27 de novembro de 2019

GRITOS


Outono boreal a chegar ao fim. Este equinócio, agora de frio, chuva e vento, traz o cambiante das folhas amarelas no chão. E do vendedor de castanhas no Pelourinho. De vez em quando o arco-íris a emoldurar a Cidade.

Aproxima-se o solstício de inverno.

Entre estes momentos específicos, temos vindo a ouvir uma variedade de GRITOS. Coincidência. Um livro cai-me da estante ao resvalar do escadote. As suas folhas desnudam-se no “Grito do Ipiranga”. Acontecimento ocorrido a 7 de setembro de 1822 que simboliza a independência do Brasil – “Independência ou morte!”

“Order! Order!” – É o peculiar grito do speaker (presidente) da Câmara dos Comuns do Reino Unido, John Bercow, tornado uma personagem essencial para os milhões de pessoas em todo o mundo que descobriram o mistério do funcionamento do Parlamento britânico por causa do “Brexit”. Entrou há dias pela última vez em Westminster. Esteve dez anos no cargo, mas nos últimos três o seu grito de “Order” foi especialmente ouvido, tal a desordem nos espíritos causados pelo “Brexit”.

“Veneza está a afundar-se, é preciso salvar Veneza!” Gritos de alarme, como há bem pouco tempo ecoou em Itália repercutiu-se em todo o mundo. A Praça de São Marcos inundada. Há uns anos, em pleno verão estivemos lá sentados numa esplanada. Nesta praça tivemos que, num ápice, nos levantar, quando a água repentinamente surgira por debaixo das mesas e cadeiras e já nos começava a molhar os pés. Sempre foi assim, mas desta vez foi exagerado.

“Zero saiu da Internet e tomou as ruas”. Cerca de 13 mil agentes da PSP e militares da GNR participaram de forma pacífica na manifestação do dia 21 de novembro. O anónimo Movimento Zero passou a ter milhares de rostos e ocupou as ruas. Deixou de ser anónimo. No Marquês de Pombal venderam-se T-shirts do Movimento zero. Milhares vestiram-nas. “Zero, Zero, Zero…” foi a palavra de ordem gritada ao longo de toda a marcha. E, enquanto gritavam, levantavam os punhos, juntando o polegar com o indicador desenhando um zero. “Certamente que muitos dos manifestantes nem sequer sabiam que aquele gesto é também usado pela extrema-direita em muitos países do mundo. Em gritos e cartazes pretendiam os manifestantes sensibilizar a cidadania para a imensa panóplia de problemas das forças de segurança”. Aqui se posicionou o deputado da extrema direita, André Ventura. Lamentável, entre frustrações justas e as inaceitáveis apropriações.

Ao grito das gentes do Interior, aquele que fica fora de Lisboa, respondeu o Governo com três secretarias de Estado para fora da capital. Qual o critério para terem de ir umas e não outras secretarias, quando se verifica que como único e previsível critério será o da proximidade dos governantes dos locais escolhidos? Vai existir um verdadeiro plano de ação, ou é mais um faz de conta? Isto porque basta ter ouvido Ana Abrunhosa, ministra da Coesão Territorial. na sua expressão de que iria “gerir o declínio…” do Interior! Para afinal, fazer o quê desta parcela do território português? Está mais que visto que passará a ser “Tudo como dantes, Quartel General em Abrantes”.

Gritos dos Srs. H.  – Henrique Galvão e Humberto Delgado foram dois notáveis personagens da nossa história do século XX. Ambos haviam sido declarados apoiantes de Salazar e do Estado Novo, até meados do século passado. Paradoxalmente, ambos foram posteriormente profundamente seus inimigos.  O grito de “obviamente demito-o”, saído da boca de Humberto Delgado, referindo-se a Salazar, conduzi-lo-ia ao caminho da morte por assassínio.  Já o grito de Henrique Galvão, com o desvio do navio Santa Maria no mar das Caraíbas iria chamar, de novo, as atenções internacionais para a falta de liberdade no Portugal de Salazar. À frente deste audacioso golpe político estavam Galvão e Delgado…

Depois há outros gritos, como os de Mário Nogueira, secretário-geral da FENPROF, ou dos secretários-gerais da CGTP e UGT.

Gritos suavíssimos – Para terminar este final de ano, mencionamos os gritos finlandeses com a chegada da Finlândia, pela primeira vez na sua história, desde a sua estreia em jogos internacionais, em 22 de outubro de 1911, pela sua passagem à fase final de uma grande prova – o Euro 2020.

Votos com gritos de Boas Festas de Natal.

(In "Notícias da Covilhã", de 28-11-2019)

13 de novembro de 2019

O CHICO-ESPERTISMO DE JUAN SEBASTIÁN ELCANO

Com o português Fernão de Magalhães, que comandou a expedição da viagem que iria ser conhecida por circum-navegação, partiu numa das cinco naus, o espanhol Juan Sebastián Elcano, no dia 20 de setembro de 1519.
Nascido em Getaria, Guipúscoa no ano de 1476, quatro anos mais novo que o português, foi um explorador, navegador e marinheiro.
Tendo completado 23 anos, Sebastián Elcano passou a ser dono e capitão do seu próprio navio mas devido a problemas financeiros fugiu para Sevilha onde aprendeu a sua arte de navegação, tornando-se piloto.
Estabelecido em Sevilha tornou-se capitão de navio mercante. Após violar a lei espanhola ao entregar um navio a banqueiros genoveses como pagamento de uma dívida, Elcano procurou o perdão do rei D. Carlos I de Espanha, inscrevendo-se assim como oficial na expedição liderada por Fernão de Magalhães às Molucas.
Estávamos então na Idade Média, cujo comércio das especiarias era considerado de longe o mais rentável para a época pois que o mais pequeno volume de mercadoria garantia a maior margem de lucro. No século XV, um único saco de pimenta tinha mais valor que uma vida humana.
Da mesma forma que hoje grande parte da economia do mundo moderno se baseia no petróleo, grande parte da economia do mundo medieval firmava-se no comércio dos produtos do Oriente, mormente nas especiarias: cravo, canela, pimenta, malagueta, noz-moscada, mirra, incenso.
Se a Fernão de Magalhães lhe era recusado pelo monarca português, D. Manuel I, primeiro a indemnização pelo cavalo morto, depois a gratificação pelas feridas em combate, durante a escaramuça às portas de Azamor, que o deixara coxo o resto da vida; e o aumento da moradia; e também  de navegar para as Molucas; e por fim qualquer outro serviço, ele tornou-se para D. Manuel além dum fardo, um inútil. Também o covilhanense Ruy Faleiro tinha razões de queixa de D. Manuel, talvez por este lhe ter negado o posto de lente na Universidade de Coimbra. Tal não acontecia na conduta dos espanhóis para com Elcano.
Magalhães teve consigo um acompanhante e intérprete, Enrique de Malaca, um jovem escravo que havia adquirido, o qual viria a permanecer ao seu lado e ser-lhe fiel até à sua morte. Entretanto Juan Sebastián Elcano acabava por ser poupado por Fernão de Magalhães, depois daquele ter participado num motim falhado nas costas da Patagónia, contra Magalhães.
Ninguém sabia exatamente a dimensão do mundo, nem a sua morfologia, assim como as direções para o percorrer. Um dos grandes enigmas geográficos da Idade Média era a localização.
Depois do motim falhado, a nau San Antonio foi confiada a Juan Sebastián Elcano, não obstante ter procurado impedir que Magalhães concretizasse a sua ideia. Noutra altura, seria chamado como eleito pelo destino de concluir a obra de Fernão de Magalhães.
O mestre de armas Gomez de Espinosa havia sido o mais fiel apoiante de Magalhães e, a bordo do Trinidad viria a perecer ingloriamente, após sofrimentos, juntamente com os seus companheiros de desgraça, sendo esquecidos pela ingratidão da História. Juan Sebastián Elcano será imortalizado, precisamente o chico-esperto que quis impedir o feito de Magalhães e que se revoltou contra o seu almirante.
Poucos dias depois da batalha de Mactan, onde viria a ficar sem vida Fernão de Magalhães, o rei de Cebu, Humabon, e o escravo de Magalhães, Enrique, armam uma cilada aos principais oficiais da armada. Cada um com as suas razões, ambos se sentindo traídos e humilhados, sendo que Enrique tem motivos porque os oficiais da armada ameaçam mantê-lo em escravidão, apesar das ordens deixadas por Magalhães no seu testamento; e Humabon porque “estes europeus cristãos, declarando-se tocados pela graça do seu Deus e invulneráveis, convenceram-no a prestar-lhes vassalagem – e, afinal foram vencidos por um dos seus vassalos”.
Os dois conspiradores organizaram um jantar de homenagem e de despedida dos principais tripulantes da armada, que acabaria por se transformar num autêntico massacre.
Os sobreviventes decidiram abandonar a nau Concepción nas Filipinas já que não havia homens suficientes para manobrar três navios. A armada, agora reduzida à Trinidad e à Victoria, chegou às Molucas em novembro de 1521, seis meses depois dos trágicos acontecimentos ocorridos em Cebu. A nau Trinidad, necessitando de reparações urgentes não pode seguir viagem a tempo de aproveitar os ventos de monção.
Sebastián Elcano foi um dos poucos oficiais que se salvaram do massacre de Cebu. O covilhanense Ruy Faleiro, parceiro de Magalhães nos primeiros tempos, foi encarcerado mal entrou em Portugal. Só aquele que se ergueu contra Magalhães, Sebastián Elcano, arrebanhou todas as glórias aos que lhe foram fiéis, aos que morreram.
Quando, no dia 9 de julho de 1522 a extenuada nau Victoria se aproximou das ilhas de Cabo Verde, após cinco meses de uma viagem ininterrupta, já só com trinta e um espanhóis e três indígenas, Elcano, mais uma vez chico-esperto, decidiu arriscar e enganar os portugueses quanto à verdadeira identidade. Antes de enviar alguns homens a terra num batel, a fim de comprarem mantimentos, obrigou a tripulação a jurar solenemente que não dariam a entender aos portugueses, nem por uma palavra, que eles eram o que restava da frota de Magalhães e que regressavam da viagem à volta do mundo, sendo os marinheiros instruídos a contar uma peta. E a 6 de setembro de 1522 chegava ao fim o maior feito marítimo de todos os tempos.
Participantes da região beirã nesta viagem de circum-navegação: Afonso Gonçalves, da Guarda, despenseiro da Victoria. Desertou nas ilhas Marianas, onde foi morto em finais de agosto de 1522. Domingos Álvares, da Covilhã, grumete da Trinidad. Faleceu em 7 de junho de 1522.
Dos 18 sobreviventes que chegaram a Espanha havia um único português – Francisco Rodrigues – , marinheiro, nascido em 1482, que não sabia ler e afirmara inicialmente que era castelhano.
__________
Pesquisas: “MAGALHÃES o homem e o seu feitio”, de Stefan Zweig; “Nos Passos de Magalhães”, de Gonçalo Cadilhe; “A Viagem de Fernão de Magalhães e os Portugueses”, de José Manuel Garcia.

(In "Jornal fórum Covilhã", de 13-11-2019)

6 de novembro de 2019

BILHETE-POSTAL


Praticamente quase não se utiliza. Mas o mesmo não aconteceu até finais da década de oitenta do século passado. A circular pelo Correio sem envelope e com o porte de valor inferior ao das cartas comuns. Tinha e tem ainda o inconveniente de terceiros poderem vir a ler o seu conteúdo, por vezes algo reservado entre o remetente e o destinatário. A privacidade não existe, como no caso de serviços de contencioso do fisco ou judicial. Estes agora optaram pelas cartas registadas.

Consta que o primeiro cartão-postal, bilhete-postal ou simplesmente postal foi emitido no século XIX existindo, contudo, versões diferentes sobre a sua invenção.

Também existiu o aerograma, tipo de carta que se enviava pelo correio aéreo, sem necessidade de sobrescrito. Tinha uma tarifa diferente da do resto da correspondência. O uso deste termo foi oficialmente aprovado na União Postal Universal de 1952. Amplamente divulgado pelo seu uso durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Em Portugal, ganhou fama durante a Guerra Colonial, como meio de comunicação preferencial entre as famílias na Metrópole e as tropas destacadas em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau em virtude de ser um meio grátis de correspondência, mantido pelo antigo SPM (Serviço Postal Militar). Entre 1961 e 1974 o Movimento Nacional Feminino foi a organização responsável pela emissão dos aerogramas militares, tendo editado mais de 300 milhões de aerogramas. Eu próprio escrevi alguns aerogramas para meu irmão, então destacado como combatente na Guiné, nos finais da década de sessenta do século passado.

O título desta crónica vem a propósito de, com alguma surpresa, ter recebido de uma autarquia o agradecimento, em simples postal, da oferta que fizera do meu último livro para a sua biblioteca municipal. Pensei que já não se usasse o bilhete-postal.

E porque me referi também à privacidade, veja-se o que deu azo à leitura, em simples bilhetes-postais, bastante em uso na altura, no período de 1969 a 1971, quando prestava serviço militar no RI 12, na Guarda. Em cima da habitual mesinha de jogos ou do balcão do bar da sala de sargentos entregavam o correio. Dois bilhetes-postais arrastaram-se por ali alguns dias, por ausência dos seus destinatários, furriéis milicianos. Um era dum familiar do camarada que fora transferido para um hospital em Coimbra, o Gaio de Belmonte, a fim de sofrer uma intervenção hemorroidal. O furriel Oliveira, de Melo, atrevidote e sempre com sentido de humor, escreveu na diagonal do bilhete-postal que seria enviado para o doente em Coimbra: “Melhoras cobre”. Quando o camarada doente regressou ao RI 12, perguntou-me o que significavam aquelas palavras. Resposta: “Então não sabes que o símbolo químico do cobre é ‘cu’?”.

Outro bilhete-postal, sem escrúpulos por quem viesse a ler, face à exposição da correspondência, reportava-se à esposa dum camarada que com alguma aflição lhe recomendava a compra dum contracetivo: “se não vamos ter mais um bebé…”

Estes eram os inconvenientes do Bilhete-Postal, em tempos em que ainda não existiam os telemóveis, nem a Internet, e as chamadas telefónicas eram caras e morosas.

O ideal era escrever uma carta. A modernidade, com o mundo digital ao nosso dispor, transformou radicalmente o mundo que nos rodeia. Mário Zambujal escreveu o seu romance: “Já não se escrevem cartas de amor”.

Vem aí o período ainda propício para alguns teimosos no envio de postais. É o período do Natal, com os postais de Boas-Festas.


(In "Notícias da Covilhã", de 07-11-2019)

30 de outubro de 2019

POR ONDE ANDAM ALGUNS CLUBES DA HISTÓRIA DO FUTEBOL PORTUGUÊS


Naqueles tempos chamava-se I Divisão, hoje é a I Liga de Futebol. Mas como tudo começou foi com o Campeonato de Portugal, que se iniciou na época 1921/22, cujo campeão foi o F.C. Porto. No ano seguinte seria campeão o Sporting. Seguir-se-iam, como vencedores das respetivas finais e consequentemente Campeões de Portugal: Olhanense, que em 08-06-1924, em Lisboa, venceria o F. C. Porto, e, dentre outros, o Marítimo, e o Carcavelinhos que em 30-06-1928, em Lisboa, ganhou na final ao Sporting. Terminou esta primeira competição oficial, em 26-06-1938, com o triunfo do Sporting em Lisboa, sobre o Benfica.

Uma derrota com Espanha por nove golos sem resposta alertou os portugueses para o atraso do seu futebol, sendo que a humilhação mereceu as mais irónicas piadas da época e acabou por ser o reflexo da ineficácia de uma competição – Campeonato de Portugal – que não oferecia aos clubes, e, consequentemente aos atletas, a competição necessária para se baterem de igual para igual com outras seleções. Havia, pois, que se concluir que o futuro do futebol português dependia da regularidade e rigor das competições.

Encetou-se assim o processo que viria a conduzir à criação do Campeonato da I Liga.

A Direção federativa aprovou os regulamentos e decidiu organizar os campeonatos da Liga, deixando, no entanto, expresso em ata: “ficou resolvido promover a título experimental os campeonatos da Liga, I e II Divisões, sem prejuízo dos Campeonatos Distritais, nem do Campeonato de Portugal”.

Ao Campeonato da I Liga (I Divisão), limitou-se a entrada a oito clubes de um número reduzido de Associações (Lisboa, Porto, Coimbra e Setúbal). O primeiro vencedor da prova foi o F. C. Porto, seguido do Sporting, Benfica e Belenenses.

O Campeonato da II Liga apresentou o especial atrativo de a final ser disputada entre o melhor clube do Norte e o melhor do Sul.

Estes campeonatos da Liga tiveram apenas quatro edições em cada Divisão (1934/35 a 1937/38) Não sendo a prova ideal, os campeonatos das Ligas acabariam por abrir caminho ao novo modelo que surgiu em 1938/39, com a formação de um verdadeiro Campeonato Nacional – I e II Divisões. E, mais uma vez, seria o F. C. Porto o primeiro campeão, na época iniciada em 1938/39.

E então vamos ao assunto que dá ênfase ao título deste texto. Vários clubes que hoje militam por outras divisões secundárias, como o atual Campeonato de Portugal, fruto de contingências das suas vidas e da situação do País no âmbito desportivo e económico, das regiões e sua interioridade, por exemplo, tiveram altos e baixos. Uns fundiram-se com outros; outros ainda tão só acabaram por ser extintos. Históricos que foram do futebol português e que dos mesmos ficam referências das suas atuações e dos atletas. Muitos deles se evidenciaram por todos esses palcos dos campos de futebol em Portugal. Por exemplo, na primeira edição do Campeonato Nacional da I Divisão, realizado na época 1938/39, jogou o Académico do Porto (Académico Futebol Clube), que deixou de ter a secção de futebol; e o Casa Pia. Na época seguinte, o Carcavelinhos (Carcavelinhos Football Club) que se viria a fundir com o União de Lisboa e a criar o Atlético Clube de Portugal; depois, o Unidos Lisboa. E, nas épocas seguintes, sem indicação de datas, o Leça, Unidos do Barreiro, para, na época 1943/44 participar o Atlético, resultante da fusão de dois clubes como já vimos; o Salgueiros (Sport Comércio e Salgueiros) que em 2004 extinguiu a secção de futebol sénior, acabando por ser criado o Salgueiros 08; Sport Lisboa e Elvas que em 1947 se fundiu com o Sporting Clube de Elvas, de que resultou o atual Elvas Clube Alentejano dos Desportos. Depois a Oliveirense, Famalicão, Sanjoanense, Lusitano Vila Real Santo António.

O Sporting da Covilhã entra nesta competição na época 1948/49, e o Olhanense muito antes, em 1941/42. O Oriental inicia-se na I Divisão na época 1950/51 e o Lusitano de Évora, em 1952/53. A CUF surgiria com a sua estreia em 1954/55, autêntico histórico do futebol português, conseguindo atrair bons jogadores pois garantia-lhes empregos estáveis nas fábricas da CUF. Com o desmantelamento da CUF o clube acabou por entrar em declínio tendo dado origem ao Grupo Desportivo Fabril, sendo que ainda passou por Quimigal. O Torreense em 1955/56, assim como o Caldas. O Beira-Mar viria a aparecer entre os maiores, na época 1961/62, e o Feirense na seguinte. O Varzim e o Seixal inaugurariam a sua entrada na I Divisão, em 1963/64. O Tirsense na época 1967/68 e o União de Tomar, em 1969/70. O Farense só entraria em 1970/71, o Montijo(Grupo Desportivo de Montijo) e o União de Coimbra em 1972/73. O G. D. Montijo no final dos anos 90 entrou numa crise económica que resultou em 2007 no fim deste clube, sendo criado o Clube Olímpico do Montijo. O Sporting de Espinho, na época 1974/75. O Portimonense em 1976/77. O Marítimo e o Riopele (Grupo Desportivo Riopele), na época 1977/78, tendo este  entrado na história por ser o clube proveniente da cidade mais pequena de sempre a participar na I Divisão: Pousada de Saramagos. Era tal como a CUF um clube-empresa, os jogadores eram também trabalhadores. Subiu ao primeiro escalão em 1977 tendo descido logo a seguir. Após descidas sucessivas, o clube foi extinto em 1981. O Académico de Viseu, em 1978/79. O União de Leiria e o Rio Ave, em 1979/80. O Penafiel e o Amora em 1980/81. Ainda o Ginásio de Alcobaça em 1982/83. O Recreio de Águeda surgiria na I Divisão na época de 1983/84, e o Vizela, em 1984/85. O Chaves e o Desportiva das Aves em 1985/86. O Estrela da Amadora, (o Clube de Futebol Estrela da Amadora já foi extinto) e Fafe, em 1988/89. Já o União da Madeira integraria a I Divisão na época 1989/90, e o Gil Vicente em 1990/91. O Paços de Ferreira em 1991/92. O Leça regressaria volvidos 54 anos, na época 1995/96, e também inaugurariam a sua entrada na I Divisão, o Felgueiras (o Futebol Clube de Felgueiras já foi extinto) e o Campomaiorense.

O Campeonato Nacional da II Divisão começou a disputar-se na época de 1938/39, após a grande transformação operada nas provas nacionais, com a extinção dos Campeonatos da I e II Ligas e do Campeonato de Portugal.

Em substituição das anteriores provas surgiriam o Campeonato da I e II Divisões, Taça de Portugal e Campeonato Nacional de Juniores.

De 1958/59 a 1975/76, o Nacional da II Divisão foi disputado em duas Zonas (Norte e Sul) conquistando os vencedores de cada zona o direito de subirem à I Divisão Nacional.

A partir de 1976/77 foi o referido campeonato dividido em três zonas distintas – Norte, Centro e Sul.

Na época 1990/91, a II Divisão (principal), passou a designar-se de II Divisão de Honra, sendo encontrados entre os três primeiros classificados os que sobem no ano imediato à I Divisão.

 A II Divisão, por zonas, passou a designar-se de II Divisão “B”, com acesso direto à Divisão de Honra.

O Campeonato Nacional da III Divisão surgiria em 1947/48, tendo os regionais e distritais acabado por perder muita da sua antiga importância uma vez que passaram a dar acesso à III Divisão.

Depois de várias alterações hoje existem a I e II Liga de Futebol, o Campeonato de Portugal e os Campeonatos Distritais.
(In "O Olhanense", de 01-11-2019)

9 de outubro de 2019

O INJUSTIÇADO MAGALHÃES


Século XV, ano de 1480, nasce em Portugal em local incerto, presumindo-se no Norte, uma criança a quem foi dado o nome de Fernão de Magalhães. Na sua juventude, aos 25 anos (1505) estava a prestar serviço militar na Índia.

Mas já antes havia ingressado como pajem na corte da rainha D. Leonor, mulher de D. João II, aos 14 anos.

Em 1488, Bartolomeu Dias regressa dobrando o Cabo da Boa Esperança; em 1492, Cristóvão Colombo é recebido por D. João II, a caminho de Sevilha, após a descoberta da América; Vasco da Gama faz a descoberta do caminho marítimo para a Índia em 1498, isto querendo dizer que, a nível científico têm tanta importância na passagem da Idade Medieval à Idade Moderna, quanto, em Itália, a nível artístico, o Renascimento, ou na Alemanha, de âmbito religioso, a Reforma.

Magalhães vem a ser figura assinalável nos anais da história de Portugal e, talvez noutra vertente, também na história de Espanha. Uma personalidade dotada aos caprichos da incompreensão de alguns, da dúvida e de ódios, a par de um homem sem medos, valoroso, combativo, rigoroso e aventureiro, a quem, paradoxalmente, lhe é reconhecido o real valor ao leme de uma ideia, de uma empresa, de um projeto comum europeu: o do conhecimento da verdadeira dimensão do mundo.

Sobre Fernão de Magalhães talvez seja importante referir que à morte de D. João II, em 1495, a corte se dividiu quanto à sucessão em duas fações. A primeira que insiste que o trono seja entregue a D. Jorge, filho bastardo do rei. A segunda, liderada pela rainha, defende a ascensão ao trono de D. Manuel, irmão de D. Leonor, primo de D. João II. Alguns historiadores colocam a hipótese de a família de Magalhães ter apoiado a primeira fação, ou seja, a que acabará por perder a corrida ao trono.

Originaria assim, que, volvidos anos, e por repetidas vezes, havia hostilidade de D. Manuel I a todos e quaisquer pedidos e projetos que lhe seriam apresentados por Fernão de Magalhães. Uma vingança? Se não, pelo menos uma injustiça!

Assim, juntamente com o nosso conterrâneo, covilhanense Ruy Faleiro, também fora das graças do rei D. Manuel I, colocam-se ao serviço do rei de Castela, D. Carlos I, mais tarde o imperador Carlos V, contra a vontade, não declarada, do monarca português, para uma viagem marítima à terra das especiarias, pelo ocidente, donde emanava a riqueza. Era também esta a direção que o Papa apontava aos espanhóis, havendo, no entanto, uma barreira atravessada no caminho: o continente recém-descoberto da América, do que se dizia, erradamente, não poder ser contornado por sul. No entanto, Fernão de Magalhães teria já a informação precisa de haver aí uma passagem. Estaria assim disposto a pôr o seu segredo e o do seu amigo Ruy Faleiro ao serviço da coroa espanhola, se lhe fosse disponibilizada uma frota.

Mas havia o medo de navegar para sul face a fábulas que surgiam, quase intransponível para o Papa de forma a arranjar homens para as primeiras expedições como quando Gil Eanes, em 1434 dobrou o pretensamente intransponível cabo. Assim, o Papa assegurou a cada participante, para as primeiras expedições, a remissão completa dos seus pecados.

E Magalhães lá vai conseguir uma frota de cinco naus, sendo que a maior é a San Antonio, sob o comando de Juan de Cartagena; a Trinidad vai ser capitaneada por Magalhães; depois, a Concepcion, comandada por Gaspar Quesada; a Victoria, capitaneada por Luis de Mendonça; a Santiago, por João Serrão.

A viagem, ao longo do seu percurso, torna-se atribulada, com tempestades e naufrágios, com problemas com alguns nativos, e a fome. Uma das embarcações volta para trás, desertando, e existe um motim no porto de S. Julião que vai dar lugar à condenação à morte horrível de dois deles e outros tantos deixados na praia deserta, incluindo um padre cúmplice, condenados ao degredo.

O grande capitão e homem sem medo, Fernando de Magalhães, após já ter cumprido a sua missão, que foi a passagem estreita a sul, já nas Filipinas, enfrenta na peleja corpo a corpo o muçulmano Lapu-Lapu, em Mactan, e morre, sendo a debandada dos poucos homens de Magalhães, que nem o seu corpo conseguem trazer, ficando sem se saber qual o destino que lhe deram.

Depois de tantas injustiças do nosso rei D. Manuel I, em dizer não a tudo que fosse pedido por Magalhães, nem sequer a sua família (mulher e dois filhos menores) que pouco tempo depois faleceram, tiveram direito a qualquer importância.

Até Vasco da Gama aconselhou D. Manuel I a assassinar Magalhães!

Valeu, para limpar o bom nome de Magalhães, face às informações erradas que transmitiram os desertores da nau San Antonio, as declarações do jovem italiano Pigafetta, escrivão de todo o tempo da expedição, sobrevivente e um dos 18 que conseguiram chegar a San Lucar de Barrameda, ele, diplomata e homem de letras que, ao serviço do embaixador do Vaticano chegou em 1518, a Valladolid, na altura a sede da corte espanhola. Depressa descobriu que em Sevilha se preparava uma expedição aos limites do mundo e consegue ser admitido como membro da tripulação.

Pois é, de cerca de 260 tripulantes e cinco navios à largada, a 20 de setembro de 1519, houve um navio e 18 sobreviventes, no seu regresso, a 6 de setembro de 1522, três anos depois.

O nome de Magalhães em ruas ou avenidas em Portugal jamais foi de grande opção. Recordo que existe, por exemplo, em Coimbra, a Avenida Fernão de Magalhães, pois foi aí que eu, pela primeira vez fui multado por estacionamento indevido, decorria o ano de 1973.

E já que a Covilhã tem a Rua Ruy Faleiro por que não dar o nome de Fernão de Magalhães a uma rua ou avenida desta Cidade, como agora fizeram, estranhamente, com o nome do líder pacifista indiano Gandhi, nas comemorações dos 150 anos do seu nascimento, quando, afinal, até comemoramos os 500 anos da 1ª Viagem de Circum-Navegação, iniciada pelo português Fernão de Magalhães, símbolo admirável do início do processo de globalização que vivemos e da força de vontade dos homens em conseguirem alcançar grandes desígnios por que anseiam?

Saudamos o lançamento do livro do Covilhanense, Dr. João Morgado, sob o título Fernão de Magalhães e A Ave-do-Paraíso”.

(In "Jornal fórum Covilhã", de 09-10-2019)

27 de setembro de 2019

ESQUECIMENTO NÃO É UMA PALAVRA BONITA

Nesta terceira publicação d’O Combatente da Estrela, do ano da graça de 2019, que corresponde ao número 116; no regresso generalizado das férias, passados os pontos nevrálgicos da greve dos motoristas de matérias perigosas, e ainda a manterem-se alguns incêndios a devastar este País, mas já com os estudantes que vão entrar pela primeira vez para as universidades a verem confirmadas  muitas das entradas a contento das suas opções, na expetativa das eleições para as legislativas já à porta; deixamos ainda memória do bom comportamento dos nossos atletas nas provas internacionais a ganharem medalhas que vão do ouro e prata ao bronze, e  também a seleção nacional de todos nós a transmitir-nos alegria e esperança no desfraldar garbosamente da bandeira nacional.
Este órgão trimestral do Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes continua a chegar às mãos de muitos leitores e é patente, também em muitos, o desejo que chegue às suas caixas de correio, tornando-se incómoda uma reclamação de não recebimento.
Continua este Núcleo com as suas atividades programadas e a Sede, mesmo neste período de veraneio, a ter visitas de associados, numa exemplaridade para outras instituições ou coletividades que se salvam geralmente com a existência do bar, para alguém poder marcar o ponto.
Os tempos já não são como os de outrora, em que o associativismo marcava uma maior presença de associados, então mercê da falta de oportunidades que hoje existem já a partir de casa, mas sente-se ainda, apesar dos meios da modernidade onde as vias tecnológicas marcam a sua incondicional diferença, que o contacto humano gera a necessidade da sobrevivência.
As memórias dos antigos combatentes continuam ainda bem vivas nas conversas e na escrita, assim como as lamentações por quem sofreu na pele e no espírito os danos resultantes duma guerra para onde muitos foram lançados sem vontade alguma da sua participação.
E é nestes Núcleos da Liga dos Combatentes que reconhecemos como a generalidade da juventude das gerações de 40 a 60 do pretérito século foram atirados para as feras.
Então vamos entrar na falta de lembrança, de memória, omissão, falha, lapso, desprezo, perda de sensibilidade, abandono, adormecimento, indiferença, olvido, ou o que queiram atribuir ao ato ou efeito de esquecer, que dá força ao título deste editorial.
Muito bem a propósito, o Presidente da Liga dos Combatentes, tenente-general Joaquim Chito Rodrigues lamentou e constatou o facto de ninguém falar sobre os problemas dos antigos combatentes na pré-campanha para as legislativas de 6 de outubro. Ele mesmo chamou à atenção para a necessidade de o Governo publicar o Estatuto dos Antigos Combatentes. Este documento chegou a ter uma versão inicial nesta legislatura, mas acabou por ser novamente adiado. E referiu: “Queremos um estatuto que dignifique o combatente e que reconheça aos antigos combatentes o direito a apoios económicos e sociais”.
O que é certo é que na recolha de opiniões junto dos combatentes foi reconhecido por todos os partidos que era necessário incluir medidas nesse estatuto. O próprio Presidente da República tem afirmado a necessidade de que o Governo publique o Estatuto dos Antigos Combatentes.
Mas também é certo e verdade que o esquecimento é uma palavra negra para os antigos combatentes, fartos de esperar.
E por que não lembrar na descolonização todos quantos foram soldados guineenses e doutras colónias, que serviram Portugal de 61 a 74, deixados para trás após o 25 de Abril, vindo a ser executados em praça pública?
Enfim, a história está feita de muitas outras terríveis estórias, mas não completa, e dos que regressaram à Metrópole de então, muitos com mazelas incuráveis, o esquecimento não é palavra vã. Ele existe e há que fazer com que seja eliminado na salvaguarda dos interesses dos Antigos Combatentes.

(In "O Combatente da Estrela" , n.º 116, de outubro de 2019)

18 de setembro de 2019

LOUCOS NA CASA COMUM


Se há alguma coisa que me leva à repugnância são as passagens da história dos escravos de todo o mundo que ainda hoje, em pleno século XXI, persiste nalgumas partes incivilizadas do planeta.

No Código Negro francês, promulgado por Luís XIV em 1685, no seu artigo 44 declarava os negros como móveis para efeitos de seguro, de tal forma que se a escrava engravidasse não era crime considerado de ofensa à pessoa, mas sim à propriedade, e os donos das escravas começavam a entrar em acordos com os imputados autores, deles recebendo uma soma que os absolvia das penas. Eram frequentes as compras de escravas grávidas por uma razão algo insólita: o adquirente comprava previsivelmente dois escravos pelo preço de um!

No século I d. C., o louco Nero (Nero Cláudio César Augusto Germânico, nascido com o nome Lúcio Domício Enobarbo), jovem imperador, teve o seu reinado associado à tirania e à extravagância. Recordado ainda por uma série de execuções sistemáticas, incluindo a da sua própria mãe, e sobretudo pela crença generalizada de que, enquanto Roma ardia, ele estaria compondo com a sua lira, além de ser um implacável perseguidor dos cristãos.

Recuando para o século II a.C., podemos, ao acaso, focarmos Delenda est Carthago (“Cartago deve ser destruída”), com Catão, o Velho, a inflamar seus compatriotas sobre a necessidade de iniciar o quanto antes a Terceira Guerra Púnica e a destruição total de Cartago. Naquela época, durante as sessões do Senado e fora delas, repetia no final aquela frase que o imortalizou para a história.

A nossa Casa Comum persiste, ainda hoje, em gravitar de muitos loucos que pretendem incutir a submissão a quem não obedecer aos seus propósitos de destruição.

Estão na vanguarda Donald Trump e Jair Bolsonaro. Este tem permitido a destruição da floresta Amazónia, a qual já arde há muitos dias. Bolsonaro bloqueou relevantes verbas para a proteção e conservação do maior pulmão do mundo. O Governo brasileiro tem atacado, sem precedentes, os povos indígenas da selva, com o fim de os destruir e lhes saquear as terras. As queimadas tiveram um acréscimo de 82% este ano! Estima-se em 20% o oxigénio que de lá vem.

Com um demente no poder do Brasil, se não meterem Bolsonaro numa camisa-de-forças, não sabemos até onde isto vai parar! Nos 130 anos de República, o Brasil já teve toda a espécie de presidentes. Mas Jair Bolsonaro está batendo todos os recordes do pior presidente de sempre. É o ódio ou desprezo por índios, gays, transexuais, feministas, crianças, professores, estudantes, cientistas, pesquisadores, artistas, jornalistas, pacifistas, imigrantes, deficientes mentais, dependentes químicos, presidiários, desaparecidos políticos, ambientalistas, veganos e pessoas oriundas do Nordeste do Brasil. Vive manifestando o seu apreço e a sua admiração por torturadores da ditadura militar, polícias corruptos que dominam e extorquem os habitantes das favelas, assassinos profissionais, fabricantes de armas, devastadores do ambiente, garimpeiros ilegais em terras indígenas.

Bolsonaro e Macron trocam insultos enquanto a Amazónia arde. Jair Bolsonaro chegou ao ponto de, no G7, ter feito comentários “desrespeitosos” sobre a idade da primeira-dama francesa, Brigitte, que é 24 anos mais velha que o marido.

Mas já antes bradava por terras de Cristóvão Colombo outro louco – Donald Trump, a brincar com a humanidade, rasgando acordos internacionais, como o acordo nuclear com a Rússia sobre a proibição de mísseis nucleares de curto e médio alcance, assinado em 1987; saída do Acordo de Paris sobre mudanças climáticas; anunciou ainda a retirada dos Estados Unidos do Tratado Internacional de Comércio de Armas com a ONU, importante acordo, assinado por 130 países em 2013.

São alguns dos loucos da Casa Comum, colocados nos pedestais por outros insensatos, talvez loucos de mudança, sem medir as consequências de um tal ato de loucura na altura das suas decisões, democráticas ou não.


(In "Notícias da Covilhã", de 19-09-2019)

11 de setembro de 2019

NÃO BELISQUEM AS FÉRIAS


Escrevo esta crónica no último dia de agosto porquanto decidi continuar “a andar por aí”, e, por isso, numa “aliança” com amigos, surgiu um prolongamento de férias.

Faço assim uma paragem na arrumação do arquivo do meu escritório, onde milhares de recortes de jornais, apontamentos, recolhas antigas de documentação, tudo acumulado ao longo de mais de quatro décadas (mas arrumadinho…) levam o destino fatal, selecionando somente algumas preciosidades. A fatalidade do deitar fora vai, entretanto, servir de pequeno contributo para o Banco Alimentar, na sua recolha de papel.

Nesta de arrumações, a casualidade trouxe-me uma notícia da Visão, de 20.01.2017, que achei interessante: “A comida picante pode ser o segredo para uma vida saudável e mais longa”. Publicada numa rede social, logo aí encontrei amigos que, tal como eu, adoram este paladar e, sem ser necessário ler os papelinhos que os muitos “astrólogos” nos vão colocando nos para-brisas dos automóveis, oferecendo os seus serviços milagrosos, ficámos na esperança de andar por aí mais uns anitos…

Se os pardais já se sentem incomodados pela dificuldade em encontrar onde debicar, pelo norte, centro e sul, os javalis devastam campos e culturas. São notícias que, de certo modo nos vão atormentando, mesmo quem viaja.

Mas o que continua a chegar todos os dias aos vários meios de comunicação social, são as crises sociais, políticas e humanas.

Não faltam os sobejados disparates dos líderes americano e brasileiro para termos, como europeus, que gramar as tolices do novo primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, com as suas mentiras até ao golpe final – aconteceu a 29 de agosto, com a anunciada suspensão do Parlamento inglês entre 10 de setembro e 14 de outubro, “nesta manifestação radical de como referendos com perguntas simples para questões complexas abrem o caminho a que líderes sem escrúpulos consigam levar a sua avante, de mentira em mentira, até à entorse democrática final”.

Efetivamente, foi no dia 23 de junho de 2016 que os eleitores do Reino Unido foram às urnas para responder à seguinte pergunta: “Deverá o Reino Unido permanecer como membro da União Europeia, ou deixar a União Europeia?”. As respostas possíveis eram “permanecer como membro da União Europeia” e “deixar a União Europeia”. Dos cerca de 46 milhões de eleitores, 72,2% foram votar; 51,9% dos votos foram na segunda opção. Desde então, a União Europeia entrou no “Brexit”.

Conforme Rui Tavares refere no “Público”, “esta johnsoniana suspensão do parlamento para forçar um ‘Brexit’ sem acordo é a mesma que fazer batota para ultrapassar a linha do golo”. É que Boris pôs a rainha a vandalizar a democracia com a decisão do primeiro-ministro britânico de suspender o Parlamento até à véspera do “Brexit” – para impedir a democracia parlamentar de funcionar. No ocaso do reinado de Isabel II é envolvida numa golpada institucional sem moral nem ética.

Isto faz-me lembrar, recuando para o ano 2008, em que no dia 19 de novembro, no tempo de el-rei D. Sócrates I de Portugal, a líder do PSD, Manuela Ferreira Leite foi longe na ironia de querer explicar por que falham os governos, dizendo que mais vale suspender por uns meses a democracia para se poder fazer todas as reformas necessárias e só depois, então, repô.la. Discursava, como convidada, na Câmara de Comércio Luso-Americana, em Lisboa.

E, com o GPS das minhas memórias, temos o que vai pelo nosso retângulo à beira-mar plantado, com as eleições a aproximarem-se a passos largos.

Do insulto “geringonça”, saído das palavras inseridas no “Público” por Vasco Pulido Valente e aproveitadas no Parlamento por Paulo Portas, paradoxalmente iria transformar-se numa palavra acarinhada pelo país. Os medos e receios não se tornaram realidade, ficando apenas para assombrar os partidos de direita. Quatro anos depois, os portugueses, e não só, fazem um balanço positivo.

E porque tenho que ainda dar umas voltas, termino com uma homenagem para o povo timorense, nas comemorações dos 20 anos do referendo que lhe proporcionou sair das garras da Indonésia e ganhar a independência do seu país.

(In "Jornal fórum Covilhã", de 11-09-2019)

30 de agosto de 2019

TEORIA DAS PROBABILIDADES


Todos já ouvimos falar nos seguros de vida, nos planos de previdência, e num mundo ligado à proteção das pessoas e bens, tendo uma seguradora adotado o bonito slogan: “Pela Proteção dos Valores da Vida”.
Muitos de nós fomos obrigados a ter de efetuar contratos de seguro de vida no âmbito dos empréstimos à habitação, e não só, pelas entidades bancárias.
E como a morte está certa mas não se sabe quanto ela acontece, digamos mais concretamente a morte natural, não falando já na motivada por acidente, assim surgiu a necessidade de salvaguardar compromissos assumidos e a proteção de pessoas dependentes, minimizando os efeitos negativos da falta das que eram a alavanca ou suporte da vida familiar ou empresarial.
E é nesta vertente de risco puro, colocando de parte a que se reporta à constituição de um   pecúlio para o futuro, que mais se faz sentir um plano de previdência deste teor.
Pois bem, sobre parte deste assunto já me referi em maio passado sob o tema “A Proteção das Pessoas e Bens é Ancestral”, salientando que a intenção de proteger as mesmas do revés das suas vidas já vem da Antiguidade, podendo-se mencionar o IV milénio a.C., na Mesopotâmia.
Não vou aqui historiar vários casos porque haveria pano para mangas, mas tão só referir que tudo indica que no ano 582 a. C. houve um caso equivalente ao estabelecimento de uma pensão vitalícia. Quem se quiser dar ao trabalho de, na Bíblia, analisar uns versículos do 2.º Livro dos Reis, poderá verificar já a preocupação existente com o futuro das pessoas desamparadas.
Para que pudesse surgir o preço de um seguro (prémio) o mais justo possível para os tempos, os atuários tiveram que se socorrer da parte científica baseada em cálculos de probabilidades que vieram surgindo, ao longo dos séculos, por eminentes matemáticos.
Em quatro extenuantes anos de pesquisas que deram lugar à obra “O Documento Antigo – Uma Outra Forma de Ver os Seguros”, podemos então verificar que o cálculo das probabilidades, depois de convertido em teoria, foi uma das mais importantes descobertas na história das matemáticas, tendo tido uma significativa influência em muitos domínios.
Iniciado em meados do século XVI, o processo que iria conduzir à teoria das probabilidades continuou a desenvolver-se até à atualidade.
Segundo Lorraine Daston, muitos matemáticos argumentam que esta teoria só atingiu o seu estatuto pleno de ramo autónomo das matemáticas em 1933. No entanto, mesmo depois daquela data, continuaram a registar-se progressos no campo da matemática das probabilidades.
Nos primeiros tempos o cálculo das probabilidades foi inspirado exclusivamente pelos jogos de azar, mas as suas aplicações foram-se multiplicando, salientando-se a sua decisiva influência na modernização do seguro a partir do início do século XVIII.
Muitas foram as definições de probabilidades ao longo dos tempos, à medida que os conceitos e as técnicas foram evoluindo.
Seria interessante explanar aqui os vários cérebros que contribuíram em grande escala para a ciência das matemáticas mas tal é impossível. Assim, apenas alguns deles:
Pierre Léon Boutroux adotou a seguinte definição para a expressão matemática da probabilidade: “entende-se por probabilidade de um acontecimento a relação entre o número de casos favoráveis e o número total de casos possíveis”.
Pierre-Simon Laplace em 1812, à luz dos conhecimentos da altura referiu que “em experiências aleatórias com um espaço de resultados finito, de uma dada dimensão, em que todos os acontecimentos elementares são igualmente prováveis e incompatíveis e, se alguns desses acontecimentos são favoráveis à ocorrência de um determinado acontecimento, então a probabilidade de realização desse acontecimento é dada pelo quociente entre o número de casos favoráveis à ocorrência do acontecimento e o número de casos possíveis dessa experiência aleatória”.
Siméon-Denis Poisson surge com a definição: “a probabilidade de um acontecimento é a razão que temos de acreditar que ele terá lugar, ou que teve lugar”.
De facto, as probabilidades, que até cerca de 1750 foram inspiradas apenas pelos jogos de azar, acabaram depois por ter muitas aplicações, uma das quais, bastante relevante, foi a do seu emprego aos casos de justiça.
Lorraine Daston considera que “enquanto a probabilidade dos testemunhos teve claros antecedentes nos critérios judiciais aplicados nos tribunais, a probabilidade dos julgamentos foi uma aplicação sem precedentes na jurisprudência”.
Voltaire (pseudónimo de François-Marie Arouet), num ensaio sobre as probabilidades em caso de justiça, publicado em 1772, afirmou: “quase toda a vida humana gira sobre probabilidades”.
No que toca aos Gregos, apesar da enorme importância que tiveram na aritmética, Tales (624 – 546), Pitágoras (582 – 587), Aristóteles (364 – 322) e Arquimedes (287 – 212), a sua contribuição no domínio da análise combinatória passou bastante despercebida.
Foi sobretudo através dos Romanos que se deu conta da contribuição grega.
Pode considerar-se que as três datas que mais marcaram o processo de criação da teoria das probabilidades foram 1654, 1657 e 1713, respeitando as duas primeiras à criação dos fundamentos daquela teoria, por Pascal, Fermat e Huygens, enquanto a terceira assinala a formalização da própria teoria, com a publicação da obra de J. Bernoulli.
E vou terminar com a enumeração de alguns dos cientistas que deram lugar a esta teoria das probabilidades: Pierre de Montmort, Nicolaus (I) Bernoulli, Abraham de Moivre, Edmond Halley (com a sua Tábua de Halley, divulgada em 1693, considerada a origem da ciência atuarial).
Boas Férias!


(In "O Olhanense", de 01-09-2019)

14 de agosto de 2019

NÓS E OS INGLESES


Neste período da silly season, com o verão convidativo para um descanso, uma oportunidade de partilhar com amigos ou familiares momentos de distração, traz-nos também, por vezes, falta de alguma inspiração.
As televisões secam-nos com repetições de notícias de incêndios, aqueles casos de violência doméstica, e outros fastidiosos acontecimentos.
Os jornais são uma fonte abundante de informação. Os bons jornais, onde radicam homens da sapiência, deleitam-nos com a sua opinião emanada da história real dos acontecimentos, mas também como pensadores. Quando assim acontece, é um fascínio.
E é ainda nos regionais onde vamos encontrar a particularidade do meio que a todos envolve, na proximidade de se poder fazer sentir o bem ou mal-estar das nossas vidas.
Já a notícia sensacionalista é verberada num ou outro jornal, que acaba por ser sobejamente conhecido, ainda que muitas vezes a própria novidade só se tenha dela conhecimento por via desse órgão; no entanto surge carregada de nuvens de negativismo.
Desde imemoriais tempos tivemos ligação com os ingleses, nos bons e maus momentos. São conhecidas as expressões: “Pontualidade britânica” , “Sair à inglesa” (que, deste costume inglês, daria mais tarde lugar à expressão “Sair à francesa”), ou “Para inglês ver” …
O caso do “Brexit”, com o desentendimento entre a União Europeia e Theresa May, e agora o novo líder britânico, Boris Johnson, ocupam grande espaço nos telejornais e nas páginas dos diários.
Os ventos sopram forte por este planeta fora, e nós, europeus, vemo-nos também numa miragem de outros ventos agitados, como este.
Em 23 de julho, a comunicação social noticiava que Portugal e o Reino Unido celebraram três acordos para a ciência, na data da comemoração dos 650 anos da aliança luso-britânica.
Durante esta aliança com mais de seis séculos, Portugal e Inglaterra estiveram lado a lado nos bons momentos, mas também em situações antagónicas.
Recordemos uma pequena viagem pelo passado das relações luso-britânicas, já que “nenhum país estrangeiro não lusófono teve tanta relevância para a História de Portugal como o Reino Unido e os seus antecessores Grã-Bretanha e Inglaterra – três maneiras de designar, na parte que nos respeita, a mesma realidade”.
Em 1147, guerreiros ingleses a caminho da Palestina, na II Cruzada, ajudaram D. Afonso Henriques a conquistar Lisboa aos mouros. Em 1189, cruzados ingleses também ajudaram D. Sancho I a conquistar Silves aos mouros. Em 1308, Eduardo VII, da Inglaterra, celebra com Portugal um novo tratado de comércio, que reitera e reforça o de 1294.
Em 1372, o rei D. Fernando de Portugal e representantes de Henrique III, de Inglaterra assinam em Tagilde, perto de Guimarães, um tratado de aliança entre os dois países, “para sempre, por mar e por terra, contra D. Henrique, que ora se chama rei de Castela, e contra D. Pedro, rei de Aragão”. Este tratado continua hoje em vigor e é o mais antigo do mundo.
Em 1383, D. João I faz acionar a aliança inglesa e pede auxílio militar contra Castela a Ricardo II, o qual acedeu e recrutou os arqueiros para esse efeito. Estes participaram em Portugal na Batalha de Aljubarrota, ao lado das forças de D. João I e do condestável D. Nuno Álvares Pereira, contra os invasores castelhanos, os seus aliados franceses, e a maior parte da nobreza portuguesa, esta liderada por Juan I de Castela.
Em 1386, o Tratado de Windsor firma, em termos de “amizade perpétua”, a aliança anglo-portuguesa. Em 1387, D. João I de Portugal casa-se com Filipa de Lencastre (Philippa of Lancaster), que será a mãe da “Ínclita Geração”. Em 1429, a Inglaterra pede frequentemente auxílio a Portugal e nobres portugueses combatem a seu lado.
Em 1580, Filipe II de Espanha torna-se também rei de Portugal e o nosso país passa a ser visto como inimigo pelos ingleses, em guerra com a Espanha.
Em 1806, o imperador francês Napoleão Bonaparte decreta o Bloqueio Continental, que proíbe os outros países de manterem relações comerciais com o Reino Unido. Portugal fica “entalado” entre o poderio francês e a ligação à Grã-Bretanha. Em 1808, o general Arthur Wellesley desembarca em Portugal com tropas britânicas e, organizando um exército anglo-luso, inicia a guerra vitoriosa contra os franceses.
Também o futebol entraria em Portugal por influência inglesa. Em 1875, Henry Hilton, que estuda em Londres mas passa as férias na quinta dos pais, na Madeira, leva uma bola para a ilha e introduz o futebol em território português.
Em 1890, o Reino Unido envia a Portugal um ultimato obrigando o velho aliado a deixar de reivindicar a posse dos territórios africanos entre Angola e Moçambique, representado no “Mapa Cor-de-Rosa”. A enorme reação popular antibritânica em Portugal é uma das causas da implantação da República. Em 1898, aproveitando a crise financeira em que Portugal está mergulhado, o Reino Unido e a Alemanha assinam a convenção de Londres, que propõe a partilha das colónias portuguesas de África. No entanto, no ano seguinte, o rei português D. Carlos consegue induzir o governo britânico a assinar um acordo que ratifica o tratado de 1661, garantindo a integridade dos domínios coloniais.
Muito haveria a dizer sobre as relações ancestrais entre ingleses e portugueses, mas o espaço não o permite, no entanto, a amizade entre os dois povos foi muito maior, e em 1957 a rainha Isabel II efetuou a sua primeira visita a Portugal. Fiquemos por aqui.

(In "Jornal fórum Covilhã", de 14-08-2019)

17 de julho de 2019

MEMÓRIAS DA SERRA DA ESTRELA DE TODOS OS TEMPOS


Da Covilhã medieval, fabricante de burel, à Covilhã de hoje, produtora dos mais finos tecidos de lã, há uma obra admirável, cimentada por sucessivas gerações de gente laboriosa e empreendedora. Pensamos que em Portugal não há outra indústria que possa competir em antiguidade como a de lanifícios. O visitante, na sua deslocação à Serra da Estrela, tem como porta principal a Covilhã, onde pode apreciar a cozinha regional e deliciar-se com a sua paisagem, através dos vários miradouros.
O escritor Ferreira de Castro contribuiu com a sua obra – “A Lã e a Neve” –, para a história da indústria têxtil, pelos relatos e descrições da laboração nas fábricas da Covilhã. Ele observou o caráter dissemelhante da sociedade urbana e da sociedade rural, no que diz respeito à introdução das inovações, as quais chegaram primeiro à cidade do que à vila ou aldeia.
Gilberto Freire, no seu livro “Aventura e Rotina”, refere que atravessando a Serra da Estrela se lembra, guloso como era, que “é daqui o leite de que se faz o queijo chamado da Serra. Que na Serra da Estrela há séculos que o homem cria ovelhas dentro da mesma doce rotina. Não só ovelhas como as menos poéticas, mas igualmente úteis e boas cabras que também dão leite”.
Já o “Notícias da Covilhã” (NC) de 24-10-1980, sobre o queijo da serra em que o caráter artesanal do seu fabrico é garantia da sua boa (e tradicional) qualidade, referia a terminar o texto: “Rendemos homenagem aos pastores e às pastoras que na Serra suportam o frio, o vento e a neve, para que nas casas aquecidas da Beira, do País e até do estrangeiro, seja saboreado o queijo”.
Podíamos ainda falar do Pastor da Serra, na opinião de L. de Mendonça e Costa (1849-1922), no seu Manual do Viajante em Portugal: “O pastor da Estrela, tipo ético admirável de resistência física, é, porventura, o direto representante dos antigos lusitanos. Isolado de todo o convívio humano, tem por únicos companheiros o cão e o gado, para os meses de estio, pelas cristas das montanhas, ou no fundo dos vales”.
Mas já José Domingos, da Lusa, no NC de 11-09-1987, referindo-se então ao Parque Nacional da Serra da Estrela, que ainda é o maior, dizia: “Montanhas graníticas, vales cortados por glaciares, castelos, história e o homem constituem o Parque Natural da Serra da Estrela, o maior existente em Portugal. Cerca de 98 mil hectares de área dispersa pelos concelhos da Guarda, Manteigas, Seia, Gouveia, Celorico da Beira, Covilhã e Oliveira do Hospital constituem este parque natural. As montanhas variam aqui entre os 650 e os 2000 metros de altitude, num sucedâneo de vales e covões, cortados por cursos de água que formam o maior centro hidrológico do País. Porém, são o Mondego, Zêzere e Alva que mais condicionam a vida das gentes serranas, sendo os principais rios que descem as montanhas, cuja constituição varia entre o granito e o xisto.”
Muitas memórias serranas podiam, e deviam ser referidas, mas o espaço é curto. Deliciem-se, por exemplo, com a descrição da Serra da Estrela, por Ferreira de Castro, no seu livro “A Lã e a Neve”: “Belo monstro de xisto e de granito, com terra a encher-lhe os ocos do esqueleto, ondula sempre: contorce-se aqui, alteia-se acolá, abaixa-se mais adiante, para se altear de novo, num bote de serpente que quisesse morder o Sol”.
Mas também na descrição dos relatórios da “Expedição Científica à Serra da Estrela”, pela Sociedade de Geografia de Lisboa, realizada em agosto de 1881: “Se de dia e a distância ninguém observa os Cântaros pela primeira vez sem sentir vertigens e o coração comprimido, imagine-se o que nós sentiríamos às 10 da noite ao vermo-nos presos no cume do Cântaro Gordo, rochedo de 413 metros de altura sobre a ribeira da Candeeira, eriçado de fragões escuros, no meio de profundos covões formado por outros fraguedos e despenhadeiros igualmente sinistros e medonhos. Aqui, onde a natureza é horrivelmente majestosa e grande, ninguém deixará de se sentir infinitamente pequeno.”
A Serra da Estrela sempre foi um lugar de encanto e deslumbramento, que o digam, por exemplo os visitantes que participaram no III Congresso Nacional de Bombeiros (onde também estiveram franceses), realizado na Covilhã nos dias 21 a 25 de julho de 1932, com o presidente da direção dos BVC, José de Carvalho Nunes Tavares, Comandante Jerónimo Monteiro Ranito; o  Presidente da Comissão Administrativa da  Câmara Municipal, Dr. Francisco Xavier de Almeida Garrett, e  o Presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, Tenente França Borges.
Por último, apreciem no horizonte, a junção dos Cântaros Gordo, Magro e Raso, numa visão bonita duma panorâmica de perceção visual, mais parecendo uma gigante mulher deitada.

(In "Notícias da Covilhã", de 18-07-2019)

10 de julho de 2019

TEMPO DAS FESTAS, DOS EXAMES E DOS INCÊNDIOS


Ora bem, com muito gosto cá estamos a partilhar com os estimados associados e os leitores em geral mais um número d’ “O Combatente da Estrela”, no início do verão, época do ano mais agradável para a generalidade das gentes deste recanto mais ocidental da Europa, e não só.
Desde o último número até agora, esta instituição em movimento continuou a desenvolver várias atividades entretanto programadas, destacando-se o Dia do Combatente na Covilhã, em 9 de abril; as comemorações do 93.º Aniversário do Núcleo, em 19 de maio; e a 13ª. Peregrinação do Núcleo a Fátima, no dia 16 de junho.
Para muitos de nós tem-nos sido reservado aquele espaço de tempo em que é necessário, no exercício de “motoristas” dos nossos netos, irmos buscá-los à porta das escolas, quer sejam do ensino básico, do preparatório ou do secundário; e, depois, para as atividades extras: basquetebol, natação, música, ginástica, futebol, línguas estrangeiras com incidência no inglês, e por aí fora.
Quem é que haveria de dizer que do nosso tempo escolar, em que nada disto era possível, na similaridade com a idade dos nossos netos, a futurologia se encarregaria das fontes da modernidade, duma expansão galopante do desenvolvimento a nível mundial?!
Junho é o mês das festas populares, e os estudantes têm de saber adaptar-se ao tempo das mesmas com a coordenação do seu tempo de estudo na preparação para os exames que se aproximam.
Começou, logo no dia 1 de junho, com o Dia Mundial da Criança, para no dia 10 de junho se celebrar o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Chegaria, entretanto, o primeiro dos santos populares, Dia de Santo António a 13 de junho (para mim uma data mítica culturalmente, como sempre venho assinalando), com um interregno para o Dia do Corpo de Deus, assinalado no dia 20 e, em 21 de junho, a entrada do verão. O São João a 24 de junho e por último o São Pedro a 29 de junho.
Mas, atenção, os cotas também têm o seu dia, e eis que a 26 de julho é o Dia Mundial dos Avós.
Depois do frenesim para alguns dos muitos jovens e também dos menos jovens estudantes, passada a época dos exames, vem o descanso merecido de agosto, com alguns dias tórridos contrabalançando com outros em que, segundo o ditado, em “agosto dá o frio pelo rosto”.
Pois é, só que de permeio nestes meses mais quentes surgem as habituais e lamentáveis calamidades dos incêndios florestais que dizimam uma das principais riquezas nacionais e, incrivelmente, até vidas humanas têm sido ceifadas e a sofreram o terror desta grande desgraça.
No dia em que escrevo este texto, o País, através da Comunicação Social, recorda os dois anos em que ocorreu o grande Incêndio florestal de Pedrógão Grande, em 17 de junho de 2017, que causou 64 mortos e cerca de 200 desalojados.
Não ficaria por aqui, e em 15 de outubro daquele mesmo ano foram registados, num só dia, 523 incêndios, que causaram 50 mortos e cerca de 70 feridos. Este foi considerado o pior dia de incêndios de sempre em Portugal. Os piores foram registados na região Centro e Norte, nomeadamente Viseu (distrito mais fustigado) e Coimbra, chegando a entrar dentro de diversas cidades, vilas e aldeias, acabando por destruir dezenas de casas e indústrias.
Já no ano 2018 há a registar, entre outros, um grande incêndio na Serra de Monchique, no dia 3 de agosto, que durou até ao dia 17, consumindo mais uns bons milhares de hectares de floresta, quando no ano anterior se haviam consumido nas chamas, só até outubro, mais de 440 mil hectares de floresta e povoamentos.
Esperemos que este ano a situação seja menos preocupante para o País, que é o mesmo que dizer para todos nós, e para os Bombeiros portugueses.
A este propósito, a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários da Covilhã, vai comemorar no dia 23 de junho o seu 144º. Aniversário da sua fundação, associação gloriosa para a qual tive a honra de escrever a sua história em livro, já lá vai uma década e meia. Como o tempo passa…
João de Jesus Nunes
jjnunes6200@gmail.com

(In "O Combatente da Estrela", n.º 115, Julho 2019)

O ZÉ POVINHO


Segundo Saramago, “o grande problema do nosso sistema democrático é que permite fazer coisas nada democráticas democraticamente”, e assim também a desmesurada benevolência, a desregulação, o facilitismo e a confiança exacerbada, levam muitas vezes às situações de constante indignação na imprensa e redes sociais, e a vozearia nos canais televisivos, e não só, com o tema, num ano de todos os perigos, como tem vindo a acontecer, no caminho da corrupção. Procura-se depois o enferrujamento de provas, para que no desiderato daquilo que terá sido considerado mais fácil, não se venha levantar o véu da oxidação e levar à indesejada luz da verdade.
Todos os partidos se envolvem nesta maldita teia, onde muitos dos seus apaniguados caem na tentação de também provar a maçã de Eva. E, em vez de tentar repudiar os seus “traidores” procuram antes encapotar o descaminho em que se envolveram, nalgumas desculpabilizações saloias, algumas mesmo hilariantes.
Perdendo-se já o rescaldo das últimas eleições europeias, não deixa, no entanto, de, perante os números da abstenção, ver que a sua grande dimensão esmaga qualquer resultado, por mais vitórias ou derrotas que sejam anunciadas.
Nunca tivemos um período tão longo de paz na Europa. Talvez por isso a displicência, o deixa andar, o que se lixem as eleições porque são todos iguais, levam a este pensamento de mandar às malvas qualquer ato eleitoral.
A corrupção crónica continua a arrastar-se pelos meios bancários e autárquicos e apesar de inúmeros exemplos, ela grassa em todos os cantos e recantos deste Portugal desencantado. Esta epidemia parece estender-se por toda a parte, enquanto nos vamos questionando, tristemente, sob o tema que foi o 10 de junho – os desígnios da Nação.
Mereciam ser recordados os programas de humor na RTP, da autoria de César de Oliveira e de Melo Pereira,  com os falecidos protagonistas Camilo de Oliveira e Ivone Silva – “Sabadabadu” – onde, entre os sketches mais conhecidos, ficou a canção “Ai Agostinho, Ai Agostinha”, interpretando os papeis de embriagados, cantando uma cantiga com uma letra atenta à situação do país de então, corriam os anos de 1981 e 1982.
Mas se recuarmos para 1975, também poderíamos recordar “Nicolau no País das Maravilhas”, no célebre programa de humor que deu a conhecer o Sr. Feliz (Nicolau Breyner) e o Sr. Contente (Herman José), em que Nicolau dá a conhecer um outro artista em início de carreira, Herman José, passando os dois a formar a célebre dupla, “Sr. Feliz e Sr. Contente”, onde, nesta rábula, a dupla encantava o público com o seu “diga à gente, diga à gente, como vai este país…”
É indubitável que as pessoas sentem que a independência da Justiça face ao poder executivo deve ser aumentada e não diminuída. Que um Ministério Público constrangido politicamente tem efeitos desastrosos, e é inaceitável tal conduta. É óbvio que todos reconhecem o desprestígio atual da classe política portuguesa. E, neste contexto, os grandes problemas que se levantam no combate à corrupção. Assim, há que haver a máxima atenção por todos os partidos no sentido de não consentirem a aprovação de leis que venham desvirtuar o sentido da democracia.
Recentemente fomos confrontados pela comunicação social com a notícia de que o Grupo de Estados contra a Corrupção (Greco), criado em 1999 pelo Conselho da Europa para acompanhar o cumprimento dos padrões anticorrupção estabelecidos por este organismo está desiludido com Portugal. Segundo o Relatório de Conformidade, conforme informação no Público de 28 de junho, agora tornado público, mas, no entanto, aprovado em dezembro de 2017, Portugal, das 15 recomendações que lhe tinham sido feitas com a necessidade de reforçar a sua capacidade de prevenção e de combate à corrupção, desta vez, com respeito, especificamente, aos nossos deputados, juízes e procuradores, só deu cabal cumprimento a uma delas. Estes peritos estiveram no nosso país em meados de 2015, contactaram com numerosas pessoas e instituições e formularam recomendações que Portugal ignorou.
Segundo o Greco, o nosso país preocupa-se pouco com a prevenção da corrupção, com os conflitos de interesses e com a capacidade de decisões. E os resultados estão, há muito, à vista de todos. No entanto, no dia seguinte, o Greco veio a reconhecer algum esforço anticorrupção e melhorou a nota de Portugal, informando: “O Greco conclui, por conseguinte, que o atual nível muito baixo de cumprimento das recomendações continua a ser ‘globalmente insatisfatório’”.
Por isso mesmo, Joana Marques Vidal destacou na comunicação social, recentemente, “redes de corrupção e compadrio, nas áreas da contratação pública” que se disseminam entre vários organismos de ministérios e autarquias.
E, no meio desta amálgama de situações graves, quem paga as favas é o Zé Povinho, que, muitas vezes já se marimba para tudo o que lhe querem enfiar, através do seu manguito – Toma!... E, vai desta, “albarde-se o burro à vontade do dono!”. “Escola não a tens, porque te podia fazer mal o puxar muito pela cabeça nos estudos, e lá diz o ditado que ‘antes burro vivo’, como tu estás, ‘do que doutor morto’, como tão frequentemente se tem visto”.
E o nosso Zé Povinho continua, numa de desabafo: “Para continuares a gozar o sumo bem da liberdade que te outorgamos, tu não tens que ter senão o pequeno incómodo de pagar tudo o que isto custa, e de dar vivas do estilo, sempre que a ocasião se ofereça, ao príncipe, à real família e às instituições que vigem à sua custa”. (1)
“Finalmente, sempre que precisares do que quer que seja, trata de o ganhar, porque ninguém já te dá nada. Adeus, Zezinho! Vai-te com Nossa Senhora!”.
E com o Zé Povinho terminamos esta crónica, porque ele é imortal. Ora submisso, com uma canga às costas feito burro de carga e vexado pelos poderosos, ora irreverente, fazendo o “manguito” a quem o queira enganar, tornando-se o ícone mais representativo do português. O símbolo de um povo triste e subserviente que a espaços – mas só a espaços – é capaz de um gesto de revolta. É o retrato concreto da nação que somos, entalada entre a admiração basbaque e a indignação passiva, entre temíveis passados e futuros desesperados.
Que o Governo esteja atento ao que Rafael Bordalo Pinheiro criou na figura do Zé Povinho, há mais de um século, e que continua atual, para que ele mesmo, e/ou os futuros não vejam cada vez mais o seu “manguito”.

João de Jesus Nunes
jjnunes6200@gmail.com

(1(1)      In “Álbum das Glórias”, de Rafael Bordalo Pinheiro.


(In "Jornal fórum Covilhã", de 10-07-2019)

19 de junho de 2019

A AMIZADE É UMA FESTA E EXPANDE-SE

Muitos encontros de amigos. Alguns, efémeros, outros eternizados. A idade, na caminhada das nossas vidas, não vai de parar, não se eclipsa, vai acrescentando tempo ao tempo.  Tantos a querer subir o Evereste, outros a preferirem as reminiscências extraídas do baú das suas memórias, dum tempo que o vento levou. Muitas memórias ficam. Por vezes quando menos se espera, surge alguém com o papel amarelecido das décadas das suas vidas. Daqui para a frente talvez se comece a pensar mais nos lustros que ainda possam restar. É giro! As horas prolongam-se. Perdemos a conta ao tempo.
O dia de Santo António é mítico. Com o Pedro Batista preparávamos o nosso habitual evento, que foi novamente sublinhado, com o título dado há década e meia – A Amizade é uma Festa – resultante do Homem de grande visão, lá para as bandas de Lisboa, em pleno espaço dum hotel repleto de ansiosos por conhecer os destinos das suas vidas profissionais, já que “santos da porta não fazem milagres”. Parte do grupo, os “apóstolos” escolhidos, memorizaram com o seu “pastor”, numa esplêndida quinta do Tortosendo, acontecimentos da vida que a todos uniu. Falou-se do passado, mas também dos dias de hoje e das perspetivas do amanhã.
As estórias da história do então livro publicado foi tema que não se deixou por mãos alheias, documento importante a correr todo o País. E, de facto, o postal das memórias, lá singularizava “Da CONFIANÇA à PROMESSA, para a CONCRETIZAÇÃO, dirigida ao ÊXITO”, com as datas e fotos assinaladas dos locais e intervenientes, terminando “E porque a Amizade é uma Festa!”
Inevitável é a despedida com uma esperança de que para o ano continua, se Deus quiser.
Conforme o título dado ao texto, a amizade expande-se. Falei no Pedro Batista, antigo Colega da atividade que abracei durante quatro décadas. Tomávamos um cafezinho numa esplanada do sul da Cidade. À mesma mesa estava outro amigo, Sérgio Gaspar Saraiva, companheiro da escrita neste periódico. Era o dia 11 de junho do ano da graça em curso. Esperávamos o seu primo, Arnaldo Saraiva, natural de Casegas, professor universitário, investigador científico e literário, ensaísta, cronista e poeta, doutorado pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Também leitor de Língua e Literatura Portuguesa e Brasileira na Universidade da Califórnia e professor convidado da Universidade de Paris (Sorbonne Nouvelle), tendo feito estudos superiores no Rio de Janeiro. Também colaborador da RTP e da Antena 1 e de várias publicações portuguesas e estrangeiras. Foi ainda distinguido com o Prémio Seiva (2017) na área das Letras.
A sua chegada para se sentar à nossa mesa tinha um fim em vista, singelo, carinhoso, afável, aproveitando uma breve pausa da sua viagem do Porto com destino ao Fundão onde tinha uma sua intervenção cultural. Daí que, depois, se vieram juntar ao grupo outros dois amigos: Fernando Paulouro Neves e Jorge Torrão. É que, a propósito dum texto publicado no Jornal do Fundão, sobre Casegas, onde eu vivi os primeiros anos de vida enquanto meu Pai ali exerceu a atividade de professor primário, nos distantes anos de 1945 a 1948, e vindo a saber que também fora professor do antigo Diretor do Notícias da Covilhã, Dr. José de Almeida Geraldes, quis memorizar algumas facetas daquela vivência entre professor e alunos. Assim, reconheceu perfeitamente, por uma foto daquele tempo, a figura do também seu antigo professor, José Martins Nunes.
E, se neste tempo ideal, o ditado mais se apropria ao de que “as palavras são como as cerejas”, só o compromisso que tinha já reduzido ao tempo que lhe restava para almoçar, o Professor Doutor Arnaldo Saraiva não ficou mais tempo, e, assim, de facto, a amizade é uma festa. Acabou por conhecer o filho do seu primeiro professor, e deu um abraço a um antigo colega do Seminário, assim como a outro seu conterrâneo, e outros mais que se juntavam, incluindo um grupo de antigas professoras que, do outro lado o avistando, algumas, suas antigas colegas da Universidade, o vieram cumprimentar. Uma delas, Maria do Céu Brás, antiga professora, sua conterrânea, portanto, caseguense, foi uma delas.

(In "Notícias da Covilhã", de  20-06-2019)

14 de junho de 2019

FOLHEANDO O NOTÍCIAS DA COVILHÃ


Estive lá no dia 24 de maio, na reinauguração das instalações na Rua Jornal Notícias da Covilhã, 65, donde o NC nunca deveria ter saído.
Efetivamente, não podia deixar de aceitar honroso convite do semanário onde, ao longo dos tempos, nele fui deixando algumas linhas escritas. E também a bondade dos seus Colaboradores em darem a conhecer algumas das minhas publicações e iniciativas.
Já lia o Notícias da Covilhã desde muito jovem, na então Biblioteca Municipal, ao Jardim Público, em cujo cabeçalho surgia como diretor o Padre José de Andrade, então também pároco de Nossa Senhora da Conceição (São Francisco) e a grande alma para a construção do Centro Cultural e Social da Covilhã.
Mas é em 29 de dezembro de 1963, que o meu saudoso amigo Cónego Dr. António Mendes Fernandes, passa a assumir a direção deste Semanário.
A caminho do final do ano 1964, trabalhando eu ali perto, como administrativo na Câmara Municipal, me desloquei à Rua de Santa Maria, 65 (nome com que então era designada esta rua) para entregar um meu primeiro artigo para publicação, se assim entendessem. E o mesmo foi acolhido, com a simpatia do Sr. Alfredo Nunes Pereira, da redação do Jornal.
Sob o título “A Covilhã precisa dum Museu”, pois não havia qualquer museu na cidade digno desse nome, viria a ser publicado em 14 de novembro desse ano, com uma nota final: “N.R.: Consoante pode ler na entrevista concedida a este jornal pelo Senhor Presidente da Câmara, logo que o novo Liceu esteja construído, ficará livre o prédio onde atualmente funciona na Rua Combatentes da Grande Guerra. Para aí passarão a Secção de Finanças e no prédio onde atualmente está instalada será o futuro Museu”.
Mas não seria assim tão depressa e, dentre outros registos sobre a cidade, que ia enviando, e seriam publicados, escolho a gazetilha ao “Soldado Desconhecido”, fruto de vandalismo que ao longo dos tempos foi tendo (“O Soldado Desconhecido”: ‘(…) partiram o cano à espingarda…’- 1965; “Espada, precisa-se” – 1991; ou “A réplica da espada de Nuno Álvares” – 2008).
Mas aos nossos 18 anos, também a então minha namorada, Maria Odete, seria objeto das páginas deste Semanário, pela sua ação no movimento operário católico. Em 15-01-1965: “Assembleia das Organizações Operárias (da Ação Católica, (…) Maria Odete, como jocista, usando da palavra, focando as lições da Quadra do Natal para a vida dos trabalhadores (…)”.
No mesmo ano, março de 1965, registava como preocupação “Para quando a conclusão da Avenida Salazar?...”; voltava à carga em 1983, com “Melhoramentos na Av. 25 de Abril”; e, em 1997, “o Elevador no Ramal de S. João de Malta”, qual mote para a construção do funicular?
Se em 1970 era noticiado o meu casamento com a Maria Odete, neste Semanário; já em 1972, com “Uma sóbria profissão: o Funcionalismo Público”, em tempos de ditadura, deixou pelos corredores da Câmara Municipal e da Repartição de Finanças, algum sussurro malicioso de quem queria ver a continuidade da conversa, à responsabilidade de quem se meteu na “embrulhada”, entre medos da censura.
1990 era o tempo de começar a falar dos Leões da Serra: “Sporting da Covilhã em naufrágio: Cidade exige um clube da I Divisão”, tema que se iria desenvolver por vários anos, não só com a publicação das quatro obras sobre esta coletividade serrana, como também no encalce de tudo o que favorecesse o clube de todos os covilhanenses e beirões, como “Memórias de um Clube e de uma Cidade” – 1998, data em que é comunicado pelo Notícias da Covilhã (NC) – 25-12-1998: “’Notícias da Covilhã’, passa a ser nome de rua. A partir de janeiro de 1999, data em que o NC completa 87 anos, a rua onde está instalado passa a chamar-se ‘Rua Jornal Notícias da Covilhã’”. Ainda sobre o Sporting Clube da Covilhã (SCC): “Sporting Clube da Covilhã – Terceira Divisão nunca mais!” – 1994; “Os Timoneiros do SCC na Primeira Divisão” – 1997”; “Memórias Esquecidas” – 2001; “Os 82 anos dos Leões da Serra” – 2005, entre muitos outros, salientando alguns dos que passaram para além do mundo dos vivos.
À Biblioteca Municipal foram dedicados vários textos: “Biblioteca Municipal: 82 Anos de História” – 1999; e, mais recentemente, sobre o seu Centenário.
Agradeço terem-me concedido o espaço de uma página inteira, entre outros: “A Escola Industrial mais antiga do País completou 110 anos da sua fundação” – 1994; “ Os 830 Anos do 1.º Foral da Covilhã” – 2016; “A Expedição Científica à Serra da Estrela foi há 135 anos” – 2016; “Padroeira da Covilhã” – 2016; “As Conferências de São Vicente de Paulo na Diocese da Guarda” – 2017.
Tive o prazer de, neste Semanário, evocar figuras covilhanenses ou que à Covilhã se dedicaram de corpo e alma: Padre José Domingues Carreto, António Santos Taborda, Maria Ivone Manteigueiro Vairinho, Cónego José Geraldes, Ernesto Cruz, Dr. José Ranito Baltazar, Dr. Manuel de Castro Martins, Alexandre Aibéo, entre muitos outros.
Também várias coletividades tiveram o espaço das minhas memórias no NC. Outros assuntos mais candentes na sua oportunidade tiveram leitores atentos: “Responsáveis pela Irresponsabilidade” – 1998; “Quando o peão ‘atropela’ o veículo” – 1999; “Uma nódoa no fato de gala” – 1998; “A Quinta das Celebridades” – 2004; “O Polvo” – 2005; “Assembleia de ratos” – 2005; “Da promiscuidade à corrupção” – 2006; “Fugitivos” – 2008, e muitos outros até aos dias de hoje.
Se tive o prazer de escrever sobre as gentes covilhanenses ou à mesma radicadas (“Os Grandes Covilhanenses” – 2007; “O Repolho” – 2007; “A Mulher na Sociedade Covilhanense” – 2008; “O Homem que nasceu para as flores” – 2009; “A Vocação e a Causa – 50 anos (Padre Fernando Brito) – 2009); também outros temas me traziam alegria quando alguém se aproximava de mim, me telefonava ou enviava mensagens,  fazendo referência às crónicas publicadas com interesse nas mesmas. E outros, que há muito não nos víamos, aquando dum encontro, referiam-me: “Bom, eu não o vejo pessoalmente mas vejo-o com regularidade no Notícias da Covilhã…”. E isto a partir das então “Crónicas da Rua Direita”, iniciadas em abril de 2003.
Teria muito ainda para contar, mas vou só dar registo das referências às efemérides do NC: “Nove décadas de ‘braço dado’ com os interesses da cidade” – 2003; “Mais perto do centenário” – 2006; “A caminho do centenário” – 2009; “NC em frente” – 2010; “Quase nos 100 anos” – 2011; “O Jornal e o direito de opinar” – 2013; “Diretores de um jornal” – 2014.
Os meus sentimentos de gratidão e alegria pelo Notícias da Covilhã, excedem-se no atrevimento de ocupar este precioso espaço, na menção de alguns títulos escritos neste Semanário, gotejo de muitos mais, que de outros periódicos, com textos diferentes, aqui não têm cabimento.
Parabéns, mais uma vez, ao NC e um fraternal abraço aos estimados obreiros do mesmo.

João de Jesus Nunes                                                                                           jjnunes6200@gmail.com