3 de novembro de 2022
19 de outubro de 2022
ELEIÇÕES E CONTRADIÇÕES
“O mundo pula e avança como bola
colorida entre as mãos de uma criança” – assim termina a Pedra Filosofal de
Manuel Freire. Mas também inicia com as letras “Eles não sabem que o sonho é
uma constante da vida, tão concreta e definida como outra coisa qualquer”.
Este mundo está cada vez mais nas
mãos de muitos senhores que fazem deste Planeta uma bola de farrapos, que se
vai desfazendo com tantos pontapés sem sentido, retirando-lhe todos os cambiantes
do bem-estar de todos os humanos. Aos outros senhores, que deveriam ser
respeitados, que cumprem os acordos internacionais em prol da Casa Comum, já
não lhes dão ouvidos, não passam cavaco, embirram como crianças quando lhes
retiram a bola colorida.
Que mundo este sem sentido da
vida! Mas, mesmo assim, existe o sonho que é uma constante da vida. Estamos
atravessando um longo período que, não obstante uma pandemia ainda não
terminada, uns quantos pensantes, julgando-se iluminados, são banhados no seu
sonho que os irá conduzir para uma tremenda escuridão.
E neste avançar do mundo, repleto
de boas intenções para uns, mas nas contradições de outros, assim vão surgindo
ledos e tristes dias.
As últimas semanas foram repletas
de acontecimentos se bem que relevantes também preocupantes. Faço referência,
por exemplo, às eleições em Itália avançando para a extrema-direita na cena
política europeia. Isto depois das vitórias alcançadas na Hungria, na Polónia e
na Suécia, para além dos avanços ocorridos em França.
Pois é, já estávamos esquecidos
do lema salazarista de “Deus, Pátria e Família”, quando surge agora o mesmo de
Benito Mussolini, da terceira maior economia do euro e a segunda potência
industrial da União Europeia.
Esperemos agora que, no Brasil,
Lula da Silva, apesar de algumas contradições, possa levar de vencida, na
segunda volta, em 30 de outubro, o ultra direitista Jair Bolsonaro.
Na Guerra da Ucrânia têm surgido
importantes desenvolvimentos, quer no terreno quer nos bastidores. A relevância
no terreno vai para as vitórias das forças ucranianas com o registo de
significativos avanços, recuperando perto de 5.500 quilómetros quadrados. Os invasores russos mostram já o seu grande
nervosismo em face da humilhação provocada por estas vitórias ucranianas.
Depois, as muitas contradições
entre responsáveis da Igreja Católica no encobrimento dos casos de pedofilia.
Não fosse a persistência dos denunciantes e vítimas deste contexto, em casos
que, muitos deles, já prescreveram, estes homens do “divino” ficavam no segredo
dos deuses, muitos dos quais sem punição. Lamentáveis os encobrimentos desses
desvios sexuais por homens da Igreja, que deveriam ser os primeiros a dar o
exemplo, como o Bispo de Leiria-Fátima, D. José Ornelas, como dantes já haviam
sido o Patriarca de Lisboa, Cardeal D. Manuel Clemente. E nesta envolvente de
casos até o bispo de Timor, Prémio Nobel da Paz, viria a ser apanhado na rede,
há já bastante tempo, com o ar de espanto dos portugueses perante D. Ximenes
Belo.
E, para completar o ramalhete de
casos deploráveis nestas circunstâncias, faltavam as palavras de agradar a Deus
e ao Diabo, do Presidente da República, a tentar deitar água na fervura quando
se referiu que “Haver 400 casos não me parece que seja particularmente elevado
porque noutros países e com horizontes mais pequenos houve milhares de casos”.
Os 424 testemunhos foram recolhidos pela designada Comissão Independente para
Estudo dos Abusos Sexuais contra as Crianças na Igreja Católica Portuguesa, uma
estrutura constituída por decisão da Conferência Episcopal Portuguesa e
coordenada pelo pedopsiquiatra Pedro Strecht.
Face à avalanche de críticas
sobre as palavras do Presidente da República, este viu-se constrangido a pedir
desculpa: “A minha intenção não foi ofender as vítimas, se ofendi, peço
desculpa”.
João de Jesus Nunes
(In quinzenário “O Olhanense”, de
15-10-2022)
12 de outubro de 2022
SURPRESAS PELAS ESTRATÉGIAS
Já não chegavam as várias lutas que
se vão desenvolvendo entre os povos, por este mundo fora; a fome em muitas
regiões do globo, a pandemia que nos fez muito sofrer, os problemas climáticos
que os loucos deste planeta persistem em não dar ouvidos; às vozes
prenunciadoras dos cataclismos cada vez mais ameaçadores da Terra; como agora o
desejo malévolo de querer alimentar uma nova guerra fria.
Depois, em ambiente eleitoral com
decisões nos dois hemisférios (uma eleição já realizada, numa vertente
mussoliniana, na Velha Europa, mas que terá que defrontar uma democracia para
se poder manter na UE – a Itália; outra, com a decisão do povo brasileiro em 2
de outubro, no hemisfério do Sul), dois países anteveem uma mudança brusca de
rumo. Da Itália vem aí a extrema-direita com Meloni. É um país civilizado, a
que nos habituámos, que está à espreita. Como diz Rosália Amorim, in DN, “é
uma nova forma de fazer política e de liderar uma nação que, no passado, esteve
sob o facho de Mussolini.” E isto passa-se no Velho Continente Europeu,
onde eclodiu a Segunda Guerra Mundial, naquela que é atualmente a terceira
maior economia da União Europeia. Pela primeira vez desde 1945, este país vai
ser governado por uma liderança pós-fascista.
Se no hemisfério norte a Europa
está perigosa, no hemisfério sul deseja-se que Lula da Silva possa destronar
Jair Bolsonaro que se mostra nervoso com as sondagens a seu desfavor.
Mas a guerra veio proveniente dum
hitleriano russo, sob a iniciativa, instigação e égide do diabolizado Putin,
pretendendo subverter um país independente – a Ucrânia.
À partida, aquele malfeitor
pensava que a invasão eram favas contadas, tudo se passaria, como profetizava,
realizar-se num ápice, como um trovão. Tal não aconteceu, e o povo ucraniano,
fortemente imbuído na alma do seu presidente, Volodymyr Zelensky, tem mostrado
enorme patriotismo.
De tal forma, que, na recuperação
de territórios ocupados pelos russos, pelas forças ucranianas, surgiu a maior
contraofensiva na Europa desde 1945, ou seja, da Segunda Guerra Mundial. Foi
anunciado que as tropas ucranianas recapturaram mais de 3 mil quilómetros
quadrados de território em setembro, durante uma contraofensiva no nordeste do
país. – “Nos últimos dias o exército russo mostrou o que tem de melhor: as suas
costas. Fugir é uma boa escolha para eles”, informou Zelensky. Os russos
estavam a ficar sem opções nas linhas da frente da batalha, “porque estamos a
destruir as suas cadeias logísticas, armazéns, etc. Em Kharkiv, que continua
permanentemente a ser bombardeada, nesta região o exército ucraniano arregaçou
as mangas e iniciou uma ofensiva super eficaz e inesperada: o exército russo
esperava uma ofensiva ucraniana em Kherson, a sul, mas foi surpreendido com um
ataque a nordeste, em Kharkiv, conseguindo recuperar, só em três dias, mais de
um terço da área ocupada nesta região. Isto foi conseguido devido a uma
estratégia bem planeada de desinformação das forças armadas ucranianas, de
acordo com o The Guardian, que avança que desde 29 de agosto e ao longo
de vários dias, o exército ucraniano partilhou informações falsas que foram
difundidas por todo o mundo, o que levou a que os russos estivessem preparados
para receber o exército ucraniano em Kherson”. De acordo com Kuzan, esta ação
militar foi realizada “à velocidade da luz”, o que gerou uma grande pressão
para as forças militares russas, tanto a norte como a sul da Ucrânia.
Esta foi uma surpresa pela
estratégia ucraniana.
Na história mundial, temos muitos
exemplos de surpresas pelas estratégias aplicadas que deram bons resultados.
Antes e depois de Cristo. Por exemplo, as estratégias de Viriato, da Lusitânia,
e as suas surpresas, contra os Romanos, quando em 147 a. C. se opôs à rendição
dos lusitanos a Caio Vetílio, que os tinha cercado no Vale de Betis, na
Terdetânia. Poucos dias após a sua aclamação pela assembleia de chefes tribais,
Viriato acompanhado de oito mil soldados segue em direção à Carpetânia onde tem
conhecimento da nomeação do novo cônsul, apontado para tomar as rédeas dos
interesses romanos na Hispânia Ulterior. Na batalha contra o pretor Plaúcio,
este mandou tocar as tubas e o exército romano cerrou fileiras com uma primeira
linha pejada de escudos vermelhos retangulares e lanças inclinadas. Aguardavam
a carga inimiga. Viriato revê a estratégia com os seus guerreiros e avança
rápida e decididamente contra os romanos mas, a pouca distância dos mesmos
manda recuar os seus homens, dando a entender que se assustaram com o poder do
exército inimigo. Entretanto, quando já se encontra distante dos seus
perseguidores, Viriato inverte a marcha e ordena um ataque feroz pela frente e
pelas alas. Apanhados de surpresa pela estratégia rápida, os romanos são
rapidamente dizimados.
Já d.C. podemos dar o exemplo da
Batalha de Aljubarrota, decorrida no final da tarde de 14 de agosto de 1385,
entre as tropas portuguesas, com aliados ingleses, comandadas por D. João I de
Portugal com o condestável D. Nuno Álvares Pereira, e o exército castelhano e
seus aliados liderados por D. João I de Castela. Inovou a tática militar
permitindo que homens de armas apeados fossem capazes de vencer uma poderosa
cavalaria. A opção dos portugueses recaiu sobre uma pequena colina de topo
plano rodeada por ribeiros, perto de Aljubarrota. Contudo o exército não se
apresentou ao castelhano nesse sítio. Inicialmente formou as suas linhas noutra
vertente da colina, tendo depois, já em presença das hostes castelhanas mudado
para o sítio pré-definido. Isto provocou bastante confusão nas tropas de
Castela. Depois de outras surpresas inseridas na estratégia de D. Nuno Álvares
Pereira, precipitadamente, João de Castela ordenou a retirada geral sem
organizar a cobertura. Os castelhanos debandaram então desordenadamente do
campo de batalha, tendo a cavalaria portuguesa se lançado em perseguição dos
fugitivos, dizimando-os sem piedade.
Seria importante que não fossem
necessárias mais surpresas pelas estratégias para se ganharem batalhas, sinal
de que o mundo caminharia melhor.
João de Jesus Nunes
(In “Jornal Fórum Covilhã”, de
12-10-2022. Este texto foi publicado incompleto, faltando a parte final do
antepenúltimo parágrafo e o último parágrafo)
4 de outubro de 2022
DOIS SÉCULOS DA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL
Oficialmente, a data comemorativa para a independência do
Brasil é de 7 de setembro de 1822. Foi neste dia que ocorreu o evento conhecido
como o Grito do Ipiranga, nas margens do riacho Ipiranga, atualmente na
cidade de São Paulo.
Em 12 de outubro de 1822, o
príncipe herdeiro de Portugal foi aclamado D. Pedro I, Imperador do Brasil,
sendo coroado e consagrado no 1º de dezembro desse ano. O país passou então a
ser conhecido como o Império do Brasil.
Entretanto, em Portugal, chegaria
a governar cumulativamente, com a designação de D. Pedro IV.
Recordemos que a partir de 15 de
julho de 1799, o então Príncipe do Brasil (pai deste D. Pedro), D. João Maria
de Bragança (mais tarde D. João VI), tornou-se príncipe-regente de Portugal,
pois sua mãe, a rainha D. Maria I, foi declarada louca pelos médicos. Os
acontecimentos na Europa, onde Napoleão Bonaparte se afirmava, sucederam-se
cada vez mais repentinamente.
Numa retrospetiva muito alongada,
direcionada para o ano da descoberta do Brasil, no redondo 1500, muitas
estórias da história brasileira se passaram até aos dias de hoje, entre tristes
e ledas madrugadas, e entre ventos e marés que viriam a acontecer neste grande
país do hemisfério sul do Planeta.
Não escondo o prazer da narrativa
daquele verão de 1500, na visão do Paraíso, que João Paulo Oliveira e Costa nos
traz no seu livro Episódios da Monarquia Portuguesa, em que uma pequena
caravela entrou no Tejo sem despertar a curiosidade dos espiões que enxameavam
por Lisboa. Tampouco a administração régia deixou testemunho da chegada de
Gaspar de Lemos a Lisboa depois de ter participado na descoberta da Terra de
Vera Cruz. Só volvidos alguns meses quando os navios sobreviventes da armada da
Pedro Álvares Cabral regressaram da Índia, se soube do achamento de novas
terras no Sudoeste do mar Oceano.
Pela pena do navegador Pero Vaz
de Caminha, um dos escrivães da armada, o rei de Portugal – D. Manuel I –
“pudera espreitar o Paraíso: uma terra de temperatura amena e de clima benigno,
vegetação luxuriante e animais estranhos, que era habitada por gente nua que
parecia viver na inocência de Adão e Eva. Andam nus sem nenhuma cobertura; nem
estimam nenhuma cousa cobrir, nem mostrar suas vergonhas, e estão acerca disso
com tanta inocência como têm em mostrar o rosto”
E Pero Vaz de Caminha “ia mais
longe ao testemunhar que a inocência daquela gente era contagiável, pois
andavam entre eles três ou quatro moças bem moças e bem gentis, com cabelos
muito pretos compridos pelas espáduas, e suas vergonhas (a púbis) tão altas e
tão cerradinhas, e tão limpas das cabeleiras que nós de muito as bem olharmos
não tínhamos nenhuma vergonha”. E aquela gente inocente tinha assistido
sossegadamente à celebração da missa, pelo que o escrivão Caminha estava
convicto que deixando eles ali dois degredados, el-rei devia enviar clérigo nos
próximos navios “para os batizar porque já então terão mais conhecimento da
nossa Fé que dous degredados”.
Segundo Renato Epifânio,
presidente do Movimento Internacional Lusófono e professor universitário,
“podemos dizer que Portugal não descobriu o Brasil – pela simples mas
suficiente razão de que o Brasil não existia antes de os portugueses lá terem
chegado. Muito mais do que isso devemos dizer que Portugal criou o Brasil – no
plano linguístico, cultural e civilizacional –, naturalmente que com o
contributo das comunidades indígenas e de todas as outras comunidades que,
século após século, fizeram do Brasil o seu país. Custa pois, duzentos anos
após a independência do Brasil, ouvir ainda algumas vozes a não reconhecerem a
matriz lusófona deste imenso país. Sendo que, duzentos anos após a sua
independência, a responsabilidade pelo estado do Brasil é, toda ela, dos
brasileiros”.
No próximo dia 2 de outubro, esperemos
que, mais uma vez, se vá virar uma nova página da história do Brasil, com as
eleições presidenciais, onde vão estar onze candidatos, cujas sondagens mais
recentes apontam a disputa entre Jair Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da
Silva (PT).
João
de Jesus Nunes
(In “O Olhanense”, de 01-10-2022)
3 de outubro de 2022
O SERVIÇO MILITAR OBRIGATÓRIO
A 19 de novembro de 2004 acabou,
em Portugal, o Serviço Militar Obrigatório (SMO). Antes, pelo menos no meu
tempo, no ano em que se completavam 20 anos de idade (ainda na condição de
menoridade) éramos alistados para o SMO. Fui alistado em 11 de junho de 1966,
que era, como se designava na altura, ir à inspeção militar, ou ir às sortes. Quem
ficasse apurado para o SMO era submetido a um sorteio militar para efeitos de
incorporação num dos ramos das Forças Armadas, na generalidade, no Exército.
Atribuíam-lhe um número que, na caderneta militar se designava de matrícula,
mas que, na gíria militar era o “número mecanográfico”. A maioridade era até
então a partir dos 21 anos, tendo mudado em 25 de novembro de 1977, que baixou
para os 18 anos.
Pois bem, em termos normais, após
a referida “inspeção militar” dos mancebos apurados, seguia-se a incorporação
numa unidade militar, no ano seguinte, para efeitos de iniciar a recruta. Daí
que o meu “número mecanográfico” 011/226/67, já dava indicação do ano seguinte
ao alistamento: 1967.
Mas fui incorporado somente em
1968, quase a completar 22 anos, assim como todos os do meu ano, porque houve
uma alteração para a admissão para os Cursos de Sargentos Milicianos, a partir
desse ano.
Até esta altura eram distribuídos
para o cumprimento do SMO, iniciando no chamado Contingente Geral, os que não
tivessem ainda completado o Ciclo Preparatório, sendo que, a partir daqui os
que tivessem habilitações escolares mínimas do Ciclo Preparatório completo e
inferiores ao 7º ano dos Liceus, ou equivalente, seguiam para o Curso de Sargentos
Milicianos (CSM). Com habilitações do 7º ano liceal, no ensino médio ou
superior passavam a integrar o Curso de Oficiais Milicianos (COM).
Ora, como eu já tinha o
equivalente ao 5º ano liceal dessa altura, estava em condições de seguir para o
Curso de Sargentos Milicianos, o que veio a acontecer, mas com um ano de
atraso, que, nesse tempo, era terrível em termos da vida profissional de cada
um e até de quem quisesse constituir família. Neste grupo do CSM também se
incluíam os que tinham o Curso do Magistério Primário.
A morosidade da chamada dos
jovens já apurados para poderem ser incorporados que, no caso em apreço,
deveria ser em 1967 e saltou para 1968, deveu-se ao facto de muitos deles, com
habilitações escolares baixas (antes de completarem o 5º ano liceal, ou
equivalente, mas já com o Ciclo Preparatório feito) serem um exagero a integrar
o CSM. E isto em tempos da Guerra do Ultramar. Começaram então a reduzir esse
número, passando a admitir neste grupo só os que tivessem habilitações superiores,
passando a uma certa rigorosidade durante o tempo que estavam na recruta, aos
que se encontravam no Curso de Sargentos Milicianos, por forma a que alguns não
o conseguissem completar e, assim, baixavam para o Contingente Geral. Sucedeu
com vários meus colegas da escola e da vida profissional da altura, que depois
de andarem na escola de recrutas do CSM reprovaram-nos nas provas e enviaram-nos
para o Contingente Geral.
Assim, fui incorporado no CSM, no
ano de 1968, sendo que todos os restantes (incluindo muitos colegas da escola
que não conseguiram completar o 5º ano na altura (hoje 9º. Ano) acabaram por ir
para o Contingente Geral, aumentando a capacidade de militares neste grupo.
Com a independência das Colónias
portuguesas e o terminar da chamada Guerra do Ultramar, veio a acabar também o
SMO como de início referimos.
Até final de 1988, a Lei do
Serviço Militar (LSM) previa um serviço militar baseado na conscrição em que o
recrutamento para as Forças Armadas (FA) assentava no Serviço Militar
Obrigatório (SMO), estando todos os cidadãos do sexo masculino sujeitos ao
cumprimento das obrigações militares, desde os 18 até aos 38 anos de idade.
Em meados de 1999, a LSM foi
atualizada passando a prestação do serviço militar a efetuar-se de duas formas
durante um período transitório: através do Serviço Efetivo Normal (SEN) ou do
Serviço voluntário sustentado em Regimes de Contrato (RC). Para além disso, a
idade limite de sujeição dos cidadãos às obrigações militares reduz-se para 35
anos de idade.
Em 2000, com a entrada em vigor
do atual quadro legal, o recrutamento militar assume três formas distintas:
. Recrutamento Normal para a prestação
voluntária do Serviço Militar em RC e RV;
. Recrutamento Especial para a
prestação voluntária de serviço militar nos Quadros Permanentes das FA;
. Recrutamento Excecional, para
efeitos de convocação ou mobilização dos cidadãos (em caso de guerra ou
catástrofe).
Após o fim do período
transitório, em setembro de 2004, assiste-se ao voluntariado pleno do serviço
militar com extinção do SEN, assumindo as Forças Armadas a capacidade de captar
os seus próprios recursos humanos concorrendo diretamente no mercado de
trabalho com outras entidades empregadoras.
Ao mesmo tempo implementa-se o
Dia da Defesa Nacional (DDN) cuja comparência passa a ser um dever militar de
todos os cidadãos do sexo masculino que completem 18 anos de idade. Em 2010
este dever estende-se também às jovens cidadãs do sexo feminino, nascidas a
partir de 1992, universalizando-se assim os deveres militares.
Formalmente o SMO terminou a 19
de novembro de 2004, mas na prática terminou a 19 de setembro desse ano, data a
partir da qual os três ramos das Forças Armadas (FA) passaram a contar apenas
com voluntários contratados.
Altas patentes militares e
partidos com assento na Assembleia da República desejam agora o regresso do
Serviço Militar Obrigatório. Dezoito anos depois da sua extinção, peritos das
Forças Armadas estudam já novas modalidades deste serviço cívico que virá
resolver o grave problema da falta de mão de obra na tropa.
João de Jesus Nunes
jjnunes6200@gmail.com
CONTE-NOS A SUA HISTÓRIA - FRANCISCO DOS REIS SIMÕES
Nasceu em Famalicão da Serra, concelho da Guarda, no dia 19 de dezembro do ano da graça de 1944, mas desde março de 1969 passou a residir na Covilhã. É casado e tem um filho.
Trabalhava na cidade da Guarda, na empresa Manuel Conde, do ramo da reparação de automóveis, quando, ainda sem ter completado os 19 anos, foi incorporado, como voluntário, no Curso de Paraquedismo.
Iniciou a vida militar em Tancos, no dia 14 de outubro de 1963, então na recruta, até final do curso de paraquedista, com mobilização posterior para o Ultramar.
Começou o Curso de Paraquedismo em 25 de março de 1964, no Regimento de Caçadores Paraquedistas (RCP), em Tancos, fazendo o tirocínio em 25 de setembro do mesmo ano.
Em 17 de setembro de 1965, embarcou no porto de Lisboa, com destino à 3ª. Região Aérea (BCP 31), via marítima, no Vera Cruz, desembarcando em Luanda em 26 de setembro de 1965. Embarcou no mesmo dia, via aérea, para Moçambique, tendo desembarcado no aeroporto de Lourenço Marques no dia seguinte.
Em 15 de dezembro de 1965 marchou para o Norte de Moçambique para o BCP 31, em Nacala, concelho de Nampula.
Regressou à Metrópole, passando à disponibilidade, no CRM 3, em 27 de setembro de 1967.
Foi ainda condecorado com a medalha comemorativa das Campanhas das Forças Armadas à Província de Moçambique, no dia 2 de junho de 1967.
Na sua Caderneta Individual de Saltos e Voos (nº. 662/63) consta, por exemplo, que fez o primeiro salto de 500 metros, na Base Aérea nº. 3, em Tancos, no dia 16/03/1964, seguindo-se outros. Em Moçambique fez dois saltos: no dia 28/04/1966, num voo de 40 minutos fez um salto de 400 metros em UMBELUZI; e no dia 19/06/1966, num voo de 30 minutos, fez novamente um salto de 400 metros, no aeroporto da Beira. Todos eles eram só para demonstração, já que era perigosíssimo fazerem saltos em zonas de combate.
O pessoal paraquedista ajudava a tropa do Exército sempre que necessário. Assim, o seu pelotão ainda foi ao mato para ajudar o pessoal do Exército. Numa dessas operações faleceram três camaradas paraquedistas que ajudavam o Exército, no dia 14/03/1966.
Regressado à vida civil, passou a residir na Covilhã, onde trabalhou na sua atividade de reparação auto, na Garagem de São João, Lda, durante sete anos, e, posteriormente, de conta própria, primeiramente numa sociedade – Auto Montanha da Covilhã – onde esteve seis anos, e depois sozinho, na Rua da Indústria, até que se aposentou por invalidez em 2001.
O COMBATENTE DA ESTRELA - APRESENTAÇÃO DO ÚLTIMO LIVRO DO NOSSO COLABORADOR JOÃO DE JESUS NUNES
APRESENTAÇÃO DO LIVRO “DA MONTANHA AO VALE – As Viagens de um Grupo de Tertulianos”, DO NOSSO ASSOCIADO E COLABORADOR DESTE PERIÓDICO, JOÃO DE JESUS NUNES
Este evento cultural, da sua mais
recente obra, aconteceu no dia 3 de setembro, no Salão Nobre da Câmara
Municipal da Covilhã, para o qual a Direção deste Núcleo da Liga dos
Combatentes foi convidada para o ato, tendo estado representada pelo seu Presidente
João Azevedo e ainda pelos Diretores António Franco e Cassiano.
O livro foi apresentado pelo Juiz
Desembargador, Dr. José Avelino Gonçalves, ele também escritor.
O Município esteve representado
pelo Presidente da Câmara, Dr. Vitor Pereira e pelo seu Adjunto, Paulo Ranito.
Teve um momento musical pela
violinista Susana Saraiva, sendo que dos convidados do Autor, estavam, entre
outros, o Dr. José António de Sousa, ex-CEO e Presidente da Liberty Seguros em
Portugal; o Dr. Vitor Alegria, jurista e quadro técnico superior da Fidelidade
e ainda Presidente do Museu Virtual de Seguros; o Presidente da Casa da Covilhã
em Lisboa, Manuel Vaz, e o seu Delegado Regional, João Romano; a União de
Freguesias da Covilhã e Canhoso, representada pela Drª. Cristina Dias; para
além de vários colegas de profissão e amigos das várias tertúlias, algumas que
integram o conteúdo do próprio livro.
Com o sentido que a Cultura
Covilhanense fosse objeto de evidência, numa homenagem aos vários Escritores
Covilhanenses, alguns acederam ao pedido do Autor e estiveram presentes,
acompanhando-o nesta sua última obra. Quis ainda salientar a Comunicação Social
Regional a qual esteve presente através da Rádio Clube da Covilhã e
da Rádio Cova da Beira. Os Semanários da Região, por vários motivos não
puderam estar presentes, noticiaram, no entanto, este evento cultural. Mas
esteve presente, conforme referido, o nosso Combatente da Estrela.
Parabéns ao João de Jesus Nunes
por mais esta obra em prol da Cultura Covilhanense.
20 de setembro de 2022
A RAINHA E O NOVO REI
Recordo-me da vinda da Rainha Isabel II a Portugal, naquele dia 18 de
fevereiro de 1957, recebida com grande pompa pelo então Presidente da
República, General Francisco Craveiro Lopes, que mais tarde seria marechal.
Tinha ela 31 anos e havia sido coroada há cinco. Viera acompanhada pelo
marido, Filipe, Duque de Edimburgo, e a embarcação que os transportava atracou
no Terreiro do Paço, repleto de população em festa.
Com ela também vinham os seus filhos, os príncipes Carlos (hoje o novo
rei), então com 8 anos, e a princesa Ana, com seis.
Tinha eu, nessa altura, quase onze anos e frequentava a Biblioteca
Municipal, onde meu Pai trabalhava, sediada ao Jardim. Deliciava-me então a ver
as fotos dos jornais com aquela linda família, assim como as notícias que enchiam
as suas páginas. Mas a única revista que ia para aquela Biblioteca Municipal
era a famosa extinta Flama, que desfolhava com todo o prazer, a contemplar a
reportagem ali inserida deste enorme evento para a época.
A televisão preparava-se então para começar em Portugal, naquele mesmo
ano, e o único canal, a preto e branco – RTP – apanha este evento sem material nem
quase logística, pois ainda não tinha emissões regulares quando organizou uma
grande operação televisiva para acompanhar a visita da monarca inglesa a
Portugal.
Bom, mas com tudo o que era possível na altura, depois das honras
militares, o cortejo seguiu de coche pelas ruas da cidade de Lisboa, com os
acenos e sorrisos da simpática jovem rainha. Visitaria novamente Portugal no
ano 1985, já com o nosso País em democracia.
Seria esta figura incontornável da História que viveria um dos reinados
mais longos – 70 anos, sendo que o que viveu mais tempo situa-se entre os
séculos XVII e XVIII (1643 a 1715) – Luís XIV, da França, com 72 anos. Já em
Portugal, o monarca que reinou mais tempo foi D. João I, ele que também casou
com uma inglesa, D. Filipa de Lencastre, sendo o seu reinado longevo de 48 anos
e 130 dias. Seguiu-se-lhe D. Afonso Henriques, na longevidade, com 46 anos e
132 dias.
Esta grande monarca, que agora deixou o mundo dos vivos, na ordem natural
da vida, liderou o Reino Unido e a Commonwealth ultrapassando a bisavó, a
rainha Vitória, que teve o peso da coroa durante 64 anos.
“Para a história, além do reinado durante alguns dos períodos mais
conturbados do país, de ultrapassar crises (internas, políticas, económicas,
familiares) e de deixar a sua marca num legado extenso e completo, Isabel II
tornou-se em si mesma um símbolo da nobreza, da realeza global, da graça, de
entrega e de dever à Coroa inglesa”, segundo o Correio da Manhã.
Agora, o herdeiro do trono britânico, seu filho Carlos, de 73 anos, que
nalguns momentos terá já quase exercido o cargo como regente (na qualidade de
príncipe de Gales, assumiu funções oficiais em nome da rainha) sucede, com o
seu nome próprio. Uma decisão que foi
uma das primeiras a ser tomada no seu reinado e será Carlos III, ao lado da
rainha consorte Camila, esta conforme desejo expresso de Isabel II, há sete
meses, deixado em testamento.
A BBC reconhece que a escolha deste nome surpreendeu os britânicos pois
acreditavam que viesse a optar pelo título de Jorge VII, em homenagem ao avô,
Jorge VI. É que a história por detrás do nome de Carlos não é pacífica no Reino
Unido. “Tanto Carlos I como Carlos II foram monarcas com reinados polémicos.
Carlos I, que reinou entre 1625 e 1649, foi
o único rei executado na História inglesa, em 17 de janeiro de 1649, e liderou
os destinos do país durante uma tenebrosa guerra civil” – recorda o The Telegraph, segundo o Público. Já seu filho, Carlos II, é particularmente
conhecido da História inglesa pela sua vida íntima que envolve a única
portuguesa a ser rainha de Inglaterra, Catarina de Bragança, filha do rei
português D. João IV. “Catarina parecia ser a noiva perfeita, dada a histórica
aliança entre portugueses e ingleses – até se diz que levou para Inglaterra o
hábito de beber o chá da tarde. Mas o casamento não resultaria em filhos
legítimos, o que alarmava o Governo preocupado com a sucessão, de cuja esposa
não teve nenhum filho, sendo assim substituído por seu irmão Jaime”. D. Carlos
II morreria em 1685 sem o problema de sucessão legítima resolvido e a esposa,
Catarina de Bragança, “seria devolvida” a Portugal, onde habitou o Palácio de
Bemposta, em Lisboa.
Surge agora o novo rei, D. Carlos III (Carlos
Filipe Artur Jorge) o primeiro filho da então princesa Isabel, e do marido
Filipe, nascido a 14 de novembro de 1948. Foi coroado príncipe de Gales pela
mãe aos 20 anos. Era o herdeiro do trono
há mais tempo em funções e o mais velho a ser coroado, aos 73 anos.
Numa narrativa do Público, “a ascensão ao
trono do novo rei da Inglaterra e da nova rainha, Camila Parker é um caso de
incrível superação de escândalos em que foram protagonistas nos anos 80/90 e de
uma recuperação milagrosa de imagem pública, tanto de Carlos como de Camila,
outrora odiada pelo povo britânico por ser a ‘terceira pessoa’ dentro do
casamento de Carlos e Diana de Gales – como a própria Diana revelou em
entrevista à BBC – acabou por se tornar popular, devido à sua dedicação e boa
imagem construída ao longo de quase duas décadas de casamento”.
Isto de escândalos de reis e rainhas sempre
houve por esses países fora, incluindo Portugal. Atente-se que Isabel II e
agora seu filho, Carlos III, só conseguem estar nesta linha de sucessão, devido
a um outro “escândalo”, se assim se pode considerar, pelo facto do tio de
Isabel II, o rei Eduardo VIII ter abdicado do trono a favor de seu irmão, Jorge
VI, pai de Isabel II, para casar com Wallis Simpson, uma americana divorciada
do primeiro marido e em processo de divórcio do segundo, gerando a chamada
crise de abdicação, ocorrida em 1936.
Esperamos assim que não haja mais escândalos e
que Carlos III seja um grande Rei, do Reino Unido e dos Reinos da Comunidade de
Nações, em prol do desenvolvimento e da paz quer na Europa quer no Mundo.
João de Jesus Nunes
(In “O Olhanense”, de
15-09-2022)
7 de setembro de 2022
OS INCÊNDIOS FLORESTAIS EM PORTUGAL
Os incêndios florestais não são um fenómeno
novo das últimas décadas em Portugal. A partir de 1970, segundo o ensaio de
António Bento-Gonçalves, “com a profunda transformação verificada no país,
dá-se um aumento da frequência, da dimensão, da intensidade e da capacidade
destruidora dos incêndios, o que veio a culminar nas tragédias de 2017, que
feriram 320 pessoas e ceifaram a vida, em apenas dois dias (17 de junho e 15 de
outubro) a 116 pessoas”.
Os incêndios são alimentados, na minha
opinião, pela ferocidade dos tempos que correm, com as alterações climáticas em
que todos somos responsáveis por assobiarmos para o lado. Sim, quando se fala
na ação que urge tomar sobre as condutas para resolver este grave problema, existe
aquela apatia do deixa andar, outros resolverão por mim, não sou só eu a atuar,
o que redunda nas nefastas situações que todos os anos vivemos, no verão (isto
quanto a incêndios), em todo o planeta.
Mas também são os descuidos voluntários ou
involuntários de todos os que passam e provocam a combustão.
Dentre muitos outros fatores, como as
plantações de árvores e reflorestação indevidas, falta de limpeza dos terrenos
envolventes, deixo para último os piromaníacos que uma legislação judicial, deste
país à beira-mar plantado, o mantém nos brandos costumes.
Se o que rouba uma galinha para dar de comer
aos filhos é punido com facilidade, porque é que não se exerce uma rigorosa
aplicação das penas aos pirómanos, seus sequazes ou mandantes? Sem apelo nem
agravo, para que sirva, na exemplaridade da ação judicial, que outros não
venham a ser encorajados a repetir o crime abafado.
As observações ao que se passa em nosso
redor, e as denúncias, devem ser acolhidas com muita atenção pelos responsáveis
a quem nos dirigimos.
Corri grande parte do país, na minha vida
profissional de então, e desloquei-me na tranquilidade de muitas noites, no
regresso para casa, com a mulher com os meus filhos pequenos a aguardar ansiosa
que eu chegasse bem, sem ainda se conhecerem os telemóveis e quando sentíamos o
lenitivo de encontrar um posto telefónico para telefonar para casa (geralmente
instalado num café ou outra casa comercial) ou então a simpatia de um cliente
que nem aceitava o custo da chamada, muitas vezes interurbana, aguardando que
do lado de lá autorizassem a chamada telefónica.
Algumas vezes perguntei aos guardas-florestais,
em Figueira de Castelo Rodrigo, por que é que me pediam os documentos do carro
se a missão deles era sobre as florestas e a caça.
Duma outra vez, uma indignação pela
indiferença que observei na GNR de Belmonte, sobre uma denúncia de um possível
fogo posto que nascia perto da estrada da Vela ou Gonçalo, com um Mercedes Benz
de luz apagadas junto ao mesmo. Resposta daqueles militares de Belmonte, lá
para os anos 1975 ou próximos: Se era um Mercedes não deveria ser o dono do
carro a pegar o fogo... Nós vamos lá ver. Mas como à meia-noite já vinham da
cama, certamente para ela regressaram.
Hoje as autoridades policiais estão mais
evoluídas, com outro grau de instrução, e dão-nos mais confiança.
Só que o País não parece ter aprendido muito
com os incêndios de ano para ano. Os nossos Bombeiros sempre num esforço
hercúleo e a Proteção Civil procurando o melhor. Mas, como agora sucedeu com o
incêndio na Serra da Estrela, parece ter havido inicialmente uma
descoordenação, com muitos a mandar e as populações espavoridas sem apoios imediatos,
retardando a intervenção dos soldados da paz, o que, compreensivelmente, nem
sempre é possível.
Mas onde é que está o busílis da questão?
Como cortar este nó górdio?
Por que não colocar os militares que exercem
o serviço militar não obrigatório a fazerem o serviço de vigias? Com armas como
no tempo da Guerra do Ultramar, que, esses de então hoje sofrem de stress
pós-traumático, mas agora não existe esse perigo, antes pelo contrário, seria
um ato patriótico, caçar esses terroristas incendiários, com o tratamento
devido.
Depois da década de 70 do século passado,
muitos fogos surgiram no País e nesta região da Beira Baixa e Serra da Estrela.
Num deles, em agosto de 1990, faleceu um meu antigo Colega da Instrução Primária,
João José Manteigueiro Mota. Seis anos mais tarde, também em agosto, faleciam
três bombeiros covilhanenses na queda de um helicóptero que combatiam um
incêndio na Serra da Estrela: Ricardo Bruno Jesus Cardona, António Miguel Vaz Marques
e Fernando Manuel Sousa Xistra. Mais tarde, em agosto de 2013 falecia, apanhado
pelas chamas, o bombeiro, da Corporação da Covilhã, Pedro Miguel de Jesus
Rodrigues.
Outrora, antes da década atrás referida,
pouco se ouvia falar de incêndios florestais, e a História dos Bombeiros
Voluntários da Covilhã, no seu I volume, regista muitos incêndios em habitações
e fábricas de lanifícios, sobrando os florestais após os anos 70 do século XX,
conforme já referido.
“Ao longo dos anos, muitas foram as vítimas
mortais dos incêndios florestais em Portugal. Sem sermos exaustivos (não foram
aqui contabilizados os bombeiros falecidos em acidentes rodoviários, a caminho
ou no regresso de incêndios florestais) contabilizam-se 257 vítimas mortais
entre 1961 e 2018, sendo que 65 eram bombeiros, 7 especialistas estrangeiros,
25 militares, 4 funcionários florestais e 156 populares, verificando-se que nos
38 anos do século XX faleceram 64 pessoas, enquanto que apenas em 19 anos, no
século XXI, já perderam a vida 189 pessoas, sendo o ano de 2017 responsável por
61% do total das vítimas mortais no presente século.”
João de Jesus Nunes
(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 07-09-2022)
4 de setembro de 2022
18 de agosto de 2022
"COIMBRA É UMA LIÇÃO"
“As novas gerações não fazem a
mínima ideia de que temos uma canção no nosso património que já foi um êxito
espetacular em todo o mundo com mais de 1000 versões interpretadas por grandes
nomes da música internacional, ou ainda por orquestras famosas.
É uma composição de Raul Ferrão,
com letra de José Galhardo, e o título é ‘Coimbra’. O seu primeiro intérprete
foi Alberto Ribeiro numa serenata a Amália Rodrigues, uma cena do filme ‘Capas
Negras’, de 1947. Nunca se imaginou que viria a ser um superêxito mundial, mas
quase sempre com o título ‘Abril em Portugal’”. Esta é uma narrativa de Carlos
Cruz da sua rubrica no Tal & Qual,
que ainda se reporta a um documentário transmitido pela RTP 2 sob a designação
“Coimbra, a História de uma Canção”.
Não é preciso trazer à discussão
a “Coimbra dos Doutores”, na letra desta canção, para fazer notar o muito que
anda por aí de pontapés na gramática e irreflexões no contexto da linguagem
escrita e falada, por gentes das televisões, e dos jornais, para já não
falarmos nos apanhados das redes sociais.
Alguns casos que me chegaram às
mãos, há mais de um ano, são bem evidentes de quanto a língua de Camões muitas
vezes é ultrajada, algumas no lapso da expressão oral duma conversação, outras
na precipitação de não encontrar ligação rápida adequada, mas outras são por
exibição da sua oratória que acabou por cair no ridículo.
Algumas frases quase que ganharam
imortalidade. Se não, vejamos:
- Estar vivo é o contrário de
estar morto. – Lili Caneças
- Nós somos humanos como as
pessoas. – Nuno Gomes – SL Benfica
- Quem corre agora é o Fonseca,
mas está parado. – Jorge Perestrelo
- Inácio fechou os olhos e olhou
para o céu! – Nuno Luz (SIC)
- Juskowiak tem a vantagem de ter
duas pernas! Chutou com o pé que tinha
mais à mão –
Gabriel Alves.
- É trágico! Está a arder uma
vasta área de pinhal de eucaliptos. – Jornalista da RTP
- Um morreu e o outro está morto.
– Manuela Moura Guedes
- Antes de apertar o pescoço da
mulher até à morte, o velho reformado suicidou-se. – João Cunha, testemunha
de crime.
- Quatro hectares de trigo foram
queimados. Em princípio trata-se de incêndio. – Lídia Moreno (Rádio Voz de
Arganil)
- À chegada da polícia, o cadáver
encontrava-se rigorosamente imóvel. – Ribeiro de Jesus, PSP de Faro
- O acidente provocou forte
comoção em toda a região, onde o veículo era bem conhecido. – António Bravo
(SIC)
- Ele contraiu a doença em vida. –
Dr. Joaquim Infante, Hospital de Santa Maria
- Há muitos redatores que, para
quem veio do nada, são muito fiéis às suas origens. – António Tadeia,
Crónicas do Correio da Manhã
- Os sete artistas compõem um
trio de talento. – Manuela Moura Guedes (TVI)
- Esta nova terapia traz
esperanças a todos aqueles que morrem de cancro em cada ano. – Dr. Alves
Macedo, oncologista
- O difícil, como vocês sabem,
não é fácil. – Jardel
- Em Portugal é que é bom. Lá, a
gente recebe semanalmente de 15 em 15 dias. – Argel, jogador do Benfica
- Tenho o maior orgulho de jogar
na terra onde Cristo nasceu. – Djair, jogador do Belenenses ao chegar a
Belém (zona do Restelo – Mosteiros dos Jerónimos) no dia que assinou contrato
com este clube
- Finalmente, a água corrente foi
instalada no cemitério, para satisfação dos habitantes. – Presidente da
Junta de Freguesia do Fundão
E ficamos por aqui. Passemos dos
momentos de tristezas, que não pagam dívidas, para alguns de hilaridade.
João de Jesus Nunes
(In “ Notícias
da Covilhã” digital, de 18-08-2022)
10 de agosto de 2022
O TEMPO QUE PASSA
Terminaram as minhas férias
veraneias. De Andaluzia à Serra da Estrela vão consideráveis diferenças. Se dum
lado há os encantos do mar, das colinas e dos rios, na vertente de cá existem
os cambiantes da montanha, com tudo o que à mesma se liga, da flora à fauna, das
maravilhas paisagísticas e de respeitabilidade até aos seus ares saudáveis.
No avanço da minha idade já estou
naquela de me enfadar por longas viagens. Mormente quando o “bicho” se faz por
convidado. Entrei um pouco mais naquela opção da proximidade de estar no local mais
cómodo.
Regressado, vou dar uma volta
pelas inúmeras recolhas de informação que avolumei no meu escritório, com a
minha secretária num aconchegado ninho de folhas de apontamentos, recortes de
jornais, impressões, diversos apontamentos redigidos no resumo de muitos livros
lidos. Alguns destes, dispersos, que consultei, e já não necessito. Local
arrumado. Resultado: mais um saco cheio de papel a caminho do Banco Alimentar.
Um alívio. Mas a falta de memória é que persiste. Até nas coisas mais banais,
no imediato, que só surgem com algum esforço após algum tempo. Aquela de
codificarem a situação ser devida à PDI já é velha. Vale-me a persistência e o
meu gosto pelas buscas, investigação e criatividade.
Fico feliz quando encontro algum
documento julgado perdido, ou aquele outro de que já não me recordava. Afinal,
o número de amigos é superior ao que imaginava.
Os dias que ainda remanescem para
este ano, se Deus quiser, vão ser para mim empolgantes. Penso eu que tal venha
a suceder, com a apresentação do meu livro, na Covilhã – DA MONTANHA AO VALE – As Viagens de um Grupo de Tertulianos – já
que a primeira edição logo se esgotou quase ainda estava no prelo. Foi então apresentada
em Seia e em Lisboa. Os que já se manifestaram interessados, com encomendas
para esta segunda edição, limitada a 100 exemplares, poderão agora aproveitar a
única oportunidade, no dia 3 de setembro, no Salão Nobre da Câmara Municipal da
Covilhã, às 15 horas.
Aguardando a sua entrega, encontra-se
também o meu último livro – RECORDAR É
VIVER – que foi, paradoxalmente, o primeiro escrito na minha vida, em 1967,
aos 21 anos, sem nunca ter sido publicado. Ficou no segredo dos deuses, durante
55 anos, datilografado e por mim encadernado, um único exemplar, altura em que
o escrevi quando trabalhava na Câmara Municipal da Covilhã. Muito alterado vão
agora surgir 50 exemplares, oficiais, que não serão colocados à venda.
Ainda não conhecíamos o ambiente
digital. Conhecíamos, sim, o que era comum neste País de olhos vendados: entre
os perigos dos informadores da PIDE, das prisões políticas, dos que procuravam
na emigração legal uma forma de dar uma nova vida à sua de emagrecimento. Mas
também, em Portugal, os que procuravam passar a fronteira de assalto, como ainda
os contrabandistas. Mas aquele perigo maior para os jovens rapazes, depois de
terem ido às sortes, era a Guerra do Ultramar. E não se podia escrever como
hoje, onde a censura imperava.
Isto é sobejamente conhecido de
todos nós e é quase como chover no molhado.
Temos a revolução tecnológica e
cultural em velocidade alucinante. No século XXI, o homo sapiens vai
converter-se assim, a olhos vistos, em homo
digitalis, pois na vida da maioria
das pessoas faz parte a utilização de telemóveis, computadores, internet, redes
sociais, etc.
Mas neste tempo que passa, não posso esconder que aquele outro “meu
tempo” de antigamente me parece, em muitos aspetos, mil vezes mais interessante
do que este “meu tempo” de agora, pegando nas palavras de Jorge Morais, diretor
do Tal & Qual, de 08-09-2021. E aqui vão alguns exemplos: “nesse tempo em
que não passávamos o dia a escrever mensagens inúteis nos smartphones; nesse
tempo em que os cantores tinham voz e os escritores Gramática; nesse tempo em
que os telejornais davam notícias e os locutores não gaguejavam a lê-las; nesse
tempo em que viajar não era navegar na net, as malas não tinham, rodas e os
carros elétricos eram transportes coletivos; nesse tempo em que à chuva, ao
vento e ao frio chamávamos simplesmente inverno, e não ‘alerta laranja’; nesse
tempo em que conversávamos uns com os outros sem precisarmos de zoom; nesse
tempo em que mandávamos cartas de amor com pétalas secas entre as páginas. Nesse
tempo, talvez não tivéssemos ao nosso alcance tantas maravilhas da técnica,
talvez não estivéssemos aconchegados em tantos códigos, politicamente corretos
e talvez não pudéssemos andar à pesca do Nada em tantas ‘redes sociais´. Mas
éramos, parece-me, muito mais autênticos”.
João de Jesus Nunes
(In “Jornal Fórum
Covilhã”, de 10-08-2022)
2 de agosto de 2022
UMA ELEVADA PERMUTA DE FUNÇÕES
Depois de no número de 1 de
julho ter sido anunciada a troca de funções do então Diretor deste periódico,
estimado amigo Senhor Isidoro Sousa, pelo então Diretor Adjunto, prezado amigo
Mário Proença, surge agora no número de 15 de julho com a função de Diretor, o
que muito me apraz registar.
Desde que tenho o privilégio
de escrever no quinzenário O Olhanense, já vai para um quarto de século,
nunca tive o ensejo de conhecer pessoalmente qualquer obreiro do Jornal, com
uma exceção, abaixo descrita, a começar pelo falecido Senhor Herculano Valente,
com que iniciei a minha colaboração esporádica e do qual não passei de alguns
contactos telefónicos e por escrito.
Quando do seu falecimento e
face à minha perplexidade de continuar a escrever neste Jornal, logo recebi uma
comunicação, não sei se por mensagem, email ou carta, dum colaborador que dava
pelo nome de Mário Proença, animando-me no sentido de que havia quem desse
continuidade a este periódico, com inovações que certamente iriam surgir, pelo
que contava com a minha colaboração.
Num ápice, as brumas se
afastaram das minhas hesitações e houve assim um lenitivo para que eu pudesse
continuar a escrever entre o paradoxo do homem da serra e os das gentes algarvias,
ou seja, de outros horizontes. Fiquei satisfeito. Imediatamente anuí a esse
desiderato, até aos dias de hoje. E muito tenho aprendido, na alegria de ver
muito do que aqui escreve como um genuíno investigador, sempre na sua
simplicidade. Ele traz para as páginas dum periódico local, que também é regional,
o encanto de narrativas, por vezes duma similaridade das que eu algumas vezes
também escrevo nos periódicos da minha região beirã. Coincidências tão
positivas.
Na exceção atrás referida,
tive, sim, o prazer de conhecer pessoalmente o atual Diretor Adjunto, Senhor Isidoro
Sousa, conjuntamente com a esposa, então como Presidente do Sporting Clube
Olhanense, como hoje ainda é o seu ilustre Presidente, num jantar comemorativo
do Sporting Clube da Covilhã, sob a égide do seu Presidente, José Mendes, a
caminho de duas décadas na liderança do clube serrano, a fazer um excelente
trabalho, que convidara vários presidentes de clubes. Estava na minha mesa. Perguntei
quem era o casal, tendo-me informado que eram de Olhão. A partir daí gerou-se
uma amizade por via deste excelente quinzenário.
Com o surgimento do amigo
Mário Proença, este periódico foi sendo renovado com frequência, no âmbito da
sua criatividade, e admiro como tem disponibilidade para fazer sair para os
leitores temas tão diversos, desde a história citadina e do concelho, às
curiosidades e vivências de outros tempos, com que me delicio, pois são
geralmente idênticas a todos os recantos do País.
Sem menosprezar a colaboração
de outros cronistas, que leio atentamente, é da veia intelectual inserida nas
teclas do computador do atual Diretor d’O Olhanense, que saem o
preenchimento de páginas enriquecedoras do seu conteúdo.
Estes dois Homens com Garra,
souberam interpretar a valia dum órgão da Comunicação Social tão importante
para a sua Terra e Região, que deram as mãos, desprovidos de quaisquer egos na
ribalta, tão só o encimar tudo em prol da Coletividade histórica algarvia, das
gentes olhanenses e algarvias em geral, desfraldando a sua bandeira por todo o
País e estrangeiro que compreende e gosta da Cultura.
Parabéns a ambos, aos quais
envolvo num abraço serrano.
João de Jesus Nunes
20 de julho de 2022
ESTÓRIAS DE UM ARQUIVO JUDICIAL - A GRANDE DEVASSA E OUTRAS ESTÓRIAS
ESTÓRIAS DE UM ARQUIVO JUDICIAL – A
GRANDE DEVASSA E OUTRAS ESTÓRIAS
Este é o segundo livro do juiz
desembargador do Tribunal da Relação de Coimbra, Dr. José Avelino Gonçalves,
que na Covilhã permaneceu vários anos então como juiz presidente do Tribunal Judicial
da Comarca de Castelo Branco, e que na Cidade laneira e universitária, assim
como na região, deixou grandes amizades e reconhecida competência.
Esta valiosíssima obra, obtida
como a anterior, em 2020, da recolha de entre o pó dos sótãos onde os arquivos
se tumulavam, reforça outras estórias quão interessante como de reais que
ficariam para sempre sem qualquer utilidade, não fosse a paciência, sacrifício
e tenacidade deste Homem – Juiz e Escritor – como já me havia referido num
escrito em dezembro de 2020.
Acabei de ler este segundo livro
e, não obstante dentre de algumas horas ir gozar uns dias de férias com a
família, não podia deixar de digitar no teclado do meu computador um breve
apontamento de várias estórias recolhidas pelo amigo autor desta nova
publicação que me seduziu com memórias que, de algumas personagens ou
referências das mesmas me transportaram para tantos assuntos que a esta região
dizem respeito.
Por falta de espaço e de tempo,
porque estou a caminho das duas da madrugada, apenas me reporto a algumas
partes das últimas páginas, entre as quais a quantidade de barbeiros que, quantas
vezes ardilosamente, utilizavam a
medicina indevidamente, como curandeiros, lá para as bandas de Penha Garcia, e
onde o médico escritor Fernando Namora exerceu a atividade clínica em Monsanto.
Sobre a estória d’”O Capelão da
Panasqueira e o casamento de consciência”, meu caríssimo amigo Dr. Avelino, não
me podia deixar de alegrar ao recordar o padre Manuel Vaz Leal que eu e muitos
dos Covilhanenses conheceram muito bem, pois era ele que cantava e fazia os
sermões na Procissão dos Passos, com a sua eloquência e excelente voz.
Durante a minha vida
profissional, numa das visitas às Minas da Panasqueira, tive necessidade de
bater à porta do pároco para indagar algo, e atendeu-me o seu sucessor, o
sobrinho padre Américo, que quando eu era jovem me lembro de ajudar o pároco da
minha freguesia – São Pedro – o padre José Domingues Carreto, nalgumas
festividades e mormente na Visita Pascal.
Depois, a direção do padre Leal
como diretor do jornal O Mineiro.
Muito mais haveria a registar, mas tenho que ficar hoje por aqui.
Parabéns ao Dr. José Avelino Gonçalves por nos ter brindado com mais
esta interessante obra.
João de Jesus Nunes
(In “Notícias da Covilhã” digital,
de 14-07-2022)
19 de julho de 2022
MAPEAR AVENTURAS PELOS CAMINHOS SERRANOS
Nem sempre estamos inspirados
para um tema que possa ser da apetência dos estimados leitores. Também nesta
crónica não estou virado para as dificuldades que o mundo enfrenta face ao
ditador mundial dos tempos que correm, aquele que se identifica com o
famigerado Hitler, de igual modo odioso.
Assim, neste verão que há
pouco emergiu, trouxe-me, mais uma vez, falar da Serra da Estrela em cuja falda
é a minha vivência.
E é na montanha maior deste
Portugal Continental que eu me sinto bem, sentado à porta da casa da Serra,
contemplando o horizonte, do qual me vem a inspiração, na visualização dos
rebanhos e dos pastores, do cão da Serra da Estrela, que vamos avistando ou até
se aproxima nós.
Muito haverá que falar, para
os que querem ter ouvidos para ouvir e olhos para ver, a partir, se quiserem,
deste belíssimo recanto dos Hermínios, de in illo tempore.
E isto porque veio a propósito
a homenagem aos Pastores da Serra da Estrela, com a criação, na Torre, de um
novo espaço dedicado aos produtos da ovelha bordaleira. O ponto mais alto de
Portugal Continental – a Torre da Serra da Estrela – tem um novo espaço
dedicado aos pastores e ao produto do seu trabalho: a lã e o leite das ovelhas
Bordaleiras. Este projeto constitui uma forma de apoiar o trabalho dos pastores
da Serra da Estrela e assegurar a continuidade da profissão e da raça da ovelha
Bordaleira. Contribuiu-se assim para o desenvolvimento da economia local e para
a sustentabilidade social do território. De 275 mil ovelhas desta raça
existentes nos anos 80 do século XX, há atualmente pouco mais de 23 mil.
Mas também, no âmbito do
divino, no alto desta Montanha Maior, o paradoxo subsiste., com o prelado da
diocese a que o local pertence – a Diocese da Guarda – por via do Departamento
Diocesano da Pastoral Familiar a manifestar nas suas intenções, de, por um
lado, e bem, promover o encontro diocesano de famílias na Torre, o ponto mais
alto da Serra da Estrela, no dia 26 de junho, em sintonia com o X Encontro
Mundial das Famílias, a decorrer em Roma, começando com a concentração na zona
da Torre, seguindo-se um percurso pedonal, com apoio do Centro de Interpretação
da Serra da Estrela, seguiu-se a celebração da Eucaristia, na Capela de Nossa
Senhora do Ar (Torre), presidida pelo bispo diocesano, D. Manuel Felício.
Só que, tudo o que se tem
desenrolado ao longo dos últimos tempos, aliás dos momentos que vão ultimar a
vida deste prelado, face à idade, vão no encontro de ser o coveiro da Diocese
da Guarda, como muitos dos seus apaniguados, incluindo sacerdotes e leigos
ligados às organizações católicas, e não só, assim o consideram.
Estão nesta cartada não só o
mais antigo órgão da comunicação social da Beira Baixa, centenário, como
instituições criadas carinhosamente e que foram lugar de muitos eventos locais,
regionais e alguns nacionais. Estão
assim na peugada de um homem que não soube conduzir a barca que lhe foi
entregue. Não vou tecer mais comentários, aguardando tão só o desenvolvimento
dos acontecimentos, na revolta que possivelmente vai existir em muitos dos que,
por inércia, não se querem agora manifestar.
Mas a majestosa Serra da Estrela trouxe-me à
memória a beleza das suas enormes rochas, aqueles penedos que são uma aventura
a sua subida, o medo de os poder subir, e, mormente, na descida. Já aconteceu
comigo quando ainda existia alguma juventude mas que jamais conseguirei sonhar
numa dessas aventuras nos tempos que correm. Jurei ser a última vez na minha
vida.
Vejamos a descrição dos
companheiros da Expedição Científica à Serra da Estrela, naquele longínquo ano
de 1881, uma centena de homens, durante 15 dias.
Deixo alguns resquícios dessa
expedição, sem descurar a subida ao Cântaro Magro.
“Depois, nas ‘Interpretações locativas’, falou-se na
origem possível de ‘Monte Hermínio’, sendo
que “uma tradição que chegou aos nossos dias designa a Serra da Estrela o
Hermínio Maior; a de Marvão, o Hermínio Menor’”.
“E também o Malhão Grande ou Malhão da Estrela, nome dado ao ponto culminante da serra,
designação que os pastores da localidade empregam. E cujo local se passou a
chamar Torre, depois de colocada uma
pirâmide, a qual foi mandada construir em 1806 pelo príncipe regente D. João.
As aventuras dos expedicionários: ‘Se de dia e a distância ninguém observa os
Cântaros pela primeira vez sem sentir vertigens e o coração comprimido,
imagine-se o que nós sentiríamos às dez da noite aos vermo-nos presos no cume
do Cântaro Gordo, rochedo de 413 metros de altura sobre a ribeira da Candeeira,
eriçado de fragões escuros, no meio de profundos covões formado por outros
fraguedos e despenhadeiros igualmente sinistros e medonhos! (…) Aqui, onde a
natureza é horrivelmente majestosa e grande, ninguém deixará de se sentir
infinitamente pequeno. (…) Chegado a este ponto fomos descendo,
recomendando-nos o pastor que não olhássemos para os lados por causa da
vertigem do abismo e que descêssemos de costas, não deslocando nunca uma mão
sem ter a outra firme e segura ao rochedo. Estivemos parados algum tempo sem
poder prosseguir nem retroceder. Estávamos suspensos entre a vida e a morte!
Causava horror olhar para os lados ou para a frente. Fitámos então a vista nas
estrelas para não sentirmos a vertigem do abismo cavado a nossos pés. – Estão
salvos, disse-nos o pastor, porque desceram de noite e não viram o precipício’”.
No livro A Lã e a Neve, de Ferreira de Castro, foi narrada uma
célebre descrição da Serra da Estrela, do início do capítulo III da Primeira
Parte, a saber:
“A serra corre de Nordeste a
Sudoeste, como imensurável raiz de outra cordilheira que rompesse longe do seu
tronco. Belo monstro de xisto e de granito, com terra a encher-lhe os ocos do
esqueleto, ondula sempre: contorce-se aqui, alteia-se acolá, abaixa-se mais
adiante, para se altear de novo, num bote de serpente que quisesse morder o
Sol. Ao distender-se, forma altivos promontórios, dos quais se pode interrogar
o infinito, e logo se ramifica que nem centopeia de pesadelo, criando, entre as
suas pernas, trágicos despenhadeiros e tortuosas ravinas, onde nascem rios e as
águas rumorejam eternamente.
Vista do alto, sugere um fabuloso réptil, anfíbio e descomunal, cortado
em dois o grande vale que teria surgido após haver secado o lago que aquele
habitava. Examinada de banda, veem-se-lhe inúmeras patas estendidas e, a
trechos, o lombo serrilhado. Esse gume com muitas mossas é, porém, ilusório.
Contemplado de perto, o dorso da serra, como o dos cetáceos, mostra largas
superfícies, ora chatas, ora abauladas, umas limpas de acidentes, outras
cercadas de fragões, que, com estranhos perfis e enigmáticas atitudes, parecem
defender as terras solitárias. O ser humano tem volume mais mesquinho do que
uma velha giesta, do que uma velha urze, nesses planaltos que se alargam entre
altas vagas de terreno, entre montanhas que cresceram no cimo da montanha. E uma luz de mistério, ao clarear as chapadas
e pendores, enche de temíveis sombras os silentes penedais, os rochedos
majestosos, todos esses gigantescos vultos de granito que povoam a serra, como
seus feros senhores.”
João de Jesus Nunes
(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 13-07-2022 e “O Olhanense”
(artigo
completo) de 15-07-2022)
6 de julho de 2022
O MANÁ
Não é aquele alimento caído do
céu que alimentou o povo de Deus (Israelitas) no deserto. Não. Mas é o cereal
que um dos maiores produtores do mundo, se não o maior, alimenta a maior parte
do Planeta. Não estamos nos tempos bíblicos, mas muitas vezes como que
pretendemos invocar esses momentos.
O trigo da Ucrânia, este país
martirizado por uma potência diabolizada, como largas vezes referimos, está a
dificultar-nos a chegada desse maná.
Se nos reportarmos à Bíblia, numa
das suas narrativas, perante a fome verificada em todo o lado exceto no país do
Faraó, Jacob envia os filhos ao Egipto para aí comprarem trigo e poderem viver
(Gn. 42). Assim aconteceu e ali foram recebidos pelo seu irmão José que, por ter
interpretado os sonhos do Faraó e propiciado uma gestão adequada do cereal
recolhido nos anos de grande produção, fora elevado á categoria de chefe e
governador do Egipto. A ele pertencia, por isso, conforme refere António
Salvado Morgada, in A Guarda, a gestão do comércio do trigo procurado
pelos povos vizinhos.
Agora, como também o mesmo
refere, “o problema do comércio do trigo não se encontra na seca, mas na
guerra. O trigo já terá entrado noutras guerras. Noutros lugares e templos.
Sempre que há guerra, o trigo, como outros cereais, entra na guerra. Até pela
sua ausência.”
Pois bem, o trigo entrando agora
na guerra, tornou-se uma arma beligerante. Faz subir os preços nas padarias,
chegando obviamente às nossas casas.
Esta maldita e evitável guerra da
Rússia contra a Ucrânia, destrói as searas, arrasa a economia dos povos que
neste cereal encontram uma das principais fontes de matar a fome.
Pena é que os senhores geradores
desta guerra não sintam a falta do trigo às suas mesas e que lhes façam
metralhar nos seus estômagos esta carência.
De facto, o trigo – este maná dos
tempos de hoje, e de sempre – entrando na guerra, tornou-se arma de guerra.
Inadmissível!
A guerra do trigo e dos cereais,
acompanhando a guerra das armas, é uma guerra da fome e de outros nomes para a morte.
E é assim que já estamos numa escassez
de produtos, prestes a bater às nossas portas com os industriais de panificação
a sentirem os elevadíssimos preços deste cereal.
O espetro da fome paira sobre os
mais pobres. Como irão ficar os países africanos?
Nesta presumível crise mundial
dos cereais prenuncia uma “guerra mundial do pão”.
João de Jesus Nunes
(In “Notícias da Covilhã”,
digital, de 07-07-2022)

















