28 de junho de 2021

CONTE-NOS A SUA HISTÓRIA - MANUEL LOPES ESPINHO FONSECA

 



Covilhanense de que muito se orgulha, nascido no ano da graça de 1945, aos dezasseis de setembro, na freguesia de Aldeia do Carvalho (hoje Vila do Carvalho).

Casado e com ter três filhas. Completou a Instrução Primária no Asilo, instalações ainda hoje devolutas, na Rua Combatentes da Grande Guerra, na Covilhã. Por aqui passaram vários alunos, entre indigentes, pobres, remediados, e de excelentes posses.

Manuel Espinho frequentaria depois a Escola Industrial e Comercial Campos Melo da Covilhã, e desempenharia as funções de empregado de escritório na empresa Hilário Dias Freire & Cª Lda até ao seu encerramento, sendo que, já depois do serviço militar obrigatório, ainda exerceu funções administrativas na Universidade da Beira Interior (UBI).

E é precisamente sobre a sua passagem pelo serviço militar, que vemos o Manuel Espinho a caminho de Castelo Branco, para iniciar a recruta no Batalhão de Caçadores 6, naquele mês de janeiro de 1966. Como quase sempre acontece, eram muitos os conhecidos, com uns a ficarem na mesma companhia e até outros no mesmo pelotão. Após a Páscoa, surgiu o período da especialidade. Manuel Espinho é então enviado para o Regimento de Artilharia Ligeira 4 (RAL 4), em Leiria, onde aqui tira a especialidade de escriturário e SPM. Oportunidade para poder alugar um quarto na cidade do Lis, onde à socapa se vestia à civil nos fins de semana com os seus camaradas… Eles eram o Arlindo, o Gato, o Luís Filipe Rodrigues e outros mais que já não recorda. Pois é, o Manuel Espinho e o Arlindo ainda arranjaram umas namoradas em Marrazes e Marinheiros. Terminada a especialidade, em meados de junho de 1966, a maioria foi colocada nas diversas unidades militares como escriturários. No entanto, o Manuel Espinho, o Gato, o Carlos Paulo Rato, o Luís Filipe, o Tomás e o Torrão, entre outros cuja memória já não lhe ajuda, foram parar à Trafaria para obterem a especialidade de operadores cripto. Aqui ficaram até 30 de setembro. Na Trafaria assinaram termos de responsabilidade face à especialidade sensível que estavam a tirar, vindo a saber-se serem destinadas aos serviços da PIDE. Sendo certo que a maior parte do dia era passado nas aulas, também é verdade que o cais onde apanhavam o barco para Belém era perto. Daqui, de elétrico, era um saltinho para a baixa alfacinha. Mas, para além de Manuel Espinho poder ir alguns fins de semana à Covilhã, de comboio, também tinha família em Lisboa, entre o Martim Moniz e a Graça, onde era recebido com muito agrado.

Em 30 de setembro de 1966, terminada a especialidade, já como 1º. Cabo, seguiram rumo a outros destinos, sendo que Manuel Espinho, e mais uma dúzia de seus camaradas, foram colocados no Quartel-General da 2ª Região Militar, em Tomar, sendo posteriormente distribuídos por unidades militares onde havia falta de criptos, só que, por azar, não necessitavam deles quer em Castelo Branco quer na Guarda. Ficou assim em Tomar.

Uns dias antes do Natal de 1966, como era costume, a malta que não estava de serviço e saía, ao regressar passava pelo Centro Cripto para ajudar caso houvesse muito serviço. Numa dessas noites, agarrando numa mensagem, decifrou-a, para ajudar como era costume. Por ironia do destino, verificou que, dessa mensagem, na parte final da mesma, reportada à sua Unidade Militar na Trafaria,  referia que estava mobilizado para Angola. Resultado: no dia seguinte já tinha guia de marcha para seguir para a Trafaria, ficando a saber que o seu batalhão pertencia ao Regimento de Infantaria de Évora, sendo o IAO em Santa Margarida, com apresentação no Batalhão de Caçadores 1903, Companhia de Caçadores 1643. Na guia de marcha para os derradeiros 10 dias da despedida dos familiares, antes do embarque para Angola, a acontecer nos princípios de janeiro de 1967, quando chegou à Companhia encontrou-se com o José Madeira (emigrado no Canadá) e com o Ludovino Pereira (que está em França), aquele como cabo condutor e este como atirador, pois pertenciam à mesma companhia do Manuel Espinho.

No dia 18 de fevereiro de 1967 embarcaram no Vera Cruz para Angola, onde o Espinho encontrou, já no barco, o seu amigo José Baltazar que vive em Cebolais de Cima.

A chegada a Luanda aconteceu em 22 de fevereiro de 1967. Aqui, Manuel Espinho teve a alegria de ser recebido pelos seus tios que viviam em Angola, no Bairro da Cuca, onde passou sempre as suas férias. Em Luanda, ao fim da tarde, encontrava-se sempre malta da Covilhã, na cervejaria Portugália.

Foi então a partida do Grafanil para o Norte. Dormiam em viaturas e, de manhã cedo, partiam para o destino: CCS Tomboco, 1643 Lufico, 1644 Zaueva, 1645 Tomboco.

Em janeiro de 1968, a Companhia foi colocada em Ambrizete (na missão). Manuel Espinho foi logo colocado no comando do setor, pois só havia um centro cripto.

Ambrizete tinha a praia junto ao quartel, bares, cinema, avião diário, uma grande sanzala, e muita garota para ajudar a passar o tempo…

Era de facto uma terra inesquecível, já com muitos civis brancos, comércio, bares, restaurantes, um clube com bilhares e snookers, ringue para futebol de salão, cinema e outros espetáculos, polícia e até posto da PIDE, hotel e lojas de roupas e utensílios diversos, avião 6 dias por semana, hospital com um médico, e igreja. Era uma zona de passagem para Noqui, S. Salvador, Santo António do Zaire. Para além disto tudo, um pôr-do-sol inolvidável. Foram, de facto, 27 meses que Manuel Espinho não esquece, por terras do Norte de Angola. Felizmente, de coisas menos boas, não tem para contar, já que por elas não passou, sendo no entanto certo que, do que sabia de negativo, face à especificidade da sua especialidade, nada podia contar a ninguém.

Terminada o seu tempo de serviço, no regresso a Portugal, embarcou no Vera Cruz, em Luanda, nos princípios de junho de 1969, chegando nove dias depois.

 

 

 

 

DO EQUINÓCIO DA PRIMAVERA AO SOLSTÍCIO DO VERÃO

 

Entre estes dois momentos do ano, dou início a este editorial para os estimados Camaradas Antigos Combatentes e Leitores em geral. Depois do que tantos de nós temos passado, será reconfortante que a encantadora primavera nos entregue ao tentador verão, que quase todos esperamos.

Outros momentos foram surgindo desde o último número deste periódico. Por exemplo, muitos já fomos vacinados contra a Covid 19. Outros continuam ainda a aguardar pela segunda dose da vacina. O desejo é de que todos nos sintamos mais protegidos e possamos voltar aos pontos de reuniões diversificadas, incluindo os convívios no espírito dos eventos tão desejados.

Na sequência do Estatuto do Antigo Combatente aprovado pela Lei n.º 46/2020, de 20 de agosto, a que fizemos referência na edição d’O Combatente da Estrela, nº. 120 de setembro de 2020, surgiu em abril a aprovação do protocolo que isenta os antigos combatentes de taxas moderadoras nas consultas, exames complementares de diagnóstico e nos serviços de urgência do SNS, estendendo-se também às viúvas e viúvos dos mesmos.

Segundo um estudo do americano John P Cann, financiado pelo Kings College de Londres, especialistas ingleses e norte-americanos estudaram comparativamente o esforço das nações envolvidas em vários conflitos em simultâneo, principalmente no que respeita à gestão desses mesmos conflitos, no campo da logística geral, do pessoal, das economias que os suportam e dos resultados obtidos. Assim, John Cann  chegou a várias conclusões, entre as quais, que em todo o mundo só havia dois países que mantiveram três teatros de operações de guerra em simultâneo: a Grã-Bretanha, com frentes na Malásia (a 9.300 Km, de 1948 a 1960 – 12 anos); no Quénia (a 5.700 Km, de 1952 a 1956 – 4 anos); e em Chipre (a 3.000 Km, de 1954 a 1959 – 5 anos); e Portugal, com a frente na Guiné (a 3.400 Km), Angola (a 7.300 Km), e Moçambique (a 10.300 Km), de 1961 a 1974 (13 anos).

Os especialistas chegaram à conclusão de que Portugal, dadas as premissas económicas, os seus recursos, a sua pequena dimensão, as dificuldades logísticas para abastecer as três frentes, bem como a sua distância, a vastidão dos territórios em causa, e a enormidade das suas fronteiras, foi aquele que melhores resultados obteve.

Consideraram por último, que as performances obtidas por Portugal, se devem sobretudo à capacidade de adaptação e sofrimento dos seus recursos humanos, à sobrecarga que foi possível exigir a um grupo reduzido de quadros dos três Ramos das Forças Armadas, com comissões atrás de comissões, com intervalos exíguos de recuperação física e psicológica e às centenas de milhares de jovens que durante 13 anos combateram naqueles territórios. Baseiam-se estas afirmações com base em observadores internacionais.

Por várias vezes foi referido, que estes homens que serviram durante estes anos na Guerra do Ultramar, só pelo facto de aguentarem este esforço sobre humano que se reflete necessariamente em debilidades precoces de saúde, mazelas para toda a vida, invalidez total ou parcial, e morte, tudo ao serviço da Pátria, merecem o reconhecimento da Nação, mas jamais lhes foi dada essa justa oportunidade. Algumas referências em momentos como nos dias 10 de Junho, não são suficientes.

Por todo o Mundo se veneram, recordam, imortalizam e se homenageiam os soldados que combateram em teatros de guerras, sejam eles vencedores ou vencidos. Mas muitos dos nossos mortos foram abandonados nos territórios africanos. Valeu o trabalho de excelência da Liga dos Combatentes, diligenciando, tanto quanto possível, que todas as ossadas dos nossos Antigos Combatentes, com as inerentes dificuldades, fossem armazenadas nos respetivos cemitérios, sob devido registo, colocando-as assim à disposição das suas famílias.

Na opinião muito racional do antigo Combatente que nos facultou estes elementos muito pertinentes, refere, e muito acertadamente, “que somos os únicos que não seguem os exemplos generalizados do tratamento diferenciado aos que serviram a Pátria em combate. E pior ainda. O cúmulo dos cúmulos. Quem combateu é censurado, vilipendiado e ostracizado. Pelo contrário, os traidores/desertores, muitos dos quais fugiram e foram viver com mordomias de príncipes e outros que ainda pululam no sistema político vigente, apelavam à morte dos soldados portugueses.”

Muitas memórias foram escritas em livros, alguns dos quais foram objeto de apresentação na Biblioteca Municipal da Covilhã (BMC), por via deste Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes.

Refiro alguns que constam da minha biblioteca pessoal e que já tive o ensejo de os ler:

- A Tropa vai fazer de ti um Homem (Guiné 1971 – 1974), de Juvenal Sacadura Amado. Apresentado na BMC em 21-04-2016.

- Cartas do Mato, por Daniel Gouveia.

- Danos Colaterais – Angola 62/64, de J. Eduardo Tendeiro.

Apresentado na BMC em 2017.

- Memórias Combatentes na guerra do Ultramar, de João Peres, Edição da Liga dos Combatentes Núcleo de Olhão, de 02-04-2016.

- Cambança Final (Guiné – Guerra Colonial) – Contos, de Alberto Branquinho. Maio de 2013.

- Filhos d’outrem ou d’algures, de Alberto Branquinho. Maio de 2015.


Outros nomes que foram objeto de informação pública, como Gente Acenando para Alguém Que Foge, romance da expedição de Paulo Faria a Moçambique; ou Memórias de um desertor, de Sérgio Palma Brito, são sempre obras a ler por quem quiser melhor conhecer realidades demasiado esquecidas, “mas que foram componentes essenciais para compreender os anos de 1969/70 do salazarismo, do colonialismo e do exílio portugueses”.

(In "O Combatente da Estrela", nº. 123-JUL/2021)

9 de junho de 2021

BORA LÁ A RELAXAR

 

Lá vai o tempo em que por aqueles anos de 2006, e seguintes, a caminho da crise cada vez mais prenunciadora, me insurgia nas páginas dos habituais periódicos regionais, e não só, pela vivência por que todos passávamos então.

Ora nesses tempos até era um risco tomar determinadas posições face à vida profissional, mas, como jamais temi assumir a minha forma de pensar, tive o privilégio de ouvir dizer de alguns serem meus leitores atentos.

Na confidência com amigos, por vezes abordava-os como é que viam a minha conduta pelas bandas onde trabalhavam. Se, no pensamento de que fosse leninista, logo me escancaravam a porta de que era visto como muito mais que isso. Não me importunei com a opinião recolhida porquanto, embora não corporizando tal tendência, o que é certo e verdade é que não era nem nunca fui de direita. Preferia, sim, ser um cidadão “às direitas”.

A procissão dos que, logo no adro, se perfilavam para tomar lugar nas primeiras filas dos chicos-espertos, e de alguns jotas de forçada habilidade, no imediato começaram a deixar marcas nos muros para onde subiam, sempre na espreitadela de ver para que lado deveriam saltar.

E assim se foram passando, e continuam, as diatribes de disputa de lugares de topo, com ou sem ventos contrários, para que se consiga agarrar a oportunidade de ficar mais próximo do palanque.

Estamos no país das maravilhas. O Novo Banco apresentou prejuízos de 1329 milhões de euros mas quer novamente distribuir pelos administradores quase dois milhões de prémios, a pagar em 2022. Cavaco Silva acusou o PS de continuar a alimentar “monstro” da despesa pública, mas esqueceu-se das suas patrióticas administrações da Nação. Mentecapto.

O melhor é bora a “esplanadar”. Nas últimas semanas assistimos a verdadeiras romarias pelas ruas das cidades, aldeias e lugarejos. Mesas das esplanadas cheias ou quase repletas, literalmente à procura de um lugar. Enchentes aqui e ali, com a primavera a convidar, sedutora. Pois é, “esplanadar” é ótimo e a restauração agradece. Assim, por exemplo, pode-se falar da Estratégia Nacional de Combate à Corrupção. E, mais uma das maravilhas: de fora do decreto-lei ficam os gabinetes dos principais órgãos políticos e todos os órgãos de soberania, assim como o Banco de Portugal. Trata-se assim de uma mão cheia de nada, outra de coisa nenhuma, nas palavras da psicóloga clínica Joana Amaral Dias. Também, conforme refere um meu amigo sobre a garantia das pensões, “Em Portugal, país do Fado e das Cigarras, ninguém pensa a 20 anos, muito menos quem o deveria fazer, a classe política na qual os cidadãos votam precisamente para que o façam. Não há um só político que pense a mais de 4 anos. Só o estritamente necessário para ganhar a próxima eleição”.

Fico com esta máxima de Aristóteles: “É fazendo que se aprende a fazer aquilo que se deve aprender a fazer”. Concluo com uma breve narrativa, de sua boa memória, dum meu adorável vizinho. Corria o ano de 2017. Ao sairmos de nossas casas encontrei-me no patamar do prédio com o meu vizinho que descia do seu andar. De imediato dirigiu-se-me com voz forte e algo endurecida:

 - “Sabe que dia é hoje?! Sabe que dia é hoje?!”

- “Hoje?... Porquê?...” Respondi-lhe, de certo modo estupefacto.

- “Não sabe?! Não sabe?!” insistiu o vizinho.

- “Só se for por ser o Dia de São Pedro!...” – respondi-lhe.

- “É só para o lembrar que faz hoje 45 anos que fui castigado na Guarda, no RI 12, porque você estava de ronda e pediu-me a dispensa de recolher. Como não a tinha, mandou-me apresentar ao Oficial de Dia e depois, eu… que nunca tinha feito um serviço porque era radiotelegrafista, acabei por ser castigado com serviços de plantão”.

- “Olha para o que você se havia de lembrar, volvido tanto tempo! Eu já nem me lembrava disso mas fez-me agora avivar a memória. Foi apanhado irregularmente porque alguém nos havia avisado dessa irregularidade”.

Ora aqui está uma situação que serve para hilariar nestes tempos em que pretendemos que se rasgue definitivamente o véu dos confinamentos desta maldita pandemia. Como o meu vizinho certamente ficou aliviado da carga de encoberta raiva que sobre mim lançara, descarregando suas mágoas de muitos anos, e que eu desconhecia, fico satisfeito de o ver agora mais alegre e simpático. Por isso, bora lá a relaxar!


(In "Jornal fórum Covilhã", de 09-06-2021)

 

26 de maio de 2021

AQUELA BREVE TERTÚLIA COM O PROFESSOR ARNALDO SARAIVA


 

Esplanada do Centro Comercial da Estação, na Covilhã. Corria o dia onze de junho do ano da graça de dois mil e dezanove. A pandemia ainda não se fazia sentir em Portugal. Na mesa já me encontrava com os amigos comuns: Pedro Batista, natural de São Jorge da Beira, e Sérgio Saraiva, natural de Casegas. Um telefonema do professor para o seu primo Sérgio avisava que a sua deslocação do Porto retardaria um pouquinho o encontro. Afinal, sempre gostaria de conversar com o filho daquele que foi seu professor da primária em Casegas – o falecido José Martins Nunes que, posteriormente, fora funcionário da Biblioteca Municipal da Covilhã até à sua aposentação. Da parte da tarde teria de participar numa conferência no Fundão. Daí que, volvido algum tempo, surgem Fernando Paulouro Neves e Jorge Torrão.

A chegada do professor Arnaldo Saraiva surge com aqueles cumprimentos enlevados em sorrisos. Entre uns cafés e umas águas a conversa não se confina só nos principais interessados na memória do seu antigo professor da primária mas também na vivência de quase todos terem tido a sua passagem pelo Seminário do Fundão. A conversa, entretanto, é interrompida por um grupo de professoras aposentadas que se encontrava numa outra mesa e que o identificam. Entre elas, Maria do Céu Brás, de Casegas.

O professor doutor Arnaldo Saraiva descreve-nos então, dos tempos da sua infância, a alegre disputa dos jogos da bola, nas ruas de Casegas, onde alguns miúdos de então jogavam descalços, e, dentro da escola, naqueles longínquos anos de meados da década de quarenta do século XX, uma cena hilariante entre o prof. Martins Nunes e um dos alunos, seu colega da escola caseguense. Pedira então este, por duas vezes seguidas para ir à casa de banho. Perante a estranheza e o questionar do prof. Martins, o aluno responde com uma justificação em autêntico calão: “Da outra vez fui fazer ‘aquilo’… e agora vou fazer ‘isto’…” Longe estava eu de pensar que esta faceta contada há muitos anos por meu pai, durante o início do seu ensino no magistério primário, ainda seria recordada por um seu ilustre antigo aluno. Ele, Martins Nunes, que foi ainda professor da 4.ª classe, em Casegas, de três alunos que vieram a ser conhecidos dentre os padres jesuítas – José Gaspar Pires e António Costa e Silva. Também outro seu aluno, nesta classe – José de Almeida Geraldes, foi cónego sobejamente conhecido, chegando a ser diretor do Notícias da Covilhã.

Como algumas vezes referi, nasci na Pousadinha, freguesia de Aldeia do Carvalho, mas estive na iminência de nascer em Casegas. Para aqui veio o prof. Martins com minha mãe, e o seu primeiro rebento – Rita Fátima.  Meu pai, natural de Bogas de Baixo, não pôde continuar os estudos no Seminário do Fundão, tendo assim optado pelo magistério primário, sendo colocado como regente escolar na Casa do Povo do Bairro do Rodrigo, na Covilhã, num curso noturno que se iniciou no dia 07/01/1938. Depois continuou cumulativamente com o Posto Escolar Masculino da Borralheira. Seguiram-se comissões de serviço na Escola Central Masculina da Covilhã, em 1944, e, no ano seguinte, em Aldeia do Carvalho. De 1945 a 1948 foi colocado em Casegas.

Aproximando-se o meu tempo para vir ao mundo, meus pais não queriam que nascesse em Casegas por estar longe dos familiares. Segundo me contaram, em Casegas, o professor Octávio e a sua mulher, Mariana, assim como o padre Nicolau, o Zeca Craveiro e a mulher, prof. Agostinha, ainda lhes sugeriram para eu ali nascer. Não querendo ali ficar, lá foi a bagagem no dorso de uma égua, e os quatro, nos quais se contavam meu pai, minha mãe, a minha irmã, de colo, e eu ainda no ventre de minha mãe, num carro de bois, atravessando a ribeira até ao Ourondo, onde pernoitaram em casa de familiares; depois foi tomar a camioneta para Aldeia do Carvalho.

As memórias perduram e esta com o amigo professor doutor Arnaldo Saraiva reforçaram o interesse nas vivências por onde andámos e algumas raízes que ficaram.

Foto: O professor Martins Nunes com a filha mais velha ao colo, Rita Fátima, e a esposa, com o segundo filho, João.


(In Jornal "Notícias da Covilhã", de 27 de maio de 2021)

19 de maio de 2021

NA RESILIÊNCIA DO SEMANÁRIO MAIS ANTIGO DA REGIÃO

Nos tempos que correm não é fácil manter um periódico a circular sem alguns períodos de inquietações. Se agora foi a pandemia que afetou também o jornalismo, já antes surgira a questão do digital com aquele receio latente em detrimento do jornal em papel. Não nos podemos desviar da futurologia e, por isso mesmo, todos os órgãos da comunicação social souberam aproveitar as oportunidades dos momentos. É numa conjuntura de trabalho híbrido que o jornalismo hoje assenta, verificando-se que já não são só os grandes títulos da imprensa que a tal aderiram como também aqueles que nos são de proximidade – os regionais.

Felizmente que há 47 anos vivemos o estado da liberdade de imprensa, sendo certo que, segundo o DN, “num contexto de degradação geral, Portugal surge nos 12 países que a organização considera terem ambiente favorável ao jornalismo”, encontrando-se o nosso país no 9.º lugar, com o trio da liderança na Noruega, Finlândia e Suécia.

Desde o primeiro jornal português; de há 370 anos, que ajudou D. João IV a consolidar o poder em 1640, e que dava pelo nome comprido de “Gazeta, em que se relatam as novas todas, que houve nesta Corte, e que vieram de várias partes do mês de Novembro de 1641”; que, até à atualidade, subsistem os mais antigos, tendo já alguns atingido o centenário. Todos eles foram parte importante na história do nosso país, sendo que muitos dos regionais, por este país fora, foram e são de primordial importância pela sua “teimosia” em vincar as necessidades das suas regiões.

Se não fosse esta proximidade da imprensa regional, os governos sentir-se-iam menos solicitados às tarefas regionais e, consequentemente, pelo não abanão a que não seriam votados. É sempre necessário insistir naquela de que “água mole em pedra dura tanto dá até que fura”. Muito se deveu às enormes quantidades de tinta que moldou os jornais para que melhoramentos acontecessem ou necessidades existentes se dissipassem nas regiões. Mas também por via do surgimento da era digital a partir de 1986, com a Internet em Portugal.

Muito poderia servir de enumeração de acontecimentos surgidos, ao longo da vida de um jornal, mas, cá por esta região, exemplifiquemos a ação da imprensa regional para que saísse da letargia a renovação e reabertura do troço da linha da Beira Baixa, entre a Covilhã e a Guarda e vice-versa, ocorrido no passado dia 2 de maio.

O que poderei agora dizer sobre a longevidade do “Notícias da Covilhã” (NC), nos seus 102 anos da existência com este título, e 108 da sua própria existência com a designação de “A Democracia”?

Tenho a honra e o prazer de escrever neste Semanário desde 1964. Conheci-lhe quatro Diretores, para além do atual. Com eles convivi. Efetivamente, o NC é o semanário mais antigo da região, e, conforme muito já escrevi sobre o mesmo, as suas páginas narram parte importante da história da Covilhã.

Longa vida para o NC porque a sua voz é imprescindível pelo seu prestígio jornalístico.

(In "Notícias da Covilhã", de 20 de maio de 2021)


12 de maio de 2021

EM LIBERDADE

 

Os dias em que mais se falou em liberdade e trabalhador já lá vão, na espuma do tempo, esta ainda dominada pelos números da pandemia e pelos resultados provisórios do processo mais mediático da justiça portuguesa. Certo é que, quanto à doença infeciosa, já quase é um tormento ouvir-se falar de epidemiologias, virologias, pneumologias, infeciologias, e outras “logias”. Mas é indubitável que se torna necessária a literacia neste domínio.

Se o 25 de Abril será para sempre memorizado como o Dia da Liberdade, quer queiram quer não, já o 1º de Maio se repercute no Dia do Trabalhador. Sobre este último não deixa de ser confrangedor, no estudo divulgado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, o retrato que se apresenta sobre a pobreza em Portugal: 17,2% da população portuguesa, o que significa 1,7 milhões de pessoas, vivem em risco de pobreza. Sendo certo que este estudo se baseia em dados de 2018, não é difícil prever que estes números já terão sido superados na atual situação. E continuarão a subir. Tal como Eça de Queirós referiu, em Os Maias, “para aí apareceu o Satanismo, o Naturalismo e o Bandalhismo, e outros esterquilínios em ‘ismo’…”

Num artigo lúcido e acutilante de Joana Amaral Dias, in DN, refere o distanciamento de tantos da vida partidária e da intervenção pública face ao delapidar do bem comum por “um punhado de sociopatas e videirinhos cujo único objetivo é servirem-se a si mesmos”. São às resmas neste país de brandos costumes, à beira-mar plantado, sobejamente conhecidos, pelo que me dispenso de aqui nomear alguns, pois não caberiam nesta página. Mas não posso deixar de nela fazer referência a uma afirmação da diretora do DN, Rosália Amorim, de que “se o enriquecimento ilícito preocupa os portugueses, julgo que o empobrecimento ilícito preocupa ainda mais”.

Voltando ao dia da liberdade, Leonete Botelho, in Público, realça o consenso neste 25 de Abril – palco constante de disputas políticas e pretexto para frequentes ajustes de contas com a história – em torno do discurso do Presidente da República: “No dia da liberdade, Marcelo Rebelo de Sousa, filho de um governante do império e um dos artífices da constituição democrática, quis pôr o dedo na ferida da guerra colonial que começou há 60 anos e dali partiu para um apelo à reconciliação com a história”. – “Não há, nunca houve, um Portugal perfeito”. E o Parlamento aplaudiu o Presidente de pé. Alguns historiadores, como Manuel Loff, no entanto, divergiram e criticaram essa visão reconciliadora, nomeadamente no que concerne ao facto de Marcelo, em 2017, no Senegal, ter elogiado a precocidade portuguesa na história da abolição da escravatura, pretendendo que Portugal a teria abolido em 1761, pois não só sabia que o Estado português o não fez antes de passados mais de cem anos.

Nas palavras de Fernanda Câncio, in DN, num notável discurso, o presidente abordou enfim o passado como ferida, pedindo que saibamos assumir o olhar dos colonizados e entender que há várias histórias na história, incluindo a sua, filho do último ministro das colónias (Baltazar Rebelo de Sousa), príncipe imperfeito deste regime e do outro. Uma mensagem claro escuro como o país que interpela. “Nas leis, os negros classificados com ‘indígenas’, ou seja, a maioria da população de Moçambique, Angola e Guiné, eram excluídos da cidadania e tratados como sub-humanos”.

Dois dias após o 25 de Abril, pouco se falou duma efeméride que merecia destaque – os 500 anos da morte do navegador português Fernão de Magalhães, nas Filipinas, às mãos de Lapu Lapu, o chefe dos guerreiros que escusadamente Magalhães desafiou, em 27 de abril de 1521.

Falta cumprir uma liberdade, refere Rosália Amorim – a de movimentos. A Avenida da Liberdade, em Lisboa, encheu-se de portugueses para assinalar o dia da Revolução dos Cravos. Eram pessoas a mais para distâncias a menos. A pandemia ainda não desapareceu e os portugueses não atingiram a imunidade de grupo. A liberdade não é uma justificação para tudo, nunca foi, pelo que o melhor é aguardar, manter a prudência e não correr o risco de morrer na praia.

Quem Me Dera! – Termino com parte da canção de Mariza: “Quem me dera/Abraçar-te no outono, verão e primavera/Quiçá viver além uma quimera/Herdar a sorte e ganhar teu coração”.

(In "Jornal fórum Covilhã", de 12-05-2021)

 

5 de maio de 2021

DE ONTEM PARA HOJE

 

Um sonho de alguém que, como muitos do presente, ainda vão andando por aí.

Ontem ainda acariciava o tempo. E vivia a noite sem se importar de marcar os seus dias. Esses momentos de um tempo que se dissipava na contagem decrescente da sua vida. Foram mil e um projetos. Muitos deles não passaram dum contínuo sobrevoar pelo espaço sideral. As milhentas esperanças juntaram-se como que um bando de pássaros seguindo viagem para outros rumos, em mudança de estação. E ficou impávido. Esperanças então perdidas numa perplexidade constante de agir contra os ventos contrários. Que por força duma visão obscura os seus olhos, procurando o Céu, tinham, no entanto, o coração imanado na terra.

Ontem ainda se regalava com o tempo. Pensando que a vida lhe iria sempre sorrir, esbanjava esse mesmo tempo, acreditando que o podia comandar. E para que lhe pudesse imprimir a sua ordem, numa tacanhez pensante, pôs-se a correr, pensando que ia na sua frente, que o tinha ultrapassado. Começou a sentir um cansaço em demasia. Ignorou factos, mesmo do passado recente, pensando que se conduzia, por si próprio, ao futuro.

Precedia do seu egocentrismo. Rejeitava qualquer conversa sobre quem lhe aconselhava a meditar naquelas névoas que persistiam em afligir os sensatos. Permutou uma alteração da sua conduta por sorrisos irónicos. Da qual até opinava que ele queria o melhor. E, assim, por si o mundo era criticado num desplante em exuberância.

Ontem ainda não vislumbrava os erros para onde se ia direcionando. Mas, num ápice, no acordar dum sonho, não aquele que comanda a vida, sobressaltou-lhe o espírito. Tivera uma juventude insolente, atingiu o tempo de homem feito, não acompanhou o ritmo, se lancinante, também gratificante, entre esses ventos e marés da própria vida. Perdeu tempo, tempo desregrado.

A cometer loucuras, no fundo nada lhe deixa para a vida no adir dos anos, dos quais nem deu conta que iam passando. Mas não deixou de acreditar no que viu no seu espelho que lhe mostrou várias rugas no rosto, que não conseguiu disfarçar.

Ontem ainda mantinha a sua incredulidade em tudo, naquele seu indómito ceticismo.

E, assim, na morbidez do seu pensamento, naquele enfado dos continuados confinamentos, não ligou, não se importou com o que diziam, a saturação tornou-se mais do mesmo para si.

O bicho mau, que diziam existir, mas que ele jamais viu, ou sentiu, para ele não contava. Não estava no seu íntimo tapar a cara e o nariz, fugir das pessoas, deixar de se animar na copofonia.

Ontem ainda, quando acordou dum novo sonho, tinham-lhe dito que tivera uma grande sorte. Estava a sair dos cuidados intensivos. Só se lembrou, e agora indelevelmente, depois de estar fechado em quatro paredes e não reconhecer ninguém, de que, afinal, para que serviu todo este seu comportamento? Esta lição ficou-lhe bem estudada, para toda a vida! Afinal, seus amores morreram antes de existirem, e seus amigos partiram e não mais retornarão. Por sua culpa criou o vazio em torno de si mesmo.

Gastou toda a sua vida, entre o melhor e o pior, baldando-se do melhor. Já não lhe rodeiam sorrisos e verte-se em lágrimas de arrependimento.

Ontem foram aqueles seus nefastos sonhos, como castelo de cartas; hoje vive no seu isolamento que insensatamente criou.


(In "Notícias da Covilhã", de 06-05-2021)

14 de abril de 2021

NESTE TEMPO DE PRIMAVERA

 

No dia em que os prezados leitores lerem este texto, já passou a Páscoa, mas ele foi ainda escrito à beira da mesma, com o país a recear uma subida do índice de transmissibilidade (Rt). Na reunião do Infarmed foram deixados vários alertas. Entre eles, o do último relatório do estado de emergência que chama a atenção para os ajuntamentos. Que persistem na teimosia das pessoas irresponsáveis. Assim como o não uso da máscara. Num tal descaramento. Que também persiste. Como se as pessoas vivessem exclusivamente num mundo rural de iletrados.

Depois de um inverno duro, chuvoso, rigoroso, fechado, os portugueses sonharam com a primavera. Ela aí está. Mas o sonho dos portugueses, isto é, de todos nós, é de uma primavera que traga boas notícias, desconfinamento e alguma estabilidade. Precisamos, sim, duma primavera que seja um tempo de confiança e esperança, de reenergizar e renascer para aquela força de vários horizontes que se foi dissipando com a maldita doença infeciosa.

Começa-se agora a indagar a génese do vírus que deu lugar a esta pandemia, tendo-se iniciado, para esse efeito, a conferência da Organização Mundial da Saúde (OMS). E já se diz que Wuhan e o mercado chinês não podem ser vistos como sua origem.

Com Portugal a baixar o número de mortos e internados, a vacina da AstraZeneca que tantos receios têm causado nas pessoas, mudou o nome para Vaxzevria, vá-se lá saber porquê.

Estes últimos dias foram preenchidos de momentos simbólicos marcando o regresso de dois grandes blocos mundiais: EUA e UE por um lado, China e Rússia por outro. Foi assim uma demonstração de unidade, com Pequim e Moscovo a acusarem os países ocidentais de interferirem nos seus assuntos internos, depois do anúncio de sanções por graves violações de direitos humanos, e defenderam a realização de uma cimeira do Conselho de Segurança das Nações Unidas para debater a “turbulência política crescente” no mundo.

E, se de vacinas nos reportamos acima, ficou também à vista a fragilidade da UE para dar resposta conjunta aos desafios impostos pela covid-19. Segundo o Público, “além da dependência em matéria de vacinas, continua a viver a pandemia a várias velocidades: uns países fecham portas enquanto outros, como Portugal, desconfinam. Com tanta indefinição, o regresso do turismo no verão pode ser ‘um passo maior do que a perna’”.

Este país à beira-mar plantado tem sido um “eldorado” para alguns. Senão vejamos: ainda fulguram, estiveram na ribalta dois grandes negócios nacionais. Eles provieram em momentos diferentes, com governos diferentes, mas com um denominador comum – o Estado saiu a perder. O primeiro reporta-se à venda de seis barragens da EDP, “que afinal não foi uma venda em sentido jurídico estrito, e assim quem comprou sem comprar acabou por poupar a módica quantia de 110 milhões de euros em imposto de selo” Tudo “devido a uma alteração ao Estatuto dos Benefícios Fiscais no Orçamento de 2020”, que o Governo nega ter feito para beneficiar a luso-chinesa EDP. O outro negócio deste “eldorado” refere-se à compra da Groundforce por Alfredo Casimiro. Foi resumido pelo ministro Pedro Nuno dos Santos no Parlamento de que Casimiro “não comprou empresa nenhuma, recebeu dinheiro para a ter”. Contou ainda que o maior acionista da empresa de assistência em terra recebeu 7,6 milhões entre 2012 e 2018, e que só depois disso é que pagou 3,7 milhões pela maioria do capital que adquiriu em 2012.

Palavras para quê?... Trata-se de uns “artistas” portugueses e usam a tal pasta medicinal…

Reverso da medalha: Enquanto isto, do lado de baixo da escala social, cresce a pobreza. Conforme conta Cristina Pereira, in Público, “Portugal voltou a ter cem mil famílias abrangidas pelo Rendimento Social de Inserção, algo que não se verificava há dois anos. Só um mês de confinamento empurrou quase três mil famílias para esta medida, destinada a quem vive na pobreza extrema”.

Será que depois da Páscoa podemos esperar por um desabrochar da vida, num desconfinamento pleno? É indubitável que tudo depende da conduta de cada um.

Aproveito a oportunidade para desejar ao Jornal fórum Covilhã as maiores felicidades na senda dum jornalismo de isenção, como é seu apanágio, num aceno de parabéns pelo seu décimo aniversário, ao serviço do Concelho da Covilhã, da Região Beirã e do País.


(In "Jornal fórum Covilhã", de 14-04-2021)

 

9 de abril de 2021

ANTAGONISMOS

 

Este tempo pandémico não nos permite fazer as atividades desejadas. A Direção do Núcleo da Liga dos Combatentes da Covilhã não refuta o arregaçar as mangas para ajudar os seus associados.

Com a Covid 19 faleceu o mais temido comando africano do Exército português. Marcelino da Mata morreu aos 81 anos. Foi através da falta de consensos sobre esta figura – a mais condecorada como oficial português, que se geraram controvérsias. Não teve honras militares. Marcelino da Mata terá vestido a pele de vilão sanguinário, e, paradoxalmente, de herói destemido. Este comando negro, que combateu ao serviço do Exército português, por todos foi reconhecida a sua bravura na guerra colonial. Mas há quem não lhe perdoe os “crimes de guerra” que dizem ter cometido, mas pelos quais nunca foi acusado.

Personalidade que jamais gerará consenso em Portugal e na Guiné-Bissau, pois os atos de bravura militar que alguns consideram de heroísmo serão sempre vistos nestes dois países de forma diversa, segundo opina o historiador guineense Julião Soares Sousa. Já para Sofia Palma Rodrigues, do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, doutoranda em Pós-Colonialismos e Cidadania Global, “O colonialismo foi algo hediondo e Marcelino da Mata é fruto disso; e os comandos são fruto de um regime que massacrou pessoas durante mais de 500 anos”.

Não se pode olhar para a história de África dessa altura com os olhos de hoje. O serviço militar era obrigatório. Marcelino da Mata era português. Não havia escola: ou se ia para a tropa ou se entrava na ilegalidade. Na altura todos os guineenses estavam sob o domínio português e os movimentos de libertação eram apresentados como terroristas. A população era pobre e iletrada sob o Estado colonial.

Marcelino da Mata estava em Portugal quando foi a independência da Guiné-Bissau, mas os que não deixaram a África “ficaram do lado errado da história”, tendo sido abandonados pelo Estado português. Muitos deles foram mortos pelos novos dirigentes dos países independentes. Os negros nativos à altura eram tão portugueses como os outros militares.

Julião Soares de Sousa, que tem uma das áreas de especialização – O “Colonialismo, Anticolonialismo e a Identidade Nacional”, recorda “o homem com uma coragem inaudita e transcendental, que protagonizou com o seu grupo de Comandos, a mais de 2000 operações militares, alguma delas arriscadas e de grande complexidade.

O Presidente da Liga dos Combatentes, general Joaquim Chito Rodrigues, recorda em Marcelino da Mata, “feitos da maior coragem, bravura e lealdade à bandeira de Portugal, que jurou servir”.

Já o coronel Raul Folques, um dos oficiais vivos do Exército mais condecorado, que eu conheci em 1968 em Tavira, no CISMI, como capitão (era ele o comandante das Companhias de Instrução e Formação), esteve com Marcelino da Mata numa operação militar levada a cabo pelo Batalhão de Comandos da Guiné, em 1973, refere: “naturalmente considero este português como o mais excelente e extraordinário combatente das nossas campanhas na guerra que mantivemos durante cerca de 14 anos, de 1961 a 1975, inigualável em determinação, persistência no esforço, firmeza de ânimo, audácia e coragem”.

Também Vasco Lourenço, militar da revolução dos cravos e que preside à Associação 25 de Abril concorda que Marcelino “foi um grande combatente, corajoso, extraordinário e destemido, mas que cometeu crimes de guerra, e torná-lo um herói é ofender todos os antigos combatentes que combateram dentro das regras. Na guerra nem tudo se justifica”.

O Tenente-Coronel Marcelino da Mata foi tema no programa “Circulatura do Quadrado”, da TVI24, e, das várias opiniões, Ana Catarina Mendes, líder parlamentar do PS, considerou que “temos de olhar para o passado e não negar nada do que aconteceu. É muito difícil achar que matar ou degolar transforma pessoas em heróis. Nenhum de nós consegue olhar para a Guerra Colonial e não dizer a tragédia, a desgraça que foi, não só quando ela aconteceu, mas com todas as sequelas que deixou em milhares de portugueses que combateram”.

Do outro lado da barricada esteve o ativista antirracismo Mamadou BA, dirigente da associação    SOS Racismo, com comentários depreciativos sobre o falecido militar condecorado Marcelino da Mata, proferindo declarações caluniosas na rede social Twitter. De imediato, um movimento de quase quinze mil pessoas, exigiram a deportação daquele ativista. Nestes contraditórios se geraram polémicas entre as duas partes, em acesas fogueiras de ódio.

E, tudo isto, proveniente das guerras coloniais, donde surgiram imensos problemas que alguns antigos Combatentes ainda continuam a sentir e sem uma justa reparação do Estado português.

Para terminar, renovo os sentidos pêsames, ao Presidente da Direção do Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes e Diretor deste periódico, João Cruz Azevedo, pelo falecimento da sua esposa, D. Maria Manuela Azevedo, ocorrido no dia 11 de fevereiro. Era sócia extraordinária deste Núcleo. Que Deus a tenha no eterno descanso. Para o amigo João Azevedo, um grande abraço.


(In "O Combatente da Estrela", nº. 122, de abril de 2021)

CONTE-NOS A SUA HISTÓRIA - MANUEL VAZ RODRIGUES

 Covilhanense de gema, radicado há muitos anos em Lisboa, ele é, atualmente, de há vários anos, o Presidente da Direção da Casa da Covilhã em Lisboa.

Não foi com facilidade que conseguimos obter a sua colaboração para este número, já que os seus dois netinhos (problema de muita gente) o têm ocupado, por força da sua filha e genro, médicos, com frequência se encontram impossibilitados de se ocupar totalmente dos filhos.

Figura amante do desporto, que ainda hoje pratica, esteve e continua ligado ao associativismo. Nasceu na freguesia de São Martinho e não esquece o Oriental, nem o Sporting da Covilhã que chegou a vestir a sua camisola nas camadas jovens. Sou uma das testemunhas da sua grande força em prol dos interesses do Concelho da Covilhã, em Lisboa, pronto para colaborar. Várias ações culturais se desenvolveram já na Casa da Covilhã, em Lisboa, não esquecendo a réplica da Feira de S. Miguel, que a pandemia veio interromper.

Se considerarmos que quem foi obrigatoriamente mobilizado para Timor foi bafejado pela sorte, temos que considerar que só o facto de se estar longe da família, em terras tão distantes, é já um problema, mas, neste caso, a sorte esteve do lado de Manuel Vaz.

Corria o ano de 1970 quando o mancebo Manuel entrou pela primeira vez numa unidade militar, por obrigação, neste caso o Batalhão de Caçadores 6, em Castelo Branco, onde fez a recruta e depois seguiu para as terras do Lis, onde tirou a especialidade de escriturário, no RAL 4. Daqui foi colocado em Abrantes, onde descreve a sua vida até ser mobilizado:

REESCREVER A HISTÓRIA OU COMPREENDÊ-LA

Como qualquer cidadão aprendi a História de Portugal nos livros oficiais do nosso ensino. Ainda na escola primária, no livro de história, recordo uma foto de Mouzinho de Albuquerque prendendo Gungunhana. A foto revelava a força do militar português contra a impotência do rei da Gaza que liderava a luta contra o colonizador português. Com o tempo, compreendi melhor o significado daquela foto…

Hoje, como naquela época, continuo a considerar Mouzinho de Albuquerque um grande militar português e convivo muito bem com o facto de Gungunhana ser um herói, um símbolo da luta pela independência para os moçambicanos.

Estávamos em julho de 1970. Cumpria o serviço militar em Abrantes (RI 8). Era uma quinta-feira. Recebo a informação verbal: “Foste mobilizado, vais para Timor”. Naquela época, mais cedo ou mais tarde todos aguardavam uma notícia daquelas. Bom, pensei, é melhor do que ir para a Guiné, onde, pelo que se sabe, a guerra estava bem “acesa”. No dia seguinte, segunda-feira, eu e um companheiro covilhanense, mobilizado para a Guiné, viajámos para a Covilhã para passar o fim de semana. Marcámos o retorno à Unidade para o domingo à noite, mas o meu amigo não apareceu… Alguns dias depois, recebi a informação de que ele tinha telefonado. Estava em França. Tenho para mim que, ao contrário de algumas respeitáveis opiniões, o ato de renúncia à guerra do Ultramar era, acima de tudo, um ato de muita coragem!... A 14 de fevereiro de 1971, meio ano após a mobilização embarquei no navio Timor que zarpou do cais de Alcântara. Em Timor comemorei 22 anos em pleno oceano Índico. A chegada ao Porto de Dili foi a 1 de abril, após 46 dias de viagem.

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O militar covilhanense, Manuel Vaz, por lá passou todo o tempo, no Quartel-General, cumprindo a sua missão, regressando à Covilhã em 10 de maio de 1973.

(In "O Combatente da Estrela", N.º 122, de abril de 2021)


17 de março de 2021

NO TEMPO EM QUE HAVIA TEMPO

 

Longe vão os tempos que nem se sonhava vir a existir a era digital. A minha geração jamais sentiu os efeitos nefastos da vivência da pandemia. Sempre existiram as gripes sazonais. Que o chazinho e o quentinho muitas vezes as debelavam. Se de maleitas se tratassem. Outras doenças desconhecidas, mas graves, os antigos chamavam-lhes as doenças ruins. A Ciência, teve, no entanto, na sua caminhada, os passos cada vez mais apressados e longos.  Foi-se posicionando contra os males do planeta. Só que a voracidade do surto desta terrível doença, numa distribuição geográfica fortemente alargada e simultânea, não teve nem tem ainda, em muitíssimos casos, a colaboração da população para a extinguir. Que parece brincar com o fogo.

O trabalho, fosse fabril, comercial ou de serviços, tinha a presença das pessoas. Era personalizado. Hoje, é feito à distância. Parecemos uns robots. As doenças do foro psíquico parecem agora aflorar mais. O teletrabalho, muito persistente, se ajuda a distanciarmo-nos da doença, também vem provocar outras. O social deixa de existir. A presença física é também muito importante.

Neste contexto, começam a avolumar-se formas abusivas de olhar com mais intensidade para o mundo do dinheiro. O que significa, na sua generalidade, no direcionamento dos trabalhadores para o indesejável.

Recentemente, uma Seguradora que se havia engrandecido, com uma forte notoriedade, jamais alguma vez vista no País, sob a égide do antigo administrador, considerada vários anos como o melhor local para se trabalhar, novos ventos obrigaram agora todos os seus Colaboradores “de forma definitiva, a trabalhar a partir de qualquer lugar, seguindo um modelo de trabalho remoto”. A notícia tem corrido a maioria da comunicação social.  Se o êxodo dos melhores quadros da empresa se fez há muito sentir, quer por imposição quer voluntariamente, os efeitos desta decisão fizeram sobressair o medo e a revolta. Já nem uma voz existe.

Se dantes emergiram os Call Centers, agora são estes novos meios digitais, onde a informação pelas suas redes são a forma de contactar as pessoas. Que se vêm defraudadas. Sem respostas atempadas. Os períodos longos de teletrabalho são nocivos para a psique da maioria dos trabalhadores. Acrescido de dificuldades quando os colaboradores das empresas têm crianças em casa.

No tempo em que havia tempo, até se escreviam cartas de amor. Na década de cinquenta, vivia-se sem telemóveis, televisão (que só chegaria em 1957), semáforos, viadutos, metro, centros comerciais, pontes sobre o Tejo, micro-ondas, escadas rolantes, computadores, filmes sem cortes, a Gulbenkian, o Centro Cultural de Belém, e um sem número de comodidades. Mas havia outras distrações para esses tempos, que mais não fossem os bailes associativos, entre outras coisas.

Quem não viveu nessa época ignora que dar beijos glutões entre namorados era caso de polícia, por atentado ao pudor e à moralidade pública… Se nem os cumprimentos ao feminino eram de beijinhos, quem diria que agora até dum outro normal nos cumprimentamos à cotovelada ou a soco…

E quem gosta do desporto-rei, como ainda não existia televisão, todos os jogos se disputavam à mesma hora. E não existindo, igualmente, rádios portáteis, mal acabava um jogo corria-se para diante dos placards informativos, na avidez de conhecer os resultados dos outros. Na Covilhã, situavam-se à porta do Turismo, então sedeado no Pelourinho. Ou na Tabacaria Sky Neve, do Matos Pombo, onde se encontrava o Leal dos jornais, antes do quiosque, na entrada do edifício do Solneve.

Outros tempos, outras vontades. Hoje, temos um mundo de facilidades, mas, quando o telefone da rede continua enguiçado e nova tentativa para o aparelho se esbarra numa voz clara e sem apelo: “Neste momento não é possível aceder ao número que marcou. Tente mais tarde”, então lembro-me dos tempos em que se vivia sem telemóvel e sabíamos esperar. Grande novidade tinha sido a automatização da rede telefónica, passávamos a marcar os números em vez de pedir a uma telefonista a bondade da ligação. Eram outros os ritmos.

 (In "Notícias da Covilhã", de 18 de março de 2021)

10 de março de 2021

A CORRIDA AO ESPAÇO

 

Depois da Lua, agora é Marte. A disputa, em plena Guerra Fria, fazia-se sentir entre a União Soviética (URSS) e os Estados Unidos da América (EUA). Segundo Paulo Sousa Pinto, da Antena 2, “a corrida ao espaço era o aspeto mais visível, e sobretudo mais utilizado pela propaganda de ambos os lados, de uma realidade entre duas realidades antagónicas, dois blocos políticos militares e dois modelos de sociedade. Cada sucesso no lançamento de foguetes e satélites e, mais tarde, na corrida à Lua, era largamente divulgado pela imprensa e tinha um enorme eco em toda a opinião pública mundial”. O impacto dá-se com o lançamento do foguete que transportava o 1º satélite artificial da História, pela URSS, chamado Sputnik, em 4 de outubro de 1957, no Cazaquistão, ao ter entrado em órbitra após atingir a altura de 223 Kms. Entretanto o aparelho foi consumido ao entrar na atmosfera terrestre em 4 de janeiro de 1958. Constituiu um notável progresso na época, por ter inaugurado a era espacial e desencadeado a corrida ao espaço entre a URSS e os EUA. Um mês depois deste lançamento, em 3 de novembro de 1957, era lançado o Sputnik 2, que levava a bordo o primeiro ser vivo, a famosa cadela Laika, a qual viria a morrer de hipertermia depois de ter estado poucas horas em órbitra.

Os americanos começaram mal a corrida ao espaço já que o primeiro foguete, o Vanguard, lançado em dezembro de 1957, explodiu a dois metros do solo.

Havia razões mais profundas para a competição. Envolviam armamento nuclear e o aperfeiçoamento de mísseis de longo alcance. A corrida ao espaço teve o seu apogeu ao longo da década de 1960, mas subsistiu até ao colapso da União Soviética, em 1989. Os EUA lançaram em 31 de janeiro de 1958 o Explorer 1, começando a corrida espacial. A visão sobre o espaço vai além do medo das investidas bélicas dos EUA e da URSS. Passa a ser um grande campo interessante e inexplorado, um enorme laboratório científico. O Explorer 1 deixou de transmitir dados em 23 de maio de 1958, quando uma das baterias se esgotou. O satélite permaneceu em órbitra por mais 12 anos e reentrou na atmosfera, sobre o Oceano Pacífico, em 31 de março de 1970. Foram então os EUA que se embrenharam em colocar o homem na Lua, através do Programa Apollo, por via de um conjunto de missões espaciais coordenadas pela NASA (agência espacial dos Estados Unidos), cujo objetivo de explorar a Lua foi abandonado em dezembro de 1972. Entretanto, em 2005, a NASA anunciou planos para a retomada das viagens à Lua. O projeto do Programa Apollo teve o seu momento mais emblemático com o pouso da Apollo 11 no solo lunar em 20 de julho de 1969.

Apenas 12 astronautas já pisaram a Lua. O primeiro “pequeno passo para o homem, um salto gigante para a humanidade”, conforme se referiu ao caminhar na Lua, foi dado por Neil Armstrong, em 1969. O último, foi Harrison Schmitt, em 1972.

Agora, voltados para Marte, o planeta vermelho. Esta exploração tem sido feita através de diversas sondas enviados a Marte, pela NASA, norte-americana; JAXA, japonesa, ESA, agência espacial europeia; Agência Espacial de Aviação Russa e ISRO, indiana.

Tal como se passou com a Lua, caberia à URSS ser a primeira com o lançamento da sonda em 10 de outubro de 1960, mas sem sucesso. Daí até aos dias de hoje, foram muitas as missões para Marte, de ambos os lados. Nesta corrida espacial outras duas sondas chegaram recentemente à órbitra de Marte (a Tianwen-1, da China, e a missão Hope, dos Emirados Árabes Unidos), mas a Perseverance é indubitavelmente o mais complexo e ambicioso projeto entre os três. Nesta maior missão a Marte da história, o “Perseverance” pousou no planeta vermelho e marcou sucesso na NASA, tendo como tarefa buscar vestígios de vida numa cratera onde se acredita que já houve um lago.

Recordemos a ficção no sonho de atingir a Lua naquela ambição humana antiga, por muitos autores, como Júlio Verne, no seu livro “De la Terre à la Lune”, de 1865; ou na ideia de uma civilização marciana que passou para a imaginação popular, de H.G. Wells no seu livro “A Guerra dos Mundos”, em 1898, em que a Terra seria invadida por marcianos. Em 1938, Orson Welles fez uma adaptação do conto para a rádio, o que causou algum pânico generalizado.

Florbela Costa, diplomada em Engenharia Aeronáutica pela Universidade da Beira Interior (UBI), participou no desenvolvimento do helicóptero Ingenuity, um dos equipamentos que acompanha a robô da NASA Perseverance, que já se encontra em Marte.

(In "Jornal fórum Covilhã", de 10 de março de 2021)

O título saiu neste periódico com o nome "A corrida a Marte"

18 de fevereiro de 2021

A VACINA DE LAVOISIER

 

Embora abrandando, ainda são tempos difíceis os que estamos atravessando. Muitas famílias cruzaram-se com períodos longos de sofrimento. Também muitos de nós vivemos momentos de angústia. O medo de apanhar a Covid 19. O stress. Através da Fundação Portuguesa de Cardiologia, o Professor Doutor Mário Simões deu conselhos muito apropriados, salientando que o stress começa logo nas nossas casas com as notícias mais do mesmo. Que “viver no medo de apanhar a doença aumenta mais a probabilidade de a apanhar”. Num país em que passámos dos oito aos oitenta, estamos agora a recompor-nos desta situação anómala, porque pensámos em determinada altura que eram águas passadas.

Neste confinamento em que, pela segunda vez, somos forçados, parece-nos ter começado uma proximidade mais benévola, onde continuam privilegiados os telefonemas e os meios da tecnologia digital.

Felizmente que o modo de dar as notícias da pandemia, duma forma sensacionalista, por alguns canais televisivos, tiveram no bom senso de alguns dos seus “atores” a maneira de as alterarem para uma informação em termos normais, sem ênfase.

Uma curiosidade neste tempo pandémico, por cá, foi um “surto” linguístico que surgiu, pois passou a ouvir-se dizer vácina em vez de vacina, entre outras palavras. Ouvimos isto nas televisões, por pessoas de vários quadrantes: alguns jornalistas, médicos, comentadores e até governantes. Mesmo não sendo estes personagens nortenhos ou brasileiros, onde aqui se poderia aceitar a forma regional de pronunciar esta palavra.

De tanto se falar em vacina, e dos factos que com a mesma têm ocorrido, leva-me ao tempo em que andava no ensino secundário e estudei química. É que, nestes últimos tempos que estão a decorrer, alguns senhores e senhoras com responsabilidades em vários lugares mais ou menos destacados ao serviço do país, em diversas instituições, aqui e ali, como que adotaram a Lei do grande Lavoisier, numa interpretação personificada nos seus interesses, ou seja, que, de facto, “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”.

Foram aquelas vacinas que sobrevoaram para os que estavam fora do que seria normal as não virem receber agora. Porque outros, na ordem lógica para serem vacinados face à perigosidade por força das suas profissões ou idade, devido à sua aplicabilidade indevida, foram preteridos. Ficam agora os infratores em foros de processos disciplinares e crime.

Nada se criou de oportunidade para os casos mais urgentes, nada se perdeu de encontrar ali uma ocasião favorável para os interesses pessoais, e tudo se transformou para os iluminados, naquela de chico-espertismo, que procuram agora, entre a peta e a desculpa, sair da encruzilhada em que se meteram.

Que a justiça não deixe de julgar estes casos insólitos. É que isto merece uma reflexão e envergonha-nos. “Não é só a imunidade que falta entre os portugueses. A muitos falta um maior humanismo, um sentido do dever cívico e uma crença sincera de que se pode ser maior a servir o outro”, nesta sociedade cada vez mais egoísta.

(In "Notícias da Covilhã", de 18-02-2021)

10 de fevereiro de 2021

JORGE BEIRÃO E O JORGE BASTARDO

 

Jorge da Costa nasceu em Alpedrinha, concelho do Fundão. Reinava em Portugal D. João I. E, entre os cristãos, mandava o Papa Gregório XII. Era filho de um almocreve e caseiro duma quinta chamada da Costa, da qual Jorge (inicialmente Jorge Martins), tomou o nome, seguido por toda a família. A mãe era forneira. Foram quinze os seus irmãos, todos vindos ao mundo  no seio de uma família humilde. Em Alpedrinha e terras vizinhas da Beira Baixa contava-se, ao lume das lareiras, que era filho de gente pobre, labutando no dia a dia na sua vida dura e amargurada. Alguns vieram a ter lugares importantes na Igreja, tal como Jorge, o de maior relevo. Partiu ainda muito novo para Lisboa, tendo sido acolhido no hospital de Santo Elói, onde estudou Latim, Filosofia e Teologia. Foi importante a ajuda dum seu parente, o padre João Rodrigues que, admirado da sua perspicácia, o levou a Lisboa, ingressando-o no colégio que ele dirigia. Sendo muito inteligente, depressa se evidenciou.

Seguindo a vida eclesiástica, teve uma ascendência fulgurante na hierarquia da Igreja, tendo ainda estudado em Paris. Foi também diplomata e mestre da Infanta Dona Catarina, a filha mais nova do rei D. Duarte, em 1445, e, portanto, irmã de D. Afonso V.

A sua longa vida, de 102 anos, levou-o a passar por cinco monarcas: D. João I, D. Duarte, D. Afonso V, D. João II e D. Manuel I; e uma dúzia de Papas: Gregório XII, Martinho V, Eugénio IV, Nicolau V, Calisto III, Pio II, Paulo II, Sisto IV, Inocêncio VIII, Alexandre VI, Pio III e Júlio II.

O Papa Alexandre VI deu-lhe o governo de toda a Igreja Portuguesa e D. Jorge passou a ser, ao mesmo tempo, Arcebispo de Braga, de Évora, Bispo do Porto, de Viseu e de Ceuta, oito abadias de São Bento, dez priorados de Santo Agostinho, seis abadias de São Bernardo, contando-se a de Alcobaça, além de sete deados e chantrados portugueses, o de Burgos, em Espanha, três bispados italianos e outras benesses, conseguindo, ao logo da sua vida, uma imensa fortuna. Foi ainda administrador das arquidioceses a partir de Roma.

Portanto, o Cardeal de Portugal, Cardeal de Lisboa ou Cardeal de Alpedrinha personifica, como mais ninguém, o magnata eclesiástico, pleno de benefícios, favores e honras. No entanto, serviu com a dignidade de cardeal os últimos cinco papas já referidos, sendo que foi Sisto IV que o nomeou Cardeal em 18 de dezembro de 1476, sendo conhecido pelo Cardeal de Alpedrinha.

Ia de sucesso em sucesso, firmando posição no seio de esferas dirigentes. Foi confessor, conselheiro e embaixador de D. Afonso V e acompanhou este monarca nas conquistas de Alcácer Ceguer, Tânger e Arzila. Houve uma grande cumplicidade com este rei, colocando-se desde logo ao seu lado na luta de D. Afonso V com seu tio, o regente D. Pedro, tendo este vindo a falecer na batalha de Alfarrobeira, em Alverca, em 20 de maio de 1449. D. Jorge da Costa tornou-se um homem imprescindível para o monarca, tendo-lhe este concedido vários títulos e honrarias, entre as quais as de Arcebispo de Lisboa.

Já as relações de D. Jorge da Costa com o rei D. João II foram bastante complicadas. Valeu-lhe, em 14 de junho de 1480 partir para Roma. O Cardeal de Alpedrinha opôs-se sempre à pretensão do Rei D. João II em concentrar os mestrados na pessoa de D. Jorge, seu filho bastardo, como primeiro passo para a entrega da própria coroa. Isto aconteceu depois da morte do Infante D. Afonso, aos dezasseis anos, num desastre com o seu cavalo. Era o herdeiro legítimo à coroa e estava casado com D. Isabel de Castela. Pode-se afirmar que D. Jorge de Lencastre, bastardo, só não foi rei porque D. Jorge (Cardeal) o não consentiu. Daqui se infere a importância que este personagem teve em Portugal. Quase se pode dizer que D. Jorge da Costa decidiu dos destinos de Portugal. Sem esquecer os seus predicados diplomáticos que foram aproveitados na gestão do Tratado de Tordesilhas, com forte influência do Cardeal junto do Papa Alexandre VI, que o tinha em muita consideração.

D. Jorge da Costa acabou por endereçar cartas de consolação ao rei D. João II, à rainha D. Leonor e à princesa-viúva, D. Isabel, no falecimento do príncipe D. Afonso.


(In "Jornal fórum Covilhã", de 10-02-2021)

 

15 de janeiro de 2021

SEREMOS MELHORES EM 2021 OU MAIS DO MESMO?

 

Do centro da China para a Europa, parte a dona Crise. Sua indumentária de cambiantes virulentas bate à porta do nosso país. Estávamos em março do famigerado ano. O pretérito. Primeira onda de choque muito dura. A começar de mansinho. Vítimas mortais que hoje aumentam drasticamente. Efeitos muito negativos na atividade económica imediatos. Do primeiro estado de emergência surgem renovações. Alguns ainda acreditavam que se tratava duma gripezinha. O nosso país não é aquele recanto à beira mar plantado imune. Como já se aperceberam os incrédulos. Os teimosos. Outras frases de responsáveis deste país já lá vão: o disse que não disse do “milagre português”, de Marcelo, na primeira vaga, ou, antes, logo no início, “não há grande probabilidade de chegar um vírus destes a Portugal”, de Graça Freitas. Adiante, porque, segundo o provérbio, águas passadas não movem moinhos.

Controlo de propagação do vírus. Fez-nos pensar que o pior já teria passado. Mas, no final do verão, uma segunda vaga. Aumento significativo do número de vítimas. Agravamento das dificuldades da economia. Esperança para 2021 está na vacinação. A Ciência faz a descoberta em tempo recorde.

O regresso à normalidade ainda é uma luz ténue ao fundo do túnel. Luz que começa, de quando em vez, a ficar um pouco mais distante. O surgimento de nova variante deste vírus chega a Portugal. E esta estirpe faz detetar já 16 casos no Continente e 18 na Madeira. Estamos numa terceira vaga. Ou a caminho da mesma.

Bicho-de-sete-cabeças para uns. Outros a andarem com o credo na boca. No início da pandemia pelo novo coronavírus, alguns observadores e políticos começam a considerar que estávamos perante um “cisne negro”. Na definição de Nicholas Taleb. Mas termina n’“um rinoceronte cinza”, que é uma ameaça altamente provável, de alto impacto, mas negligenciada, na expressão da analista de risco norte-americana Michele Wucker.

O ano que muitos querem esquecer, sentou mais de 350 mil portugueses por dia em frente à TV. A maioria a pagar para ver conteúdos no pequeno ecrã. Há 100 anos que não se morria tanto em Portugal.

O mesmo ano que agora deixamos para trás ficará para sempre na História. Quer queiramos quer não. Pela pandemia e pelo que ela escreveu nas nossas vidas.

Sem parar demasiado no tempo, temos o Brexit resolvido. Vamos ver os seus próximos capítulos. É o novo normal para europeus e britânicos. A partir do primeiro dia do primeiro mês do ano. Com impacto em áreas como o turismo, trabalho e estudos.

O novo ano começa com a quarta presidência portuguesa do Conselho da União Europeia.

Ainda sobre a passagem para o ano novo: fazemos sempre planos, promessas, formulamos desejos, sonhos – aquela esperança. Os efeitos brutais verificados na economia e na sociedade resultantes da pandemia de covid-19 levou-nos a uma promessa. Entre o medo daquela maldição de março a dezembro. Passaríamos a ser melhores pessoas. Então nos direcionamos em ondas de solidariedade. Assistimos e participámos nas mesmas. No âmago dos nossos sentimentos houve também aquela comoção. O notável esforço dos profissionais de saúde a tentar salvar homens e mulheres, de qualquer idade, nos cuidados intensivos dos hospitais, infetados pelo coronavírus. Por vezes num cenário quase dantesco. Num esforço hercúleo.

Recomendações do Presidente da República e do Primeiro Ministro para o rigoroso cumprimento das regras sanitárias foram persistentes. Mas muito também por via da Ministra da Saúde e da Diretora-Geral de Saúde. Igualmente de especialistas nas áreas da saúde. Mormente da infeciologia.  E não só. Diariamente nos chega a informação dos números dos falecidos, infetados e recuperados. Do país e do mundo. Pelas televisões, comunicação social, redes sociais. Conhecemos os casos da nossa região, cidade, vila ou aldeia. Lares e por aí fora.

Os desejos da maioria de nós são previsíveis na ansiedade do ano 2021. Pois que traga o fim da pandemia, vacinas para todos, recuperação económica, emprego e menos desigualdades. E, no topo da pirâmide, a saúde. Estamos fartos do “novo normal”, das máscaras, dos desinfetantes, dos riscos de contágio.

No início da pandemia seguimos as orientações públicas. Que em Portugal e noutros países foram sendo transmitidas para prevenir a segunda vaga. Mas alguns, talvez muitos, fizeram ouvidos de mercador. Não ligaram patavina às recomendações. Só colocavam a máscara (e muitas vezes com o nariz destapado) nos locais em que a isso eram obrigados. O distanciamento não era respeitado. Na dedução errónea, talvez estúpida, de que só aos outros poderia suceder o mal. O resultado é que, alguns desses, já estão fora do mundo dos vivos.  Muitos acreditámos que depois destes primeiros tempos de pandemia seríamos melhores cidadãos. E menos egoístas. Alguns até acreditaram no slogan “Vamos ficar todos bem”. A certa altura até parecia que a solidariedade e o civismo tinham vencido a doença virulenta.

Veio a segunda vaga. Pós-verão. Alguns comportamentos mudaram para pior. Outros mantiveram o seu comportamento egocentrista. Como se nada fosse com eles. Alguns de ideias retrógradas. Não perceberam. Ou não quiseram perceber a importância de seguir normas. Ainda que não concordando com tudo. O dever social e comunitário seria o de fazer tudo para reduzir o número de mortes de pessoas atingidas por um inimigo invisível. O resultado, pensamos, é a terceira vaga aí à porta.

Quando saio de casa, a primeira coisa que encontro são pessoas sem máscara na rua. Cruzando-se umas com as outras. Ou conversando como se nada existisse. Sem guardarem distâncias regulamentares nas filas para as lojas. Para já não falar noutros locais. Por exemplo, onde não há desinfeções do material utilizado pelos utentes.  Isto porque, não havendo fiscalizações pelos serviços competentes, com atuações profícuas, como a DGS, ASAE, PSP ou GNR, em muitos casos tudo gira à balda.  Utilizando o calão. Impensável que seja uma ditadura. Mas tão só no rigoroso zelo pela saúde de todos nós. Já que persistem os infratores.

Duvidamos de que o comportamento por efeito da pandemia tenha melhorado. Sobretudo naqueles homens e mulheres cujo caráter egoísta se intensificou. E não só aos da brigada do reumático.

Não se trata de pessimismo. Mas não é demais acentuar que há uma pandemia para vencer. E todas as consequências adversas que a mesma originou. Os que não quiserem colaborar, pelo que já sobejamente foi referido, também ficarão sujeitos à rejeição das suas visões egoístas. Por se preocuparem somente consigo próprios. E não olhando em redor para apoiar corajosamente todos os que lutam para manter o emprego, o sustento, o negócio. E, acima de tudo, o seu maior bem que é a saúde.


(In Jornal Quinzenário "O Olhanense", de 15-01-2021)

 

13 de janeiro de 2021

RESTA-NOS A ESPERANÇA

 

O planeta Terra completou mais uma volta ao Sol. No alfa e ómega do pretérito ano, que não deixou saudades, tudo se passou de tão estranho que a atual geração só tem memória de casos semelhantes através da história.

Nem a entrada em 2021 livrou o mundo da pandemia do novo coronavírus. Nesta translação da Terra ficamos na esperança que em 2022 já possamos respirar de alívio naquele normal da rotação deste Planeta. Este período que ainda se continua a escrever, parece demasiado longo, mas talvez seja, segundo alguns analistas, a forma de começar a alternar o sentimento de pessimismo pelo de otimismo. Venham lá os equinócios e solstícios que nos permitam caminhar ainda que num novo normal, mas que os surtos, epidemias, pandemias e endemias nos deixem em paz. Precisamos de respirar de alívio. Urgem os beijos e abraços, as palavras de conforto na proximidade dos entes queridos e amigos. O bicho invisível quis fazer dissipar as palavras afeto, ternura, afeição, carinho.

Se é certo que já estamos fartos de ouvir falar de assintomático, confinamento, estirpe, higienizar, infetado, letalidade, máscaras, pandemia, quarentena, R0 (zero), teletrabalho, zaragatoa, e outras mais designações deste tempo pandémico que estamos atravessando, não podemos deixar de refletir do porquê de, em pleno século XXI, terem acontecido no Planeta tão expressivos números de milhares e milhões de mortos e casos de infeção. Quase que foram esquecidas as preocupações no âmbito dos problemas climáticos.

A lição que agora todos estamos a levar transporta-nos para o que nos abstivemos de fazer em termos de precauções, na dedução de muitos de que se sentiam imunes e que só aos outros o perigo os poderia atingir. O resultado está à vista de todos. Mas, mesmo assim, persistem os imprudentes que por essas ruas da cidade se cruzam entre si, sem máscara, se cumprimentam da mesma forma e não respeitam o distanciamento.

Na altura em que escrevo estas linhas, Dia de Reis, fica-nos a esperança de que os presentes dos Magos, de ouro, incenso e mirra, ao Menino, possam transmitir-nos aquela sensação de poder ser a dádiva divina, como portadores das vacinas por que todos ansiamos. Será uma forma de esquecermos 2020 que foi, como por castigo, se se tivessem abatido sobre a humanidade todos os males daquela caixa de uma lenda, a de Pandora. Acontece que, na versão de Afonso Camões, “Pandora era também curiosa e atreveu-se a abrir a caixa lacrada, julgando-a vazia. Foi então que, pela tampa, se soltaram o ano de 2020, a doença, o sofrimento, o ódio, a fome, a guerra, a mentira e o medo, sobretudo medo dos outros”. E o mesmo jornalista continua que “Lá bem no fundo da caixa, que a assustadora Pandora se apressou a fechar, restava apenas algo que o mito nos reservou para a posteridade. Era a esperança!”

Pois bem, é com ela que viramos costas a esse ano maldito.

A chegada da vacina é o primeiro e mais desejado sinal de uma nova esperança, graças à comunidade científica e também à mobilização do financiamento público, em especial da União Europeia, que no dia anterior em que redijo estas palavras se iniciou em Portugal a presidência desta mesma União Europeia.


(In "Notícias da Covilhã", de 14-01-2021)

DA PRESIDÊNCIA EUROPEIA AO NOVO NORMAL COM BRITÂNICOS

 

O novo ano surge na continuidade agravada da pandemia que grassa por todo o mundo. Os comportamentos dos cidadãos redundam nesse agravamento.

Portugal, pela quarta vez na história da sua integração na União Europeia (UE) volta a assumir a presidência do seu Conselho, depois das de 1992, liderada pelo primeiro-ministro Cavaco Silva, então ainda designada Comunidade Económica Europeia (CEE); 2000, com a liderança do primeiro-ministro António Guterres; e 2007, a terceira, exercida pelo Governo liderado por José Sócrates.

Nestas presidências portuguesas foram concluídos importantes acordos europeus e contribuiu para abrir a Europa a África.

Numa retrospetiva das mesmas, vejamos:

A primeira presidência, assumida quando Portugal era há apenas seis anos membro da CEE, foi marcada pela tensão provocada pelo início das guerras que conduziram à desagregação da ex-Jugoslávia. A crise rebentou a meio do semestre da presidência, que se tinha iniciado num clima de alguma euforia pela recente aprovação do tratado que abria caminho à criação de uma moeda única, o euro. Coube a Portugal procurar uma solução política que permitisse que os dinamarqueses trocassem o “não” (num segundo referendo, ao Tratado de Maastricht, que havia sido aprovado em dezembro de 1991) pelo “sim”, que viria a realizar-se no ano seguinte. Houve uma reforma histórica da mais importante política europeia – a Política Agrícola Comum (PAC).

A segunda presidência focou-se na Estratégia de Lisboa, de modernização e reforço da competitividade e do crescimento da economia europeia. Teve como um dos pontos mais importantes a I Cimeira África-Europa, no Cairo. Portugal deparou-se com a então chamada crise euro-austríaca, em que 14 dos 15 Estados-membros congelaram relações políticas bilaterais com a Áustria pela participação no governo de coligação de Viena de membros de um partido considerado de extrema direita. A presidência portuguesa conseguiu um acordo para uma pré-solução do problema austríaco, que passava por uma avaliação independente do comportamento do governo de Viena e da evolução da natureza política daquele partido, mantendo a coesão sem isolar demasiado a Áustria. Foi possível garantir o ponto alto do calendário da presidência, a Cimeira de Lisboa, na qual foi aprovado um conjunto de reformas e planos destinados a colocar a “nova economia eletrónica”, a internet e a sociedade da informação ao serviço do crescimento económico, do emprego e da coesão social na UE.

A terceira presidência teve como a maior das prioridades a assinatura do Tratado de Lisboa, que tirou a União da crise política e institucional em que tinha mergulhado com a rejeição de uma Constituição Europeia em referendo na Holanda e em França. Visando melhor o funcionamento do bloco europeu e reforçar o seu peso político na cena internacional, o novo tratado marcou “o nascimento de uma nova Europa”, conforme disse o então presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso.

Nesta quarta presidência, liderada pelo atual primeiro-ministro António Costa, que se vai estender pelo primeiro semestre de 2021, terá desde logo como prioridades o orçamento da UE para 2021-2027, o Fundo de Recuperação pós-pandemia e o “Brexit”. Vai realizar-se com novas regras, definidas pelo Tratado de Lisboa, em vigor desde 2009. Vai ter como grandes temas o Ambiente, a Transição Digital, a Dimensão Social, a Resiliência e a Europa Global. O foco desta presidência portuguesa vai ser a Europa Social e, na vertente externa, a realização da Cimeira UE-Índia. Como “tópico fundamental”, a relação entre a UE e África. 

Também desde o mesmo dia em que se iniciou a presidência portuguesa ao Conselho da União Europeia, se tornou uma realidade o Brexit, com os cidadãos europeus e britânicos a terem de se habituar ao “novo normal” nas relações entre o Reino Unido e a União Europeia, com impacto em áreas como o turismo, trabalho e estudos. O Acordo de Comércio e Cooperação UE-Reino Unido clarificou várias questões que afetam diretamente pessoas e empresas.

Várias coisas vão mudar. Vamos esperar que as novas situações existentes venham a ser pacificadores dos problemas que tanto tempo estiveram para resolver em cima da mesa das conversações. E que na quarta presidência portuguesa do Conselho da União Europeia se possa também debater algo mais que possa trazer luz entre os parceiros da União e aquele que optou por a abandonar.


(In "Jornal fórum Covilhã", de 13-01-2021)