20 de setembro de 2022

A RAINHA E O NOVO REI



 

Recordo-me da vinda da Rainha Isabel II a Portugal, naquele dia 18 de fevereiro de 1957, recebida com grande pompa pelo então Presidente da República, General Francisco Craveiro Lopes, que mais tarde seria marechal.

Tinha ela 31 anos e havia sido coroada há cinco. Viera acompanhada pelo marido, Filipe, Duque de Edimburgo, e a embarcação que os transportava atracou no Terreiro do Paço, repleto de população em festa.

Com ela também vinham os seus filhos, os príncipes Carlos (hoje o novo rei), então com 8 anos, e a princesa Ana, com seis.

Tinha eu, nessa altura, quase onze anos e frequentava a Biblioteca Municipal, onde meu Pai trabalhava, sediada ao Jardim. Deliciava-me então a ver as fotos dos jornais com aquela linda família, assim como as notícias que enchiam as suas páginas. Mas a única revista que ia para aquela Biblioteca Municipal era a famosa extinta Flama, que desfolhava com todo o prazer, a contemplar a reportagem ali inserida deste enorme evento para a época.

A televisão preparava-se então para começar em Portugal, naquele mesmo ano, e o único canal, a preto e branco – RTP – apanha este evento sem material nem quase logística, pois ainda não tinha emissões regulares quando organizou uma grande operação televisiva para acompanhar a visita da monarca inglesa a Portugal.

Bom, mas com tudo o que era possível na altura, depois das honras militares, o cortejo seguiu de coche pelas ruas da cidade de Lisboa, com os acenos e sorrisos da simpática jovem rainha. Visitaria novamente Portugal no ano 1985, já com o nosso País em democracia.

Seria esta figura incontornável da História que viveria um dos reinados mais longos – 70 anos, sendo que o que viveu mais tempo situa-se entre os séculos XVII e XVIII (1643 a 1715) – Luís XIV, da França, com 72 anos. Já em Portugal, o monarca que reinou mais tempo foi D. João I, ele que também casou com uma inglesa, D. Filipa de Lencastre, sendo o seu reinado longevo de 48 anos e 130 dias. Seguiu-se-lhe D. Afonso Henriques, na longevidade, com 46 anos e 132 dias.

Esta grande monarca, que agora deixou o mundo dos vivos, na ordem natural da vida, liderou o Reino Unido e a Commonwealth ultrapassando a bisavó, a rainha Vitória, que teve o peso da coroa durante 64 anos.

“Para a história, além do reinado durante alguns dos períodos mais conturbados do país, de ultrapassar crises (internas, políticas, económicas, familiares) e de deixar a sua marca num legado extenso e completo, Isabel II tornou-se em si mesma um símbolo da nobreza, da realeza global, da graça, de entrega e de dever à Coroa inglesa”, segundo o Correio da Manhã.

Agora, o herdeiro do trono britânico, seu filho Carlos, de 73 anos, que nalguns momentos terá já quase exercido o cargo como regente (na qualidade de príncipe de Gales, assumiu funções oficiais em nome da rainha) sucede, com o seu nome próprio.  Uma decisão que foi uma das primeiras a ser tomada no seu reinado e será Carlos III, ao lado da rainha consorte Camila, esta conforme desejo expresso de Isabel II, há sete meses, deixado em testamento.

A BBC reconhece que a escolha deste nome surpreendeu os britânicos pois acreditavam que viesse a optar pelo título de Jorge VII, em homenagem ao avô, Jorge VI. É que a história por detrás do nome de Carlos não é pacífica no Reino Unido. “Tanto Carlos I como Carlos II foram monarcas com reinados polémicos. Carlos I, que reinou entre 1625 e 1649, foi o único rei executado na História inglesa, em 17 de janeiro de 1649, e liderou os destinos do país durante uma tenebrosa guerra civil” – recorda o The Telegraph, segundo o Público. Já seu filho, Carlos II, é particularmente conhecido da História inglesa pela sua vida íntima que envolve a única portuguesa a ser rainha de Inglaterra, Catarina de Bragança, filha do rei português D. João IV. “Catarina parecia ser a noiva perfeita, dada a histórica aliança entre portugueses e ingleses – até se diz que levou para Inglaterra o hábito de beber o chá da tarde. Mas o casamento não resultaria em filhos legítimos, o que alarmava o Governo preocupado com a sucessão, de cuja esposa não teve nenhum filho, sendo assim substituído por seu irmão Jaime”. D. Carlos II morreria em 1685 sem o problema de sucessão legítima resolvido e a esposa, Catarina de Bragança, “seria devolvida” a Portugal, onde habitou o Palácio de Bemposta, em Lisboa.

Surge agora o novo rei, D. Carlos III (Carlos Filipe Artur Jorge) o primeiro filho da então princesa Isabel, e do marido Filipe, nascido a 14 de novembro de 1948. Foi coroado príncipe de Gales pela mãe aos 20 anos.  Era o herdeiro do trono há mais tempo em funções e o mais velho a ser coroado, aos 73 anos.

Numa narrativa do Público, “a ascensão ao trono do novo rei da Inglaterra e da nova rainha, Camila Parker é um caso de incrível superação de escândalos em que foram protagonistas nos anos 80/90 e de uma recuperação milagrosa de imagem pública, tanto de Carlos como de Camila, outrora odiada pelo povo britânico por ser a ‘terceira pessoa’ dentro do casamento de Carlos e Diana de Gales – como a própria Diana revelou em entrevista à BBC – acabou por se tornar popular, devido à sua dedicação e boa imagem construída ao longo de quase duas décadas de casamento”.

Isto de escândalos de reis e rainhas sempre houve por esses países fora, incluindo Portugal. Atente-se que Isabel II e agora seu filho, Carlos III, só conseguem estar nesta linha de sucessão, devido a um outro “escândalo”, se assim se pode considerar, pelo facto do tio de Isabel II, o rei Eduardo VIII ter abdicado do trono a favor de seu irmão, Jorge VI, pai de Isabel II, para casar com Wallis Simpson, uma americana divorciada do primeiro marido e em processo de divórcio do segundo, gerando a chamada crise de abdicação, ocorrida em 1936.

Esperamos assim que não haja mais escândalos e que Carlos III seja um grande Rei, do Reino Unido e dos Reinos da Comunidade de Nações, em prol do desenvolvimento e da paz quer na Europa quer no Mundo.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

 

(In “O Olhanense”, de 15-09-2022)


 

 

 

7 de setembro de 2022

OS INCÊNDIOS FLORESTAIS EM PORTUGAL



 

Os incêndios florestais não são um fenómeno novo das últimas décadas em Portugal. A partir de 1970, segundo o ensaio de António Bento-Gonçalves, “com a profunda transformação verificada no país, dá-se um aumento da frequência, da dimensão, da intensidade e da capacidade destruidora dos incêndios, o que veio a culminar nas tragédias de 2017, que feriram 320 pessoas e ceifaram a vida, em apenas dois dias (17 de junho e 15 de outubro) a 116 pessoas”.

Os incêndios são alimentados, na minha opinião, pela ferocidade dos tempos que correm, com as alterações climáticas em que todos somos responsáveis por assobiarmos para o lado. Sim, quando se fala na ação que urge tomar sobre as condutas para resolver este grave problema, existe aquela apatia do deixa andar, outros resolverão por mim, não sou só eu a atuar, o que redunda nas nefastas situações que todos os anos vivemos, no verão (isto quanto a incêndios), em todo o planeta.

Mas também são os descuidos voluntários ou involuntários de todos os que passam e provocam a combustão.

Dentre muitos outros fatores, como as plantações de árvores e reflorestação indevidas, falta de limpeza dos terrenos envolventes, deixo para último os piromaníacos que uma legislação judicial, deste país à beira-mar plantado, o mantém nos brandos costumes.

Se o que rouba uma galinha para dar de comer aos filhos é punido com facilidade, porque é que não se exerce uma rigorosa aplicação das penas aos pirómanos, seus sequazes ou mandantes? Sem apelo nem agravo, para que sirva, na exemplaridade da ação judicial, que outros não venham a ser encorajados a repetir o crime abafado.

As observações ao que se passa em nosso redor, e as denúncias, devem ser acolhidas com muita atenção pelos responsáveis a quem nos dirigimos.

Corri grande parte do país, na minha vida profissional de então, e desloquei-me na tranquilidade de muitas noites, no regresso para casa, com a mulher com os meus filhos pequenos a aguardar ansiosa que eu chegasse bem, sem ainda se conhecerem os telemóveis e quando sentíamos o lenitivo de encontrar um posto telefónico para telefonar para casa (geralmente instalado num café ou outra casa comercial) ou então a simpatia de um cliente que nem aceitava o custo da chamada, muitas vezes interurbana, aguardando que do lado de lá autorizassem a chamada telefónica.

Algumas vezes perguntei aos guardas-florestais, em Figueira de Castelo Rodrigo, por que é que me pediam os documentos do carro se a missão deles era sobre as florestas e a caça.

Duma outra vez, uma indignação pela indiferença que observei na GNR de Belmonte, sobre uma denúncia de um possível fogo posto que nascia perto da estrada da Vela ou Gonçalo, com um Mercedes Benz de luz apagadas junto ao mesmo. Resposta daqueles militares de Belmonte, lá para os anos 1975 ou próximos: Se era um Mercedes não deveria ser o dono do carro a pegar o fogo... Nós vamos lá ver. Mas como à meia-noite já vinham da cama, certamente para ela regressaram.

Hoje as autoridades policiais estão mais evoluídas, com outro grau de instrução, e dão-nos mais confiança.

Só que o País não parece ter aprendido muito com os incêndios de ano para ano. Os nossos Bombeiros sempre num esforço hercúleo e a Proteção Civil procurando o melhor. Mas, como agora sucedeu com o incêndio na Serra da Estrela, parece ter havido inicialmente uma descoordenação, com muitos a mandar e as populações espavoridas sem apoios imediatos, retardando a intervenção dos soldados da paz, o que, compreensivelmente, nem sempre é possível.

Mas onde é que está o busílis da questão? Como cortar este nó górdio?

Por que não colocar os militares que exercem o serviço militar não obrigatório a fazerem o serviço de vigias? Com armas como no tempo da Guerra do Ultramar, que, esses de então hoje sofrem de stress pós-traumático, mas agora não existe esse perigo, antes pelo contrário, seria um ato patriótico, caçar esses terroristas incendiários, com o tratamento devido.

Depois da década de 70 do século passado, muitos fogos surgiram no País e nesta região da Beira Baixa e Serra da Estrela. Num deles, em agosto de 1990, faleceu um meu antigo Colega da Instrução Primária, João José Manteigueiro Mota. Seis anos mais tarde, também em agosto, faleciam três bombeiros covilhanenses na queda de um helicóptero que combatiam um incêndio na Serra da Estrela: Ricardo Bruno Jesus Cardona, António Miguel Vaz Marques e Fernando Manuel Sousa Xistra. Mais tarde, em agosto de 2013 falecia, apanhado pelas chamas, o bombeiro, da Corporação da Covilhã, Pedro Miguel de Jesus Rodrigues.

Outrora, antes da década atrás referida, pouco se ouvia falar de incêndios florestais, e a História dos Bombeiros Voluntários da Covilhã, no seu I volume, regista muitos incêndios em habitações e fábricas de lanifícios, sobrando os florestais após os anos 70 do século XX, conforme já referido.

“Ao longo dos anos, muitas foram as vítimas mortais dos incêndios florestais em Portugal. Sem sermos exaustivos (não foram aqui contabilizados os bombeiros falecidos em acidentes rodoviários, a caminho ou no regresso de incêndios florestais) contabilizam-se 257 vítimas mortais entre 1961 e 2018, sendo que 65 eram bombeiros, 7 especialistas estrangeiros, 25 militares, 4 funcionários florestais e 156 populares, verificando-se que nos 38 anos do século XX faleceram 64 pessoas, enquanto que apenas em 19 anos, no século XXI, já perderam a vida 189 pessoas, sendo o ano de 2017 responsável por 61% do total das vítimas mortais no presente século.”

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

 

 

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 07-09-2022)

 

JOÃO NUNES APRESENTA NOVO LIVRO, IN RCB - RÁDIO COVA DA BEIRA Oiça em: https://bit.ly/3etDNuk


 

18 de agosto de 2022

"COIMBRA É UMA LIÇÃO"


 

“As novas gerações não fazem a mínima ideia de que temos uma canção no nosso património que já foi um êxito espetacular em todo o mundo com mais de 1000 versões interpretadas por grandes nomes da música internacional, ou ainda por orquestras famosas.

É uma composição de Raul Ferrão, com letra de José Galhardo, e o título é ‘Coimbra’. O seu primeiro intérprete foi Alberto Ribeiro numa serenata a Amália Rodrigues, uma cena do filme ‘Capas Negras’, de 1947. Nunca se imaginou que viria a ser um superêxito mundial, mas quase sempre com o título ‘Abril em Portugal’”. Esta é uma narrativa de Carlos Cruz da sua rubrica no Tal & Qual, que ainda se reporta a um documentário transmitido pela RTP 2 sob a designação “Coimbra, a História de uma Canção”.

Não é preciso trazer à discussão a “Coimbra dos Doutores”, na letra desta canção, para fazer notar o muito que anda por aí de pontapés na gramática e irreflexões no contexto da linguagem escrita e falada, por gentes das televisões, e dos jornais, para já não falarmos nos apanhados das redes sociais.

Alguns casos que me chegaram às mãos, há mais de um ano, são bem evidentes de quanto a língua de Camões muitas vezes é ultrajada, algumas no lapso da expressão oral duma conversação, outras na precipitação de não encontrar ligação rápida adequada, mas outras são por exibição da sua oratória que acabou por cair no ridículo.

Algumas frases quase que ganharam imortalidade. Se não, vejamos:

- Estar vivo é o contrário de estar morto. – Lili Caneças

- Nós somos humanos como as pessoas. – Nuno Gomes – SL Benfica

- Quem corre agora é o Fonseca, mas está parado. – Jorge Perestrelo

- Inácio fechou os olhos e olhou para o céu! – Nuno Luz (SIC)

- Juskowiak tem a vantagem de ter duas pernas!  Chutou com o pé que tinha mais à mão –

Gabriel Alves.

- É trágico! Está a arder uma vasta área de pinhal de eucaliptos. – Jornalista da RTP

- Um morreu e o outro está morto. – Manuela Moura Guedes

- Antes de apertar o pescoço da mulher até à morte, o velho reformado suicidou-se. – João Cunha, testemunha de crime.

- Quatro hectares de trigo foram queimados. Em princípio trata-se de incêndio. – Lídia Moreno (Rádio Voz de Arganil)

- À chegada da polícia, o cadáver encontrava-se rigorosamente imóvel. – Ribeiro de Jesus, PSP de Faro

- O acidente provocou forte comoção em toda a região, onde o veículo era bem conhecido. – António Bravo (SIC)

- Ele contraiu a doença em vida. – Dr. Joaquim Infante, Hospital de Santa Maria

- Há muitos redatores que, para quem veio do nada, são muito fiéis às suas origens. – António Tadeia, Crónicas do Correio da Manhã

- Os sete artistas compõem um trio de talento. – Manuela Moura Guedes (TVI)

- Esta nova terapia traz esperanças a todos aqueles que morrem de cancro em cada ano. – Dr. Alves Macedo, oncologista

- O difícil, como vocês sabem, não é fácil. – Jardel

- Em Portugal é que é bom. Lá, a gente recebe semanalmente de 15 em 15 dias. – Argel, jogador do Benfica

- Tenho o maior orgulho de jogar na terra onde Cristo nasceu. – Djair, jogador do Belenenses ao chegar a Belém (zona do Restelo – Mosteiros dos Jerónimos) no dia que assinou contrato com este clube

- Finalmente, a água corrente foi instalada no cemitério, para satisfação dos habitantes. – Presidente da Junta de Freguesia do Fundão

E ficamos por aqui. Passemos dos momentos de tristezas, que não pagam dívidas, para alguns de hilaridade.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “ Notícias da Covilhã” digital, de 18-08-2022)

10 de agosto de 2022

O TEMPO QUE PASSA

 

Terminaram as minhas férias veraneias. De Andaluzia à Serra da Estrela vão consideráveis diferenças. Se dum lado há os encantos do mar, das colinas e dos rios, na vertente de cá existem os cambiantes da montanha, com tudo o que à mesma se liga, da flora à fauna, das maravilhas paisagísticas e de respeitabilidade até aos seus ares saudáveis.

No avanço da minha idade já estou naquela de me enfadar por longas viagens. Mormente quando o “bicho” se faz por convidado. Entrei um pouco mais naquela opção da proximidade de estar no local mais cómodo.

Regressado, vou dar uma volta pelas inúmeras recolhas de informação que avolumei no meu escritório, com a minha secretária num aconchegado ninho de folhas de apontamentos, recortes de jornais, impressões, diversos apontamentos redigidos no resumo de muitos livros lidos. Alguns destes, dispersos, que consultei, e já não necessito. Local arrumado. Resultado: mais um saco cheio de papel a caminho do Banco Alimentar. Um alívio. Mas a falta de memória é que persiste. Até nas coisas mais banais, no imediato, que só surgem com algum esforço após algum tempo. Aquela de codificarem a situação ser devida à PDI já é velha. Vale-me a persistência e o meu gosto pelas buscas, investigação e criatividade.

Fico feliz quando encontro algum documento julgado perdido, ou aquele outro de que já não me recordava. Afinal, o número de amigos é superior ao que imaginava.

Os dias que ainda remanescem para este ano, se Deus quiser, vão ser para mim empolgantes. Penso eu que tal venha a suceder, com a apresentação do meu livro, na Covilhã – DA MONTANHA AO VALE – As Viagens de um Grupo de Tertulianos – já que a primeira edição logo se esgotou quase ainda estava no prelo. Foi então apresentada em Seia e em Lisboa. Os que já se manifestaram interessados, com encomendas para esta segunda edição, limitada a 100 exemplares, poderão agora aproveitar a única oportunidade, no dia 3 de setembro, no Salão Nobre da Câmara Municipal da Covilhã, às 15 horas.

Aguardando a sua entrega, encontra-se também o meu último livro – RECORDAR É VIVER – que foi, paradoxalmente, o primeiro escrito na minha vida, em 1967, aos 21 anos, sem nunca ter sido publicado. Ficou no segredo dos deuses, durante 55 anos, datilografado e por mim encadernado, um único exemplar, altura em que o escrevi quando trabalhava na Câmara Municipal da Covilhã. Muito alterado vão agora surgir 50 exemplares, oficiais, que não serão colocados à venda.

Ainda não conhecíamos o ambiente digital. Conhecíamos, sim, o que era comum neste País de olhos vendados: entre os perigos dos informadores da PIDE, das prisões políticas, dos que procuravam na emigração legal uma forma de dar uma nova vida à sua de emagrecimento. Mas também, em Portugal, os que procuravam passar a fronteira de assalto, como ainda os contrabandistas. Mas aquele perigo maior para os jovens rapazes, depois de terem ido às sortes, era a Guerra do Ultramar. E não se podia escrever como hoje, onde a censura imperava.

Isto é sobejamente conhecido de todos nós e é quase como chover no molhado.

Temos a revolução tecnológica e cultural em velocidade alucinante. No século XXI, o homo sapiens vai converter-se assim, a olhos vistos, em homo digitalis, pois na vida da maioria das pessoas faz parte a utilização de telemóveis, computadores, internet, redes sociais, etc.

Mas neste tempo que passa, não posso esconder que aquele outro “meu tempo” de antigamente me parece, em muitos aspetos, mil vezes mais interessante do que este “meu tempo” de agora, pegando nas palavras de Jorge Morais, diretor do Tal & Qual, de 08-09-2021. E aqui vão alguns exemplos: “nesse tempo em que não passávamos o dia a escrever mensagens inúteis nos smartphones; nesse tempo em que os cantores tinham voz e os escritores Gramática; nesse tempo em que os telejornais davam notícias e os locutores não gaguejavam a lê-las; nesse tempo em que viajar não era navegar na net, as malas não tinham, rodas e os carros elétricos eram transportes coletivos; nesse tempo em que à chuva, ao vento e ao frio chamávamos simplesmente inverno, e não ‘alerta laranja’; nesse tempo em que conversávamos uns com os outros sem precisarmos de zoom; nesse tempo em que mandávamos cartas de amor com pétalas secas entre as páginas. Nesse tempo, talvez não tivéssemos ao nosso alcance tantas maravilhas da técnica, talvez não estivéssemos aconchegados em tantos códigos, politicamente corretos e talvez não pudéssemos andar à pesca do Nada em tantas ‘redes sociais´. Mas éramos, parece-me, muito mais autênticos”.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmal.com

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 10-08-2022)

 

2 de agosto de 2022

UMA ELEVADA PERMUTA DE FUNÇÕES


 

Depois de no número de 1 de julho ter sido anunciada a troca de funções do então Diretor deste periódico, estimado amigo Senhor Isidoro Sousa, pelo então Diretor Adjunto, prezado amigo Mário Proença, surge agora no número de 15 de julho com a função de Diretor, o que muito me apraz registar.

Desde que tenho o privilégio de escrever no quinzenário O Olhanense, já vai para um quarto de século, nunca tive o ensejo de conhecer pessoalmente qualquer obreiro do Jornal, com uma exceção, abaixo descrita, a começar pelo falecido Senhor Herculano Valente, com que iniciei a minha colaboração esporádica e do qual não passei de alguns contactos telefónicos e por escrito.

Quando do seu falecimento e face à minha perplexidade de continuar a escrever neste Jornal, logo recebi uma comunicação, não sei se por mensagem, email ou carta, dum colaborador que dava pelo nome de Mário Proença, animando-me no sentido de que havia quem desse continuidade a este periódico, com inovações que certamente iriam surgir, pelo que contava com a minha colaboração.

Num ápice, as brumas se afastaram das minhas hesitações e houve assim um lenitivo para que eu pudesse continuar a escrever entre o paradoxo do homem da serra e os das gentes algarvias, ou seja, de outros horizontes. Fiquei satisfeito. Imediatamente anuí a esse desiderato, até aos dias de hoje. E muito tenho aprendido, na alegria de ver muito do que aqui escreve como um genuíno investigador, sempre na sua simplicidade. Ele traz para as páginas dum periódico local, que também é regional, o encanto de narrativas, por vezes duma similaridade das que eu algumas vezes também escrevo nos periódicos da minha região beirã. Coincidências tão positivas.

Na exceção atrás referida, tive, sim, o prazer de conhecer pessoalmente o atual Diretor Adjunto, Senhor Isidoro Sousa, conjuntamente com a esposa, então como Presidente do Sporting Clube Olhanense, como hoje ainda é o seu ilustre Presidente, num jantar comemorativo do Sporting Clube da Covilhã, sob a égide do seu Presidente, José Mendes, a caminho de duas décadas na liderança do clube serrano, a fazer um excelente trabalho, que convidara vários presidentes de clubes. Estava na minha mesa. Perguntei quem era o casal, tendo-me informado que eram de Olhão. A partir daí gerou-se uma amizade por via deste excelente quinzenário.

Com o surgimento do amigo Mário Proença, este periódico foi sendo renovado com frequência, no âmbito da sua criatividade, e admiro como tem disponibilidade para fazer sair para os leitores temas tão diversos, desde a história citadina e do concelho, às curiosidades e vivências de outros tempos, com que me delicio, pois são geralmente idênticas a todos os recantos do País.

Sem menosprezar a colaboração de outros cronistas, que leio atentamente, é da veia intelectual inserida nas teclas do computador do atual Diretor d’O Olhanense, que saem o preenchimento de páginas enriquecedoras do seu conteúdo.

Estes dois Homens com Garra, souberam interpretar a valia dum órgão da Comunicação Social tão importante para a sua Terra e Região, que deram as mãos, desprovidos de quaisquer egos na ribalta, tão só o encimar tudo em prol da Coletividade histórica algarvia, das gentes olhanenses e algarvias em geral, desfraldando a sua bandeira por todo o País e estrangeiro que compreende e gosta da Cultura.

Parabéns a ambos, aos quais envolvo num abraço serrano.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In "O OLHANENSE", de 01/08/2022)

 

20 de julho de 2022

ESTÓRIAS DE UM ARQUIVO JUDICIAL - A GRANDE DEVASSA E OUTRAS ESTÓRIAS

 


ESTÓRIAS DE UM ARQUIVO JUDICIAL – A GRANDE DEVASSA E OUTRAS ESTÓRIAS

Este é o segundo livro do juiz desembargador do Tribunal da Relação de Coimbra, Dr. José Avelino Gonçalves, que na Covilhã permaneceu vários anos então como juiz presidente do Tribunal Judicial da Comarca de Castelo Branco, e que na Cidade laneira e universitária, assim como na região, deixou grandes amizades e reconhecida competência.

Esta valiosíssima obra, obtida como a anterior, em 2020, da recolha de entre o pó dos sótãos onde os arquivos se tumulavam, reforça outras estórias quão interessante como de reais que ficariam para sempre sem qualquer utilidade, não fosse a paciência, sacrifício e tenacidade deste Homem – Juiz e Escritor – como já me havia referido num escrito em dezembro de 2020.

Acabei de ler este segundo livro e, não obstante dentre de algumas horas ir gozar uns dias de férias com a família, não podia deixar de digitar no teclado do meu computador um breve apontamento de várias estórias recolhidas pelo amigo autor desta nova publicação que me seduziu com memórias que, de algumas personagens ou referências das mesmas me transportaram para tantos assuntos que a esta região dizem respeito.

Por falta de espaço e de tempo, porque estou a caminho das duas da madrugada, apenas me reporto a algumas partes das últimas páginas, entre as quais a quantidade de barbeiros que, quantas vezes ardilosamente,  utilizavam a medicina indevidamente, como curandeiros, lá para as bandas de Penha Garcia, e onde o médico escritor Fernando Namora exerceu a atividade clínica em Monsanto.

Sobre a estória d’”O Capelão da Panasqueira e o casamento de consciência”, meu caríssimo amigo Dr. Avelino, não me podia deixar de alegrar ao recordar o padre Manuel Vaz Leal que eu e muitos dos Covilhanenses conheceram muito bem, pois era ele que cantava e fazia os sermões na Procissão dos Passos, com a sua eloquência e excelente voz.

Durante a minha vida profissional, numa das visitas às Minas da Panasqueira, tive necessidade de bater à porta do pároco para indagar algo, e atendeu-me o seu sucessor, o sobrinho padre Américo, que quando eu era jovem me lembro de ajudar o pároco da minha freguesia – São Pedro – o padre José Domingues Carreto, nalgumas festividades e mormente na Visita Pascal.

Depois, a direção do padre Leal como diretor do jornal O Mineiro.

Muito mais haveria a registar, mas tenho que ficar hoje por aqui.

Parabéns ao Dr. José Avelino Gonçalves por nos ter brindado com mais esta interessante obra.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

 

 

(In “Notícias da Covilhã” digital, de 14-07-2022)

19 de julho de 2022

MAPEAR AVENTURAS PELOS CAMINHOS SERRANOS

 

Nem sempre estamos inspirados para um tema que possa ser da apetência dos estimados leitores. Também nesta crónica não estou virado para as dificuldades que o mundo enfrenta face ao ditador mundial dos tempos que correm, aquele que se identifica com o famigerado Hitler, de igual modo odioso.

Assim, neste verão que há pouco emergiu, trouxe-me, mais uma vez, falar da Serra da Estrela em cuja falda é a minha vivência.

E é na montanha maior deste Portugal Continental que eu me sinto bem, sentado à porta da casa da Serra, contemplando o horizonte, do qual me vem a inspiração, na visualização dos rebanhos e dos pastores, do cão da Serra da Estrela, que vamos avistando ou até se aproxima nós.

Muito haverá que falar, para os que querem ter ouvidos para ouvir e olhos para ver, a partir, se quiserem, deste belíssimo recanto dos Hermínios, de in illo tempore.

E isto porque veio a propósito a homenagem aos Pastores da Serra da Estrela, com a criação, na Torre, de um novo espaço dedicado aos produtos da ovelha bordaleira. O ponto mais alto de Portugal Continental – a Torre da Serra da Estrela – tem um novo espaço dedicado aos pastores e ao produto do seu trabalho: a lã e o leite das ovelhas Bordaleiras. Este projeto constitui uma forma de apoiar o trabalho dos pastores da Serra da Estrela e assegurar a continuidade da profissão e da raça da ovelha Bordaleira. Contribuiu-se assim para o desenvolvimento da economia local e para a sustentabilidade social do território. De 275 mil ovelhas desta raça existentes nos anos 80 do século XX, há atualmente pouco mais de 23 mil.

Mas também, no âmbito do divino, no alto desta Montanha Maior, o paradoxo subsiste., com o prelado da diocese a que o local pertence – a Diocese da Guarda – por via do Departamento Diocesano da Pastoral Familiar a manifestar nas suas intenções, de, por um lado, e bem, promover o encontro diocesano de famílias na Torre, o ponto mais alto da Serra da Estrela, no dia 26 de junho, em sintonia com o X Encontro Mundial das Famílias, a decorrer em Roma, começando com a concentração na zona da Torre, seguindo-se um percurso pedonal, com apoio do Centro de Interpretação da Serra da Estrela, seguiu-se a celebração da Eucaristia, na Capela de Nossa Senhora do Ar (Torre), presidida pelo bispo diocesano, D. Manuel Felício.

Só que, tudo o que se tem desenrolado ao longo dos últimos tempos, aliás dos momentos que vão ultimar a vida deste prelado, face à idade, vão no encontro de ser o coveiro da Diocese da Guarda, como muitos dos seus apaniguados, incluindo sacerdotes e leigos ligados às organizações católicas, e não só, assim o consideram.

Estão nesta cartada não só o mais antigo órgão da comunicação social da Beira Baixa, centenário, como instituições criadas carinhosamente e que foram lugar de muitos eventos locais, regionais e alguns nacionais.  Estão assim na peugada de um homem que não soube conduzir a barca que lhe foi entregue. Não vou tecer mais comentários, aguardando tão só o desenvolvimento dos acontecimentos, na revolta que possivelmente vai existir em muitos dos que, por inércia, não se querem agora manifestar.

 Mas a majestosa Serra da Estrela trouxe-me à memória a beleza das suas enormes rochas, aqueles penedos que são uma aventura a sua subida, o medo de os poder subir, e, mormente, na descida. Já aconteceu comigo quando ainda existia alguma juventude mas que jamais conseguirei sonhar numa dessas aventuras nos tempos que correm. Jurei ser a última vez na minha vida.

Vejamos a descrição dos companheiros da Expedição Científica à Serra da Estrela, naquele longínquo ano de 1881, uma centena de homens, durante 15 dias.

Deixo alguns resquícios dessa expedição, sem descurar a subida ao Cântaro Magro.

“Depois, nas ‘Interpretações locativas’, falou-se na origem possível de ‘Monte Hermínio’, sendo que “uma tradição que chegou aos nossos dias designa a Serra da Estrela o Hermínio Maior; a de Marvão, o Hermínio Menor’”.

“E também o Malhão Grande ou Malhão da Estrela, nome dado ao ponto culminante da serra, designação que os pastores da localidade empregam. E cujo local se passou a chamar Torre, depois de colocada uma pirâmide, a qual foi mandada construir em 1806 pelo príncipe regente D. João. As aventuras dos expedicionários: ‘Se de dia e a distância ninguém observa os Cântaros pela primeira vez sem sentir vertigens e o coração comprimido, imagine-se o que nós sentiríamos às dez da noite aos vermo-nos presos no cume do Cântaro Gordo, rochedo de 413 metros de altura sobre a ribeira da Candeeira, eriçado de fragões escuros, no meio de profundos covões formado por outros fraguedos e despenhadeiros igualmente sinistros e medonhos! (…) Aqui, onde a natureza é horrivelmente majestosa e grande, ninguém deixará de se sentir infinitamente pequeno. (…) Chegado a este ponto fomos descendo, recomendando-nos o pastor que não olhássemos para os lados por causa da vertigem do abismo e que descêssemos de costas, não deslocando nunca uma mão sem ter a outra firme e segura ao rochedo. Estivemos parados algum tempo sem poder prosseguir nem retroceder. Estávamos suspensos entre a vida e a morte! Causava horror olhar para os lados ou para a frente. Fitámos então a vista nas estrelas para não sentirmos a vertigem do abismo cavado a nossos pés. – Estão salvos, disse-nos o pastor, porque desceram de noite e não viram o precipício’”.

No livro A Lã e a Neve, de Ferreira de Castro, foi narrada uma célebre descrição da Serra da Estrela, do início do capítulo III da Primeira Parte, a saber:

“A serra corre de Nordeste a Sudoeste, como imensurável raiz de outra cordilheira que rompesse longe do seu tronco. Belo monstro de xisto e de granito, com terra a encher-lhe os ocos do esqueleto, ondula sempre: contorce-se aqui, alteia-se acolá, abaixa-se mais adiante, para se altear de novo, num bote de serpente que quisesse morder o Sol. Ao distender-se, forma altivos promontórios, dos quais se pode interrogar o infinito, e logo se ramifica que nem centopeia de pesadelo, criando, entre as suas pernas, trágicos despenhadeiros e tortuosas ravinas, onde nascem rios e as águas rumorejam eternamente.

Vista do alto, sugere um fabuloso réptil, anfíbio e descomunal, cortado em dois o grande vale que teria surgido após haver secado o lago que aquele habitava. Examinada de banda, veem-se-lhe inúmeras patas estendidas e, a trechos, o lombo serrilhado. Esse gume com muitas mossas é, porém, ilusório. Contemplado de perto, o dorso da serra, como o dos cetáceos, mostra largas superfícies, ora chatas, ora abauladas, umas limpas de acidentes, outras cercadas de fragões, que, com estranhos perfis e enigmáticas atitudes, parecem defender as terras solitárias. O ser humano tem volume mais mesquinho do que uma velha giesta, do que uma velha urze, nesses planaltos que se alargam entre altas vagas de terreno, entre montanhas que cresceram no cimo da montanha.  E uma luz de mistério, ao clarear as chapadas e pendores, enche de temíveis sombras os silentes penedais, os rochedos majestosos, todos esses gigantescos vultos de granito que povoam a serra, como seus feros senhores.”

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

 

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 13-07-2022 e “O Olhanense” (artigo completo) de 15-07-2022)

 

 

6 de julho de 2022

O MANÁ

 

Não é aquele alimento caído do céu que alimentou o povo de Deus (Israelitas) no deserto. Não. Mas é o cereal que um dos maiores produtores do mundo, se não o maior, alimenta a maior parte do Planeta. Não estamos nos tempos bíblicos, mas muitas vezes como que pretendemos invocar esses momentos.

O trigo da Ucrânia, este país martirizado por uma potência diabolizada, como largas vezes referimos, está a dificultar-nos a chegada desse maná.

Se nos reportarmos à Bíblia, numa das suas narrativas, perante a fome verificada em todo o lado exceto no país do Faraó, Jacob envia os filhos ao Egipto para aí comprarem trigo e poderem viver (Gn. 42). Assim aconteceu e ali foram recebidos pelo seu irmão José que, por ter interpretado os sonhos do Faraó e propiciado uma gestão adequada do cereal recolhido nos anos de grande produção, fora elevado á categoria de chefe e governador do Egipto. A ele pertencia, por isso, conforme refere António Salvado Morgada, in A Guarda, a gestão do comércio do trigo procurado pelos povos vizinhos.

Agora, como também o mesmo refere, “o problema do comércio do trigo não se encontra na seca, mas na guerra. O trigo já terá entrado noutras guerras. Noutros lugares e templos. Sempre que há guerra, o trigo, como outros cereais, entra na guerra. Até pela sua ausência.”

Pois bem, o trigo entrando agora na guerra, tornou-se uma arma beligerante. Faz subir os preços nas padarias, chegando obviamente às nossas casas.

Esta maldita e evitável guerra da Rússia contra a Ucrânia, destrói as searas, arrasa a economia dos povos que neste cereal encontram uma das principais fontes de matar a fome.

Pena é que os senhores geradores desta guerra não sintam a falta do trigo às suas mesas e que lhes façam metralhar nos seus estômagos esta carência.

De facto, o trigo – este maná dos tempos de hoje, e de sempre – entrando na guerra, tornou-se arma de guerra. Inadmissível!

A guerra do trigo e dos cereais, acompanhando a guerra das armas, é uma guerra da fome e de outros nomes para a morte.

E é assim que já estamos numa escassez de produtos, prestes a bater às nossas portas com os industriais de panificação a sentirem os elevadíssimos preços deste cereal.

O espetro da fome paira sobre os mais pobres. Como irão ficar os países africanos?

Nesta presumível crise mundial dos cereais prenuncia uma “guerra mundial do pão”.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Notícias da Covilhã”, digital, de 07-07-2022)

 

29 de junho de 2022

FERNANDO BRITO FERREIRA


 







Cabe a vez de virmos falar duma figura sobejamente conhecida entre os Covilhanenses, ele também desta génese, comerciante até à sua aposentação, com estabelecimento que teve na Rua Ruy Faleiro, conhecido por “Casa da Borracha”, que herdou de seu pai.

Nasceu na cidade dos lanifícios em 10 de abril de 1947, e, como tantos outros da sua geração, que procuraram estudar no âmbito do ensino possível para a época, o Fernando optou então pelo Colégio Nun’Álvares, em Tomar, onde completou o 2.º Ciclo Liceal, sendo que o 3º Ciclo, que não chegou a concluir, foi no Externato de Santo António, no Fundão, onde era diretor o conhecido Dr. Menezes. Aqui foi colega dum que se evidenciava – o Gaiolas, mais conhecido por Salavisa, hoje Coronel da GNR aposentado.

Chegada a altura do serviço militar obrigatório, em tempo de guerra colonial – a chamada Guerra do Ultramar – Fernando Brito Ferreira foi incorporado no RI 5, de Caldas da Rainha, em janeiro de 1969, no Curso de Sargentos Milicianos.  Seguiu-se a especialidade que veio a tirar em Tavira, no CISMI, de atirador, em abril deste mesmo ano. Foi depois para o RI 2, em Abrantes, em 21 de julho de 1969, sendo daqui mobilizado para a Guiné como Furriel Miliciano, em 1 de agosto de 1969, que só viria a surgir em 31 de janeiro de 1970.

Nesta data marchou para Lisboa, de Abrantes, onde na mesma altura embarcou para o CTI Guiné, promovido já a Furriel Miliciano. Desembarcou em Bissau no dia 6 de fevereiro de 1970. Aqui tomou parte ativa em zonas operacionais, de 31 de agosto de 1970 a 26 de fevereiro de 1971.

Foi colocado em Teixeira Pinto, onde permaneceu todo o tempo de serviço naquela então Província Ultramarina.  Aqui desempenhava as funções de adjunto do Comandante de Batalhão, incluindo a segurança do quartel.

Competia-lhe também fazer segurança às povoações, para além do seu trabalho de operação e informação.

Embarcou na Guiné, de regresso à Metrópole, em 2 de dezembro de 1971, desembarcando em Lisboa, no Cais Conde da Rocha, em 8 de dezembro, onde o esperava a família.

Passaria à disponibilidade em 2 de janeiro de 1972, sendo posteriormente, já em casa, promovido a 2.º Sargento Miliciano, em 31 de agosto de 1072.

Recebeu já a Medalha Comemorativa das Campanhas na Guiné com a legenda: 1970/71 (O.S. 251 de 22 de outubro do B Caç. 2905).

 

(In “O Combatente da Estrela”, nº 127, de julho 2022)

O VIETNAME PORTUGUÊS

 

Neste mês de junho – mês dos Santos Populares – sobejamente conhecido ao longo dos tempos, é também o mês em que, a 10 de junho, comemoramos o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, assinalando-se desta forma o dia da morte de Luís Vaz de Camões.

Depois de terríveis tempos de isolamento que não permitiram festejos nem proximidade das pessoas, ainda persiste algum temor e a possibilidade de sermos apanhados pelos tentáculos do polvo pandémico, ainda que de menor gravidade.

Já chegava este problema mundial de saúde para ainda se vir acrescentar o da morbidez mental na demência de um ser existente à face da Terra que pretende comparar-se ao imperador Pedro o Grande, nas nuvens do seu orgulho. Disto não vou falar mais já que, lamentavelmente, é tema de todos os dias, pelas piores razões.

Venho, isso sim, mais uma vez reportar-me à guerra para onde nos enviaram, enquanto jovens das décadas de 60 e 70 do século passado, por teimosia salazarista e seus apaniguados, donde vieram a perecer tantos jovens que hoje ainda podiam estar entre nós, ainda que numa normal longevidade, e a gerar graves problemas psicológicos aos envolvidos nessas guerras injustas.

É a razão da notoriedade dos Núcleos de Antigos Combatentes, com é o da Covilhã, onde muitos vêm solicitar pedidos de ajuda nas várias vertentes das suas funções.

De harmonia com o livro “365 Dias com histórias da História de Portugal”, de Luís Almeida Martins, aqui deixo uma narrativa desses tempos vividos, de triste memória:

“Durante mais de 13 anos, quase metade do orçamento do Estado foi sendo desviado para ‘a Defesa’. Com o seu rasto e miséria, a Guerra Colonial foi o acontecimento mais traumatizante da segunda metade do nosso século XX.

Oitocentos mil jovens portugueses – quase um milhão! – foram mobilizados entre 1961 e 1974 para a Guerra Colonial que se travou em África contra os movimentos de libertação de Angola, Moçambique e Guiné. Desses, quase 9 mil morreram e perto 30 mil ficaram feridos ou estropiados. Um número não quantificado de ex-combatentes acusaria para sempre os efeitos psíquicos da guerra. Não houve família que não tivesse pelo menos um combatente em África. Muitas ficaram enlutadas, muitíssimas viram-se desde então a braços com problemas irresolúveis. Tudo poderia ter sido evitado se Salazar tivesse sabido descolonizar a tempo.

A Guerra Colonial determinou também a queda do Estado Novo e o regresso da democracia a um país que chegara a parecer esquecido dela. Não sabemos quanto tempo mais teria durado a ditadura se não tivesse havido a guerra, mas não há dúvida de que, ao gerar o descontentamento dos oficiais mais politizados e forçar a mobilização de estudantes contestatários do regime, ela foi o fator mais decisivo para a eclosão do 25 de Abril de 1974.

A guerra começou em 1961. No dia 4 de fevereiro, as prisões e esquadras de Luanda eram atacadas por nacionalistas angolanos. Seguiu-se uma chacina praticada por brancos nos musseques (o equivalente a bairros de lata) da cidade. A 15 de março, a pró-americana UPA (União dos Povos de Angola) espalhou o terror e a morte nas fazendas dos Dembos. Salazar enviou tropas para a colónia, mas após vitórias relativamente fáceis obtidas entre maio e setembro contra inimigos armados de forma artesanal, o pró-soviético MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) abria novas frentes em Cabinda e no Leste. Em 1966 pegou em armas a UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola), que mais tarde enveredaria pelo colaboracionismo com o regime português. Em meados da década, o MPLA era já considerado pela Organização de Unidade Africana o legítimo representante do povo angolano.

Do outro lado do continente, a Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique) iniciou a luta armada em 1964, em Niassa e Cabo Delgado, abrindo depois nova frente em Tete. Comandadas entre 1969 e 1972 pelo general ultra-direitista Kaúlza de Arriaga, as tropas portuguesas envolveram-se durante meses na Operação Nó Górdio, a de maior envergadura de toda a guerra, que não teve o êxito pretendido. A denúncia do massacre de Wiriyamu feita pelo sacerdote anglicano Adrian Hastings no Times londrino teve larga repercussão internacional.

Na Guiné, a guerrilha do PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e de Cabo Verde), dotado a partir de 1970 de mísseis terra-ar Strella, de fabrico soviético, foi a mais difícil de combater pelos Portugueses, que viram alguns jatos FIAT serem abatidos. A ação psicológica desenvolvida pelo carismático general António de Spínola, governador e comandante militar durante cinco anos, não impediu a proclamação unilateral da independência, em setembro de 1973. Antes tinha sido lançada a polémica Operação Mar Verde, um ataque à vizinha Guiné-Conakri, ‘santuário’ do PAIGC.

Os Franceses tinham mantido guerras semelhantes na Indochina (1946-1954) e na Argélia (1954-1962). Ambas haviam conduzido à independência das colónias. Salazar recusou-se a aprender com esses desfechos inevitáveis.”

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Combatente da Estrela”, nº. 127, julho 2022)

 

15 de junho de 2022

JUNHO - MÊS DEDICADO A PORTUGAL

 

Junho quentinho, alegre apesar da pandemia ainda andar por aí a fazer alguns estragos.

Junho de três Santos Populares que, se a união faz a força, que o trio se compadeça daquele povo ucraniano e proporcione o milagre de queimar numa fogueira do São João esse Putin satânico.

Mas como os Santos não se vingam, há que manter as festas populares: o 13 de junho para o Santo António, esta data comemorativa do seu falecimento em 13 de junho de 1231, perto de Pádua, na Itália.

Para não falarmos só de falecimento, então aí vem o 24 de junho para a comemoração do nascimento de São João Batista, profeta do Novo Testamento.

E, para terminar, o dia 29 de junho, dedicado a São Pedro e também a São Paulo, como grandes apóstolos.

Todas estas festas são celebradas em todo o País, mais centradas em determinados locais, como o Santo António, em Lisboa, com as Marchas Populares; e o São João, no Porto, com as fogueiras, os martelos e o alho-porro.

Nesta prodigalidade de festividades e datas memoráveis, salientamos o dia 10 de junho, que é Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Nesta data assinala-se o dia da morte do poeta Luís Vaz de Camões, em 1580. Autor do imortal livro Os Lusíadas, tornou-se feriado nacional em 5 de outubro de 1910, com a implantação da República.

Durante o tempo que durou o Estado Novo (paradoxalmente, velho de mentalidades), e até ao 25 de abril de 1974, em que se deu a Revolução dos Cravos, este designava-se “Dia de Camões, de Portugal e da Raça”. Só a partir de 1978 passou a ser designado como até à presente data – Dia de Portugal, Camões e das Comunidades Portuguesas.

Neste ano da graça de dois mil e vinte e dois, as Comemorações do Dia de Portugal decorreram em Braga e também junto das comunidades portuguesas no Reino Unido.

Milagre, milagre para quem vive em certos concelhos foi o facto de este feriadinho do dia 10 de junho ter acontecido a uma sexta-feira. Logo, por exemplo, Lisboa regala-se pois tem quatro dias de descanso e festança, já que o dia 13, de Santo António é a uma segunda-feira.

Mas, entre dias de descanso em demasia, ou na vontade de quem os desejaria, vamos lá falar de coisas também sérias, ainda que com pedido de intercessão aos Santos Populares para que  concedam um milagre para as bandas da Rua de Santa Maria (antigamente), hoje Rua Notícias da Covilhã, levando-lhes resmas de papel para que o Semanário deixe de ser exclusivamente digital.

E, já agora, que procurem um Diretor que não é forçoso ser dentre os muitos “santos populares” que por aí andam.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Notícias da Covilhã” digital, de 16-06-2022)

FIGURAS E FACTOS DA COVLHÃ E REGIÃO NA HISTÓRIA DE PORTUGAL

 

Tendo por base a obra “365 Dias com histórias da História de Portugal”, de Luís Almeida Martins, achei oportuno registar algumas dessas Figuras e Factos com que os Covilhanenses, ou Homens da Região Beirã, ficaram retratados nas memórias da nossa História.

Por falta de espaço, várias figuras e factos tiveram que aqui ser omitidas.

Muito me tarda o meu amigo na Guarda – Um dos mais belos poemas medievais portugueses está relacionado com a grande paixão do rei D. Sancho I.

D. Sancho I foi pai de 19 filhos, contando os legítimos (nascidos do ventre de Dulce de Aragão) e os ilegítimos, tidos sobretudo de duas amantes conhecidas: Maria Pais Ribeira, uma linda fidalga de cabelos dourados conhecida por Ribeirinha, e Maria Aires de Fornelos. Uma célebre e belíssima cantiga de amigo da suposta autoria de D. Sancho alude aos seus amores com a Ribeirinha: “Ai eu coitada! /Como vivo em grão cuidado/ Por meu amigo que hei alongado. / Muito me tarda/O meu amigo na Guarda! / Ai eu coitada! / Como vivo em grão desejo / Por meu amigo que tarda e não vejo! / Muito me tarda/ O meu amigo na Guarda!”.

O milagre das rosas – Na estrada Guarda-Lamego, em A-de-Barros, existe um solar do qual se conta que foi onde D. Dinis e a Rainha Santa passaram a noite de núpcias. Como o casamento em questão ocorreu em finais do século XIII e a construção de granito data do século XVII, a impossibilidade de o casal ali ter pernoitado é manifesta. Mas a crença atesta a popularidade do casal D. Dinis e D. Isabel – uma popularidade que tem resistido bem ao desgaste de 800 anos.

Não deve haver português adulto que desconheça o “milagre das rosas”. Segundo essa lenda, a rainha saiu numa manhã de inverno do Castelo do Sabugal, onde na altura se encontrava com o marido, levando embrulhado nas vestes pães para distribuir aos pobres. Eis senão quando surgiu D. Dinis e lhe perguntou, de sobrolho carregado, o que levava no regaço. “São rosas, senhor”, respondeu D. Isabel. Desconfiado, o rei voltou à carga: “Rosas no inverno?!...”. A rainha abriu então o regaço e mostrou ao marido o que ali estava: rosas, em vez de pães.

Escolhida pelo rei português D. Dinis, de entre um lote de possíveis candidatas, como a esposa ideal, casou com ele por procuração em Barcelona quando tinha apenas 12 anos, e o marido 21. Só se conheceram pessoalmente quatro meses depois, no dia em que D. Dinis a foi esperar à raia de Beira e se celebrou a boda em Trancoso. Mas, atendendo à idade da noiva, pode não ter havido noite de núpcias, nem nesta vila nem na A-de-Barros da crença local.

A viagem maravilhosa – Poucos portugueses tiveram uma existência tão aventurosa como Pêro da Covilhã. Aí por 1468, um castelhano que se deslocara à Covilhã para comprar tecidos de lã deixou-se impressionar pela desenvoltura do jovem Pêro e convidou-o para entrar ao serviço do seu amo. O rapaz, com uns 18 anos, partiu para Sevilha, onde se tornou espadachim de D. Juan de Guzmán, irmão do duque de Medina-Sidónia. Pouco depois Pêro acompanhou a Lisboa D. Juan, que aqui vinha avistar-se com D. Afonso V. Foi a vez de este rei português muito interessado nos assuntos de Castela, cuja coroa ambicionava, engraçar com os modos de Pêro e arranjar forma de o tomar ao seu serviço. Com cerca de 24 anos, Pêro esteve ao lado de D. Afonso V, como escudeiro, na desastrosa batalha de Toro e, em seguida, acompanhou-o a França, onde o rei português foi recebido por Luís XI em Tours.

Quando D. João II subiu ao trono, Pêro da Covilhã passou a servir o novo rei. Mais lúcido e prático do que o pai, o Príncipe Perfeito aproveitou os dotes deste homem de confiança para missões delicadas que exigiam grande inteligência e não menor dedicação. Espião ao serviço do soberano, Pêro conseguiu identificar alguns poderosos que conspiravam contra a Coroa, como o duque de Viseu e o bispo de Évora. Poliglota, seria seguidamente incumbido de negociar tratados com dois reis berberes de Marrocos.

Em 1478, quando já ia a caminho dos 40 anos, foi finalmente incumbido por D. João II de fazer a longa viagem que o celebrizaria. No âmbito dos preparativos da descoberta do caminho marítimo para a Índia, consistia esta em tentar alcançar o Indostão por terra e trazer informações úteis sobre o cobiçado país das especiarias. De caminho, informar-se-ia acerca do misterioso reino cristão do Preste João.

Pêro da Covilhã partiu acompanhado de Afonso de Paiva. Disfarçados de mercadores, seguiram por terra até Barcelona, onde embarcaram para o Egito, com escala em Nápoles e Rodes. Juntando-se a uma caravana, disfarçados de mercadores árabes, atravessaram a Arábia passando por Medina e Meca (onde rezaram como muçulmanos), e em Adem separaram-se, combinando encontro para daí a três anos à porta da cidadela do Cairo. Paiva fletiu então para a Etiópia e Pero da Covilhã embarcou para a Índia, onde obteve informações que viriam a ser de grande utilidade para Vasco da Gama.

A primeira portuguesa que votou – Maior de idade, médica e chefe de família, Carolina Ângelo pôde eleger a Constituinte de 1911, mas a lei não tardaria a ser revista para impedir o acesso das mulheres aos cadernos eleitorais.

Quando o presidente da mesa de voto chamou pelo seu nome, a jovem eleitora de 33 anos vestida pesadamente de negro e com fios de ouro ao pescoço avançou com passo decidido. Entregou o boletim de voto e quando este entrou na urna todos os presentes irromperam numa salva de palmas. Nessa manhã de 28 de maio de 1911, data da eleição da Assembleia Constituinte da I República, Carolina Beatriz Ângelo, uma das primeiras médicas que houve em Portugal, fora a primeira mulher a votar no nosso País. Nascida na Guarda em 1878, concluíra o curso da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa em 1902, ano em que se casou com o seu primo Januário Barreto (natural de Aldeia do Souto – Covilhã), também médico, ativista republicano. Foi a primeira mulher portuguesa a operar no Hospital de São José, antes de se dedicar à especialidade de Ginecologia. Iniciou-se em 1906 na militância cívica, aderindo ao comité português da associação francesa La Paix et Désermement par les Femmes e à loja maçónica Humanidade e fundando nos anos seguintes a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas e a Associação de Propaganda Feminista (com Ana de Castro Osório).

Nas asas da Revolução – Revolucionário romântico, Palma Inácio foi o homem que melhor personificou a luta armada contra a ditadura de Salazar e Caetano.

Foi em 1962 que desencadeou a primeira das espetaculares ações políticas que o tornaram numa lenda: o sequestro do Super Constellation da TAP da carreira Casablanca- Lisboa, utilizado para o lançamento de panfletos “subversivos” sobre Lisboa e o Sul do País.

Em finais de 1966 regressou à Europa para se dedicar por inteiro à luta antissalazarista. Em maio de 1967 comanda o famoso assalto à agência da Figueira da Foz do Banco de Portugal, destinado à obtenção de fundos para prosseguir a luta revolucionária. Mas ainda nesse ano foi detido em Paris, a pedido de Salazar. Um tribunal francês decidiria, porém, que o delito de que o acusavam era político, e pô-lo-ia em liberdade.

No ano seguinte fracassava a projetada ocupação da Covilhã por um comando revolucionário. Encarcerado no Porto, evadiu-se num intervalo do julgamento. Quando atravessava a Espanha a caminho de França seria novamente preso e uma vez mais em tribunal se oporia à extradição. Em 1973, de regresso a Lisboa e à clandestinidade após uma estada em Roma, voltou a ser preso quando preparava a sabotagem dos computadores de vários ministérios.

Definitivamente libertado de Caxias em 25 de Abril de 1974, foi eleito secretário-geral da LUAR no primeiro congresso da organização efetuado em liberdade, durante o qual prestou contas do dinheiro retirado sete anos antes dos cofres do Banco de Portugal.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 15-06-2022)

1 de junho de 2022

UMA VITÓRIA COMO SE FOSSE UMA SUBIDA

 

Os Covilhanenses, de raiz ou de coração, e as gentes beirãs, dispersas por este recanto à beira-mar plantado, folgaram no domingo, 29 de maio, ao verem o seu Clube mais representativo de toda a região – o Sporting Clube da Covilhã (SCC) – a manter-se na II Liga portuguesa de futebol, ao vencer o Alverca, no Santos Pinto, por 2-0.

O destino a que as gentes da nossa gente já não estavam habituadas, levar-nos-ia neste final da época 2021/2022, a disputar o “play-off” de acesso ao segundo escalão, e esta foi a segunda mão, quando na primeira haviam conseguido um empate a zero bolas.

Depois de várias épocas consecutivas (quinze) num esforço, por vezes hercúleo, dos seus dirigentes, sob a batuta de José Mendes, a manterem uma linha de conduta desportiva mais com altos do que com baixos, sempre na II Liga, surgiria nesta época como que uma ventania de muitas pedras desacertadas, ou tropeçando nelas, que levaram a uma posição ingrata como a população já não estava habituada.  Foi esta população que num sopro indómito mais não pensou que apoiar vivamente a equipa dos Leões da Serra, logo que se apercebeu da gravidade em que o barco em que navegava se encontrava prestes a meter água, e levou neste dia a tornar repleto o Estádio José dos Santos Pinto, na beleza da nossa Serra, numa enorme vontade de apoiar o Clube não o deixando fazer marcha atrás.

E, felizmente, assim aconteceu com o míster Leonel Pontes a direcionar o rumo da vitória, bem conseguida por via dos valorosos Filipe Dini, logo no primeiro minuto de jogo, e depois Rui Gomes. Começava assim o representante da Liga 3 a ver a sua vida muito difícil.

Longe vão os tempos, lá para as bandas do século passado, nas décadas de 50 e 60, em que a Covilhã para além dos lanifícios como mono indústria, mais não tinha de grande evidência que não fosse o futebol da I Divisão Nacional, e então era ver, para além de comboios especiais, centenas de autocarros vindos de vários pontos do País apoiar os seus clubes e ver jogar as vedetas do SCC, aquando das deslocações do Benfica, Sporting, FC Porto e Belenenses (aquele que agora está também nos aflitos quase desaparecido).

As tabernas, os restaurantes e até pensões e hotéis registavam um volume interessante de negócios por força dos forasteiros, e não só.

As gentes serranas e mormente todos quantos vivem o clube da sua Terra, ou da sua afeição, pressentiram neste frustrar de final de campeonato como que uma pandemia desportiva que caíra nas hostes serranas. Para além do sentir nas condutas lamentáveis de responsáveis (arbitragens incluídas) dos que na pauta classificativa já se começava a desenhar a perigosidade dos maus resultados, e embora a equipa serrana viesse a fazer das tripas coração, parecia que o mal com que estavam fadados continuava a existir.

Ouvi chamadas de atenção para este imbróglio e o grito de Ipiranga em várias gentes, nos semanários regionais, na Casa da Covilhã em Lisboa. Havia que apoiar mais intensamente o Sporting Clube da Covilhã.

E assim sucedeu! Temos a equipa serrana a manter-se afincadamente na II Liga do futebol português.

Dá pena ver equipas que durante anos emparceiraram com o SCC e hoje encontram-se em grandes dificuldades de manutenção nos lugares honrosos em que deviam estar, nomeadamente o Belenenses, Olhanense, Barreirense, Vitória de Setúbal, e tantos outros por este Portugal fora.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “Notícias da Covilhã” digital de 02-06-2022)

18 de maio de 2022

A Rússia, os Portugueses e o Segredo de Fátima

 

Longe vão os tempos, da minha infância, em que se rezava nas Igrejas pela conversão da Rússia, um dos pedidos de Nossa Senhora numa das Aparições de Fátima, para uns, Visões, para outros, ocorrida em 13 de junho de 1917, em plena Guerra Mundial.

Mas já muito antes, sempre os portugueses estiveram envolvidos neste país, sendo a Federação Russa o maior país do mundo em extensão territorial, localizado na Eurásia da Europa e Norte da Ásia, quase sendo mais um Continente.

Assim, vejamos, segundo A Mais Breve História da Rússia dos Eslavos a Putin, de José Milhazes: O médico António Nunes Ribeiro Sanches (1699-1783), natural de Penamacor, teve de fugir para o estrangeiro para escapar à Inquisição, foi trabalhar para a Rússia, onde passou dezoito anos (1731- 1749). Deixou as melhores recordações na Rússia principalmente graças à sua atividade no campo na medicina. Quando já exercia as funções de médico da corte de São Petersburgo, o iluminista do distrito de Castelo Branco salvou da morte a noiva do grão-príncipe Pedro e futura imperatriz da Rússia, Catarina II, a Grande. Por isso, em 1782, o seu filho e sucessor no trono, Paulo, exprimiu-lhe publicamente gratidão em Paris, o que lhe valeu uma pensão vitalícia da corte russa. Já depois de ter abandonado a Rússia, acusado de não ter renunciado ao judaísmo, Ribeiro Sanches nunca se recusou a prestar assistência médica aos nobres russos que o procuravam na capital francesa. E isto porque era considerado um mestre incomparável no tratamento de doenças venéreas, onde muitos sofriam desses “males do amor”. O médico português mantinha contactos estreitos com o mundo científico russo, contribuindo para o estabelecimento de relações entre cientistas russos e sábios de outros países da Europa e do mundo. Também da pena deste ilustre sábio do distrito albicastrense saíram numerosas obras sobre a Rússia. Ribeiro Sanches deixou igualmente escritos sobre cossacos, ucranianos, povos do Báltico, etc. Todavia, dedicou maior atenção aos russos, aos seus costumes, às suas tradições, vida económica e agricultura. Na sua conhecida obra Memória Sobre os Banhos de Vapor da Rússia, Ribeiro Sanches analisa o tema não só enquanto médico, mas também como economista. Ele via nos populares banhos russos um meio universal de tratamento de doenças quando não era possível o acesso a outras terapias e recomendou-o aos seus leitores ocidentais. Baseando-se nas reformas do czar Pedro I, o ilustre português aconselhou o marquês de Pombal na sua tarefa de modernização de Portugal. Ribeiro Sanches tinha uma visão filosófica das ciências socias e considerava que a autossuficiência agrícola era fundamental para qualquer país, insistindo, para isso, no incremento das culturas cerealíferas.

De outros portugueses que passaram por São Petersburgo, foi a cantora de ópera Luísa Todi quem deixou maior rasto na história da cultura da cidade. No auge da sua carreira, aquela que ficou conhecida por “rouxinol de Setúbal” lançou-se na aventura de atuar na Rússia, país que, nos finais do século XVIII, era considerado “distante” e “bárbaro” pelos europeus do Ocidente. A sua voz permitiu-lhe não só cativar o coração de muitos russos como enfrentar e defender os seus interesses perante Catarina, a Grande. Luísa Todi permaneceu na Rússia de 27 de maio de 1784 até finais de 1786. Regressaria e, em 23 de abril de 1787, Luísa Todi dava o seu último espetáculo em Moscovo. Entretanto, surge a rutura entre Luísa Todi e Catarina II quando a cantora setubalense começou a exigir somas exageradas para permanecer na Rússia, pois tanto ela como o marido não olhavam a despesas, considerando a imperatriz Catarina II que o casal português já estava endividado em oitenta mil rublos.

Também a história do russo que salvou a coroa portuguesa. No dia 3 de novembro de 1807, a esquadra do almirante russo Dmitri Seniavin entrou na foz do Tejo para fugir a uma forte tempestade no mar, mas ficou ali retida durante quase um ano devido à conturbada situação internacional. Anteriormente, em 7 de julho desse ano, a Rússia e a França de Napoleão tinham assinado um Tratado de Paz e Amizade, em Tilzit, e a corte de São Petersburgo rompera as relações diplomáticas com Londres. Neste contexto que lhe era adverso, o oficial russo, não obstante as pressões francesas, evitou impedir a partida que se preparava, de D. Maria I e de D. João VI rumo ao Brasil. O almirante russo viu-se numa situação muito complicada e então arranjou subterfúgios para tentar adiar ou mesmo evitar totalmente o cumprimento das ordens de Napoleão, alegando falta de armamento e de homens.

Quadro da Morte de Inês de Castro. Karl Briullov (1799-1852) foi um dos primeiros pintores russos que receberam reconhecimento internacional, sendo considerado o artista de transição entre o neoclassicismo russo e o realismo. Em 1834, pintou o quadro Morte de Inês de Castro, talvez soba a influência da leitura de Os Lusíadas de Luís de Camões.

Segundo João Céu e Silva, in DN, a Revolução Russa, que teve início em 1917, também esteve sempre muito ligada às aparições de Fátima. Talvez os pastorinhos tivessem ouvido o nome do país, mas decerto desconheciam as implicações que o regime que substituía os czares iria ter em todo o mundo no século XX. Se uma nova consagração pareceria impossível e desnecessária até ao princípio desta guerra, a razão de acontecer deve-se à mensagem que Nossa Senhora terá deixado aos pastorinhos na aparição de 13 de julho de 1917: “Para impedir a guerra virei pedir a consagração da Rússia ao meu Imaculado Coração (…). Se atenderem os meus pedidos, a Rússia se converterá e terá paz; se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras (…)”. A mensagem não terminava aí e referia também que a Rússia promoveria “perseguição à Igreja. Os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas”. Daí que Lúcia tivesse insistido na consagração, em especial da Rússia, ao Imaculado Coração de Maria logo na carta enviada ao Papa Pio XII, em 1940.

Muito já foi dito, e muito já se escreveu e debateu sobre este assunto. O que é certo e verdade, é que a guerra gerada com a invasão da Ucrânia pela Rússia tem algo que se pode contextualizar nestas mensagens de Nossa Senhora, ainda que já não se reze pela “conversão da Rússia” como nos tempos do Estado Novo, mas velho de pensamento e ideias, mas se peça a intervenção divina para acabar com esta guerra injusta, entre várias maneiras de interpretar quer a mensagem de Fátima quer a invasão da Ucrânia pela Federação Rússia, numa ambição hitleriana de Putin.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 18-05-2022)