17 de setembro de 2020

HISTÓRIAS PARA CONTAR EM REMINISCÊNCIAS PARA PERDURAR

 

Inserem-se na envolvente da vida daquele cidadão que, cruzando vários caminhos, encontrou um deles comum na sua perenidade.

Desde criança que via nas portas exteriores das casas, principalmente no meio rural, umas chapas metálicas, redondas ou retangulares, com o nome de companhias de seguros. Era sinal indicador de que aquele imóvel se encontrava seguro contra incêndio. Os meus avós lá tinham um da Europêa, muito para além depois de falecerem. (1)

Um senhor, de pasta na mão, anualmente ia cobrar a meu pai o seguro de incêndio do seu recheio de habitação, na Companhia de Seguros O Alentejo.

Anúncios luminosos acrílicos ou de outro material, na sua publicidade muitos deles significativos, como o das figuras do cão (Fidelidade), águia (Açoreana e a  A Mundial), Nuno Álvares (O Alentejo); outros muito sugestivos (A Pátria, Aliança Madeirense, Atlas, Bonança, Comércio e Indústria, Douro, Europêa, Mutualidade, A Nacional, Portugal Previdente, Sagres, A Seguradora Industrial, A Social); ou com o homem de negócios representando a Império; ou  D. Afonso Henriques, na Ourique; ou ainda uma caravela representando a Sociedade Portuguesa de Seguros; como a abelha representando a Companhia de Seguros O Trabalho, e, como não podia deixar de ser, o leão, na Companhia de Seguros União. Estas, uma pequena amostra, sem nomear as estrangeiras. Todas já desapareceram por encerramento ou fusão com outras, encimando-se ou lateralizando-se em posições estratégicas de estabelecimentos comerciais e edifícios.

Também a Covilhã teve a sede da Companhia de Seguros A Beira, fundada em 1918, na Praça do Município, nº 30, passando em 1922 a sede social para Lisboa, na Travessa da Espera, nº 8-2º. Explorava os ramos de Incêndio e Transportes. No ano de 1924 foi objeto de penhora e extinta.

Quando estudava lá vinham os seguros na disciplina de Direito Comercial, mas que, para mim, longe de um dia via a abraçar esta atividade de alto prestígio e de enorme importância para a economia do País e do Mundo, passava-me ao lado para além da memória dos símbolos referidos e de quando em vez por via de um sinistro de automóvel em que a polícia tinha que intervir em divergências de assunção de responsabilidade quando nessa altura ainda não havia seguro obrigatório de responsabilidade civil automóvel.

E em alguns fogos em habitações, que atingiam por vezes palheiros e estábulos de animais, mas longe da existência anual de época de incêndios florestais (o que era isso nessa altura?), lá surgiam as exclamações “tinha seguro” ou “não tinha seguro”, que se reportava exclusivamente ao de incêndio, pois que nas décadas de 50 e 60 do pretérito século ainda eram inexistentes os hoje “modernos” seguros multirriscos.

Vim a abraçar esta atividade como profissional na sua profundidade durante quatro décadas e ainda hoje, longe dessas responsabilidades, sou um apaixonado pela mesma.

Já retirado destas lides, um amigo de prestígio nacional, pediu-me para escrever a história desta atividade quando ela já estava contada, em diversas obras, por autores consagrados. Numa aventura desmedida comecei a entrar em buscas por caminhos, veredas e estradas mais acessíveis e lá saiu a obra, talvez um tratado de seguros, O Documento Antigo – Uma Outra Forma de ver os seguros – já em mais de centena e meia de bibliotecas municipais e instituições do País.

Deste vasto preâmbulo resulta na alegria de ver criado o Museu do Seguro que foi sempre um objetivo muito presente desde 2011, por iniciativa de uma dezena de pessoas ligadas profissionalmente a empresas de seguros, que teve em mente e o levou por diante até à sua concretização. Integram o Clube CHAPAS (Clube, História e Acervo Português da Atividade Seguradora). Se falei na alegria que senti, a coincidência é que o principal mentor e dinamizador deste Museu é o presidente do Clube CHAPAS e quadro superior da Fidelidade, Dr. Victor Alegria.

No entanto, a alma seguradora das gentes desta gente, levou à fundação do Museu Virtual do Seguro (MVS), mesmo em tempo pandémico, que ocorreu em 6 de agosto de 2020, contando, em apenas três semanas cerca de 5000 visualizações. Já existe o Museu físico em Lisboa, com exposições permanentes.

No entanto, “A criação do Museu do Seguro foi sempre um objetivo muito presente desde 2011, pela importância em divulgar a coleção que possuímos, e contar as suas histórias. Em setembro de 2017 a Associação Portuguesa de Seguradores (APS) e o Clube CHAPAS celebraram um protocolo de colaboração no âmbito da “exposição permanente” denominada “Memória do Seguro”, a instalar na sede da APS, a qual foi inaugurada em maio de 2019, e designada EPMS-Exposição Permanente Memória do Seguro. Até março de 2020 foram realizadas centenas de visitas guiadas à EPMS, sendo que por força da pandemia Covid-19 o espaço foi encerrado temporariamente”, informou numa entrevista ao jornal online ECO o Dr. Victor Alegria.

Os mais de 4000 itens da coleção destacam-se pela sua originalidade e revestem-se de inegável interesse histórico, evocando diversos aspetos da história do seguro, constituindo, desta forma, uma fonte importante para o estudo e compreensão desta atividade, refere ainda o mentor do MVS.

Pela minha parte, já entreguei naquela instituição diverso material alusivo à atividade, mas os responsáveis continuam a solicitar que lhes façam chegar documentos, peças e as histórias para memória futura.

 

 

(1) Esta chapa, já oxidada, da Companhia Europeia de Seguros, esteve colocada durante mais de setenta anos, na casa de que o signatário é um dos herdeiros, e que ali permaneceu durante o tempo dos seus avós, na Pousadinha (Covilhã), ininterruptamente, na porta exterior do prédio. Foi oferecida ao Museu dos Seguros.

(In "Jornal fórum Covilhã", de 16-09-2020)





Figuras proeminentes do Ensino doutros tempos - Professores de Eleição: JOSÉ EDUARDO DOS SANTOS TENDEIRO

 

Trago à memória dos que gostam destas “coisas” do passado, um pouco sobre o tema que reporto. Para que não se esfumem as estórias das nossas histórias de vida, autênticas narrativas que o tempo acabará por encobrir.

O ensino de hoje é diferente, cada vez mais científico, envolvido pelas tecnologias que vão emergindo constantemente.

O ensino de antigamente, sensivelmente até à década de sessenta, apoiava-se na memorização das matérias e, por imposição do regime de então as figuras notórias da nossa História eram empoladas escondendo as suas vivências nem sempre exemplares como agora se sabe.

As várias disciplinas do currículo de então obrigavam as crianças a um esforço de memória dos rios às serras, passando pelas ferrovias até das colónias ultramarinas.

De um modo geral havia bons professores alguns de excelência e, neste quadro, na minha quarta classe frequentada no Asilo – Associação Protetora da Infância da Covilhã – tive a felicidade de ter o professor José Eduardo Santos Tendeiro que habilmente ia “ignorando” alguns exageros nacionalistas sem contudo desprezar a preparação para o exame da quarta classe que, à luz de hoje era uma “barbaridade” e preparar alguns de nós para o exame de admissão ao liceu e escola industrial e comercial, outro tormento para crianças de dez anos.

Por felicidade de ambos, ainda convivo com o meu antigo professor da quarta classe, que tive em 1957/58, José Eduardo dos Santos Tendeiro, hoje com 82 anos. Natural de Elvas veio para a Covilhã onde exerceu a sua missão de professor no Asilo – Associação Protetora da Infância, onde eu andava. Depois voou para outros destinos, incluindo o serviço militar em Angola, nos primórdios da guerra, tendo sido chamado por duas vezes. Casou com uma colega e radicou-se na Covilhã.

Nunca mais nos havíamos encontrado até que em agosto de 1995, numa viagem a Itália, fui encontrá-lo como companheiro de viagem, tendo-lhe memorizado a minha presença na qualidade de seu antigo aluno. Quase quatro décadas sem darmos conta um do outro.

A partir deste feliz encontro, cimentámos uma real amizade, e daí o início de participações em interessantes ações culturais, numa colaboração mútua, quer por via do órgão do Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes, quer em publicações e eventos culturais comuns.

De extraordinária simpatia, num trato invejável, procurei na sua pessoa as opiniões julgadas necessárias para alguns dos meus trabalhos, onde teve um cunho marcante de intervenção. Isto porque encontrei aquele professor de outros tempos, de excelência.

O professor J. Eduardo Tendeiro teve os primeiros prémios literários com trabalhos para a Semana das Colónias e para a celebração escolar no dia 10 de junho. Posteriormente foi distinguido em Jogos Florais dos quais destaca os “Jogos Florais Luso-Brasileiros”.

Exerceu funções de inspeção integrado por concurso no Quadro Superior da Inspeção-Geral de Educação até à sua aposentação, tendo anteriormente lecionado nos primeiro e segundo ciclos do ensino oficial e participado em experiências do ensino programado. Cooperou em atividades da Telescola como Assistente das classes que tinham proliferado pelo País.

Chamado de novo às fileiras do Exército em 1961, frequentou o estágio de Caçadores Especiais no Centro de Instrução de Operações Especiais (CIOE) em Lamego e integrou a Companhia de Caçadores Especiais n.º 306 com destino a Angola, onde chegou a 12 de maio de 1962, seguindo para o norte da “província”. Aí, durante cerca de um ano, enquanto sargento de transmissões, foi anotando vivências suas e relatos dos companheiros de armas que mais tarde lhe serviram de base para a compilação de episódios com a tónica posta no stress dos combatentes que se prolongou muito para além do fim da guerra. Daqui viria a publicar, em julho 2017, o livro “Danos Colaterais”.

Colabora pontualmente nas revistas “Combatente”, “O Combatente da Estrela”, edição do Núcleo da Covilhã; teve participação na coletânea “A Mulher Portuguesa na Guerra e nas Forças Armadas”, edição da Liga dos Combatentes – 2008 e na edição da Quidnovi “Guerra Colonial – A História na Primeira Pessoa” (2011). Escreve ainda na Revista da Academia Sénior da Covilhã da qual é Sócio Fundador, agraciado com Diploma de Sócio de Mérito.

(In "Notícias da Covilhã", de 17-09-2020)

9 de setembro de 2020

HÁ 200 ANOS O PRIMEIRO PASSO PARA EDIFICAR UM PORTUGAL MODERNO

 

Um ano antes (15 de junho de 1819) já o jovem estudante de Leis, Almeida Garrett, inseria, numa nota a uns versos, no Porto, um dos seus ditos mais célebres: “Se na nossa cidade, há muito quem troque o b por v, há muito pouco quem troque a honra pela infâmia, e a liberdade pela servidão”. Parecia que os seus desabafos não caíam em saco roto. Como que adivinhava.

O dia 24 de agosto de 1820, há precisamente 200 anos, era decisivo para construção do Portugal contemporâneo. O derrube da monarquia absoluta e a construção de um novo regime de monarquia constitucional.

Tal como aquando do 25 de Abril de 1974, também o sucesso do pronunciamento militar se ficou a dever a uma cuidadosa preparação a cargo dos magistrados e homens de negócio que integravam o Sinédrio, uma associação política criada em janeiro de 1818. O respeitável magistrado Manuel Fernandes Tomás foi o principal mentor deste movimento.

Havia que derrubar o antigo regime de privilégios, de interesses e de formas de exercício do poder.

O medroso e indeciso Regente do Reino D. João, mais tarde D. João VI, sentia-se bem no Brasil com a família, ausente desde o início das invasões francesas em 1808. Do Brasil governava Portugal, tornando-se praticamente Portugal uma sua colónia, ao invés do que na realidade deveria ser. Os seus súbditos eram mal governados por uma regência na metrópole incapaz de acudir às maiores urgências do Estado, onde não faltava a provocatória presença e influência inglesa. Até hoje, em tempos de pandemia, sentimos alguma nefasta ameaça britânica aos turistas que se querem deslocar ao nosso País. A ida de D. João VI para o Brasil era o único caso do mundo de um rei instalado numa colónia.

O que é certo é que D. João VI viu-se constrangido a regressar a Portugal, após 14 anos de ausência do país. Deixava de ser monarca absoluto para passar a ser rei constitucional por via da instituição de um governo provisório mandatado para a preparação de eleições de Cortes Constituintes. E lá estava, emocionado, o jovem Almeida Garrett, escrevendo: “A última hora da tirania soou: o fanatismo, que ocupava a face da terra, desapareceu; o sol da liberdade brilhou no nosso horizonte, e as derradeiras trevas do despotismo foram, dissipadas por seus raios, sepultar-se no inferno”.

Mas o tímido D. João VI originava mais um momento crítico com a sua permanência no Brasil após o restabelecimento da paz na Europa, não obstante os britânicos enviarem uma frota para que regressasse a Portugal, mas a vontade de contrariar o Governo de Londres poderia explicar as razões da sua permanência. O centro efetivo dos domínios da Casa de Bragança era o Rio de Janeiro. Em 1815 D. João VI formaliza a criação do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarve. O segundo momento crítico ocorre com a Revolução de 1820, acabando por ser forçado a regressar a Portugal, como já foi atrás referido. E, já depois da Revolução, em 1824 passa pelo momento mais dramático com seu filho D. Miguel a encabeçar um golpe militar com a deposição do pai e a prisão de muitos membros da elite política. É nesta fase que castiga o filho e o envia para o exílio. Regressa desse exílio dourado em 22 de fevereiro de 1828 para assumir a regência do reino em nome de ser irmão D. Pedro (seu pai havia morrido dois anos antes) e desde logo aproveitou a ocasião para escolher quem lhe fosse fiel e desafeto à Carta, afastando todos os indesejáveis. Dissolveu a Câmara dos Deputados e promoveu a sua aclamação como rei absoluto. A censura e a polícia silenciavam os liberais e as prisões ficaram repletas. Muitos chefes militares prestigiados como Saldanha e Vila Flor saíram do país. O silêncio liberal, aparente, ia-se desfazendo como na noite de 30 de abril de 1828, com milhares de portuenses, concentrados no Campo de Santo Ovídio a soltarem vivas a D. Pedro, à Rainha e à Carta, em resposta à aclamação de D. Miguel. É que a Revolução estaria a ser traída. Os liberais começavam a enfrentar as agruras do exílio.

Em finais de agosto de 1828, um único ponto do território nacional continuava no poder dos liberais: a Ilha Terceira. A sua resistência permitiu que a Regência nomeada por D. Pedro em 15 de junho de 1829 instalasse o palácio do governo em Angra, em março de 1830. Foi daqui que os liberais partiram à conquista do Reino. Entre abril e agosto de 1831, foram tomadas todas as ilhas dos Açores pelo exército liberal. Em fevereiro de 1832, D. Pedro chegou à Terceira, nomeou um governo e concentrou-se na preparação do seu exército. Na sua maioria constituído por militares e voluntários emigrados, conhecidos como “os bravos do Mindelo”. No dia 8 de julho de 1832, a expedição liberal desembarcou em Arnosa do Pampelido para, no dia seguinte, o exército de 7.500 bravos de D. Pedro entrar no Porto, e tomar o poder.

Não obstante as tentativas de golpe de estado, por D. Miguel, em 1824, conhecido por Abrilada, que visava destituir o governo moderado, formado por D. João depois do restabelecimento do absolutismo em 1823 (sendo este último movimento conhecido por Vilafrancada que derrubara a 1ª Constituição portuguesa, elaborada a partir do movimento iniciado na cidade do Porto, em 24 de agosto de 1820, como já referido), é derrotada definitivamente a causa miguelista do ponto de vista militar em 1834. No entanto, apesar do exílio de D. Miguel, a resistência ao liberalismo foi mantida até quase ao fim dos anos de 1840. A Vilafrancada (1823) e a Abrilada (1824) ficaram como dois dos momentos emblemáticos das dificuldades que o Liberalismo teria para se instalar em Portugal.

Como curiosidade, para terminar, é feita uma referência numa peça importante da exposição levada a efeito pela Câmara Municipal do Porto, de que no livro de vereações onde se encontra a ata daquela edilidade, do dia 24 de agosto de 1820, tem a particularidade de estar cheia de passagens rasuradas a preto, uma intervenção que se ficou a dever aos partidários de D. Miguel  após a reviravolta absolutista. Efetivamente, qual não foi o meu espanto quando, nas pesquisas que efetuei na ata de 26 de agosto de 1820 da Câmara Municipal da Covilhã (a mais próxima daquela data), presidida pelo Juiz de Fora, José António Correia da Costa Pereira do Lago, de difícil leitura, nada refere sobre a Revolta de 1820. Contudo, a ata seguinte, datada de 8 de setembro de 1820 está toda danificada, rasurada e riscada em todas as suas linhas, para ficar inutilizada, e ainda com riscos verticais, pretos, em nove páginas seguidas. Seguem-se, com normalidade, mas com muita dificuldade de leitura, quase impercetíveis, as atas da CMC de 16 e 19-09-1820, onde nada consta sobre este acontecimento da História de Portugal.


(In "Jornal fórum Covilhã", de 09-09-2020)

19 de agosto de 2020

O TERCEIRO CONGRESSO NACIONAL DE BOMBEIROS REALIZADO NA COVILHÃ

 Foi um grande evento que se realizou há 88 anos. A cidade laneira daquele tempo passou a ter uma maior expressão na comunicação social. Que não era tão fácil como nos dias de hoje. Percorreu muitas páginas das publicações diárias e periódicas de então. Haviam já sido muitos e variados os importantes temas tratados nos Congressos anteriores. O da Covilhã foi realizado de 21 a 25 de julho de 1932. O I Congresso foi no Estoril, de 16 a 18 de agosto de 1930; e o II Congresso teve lugar em Setúbal, de 21 a 23 de novembro de 1931.

Anteriormente já se haviam realizado outros designados Congressos, o primeiro no Porto, em 1889, por iniciativa de duas publicações especializadas existentes que se publicavam na época – Jornal dos Bombeiros e O Bombeiro Portuguez – sendo entretanto o principal inspirador do Congresso, o inspetor-geral de incêndios do Porto, Guilherme Gomes Fernandes. Já em 1877 tentara promover uma reunião magna de bombeiros portugueses. Este Primeiro Congresso dos Bombeiros Portugueses, da primeira fase, constituiu um marco decisivo da sua história. Mas, entretanto, vieram a surgir profundas divisões entre os bombeiros, que caraterizou toda a década de 20 do século XX, o que veio inviabilizar uma nova edição credível do Congresso Nacional de Bombeiros Portugueses.

Nos primeiros meses de 1930, no decorrer de um dos muitos almoços de confraternização promovidos pelo diretor do periódico “O Fogo” foi constituída uma Comissão Organizadora do Segundo Congresso dos Bombeiros Portugueses. Assim, ao contrário das anteriores tentativas de organização de um congresso verdadeiramente nacional de bombeiros portugueses, surgiram aqui, num curto espaço de tempo, um elevado número de adesões. Convocado para reunir no Estoril o Congresso Nacional dos Bombeiros Portugueses viria a consagrar a fundação da Liga dos Bombeiros Portugueses. Iniciou-se assim o I Congresso do segundo ciclo.

O III Congresso, realizado na Covilhã, tornou-se um grande evento. Foi talvez uma das maiores realizações jamais vistas e que trouxe grande evidência à cidade dos lanifícios. Foi com grande orgulho que as gentes covilhanenses souberem receber os participantes, naquela hospitalidade que lhes é peculiar. Depois dos congressistas em Setúbal, no II Congresso, terem votado a favor da Covilhã, esta decisão foi aplaudida entusiasticamente.

Com este evento, raro para a época, foi um grande êxito para os Bombeiros Voluntários da Covilhã. Mas também muitas das forças da organização citadina proporcionaram que toda a imprensa fizesse frequentemente ressaltar o nome desta cidade serrana, hoje universitária de excelência, como o fora de laneira naquela altura, conforme já referido.

Este evento ficou indelevelmente como marca na história dos bombeiros portugueses, onde viriam a ser tomadas importante decisões para a vida dos bombeiros.

O III Congresso teve sete sessões, em vários locais, com visitas a fábricas de lanifícios do concelho, e à Serra da Estrela.

 No cortejo, e desfile pelas ruas da cidade, realizado no dia 24 de julho daquele ano, participaram 56 Corporações, 620 bombeiros, 33 viaturas, muitas bandeiras e algumas bandas. Toda a Covilhã os esperava, com suas ruas, portas, janelas, torres, terraços e telhados repletos de gente. Uma formidável aluvião inundou a cidade. Eram verdadeiros cachos humanos por toda a parte. Vibravam no ar as marchas animantes, ouviam-se os clarins estridentes, com a cidade a viver uma hora de emoção como nunca viveu. Era o desfile pelas ruas dum exército tranquilo e pacífico que marchava sem tibiezas, cônscio dos seus deveres, levando por armas, como nos dias de hoje, a abnegação e o altruísmo, e por lema estrelado o seu eterno guia: VIDA POR VIDA!

Do Regimento de Infantaria 21 para o Pelourinho foi o desfile, ouvindo-se o estralejar de foguetes, os repiques dos sinos, os toques dos clarins e os acordes das bandas produzindo um estado de alma indescritível. Das várias autoridades civis e militares, estiveram presentes: o Comandante do Regimento de Infantaria 21, coronel Gustavo Piçarra que entregou as insígnias de Cavaleiro da Ordem de Torre e Espada com que o falecido Comandante dos BVC, Sebastião dos Santos Júlio, fora condecorado pelo Governo da República, a título póstumo, ao Comandante dos BVC, Jerónimo Monteiro Ranito.

No estandarte dos BVC, foram então colocadas várias fitas artisticamente pintadas, oferecidas por algumas entidades, salientando-se as das Senhoras da Covilhã. O Presidente da Assembleia Geral dos BVC, Guilhermino Melo e Castro, agradeceu todas as homenagens que acabavam de prestar à sua Corporação.

A Liga dos Bombeiros Portugueses não podia ficar indiferente perante tantas distinções das gentilíssimas Senhoras da Covilhã, e, assim, para que a sua gratidão se perpetuasse pelos tempos fora, tinha disposto no edifício da Câmara Municipal uma lápide, afirmando o sentir unânime de todos, tendo o presidente da edilidade, Dr. Francisco Xavier de Almeida Garrett, descerrado a referida lápide no meio de grandes aclamações de todos os Bombeiros presentes. A lápide de mármore branco contém a seguinte inscrição: “Homenagem de reconhecimento à Mulher da Covilhã. A Liga dos Bombeiros Portugueses. Julho de 1932”.

O Presidente da Direção dos BVC, que participou neste Congresso, era José Carvalho Nunes Tavares; o Presidente do Conselho Fiscal, Dr. João Ferraz Carvalho Megre; e o 2.º Comandante dos BVC, António Garcia. O já referido Comandante dos BVC, Jerónimo Monteiro Ranito, sucedeu a Sebastião dos Santos Júlio, de que era seu 2.º Comandante, devido ao seu  falecimento num acidente de viação que o vitimou em 10/09/1931, aos 33 anos, quando pelas 20 horas se dirigia no pronto-socorro “Lancia” para um incêndio no sítio denominado “Casas Novas”.

(In "Notícias da Covilhã", de 20-08-2020)

16 de agosto de 2020

FÉRIAS COM MEDO

 

Independentemente dos receios que acometem a maioria dos portugueses, face a este tempo pandémico, há necessidades que se sobrepõem aos medos de contágios, e outros males que possam advir. O que não era habitual. Uns são mais afoitos que outros. Os jovens são talvez os mais transgressores das regras que um estado desta natureza impõe.

Em tempos normais estaríamos naquele período da silly season. Atualmente, a comunicação social inunda-nos com as notícias que chegam de várias fontes dos recantos planetários, no âmbito da pandemia que a todos assola, democraticamente.

Não sendo o meu forte o poder de síntese, achei interessante o que na data em que redijo este texto (30 de julho) acabo de ler na interessante crónica de Miguel Esteves Cardoso, no Público: “Avança a causa de não usar poucas palavras quando se pode usar muitas. E para quê usar curtas se há compridas?”; “Há”, por exemplo, pode substituir por “existe a possibilidade”, ou “encontram-se à nossa disposição”. “Hoje em dia é preciso dizer que há muitas palavras compridas que são úteis e que não podem ser convertidas em palavras pequenas sem perdas de significado”.

Alguns periódicos regionais entram num breve período de férias. É o tempo de retemperar forças. Quantas vezes acontece que entre banhos no mar, no rio ou na piscina, vêm-se juntar banhos de novas inspirações para o papel ou o online que os leitores gostam de ver nos seus jornais.

Também nos cabe procurar um pouco de descanso, fora do local habitual, e, como tal, regressaremos a este espaço em setembro.

Quando escrevo a última crónica deste julho quente, sinto-me envolvido numa indignação face ao que vou lendo na comunicação social, sobre a regulação bancária em Portugal. “Tribunal de Contas arrasa papel de Carlos Costa no BES e Banif”. Supervisor a decidir resolução de supervisionados revela conflito de interesses que lesa contribuintes, diz o órgão fiscalizador, que fala em mais risco. A falta de independência, instrumentos insuficientes e conflito de interesses parecem ter existido. Não são assim brandas as conclusões do Tribunal de Contas à atuação do regulador nos processos de resolução do BES e do Banif, com aquele órgão de fiscalização a considerar que a mistura de águas no Banco de Portugal lesou o país e os contribuintes. Recorde-se que coube a Carlos Costa decidir as intervenções nos bancos que o mesmo supervisionava.

Enfim, e continuamos com a novela do Novo Banco. Este que foi dividido ao meio, naqueles famigerados tempos em que a regulação também não funcionou: o Banco Mau e o Novo Banco. Ao que nos vamos apercebendo, neste país de brandos costumes, o Novo Banco está a transformar-se num “Mau Novo Banco”.

Neste ano dominado por um problema comum no Planeta e na Europa, é no Velho Continente que estamos inseridos e que aqui Portugal tem de procurar a necessária ajuda (e tem-no feito sem descanso) para a solução dos problemas que nos afeta. As notícias esperadas resultantes do mal que a todos atingiu, são evidentes, como a pandemia está a abalar os números do emprego em Portugal, apagando metade do emprego criado nos governos de António Costa.

O desemprego oficial esteve escondido, dizem notícias de hoje, mas o desconfinamento começa a revelar a triste realidade. Desapareceram 181 mil empregos ao todo, desde março.

No entanto, em “Notícias ao Minuto”, de 30 de julho, refere que o clima económico continua a recuperar mas fica a dúvida sobre a confiança dos consumidores. Segundo o Instituto Nacional de Estatística o indicador de clima económico manteve a trajetória de recuperação entre maio e julho. Entretanto, os indicadores de confiança recuperaram em todos os setores, com destaque para a Indústria Transformadora.

O que é certo e verdade é que a pobreza veio ter com muito mais gente; como pessoas que foram atingidas pela avalanche não esperada da pandemia. Que o digam quem trabalha afincadamente nas Conferências de São Vicente de Paulo e organismos que constituem um movimento de cidadania, na Covilhã, para dar lugar à possibilidade de assistência aos mais necessitados, face aos condicionalismos atuais.

(In Jornal fórum Covilhã, de 12/08/2020)

5 de agosto de 2020

NÃO OLHAR COM UM SÓ OLHAR - No meu apreço pelo ex- árbitro covilhanense Carlos Xistra

Chegámos ao final de carreiras, etapas, campeonatos, alegrias e tristezas, algumas (des)ilusões, e outros eteceteras.

Todos nós já percorremos alguns destes caminhos. Desde que o futebol existe em Portugal já passámos por situações de êxtase, outras de frustração.

No dia 11 de julho de 2000, ou seja, há duas décadas, enviei para a imprensa desta região um artigo sob o título “A Covilhã e o Distrito na Primeira Divisão”, pelo que me apraz, nesta oportunidade, transcrever algumas partes do mesmo: “Sendo nós da Beira Interior, e da Covilhã pela génese, com muita honra, não podemos deixar de manifestar nossa grande satisfação pelo facto de vermos ascender ao escalão máximo da arbitragem nacional um jovem covilhanense, facto inédito na história da arbitragem do futebol desta região. Carlos Miguel Xistra é assim o primeiro homem do Conselho de Arbitragem do distrito de Castelo Branco a poder dirigir jogos das I e II Ligas. (…) A Associação de Futebol de Castelo Branco merece ver reconhecida justiça aos seus árbitros, pois a qualidade não tem andado arredada desta região, contrastando, várias vezes, com outros árbitros, de regiões de maior influência e pressão, que singraram, não se sabe muitas vezes como, para escalões superiores da arbitragem. (…) A Covilhã pode orgulhar-se de ter dado à arbitragem regional bons elementos, contudo o ostracismo a que muitos governos votaram o Interior, mormente esta região beirã, foi a nota negra de impedimento dos mesmos no quadro de honra de acesso aos maiores. (…) Mas o Interior continua a não se aproximar do litoral, tendo-se verificado novamente em 1998, que um árbitro da Covilhã é impedido de subir à primeira categoria a escassas 33 décimas daquele que viria a ter o seu acesso, deixando algumas dúvidas. Esse jovem é precisamente aquele que agora vê os seus méritos com razão e justiça, e, aí está, Carlos Miguel Xistra honrando a sua família, ligada à prática e ao dirigismo do desporto na região; honrando também a Covilhã que o viu nascer e o distrito de Castelo Branco. As maiores felicidades para o jovem árbitro covilhanense da PRIMEIRA CATEGORIA.”

Pois bem, Carlos Xistra, aos 46 anos, terminou a sua carreira de árbitro profissional de Portugal, de categoria internacional, no jogo entre o F.C. Porto e o Moreirense, no dia 20 de julho. Foram 28 anos dedicados à arbitragem dos quais 20 no futebol profissional.

Em devido tempo, a edilidade covilhanense soube agraciá-lo, com toda a justiça.

Sendo a arbitragem objeto de grandes atenções e críticas, quantas vezes severas, porque mexe com emoções, Carlos Xistra viu-se várias vezes envolvido nelas, e é com aquele constrangimento que verifico nas redes sociais ferocidades de opinião, mesmo de gentes covilhanenses, não aceitando que o erro é humano, optando pela ênfase da pedra que sempre trazem no sapato.

Até aos dias de hoje, ainda nenhum Covilhanense alcançou o galarim na arbitragem, que a qualidade de Carlos Xistra soube honrar, dando a conhecer indiretamente, tantas vezes, a sua Terra – a Covilhã, por esses relvados de Portugal.

As lágrimas de Carlos Xistra, após o seu apito final, e a t-shirt a homenagear os seus mais próximos ficaram a marca nostálgica deste bom Covilhanense.

(In "Jornal Fórum Covilhã", de 05-08-2020 e "O Olhanense", de 01-08-2020)



4 de agosto de 2020

NO VIRAR DA PÁGINA

Uma dúzia de anos!... Celebrados em maio. É obra!... Para os tempos que correm.  Chama-se SELFIESeguros. A news-letter fora então batizada de ESSENCIAlseguros. Na edição 18 a minha primeira colaboração. E a última na 30. Vai fazer dez anos. A amizade é uma festa! Assim considerados os convívios marcantes da atividade seguradora. Num dia da “história” duma seguradora. A americana que adquirira a suíça. Esta em apuros pela sobrevivência. A nova na exuberância do desfraldar da sua bandeira. Deu-se a conhecer rápido, de norte a sul do país. Ao leme da embarcação um grande timoneiro. Outros tempos. De alegria. De entusiasmo. De expansão. Tudo corria sob rodas. Até que começa a surgir uma certa nebulosidade. Os ventos da atividade seguradora querem mudar. Rápido e em força. O mundo está em movimento. O chinês Cai Lun inventou o papel no ano 105. E o alemão Johannes Gutenberg a imprensa, no século XV. Hoje há que poupar árvores, muitas árvores, dar voz ao clima. A revolução já havia chegado. Na base do seguro, pode considerar-se que ao longo dos séculos a sua evolução foi marcada por cinco revoluções pacíficas. Segundo Ruy de Carvalho. A Revolução Comercial, no século X. Relançou o comércio após o longo período de depressão económica que se seguiu à queda do Império Romano do Ocidente. A Revolução Científica, nos séculos XVI e XVII. Proporcionou as condições necessárias para o tratamento estatístico dos dados. O que permitiu o cálculo dos prémios do seguro marítimo em bases técnicas mais rigorosas.  E para a criação da ciência atuarial. Instrumento fundamental para que o seguro de vida pudesse ser explorado em molde de rigor científico.  E de eficácia. A Revolução Industrial, dos anos 1750 a 1850. Estimulando a produção, a distribuição e a transação de bens que levaram à explosão do capitalismo. Abriu novas e consideráveis oportunidades ao desenvolvimento e diversificação do seguro. Por esta altura, criadas novas modalidades de seguro. A Revolução Financeira, dos anos 90 do século XX. Criou os produtos que deram origem à segunda grande modernização do seguro. Tanto Vida como Não Vida. Conferiu-lhes uma visibilidade acrescida. E uma nova projeção dentro das áreas financeiras. Alguns destes produtos, aquando da crise financeira iniciada em meados de 2007, criaram problemas consideráveis. Por último, a Revolução Tecnológica, sobretudo a partir do ano 2000. Deu lugar ao seguro novos instrumentos de comunicação. E de tratamento da informação. Que podem alterar profundamente o marketing das seguradoras. E a sua aproximação aos clientes. Assim como o processamento de dados em tempo real. Auxiliar essencial da modernização da gestão das seguradoras.

Hoje vivemos um tempo totalmente diferente daquele em que iniciámos as nossas carreiras. A vida nesta atividade sempre em movimento, não deixa de ser sedutora. Independentemente de terminarmos as nossas atividades. Optando por outro ciclo de vida. Que mais não seja o arrumar as botas para um certo descanso. Mais apaziguador nas famílias. E nas nossas vidas. Fica-nos sempre o bichinho. Não aquele que hoje nos atormenta. E por que jamais passámos nas nossas gerações.

Somos viventes do aparecimento das novas tecnologias. A Internet, surgida a partir de pesquisas militares no auge da Guerra Fria. Inicia-se em Portugal a partir de abril de 1994. Foram várias as alterações acontecidas. É a partir de 1999/2000 que tudo muda. Em grande medida devido à liberalização do mercado das telecomunicações.

E depois é a chegada dos telemóveis ao mercado. Nos primeiros anos, entre 1983 e 1998 foi a Motorola a liderar as vendas. Mas logo de seguida surgiu em primeiro lugar a Nokia. Também o gigante sueco acabou por ser superado. Desde 2012 que é a Samsung a líder mundial de vendas de telemóveis. O crescimento dos smartphones tem levantado alguns desafios à sociedade. O mesmo acontece com os computadores. Um problema partilhado por estes dois dispositivos é a adição dos utilizadores. Que se podem alhear de tudo o que os envolve.

No final dos anos 80 existiam cerca de 2000 telemóveis registados em Portugal. Num serviço gerido pelos CTT-TLP. Mas o primeiro grande impulso a esta tecnologia é dado em 1991. Quando surge a TMN. Que, entretanto, deu origem à MEO. Em 1993 são dados passos importantes para a afirmação do telemóvel. Os smartphones, que começaram a surgir em 2008, dominam atualmente o mercado.

E é neste contexto das novas tecnologias que nos habituámos ao trabalho. Que não admite retrocessos. E são o meio de encontrar as variadas soluções para os tempos pandémicos por que estamos passando. A todos os níveis.

Termino com duas datas históricas do seguro. A primeira forma de seguro em Portugal ocorreu no reinado de D. Dinis. Em 10 de maio de 1293. Por via da constituição de uma bolsa comum dos mercadores portugueses. Destinada a suportar os prejuízos de navegação nos portos exteriores. Carta régia de confirmação dessa organização a mais antiga de todas as instituições seguradoras no nosso país.  E uma das mais antigas na Europa. Informação de José Hermano Saraiva. Mas Ruy de Carvalho diz que deve situar-se o aparecimento do seguro na primeira metade do século XIV. Quando se identificam os primeiros contratos de seguro marítimo em cidades italianas.

Interessantes formas de dar continuidade ao desenvolvimento do seguro, ao longo dos tempos.

(In SELFIESeguros, n.º 06/2020) 
 
 

16 de julho de 2020

MEMÓRIAS SERRANAS E ALGARVIAS NUM CONTEXTO DESPORTIVO


Vivemos uma situação inimaginável para os tempos que correm. Os humanos de hoje, e mesmo de há um século, jamais passaram por tamanha transformação do planeta. Bastou um ser invisível à vista desarmada para engolir os gigantes Golias. Se compararmos numa conjuntura bíblica. E esse ser invisível brinca com o Mundo. Em todas as facetas da vida.
Mas o espírito desta crónica na vertente dos ventos da Beira Serra, é tão só para que haja um pequeno lenitivo nas nossas conversas. Aquela amizade entre serranos e algarvios.
Sporting Clube da Covilhã (SCC) – Sporting Clube Olhanense (SCO). Ambos filiais do Sporting Clube de Portugal. Recordo as suas 10 primeiras filiais: 1, em 9/4/1922 – Sporting Clube Tomar; 2, em 17/5/1922 – Sporting Clube Farense; 3, em 1/9/1922 – Sporting Clube de Luanda; 4, em 10/1/1923 – Sporting Clube Olhanense; 5, em 15/1/1923 – Sporting Clube de Gouveia; 6, em 6/5/1923 – Sporting Clube de Lourenço Marques; 7, em 18/5/1923 – Sporting Clube de Abrantes; 8, em 2/6/1923 – Sporting Clube da Covilhã; 9, em 8/7/1923 – Sporting Clube de Moçâmedes; 10, em 17/7/1923 – Sporting Clube de Pombal.
Há 97 anos nascia o SCC. Mas já por cá andava o SCO, há 108. Surgiu antes duma pandemia, mas sentiria a gripe espanhola, ou pneumónica, em 1918.
Quanto ao SCC, a sua fundação processou-se da seguinte forma: havia dois dos principais clubes rivais – o Estrela Football Clube, formado por uma classe de maior poder económico, na senda de homens ligados à indústria de lanifícios; e outro – o Montes Hermínios, mais ligado ao operariado e bombeiros voluntários. Daí que, aos primeiros, foram designados os do “clube dos ricos”. Algumas das figuras do Estrela Football Clube, enraizados na alma leonina que grassava na altura, acabaram por ter contactos com dirigentes do Sporting Clube de Portugal (SCP) que, nesse tempo, vivia fase eufórica da criação de filiais. Tinham o dinâmico presidente da Direção, Júlio Cardoso Araújo. Na Covilhã havia alguns grandes entusiastas leoninos, como o proprietário e comerciante António Rebelo de Matos; o jogador e capitão do Estrela, António Estrela dos Santos; o tipógrafo Joaquim Meruje e o jornalista João de Oliveira. O presidente do SCP, verificando o ambiente propício na Covilhã, enviou a esta cidade duas figuras relevantes: Jorge Vieira, atleta internacional em grande evidência e o dirigente Amílcar Pinto. Assim, em casa de António Rebelo de Matos, situada no coração da cidade, na Rua Capitão Alves Roçadas, com a presença de dirigentes do Estrela Football Club, em cerimónia pouco protocolar, criava-se a 8ª filial do SCP.  E, consequentemente, o nome do Estrela Football Club passou a designar-se, a partir dessa data (2/6/1923), Sporting Clube da Covilhã.
O glorioso SCO viria a ver a luz do dia no dia 27 de abril de 1912, mas com a data da fundação a 17, realizada numa casa da R. de S. Bartolomeu, em Olhão, por um grupo de onze atletas que vieram a dar o nome ao clube, a escolher a cor do equipamento e a constituir a sua primeira direção. Ficou acordada a quotização semanal de 50 réis. Viria a ser Campeão de Portugal na data em que o SCC foi fundado (1923).
Tornaram-se assim ambos clubes ecléticos e históricos do futebol português.
Entretanto, no Boletim do SCP n.º 52, de 15/07/1923, na sua página 271 (este boletim, quinzenário, destinado aos sócios do SCP, iniciou a sua publicação em 21/03/1922 e saiu regularmente até 1952, custava 2$00 semestrais e a ideia da sua criação partiu de Júlio Araújo), continha a seguinte informação: “O Sporting Clube da Covilhã constituiu-se 8ª. filial do SCP” “A ideia leonina alastra-se e em breve nós teremos por todo o País uma forte corrente de apoio ao Sporting. Devido à influência do nosso antigo consócio Amílcar Pinto, o Estrela Football Club, em 2 de junho, transformou-se em Sporting Clube da Covilhã constituindo-se nossa 8.ª Filial.    Não é o SCC uma coletividade que conte muitos anos de existência e um passado cheio de recordações gloriosas, mas, constituído por elementos cheios de boa vontade, virá a ser uma grande coletividade à qual, como nos cumpre, daremos todo o apoio e auxílio para que se torne um clube importante. São atualmente 70 os sócios do SCC e a sua Direção é atualmente constituída pela seguinte forma: (…) A Filial adota a nossa legislação na qual de princípio foram introduzidas algumas modificações tendentes a facilitar a sua ação nestes primeiros tempos. As suas cores são atualmente o amarelo e preto, mas a bandeira será como a de todas as filiais, verde, com o leão encimando as suas iniciais. Confiemos que a boa vontade da Filial, fortemente ajudada pela Sede, possa tornar o Sporting Clube da Covilhã uma coletividade de valor”.
Já escrevi por outras ocasiões que o SCC e o SCO se defrontaram várias vezes, em momentos importantes do futebol português. Foi na antiga I Divisão Nacional (hoje I Liga); na II Divisão Nacional por via do Torneio de Apuramento para a Primeira; na Taça de Portugal, na Taça Ribeiro dos Reis e na Divisão de Honra, deixando sempre rastos de simpatia, aquele fair-play tão necessário nos meios desportivos.
Alguns atletas que vestiram as camisolas do SCO mais tarde viriam a representar as cores do SCC: Eminêncio, Fernando Cabrita, Palmeiro e o guarda-redes Rita.
Curiosamente, como também algures já referi, no 1.º Boletim do Totobola, surgido em 24-09-1961, pela mão do Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, o Covilhanense Dr. José Guilherme Rato de Melo e Castro, o número das 13 equipas que integraram este primeiro boletim, surge, logo em n.º 1, um Olhanense – Covilhã…
Outros tempos! Ficam as memórias!

(In "O Olhanense", de 15-07-2020)

15 de julho de 2020

DR. ANTÓNIO GOMES DE OLIVEIRA


Era eu ainda criança. Sem saber porquê, ouvia falar nesta figura. Andava nos ouvidos dos covilhanenses.
Médico. Veio ao mundo com origem na freguesia da Vela. Concelho e distrito da Guarda.  Naquele 21 de novembro de 1899. Deixaria o mundo dos vivos em 21 de dezembro de 1955. Tinha 56 anos. Radicou-se na cidade dos lanifícios. Na Covilhã viveu quase três décadas. Isto após se ter formado em medicina na Universidade de Coimbra. Tinha então 23 anos. Na cidade laneira começou logo a exerceu a medicina. O seu consultório na Rua Ruy Faleiro, em frente ao Teatro-Cine. Deu ainda enorme contributo a diversas instituições citadinas.
Médico do Hospital da Misericórdia da Covilhã. Lugar que exerceu com muito aprumo e dignidade, durante muitos anos, ali patenteou desinteressado amor pelos que sofriam com manifesto prejuízo da sua vida profissional e particular. Em todos os pobres, que dele se abeiravam nos momentos de aflição, criou amizades, enxugando lágrimas e levando a esperança e o conforto a muitos corações e lares infelizes.
Dedicou especial carinho às organizações juvenis. Ali era muito considerado. Foi por isso médico do Corpo Nacional de Escutas.
Foi Presidente da Direção do Sporting Clube da Covilhã (SCC). Épocas de 1925/26 e 1953/54. Foi nesta prestigiosa coletividade que, nos seus primórdios, o jovem clínico insuflou a sua dinâmica. Foi assim o primeiro médico do clube serrano. Pioneiro na instalação do sistema de radiologia no Hospital desta Cidade. Foi ainda Vereador da Câmara Municipal da Covilhã, Membro do Conselho Técnico do Clube Desportivo da Covilhã e Presidente do Orfeão da Covilhã.
1943 a 1951. Presidente da Direção dos Bombeiros Voluntários da Covilhã (BVC). Aqui foi aumentado ao efetivo da Corporação, como médico, em 1 de janeiro de 1924. Passou a Sócio Efetivo (Chefe Médico) em 31 de janeiro de 1925. Eleito para o cargo de Vogal Efetivo da Direção em 7 de fevereiro de 1928. Novamente eleito para o mesmo lugar, em 14 de janeiro de 1933. Reeleito para o mesmo cargo em 16 de fevereiro de 1934. 50º Aniversário dos BVC. Palavras do médico António Gomes de Oliveira: “O Espírito da Corporação – é das coisas mais admiráveis que tenho conhecido o laço de união, apertado e firme, que liga uns aos outros os heroicos Bombeiros da Covilhã. Laço apertado como de família, mais do que isso muitas vezes, enche de simpatia e de admiração todos os que com eles têm ocasião de lidar. Inscrito há pouco no número dos seus sócios ativos, como médico, comecei a frequentar-lhes a sede e os exercícios como que por diletantismo. A breve trecho, porém, vendo-os escalar ousadamente e sempre em risco da própria vida as janelas elevadas dos prédios onde praticam a sua Arte humanitária; presenciando o bom humor e o desinteresse com que se referem aos ferimentos que vão fazendo em si mesmos; vendo e ouvindo os gracejos e diversões a que se entregam nas folgas – lidando ousadamente com o perigo como com as chamas lutam em ocasiões de sinistro – senti-me empolgado pelo seu espírito de abnegação e heroísmo, pelos homens que do simples amor do seu semelhante, desinteressadamente brincam com a morte. E a sua convivência tornou-se-me necessária; com eles retempera-se a coragem para a luta, esquecem-se mesquinhices da vida, desgostos das lutas, horas de cansaço, e apenas apetece ser maior, ser apenas como eles, imitá-los na coragem que é o que hoje mais falta à maior parte das gentes. Neste dia de grande festa para todos nós, Rapazes, eu vos abraço como amigo que vos admira na vossa coragem, que vos estima como irmãos. Gomes d’Oliveira.”
Foi Diretor do Notícias da Covilhã, nomeado em 24/12/1944. Em 1951 deixou a Covilhã, saindo para Lisboa, por motivos de ordem profissional e de saúde. Aqui viveu poucos anos, entregue completamente aos seus deveres médico-radiológicos e no carinhoso ambiente familiar.
O fulgor e o desassombro do seu alto talento, e a facilidade com que usava a palavra fluentíssima, fizerem dele, muitas vezes com o maior brilho, o porta-voz da cidade nas mais variadas circunstâncias e qualquer que fosse o momento. Usando o seu poder invulgar de improvisador, em parte alguma do país deixou de patentear calorosamente toda a paixão que nutria pela cidade que o acolhera amigavelmente, cimentando nessa ação amizades que bem úteis foram para a Covilhã.

(In "Notícias da Covilhã", de 16-07-2020)
(In "Notícias da Covilhã", de 16-07-2020)

8 de julho de 2020

A VOLUPTUOSIDADE NA HISTÓRIA DE PORTUGAL

Vários autores se têm dedicado aos romances históricos. Nesta linha podemos encontrar, por exemplo, Isabel Stilwell, Joaquim Vieira, ou mesmo o covilhanense João Morgado.
Sou um apaixonado por história. E se “a velhice é um tirano que proíbe, sob pena de morte, todos os prazeres da juventude”, segundo François de La Rochefoucauld, o que é certo e verdade é que “o envelhecimento ainda é o único meio que foi encontrado para viver muito tempo”, nas palavras de Charles Augustin Sainte-Beuve. Certo é que “o velho não pode fazer o que um jovem faz; mas faz melhor”, no dizer de Cícero. E fiquemos com “aqueles que realmente amam a vida são aqueles que estão envelhecendo”, no entendimento de Sófocles.
Falemos então um pedacinho do sexo e poder que se atravessou, e continua a prosseguir, na nossa história portuguesa. Os laços de sangue são particularmente relevantes em monarquia. Foi o regime em que Portugal viveu quase oito séculos.
Mas deixando este período para uma próxima crónica, queremos lembrar que também na República se passaram facetas da vida libidinosa entre personagens políticas ou da vida social. Para falar de casos de sensacionalismo, os tais que fazem vender muitos exemplares do jornal, e o prendem à sôfrega leitura, há periódicos apropriados e sobejamente conhecidos.
O escândalo Ballet Rose aconteceu no tempo de Salazar sob o mandato presidencial do almirante Américo Tomaz. Naquele dia 10 de dezembro de 1967. A pouco mais de um mês de eu iniciar em Tavira o serviço militar obrigatório. Eu era então funcionário da edilidade covilhanense. O escândalo tentou ser abafado.
O jornal britânico The Sunday Telegraph publicava um artigo do repórter Barry O’Brien com o título “Escândalo sexual abala o governo português”. Referia-se assim ao envolvimento de vários homens ligados ao regime de Salazar, incluindo o seu ministro da Economia, José Gonçalo da Cunha Sottomayor Correia de Oliveira (nomeado em 19-03-1965 e exonerado em 27-09-1968). Encontrávamo-nos no XVII Mandato e 56º Ministério. Foi então o envolvimento numa rede de prostituição feminina em que haviam sido abusadas algumas crianças a partir dos 9 anos de idade. Quem diria que anos mais tarde, este flagelo continuaria com o famigerado processo Casa Pia, também com figuras dos vários quadrantes da sociedade portuguesa, e outros que os órgãos da comunicação social vão colocando no poder da informação.
A principal proxeneta era uma prostituta que alugara, como centro de atividades, um sétimo andar na Rua Marquês da Fronteira, em Lisboa, onde recebia clientes, que consumavam os seus apetites sexuais em quartos preparados no piso superior. Ela própria alimentara no passado os desejos de gente da elite. Caso de algumas figuras da realeza estrangeira exilados na Linha do Estoril. Entre elas, o príncipe Juan Carlos, filho de Juan de Bourbon e futuro rei de Espanha. Então ainda solteiro. A proxeneta referia-se a Juan Carlos desta maneira: “Ele era ótimo, lindo e muito melhor do que o príncipe Vítor Emanuel, com quem também dormi e que era muito frio e fechado”. Vítor Emanuel era filho do rei Humberto II, de Itália. Encontrava-se refugiado em Cascais desde 1946.
“Mas com a rede que montara aos poucos e passara a comandar a partir dos finais de 1950, importava sobretudo corresponder às obsessões pedófilas de diversas figuras do universo político, económico e empresarial português, que em regra orbitavam em torno do executivo salazarista”.
Uma denúncia por “atentado ao pudor” e “corrupção de menores” chega à Polícia Judiciaria. Começa a investigar. Detém a responsável com a sua agenda de contactos. São recolhidos vários nomes. Além de Correia de Oliveira, também o do contra-almirante Fernando Quintanilha de Mendonça Dias (nomeado em 14-08-1958 e exonerado em 19-08-1968 como ministro da Marinha). O concessionário do Casino Estoril e dono de diversos estabelecimentos turísticos – José Teodoro dos Santos – igualmente fazia parte da lista. E bem assim o 4.º conde de Caria, Bernardo Viana Machado Mendes de Almeida, dono do Vidago Palace Hotel e das Águas Vidago. O 3.º conde da Covilhã, Júlio Anahory do Quental Calheiros, jurista, fundador da empresa de pneus Mabor e presidente da administração do Banco Borges & Irmão, natural de Avô, uma aldeia da Serra da Estrela, também fazia parte deste rol. Foi uma das figuras mais destacadas no campo social e económico que ao Sporting Clube da Covilhã deu forte contribuição, nas décadas de 50 e 60 do século passado, chegando a ser presidente da Direção. Também constavam outros nomes, como Jorge Monte Real, conde Monte Real e corredor de automóveis. Outro era o 4.º marquês da Graciosa, João Filipe de Meneses Pita. E também Rogério Cândido da Silva, administrador do Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa; e Manuel da Silva Carvalho, corretor da bolsa e administrador empresarial. “Constava ainda de um padre conhecido pelo seu poder de comunicação televisiva e futuro protagonista de uma relevante carreira na hierarquia da Igreja”.
Alguns foram interrogados para o processo. Outros não. É que, entretanto, se terão desencadeado manobras de bastidores para abafar o seu envolvimento.
Manuel da Silva Carvalho afirmou aos inquiridores que “sempre senti prazer em proporcionar a estas raparigas uma vida que jamais teriam vivido, dar-lhes a comer o que jamais teriam comido, vesti-las como elas nunca pensaram que o pudessem fazer”.
Julgamento à porta fechada. Havia que evitar todo e qualquer sinal de escândalo. Nenhum destes protagonistas foi condenado. Excetuavam-se as “medidas de segurança provisórias” aplicadas a Teodoro dos Santos e Cândido da Silva. As únicas condenadas, com pena de prisão, foram a chefe da rede e outra prostituta.
A audiência judicial consumara-se. O jornal britânico publicou a notícia do escândalo. Chamaram-lhe ballet rose (ou roses) por analogia com um caso ocorrido oito anos antes em França, e protagonizado também por personagens proeminentes, entre ela o presidente do Senado. A informação sobre o processo português fora passada para o exterior por um funcionário judicial – o escrivão à guarda de quem estavam os autos –, chocado pela forma como tudo fora encoberto.
O regime do Estado Novo ficou embaraçado internacionalmente. Reagiu com a perseguição aos supostos autores da fuga de informação para a imprensa estrangeira. Mário Soares, que teria posto Barry O’Brien em contacto com o escrivão e com o advogado de uma das menores prostitutas, foi detido pela 12ª vez, pela PIDE. Acusou-o de “divulgação de notícias falsas, no estrangeiro, suscetíveis de prejudicar o bom nome de Portugal” e, no interrogatório, foi-lhe dito: “Desta vez, o senhor pôs em causa pessoalmente a moralidade do senhor presidente do Conselho, injúrias gravíssima”. Resultado: Mário Soares passou na prisão o Natal e o réveillon de 1967, sem qualquer processo ou julgamento, apenas por decisão discricionária do ditador. Foi deportado para a ilha de São Tomé por tempo indeterminado. Foi preciso que Salazar ficasse irremediavelmente incapacitado por doença, em setembro de 1968, para que o seu sucessor, Marcello Caetano, decidisse ordenar o fim da deportação, sem a elaboração de nenhuma queixa judicial contra o advogado oposicionista.

(In "Jornal fórum Covilhã", de 08-07-2020)

1 de julho de 2020

SÍMBOLO DE UMA CIDADE NO FERVOR DAS SUAS GENTES


Há muito não falava no desporto citadino. Passei a espetador televisivo. Mas atento a toda a sua envolvente. E à sua leitura e/ou consulta na imprensa, em papel ou online. Os ventos voltaram-se para outros temas. O sentido da pesquisa, no entanto, jamais me abandonou.
1990 – Iniciei historiar a vida do clube serrano – Sporting Clube da Covilhã (SCC) – numa grande aventura. O mais representativo de toda a Beira Interior. Não havia os meios tecnológicos como hoje. E, acima de tudo, faltava o vil metal. Amadorismo autêntico. Autodidata. Garra na execução dum trabalho jamais visto. Porque o Clube não tinha a sua história escrita. No meu lema de “fazer primeiro e pedir depois”. Se possível. Atento a não dar ouvidos a críticas. Vasculhar o que era possível. Quando ainda não havia acesso à Internet como hoje. Inexistência de computadores. Algumas fotocopiadoras, mas impressoras com scâner não. Existiam as máquinas de escrever. Em substituição dos faxes e e-mails, a correspondência pelo correio. Quando urgente e breve, o telegrama. Tudo mais moroso. Mas muitos contactos pessoais. Os jornais desportivos não eram diários. Alternavam o Record com a A Bola. Às 4ªs feiras, lá surgia a desaparecida Gazeta dos Desportos. Mais tarde surge O Jogo. As estórias para uma história com muitas facetas da vida serrana. Quase em segredo lá conseguiam deixar-me fazer uma passagem rápida pelos livros de atas da Coletividade. No sótão da antiga Sede, um montão de documentos e fotos antigas, na mistura de lixo e pó. Tinha de escovar as calças e engraxar os sapatos. Mas ainda encontrei alguns homens da sua fundação. Obtive interessantes quão importantes informações da génese. Dos que já tinham partido consegui contatar alguns familiares diretos. Recolhia apontamentos. Outros faziam-me chegar importantes documentos antigos. Mormente fotos. António Estrela e José Augusto de Carvalho, os então únicos fundadores vivos. Nonagenários. E os familiares dos falecidos António Rebelo de Matos, na pessoa de sua filha, Maria Leonor Sousa Matos, a viver na Figueira da Foz; e o filho do falecido fundador João de Oliveira, ele também já desaparecido. E ainda antigos dirigentes com conhecimentos profundos. Nas Poldras, na empresa fabril já extinta, o meu contacto com o falecido industrial José Lopes dos Santos Pinto, filho de José dos Santos Pinto. Transmite-me importantes depoimentos. Mais abaixo, na extinta fábrica de Cristiano Cabral Nunes, a CIL – Complexo Industrial de Lanifícios, Limitada, na Várzea, contatei os irmãos Mesquitas, todos antigos dirigentes de excelência, já falecidos: Manuel Rogério Mesquita Nunes, José Mesquita Nunes, Luís Filipe Mesquita Nunes. O massagista José Gil Barreiros não me largava, contando muitas passagens do SCC. Fora de portas, era o contacto com as falecidas velhas glórias serranas: Simonyi em França, Suarez no Brasil, Cabrita em Marrocos, onde treinava. E com muitos dos que ainda se mantinham por este recanto à beira-mar plantado, velhas glórias do clube serrano. O entusiasmo em fornecer dados embrionários foram aliciantes. Os mais entusiastas eram de fora da cidade. As notícias iam chegando, complementadas por alguns contactos telefónicos que iam passando palavra. E liam nos pedidos de informação que vinham por mim publicados nos desportivos nacionais. Contataram-me e foram objeto de importantes informações, proporcionadores de boas amizades, os antigos jornalistas desportivos do Record, Henrique Parreirão e Carlos Arsénio, já fora do mundo dos vivos. E até um atendedor automático de chamadas, aquando do encerramento do escritório, se encontrava repleto. Um amigo desconhecido, já falecido, de terras algarvias, lá tinha a sua voz gravada. Foi bom colaborador. Com informações do viveiro do SCC dessa sua zona. Geraram-se amizades. De tal forma que num encontro em Olhão, onde o SCC foi disputar com o clube local, o carola algarvio Augusto Ramos Teixeira dirigiu-se ao grupo de adeptos covilhanenses que assistiam ao jogo. Ao intervalo pergunta se eu lá estava. Para me conhecer. E cumprimentar. Disseram que não me viam lá, mas que me conheciam. O envio de um abraço. Recebido na 2ª feira. Passei a colaborar no quinzenário daquela Cidade já lá vai mais de um quarto de século. São crónicas ou notícias do lado de cá da Beira Serra. Muitos dos jornais desportivos nacionais transmitiam a informação que lhes era enviada. Como a célebre homenagem às velhas glórias do clube serrano naquele sábado de 28 de setembro de 1991. A APAE da qual era dirigente foi a da iniciativa, por minha proposta. A edilidade covilhanense quando se apercebeu que isto não era leviandade, abriu as portas do seu salão nobre aos visitantes, vindos de todo o país, e recebeu-os num abraço. Ficaram as memórias.
1991 – Subsídios para a História do Sporting Clube da Covilhã, numa 1ª edição, pouco mais chegou para ofertas aos homenageados e convidados.
1992 – Numa 2ª edição, renovada, do mesmo título, deu oportunidade à tipografia da região para publicar uma obra em tamanho inédito para a altura. A cores ainda era experiência. Tinham de ir para fora.
1993 – 2.º livro – Figuras e Factos do Sporting Clube da Covilhã. Acabou por ser o mais solicitado. Também esgotou, sem reedição.
1998 – 3.º livro – Sporting Clube da Covilhã – Passado e Presente. Nas Bodas de Diamante, a história ainda mais completa.
2007 – 4º livro – Sporting Clube da Covilhã na Taça de Portugal – Cinquentenário da sua participação na final.
Entretanto, 1991 e 2007 foram também proporcionadores de uma interessante e importante exposição histórico-documental sobre o SCC e objetos desportivos de Clubes e Federações de todo o mundo. Em 2007, as crianças da Escola Básica do Rodrigo apresentaram trabalhos alusivos ao SCC, com prémios simbólicos atribuídos aos melhores.
2017 – 5.º livro – História do Sporting Clube da Covilhã – 1923 * 1990. Tive o prazer de prefaciar e apresentar este interessante livro da autoria do amigo Carlos Miguel Silva Saraiva, dando assim continuidade ao estudo e divulgação do glorioso SCC. Esperemos que o mesmo autor possa estar no prosseguimento da sua história, a partir de 1990, já que a mesma não se esgota.
Há factos, eventos e personalidades novas que mantêm o clube a desfraldar briosamente a sua bandeira, na representação não só do concelho como de toda a vasta região beirã. Com uma persistente liderança na condução dos caminhos do êxito. Este trabalho não é feito em vão.
Todas as obras publicadas não interferem umas com as outras, antes se completam, pelo que há conteúdos que umas possuem e outras não.
É neste contexto que, nos próximos números, darei continuidade a memorizar factos do clube serrano, inseridos nos quatro anteriores livros. Para avivar memórias.  

(In "Notícias da Covilhã", de 02-07-2020, que, entretanto, excluiu a parte final do texto, onde menciono todos os livros publicados sobre o SCC; e quinzenário "O Olhanense", de 01-07-2020, com a sua publicação integral)

29 de junho de 2020

O AMOR NO TEMPO DA GUERRA COLONIAL


“Não há comparação nenhuma entre quem foi para a guerra de África e os que estão a fazer esta guerra no Afeganistão. Nós fomos porque éramos obrigados, estes vão porque são mercenários. Estão porque querem, para ganhar dinheiro” –  Carlos Pinto Coelho, in 24 horas, 20-11-2005.
  * 
Neste tempo pandémico, muitos dos antigos Combatentes comparam o medo, aquele impulso irracional que fez as pessoas refugiarem-se em casa, fechar escolas e comércios, com o medo sentido na guerra do Ultramar. Mais uns que outros.
Se agora há verdadeiros heróis; todos aqueles que fizeram Juramento no final do Curso de Medicina, cumprindo no maior desafio clínico suas carreiras, da forma mais altruísta e humanitária, uma dedicação sem limites, para combater o invisível inimigo do ser humano, substituindo o verde e camuflado das guerras coloniais pelo branco hospitalar, fazendo frente a um inimigo de peito aberto, sem colete à prova de bala, porque este inimigo não se localiza; podemos sentir estes momentos  como pior que um ferimento de projétil.
Veneramos estes novos Heróis (masculinos e femininos) como o fizemos com os das guerras coloniais naquele famigerado período de 1961 a 1974.
Daqui que datas célebres que invocavam homenagem aos Heróis das Guerras, e depois mais lato – o 10 de junho – Dia de Portugal – teve de ser mais um de tantos eventos suprimidos.
Assim, recordamos a nossa geração neste conceito de herói, no protagonismo de uma guerra de guerrilha que afetou a sociedade portuguesa. Neste amor dos tempos de hoje fazemos uma retrospetiva do amor no tempo da guerra colonial.
Num continente de terra vermelha e calor intenso vivia-se o medo da morte. Das emboscadas. Dentro dos camuflados, o coração batia, as gotas de suor escorriam. O cheiro era outro, o som da natureza era novo. Ao longe e ao perto ouviam-se rebentamentos. O inimigo morava por ali. Era a guerra colonial. África na sua pujança. E o tempo da carne para canhão. A aldeia portuguesa, lá longe, uma miragem distante, no pensamento de jovens com 20 anos. Portugal, anos 60. (1)
E o amor, onde estava o amor neste tempo de guerra? Sobrava a lembrança das namoradas, tantas delas arranjadas à pressa, para ficar aquele elo com a metrópole, mais por eles do que por elas, alguém que personificasse a ligação afetiva. Dos meses e meses no mato, sem ver outros senão também camuflados, chegavam palavras, por cartas, ou por aerogramas (oferecidos pelo Movimento Nacional Feminino). Quando chegavam. A hora do correio, tantas vezes lançado pelo ar, era o mais importante de tudo. Umas tinham frases de amor, promessas feitas á partida, tantas vezes a própria virgindade, como um selo para marcar o compromisso do regresso. Que por vezes era quebrado. Ainda hoje há testemunhos de mortes no mato que foram mesmo suicídios, quando a notícia chegava pelo correio: ela tinha outro. Diz, quem sabe, que para elas esperarem por eles durante dois anos (quando se tem vinte) era uma eternidade. E a traição matou.
Havia as madrinhas de guerra, gente arranjada para fazer de conta que. E os casamentos por procuração.  O afeto ou o desejo do afeto tentavam suavizar aquela interrupção brutal com a vida, numa guerra não desejada, que lhes comprometia o futuro. Ainda hoje há entre nós cicatrizes que não sararam. Andam na consulta de stress pós-traumático.
Naquele tempo, quando se partia, primeiro não se sabia para onde se ia. E, segundo, não se sabia se havia regresso. Muitas lágrimas engrossaram o Tejo quando os navios zarpavam da Rocha Conde de Óbidos. Outros amores de mãe, da família, a dizerem adeus, no cais. Nos movimentos de um lenço, seria a despedida da própria vida? Muitos soldados, que da sua experiência só levavam os horizontes da remota aldeia, viveram o que pensaram ser outra liberdade. Não era como no Vietname, conta quem lá esteve. Nem havia orgias nos quartéis, nem os abusos que se possam imaginar.
Havia mulheres negras, que os outros diziam ser a pele macia e serem afáveis. A prostituição crescia à volta e dentro dos quartéis. Quem trilhou as picadas fala das negras desvirgindadas pelos missionários católicos. E do perigo das doenças venéreas, que atingiam companhias inteiras. Não havia preservativos, as bisnagas de sulfamida dadas pelos médicos militares não eram usadas. Alguém dissera que aquilo iri tirar a potência. Houve violações. Dos inúmeros soldados analfabetos, sabe-se que levavam para África experiências sexuais estranhas. Sem ternura nem afeto. De homossexualidade fala-se esporadicamente. Gestos houve-os, nem chegaram a relação, eram mais que resistir aquele sofrimento, àquela solidão do mato africano. Nas sentinelas, na calada da noite. O combate é excitante, disseram. A masturbação foi “a instituição” dos soldados. E um homem tem de ter o “escape” para as suas “necessidades”.
Do lado de cá da guerra, as mulheres viviam outro lado do amor. O compromisso continuava inviolável. De casamentos antes, foram raros os divórcios. E também aqui se marcou a diferença com o Vietname. Mas a guerra afeta o amor do após guerra. Talvez a mulher portuguesa fosse mais passiva e resistente. Como mães dos maridos?
Na consulta do stress pós-traumático há a experiência clínica desta memória da guerra colonial. Elas continuam com eles, embora com papéis distorcidos no casal. Continuam a manter o barco à tona. Uma corda a ligar ao passado. A paixão que houve. Depois da guerra, no regresso à realidade do outro, nem sempre se (re)descobre a paixão. 

(1)      Baseado num texto de Leonor Figueiredo, in DN, 27-09-1998

(In "O Combatente da Estrela", n.º 119, junho/2020)


10 de junho de 2020

CORONAVISÃO


Nunca se ouviu tanto falar no bicho. Já passei por dois séculos. Tenho muita vontade e a esperança divina de ainda poder continuar no XXI por mais alguns tempos. Se não houver ventos dominantes. Mas, neste planeta, sei que da vida tem de se pensar no aproximar do final da viagem. Paradísica que foi umas vezes. De hilariante outras. Entre familiares e amigos. Por algumas ocasiões, de permeio pequenas tempestades. Diversificadas pelos vários momentos da vida. Mas se estas são fáceis de passar, no planeta há mais teimosia. É inquebrantável. Talvez tenha razão. Revolta-se com quem se introduz nas suas entranhas. Num ápice, a Natureza dá um forte pontapé num pedaço planetário.
Clima? É um problema global! Eu quero é a minha questão local. Assim, teremos que para “palavras loucas, orelhas moucas”. Ainda que alterem as estações do ano.
O bicho estava sonolento. De repente recordou outros seus “familiares” de outras eras – 1918, 1957, 1968 – as mais evidentes. Na sua perspicácia de pezinhos de lã opta pelo seu local habitual, e aí começa a estender os seus tentáculos, qual polvo enfurecido.
Começaram a desaparecer as palavras já gastas: “Fique em casa” e “Vamos todos ficar bem”.  Outras vieram contrapor-se: “Nada vai ser igual”. Alguém se apressou a apelidar de serem vozes de “velhos do Restelo”. Tendo em conta uma das leis mais importantes do Universo, presente na essência de quase tudo o que nos cerca – a “Teoria do caos”.  Descoberta do meteorologista americano Edward Lorenz de que “fenómenos aparentemente simples têm um comportamento caótico quanto a vida”.
No dia em que escrevi este texto desci o vale de Manteigas com um amigo de longa data. Depois de tomar um cafezinho no David, nas Penhas da Saúde. Numa esplanada da vila foi a vez de uma cerveja. Havia necessidade de soltar aquele grito do Ipiranga de D. Pedro, depois de tanto tempo de confinamento. Eu e o meu amigo estivemos na mesma altura no serviço militar. A Guerra do Ultramar acabou por ter lá um de nós. Esse tempo, apesar de já a uma distância considerável, deixou marcas nas nossas vidas e nada ficou igual. Dizia-me o camarada que era a segunda vez por que passava por uma situação terrível. Como traumática foi para milhares de portugueses que ainda hoje sofrem dessa doença psicológica. As novas gerações nem sequer fazem ideia do que foi esse tormento. Também muitos poucos, ainda vivos, já centenários, passaram pela pandemia de 1918. A que mais se assemelha a esta por que estamos passando.
Naquele tempo ainda não existia a televisão nem a Internet. Nem sei se também se falava em voltar ao “novo normal”. Embora já existisse o Diário de Notícias.
A televisão só iniciaria em Portugal em 1957. De um só canal – a RTP.  A preto e branco. Os mais velhos lembram-se vagamente. Os mais novos não têm sequer ideia dos dois botões de rodar que havia na parte de trás dos televisores. E a que invariavelmente tínhamos de recorrer para ver televisão: um deles era o botão de sincronismo. Fixava a imagem na base do tempo que impedia que viajasse para cima e para baixo sem parar. O outro era o da obliquidade. Repunha as proporções certas no ecrã.
Neste ano da graça de 2020, os vários canais televisivos viram-se forçados a alterar os seus programas. Com videoconferências em vez do presencial. Por força da famigerada pandemia. Enquanto outros repetem programas. Mas o tema de todos os dias é esse – a pandemia. Os números de mortos, infetados, hospitalizados e recuperados. Em Portugal, na Europa e no Mundo, mormente Brasil e EUA. Números e mais números pandémicos. Muitas repetições ao longo do dia.
Parece que já vai abrandando. Estamos perto da época dos fogos. Mas, de quando em vez – na zona da capital – surgem agora uns novos focos. Afinal foi só mudar a letra da mesma palavra. Por sinal também uma consoante. Chegou o futebol. Os algarvios já ganharam o primeiro encontro. Tínhamos antes todos os canais saturados à noite. Não valia a pena fazer zapping. De comentadores da bola só mudavam as caras. Paradoxalmente no enfadonho de sempre as mesmas. No óbvio de cada canal. O regresso aí está. Pelo que se via com uns certos senhores dos painéis futebolísticos havia grande fervor. Chegavam às do cabo. Não vai haver problema. Porque os novos moldes de conferência assim o resolvem. Mas certamente que o enfado vai regressar.
Com este novo normal esperemos que os tempos de ocupação dos espaços televisivos possam passar a ocupar posições diversificadas de interesse geral. Há que inovar. E eliminar programas repetitivos. Como repetitivas as mesmas notícias. Sabemos que não é fácil. Tem de haver adaptações.
Pela minha parte, não vou falar mais no bicho. Outros temas esperam por mim.

(In "Jornal fórum Covilhã", de 10-06-2020)


27 de maio de 2020

ATRAVÉS DOS TRILHOS DE UM SEMANÁRIO

Ele já existia. Nesse ano de 1964 contava já 45 anos com a nova designação. Vieram-se-lhes adicionar mais seis com o título A Democracia.
Eu ainda era jovem. E foi com orgulho que vi a minha primeira publicação num jornal já a caminho do final daquele ano.
A vida de estudante foi passada entre a antiga Biblioteca Municipal, ao Jardim público, para onde ia também estudar; e a Escola Industrial onde concluí o meu Curso.
Desde muito novo me habituei à leitura de jornais diários que iam para aquela biblioteca. Sempre ávido pelos semanários da região, onde se incluía o Notícias da Covilhã.
A “semanada” não entrava nas minhas algibeiras. Nem sequer quinze tostões para uma bica em qualquer café citadino. Diligenciei assim em casa para continuar os últimos anos do meu Curso na Escola Industrial, à noite. E deste modo arranjar um emprego.
Fui então funcionário administrativo do Município Covilhanense. Entrei com 17 anos. Participei nos concursos de acesso na carreira, à altura, enquanto concluía os estudos do Secundário. Ainda não havia aqui a Universidade. Para além da Escola Industrial e o Liceu, somente o extinto Colégio Moderno. A ditadura em Portugal persistia.
Os computadores, impressoras, faxes, scâneres, fotocopiadoras, telemóveis, e todos os equipamentos e meios tecnológicos eram inexistentes. A Internet ainda era desconhecida.
A redação do Notícias da Covilhã era perto da Câmara Municipal. Conhecia muitos obreiros deste Semanário.  Desde o pessoal da secretaria ao da então tipografia. Assim como da redação e os diretores do Jornal. O Padre José Andrade já tinha passado o seu testemunho de diretor do Notícias da Covilhã ao Cónego António Mendes Fernandes.
Um impulso para começar a redigir o primeiro texto que pudesse vir a ser publicado. Aproveitando uma qualquer máquina de escrever Hermes, Underwood ou Remington disponível. Fui então ao Notícias da Covilhã apresentar o texto datilografado. Ainda timidamente.  Sou recebido pelo amável redator Alfredo Nunes Pereira.
A partir daqui foi o continuar.  Com espaços temporais mais espaçados que outros, face ao então início da vida militar e depois novas atividades profissionais. Não só seria no Notícias da Covilhã, como também noutros periódicos.
Hoje é mais fácil enviar um texto, pelos meios eletrónicos. Não é necessária a deslocação às redações dos jornais.
Tive uma excelente amizade com os saudosos antigos diretores, cónegos António Mendes Fernandes e José Almeida Geraldes. E, como não podia deixar de ser, com o especial amigo e o penúltimo diretor, cónego Fernando Brito dos Santos. Com o atual, padre Luís Freire, tudo augura uma promissora liderança à frente do Notícias da Covilhã.
Manter um jornal vivo! Nos tempos que correm, com todas as suas vicissitudes, atingindo a longevidade, é obra!
Por isso mesmo, é assaz justo o prémio, a título honorífico, com uma menção honrosa, na edição deste ano do Prémio de Jornalismo D. Manuel Falcão, promovido pelo Secretariado Nacional das Comunicações, organismo da Igreja Católica, ao Notícias da Covilhã, pelos “bons trabalhos jornalísticos”.
Como justas foram todas as atribuições de medalhas de mérito municipal que a edilidade covilhanense concedeu aos antigos diretores. E nas quais estive presente: António Mendes Fernandes, José Almeida Geraldes e Fernando Brito dos Santos.
Nos 75 anos deste Semanário, a Presidência do Conselho de Ministros atribuiu um “Louvor” ao “Notícias da Covilhã” “pelos relevantes serviços prestados à comunicação social nos seus setenta e cinco anos de existência”.
Em maio de 1962 chegou a ser bissemanário. Por pouco tempo. Voltaria a ser semanário.
25 de Abril de 1998. Apresentado no Salão Nobre da Câmara Municipal da Covilhã o primeiro livro de João J. C. Morgado. Título: “Covilhã e a Imprensa – Memórias do Primeiro Século – 1864 – 1964”. Um interessante estudo, editado pela Associação Nacional de Imprensa Diária e Não Diária. Estive presente.
O escritor fora também jornalista. Atualmente muito versado na poesia e romance histórico. Com várias obras já editadas. E vários prémios nacionais e internacionais ganhos. Aludiu na altura ao facto de que o Notícias da Covilhã tinha, não os 79 anos considerados, mas mais seis. Ou sejam, 85. Tendo em conta os da sua génese por via do semanário A Democracia que durou até 1918. “Altura em que o seu diretor, António Catalão, foi preso pelo então célebre Administrador da Covilhã, Ferraz das Barbas”.
Ainda no dia 25 de Abril de 1998. No mesmo Salão Nobre. João Morgado sugeriu ao Presidente da Câmara, Carlos Pinto, que a Rua de Santa Maria, onde se encontra sediado o Notícias da Covilhã, deveria, muito justamente, passar a chamar-se Rua Jornal Notícias da Covilhã.
O que é certo e verdade é que no ano seguinte, a 16 de janeiro de 1999, a antiga Rua de Santa Maria passou a designar-se Rua Jornal Notícias da Covilhã.
Assim também fosse atendido o alvitre, várias vezes apresentado nos semanários desta região, para que idêntica conduta fosse tomada com a atribuição de uma rua ao industrial covilhanense Ernesto Cruz. A               quem a Covilhã muito ficou a dever.
Sempre que me foi possível acompanhei o rumo, iniciativas, comemorações e também os eventos, notícias e memórias inseridas nos números do Notícias da Covilhã. Foram fontes importantes de consulta para algumas obras que publiquei. Só aqui se encontravam face à antiguidade deste semanário.
O Notícias da Covilhã continua vivo. De imagem renovada. Passou a ter presença regular na Internet. Uma página própria, entrando nas redes sociais.
Depois de algumas vicissitudes por que passou, o Notícias da Covilhã, “sob a égide da Diocese da Guarda”, volta a ter uma administração própria.  E a trilhar os caminhos por que foi fundado.
Parabéns ao Notícias da Covilhã! E a todos os que dão o seu melhor em prol do mesmo.

(In "Notícias da Covilhã", de 28-05-2020)