Cristo. Basicamente, quando Jesus nasceu era o ano 753 da fundação de Roma. Esse resultado foi aquele alcançado pelos cálculos do monge Dionísio. O ano 753 da fundação de Roma foi então definido como ano 1. O ano anterior foi definido como ano 1 antes de Cristo (não existe o ano 0!).

Hoje em dia sabemos que os cálculos de Dionísio não foram exatos. Sabemos que Herodes, que tentou matar Jesus depois que recebeu a visita dos Reis Magos e fez com que a Sagrada Família fugisse para o Egito, morreu no ano 740 da fundação de Roma, ou seja, 4 anos antes do ano 1, aquele calculado como o ano do nascimento de Cristo. Todavia Herodes não pode ter morrido antes de Cristo. Por isso, apesar de ser quase incrível, é bastante segura a tese segundo a qual Jesus teria nascido cerca de 5 anos antes do ano 1, ou seja, Jesus nasceu no ano 5 antes de Cristo.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 01-07-2023)