15 de maio de 2020

PELA PRIMEIRA VEZ, UMA EFEMÉRIDE EM TEMPO INSÓLITO

Nunca tinha acontecido no tempo das nossas vidas, um contexto de pandemia que nos obrigasse a condicionarmo-nos entre todos nós, remetidos numa primeira fase nas nossas casas, e depois um pouco mais aliviados mas sempre atentos à perigosidade latente e permanente entre todos os humanos.
Tudo se viu constrangido a uma revolução que muitos tiveram que inventar, mas na generalidade facilitada face aos meios tecnológicos que a modernidade nos trouxe e foi a forma de todo o mundo se poder adaptar à continuidade do desenvolvimento das suas atividades. Do natural passaria então ao virtual e ao digital.
Também o jornalismo teve de se fazer inventar, não deixando para trás quem já se habituara à leitura diária, semanal, quinzenal ou de outra periodicidade, em papel, a forma mais aceite para uma certa classe de longevidade.
Mas a tal modernidade que nos facultou os meios tecnológicos ao nosso alcance, quase para todos os gostos, veio também dizer-nos que a nossa adaptabilidade a uma nova vida terá de ser um facto a assinalar, terá se ser uma realidade.
No ano de 1963 nascia este jornal algarvio – O Olhanense – pela pena, coragem e persistência de Homens de rija têmpera, possivelmente aguentando algumas situações mórbidas na crítica próprias de um trabalho em movimento, mas de certeza muitos mais na contemplação positiva das páginas deste periódico, ao longo dos seus já 57 anos de existência.
Muitos jornais já nasceram e morreram durante este período. O Jornal O Olhanense tem perdurado na envolvência do amor votado ao Clube da sua Terra, e que é a base da sua génese, mas também para além do desporto, pois singra por uma veia cultural que irradia pela zona algarvia e outras abrangências.
Quem gosta de cultura e não é da zona onde o jornal tem os seus mais fervorosos leitores nota melhor as linhas direcionais que lhe incutem um cunho de satisfação para o periódico de uma região.
Por isso mesmo é de louvar a tenacidade de quem é resiliente e nalguma disrupção consegue manter o mar em águas tranquilas. Assim os que estão nas margens podem com O Olhanense desfrutar da sua leitura, ou ainda que seja do folhear das suas páginas quinzenais.
Um periódico tem muito trabalho, e muitos talvez não imaginem, mas quando o jornal tem no seu seio um Homem que se multiplica por várias vertentes do jornalismo, desde os artigos de opinião, memórias interessantes dos tempos d’outrora, entrevistas, o assim dizer “faz tudo”, é demasiado árduo para quem faz de três em um, ou até de mais. Já aqui referi em tempos que gostaria de ver também a colaboração feminina, como já tinha visto e gostado.
Da Beira Baixa e Serra da Estrela para o Algarve, em redor de Olhão, tive o privilégio de poder trazer algumas linhas do que vou escrevendo há mais de meio século,  e no Olhanense já lá vão mais de 25 anos, fruto de Personalidades que me souberam acolher na sua generosidade, numa ocasião em que escrevia a história do clube da minha Terra – a Covilhã, no contacto com a pesquisa de atletas que jogaram nos dois clubes (o mais popular Cabrita). Muito fiquei a dever na sua estima a uma figura que comigo colaborou telefonicamente, que nunca conheci, que já não está no mundo dos vivos, mas por ele tenho o maior respeito – Augusto Ramos Teixeira.
Depois viria Herculano Valente e, quando do seu falecimento pensei ver terminada a minha colaboração neste periódico, outra mão de imediato se estendeu, a do atual Diretor Adjunto, Mário Proença, por quem a minha consideração é enorme face ao que verifico nas suas tarefas em prol do Jornal. É obra!
A afabilidade do seu Diretor, José Isidoro Sousa, é para mim de incentivo a poder dar o meu modesto contributo para uma das páginas deste periódico, a quem desejo o maior sucesso, não só n’O Olhanense, jornal, mas mormente no Olhanense, clube do coração dos olhanenses, por quem tenho grande simpatia desde miúdo, quando o via deslocar-se à Covilhã para jogar nos idos tempos da I Divisão Nacional. Lembro-me de Filhó, Reina, Parra e outros. Saudades!
Os meus parabéns para o Jornal O Olhanense, e seus Obreiros, e que todos os anos possa acender a velinha do seu aniversário, mesmo que virtual, na continuidade de bem servir as gentes algarvias através dos conteúdos das suas páginas.

João de Jesus Nunes
jjnunes6200@gmail.com

(In Jornal "O Olhanense", de 15-05-2020)

12 de maio de 2020

ENTRE OS MEDOS E A ÂNSIA LIBERTADORA


Esta insólita vivência por que estamos passando nossos dias só é semelhante, em parte, aos famigerados tempos da ditadura no nosso País. Similar ao Estado Novo (paradoxalmente pleno de velhos no pensamento e no espírito) no que concerne ao medo e ao isolamento. Os receios constantes de poder ser dado um passo em falso, caindo-nos denúncias por não sabermos dizer amém às “bênçãos” salazaristas; da cadeia como quem visita um doente no hospital, ou vai ao dentista, do castigo à laia do Santo Ofício da Inquisição, das infundadas acusações de quem, a troco de benesses, apontava com um olhar virulento para o seu semelhante, que muitas vezes nem conhecia. Mas, em lugar cimeiro, da tenaz tentativa de isolar o pensamento do cidadão. Só poderia haver o pensamento único, sob a batuta do senhor todo poderoso desses tempos tenebrosos. Mas o povo português tinha bem presente que “não há machado que corte a raiz ao pensamento”.
Neste respirar de Abril, que já passou mas se mantém sempre presente, pela primeira vez nublado por uma força estranha aos humanos, a ânsia libertadora de “Vamos todos ficar bem” é ainda pesarosa quando compreendemos as afirmações dos responsáveis pela saúde em Portugal, e dos nossos governantes, de que “a pandemia continuará a fazer parte das nossas vidas”.
Felizmente que Portugal conseguiu antecipadamente ultrapassar a barreira da vil tristeza de governantes de feiras e mercados, de gritarias sarcásticas, para líderes conhecedores das suas obrigações para com os homens e as mulheres deste País – o Povo. Apraz perguntar, com veemência, se ao leme dos destinos de Portugal, nesta estranha fase pandémica estivessem os anteriores homens que mandaram a juventude às urtigas para lá das fronteiras inexistentes (mas que temporariamente agora de novo surgiram), como estaria a situação, no âmbito da prevenção e atuação na saúde deste Portugal à beira-mar plantado?
Se nestes tempos anómalos estivessem ainda à frente de Portugal, a “Gaspar de saias” assim intitulada pelo homem que “revogou o irrevogável” em vez da incontestável competência de Mário Centeno, como teriam sido decididas as normas de atuação para não se cair num desastre financeiro antecipado?
Se agora nem tudo pode correr bem, como se desejava, o que seria com Cavaco na presidência de Portugal em vez dum homem que sabe tralha para acalmar, e decidir como se impõe, Marcelo de sua graça, em vez daquele homem que uma vez disse que podíamos plenamente confiar no BES, e, logo a seguir, ficou minado de vírus?
Confinamento compreendido, não só por nós portugueses, como por quase todo o planeta. É que disto só se ouvira falar nesta grande escalada de sofrimento e mortes, em páginas da história de há mais de 100 anos, e similarmente há mais de 700 anos.
Na comparação com Caxias, Peniche, Tarrafal, esse isolamento de quem nem sequer era assintomático à rebeldia, bastava uma acusação à laia inquisitória, para ser confinado a um espaço de sofrimento. Temos alguns casos na nossa Terra, sobejamente conhecidos.
É por isso que, os 46 anos de democracia que foram celebrados duma forma imperiosamente inédita, não tendo ainda ultrapassado os 48 anos de ditadura, se revestiram dum significado forte, ainda que muitos já tenham nascido em ambiente democrático e não tenham sentido na carne ou no espírito os satânicos vírus salazaristas e de seus verdugos.
A seguir ao ditador, nem Caetano na “Primavera Marcelista” se conseguiu impor, nem as “Conversas em Família” iniciadas em 8 de janeiro de 1969, em 16 episódios, na televisão de um único canal, a preto e branco, tiveram eficácia. Tão só, na altura, o programa poderá ter revolucionado a televisão portuguesa, uma vez que foi com o mesmo que se usou um teleponto pela primeira vez. O aparelho, que nem no Telejornal era usado, foi a forma encontrada pela equipa de produção para que as falas e os gestos do primeiro-ministro (então designado presidente do conselho de ministros) parecessem mais naturais.
E não obstante uma abertura cultural antes do 25 de Abril, pela mão do ministro Prof. Veiga Simão, com a extensão do ensino superior no País, os principais homens do pensamento mantinham-se lá longe, fora da Terra-Mãe.
Ainda os receios desta pandemia não se dissiparam, e já outros estão no seu enfiamento:  a crise económica, com o seu cortejo de desempregados, falências e reduções de trabalho, não obstante o hercúleo esforço governamental, é outra pandemia, pois leva ainda a doenças mentais, associadas a reações depressivas, assim como o desemprego de longa duração, em que, ao fim de algum tempo, a pessoa desmoraliza, sente-se inútil. A ociosidade forçada acaba por se refletir negativamente na saúde mental. E, conforme um dia referiu Clara Ferreira Alves, no Expresso: “Através do progresso tresloucado, a sociedade acaba por criar o seu próprio ‘vírus social’ que vai sofrendo mutações em ciclos progressivamente mais rápidos, impedindo que o nosso organismo reaja, aumentando o número de inadaptados; ou seja, os que sofrem de depressão e ansiedade”.
Vamos ter esperança para que tudo possa vir a correr pelo melhor, e que desapareça bem depressa, sem retornar, esta maldita pandemia, naquela ânsia libertadora – voltar ao novo natural, quer dizer, podermos ser mais compreensivos uns com os outros, já que muito aprendemos com este estado mórbido, e continuamos a aprender.


(In "Jornal fórum Covilhã", de  12-05-2020)

6 de maio de 2020

UMA NOVA CIVILIZAÇÃO

Face ao insólito por que o planeta foi acometido, levando ao exasperar da quase totalidade do tempo por que se vai passando, confinados ou desenfiados, em labor presencial ou teletrabalho de todos os dias, somos constrangidos a ver, a falar, ler, ouvir, desenganar, acreditar ou desconfiar, do muito que se nos depara sobre este tema da pandemia que nos continua a chegar.
Uma boa parte de todos nós, entre os quais me incluo, já teve a experiência de tristes e ledas madrugadas, de navegar entre ventos e marés, de voar além das nuvens, na longevidade dos dias de hoje, que, imperiosamente, por força da ciência e da técnica conseguiu dilatar o tal aumento de vida.
Da história do mundo, da vivência cristã para os crentes, da criatividade e das descobertas, muito nos tem chegado pela imensidão de oportunidades que nos foram e são oferecidas.
Mas!... Sempre o traiçoeiro mas!...
Se já na Antiguidade houve várias civilizações, com conquistas e derrotas, dominação de outros povos e no imperar de outras culturas, na nossa Civilização estávamos, apesar de tudo e de outros medos – os climáticos, por exemplo – em uma grande parte da humanidade, numa situação de alguma serenidade, ainda que, desde há muito, outra parte do globo se visse mergulhada no flagelo das guerras e da fome. Disso é o exemplo das migrações.
O Homem é um ser dotado de dons que tão bem soube aproveitar para a ciência em prol do desenvolvimento humano, mas que não deixa de ser uma insignificância perante um invisível animal que se infiltra diabolicamente no mesmo ser humano para o destruir.
Crentes ou não crentes, é indubitável que esta força destruidora é como comparar o impulso vencedor entre David e Golias.
Mas a Civilização atual sempre contou com homens responsáveis, e incansáveis, nas organizações internacionais criadas exatamente para o bem do próprio Homem que vive neste planeta, como a Organização das Nações Unidas, a Organização Mundial de Saúde, entre outras. Infelizmente, sobre o mundo de hoje ainda existem líderes sem maturidade emocional, de bradar aos céus, que destroem a Terra que é de todos, quais Nero ou Hitler.
Já houve outras pandemias no Mundo, por que nós, viventes, felizmente não passámos, mas ouvimos aos nossos antepassados contar, como a gripe espanhola e a peste negra, para além das guerras mundiais. Foi nestas crises que se fizeram grandes líderes, como Churchill e Roosevelt. Portanto, só os grandes líderes atuais, responsáveis, poderão ajudar a debelar esta crise mundial.
Depois de um annus horribilis em boa parte do Mundo, e da Europa, cujos contornos foram esquecidos, ou colocados em segundo plano face ao surgimento do medonho bicho, os apitos a rebate são agora voltados para um novo normal. Ninguém parece capaz de dizer como será este novo normal “porque a mensagem é que será ditado pelas restrições impostas pela pandemia e não pelas nossas escolhas e preferências”.
É bem certo que a história é pródiga de fatalidades, desde as naturais às causadas pelo homem. No entanto, perante o homem, nada mudou quando teve várias oportunidades ao longo da sua vida.
Muitos argumentam que sempre nos soubemos adaptar às circunstâncias, ultrapassando todas as vicissitudes por que o homem passou: guerras, catástrofes naturais, mudanças de clima, doenças, perseguições.
Se é certo que é verdade também o é que houve civilizações que acabaram e exatamente quando parecia estarem no ponto mais alto do seu desenvolvimento e da sua expansão. Vejamos, por exemplo, Roma que tinha atingido um desenvolvimento técnico impensável, levando a sua cultura a pontos remotos do Globo. Mas se a ascensão tinha sido lenta e difícil, a queda do império foi rápida.
A Civilização Ocidental também conheceu na segunda metade do século XX e neste início de século um desenvolvimento tecnológico notável e a sua cultura universalizou-se. Mas, no entanto, a natalidade caiu e as sociedades começaram a envelhecer. A família começou a desfazer-se com a violência doméstica a alastrar.
Será que a nossa civilização, tal como a conhecemos, pode estar a acabar? Isto, evidentemente, não no ser humano mas na sua cultura que atingiu o seu ponto mais alto no Renascimento e que desde aí entrou em declínio, conforme questiona José António Saraiva, no “Sol”.
É certo que a tecnologia continuou a desenvolver-se, ultrapassando todos os limites que era possível imaginar; mas isso também acontecia com as civilizações que morreram: estavam no ponto mais alto do seu desenvolvimento técnico.
Bom, o modo de vida que levávamos, para já, acabou, e não se vislumbra que volte ao que era, pelo que se espera por um novo normal, a que teremos que nos habituar.

(In "Notícias da Covilhã", de  06-05-2020)

22 de abril de 2020

O SENTIDO DAS PALAVRAS


Mais perto de sete décadas e meia de vida que dum número redondo, não consigo parar de escrever. É que escrever é viver, é ter sentido de vida. Fico melancólico quando vejo desaparecer escritores e cronistas de eleição, como foram Eduardo Prado Coelho, em 2007, e agora Vasco Pulido Valente. Deles guardo algumas crónicas, não esquecendo, deste último, a “Geringonça”.
Todas as manhãs dou uma vista de olhos pelos jornais online, sendo que de alguns fica para mim o registo de algo interessante quão de importante. Fico deslumbrado quando alguma coisa coincide com as muitas minhas memórias que guardo. Memórias que para os jovens pouco ou nada lhes diz. Já a sua valorização tem eco nas gerações de 50 e 60, se bem que de alguns, já nas suas licenças vitalícias, por vezes duma forma estranhamente precoce, preferem o comodismo do sofá perante os canais televisivos.
Não sou contra as redes sociais nem as formas digitais de agora a comunicação social se ver obrigada a estar presente. Isto terá estado na futurologia das comunicações. No entanto, o cheiro e o tato do papel são ainda de grande preferência por muitos, independentemente das novas tecnologias.
Sobre este assunto me referi no dia 15 de março de 2012, num painel que integrei, na Universidade da Beira Interior, no âmbito dum fórum sob o tema “O Futuro do Jornalismo”, cuja alma foi o sobejamente conhecido jornalista Adelino Gomes.
Li a crónica de Lopes Marcelo, no número de 19 de fevereiro, da Gazeta do Interior – “Habitar as Palavras” – que muito apreciei, como, aliás, todas os seus artigos, assim como da generalidade dos cronistas deste semanário, o que me levou a puxar do baú das minhas memórias, tendo em conta, como refere, “Mais de duas centenas de crónicas. Já quase duas décadas de encontros mensais com os leitores da Gazeta”. Gostei, fez-me sentir a nostalgia de quando comecei a escrever no Notícias da Covilhã, em 14 de novembro de 1964, depois em mais de 30 jornais e revistas da Covilhã, Região Beirã e do País, até aos dias de hoje, já lá vão 56 anos, perfazendo 605 crónicas, artigos de opinião e algumas notícias.
Hoje, com regularidade mensal, são dois semanários desta região, um quinzenário algarvio e o editorial de um boletim trimestral.
Mas também tive o prazer de escrever na Gazeta do Interior, a primeira vez em 17 de maio de 1990, há quase 30 anos.
Não poderei esquecer um amigo que há pouco partiu e que nesta região se havia radicado durante muitos anos e deixou marcas do seu jornalismo, o meu amigo José Maria Ventura daa Silva Balonas.
Votos do maior sucesso para a Gazeta do Interior.

João de Jesus Nunes
jjnunes6200@gmail.com

(Texto enviado à "Gazeta do Interior", em 24-02-2020, mas que não teve publicação)

9 de abril de 2020

PONHO A MESA PARA QUANTOS?


Era assim ainda há pouco tempo, mesmo antes da primavera raiar envergonhada este tempo pandémico.
Todos os dias perguntava à esposa quantos netos vinham almoçar para adequar a mesa aos respetivos lugares. A universitária do Porto dava-nos a alegria de nos ir telefonando enquanto o da UBI várias vezes anunciava previamente ir almoçar com os avós. Já as mais novas, do Secundário, eram as mais habituais, sempre no prazer acolhedor da avó, já que era o avô que habitualmente tinha o encargo de as ir buscar, aquando da impossibilidade dos pais.
Há poucos anos um político procrastinou que o diabo vinha aí em setembro (daquele ano, entenda-se…) e o diabo não apareceu, pós vivência de uma crise política e económica. Mas no âmbito dessa crise, toda a gentinha podia livremente ir ao quiosque comprar o jornal ou a raspadinha (na sua maioria), dar um abraço a um amigo, beijar os filhos e os netos e as outras pessoas familiares e amigas.
Vivia-se num horizonte com pezinhos de lã a galgar os caminhos das perspetivas desejadas para o ambiente familiar, profissional e social.
De um momento para o outro, uma nuvem bem lá longe, para os confins asiáticos, pressagia algo de inconfundíveis diabruras de âmbito planetário, na realidade de um bichinho microscópico. Bate à porta da China e vai alongando a sua virulência sem que haja fronteiras ou impedimentos, por países fora, com um forte salto para o mais velho Continente do mundo. Em 11 de fevereiro, os jornais que ainda se podiam comprar nos tais quiosques, anunciavam que “Portugal tem risco de importação de coronavírus ‘muito baixo’”.
Puro engano, tal como o do político atrás referido, mas ao contrário, aquilo que de presságio não passava, afinal foi uma realidade jamais vista por todos nós.
Não são poupadas as famílias, os amigos, o culto religioso, as escolas, tudo o que possa proporcionar contacto social, num tsunami como alguém intitulou, que obriga ao encerramento de quase tudo o que são atividades económicas ficando somente as necessárias à subsistência das gentes nas várias vertentes da indispensabilidade.
Chegara então o tempo de ter tempo, jamais no pensamento das correrias loucas da vida.
Porquê falar do Brexit, dos casos da justiça em Portugal, nas várias “operações” a decorrer, da angolana Isabel dos Santos, do hacker Rui Pinto, da Primavera Árabe, dos problemas com que se debate o papa Francisco, das cimeiras climáticas, quando, de um momento para o outro, as gentes deste Planeta e deste retângulo à beira-mar plantado se vêm forçadas e separar-se confrangedoramente, e a recolherem-se em casa e nos hospitais.
Podemos considerar como que a teoria dos cisnes negros, conforme já me referi em 12 de fevereiro noutro periódico, conceito este para designar fenómenos raros que têm baixa probabilidade de ocorrência mas que, quando aparecem, mudam tudo. É o caso do coronavírus, que mata e cada morte é uma perda que nada pode reparar. No entanto, esta enorme pausa é má para a economia mas boa para o planeta. Tantas guerras, tanta indiferença na participação das cimeiras climáticas quando um bichinho maldito arrisca proporcionar que o ano 2020 seja o ano da queda significativa das emissões de CO2 no mundo. Temos de deixar de viver numa civilização em que a pressa é tudo, o movimento é tudo e o objetivo não é nada.
Quando surgir a bonança, os que resistirem, que possam refletir nesta consciência de pensar que uma pessoa sozinha não se salva porque todos vão no mesmo barco, como disse o papa Francisco, e que possam transmitir este forte pensamento às suas gentes e vindouros.
Uma grande lição para todos nós! Que a saibamos aproveitar.

(In "Notícias da Covilhã", de 09-04-2020)

8 de abril de 2020

REPENSAR A NOSSA VIDA


Na altura em que escrevo estas linhas, acabo de ouvir, em vozes de excelência, na RTP, a entrevista da jornalista Fátima de Campos Ferreira ao antigo Presidente da República, General Ramalho Eanes, sobre a pandemia de Covid 19.
Foi um lenitivo para os dias de emergência que vou vivendo em casa com a minha esposa, e com os filhos e os netos à distância de um telefonema ou vídeo chamada, ou então numa fugaz conversa do passeio da rua para a janela da nossa casa.
Este estado de emergência acaba de ser renovado até 17 de abril, como se impõe.
Todos já passámos por crises, umas maiores que outras, a vários níveis (guerra do Ultramar, situações climatéricas, e mesmo algumas epidemias – eu tive a gripe asiática quando andava na 4.ª classe) mas nunca pensando que iríamos passar por forçosamente termos que repensar a nossa vida, neste inconformismo do porquê de, em pleno século XX, verificarmos que o Homem é uma insignificância perante a minúcia microscópica de um vírus, que não se consegue debelar, remetendo-nos assim para as pandemias de outros tempos bem longínquos, ou, aquela que mais se vai assemelhando ao coronavírus, nas memórias da gripe espanhola ou pneumónica, de há 102 anos.
O mundo está a ver-se obrigado a desenvolver esforços quase sobrenaturais para acudir a este flagelo na humanidade, onde os braços e os equipamentos urgentíssimos para acudir aos doentes são mais que insuficientes, a par das recomendações e decisões de cada país para que sejam cumpridas as normas de evitar o contágio dos que ainda se encontram sãos.
Jamais estas últimas gerações pensariam vir a passar por uma situação daquela que se está vivendo (alguns quase que brincando com o fogo porque “esta pandemia é só para os idosos…”), mas ela é, para todos nós, quase inédita, nos termos em que o sofrimento de muitos dos atingidos é duma crueldade tal que nem os mais queridos podem ser objeto de uma atenção, de um cumprimento, de uma despedida para o eterno.
Já meu Pai contava que, na sua terra natal, Bogas de Baixo, do concelho do Fundão, no tempo da pneumónica, ouviu dizer que o coveiro, não dando lugar a tanto enterramento, e no enorme receio de contágio, chegou ao ponto de fechar os olhos ao enterrar um moribundo, que ainda mexia.
E no Brasil (no qual atualmente Bolsonaro desvaloriza esta pandemia), também em 1918 a gripe espanhola espalhou morte e pânico, chegando-se ao ponto de, como os coveiros em grande parte estavam acamados ou haviam perecido, a polícia saiu às ruas capturando os homens mais robustos, para serem forçados a abrir covas e sepultar os cadáveres, estendendo-se o trabalho pela madrugada adentro.
É por isso que é terrível ver-se o desespero dos médicos espanhóis que refletem sobre a possibilidade de deixarem salvar um doente de 50 anos em detrimento de outro de 80.
Certo é que já se sentiram vozes prontas a colocar nos pratos da balança uma escolha entre a economia e a sobrevivência, dispostas até ao sacrifício de alguns porquanto se trata das vidas das pessoas mais velhas, e quando, afinal, se a vida de um idoso não vale o sacrifício da economia, é, na opinião do jornalista Paulo Dentinho, “mandar às urtigas o juramento de Hipócrates, essa promessa solene dos médicos de consagrar a vida ao serviço da humanidade”.

O medo é também uma faceta lúgubre por que quase todos passamos face a este monstro paradoxalmente microscópico.
Depois da China, o mar de lágrimas e choros que atingiu o Continente mais antigo, corre por todo o globo, num devastar de humanos.
“A peste voltou à Europa, e já não nos lembrávamos de que podia. Tenho medo de que o vazio da Praça de São Pedro que nos gelou o coração ao ver nela o papa só, a dizer-nos perdidos, frágeis, desorientados e da noite e do silêncio que cobrem o mundo, seja, mais que uma metáfora, um presságio”, nas palavras da jornalista Fernanda Câncio.
O ano de 2020 irá ficar na memória de todos os que sobreviverem a esta pandemia. E só gentes mentecaptas poderão deixar de pensar de que nada valem os grandes projetos, os desejos de possuir mais que o vizinho, a ganância de dar nas vistas pelo que possuem, o desprezo na contribuição para a desestabilização do equilíbrio energético no planeta, produzindo aquele fenómeno que dá pelo nome de aquecimento global, mandando às malvas as Cimeiras sobre o Clima, o olhar sobranceiro sobre os que mais necessitam em contraponto com as suas algibeiras plenas de riqueza, quando, afinal, de um momento para o outro, tudo pode parar, quando menos se espera. Tudo pode parar e modificar drasticamente os nossos hábitos e os nossos costumes. Também as nossas zonas de conforto e tudo o que jamais seria impensável não acontecesse.
Mas, banhado de algum ceticismo, mantenho uma ténue esperança de que esta pandemia nos faça emendar o que fazemos de errado, valorizar mais os outros de quem neste momento nos separamos concentrando-nos mais no que de melhor nos une.
Espero que estas minhas dúvidas se dissipem e que os medos de no-pós pandemia continuar a ser tudo mais do mesmo não corresponda à realidade. É que os argumentos que a história nos mostra é de que todas as grandes tragédias nada mudaram a nossa natureza; todos os grandes medos foram sistematicamente esquecidos.

(In "Jornal fórum Covilhã", de 08-04-2020)

20 de março de 2020

DE G3 EM RISTE, O POVO ENTROU NA HISTÓRIA


Este é mais um número do nosso Jornal. Corresponde sensivelmente ao segundo trimestre deste ano. Aqui se inserem duas datas importantes entre os antigos Combatentes. O dia 9 de Abril comemora o ataque em larga escala dos alemães na batalha da Flandres, em 1917, onde começaram a lutar os 55 mil homens do Corpo Expedicionário Português (CEP) que também combatiam em África. O País não se encontrava empenhado no esforço de guerra, dado que o desejo político dos dirigentes não correspondia às realidades militares, nem à vontade da população. O ataque em larga escala lançado pelos alemães na madrugada daquele dia deu início à batalha de La Lys, de dolorosa memória para o exército português. As baixas do CEP estimaram-se em 1341 mortos, 1932 desaparecidos, 4626 feridos e 7740 prisioneiros. O País atravessava uma grave crise económica e financeira com aflitivas repercussões sociais.
Em 1924 foi oficializada a Liga dos Combatentes da Grande Guerra, através da portaria 3888. Instituição de utilidade pública, estatutariamente, tinha por principal função “proteger e auxiliar, através de pensões e socorros”, todos os militares do Corpo Expedicionário Português e respetivas famílias. A partir de 1965 passou a designar-se apenas Liga dos Combatentes e a aceitar também a inscrição dos mobilizados para a Guerra Colonial. Este dia, 9 de Abril, é também considerado Dia do Combatente.
Já não existe nenhum deste tempo mas subsistem, sim, das guerras coloniais, que se iniciaram na madrugada do dia 4 de fevereiro de 1961. Estas só terminariam com o dia 25 de Abril de 1974, por via do derrube do regime ditatorial de Salazar e Marcelo Caetano. As primeiras grandes colunas militares portuguesas partiram para o norte de Angola, para dar resposta aos massacres da UPA, em 13 de maio de 1961. Seria a guerra de uma geração – guerra do ultramar ou guerra colonial, ou ainda guerra de libertação, como a intitulavam os movimentos africanos.
Mas quero referir-me ao que dá força ao título deste texto. Durante quase meio século, a G3 foi a arma dos soldados portugueses. Fez a Guerra Colonial e o 25 de Abril, marcou o último ciclo do império português. Tornou-se ícone, lenda e objeto de um culto difícil de explicar. Por ser uma arma distribuída por todos, foi como se, de G3 em riste, o povo tivesse entrado na História, como protagonista. Não isento de culpa, na guerra, nem de heroísmo, na libertação. Entretanto, a G3 já saiu de cena.
A espingarda automática de calibre 7,62 mm que equipou as Forças Armadas portuguesas, desde os princípios dos anos 60 até outubro de 2019, tornou-se de facto um ícone e uma lenda. Ficou, na realidade e na imaginação, ligada à Guerra Colonial, mas também à Revolução do 25 de Abril, às lutas do PREC, ao golpe do 25 de Novembro, ao roubo de armas de Beirolas, aos piquetes da Maioria Silenciosa, às conspirações do caso Camarate, às missões militares portuguesas no Kosovo e em Timor-Leste.
Em várias ocasiões, esteve dos dois lados da barricada. Aconteceu no 25 de Novembro de 1975, quando se defrontaram os esquerdistas de Otelo e os moderados de Eanes. Era a arma de Salgueiro Maia e das forças do regime. Marcou presença na Reforma Agrária, quando as forças do Comando Operacional do Continente, o Copcon, apoiaram a ocupação das terras, e, mais tarde, quando a GNR garantiu a devolução das terras aos antigos proprietários.
Nas colónias africanas, confrontou-se quase sempre com a Kalashnikov, sua grande rival, usada pelos independentistas. Mas também esteve nas mãos das Forças Armadas de Libertação Nacional de Timor-Leste, as Falintil, na luta contra as forças indonésias de ocupação.
Segundo Pedro Marques de Sousa, tenente-coronel, professor de História na Academia Militar, a G3 acompanhou o último ciclo do império português. “Estava nos primeiros combates em Angola, e no contingente português de manutenção de paz em Timor, em 2000”. Agora, o seu desaparecimento fecha o ciclo para sempre.
Esta arma é o antepassado direto da G3. “Não é alemã, como geralmente se pensa. A origem da G3 é espanhola. Os espanhóis começaram a produzir a arma em 1956. Depois venderam a licença à Holanda, para produção em série.”
Quando as primeiras ações subversivas se iniciaram no Noroeste de Angola, o regime de Lisboa não estava preparado para a guerra que decidiu lançar nas colónias de África. Todo o treino das Forças Armadas portuguesas era feito nos moldes das duas guerras mundiais. Os primeiros contingentes que desembarcaram em Angola levaram armamento pesado, veículos obsoletos e treino convencional, como se fossem combater na guerra das trincheiras de 1914. Quando se percebeu que se tratava de um conflito de outra natureza, com caraterísticas de guerrilha e de guerra subversiva, foi preciso mudar tudo. E rapidamente. A guerra subversiva exigia equipamento leve, ágil e rápido, compatível com o que já estava a ser usado pelos movimentos de libertação nos três teatros de guerra. As primeiras forças portuguesas a chegar a África ainda levavam as velhas espingardas Mauser que equipavam, numa versão de 1937, as Forças Armadas. Os guerrilheiros que lutavam pela independência de Angola, Moçambique e Guiné, maioritariamente apoiados pela União Soviética, usavam espingardas automáticas AK47, conhecidas por Kalashnikov. Ou seja, os portugueses tinham armas da Segunda Guerra Mundial, enquanto os guerrilheiros já possuíam armamento típico da Guerra Fria.
A guerra da Argélia, que ainda decorria, foi o modelo para a guerra colonial portuguesa. Nas opções de armamento, prevaleceu a Alemanha, com a aquisição da licença para o fabrico de G3, que passou a fazer-se em Portugal na Fábrica de Braço de Prata, que viria também a exportar para vários países. Foram produzidas, entre 1962 e 1988, naquela unidade fabril da zona oriental de Lisboa, 442 mil espingardas G3, além de outro armamento e munições, como a metralhadora HK-21, também sob licença, ou a pistola metralhadora de 9 mm e o morteirete de 60 mm, ambos de marca original FBP (Fábrica de Braço de Prata). Fechou em 1991.
A introdução da G3 no Exército português implicou importantes alterações táticas, bem como de organização. “A espingarda automática é uma arma individual, é para todos. Antes, quase todas as armas exigiam uma operação coletiva”.
A velha Mauser tinha carregadores de cinco munições. “Podiam usar-se dois num minuto, numa cadência de dez tiros por minuto. A G3 tem carregadores de 20 balas e permite disparar 600 tiros por minuto. É uma revolução”. A G3 permitiria combater com grupos mais pequenos. “Uma secção, de 12 homens, comandada por um sargento, passa a ter um poder de fogo enorme”. A G3 transmite uma inebriante sensação de poder, mas também de dependência. De liberdade, até de heroísmo, mas, ao mesmo tempo, de insegurança. O medo de perder a arma e a alma.
Uma G3 em riste tinha exatamente o peso da lei e da boa consciência. E um preço: a responsabilidade individual. A G3 devolve ao soldado o protagonismo.
Na instrução que se dava aos soldados era-se particularmente exigente nas questões de segurança. Retirar o carregador antes de tirar a bala. Limpar a arma sempre sem as munições dentro. Culatra atrás e com a arma virada para cima. Dar um tiro para confirmar que não há bala na câmara, antes de tirar a cartucheira. No mato, nunca disparar de rajada, para não ficar sem munições, e atirar sempre ao alvo.
Adeus, G3. Se ao menos pudesses servir para combater o novo coronavírus!...

(In "O Combatente da Estrela", n.º 118, de março/2020)

11 de março de 2020

O POUCOCHINHO É MUITO


Pouco a pouco vamos encorpando o número de momentos marcantes ao longo das nossas vidas.
A expressão ficou-me retida há uns anos. A caminho da pré-primária, meu Neto embirrava com a escola. Ao tentar animá-lo dizia-lhe que era pouquinho tempo, que logo vinha para casa. Pelo caminho, insistia comigo: “Ó avô, mas um pouquinho é muito, não é?
Chega a vez de António Costa. Então presidente da Câmara de Lisboa. Preparava o assalto ao seu partido. Entendeu que a vitória de António José Seguro, de 31,4 por cento com que ganhou as eleições europeias em 2014, foi por “poucochinho”. O resto já se sabe. Apeou Seguro numas primárias. E é líder do PS desde então.
Surge o coronavírus na China. A OMS emite o primeiro alerta para a doença em 31 de dezembro de 2019. Depois das autoridades chinesas notificarem casos de uma misteriosa pneumonia na cidade de Wuhan. Metrópole chinesa com 11 milhões de habitantes. Sétima maior cidade da China. E a número 42 do mundo. Na China, em 9 de janeiro de 2020, um homem de 61 anos foi a primeira vítima. 41 pessoas já haviam sido infetadas. Era ainda poucochinho para aquela vastidão de gente. O medo não se instalara tanto como agora, numa imensidão de casos de infeção e mortes. Extravasando já a China e dispersando-se por quase todo o planeta. O poucochinho rapidamente se transformou no muito.
Noutro contexto, continuamos a assistir a muitos “poucochinhos” de pedaços da nossa vivência. De um momento para o outro transformam-se em “muitos”.
Duas dezenas de dias marcantes da última década deste século. Parcialmente já me referi por outras ocasiões. Parecem poucochinhos momentos. Mas transformaram-se numa enormidade de situações: adversas ou menos conseguidas.
As Primaveras Árabes em 2011. Começaram aos poucochinhos. Mas depressa alastraram. Não mudaram a História. Mas deixaram bem impressa na memória coletiva a vontade de os povos se apoderarem dos seus destinos. Eram acontecimentos que prenunciavam uma mudança histórica no mundo árabe. As imagens prendiam milhões de pessoas aos ecrãs das televisões. Seguiu-se uma interminável ressaca. Culminou na tragédia síria. À Tunísia, seguiu-se a Argélia, Egipto, Iémen, Bahrein, Líbia. Um fenómeno de contágio. Foram temas comuns: a persistência de regimes autocráticos, ditadores há décadas no poder, visibilidade da corrupção, uma imensa frustração social.
A troika foi chamada a Portugal em 2011. O seu programa ajudou a definir o rumo económico, social e político do País, aos poucochinhos. Mas o aceleramento não tarda. Do poucochinho passa-se ao muito, muito mesmo para além da troika. Dia 6 de abril desse famigerado ano. O pontapé de saída para mais uma era de austeridade. É poucochinho o que a generalidade dos portugueses recebem. Tornar-se muito grande o rasgão das suas algibeiras. Do “desvio colossal” ao “enorme aumento de impostos”.
Em 2019, a Cimeira do Clima – COP25. No último dia com tudo em aberto. Assim chega a 25ª. Conferência das Partes (CP25) da Convenção Quadro das Nações Unidas, em Madrid, com uma incógnita: Será mesmo o seu último dia? Isto não é poucochinho?
Dia 13 de março de 2013. Anúncio ao mundo da escolha de 115 cardeais reunidos em conclave. O novo Papa é um jesuíta de 76 anos – o argentino Jorge Mario Bergoglio. Adota o nome de Francisco.
Põe a Igreja a discutir a homossexualidade, o aborto, o fim do celibato, a ordenação de mulheres. Força o clero a encarar os abusos sexuais. Ao fim de oito anos não mexe na doutrina da Igreja. Alimenta quilómetros de notícias. Já na qualidade de Papa escapula-se do Vaticano para comprar óculos e sapatos. Trocado a limusine por um carro utilitário. Renuncia ao luxuoso apartamento papal. Reside com os funcionários da Santa Sé na Casa de Santa Marta.  Despreza os velhos símbolos do poder eclesial. Em vez dos famosos sapatos vermelhos calça uns velhos sapatos pretos. Recusa fechar as portas da Igreja aos divorciados recasados e aos homossexuais. Obriga padres, bispos e cardeais a olharem as vítimas olhos nos olhos. Critica a opulência em que se refestelam muitos dos representantes da Igreja Católica. Dos bens materiais e condições sociais quis poucochinho para ele.
Ano 2014. Queda do BES. A sua história é a história de um banco rico que afinal era pobre. O BES era afinal um castelo vazio. Com acionistas sem capital e ativos sobrevalorizados. Os supervisores (e os governos) eram distraídos. E durante duas décadas ignoraram os sinais de falta de solidez do grupo. E as falhas de idoneidade de alguns gestores. As mensagens de tranquilidade, poucochinhas, tinham partido nas vésperas do resgate de Belém, de São Bento e do Banco de Portugal. Escondiam a realidade: o Banco estava insolvente. Cavaco Silva enganou-nos. O poucochinho transformou-se num muito de problemas, muitos mesmo.
Foi num domingo de verão, a notícia em direto nas televisões: um dos bancos mais importantes da história de Portugal estava prestes a cair.
10 de novembro de 2015. António Costa quebrou “o Muro de Berlim”. Cavaco apela à rebelião dos deputados do PS contra a estratégia de alianças à esquerda que Costa está a construir. Assinaturas de António Costa, Catarina Martins, Jerónimo de Sousa e Heloísa Apolónia no papel. O PS apresenta a moção de rejeição. A esquerda parlamentar levanta-se em conjunto. Aprova-a. O Governo Passos – Portas cai. É a estreia da nova maioria. Acabou-se o poucochinho.
A queda do Governo de Passos leva Costa a primeiro-ministro. Portas faz, durante mais de vinte minutos, um sistemático e violento ataque ao líder do PS. Do púlpito do hemiciclo de S. Bento, Portas afirma: “Pedirei emprestado a Vasco Pulido Valente a definição da vossa manobra. Não é bem um governo, é uma geringonça.”
12 de dezembro de 2015 – O Acordo de Paris foi um marco. Há uma grande alegria. Adotado um acordo para limitar as emissões de gases que aquecem o planeta. Mas o mundo está longe de cumprir essas metas. A COP21, em Paris, fechou o primeiro documento. Todos os países do mundo se comprometem com metas de redução de emissões de gases de estufa. Foi um feito da diplomacia francesa, mas também produto de um acordo prévio entre os EUA e a China. O mais importante documento saído destas cimeiras promovidas pelas Nações Unidas tinha sido o Protocolo de Quioto, em 1997. Este só previa compromissos por parte dos países mais ricos. Desta vez, era o mundo todo que se punha de acordo. Do poucochinho havia surgido o muito.
Segue-se um balde de águia fria. Alertas sucessivos de que o mundo não está a seguir o caminho certo para alcançar as metas ali estabelecidas. À escala global, há um conjunto de más notícias: a eleição de Donald Trump. O anúncio de que pretende sair do acordo. Um conjunto de fake news. Põem em causa a ciência, e o crescimento de emissões. A boa notícia são as manifestações pelo clima à escala global. Estão aí, constantes e bem visíveis. Lideradas, sobretudo por jovens. Entre eles, o nome mais sonante é um dos mais improváveis. Uma sueca de apenas 16 anos. Chama-se Greta Thunberg. Sozinha, iniciou uma greve às aulas pelo clima, em agosto de 2018.
23 de junho de 2016. O Reino Unido decidiu encolher a União Europeia. Nada será como antes do referendo do Brexit. Em seis décadas de integração e alargamento, nunca a construção europeia se tinha feito a subtrair, só a adicionar. Os britânicos foram às urnas para decidirem em referendo se queriam continuar na União Europeia e o “não” venceu com 51,89% dos votos.

(In "Jornal fórum Covilhã", de 11-03-2020)

DIA INTERNACIONAL DA MULHER


 “A Mulher na Sociedade Covilhanense”. Escrevi em 10-04-2008. Já lá vão 12 anos. Reli o texto publicado. Mantenho a minha satisfação com que o redigi. A Mulher ainda continua a ser uma pessoa postergada. E até repudiada, em partes consideráveis do Globo. Segundo Albert Einstein, “Grandes almas sempre encontraram forte oposição de mentes medíocres”.
Século XV. Seguros de escravas grávidas. Desenvolveram-se com alguma facilidade. Segundo um estatuto de Génova, sendo atribuído a alguém que tivesse comércio com uma escrava de outrem, o facto de ela engravidar se devia considerar plena prova de autoria, o juramento da escrava em causa e do dono desta. Caso fosse pessoa de boa fama, para além de outros indícios. As penas relativas a estes casos eram pesadas. E podiam duplicar caso a escrava viesse a morrer de parto. Um crime que não era considerado de ofensa à pessoa, mas sim à propriedade. Os donos das escravas começavam a entrar em acordos com os imputados autores. Estes seguros eram frequentes. Porque eram também frequentes as compras de escravas grávidas. Uma razão algo insólita: nestas condições o adquirente comprava previsivelmente dois escravos pelo preço de um.
Na atualidade, outras formas de discriminação da Mulher são sobejamente conhecidas. Da maioria de todos de nós.
Mas a Mulher esteve, de forma constante, no cerne de muitos acontecimentos. Desde a criação do mundo até à atualidade. É inegável o valor que acrescentam a tudo aquilo que se dedicam. Como a manifestação pela igualdade de direitos civis em favor do voto feminino. Entre outras.
“O coração tem razões que a própria razão desconhece” – Blaise Pascal.
A Mulher tem um “espírito engenhoso, imaginativo, sempre irrequieto”. Palavras de Fernando Pessoa. Define-o ainda pela “facilidade em arranjar soluções para as dificuldades que lhe possam surgir, e é ao mesmo tempo preocupado e instável, sendo, porém, no fundo, intenso e violento em tudo. Há uma grande dose de subtileza e diplomacia feminina”.
Dia Internacional da Mulher: a origem operária do 8 de Março. Não é apenas uma data de homenagem às mulheres. Tem raízes históricas mais profundas e sérias. Oficializada pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1975. O Chamado Dia Internacional da Mulher é comemorado desde o início do século XX. Hoje, a data é cada vez mais lembrada. Como um dia para reivindicar igualdade de género. E com protestos ao redor do mundo. Aproximando a data de sua origem na luta de mulheres que trabalhavam em fábricas nos Estados Unidos. E em alguns países da Europa.
A Mulher distinguiu-se das demais desde políticas influentes, poetisas, arquitetas, gestoras, entre outras áreas de atuação. De geração em geração, atuaram e atuam para o bem comum. Relevaram sempre a educação que as distingue, o caráter, o espírito empreendedor. Apesar dos preconceitos relacionados com o género. Têm vindo a assumir um papel preponderante no crescimento económico e no bem-estar das sociedades.
A Mulher brilhou em todo o mundo e em Portugal. As Mulheres destacaram-se em várias dimensões. As que marcaram a história é extensa. Muitas outras seriam passíveis de ser enumeradas. Quer a nível internacional, quer a nível nacional.
Na exemplaridade, com desempenhos notórios: Cleópatra – figura feminina do Egito. Toda a gente recorda, pela sua beleza e capacidade de estratégia. Anne Frank – escreveu um diário com um forte testemunho sobre a Segunda Guerra Mundial. Coco Chanel – a única estilista na lista das 100 pessoas mais importantes do século XX. Segundo a revista Time. A princesa Diana – relembrada pelas causas humanitárias a que se dedicou. J. K. Rowling – destacou-se na escrita, com os livros de Harry Potter. Madonna – revolucionou a música POP. Malala – com papel de relevo no ativismo. Marie Curie – cientista e física polaca. A primeira mulher a receber um prémio Nobel. Madre Teresa de Calcutá – Santa de Calcutá e fundadora das Missionárias da Caridade. É dela: “Sei que o meu trabalho é uma gota no oceano, mas sem ele, o oceano seria menor”.
A nível nacional: Rainha Santa Isabel – ficou na história por ajudar os pobres e pela lenda do “Milagre das Rosas”. Carolina Beatriz Ângelo – a primeira Mulher a votar e a consagrar esse direito ao sexo feminino. Amália Rodrigues – a eterna rainha do fado português que levou a tradição da nação pelo mundo inteiro. Florbela Espanca – grande poetisa portuguesa. Lourdes Pintassilgo – a primeira e única Mulher a assumir o cargo de primeira-ministra de Portugal, quando nenhuma outra Mulher o tinha sido. Maria José Estanco – a primeira Mulher portuguesa a assumir o cargo de arquiteta.

(In "Notícias da Covilhã", de 12-03-2020)

6 de março de 2020

UM PEDACINHO DA COVILHÃ A CAMINHO DO CENTENÁRIO


Quero em primeiro lugar agradecer o convite que o Senhor Presidente da Direção me fez para aqui falar um pouco sobre a Casa da Covilhã.
O que é que eu vou dizer, tendo em conta o pouco espaço de tempo de que já disponho?
Foi assim que, de alguma perplexidade surgida no meu pensamento, logo a mesma se desfez e,
num relance, achei por bem dar o título a esta minha palesta, assim:

UM PEDACINHO DA COVILHÃ A CAMINHO DO CENTENÁRIO
Vou ser breve.
Entrei pela primeira vez nesta Casa em 1973 numa altura em que por aqui andei uns dias, em formação na Seguradora cuja delegação eu geria na Covilhã.
Apenas me recordo de ter estado junto ao balcão-bar, e de ter encontrado algumas pessoas que não conhecia para além do velho António Isaac. O homem do bar disse-me que era do Fundão. Estranhei o edifício sujo e arruinado, nessa altura, com alguns ébrios à mistura.
Passei assim longos tempos sem visitar esta Casa, mais pela indisponibilidade de permanecer tempo suficiente em Lisboa, cujas horas necessárias não me abundavam, ou então era a permanência exclusiva em questões profissionais.
No entanto a minha curiosidade era sempre conhecer quem presidia à Casa da Covilhã, e, pelas notícias que na oportunidade eram veiculados nos semanários da região beirã, sobre o que se passava nesta Casa, confesso, com raridade, insuflavam-me algo de vontade em ver o seu novo rosto.
Mais tarde, as notas da imprensa regional que ligeiramente davam registo de a Casa da Covilhã acolher várias personalidades, ou eventos, enchiam-me de curiosidade.
Recordo-me de na presidência do falecido Abel Ribeiro Cunha, aqui foi recebida a equipa e dirigentes do SCC, que havia subido à I Divisão Nacional, em 1985, aquando da meia final da Taça de Portugal que veio disputar a Lisboa com o Benfica;  e também Jorge Vieira, antigo internacional e ídolo do SCP, então seu sócio n.º 1, e que esteve na fundação do SCC.
Na Covilhã algumas vezes interpelava o Clementino Xavier como corriam as coisas aqui pela Casa da Covilhã.
O século XXI traria algum período de turbulência a esta Casa, ficando fechada, sem qualquer tipo de atividade, entre 2006 e 2010. No entanto, um grupo de covilhanenses radicados em Lisboa, com vontade indómita em fazer renascer esta instituição, ao redor de um almoço mensal que ainda hoje mantêm, reativou a Casa da Covilhã.
Para se poder manter este barco a flutuar em águas tranquilas foi necessário o surgimento de dirigentes tenazes, suando a camisola com o nome da sua Terra, e é desta feita que esta instituição tem atingido os seus objetivos através de iniciativas de caráter cultural e recreativo e dando a conhecer a gastronomia da nossa região, atividades que me escuso de salientar por já serem sobejamente conhecidas, devidamente divulgadas não só pela Casa da Covilhã, mormente através das redes sociais, como também pela imprensa regional, mas, contrariando um pouco o que acabo de dizer, seria grave esquecer as noites de fado, nesta Casa, e a recriação da Feira de S. Miguel que proporciona uma das maiores concentrações de Covilhanenses em Lisboa. Nunca se viu tanta gente da nossa gente a vir agora aqui apresentar as suas obras literárias, as suas poesias, e a sua arte. É obra!
Se eu, como inicialmente referi, entrei pela primeira vez nesta Casa, há quase meio século, pois bem, esta Instituição vai agora a caminho do Centenário. Entre ventos e marés, ela vai desenhando o seu percurso com a bandeira desfraldada da Covilhã, com notoriedade, e é assim que o caminho se faz caminhando.
Efetivamente, chegámos à conclusão de que são 96 primaveras! Pudera, se o Boletim da Casa da Covilhã de 1949 assinalava as Bodas de Prata, obviamente que a sua génese já vem de 5 de janeiro de 1924 e não 1929, ainda que tenha sido “autorizada a sociedade de recreio Grémio Covilhanense” neste último ano. Igualmente José Mendes dos Santos, no seu livro “Breve História Cronológica da Covilhã”, refere a sua fundação a junho de 1924.
Depois da Rua da Mouraria, 24,1º, passaria para o Largo do Caldas, nº 8, e em 1 de junho de 1940, neste nº 150-1º B, na Rua do Benformoso. Assim também me referi no Boletim Informativo n.º 1, online, de dezembro de 2014, da Casa da Covilhã, sob o título “Ressurgimento”.
“No dia 18 de junho de 1949, na Sessão Solene comemorativa da passagem do 25º. Aniversário foi inaugurada, festivamente, mais uma Estante da nossa Biblioteca”, referia-se assim o Boletim da Casa da Covilhã já mencionado.
Deixo aqui um apelo para que façam mais um esforço no sentido de organizarem a Biblioteca, onde existem muitos autores Covilhanenses.
Pois bem, queremos continuar a entrar na porta 150 desta Casa, no âmbito da nossa “Beiranidade” já que ficámos fartos de saber que o 10 é do Downing Street, lá para outras bandas a transvazar a Europa.
Parabéns à Casa da Covilhã – a nossa Casa na capital –, e também a todos os seus obreiros, com realce para esta sua dinâmica Direção.
Obrigado.

(Minha palestra na Casa da Covilhã, no dia 15-02-2020)

19 de fevereiro de 2020

ANIVERSÁRIO DA CASA DA COVILHÃ EM LISBOA


A caminho da Capital, no Intercidades. É sábado, 15 de fevereiro e são 7,53. Tomamos os nossos lugares. Reparamos de imediato que os tabuleiros das costas dos nossos bancos e o chão, assim como um pouco por todo o lado, estão sujos de miolos de pão e lixo. O João Romano toma a iniciativa e apresenta reclamação ao revisor. Diz-nos tomar nota. E que tal situação não deveria acontecer. Pudera, são sempre quatro as funcionárias de limpeza que entram nas carruagens, no final das viagens, para a (in)devida limpeza – informa-nos. Ato cívico do companheiro de viagem. Esperemos agora a devida chamada de atenção às infratoras da limpeza. E que tal não se repita. O Tó Manel Rodrigues segue na carruagem da frente.
Chegada a Santa Apolónia. À nossa espera, lá se encontra o Presidente da Casa da Covilhã, Manuel Vaz Rodrigues. E agora já estamos no número 150 da Rua do Benformoso. O João Romano, delegado regional desta Casa, carregando com a caixa de pastéis de molho, sente um bálsamo nos seus braços ao deixá-la na cozinha. Damos uma espreitadela para a sala onde vai ser o evento. Tudo pronto, ou quase. Falta só colocar na parede o n.º 96 que faz sobressair o acontecimento. O Zé Ascensão Rodrigues, um pouco agitado, diz que não o coloca lá porque o tiraram. O homem da paciência, presidente da Casa, vai lá colocar o número. Corresponde ao aniversário.
A minha curiosidade vai para a biblioteca. É preciso ainda um longo trabalho. Há muitos livros oferecidos por covilhanenses que estão amontoados. Com dois dias a tempo inteiro resolvia-se o problema. Todos são voluntários. Mas viver em Lisboa não é viver na Covilhã.Compreensível.
Começam a chegar os Covilhanenses. Radicados a sua maioria na Capital, ou limítrofes. De raiz, uns; de coração, outros. De permeio, também alguns dirigentes da Casa da Covilhã: os meus amigos António Chorão, presidente do Conselho Fiscal, e a esposa; Luís António Ranito que vem de Alverca; Elói Cardoso Paiva, presidente da Assembleia Geral. Mas também os covilhanenses, do Ourondo, mas há muitos anos em Lisboa: Mário Tomé e seu primo Alfredo Tomé Carvalho. Recordam os tempos que passaram na biblioteca municipal da Covilhã, ao Jardim Público, nos tempos do Sr. Martins. Alfredo Tomé agarra-se à conversa. Cumprimentos a João Madeira Antunes, que também recordam nostalgicamente a antiga biblioteca municipal da Covilhã, e o Sr. Martins. Ficaram a saber que ele fora professor primário em Casegas e aí foram seus alunos o falecido Padre José Almeida Geraldes, antigo diretor do Notícias da Covilhã; e o professor doutor Arnaldo Saraiva. Um denominador comum é que quase todos passaram, nesse tempo, pelo seminário. No total, na sala, são 48 pessoas.
Chega o tesoureiro, José Hermínio Rainha. Aproveito e pago já a minha quota. O Tó Manel Rodrigues também faz o mesmo.
A Daniela Runa aproxima-se também. Não podia faltar. Ela é a vice-presidente da Direção. Para além de médica e fadista.
Os convidados começaram a chegar: o presidente da Câmara Municipal da Covilhã, Vitor Pereira; Nuno Cardona Almeida, covilhanense deputado pelo Círculo de Castelo Branco; e Carlos Martins, presidente da União de Freguesias da Covilhã e Canhoso.
O almoço inicia-se. Antes do partir do bolo aniversário, Manuel Vaz, presidente da Direção, sucintamente, em cinco pontos diz o que se fez e o que se pretende fazer. Há que dar voz aos mais novos. Nunca em tão pouco tempo foi conseguida uma lista para o próximo ato eleitoral. Está aí à porta. Seguiram-se as palavras de Carlos Martins, Nuno Cardona e Vitor Pereira.
A seguir coube-me a mim. Foi um convite honroso para falar sobre a Casa da Covilhã. Teria de ser breve, quão breve foram as restantes intervenções. E que não esquecesse de divulgar este evento nos semanários da nossa Região, que são ali muito desejados. Aqui fica o repto. O tema da inspiração: “Um pedacinho da Covilhã a caminho do Centenário”. Foram algumas estórias da história da Casa da Covilhã. Chegámos à conclusão de que são efetivamente 96 primaveras!
Muito haveria que dizer. O espaço não permite. Foi um êxito global. Termino conforme ultimei a minha palestra: “Queremos continuar a entrar na porta 150 desta Casa, no âmbito da nossa ‘Beiranidade’ já que ficamos fartos de saber que o 10 é do Downing Street, lá para outras bandas a transvazar a Europa”.
Parabéns à Casa da Covilhã – a nossa Casa na Capital –, e também a todos os seus obreiros, com realce para esta sua dinâmica Direção.

(In "Jornal fórum Covilhã", de 19-02-2020)





12 de fevereiro de 2020

A TEORIA DOS CISNES NEGROS

Vão correndo os tempos, e, nesta vivência, algo vai acontecendo no âmbito do inesperado.
Desde sempre as epidemias e pandemias não deixaram de grassar pelo planeta que habitamos.
A CÓLERA provocou centenas de milhares de mortos entre 1817 e 1824 e já era conhecida desde a Antiguidade. Assim como a TUBERCULOSE, atingindo um bilião de mortos ainda no mesmo século (1850-1950). A VARÍOLA dizimou 300 milhões de humanos entre 1896 e 1980. Esta doença atormentou a humanidade durante mais de 3000 anos. Figuras históricas foram atingidas por ela: o faraó egípcio Ramsés II, a rainha Maria II da Inglaterra e o rei Luís XV da França. Descobriu-se a vacina no ano de 1796 tendo sido erradicada do planeta desde 1980.
A GRIPE ESPANHOLA surge no final da I Guerra Mundial (1918 e 1919), tendo com ela morrido o presidente do Brasil, Rodrigues Alves. Foram 20 milhões de mortos, depois de 37 milhões terem perecido na Primeira Guerra Mundial. Foi assim denominada porque um dos primeiros a contrair a doença foi Afonso XIII, rei de Espanha.
Entre 1918 e 1922, 3 milhões de mortos na Europa Oriental e Rússia foram ocasionados pelo TIFO. Ele está ligado a países do Terceiro Mundo, campos de refugiados e concentração, ou guerras. Anne Frank, vítima do holocausto, morreu em consequência do tifo.
A FEBRE AMARELA foi outra das epidemias que entre 1960 e 1962 causou 30 000 mortos na Etiópia, e na América. O Brasil chegou a ser considerado um “destino perigoso” tendo sido privado do transporte marítimo e da exportação do café. Uma das vítimas desta epidemia foi D. Afonso, filho de D. Pedro II.
O SARAMPO foi uma das causas da mortalidade infantil até à descoberta da vacina em 1963.
A MALÁRIA provocou 3 milhões de mortos por ano, desde 1980, havendo registos da doença de há 4000 anos. Estima-se que desde que ela se começou a multiplicar tenham morrido entre 350 e 500 milhões de pessoas.
A AIDS (Síndroma da Imunodeficiência Adquirida) atingiu 22 milhões de mortos desde 1981, identificada nos Estados Unidos. Trata-se do vírus HIV.
A PESTE NEGRA, também conhecida por PESTE BUBÓNICA, matou grande parte da população do planeta no século XIV, principalmente de países da Europa e Ásia. E quase dizimou a humanidade há 5 mil anos atrás, deduzindo-se já ter causado mortes em humanos no Neolítico.
A doença foi sendo combatida à medida que se foi melhorando a higiene e o saneamento das cidades. Julga-se que quase metade da população europeia tenha morrido vítima da peste. Tornou-se epidemia em 1348 e afetou, além da Europa, também a China e a Índia.
Outras doenças houve: o vírus zika (3 a 4 milhões de pessoas infetadas), surto que apanhou o mundo de surpresa; um novo surto de Ebola; a rubéola; a lepra, considerada a doença mais antiga da humanidade, tendo os seus primeiros registos datado de antes de Cristo. A lepra era a grande praga da Antiguidade, relatada em livros, quadros e imagens medievais realmente pavorosas; a difteria e a escarlatina; gripe asiática em 1957; a gripe de Hong-kong, em 1968; também causaram vítimas mortais no planeta, ao longo dos tempos.
Em 12 de dezembro de 2019 foi detetado o primeiro caso do CORONAVÍRUS, em Wuhan, capital da província chinesa de Hubei, no centro do país. De então para cá o vírus espalhou-se com grande velocidade. Os cientistas, com base nos seus algoritmos, calculam que possa atingir, globalmente, 40.000 pessoas. Na altura em que redijo este texto o número de vítimas mortais atingiu já 490, havendo casos de infeção por coronavírus em mais 25 países, e, só na China, mais de 29.000 pessoas infetadas pelo vírus. Se as epidemias e pandemias são uma questão de saúde pública, também são uma questão política e de segurança.
O que é certo é que é mais um vírus da China, cuja população ainda tem muito contacto com animais selvagens. Pode também contaminar a economia mundial, como a chinesa que é a segunda maior do mundo.
E é aqui que entra a Teoria dos Cisnes Negros – eventos improváveis e com grandes consequências imprevisíveis, caso ocorram. Uma vez que este facto tenha acontecido, os Cisnes Negros tentam encontrar algum tipo de explicação, real ou inventada.
Ao contrário do conceito filosófico inicial de “problema do Cisne Preto” no qual se afirmava que todos os cisnes são brancos, mais tarde se provou falso. Houve a descoberta na Austrália, no século XVIII, de uma raça de cisnes pretos. A Teoria do Cisne Preto refere-se apenas a eventos inesperados de grande magnitude e consequências no contexto da sua influência histórica.
As ideias poderosas de Cisnes Negros foram popularizadas pelo pensador libanês Nassim Nicholas Taleb. Assim, Cisnes Negros são eventos de baixa popularidade mas de alto impacto.  Taleb trabalhou muito tempo no mercado financeiro e, neste ramo, viu várias pessoas fazerem fortunas espetaculares para tudo resultar em nada passados alguns dias. Sendo eventos de baixa probabilidade, mas de impacto extremamente elevado, são difíceis de acontecer, mas podendo ocorrer um dia, e se ocorrer, terá efeitos catastróficos.
Sendo esta a definição mas não o problema real, sucede que o grande problema é que o ser humano tende a subestimar a existência dos Cisnes Negros. Uma das razões é que, por serem tão raros, alguns desses eventos nunca ocorreram na história. E mesmo nos casos que surgiram, rapidamente o conhecimento humano se adaptou para mostrar que o evento era previsível, não era aleatório. Segundo Forgotten Lore, “Um exemplo são os economistas ‘profetas’ que afirmaram que ‘era evidente que a crise de 2008 iria ocorrer devido aos riscos dos títulos sub-prime’. Tudo isso a posteriori, é claro”.
Neste contexto, em que a teoria dos acontecimentos de cisnes negros é uma metáfora que descreve um evento que surge como uma surpresa, como já vimos, tem grandes consequências e muitas vezes só é corretamente analisado a posteriori.
Segundo o “Público”, em janeiro de 2019, à medida que a guerra comercial com os Estados Unidos se intensificava, o líder chinês Xi Jinping convocou uma reunião com altos responsáveis do Partido Comunista para avisar acerca do inesperado surgimento de “acontecimentos de cisnes negros”, que poderiam desestabilizar o regime imposto há 70 anos. Exatamente, um ano depois, surgiu efetivamente um desafio inesperado, não originário das salas de Washington, mas sim das bancas dos mercados em Wuhan, por via do coronavírus. Os cidadãos chineses enfureceram-se face à forma desajeitada como os responsáveis estatais lidaram inicialmente com o surto, assim como as falhas dos funcionários locais em Wuhan que inicialmente ignoraram e esconderam o coronavírus, enquanto por outro lado se juntam em redor de Xi Jinping para o proteger como o homem que tem cultivado uma imagem de bem-amado “líder do povo”, mantendo o mito de que ele nunca erra.
Gerry Shih, do The Washington Post questiona: “Se Xi estava absolutamente convicto de um resultado vitorioso face à doença, por que razão não se colocou a si mesmo a comandar e assim recolher todos os louros e glórias?”. E acrescenta: “Como é que o partido poderia construir uma sociedade moderadamente próspera se não restarem quaisquer pessoas?”.
Muitos relacionaram a falta de eficácia oficial da China dos dias de hoje e os derradeiros anos da União Soviética e insinuaram que o vírus de Wuhan poderá ser uma espécie de equivalente a Tchernobil, considerando geralmente que o desastre nuclear de Tchernobil, em 1986, terá acelerado o processo de colapso da União Soviética, que se consumou poucos anos depois.

(In "Jornal fórum Covilhã", de 12-02-2020)

A ARMADILHA DE TUCÍDIDES


Com alguma frequência nos deparamos na imprensa com artigos sobre este tema, expressão popularizada por Graham Allison em 2012, de uma passagem da “História da Guerra do Peloponeso”, cujo autor foi o próprio Tucídides: “Foi a ascensão de Atenas e o medo que isso incutiu em Esparta que tornou a guerra inevitável”.
Depois de há um século termos saído da I Guerra Mundial e os países vencedores terem criado a Liga das Nações com o pleno objetivo da construção de uma ordem internacional onde o pacifismo fosse a grande arma contra a guerra que seria terminantemente proibida entre os Estados, logo nas décadas seguintes surgiriam rivalidades entre as potências europeias. Nesta perturbação assustadora veio a II Guerra Mundial.
Daqui se infere que nada do que se transporta para a mesa das decisões, num elo de concordância entre as partes envolvidas no acordo é inabalável e vitalício.
Se bem que daí até então houve sinais positivos, com o mundo a produzir imensa riqueza, e muita gentinha a ver-se livre das algemas da pobreza, paradoxalmente não se afastaram os sinais negativos da crise da democracia duma mão cheia de países ao sabor das ondas.
Enquanto o planeta aquece descontroladamente a economia mundial mostra sinais de arrefecimento.
Na Europa; em vez de se fazer um hercúleo esforço para se manter uma grande potência planetária como o fora in illo tempore com a reanimação do comércio europeu no século XV e com as descobertas portuguesas, e depois espanholas, a dar início à idade moderna, pondo em contacto os vários continentes, tornando-se uma potência mundial no século XIX, num período revolucionário da sua história, e uma época de grandes transformações em todos os domínios da vida; surge agora  o Reino Unido a desligar-se da União Europeia.
“Brexit” a caminho de um novo ciclo económico em que “todos” perdemos” (Público de 30-01-2020).
Mas, nos tempos que correm, e tendo em conta o tema desta crónica, queremos referir que a “armadilha” fica caraterizada quando o crescimento do poder de uma potência emergente passa a ameaçar os interesses da potência hegemónica, ao ponto de originar uma guerra.
Foi assim que a “História da Guerra do Peloponeso”, onde esteve Tucídides, descreve os detalhes da guerra entre Esparta e Atenas.
“Atualmente, a expressão está sendo empregue para descrever a situação entre a China e os Estados Unidos, como potências emergente e hegemónica, respetivamente. De notar que a ‘armadilha de Tucídides’ não é um conceito do próprio autor mas sim uma expressão recente usada para expor uma situação que foi descrita por ele e que se repetiu inúmeras vezes na história, nos mais diversos contextos”.
Os EUA estão ofuscados com a China para suster a sua ascensão e a China, em idêntica situação, com o pensamento em travar o domínio americano, mormente na Ásia.
Se nos reportamos ao período histórico da Antiguidade Clássica, com que iniciámos o texto –  27 anos após o início da guerra, Atenas sucumbiu perante Esparta. O declínio ateniense marcou a definitiva ascensão espartana, mas não sem consequências para todo o mundo helénico. Todos esses anos de guerra, batalhas e conflitos causaram desgastes incomparáveis e a ruína económica de diversas Cidades-Estado e potências gregas, perda militar e total desestruturação da unidade grega frente a outros impérios. Enquanto a Grécia tentava recuperar-se, o Império Macedónico organizava-se e tornava-se cada vez mais poderoso. Aproveitando da instabilidade da pobreza grega do pós-guerra, invade e domina quase toda a Grécia, terminando assim com a independência e liberdade da maior parte das Cidades-Estado do mundo grego.
Voltando-nos para os dois séculos por que a maioria de entre nós ainda viveu, e vive  (XX e XXI), os Estados Unidos e União Soviética não declinaram em conflito. Mantiveram desavenças e ameaças constantes, porém, a União Soviética sempre fora um perigo militar para os EUA e NATO, jamais uma ameaça ao seu poder e influência económica e financeira, o que levaria à definitiva queda da União Soviética no início dos anos 90.
Uma situação bem diferente do que acontece hoje nas relações EUA-China, com a China a oferecer aos EUA não somente uma ameaça bélica, mas mormente uma ameaça aos antes incontestáveis modelos económicos e até políticos de todo o Ocidente. A ascensão da China coloca em cheque o funcionamento da democracia ocidental. É, de facto, a ascensão de um país com modelos e estruturas completamente diferentes dos que atuam, podendo até ultrapassar a atual maior e mais poderosa economia do mundo.
Se a Armadilha de Tucídides se concretiza quando um poder desafia a hegemonia de outro poder previamente estabelecido, vemos formar a possibilidade de uma inevitável guerra perante o medo que a ascensão militar e económica da China (anteriormente Atenas) oferece à hegemonia militar e económica dos Estados Unidos (anteriormente Esparta).
Certamente que a rivalidade EUA-China se irá manter, sendo a tendência de um tentar diminuir e minar o poder e influência do outro. Se não tentarem encontrar maneiras de equilibrar os seus interesses vão caminhar para uma relação cada vez menos amigável e de maior conflito, levando lamentavelmente à Armadilha de Tucídides.

(In "Notícias da Covilhã", de 13-02-2020)

15 de janeiro de 2020

RETROSPETIVA SÉCULO XX – ANOS 20 SÉCULO XXI


Bem-vindos. Já lá vão vinte anos do século XXI. Pela parte que me diz respeito, já me encontro na linha da frente daqueles que, felizmente, foram somando anos à vida neste mundo. Mas como no tempo da Volta a Portugal em Bicicleta, começo-me a aproximar do carro vassoura. No entanto, tento ainda pedalar, até que Deus queira.
Muito se tem falado sobre estas duas décadas que nos antecederam pelo que não vou ser repetitivo do que já escrevi para outros periódicos.
De certo modo é parecido o tempo de ontem com o de hoje. Paradoxalmente, ele é mesmo muito diferente. Mas as duas situações são causa de curiosidade renovada.
“Como será Portugal daqui a 20 anos? Um país independente ou uma colónia de dados?” Em parangonas é o título da edição do aniversário dos 155 anos do Diário de Notícias, de 28 de dezembro, número especial sobre o passado, o presente e o futuro, como no mesmo é referido. É sobre o futuro que aí vem muito próximo o potencial disruptivo da inteligência artificial e da bioengenharia, que se vai desenrolar ao longo destas próximas décadas.
Mas também é preciso ter presente a atenção que deve existir sobre boatos, falsidades, notícias que atropelam o rigor, mentiras tantas vezes repetidas que se tornam verdades em que muita gente acredita, conceito este, antigo, mas que agora ganhou nome moderno, e que dá pelo de fake news.
Ao entrar neste novo ano, favorecido por um certo lenitivo após compromissos que havia assumido e dos quais o sucesso aconteceu, acreditando que não só por ação pessoal mas também por ajuda divina, espero neste ano ter um grande evento, para os tempos que correm.
E, na continuidade das crónicas, terei todo o prazer em transpor muito do que me vai na alma, ao gosto dos leitores, conforme me tenho apercebido, sem descurar o presente, para as páginas dos periódicos que para tanto me dão essa oportunidade de ocupar algum espaço.  
Se muitos gostam da “fábrica da nostalgia” já outros, por vezes estranhamente desmemoriados, optam por fazer esquecer o passado. Gosto de falar num enovelar do passado com o presente, dirigido ao futuro.
E é nesta diversidade que se dá oportunidade a todos de se interessarem pelos periódicos, num país onde a leitura deixa muito a desejar, muito contribuindo o facilitismo das redes sociais que afasta cada vez mais os apaixonados pelo papel.
Na primeira metade do século XX corria o ano de 1946 e liderava o nosso País o general António Óscar de Fragoso Carmona, que, face à sua doença, havia sido substituído, interinamente, por António de Oliveira Salazar, na ditadura do Estado Novo, para depois regressar, vindo a falecer no exercício das suas funções.
Em França, nessa mesma época, a liderança foi de Charles de Gaulle/Félix Gouin/George Bidault/Léon Blum. Na Itália mandava Alcide de Gaspieri. No Reino Unido, Clement Attlee. Nos EUA liderava Harry S. Truman, que sucedera a Frankin Roosevelt. E o Papa, que é contestado pelos judeus, era Pio XII. Se em Espanha havia a liderança de Francisco Franco, já a Alemanha, após ter sido vencida da II Grande Guerra, era administrada pelas Forças Aliadas.
Nasci e contribuí para, nesse ano, atingir o número de 107 128 homens e uma população de 8 178 360 almas.
Neste mesmo ano, Winston Churchill (dirigente do Partido Conservador e Primeiro Ministro da Grã-Bretanha durante a II Guerra Mundial), num discurso em 5 de março, criticou violentamente a União Soviética, referindo-se à “cortina de ferro” que dividira a Europa em “povos livres” (a ocidente) e “povos dominados” (a leste). Tornava-se, desta forma, público o divórcio entre antigos aliados e o início da Guerra Fria. No dia 1 de maio desse ano, o Reino Unido preparava um plano para separar a Palestina em dois Estados independentes, um judeu e outro árabe, para, em 16 de outubro, terminar o julgamento por crimes de guerra celebrado em Nuremberga, Alemanha.
O Belenenses ganhou nesse ano, pela primeira e única vez, o Campeonato Nacional da Primeira Divisão e o Sporting vencia a Taça de Portugal.
Esperamos que nos próximos vinte anos não seja necessária a inteligência artificial mas a consciência humana para resolver, ou mesmo atenuar, as consequências nocivas do problema climático global.

(In "Jornal fórum Covilhã", de 15-01-2020)

8 de janeiro de 2020

A TRANSIÇÃO

Chegámos ao final dum ano, e de uma década, de muitos acontecimentos, tanto de âmbito nacional como deste Planeta. Positivos uns, perspetivados em receios outros, com irresponsáveis ações de despreocupação de muita gente.
Líderes internacionais que não se entendem, num bradar aos céus de estúpidas condutas egocêntricas.
A responsabilidade que cabe a cada humano é enorme, mormente nos dias que correm. Ao longo das precedentes décadas, dum tempo que passa e não espera, sempre houve líderes que deixaram marcas de eficaz passagem à face da Terra, como de inoperacionalidade a que só o tempo consegue ditar as suas boas ou más memórias.
Num breve balanço desta década que agora termina, a segunda do século XXI, logo em abril de 2010 foi a vitória eleitoral de Viktor Orbán, na Hungria. Em 2011, Anders Breivik assassinou 69 jovens na ilha norueguesa de Utoya, depois de ter matado à bomba oito pessoas em Oslo. Movem-se extremas-direitas: Salvini, Le Pen, Trump. Se marcaram a década os atentados de Paris de 2015, já os de Nova Iorque, Madrid e Londres marcaram a anterior.
Nesta década, muitos portugueses voltaram a emigrar como não acontecia desde os tempos da Guerra Colonial. Uma pequena e dramática parte dos migrantes são os 22 milhões de refugiados registados pela ONU em todo o mundo. O Mediterrâneo transformou-se no maior cemitério mundial de migrantes (15,8 mil mortos desde 2014). Em França foi a agitação dos coletes amarelos (2018-2019) com as greves destes dias contra Macron.
Das seis greves gerais convocadas em Portugal em 45 anos, metade foram nesta década (2010, 2011 e 2013). Já em 2011, a Primavera Árabe foi um dos maiores movimentos simultâneos de contestação social e política da história, à escala internacional.
Termina, pois, uma década que começou com os efeitos devastadores da crise que abalou o coração do sistema financeiro mundial, transformando-se na Grande Recessão, que nasceu nos Estados Unidos com a crise do subprime (2007) e com a queda do Lehman Brothers (2008) tendo-se propagado em ondas de choque à escala global, atingindo com mais violência as economias ricas do Ocidente. Na segunda década do século XXI, entraram em cena novas e velhas correntes populistas e nacionalistas. À escala global, foi nesta década que nos países mais fragilizados, com a desigualdade incompreensível, a corrupção foi mais pungente.
Voltamo-nos para o nosso País. Conforme refere o jornalista Manuel Carvalho, o País continua à venda: “Mas depois da terrível destruição de riqueza nacional na era da troika e dos exemplos de incúria e dos abusos que destruíram a PT, que expurgaram a EDP de capital nacional ou entregaram a banca nacional ao capital espanhol ou angolano seria de esperar uma breve pausa para respirar. Não é isso que acontece”.
Vamos entrar nos anos 20. É uma década decisiva para o mundo, sobre tudo o que já sobejamente tem sido divulgado nos órgãos da comunicação social, e redes sociais, desde a crise climática à crise da democracia “sem esquecer as crises de regimes e modelos de sociedade que motivaram múltiplas rebeliões”, na opinião abalizada do jornalista Vicente Jorge Silva.
O que nos vai trazer 2020? Sem enumerar muitos casos, lembramos tão só, já em janeiro, o impeachment a Trump; as primárias no PSD, cujo 2019 foi o annus horribilis para a direita (PSD e CDS), no dia 11 de janeiro; o debate instrutório da Operação Marquês, de 27 a 31 de janeiro; o novo presidente do CDS, dias 25 e 26 de janeiro; o Brexit no dia 31 de janeiro; o novo líder da CGTP, no dia 2 de fevereiro; a abertura dos arquivos de Pio XII, pelo Vaticano, em 2 de março; o Festival Eurovisão da Canção, em Roterdão, de 12 a 16 de maio; a comemoração dos 75 anos da assinatura da Carta das Nações Unidas, a 26 de julho; início do Euro 2020, em 12 de julho; a reunião do G7, de 10 a 12 de julho; a quinta revisão do Tratado de não Proliferação de Armas Nucleares, nos 75 anos dos bombardeamentos de Hiroxima e de Nagasaki, em 8 e 9 de agosto; os Jogos Olímpicos de Tóquio, com início em 24 de julho; a Expo do Dubai, em 20 de outubro; a Web Summit em Lisboa, de 2 a 5 de novembro; as Presidenciais nos EUA, no dia 3 de novembro; a Cimeira do Clima, em Glasgow, nos dias 19 e 20 de novembro; e em 31 de dezembro, o fim da concessão dos Correios, como serviço postal universal.

(In "Notícias da Covilhã", de 09 de janeiro de 2020)