14 de abril de 2022

UM 25 DE ABRIL NASCIDO COM UMA OUTRA ESPERANÇA

 

Na altura em que escrevo esta crónica está uma primavera muito fria. É a primeira estação do ano, depois de virado o equinócio em 20 de março. Mas os primeiros dias de abril não têm apresentado temperaturas amenas e agradáveis e aumento dos índices pluviométricos. Os dias começam de facto a ficar mais longos e as noites passam a ser mais curtas. O reflorescimento da flora terrestre começa a surgir. A mudança de hábitos, agora no modo de vestir, ainda está acautelado para o frio que não nos vai largando.

As televisões e os jornais enchem-nos de notícias do terror russo, com u8m Putin hitleriano, numa amálgama de nazi e jihadista, mas sobre este tema já muito me debrucei.

Como também já muito escrevi sobre a Revolução dos Cravos, sujeito a repetir algo sobre o tema.

Mas este ano há uma data insofismável que se reporta ao dia 24 de março de 2022. Conseguimos ultrapassar a ditadura vivida, em número de dias. São já, nesta data, 17500 dias em democracia, E a trombeta que assinala esta memorável data dá início às comemorações oficiais dos 50 anos do 25 de Abril, que se assinala em 2024. A efeméride é tão importante que as mesmas irão até 2026.

Outras datas também importantes serão registadas. Em 24 de março assinalaram-se os 60 anos da crise académica de 1962, quando o Estado Novo proibiu as comemorações do Dia do Estudante. Era então líder estudantil, naquela altura, Jorge Sampaio, que chegou a afirmar, por tal facto, que “o 25 de Abril começou a 24 de Março”. E é por isso que arrancam aqui as comemorações oficiais dos 50 anos do 25 de Abril.

Mas em 3 de abril também se comemoram 30 anos da morte de Salgueiro Maia, o capitão que comandou a coluna de blindados que veio de Santarém para vir cercar os ministérios do Ter4reiro do Paço, que fez o ultimato a Marcelo Caetano e o levou à rendição perante o general Spínola, e depois o escoltou até ao aeroporto de onde partiu para o exílio. Tudo sem disparar um tiro.

Nem toda a obra é perfeita, nem tudo se pensa que venha a surgir no âmbito dos nossos sonhos. Quem, como eu, viveu longo tempo na ditadura, e sonhou com outros tempos que passariam a ser risonhos, num horizonte de plena felicidade, apesar de a obra não ser perfeita, jamais se contava com condutas conducentes aos tempos que se viveram em ditadura, onde os pobres eram cada vez mais pobres, e os ricos com as algibeiras cada vez mais carregadas do vil metal.

Comemorámos esta data do 25 de Abril, algumas vezes já sem aquela força impulsora, intrínseca, indomável que inebriava as nossas almas. Foram muitos os governantes que, tendo uma imagem de homens e mulheres sérias, e até então honestas, por via do poder do dinheiro fizeram por olvidar esta caraterística duma pessoa confiável, porque o poder do dinheiro é mais forte que a robusta honestidade.

Apesar destas manchas que surgiram na nossa democracia, incluindo o desaproveitamento dos fundos europeus, e o seu esbanjamento em certos governos de Portugal, com o salto para a ribalta política de jotas, boys e girls, que muitos vieram prosseguir o caminho da governação, valeu a pena a Revolução dos Cravos.

O próprio antigo Presidente da República Ramalho Eanes admitiu que, na altura do 25 de Abril de 1974 “esperava mais”, afirmando que não foi feito o suficiente para se “politizar a sociedade”  e instituir uma “democracia dinâmica, em que o povo resolvesse participar, em que o povo sentisse que ele é efetivamente o dono da liberdade e o dono do país.”

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “Notícias da Covilhã” digital, de 14-04-2022)

6 de abril de 2022

OS MALANDROS – GALBA a. C, PUTIN d.C.

 

Ao longo dos tempos sempre houve quem se revelasse na maldade sob os ventos da história.

Hoje, depois de termos vivido num ambiente de paz reinante na generalidade do planeta, conforme já me referi noutro artigo, mormente na Europa, embora com ventos e marés pelo caminho, desde a Segunda Grande Guerra, eis que um malandro, sanguinário, agita ferozmente a invasão de um país soberano – a Ucrânia –, não se importando de lançar a guerra no mundo, declinando a paz. Isto já estamos fartos de saber diariamente.

Em Portugal superou-se, em 24 de março do corrente ano, por um dia, o tempo vivido em ditadura.

A guerra passou a ser o fantasma e uma realidade na Europa. E as palavras: promessa, garantia, confiança, contrato de boas intenções, acordo oficial, foram substituídas por uma única que dá pelo funesto nome de traição.

E é nesta base que memorizo, por analogia, outro “Putin” de outrora, selecionado dentre muitos. Sérvio Sulpício Galba, em 151 a. C. recebeu o governo da Hispânia Ulterior como pretor, continuando a Guerra Lusitana. Os lusitanos causaram a Galba enormes perdas. Segundo os cronistas, na primavera de 150 a. C., Galba invadiu novamente a Lusitânia e os Romanos arrasaram o território. Quando os Lusitanos enviaram uma embaixada reclamando a violação do tratado que haviam firmado com o pretor Marco Atílio Serrano, e reiterando o seu propósito de manterem os termos de paz prometida por eles, Galba recebeu-os amavelmente. Prometeu-lhes terras férteis onde se poderiam estabelecer com as suas famílias, sob a proteção de Roma, se permanecessem leais. Acudiram cerca de 30 000 lusitanos solicitando o cumprimento dessa promessa. Galba, repartiu-os em três acampamentos e exigiu-lhes que entregassem as armas em sinal de amizade. Logo que tal aconteceu, rodeou-os com todo o seu exército e ordenou um ataque. Cerca de 9000 foram passados pela espada e 20 000 foram capturados e vendidos como escravos aos Gálias. Somente uns poucos conseguiram escapar, incluindo Viriato, que, anos depois, se vingaria por esta traição romana, em vários combates que ganharia.

Mas a diferença de forças em combate ia-se tornando em tarefas difíceis. E já Táutalo, o grande amigo de Viriato reconhecia que tinham pouco mais de três mil cavaleiros e dois mil homens a pé, contra mais de 30 mil romanos, em várias frentes de ataque.

As palavras de ordem do líder era “Temos de negociar”. Era evidente que lutar seria um suicídio. Saíram todos em silêncio, mantendo-se apenas Viriato, Táutalo , Audax, Ditalco e Minuro.

Os romanos Cepião e Lenate estavam em Tucci e Audaz, Ditalco e Minuro foram dar-lhes a conhecer as condições propostas por Viriato: “Não abandonamos as armas, mantemos o nosso território e não nos envolvemos em escaramuças“.

Viriato despediu-se da mulher, Munnia, e do sogro, Astolpas. Parte na sua égua “Milos”.

Entretanto, os emissários, homens de confiança, enviados por Viriato, são corrompidos pelos romanos com promessas de riquezas. E, na pessoa de Lenate, insiste: - “Não queremos as vossas terras, apenas as armas, para que haja paz.” “Lenate olhou de soslaio para Cepião, retirou três moedas de ouro do saco e distribuiu-as pelos três. E há mais de onde veio este”. O regresso dos emissários foi fatal para Viriato, assassinando o seu chefe enquanto dormia.  Termina assim aqui a vida deste notável guerreiro ibérico. Duas semanas depois, os três assassinos e traidores de Viriato, deslocaram-se a Tucci, a base da operação romana na Ibéria Ulterior. Iam receber a recompensa prometida por Lenate e Cepião.

Então, quando esperavam receber dos romanos, na pessoa de Libérius, o ouro que lhes haviam prometido, em troca pela morte de Viriato, os mesmos foram apunhalados e mortos, com esta indicação: – “Roma não negoceia com traidores”. Este é um exemplo entre muitos, ao longos dos tempos.

A outra face da moeda é depois de Cristo. Durante a Guerra Fria, a terceira maior potência nuclear do planeta não era o Reino Unido, a França ou a China, mas sim a Ucrânia. E com o colapso da União Soviética (URSS) em 1991, a nação recém-independente herdara cerca de 3000 armas nucleares deixadas por Moscovo em seu território. Três décadas depois, a Ucrânia está totalmente desnuclearizada. E o tema volta à tona agora que o país se encontra numa posição delicada após a invasão territorial comandada pelo Kremlin, que ameaça reagir a qualquer tentativa de interferência das potências da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) no confronto.

Através do Acordo de Budapeste, nos anos 1990, a Ucrânia decidiu abrir mão das armas nucleares deixadas em seu território em troca de segurança e reconhecimento como país independente. Tudo foi acordado por meio do Memorando de Budapeste, um acordo assinado entre o governo ucraniano, a Rússia, o Reino Unido e os Estados Unidos após o fim da URSS. No entendimento firmado em 1994 na capital da Hungria, a Ucrânia comprometia-se a aderir ao Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP) e a devolver para Moscovo as ogivas deixadas no seu território.

Em troca da desnuclearização de Kiev, os governos da Rússia, dos EUA e do Reino Unido comprometeram-se a respeitar a independência, a soberania e as fronteiras existentes da Ucrânia e a abster-se da ameaça ou do uso da força contra o país. E agora o que está a acontecer? Putin, traidor, não respeita nada, brinca com a ONU, brinca com o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos. A ONU, NATO e UE só agora acordaram duma letargia em que se encontraram. Esperemos que uma azia neste maldito Putin o não largue até que seja absorvido por instintos de remorsos pelo imenso mal que está a ocasionar a milhões de pessoas que nada têm a ver com a sua disfuncionalidade cognitiva.

 

João de Jesus Nunes

                                        jjnunes6200@gmail.com

 

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 06-04-2022)

1 de abril de 2022

CONTE-NOS A SUA HISTÓRIA - JOSÉ ALBERTO FERREIRA AZEVEDO

 






Corria o dia 16 de novembro de 1941, em plena II Grande Guerra, quando nasceu o covilhanense, nosso entrevistado para este número do CE. Pessoa dotada duma extraordinária simpatia, amigo do seu amigo, que reúne no companheirismo muitos em seu redor.

Se ao ver a luz do dia, pela primeira vez, existiam fortes nuvens bélicas no Mundo de então, o seu destino, como tantos milhares de portugueses, seria o de se ver também obrigado a participar, longe da sua Terra, numa guerra subversiva, como então se designava, nos já longínquos anos de sessenta do século XX, para as bandas do continente africano.


Depois de, na tranquilidade desafogada, mesmo em tempo de racionamento, viver com os pais na Quinta Nova, no Refúgio, onde trabalhava na agricultura, feita a instrução primária, rumou, como tantos outros, para prolongar os estudos na Escola Industrial e Comercial Campos Melo. Aqui, volvidos três anos ficaria precocemente sem o pai, pelo que decidiu concluí-los no período noturno já que a quinta, com trabalhadores, necessitava então do seu apoio, assim como sua irmã e a mãe.

Tendo sido chamado para o serviço militar, cuja inspeção foi aos 19 anos, tentou ainda ser considerado “amparo de mãe”, a fim de se libertar daquela obrigação militar, o que não lhe foi concedida. Chegou mesmo a omitir as habilitações escolares, mas em vão.

É então incorporado no RI 10 em Aveiro no dia 14 de agosto de 1962, um ano após o início da chamada Guerra do Ultramar.

Como o mesmo reporta, “nessa altura do início da guerra colonial não havia condições logísticas decentes”. E conta algumas partes interessantes quão também de horripilantes que, face à sua extensão, não cabem nesta página mas que é interessante ouvir-lhe contar.

Em 14 de outubro do mesmo ano foi tirar a especialidade de armas pesadas metralhadora Breda, no RI 2 em Abrantes. Em 28 de novembro passou ainda pelo BC 6 em Castelo Branco e em 3 de setembro de 1963, estando de férias, recebeu ordem de mobilização, apresentando-se em Tomar, seguindo depois para Santa Margarida. Em 5 de dezembro de 1963, já com 16 meses de tropa, e como 1º. Cabo, embarcou com destino a Angola ao enclave de Cabinda, no paquete Vera Cruz. Foi incorporado no Batalhão 554 Companhia 553, chegando a Cabinda a 14 do mesmo mês, assumindo a responsabilidade operacional da Z A em 26 de dezembro. Aqui tiveram bastante atividade, felizmente sem qualquer baixa. A 12 de junho de 1964 seguiram mais para leste, uma zona mais ativa do inimigo (IN) onde sofreram a única baixa em combate. Em outubro de 1964 coube ao Batalhão assegurar a integridade da zona conhecida por Alto do Maiombe. “Aqui, tínhamos grupos de combate em Sanga Planície, em pleno Alto do Maiombe. Numa zona tão extensa só lhe foi atribuída uma Subunidade, que exigia patrulhamentos apeados da ordem dos 130 Km em ambos os sentidos. (…) Os reabastecimentos eram quase na totalidade feitos por meios aéreos e paraquedas. A acrescentar ao esforço físico despendido tinham ainda que reabastecer a pé um destacamento a 13 Km, transportando os géneros às costas, e dedicar o resto das energias na construção de edificações. Neste trabalho duro, a ação do IN fez-se sentir, como na Ponte do Lombe e emboscada em Sanga Miconge. Fizeram-se diversas operações entre elas a Caça Grossa onde destruímos um acampamento do IN – ‘Vale das Pacaças’, na fronteira com o Congo onde foi capturado 1 guerrilheiro e diverso material. O IN foi apanhado de surpresa e ainda ofereceu alguma resistência, mas acabou por sair em debandada já em território do Congo”.

De Cabinda ainda se deslocou para Tando Zinze, Prata, Pangamongo, Miconje, Caio Guembo, Malembo, Tchinzaze, Belize.

O dia mais marcante para o nosso entrevistado foi no dia 6 de dezembro de 1965 em que duas minas anticarro mataram 11 camaradas de uma Companhia que estava adida ao seu Batalhão.

Depois deste “resumo muito breve” – como nos conta José Alberto Azevedo, de muitas estórias “da história que tem do Ultramar”, embarcou em Luanda em 24 de março de 1966 chegando a Lisboa em 6 de abril, seguindo para Tomar, e daqui para a Covilhã, onde finalmente chegou no dia 8 de abril de 1966.

Passou então a exercer a sua atividade profissional de debuxo na indústria de lanifícios, na Covilhã, onde se aposentou.

 

(In “O Combatente da Estrela”, nº 126 – ABR/2022)

NÃO QUEREMOS MAIS GUERRAS

 

Depois de um período de paz entre nações de quase oito décadas, que resistiu até a terramotos políticos como o colapso do mundo soviético ou às sequelas da guerra civil nos Balcãs, a Europa assiste incrédula, assustada e preocupada a uma nova violação de fronteiras.

Os tambores de guerra vão sobrepor-se à prioridade mundial do combate à crise ambiental e climática, que exige uma necessária e urgente cooperação forçada entre todas as grandes potências.

Desde 1945 e o fim da Segunda Guerra Mundial que a Europa tinha atravessado um período de paz. Com exceção de alguns conflitos localizados que resultaram da independência de novos Estados após o já aludido colapso da União Soviética, nos últimos 77 anos não houve guerra na Europa.

As gerações de europeus que nasceram e viveram neste período nunca conheceram outra situação que não fosse a paz. Para aqueles que nasceram depois do fim da Segunda Guerra Mundial a paz é um dado praticamente adquirido.

O conflito militar aberto entre a Rússia e a Ucrânia, com o possível envolvimento dos países ocidentais, vem alertar o Mundo para as consequências dramáticas do fim da paz na Europa, e, quiçá, do Mundo.

Além da insegurança, da perda de vidas humanas e da destruição, há efeitos económicos imediatos que já se fazem sentir com as sanções aplicadas, a suspensão de trocas comerciais e a redução dos investimentos.

No ano transato comemoraram-se os cem anos da fundação da Liga dos Combatentes ao serviço de Portugal e de seus gloriosos Combatentes; e também sessenta anos do início das guerras coloniais em que os portugueses foram envolvidos por força da teimosia dum regime ditatorial que, felizmente, teve os seus últimos dias em 1974 com a Revolução dos Cravos.

Sem olvidar o tempo difícil por que certamente iremos passar, fruto também de um assassino ditador russo, desejoso do imperialismo e saudosista da URSS, derrubada em 1991, sabemos que, em 1974, havia 150 mil jovens portugueses compulsivamente a prestar serviço nas Forças Armadas, a maior parte das quais em Angola, Guiné e Moçambique e que a guerra colonial sorveu, em 13 anos, mais de 90% da juventude masculina, obrigada ao serviço militar de dois a quatro anos. Segundo dados do EMGFA, dos 8831 militares portugueses mortos devido a várias causas, 4027 perderam a vida em combate e a guerra provocou ferimentos e deficiências físicas em cerca de vinte mil, dos quais 520 com grau superior a 60%. Relativamente aos portugueses que foram psicologicamente afetados, com stress pós-traumático, que atingiu ex-combatentes e famílias inteiras, embora o número seja contestado, contabilizaram-se 140.000, segundo informação do Público.

Com base no mesmo periódico, ainda está por calcular o verdadeiro número de compelidos, refratários e desertores portugueses, cujo papel, tal como o da emigração, contou tanto contra o esforço de guerra colonial, como para o 25 de Abril de 1974. Sobretudo, estão por contabilizar quantos africanos, civis e dos movimentos de libertação morreram, ficaram feridos e com stress pós-traumático. Os mortos africanos terão chegado pelo menos aos cem mil.

Escrevi estas linhas no dia 8 de março, dedicado ao Dia Internacional da Mulher. Não podemos também esquecer a Mulher em tempos de guerras. Como temos sobejamente presenciado, vemo-la a carregar o peso de deixar o marido para trás e levar pela mão os filhos pequenos, a caminho de um país que acolha os refugiados da Ucrânia. É a maior prova de fogo a que milhares de mulheres europeias estão sujeitas. O mesmo já aconteceu na Síria, no Afeganistão. Desta vez toca-nos mais perto. É no Velho Continente, conforme refere Rosália Amorim, in DN, que parece ter esquecido as feridas profundas da Segunda Guerra Mundial, que eclodiu o conflito que dilacera as famílias.

Ainda sem termos saído de uma outra guerra – a pandemia Covid 19 – que também as nossas gerações não haviam conhecido, faltava-nos a crueldade de um ser humano, se é humano que assim se possa chamar, a esse tétrico Putin, qual novo Hitler, amante de uma nova guerra.

Resta-nos, pois, afirmar gritantemente: NÃO QUEREMOS MAIS GUERRAS!

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “O Combatente da Estrela”, nº 126 – ABR/2022)

 

16 de março de 2022

ACIRRADOS: DAVID E GOLIAS OU O LOBO E O CORDEIRO

 

A caminho de algum lenitivo face ao abrandamento da pandemia que afetou todo o Planeta, todas as gerações do século XXI e a grande maioria do século que o precedeu jamais passara por uma situação como aquela que agora vivemos.

Estávamos já a respirar de algum alívio, num novo mundo, quando surge um Golias diabolizado que há muito ia espreitando a oportunidade de, pensando ser trigo limpo, querer dissipar o pequeno David – Zelensky.

Estávamos naquela quinta-feira de 24 de fevereiro quando o “Golias” Putin, não à frente do seu Exército – o segundo mais poderoso de todo o mundo – mas a agitá-lo à distância, iniciou a conquista pela força de regiões inteiras no país vizinho – Ucrânia, que ocupa o 22.º lugar deste ranking, com um pequeno mas grande “David “  em Kiev.

Durante semanas, o russo Putin garantiu que o destacamento de 150 mil soldados russos e de colunas com tanques e camiões se destinavam apenas à realização de exercícios militares. Mas mais não era, como já se adivinhava, de planear uma invasão ao país vizinho – Ucrânia. Já recentemente havia decidido reconhecer como países independentes as autoproclamadas repúblicas de Donetsk e de Lugansk cujas capitais estão ocupadas por forças pró-russas desde 2014. O “Golias” querendo utilizar algum ardil dizia que eram “forças de manutenção da paz” – a paz diabolizada de Putin, no seu chico-espertismo.

 

Extramuros, do lado da União Europeia, surgem as contribuições para as fundas das primeiras pedras em defesa do pequeno David, com um primeiro conjunto de sanções que teve como alvo as entidades que financiam estas operações militares, bem como os indivíduos responsáveis por esta desastrosa decisão invasora: fortunas congeladas e os britânicos a colocarem ponto final nos programas “vistos gold”. Os alemães, já sem a senhora Angela Merkel, mas com o então novo chanceler alemão a anunciar a suspensão do gasoduto Nord Stream 2, um enorme empreendimento que liga a Rússia e a Alemanha através do mar Báltico, uma oportunidade de ouro para aumentar a capacidade de exportação de gás natural russo para o mercado europeu a preços baixos, pois que, neste caso insofismável, temos que compreender que nem tudo o que luz é ouro.

Para grande estupefação da Europa que já não presenciava nada assim há muito tempo, e até pensava não mais vir a assistir a tão lamentável dilaceração duma parte deste Continente, vê chegar não a sombra de uma nova guerra fria, nas memórias do bíblico Golias, ou mesmo de Nero, mas do passado a papel químico Hitler versus Putin.

 

A União Europeia, ainda não totalmente refeita duma das suas parcelas desavindas, viu o Reino Unido dar uma resposta à Rússia, à altura da gravidade da situação, congelando atividades bancárias, bens de oligarcas, ao mesmo tempo que apelava à exclusão da Rússia do sistema de pagamentos SWIFT. Será caso para dar o grito do Ipiranga: Viva o Brexit!

 

Conforme refere Jorge Almeida Fernandes, in Público, “Décadas sem guerras de potências mudaram a mentalidade dos europeus. A comemoração do 70º aniversário do fim da II Guerra Mundial garantia o fim das guerras no Continente”. E transcreve da americana Rosa Parker que “Passámos anos a acreditar que a guerra e o terror iam acabar e que as liberdades seriam garantidas”.

 “Tal como Heródoto escrevera há dois milénios e meio: ‘Ninguém é suficientemente insensato para preferir a guerra à paz. Nos tempos de paz, os filhos enterram os pais; nos tempos de guerras, os pais enterram os filhos’”.

Em 2014, tivemos um aviso: a Rússia anexou a Crimeia e os russófilos ucranianos ocuparam parte do Donbass. Foi a primeira anexação territorial pela força, na Europa, desde 1945. Pelo que se infere que o que agora sucede começou em 2014.

Para compreender a fixação de Putin com a Ucrânia torna-se necessário ir à sua juventude, ele que nasceu em 7 de outubro de 1952 em Leninegrado, atual São Petersburgo. Cresceu, como tantos da sua geração, sujeitos à força da propaganda soviética. Portanto, ainda tem frescas as feridas do colapso da União Soviética e da perda da sua esfera de influência. Por isso, este ditador já considerou o fim da União Soviética como “a maior catástrofe do século XX”, pior na sua opinião do que as duas guerras mundiais. No discurso em que reconheceu a independência de Donetsk e Lugansk, Putin voltou a 1991 para argumentar que a Ucrânia não é “um Estado”, tendo sido “roubada” à Rússia pelo colapso da União Soviética.

Este Putin – o homem mais solitário do mundo – e o seu regime escondem na mentira e na dissimulação uma vontade de poder insaciável. Parece encontrar-se perdido nos seus discursos demenciais e belicistas.

E no meio de tanta desgraça ocasionada pela vontade de um único homem, maldito Putin, não obstante procura de acabar com a guerra na Ucrânia, nas conversações para a paz, se é de paz que ele alguma vez lhe interessa falar, atribui culpas à Ucrânia, a qualquer jeito, como na fábula de La Fontaine, “O Lobo e o Cordeiro”, donde extraio um pequeno excerto, depois da fábula prosseguir com provocações grosseiras por parte do lobo, que o cordeiro foi tentando rebater. Mas o lobo estava, tal como Putin, desde o princípio, determinada a comer o pequeno animal. Por isso, sem piedade, e de todo indiferente à razão decidiu atacar e matar o cordeirinho: “Esta fábula dá brados/Contra aqueles insolentes/ Que por delitos fingidos/Oprimem os inocentes”.

E, para vergonha nacional, o PCP, através dos seus responsáveis, alguns tentando desculpas esfarrapadas, colocaram-se ao lado de Putin, rejeitando sanções aprovadas pela União Europeia. Se este Partido Comunista Português já se encontra em decadência, com este tiro nos pés, mais afundou o seu barco a navegar em águas turvas e turbulentas.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In "Jornal Fórum Covilhã", de 16-03-2022)

9 de março de 2022

SAUDOSO VERÃO AZUL COM CRIANÇAS DE CHERNOBYL

 

Esta terrível guerra surgida entre duas nações – Rússia e Ucrânia – a mando de um carniceiro russo – Vladimir Putin, desejoso de voltar aos tempos da União Soviética, ou, mais que isso, formar um único grande império que pudesse competir com o Mundo, baseando-se nas suas armas nucleares, tem levado, em poucos dias, ao extremo da desgraça em muitas famílias ucranianas, principalmente, com a grande maioria das gentes deste Planeta a insurgir-se contra esta tentativa de usurpação do poder ucraniano.

Lamentavelmente, mesmo assistindo ao que nos entra pelos olhos adentro por via das televisões e outros meios de comunicação social e, no âmbito das novas tecnologias, as redes sociais, ainda há um partido português, dito democrático, que se coloca ao lado da ditadura de Putin.

Vem este texto a propósito, não só pelo que já é sobejamente conhecido de todos do que se está a passar entre as duas nações beligerantes, e as suas repercussões pelo mundo fora, numa das desgraças que jamais pensaríamos viessem a existir, depois da II Guerra Mundial, e da queda do Muro de Berlim, mas também pelo post que encontrei no Facebook do conhecido jornalista da RTP, Mário Augusto, a propósito duma sua visita que efetuou, há nove anos, a Chernobyl.

Foi em 26 de abril de 1986 que o quarto reator da central de Chernobyl explodiu, libertando sete toneladas de combustível nuclear e radiações cem vezes superiores às das bombas de Hiroxima e Nagasaki, durante a II Guerra Mundial. Nem sabemos como continuam ali a viver quando Kiev fica a uns 70 quilómetros.

E é Mário Augusto que assim se refere no seu post: “O planeta redondinho e azul, às voltas no silêncio sepulcral do universo, lá segue a rota do sol como se nada fosse, mas cá em baixo a vida e o mundo trocam-nos as voltas sem aviso nem compasso de espera. Há nove anos estive na Ucrânia, em Kiev, em Ivankiv, em Prypriat em Chernobyl. Vim de lá aterrado pelos olhares das crianças que vi… e não havia guerra, só pobreza e falta de esperança e sorrisos. A minha família tinha acabado de integrar um projeto solidário dinamizado pelo então presidente da Liberty Seguros (homem de coração grande) José António de Sousa que pagava o transporte e a logística para que dezenas de crianças da região de Chernobyl tivessem umas férias de sol, um VERÃO AZUL com famílias de acolhimento. Com a aposentação de José António de Sousa, as linhas mestras da companhia foram outras e o projeto de uma década acabou sem mais, para tristeza dessas famílias de acolhimento que tudo faziam para dar a alegria e esperança a essas crianças, que chamavam como filhos durante pouco mais de um mês de Verão Azul, iam aos médicos, compravam roupas e guloseimas, divertiam-se. Ficaram laços para a vida, laços eternos. Essas crianças e jovens não sabem, mas deram-nos mais do que lhes demos nós de carinho e verão. São esses meninos de Ivankiv que por estes dias nos ligam num pranto assustado que nos arrepiam de dor e aflição pelo que estão a viver. Há famílias que quando conseguem ligar (nada fácil por falta de energia e rede nos esconderijos, nas caves enterradas nas casas sem nada) ouvem-se tiros e explosões pelo telemóvel, o crepitar dos escombros que ardem. (…)”.

Foi assim que de imediato entrei em contacto com Mário Augusto e lhe enviei o meu livro “O Documento Antigo – Uma outra forma de ver os Seguros”, prefaciado pelo Dr. José António de Sousa, indicando-lhe que nas páginas 393 a 397 poderia ler essa meritória ação da Seguradora, então sob a égide deste administrador, sob o título “Até ao último verão – Verão Azul é o projeto que traz crianças de Chernobyl a Portugal”, e, na página 395 lá era feita referência ao jornalista Mário Augusto.

Por coincidência, na sexta-feira, 4 de março, lá estivemos no Sabugal, num encontre de amigos, onde não faltou a presença do Dr. José António de Sousa.  Próximo, em Seia, dia 6 de maio.

Paradoxalmente ao bem que era feito às crianças de Chernobyl, o satânico Putin, sem coração nem alma, incendeia com bombas uma central nuclear e força a ocupação para seu controlo da maior central nuclear da Ucrânia.

Só nos resta esperar que este diabo à solta, e seus apaniguados, como Sergei Lavrov, tenham momentos perturbadores nas suas consciências, se é que neles elas existem, que os façam sentir o enorme mal que estão a ocasionar à Humanidade, onde se inclui o seu próprio povo.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmaqil.com

(In "Notícias da Covilhã", de 10-03-2022)

16 de fevereiro de 2022

A PULGA BONITA DE ARRAIOLOS


 

Não se trata daquele conhecido inseto de que todos fugimos mas tão só do nome de uma linda jovem cujo rosto andou nos bolsos de todos os portugueses, muito antes de se falar no euro, salientando-se nas moedas de 5 escudos e 50 centavos.

Pois bem, em 1910, com 18 anos (outros referem 16) – Hilda Pulga de seu nome, natural de Arraiolos, onde nasceu em 1892, serviu de modelo para o Rosto da República, ao escultor Simões de Almeida, sempre sob o olhar atento da mãe.

Foi ela que posou para o busto da “República”. Um seu familiar veio a saber que a senhora foi para Lisboa muito jovem, com os seus 10 a 13 anos, e que “as fomes daquela altura”, no Alentejo, que “eram muito grandes”, terão motivado a sua mudança para a capital, exercendo a profissão de costureira.

A sua vida foi repleta de aventuras. Ela, que consta ter sido profundamente monárquica, muito católica e reacionária, aceitou o pedido do escultor, por amor ao País. Hilda trabalhava numa camisaria na Rua Augusta, na Baixa de Lisboa. Estava a fazer uma entrega quando se cruzou com o escultor, que lhe achou graça, vendo nela o rosto cheio de beleza e o ideal para o trabalho que pretendia executar, convidando-a assim para sua modelo. Como Hilda era menor de idade, Simões de Almeida teve de pedir autorização à mãe dela, que lhe impôs duas condições: ela própria teria de estar presente nas sessões; e a filha teria de posar vestida. No entanto o busto do escultor mostra uma mulher de amplo decote, com o pescoço e os ombros descobertos, o peito envolto por um manto com a esfera armilar ao centro e a cabeça coberta por um barrete frígio. Mas Hilda jurou que só tinha desabotoado um botão da camisa e que o escultor apenas lhe moldava o rosto.

O pai de Hilda era um homem abastado, proprietário da fábrica de tijolos da praça de Touros do Campo Pequeno, em Lisboa. Um revés nos negócios obrigou-o a vender a fábrica, e atraído pelo negócio da borracha, rumou para a Amazónia peruana, onde veio reunir a mulher e os cinco filhos, erguendo um armazém geral. Lá foi Hilda, a mãe e os quatro irmãos, numa longa viagem de três meses, de Lisboa para Belém do Pará, de “vapor, barco e piroga”. Após três anos felizes na Amazónia, o pai adoece, tendo que regressar a um clima temperado, a conselho médico. A família Pulga regressa a Lisboa mas o pai não aguenta a viagem e morre a bordo, ao largo de Cabo Verde, sendo o funeral feito no mar.

Surge a miséria na família, sem o sustento necessário. Hilda Pulga dedicou-se à costura e nunca deixou de costurar a vida toda, até aos 96 anos: “lençóis, toalhas, fardas de empregada, crochet”, ocupando-se muito em leituras. Antes dos 30 anos teve um primeiro cancro, e, na mesma altura, casou-se com um jornalista, cujo matrimónio durou somente dois meses. Apesar de muito católica, pediu o divórcio em 1932 (ainda antes da Concordata ser assinada em Portugal). Voltou a casar-se e nunca teve filhos, criando uma sobrinha. Aos 77 anos optou por ir para um lar, remetendo-se à clausura total. Faleceu com 101 anos, em 1993.

Com a implantação da República, foram modificados os símbolos nacionais: a bandeira, o hino nacional e o busto. Este símbolo – o busto da República – sendo a representação de uma ideia, é expresso de forma icónica através do busto de uma mulher, ostentando um barrete frígio. A imagem teve como inspiração a obra “A Liberdade guiando o Povo”, pintada em 1830 pelo francês Eugene Delacroix. Esta imagem da República é uma herança da Revolução Francesa (1789) e dos seus ideais, nomeadamente a liberdade, a fraternidade e a igualdade. Em Portugal, esse símbolo nasceu em meados do ano 1908, em pleno período de forte descontentamento e de grande agitação popular, no ano em que teve lugar o regicídio, ou seja, dois anos antes da vitória definitiva da República. Foi assim que um grupo de republicanos portugueses, liderados pelo Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Braamcamp Freire e pelo arquiteto e vereador municipal, Ventura Terra, resolveram abrir concurso para que fosse elaborado um busto de mulher que, à boa maneira francesa, fosse um símbolo que facilmente a generalidade do povo português, fortemente marcado por iliteracia, pudesse compreender. E assim surgiu a alentejana Hilda Pulga, que, com todos os preconceitos que existiam, no início do século XIX, era preciso ter muito arrojo para posar para um artista e Hilda teve essa coragem. Durante um mês, Hilda Pulga posou duas horas por dia para que se concretizasse o busto…Foi obra!...

O busto oficial da República foi escolhido num concurso nacional promovido pela Câmara Municipal de Lisboa em 1911, do qual participaram nove escultores. É da autoria de Francisco dos Santos e está exposto na Câmara Municipal. Existe no entanto outro busto que foi adotado como o rosto da República, da autoria de José Simões de Almeida, embora tivesse ficado em segundo lugar no concurso, e criado em 1908.

Hilda Pulga foi a jovem, de carne e osso, que corporizou a República.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “Notícias da Covilhã”, de 17-02-2022)

E TUDO O VOTO LEVOU

 

Um vendaval de “surpresa” ocorreu nestas últimas eleições. A maioria absoluta do PS colocou o país qual Milagre das Rosas.

Fartos já de ouvirmos a palavra “polarização”, e outras mais do mesmo, como no início da democracia aquelas “amplas liberdades democráticas”, a resposta dos Portugueses não poderia ter sido melhor a penalizar aqueles que contribuíram para o desfecho destas eleições.

Nas desculpas esfarrapadas dos (ir)responsáveis pela situação que os próprios geraram, levaram grande parte do espaço da campanha eleitoral a bater no ex-primeiro ministro, ao não querer apresentar alterações ao orçamento chumbado, em vez de eleições, de que a ideia de António Costa era ter a maioria absoluta.

Acredito que CDU e BE jamais pensariam levar a direção deste caminho, e, logo após o chumbo do Orçamento de Estado, a fisionomia de Jerónimo de Sousa era bem evidente. “A dirigente bloquista passou a primeira metade da campanha a justificar a decisão da rejeição do Orçamento e a segunda metade a parecer querer pedir desculpa por tê-lo feito”, pelo que, nas palavras de Boaventura de Sousa Santos, coloca em dúvida a credibilidade daquela dirigente.

Agora, “O PS pode fazer o que quiser. Preparar as suas políticas e designar os seus protagonistas. A nada está obrigado, a não ser à lei e à democracia. À justiça e à honestidade”, segundo as palavras de António Barreto.

Estas não foram as primeiras eleições que decorreram em pandemia. No entanto, desta vez as circunstâncias foram diferentes, com um elevado número de infetados, bem como em isolamento profilático, que, previamente inscritos, puderam votar os que o desejaram fazer.

Com o trambolhão enorme da CDU e o BE (pena terem deixado de ter presença no Parlamento os históricos António Filipe e João Oliveira, que vão fazer falta no hemiciclo), o PS deixa de ter desculpas para protelar as reformas que se impõe realizar.

O mal de que vinha padecendo o CDS tornou-se de morte para a sua continuidade no novo Parlamento (ele, um dos fundadores da democracia), e já nem de partido de táxi passara a ser. Partidos de bicicleta, esses são agora o PAN e o LIVRE, com a eleição de um único deputado.

Pois é, o povo português gosta de estabilidade e já não vai à bola com o populismo que certas lideranças aproveitam para apregoar na estrada. No entanto, “convém entender que a nossa democracia já está amadurecida e há chicanas políticas que quem vota não perdoa. Logo a devido tempo lança a farpa para agir em legítima defesa”, na interpretação de José Albano, in A Guarda.

Não podemos esquecer a extrema-direita, com o CHEGA a alcandorar-se como terceira força política, a IL também em posição destacada, mas temos fé que o Povo Português saberá defender a democracia, o que leva António Barreto a dizer no seu artigo in Público, sob o título “Sem desculpas”: “O PCP e o Bloco, que liquidaram o atual Governo, foram derrotados, o que confirma a ideia de que Deus não dorme”.

Numa análise do Expresso, “Os mais ricos votam mais IL, mais Bloco e mais CDU mas menos Chega. Os mais pobres preferem o centro e penalizam os outros partidos. Onde há mais RSI, o Chega tem melhor resultado. Mas nos concelhos mais jovens o PSD é dos que mais perde”.

O chefe do novo governo terá que ter o entendimento do PSD para poder fazer grandes reformas uma vez que são necessários dois terços de deputados no Parlamento. Já sem as amarras do Bloco de Esquerda e do Partido Comunista, António Costa, nas suas inevitáveis dificuldades deste novo governo (que sempre irão existir) decerto tudo fará para utilizar bem a maioria absoluta a favor do crescimento e do desenvolvimento do País, esperando-se sem cedências a clientelas e amiguismos.

É que, conforme referiu Agustina Bessa-Luís, “O país não precisa de quem diga o que está errado: precisa de quem saiba o que está certo”.

E, assim, António Costa, dentro de quatro anos, poderá sonhar com Belém.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 16-02-2022)

19 de janeiro de 2022

2022 – DESEJAMOS UM NOVO TEMPO

 

Chegámos ao fim de mais um ano. Foram trezentos e sessenta e cinco dias. Muitas vezes nos pareciam ter o dobro do tempo. Noutras situações, paradoxalmente, as horas não eram suficientes para chegar a bom porto no cumprimento dos desafios que tínhamos pela frente. Quantas vezes tivemos que agarrar o touro pelos cornos.

A entrada no novo ano, se bem que deve ser encarada com expetativa, está, no entanto, rodeada de incertezas. Vejamos como já estávamos a caminho dum certo lenitivo da fase pandémica, e, dum momento para o outro, surge a variante Ómicron. Os internamentos nos cuidados intensivos são em grande parte de não vacinados. De quando em vez lá vejo na necrologia alguns dos teimosos negacionistas. Outros, chegaram ao arrependimento só quando se viram com as algemas da doença que não perdoa.

A principal incerteza coloca-se quanto ao fim da crise pandémica. Esperávamos um efeito da imunidade de grupo tudo se direcionando para o fim da pandemia quando surgem as novas variantes como a já referida. E não fica por aqui, pois nos últimos dias, conforme noticia o Público, têm surgido notícias e burburinho sobre uma variante do SARS-CoV-2 identificada em França, a B.1.640.2, com mais de 40 mutações genéticas. “Especialistas têm-se desdobrado a explicar que, por agora, não há motivos para alarmismos. É para se ir vigiando, tal como acontece com outras variantes do vírus.”  Inverteu-se assim a tendência e atrasou-se o regresso a uma melhoria da situação por que todos ansiamos, no caminho duma normalidade que jamais será como antes de finais de 2019.

Desejamos um novo tempo. Estamos cansados de “dar tempo ao tempo”, ou até mesmo, para os cotas como eu, de “matar o tempo”, que, aliás, não se me adapta, porquanto sou um fervoroso adepto do “a tempo e horas” e tudo fazer “em dois tempos”, não deixando de “ocupar o tempo”.

Muitas das minhas crónicas se têm assumido no espaço temporâneo de contextos da espuma dos dias. Mas, quantas vezes, “de tempos a tempos” caio na tentação, qual mania, de ir aos tempos de outrora.

Antes desta maldição da pandemia, que quase só da história conhecíamos, retirou-nos da fase em que tudo era “a seu tempo” e que nos tempos que correm se tornou impensável. Como refere Sandra Marques, in Vida Económica, “Quase tudo é frenético, instantâneo, apressado, irrefletido e volátil, porque não temos tempo a perder”.

Foi repentina a transformação verificada, e inesperada, nas nossas vidas, com a amálgama de notícias em que nos vão surgindo aquelas que parecem boas e são más, e outras más que podem ser excelentes.

As expetativas para 2022 colocam-se de imediato no plano político, com as eleições de 30 de janeiro. Espera-se que as legislativas clarifiquem a situação política e permitam criar um governo estável.

De facto, ao estarmos a atravessar uma quinta vaga da pandemia, com os impactos e a incerteza que disso resulta, quiseram os senhores parlamentares mergulhar-nos numa crise política e em eleições antecipadas, “por simples recreio e regozijo da esquerda mais radical, daquela que quer fazer a revolução na rua, com sangue e dor, mas que o Governo de António Costa escolheu como predileta para acordos, e que alguns dos mais jacobinos no seu partido querem manter como prioridade para futuro”, nas palavras do Jurista e Gestor, Paulo Vaz.

É por isso que, reportando-nos ao tempo, na miscelânea de opiniões, têm cabimento os advérbios “sempre” e “nunca”, cedências ao tempo.

Com a expetativa de arranque simultâneo do PRR e do próximo quadro comunitário que em conjunto representam o volume mais elevado de recursos financeiros para apoio ao investimento público e privado, desejamos que este seja um novo tempo.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 19-01-2022)

12 de janeiro de 2022

A SEDUTORA NEVE

 

Foi na poesia de Augusto Gil que, na Guarda, onde passou a maior parte da sua vida e morreu – a “sagrada Beira” – se inspirou em 1909 para “A Balada de Neve”.

“Batem leve, levemente, /como quem chama por mim. /Será chuva? Será gente? / Gente não é, certamente / e a chuva não bate assim. (…) Fui ver. A neve caía / do azul cinzento do céu, / branca e leve, branca e fria… / - Há quanto tempo a não via! / E que saudades, Deus meu!”

A Serra da Estrela – montanha rainha do continente português, onde os covilhanenses se dispersam pela sua encosta e faldas, é a atração dos turistas nacionais e estrangeiros, mormente quando os flocos brancos e leves dão a alegria para quem visita esta cidade cosmopolita.

No domingo, 2 de janeiro, dei um salto às Penhas da Saúde, para acompanhar a família, e, na falta de neve nos caminhos da Estrela, estivemos no pavilhão “Serra da Estrela-Ice Arena”, ali instalado pela FDI-Portugal-Federação de Desportos de Inverno de Portugal, onde crianças, jovens e alguns adultos, ali se divertiram. Saudades da neve.

O mítico Café Martinho da Arcada, em Lisboa, “o café que se cruzou com a História”, completou 240 anos no dia 7 de janeiro. Este emblemático e mais duradouro café lisboeta tem grandes memórias. Apesar de ter aberto ao público em 1782, só quase 50 anos mais tarde o café viria a adquirir o nome que mantém ao dia de hoje. A sua fundação deve-se a Julião Pereira de Castro, neveiro-mor do reino, que inaugurou com pompa uma Casa da Neve – local onde se podia tomar refrescos e comer gelados graças aos blocos de neve trazidos propositadamente da Serra da Estrela para a corte.

Hoje, quando queremos alimentos frescos, congelados ou cubos de gelo, basta recorrer ao congelador do nosso frigorífico. Mas, até finais do século XIX, isso era difícil e caro. Produzir e trazer “neve”, ou, mais propriamente, blocos de gelo, da Serra da Estrela até Lisboa foi uma atividade iniciada em 1614 e que se prolongou até aos finais do século XIX, extinguindo-se com o aparecimento das fábricas de gelo industrial.  Foi o rei Filipe II de Portugal, que, estando com a corte em Lisboa, seguindo uma prática já usual na corte espanhola, pediu que produzissem neve (gelo) na Serra da Estrela e a trouxessem para Lisboa no verão, para ele a desfrutar em bebidas frescas e gelados. Foi então criada a figura de neveiro-mor (normalmente um fidalgo). Este estaria encarregue de fornecer diariamente entre 30 e 40 arrobas de neve à corte desde o primeiro dia de maio até ao último de outubro.

Segundo o Público, a neve era recolhida no inverno na Serra da Estrela e depositada em geleiras, poços profundos em zonas sombrias, compactada e coberta com palha, tornando-se gelo. No verão, os blocos de gelo eram recolhidos e cortados, geralmente no Covão da Ametade. Envoltos em serapilheiras e cobertos com palha, seguiam por carroças, burros e cavalo até ao Zêzere, se o caudal do rio o permitisse e, depois de Constança, pelo Tejo até à capital. Porém, o mais normal era a rota ser por terra até Vila Velha de Ródão e a partir daí por barco, pelo Tejo, até Lisboa. Aí era conservada em vários poços, como o do Martinho das Neves, hoje o Martinho da Arcada. Aqui, onde existia outrora um dos poços reais de conservação do gelo, anunciava-se a chegada da neve à capital com pregões, bombo e trombeta, sendo recebidos pelo rei.

Já José Mendes dos Santos, na sua Breve História Cronológica da Covilhã, nos narra que foi em 10 de abril de 1619, no reinado de Filipe II, que a Câmara de Lisboa fez contrato com Paulo Domingues, oficial de neveiro, que consistia em levar para a capital 96 arrobas de neve da Serra da Estrela para o fornecimento diário entre 1 de junho a 30 de setembro. A neve retirada da serra, ia em carros até à Barquinha, e daí em barcos até Lisboa. Mal chegava à cidade, era guardada em poços, havendo um junto ao Convento da Graça e outro no Castelo de S. Jorge. Em 1714 já se vendiam sorvetes de vários gostos e preços sendo o de limão o mais barato.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “Notícias da Covilhã”, de 13-01-2022)

30 de dezembro de 2021

CONTE-NOS A SUA HISTÓRIA HUMBERTO NUNES DA CRUZ





 

Trazemos desta vez a história de um Antigo Combatente, por terras angolanas, covilhanense de coração, ainda que de raiz visse a luz do dia em Oliveira do Hospital, no dia 31 de julho de 1944. Na Covilhã, onde se radicou definitivamente, há 75 anos, conheceu os seus melhores dias. Fez a Primária na velhinha Escola Central, passando depois a exercer a sua atividade profissional na indústria local – os lanifícios – como tecelão mecânico, nas empresas Jerónimo Sena, Lanofabril e Cristiano Cabral Nunes.

Pessoa dotada de um bom coração, simpático e amigo do seu amigo, pronto a ajudar, foi conhecido no futebol local por ter representado o Sporting Clube da Covilhã (SCC), tendo iniciado logo nos juniores, aos 16 anos. Ainda foi sénior nos Leões da Serra em 1970, representando depois o Grupo Desportivo da Guarda onde foi campeão da III Divisão, no ano 1971.

Depois de ter terminado a sua passagem pelos juniores do SCC, surgiu-lhe o serviço militar obrigatório, que cumpriu com início em 02 de fevereiro de 1965, tirando a recruta em Elvas e, depois, na mesma cidade, no Caçadores 8, seguindo daqui para o Entroncamento para a especialidade CDMN, que se destinava ao reabastecimento de material auto. Aqui foi promovido a 1º. Cabo. Recebeu a notícia da sua mobilização para Angola, tendo-se apresentado no Regimento de Infantaria 1, na Amadora, onde esteve apenas 2 dias, pois logo lhe concederam 10 dias de mobilização, com guia de marcha para se apresentar no RI 11, em Setúbal. Aqui deram-lhe 750$00. Curiosidade: com este dinheiro comprou um fio em ouro, com duas medalhas, a um camarada ourives, de Febres.

De Setúbal partiu com os seus camaradas, às 3 horas da manhã do dia 17 de setembro de 1965 integrando o Batalhão de Caçadores 1855, tendo embarcado em Alcântara, no Vera Cruz, era meio-dia, tendo aqui recebido um maço de tabaco oferecido pela Cruz Vermelha Portuguesa. Chegaram a Luanda no dia 26 de setembro, em direção ao Grafanil, onde lhes foi distribuída a arma, após 8 dias.

É então que surge o tempo mais difícil, partindo em direção a Nambuangongo onde permaneceram até perto do dia de Natal de 1965, e Novo Ano de 1966, em cujas datas confraternizaram tanto quanto lhes foi possível em condições de guerra, com o Comandante e restante hierarquia militar local. Tinha a seu cargo o material auto CCS – Companhia de Comando e Serviço do Batalhão de Caçadores 1855, a sua especialidade. Seguiram depois para Luanda, cerca do dia 20 de dezembro de 1966, e no dia 23 deste mês, pertíssimo de mais um Natal em Angola em guerra, seguiram de comboio para Malange, cuja viagem, num amontoado de militares, durou 12 horas, já que era necessária uma máquina ir à frente para a eventualidade do rebentamento de alguma mina. Chegaram a Malange na véspera de Natal daquele dezembro de 1966. Pois bem, o dia de Natal foi passado dentro do comboio, sem qualquer óbvia comemoração, pois “ia tudo ao monte”. Igualmente se passou no Ano Novo. Em Malange tinha o serviço de PU (Polícia da Unidade). Nesta cidade representou o Sporting Clube de Malange porque o viram jogar em Nambuangongo, nos jogos particulares e necessitavam de um bom elemento para o clube, pelo que foi convidado pelo Comandante da Companhia. No entanto, também aqui encontrou um covilhanense – Matos Soares – estabelecido com uma escola de condução, que gerou com o Humberto Cruz um contacto amistoso com o seu conterrâneo, tendo-lhe pedido para lá ficar a viver, o que não foi da vontade do Humberto.

Um momento terrível na memória do nosso entrevistado, foi o dia 8 de agosto de 1966. Narra assim: “Quando andávamos entretidos a jogar a bola, o capitão mandou formar porque precisava de dez homens para irem à lenha. Apenas levariam 3 armas e sem a ajuda de rádio. Ia nesse grupo o covilhanense, Furriel Malaca, já falecido, que fora debuxador no Mosa. Os 3 soldados que levavam as G3 ficaram a fazer guarda aos que carregavam a lenha. Quando acabaram de carregar as duas Berliets, com o Furriel Malaca foram ver dos 3 soldados que lhes estavam a fazer escolta. Foi com terrível espanto que encontraram dois deles mortos, degolados, e já sem as armas. O outro conseguiu escapar e nem deu conta da morte dos seus camaradas, face ao local estratégico onde se encontraria. Ficaram assim com uma única arma para se poderem defender em caso de ataque.

Quando depararam com este desfecho, surgiram dois Jeeps militares que vinham buscar o correio a Nambuangongo, onde vinha também o covilhanense Rui Velha”.

E, assim, os dois carros com a lenha, o Jeep onde vinha o Humberto Cruz e as duas Berliets trouxeram os dois soldados mortos e recolheram a Nambuangongo.

Esta é uma das muitas histórias de guerra por que passou o camarada Humberto Cruz.

De menos mau, por vezes iam ver os paraquedas que traziam peixe e carne às 3ªs  e 6ªs feiras, onde também vinha o correio, e que rebentavam, aproveitando o que pudessem apanhar.

E assim, depois de ter permanecido em Malange, desde dezembro de 1966, no dia 7 de dezembro de 1967 tiveram uma passagem de 4 dias no Grafanil, donde embarcaram no dia 11, no Niassa, chegando à Metrópole no dia 23 de dezembro de 1967. Foi então o Natal já em liberdade e fora de perigo, na Covilhã.

(In "O Combatente da Estrela", nº. 125-DEZ/2021)

29 de dezembro de 2021

O FIM DO IMPÉRIO NOS SEUS 60 ANOS

 

Aproxima-se mais um Natal e um final de ano e, consequentemente, muitas memórias ficaram entre nós. Delas sobejam reminiscências, se entre a angústia, a ansiedade, o medo, a revolta, tiveram maior peso nas duas primeiras décadas deste período, também a nostalgia, os momentos mais confortáveis, o lenitivo do afastamento da perigosidade, e o regresso ao seio familiar foram aquele bálsamo para muitos dos nossos Antigos Combatentes.

Mas como não há bela sem senão, muitos deles, que tiveram a dita de regressarem incólumes, não se livraram de padecer do stress pós-traumático. É vê-los a aguardarem pela sua vez para as consultas das psicólogas nos Núcleos das Ligas dos Combatentes, como recentemente assisti no Núcleo da Covilhã.

Reporto-me evidentemente ao tempo por que passaram os Antigos Combatentes, na referência à Guerra Colonial, já que os tempos da Primeira Grande Guerra foram já objeto de comemorações dessa efeméride. E já nenhum participante nesse conflito mundial está no mundo dos vivos.

A pandemia veio agravar a situação por que alguns ainda padecem e só tardiamente surgiu o Estatuto do Antigo Combatente, entrado em vigor em 1 de setembro de 2020, e agora com o acesso ao Passe do Antigo Combatente no âmbito da Portaria n.º 198/2021, de 21 de setembro.

Das resmas de informação que fiz cair na minha secretária, torna-se difícil extrair dela tantos rasgos sentimentais, gritos de revolta, pendores de regeneração, pela dificuldade de uma seleção.

Aqui reporto algumas:

O 1º. Dia do Fim do Império – Texto de Felícia Cabrita, in Revista Expresso de 14-03-1998

“A 15 de março de 1961, em Angola, bandos armados da UPA destruíram fazendas e vilas e assassinaram dois mil colonos portugueses. Foi o início de uma tragédia imensa, que abriu caminho para 14 anos de guerra. A Índia já havia caído. E era preciso defender África”.

Pesadelos da guerra colonial – Crónica de Carlos Esperança

“Quem regressou da guerra colonial, desejou esquecê-la, e não pôde. Saímos da guerra, e a guerra não saiu de nós, pelos mortos que lá deixámos e estropiados que trouxemos, torturantes recordações de anos injustos e inúteis.

Por menos traumática que possa ter sido a guerra, nunca mais se esquecem as rugas dos pais que nos aguardaram, a ansiedade que viveram e a angústia pelos perigos, reais ou imaginários, a que nos julgaram expostos. (…) A sobrevivência, mesmo sem mazelas aparentes, acarreta feridas que nunca cicatrizam, memórias doridas, inquietações que regressam, angústias que persistem. Ninguém faz a catarse de tão longo tempo e tão penetrante sofrimento, ninguém conta tudo o que viu e grande parte do que soube (…)”.

Para além da noite – Crónica no Facebook de Francisco de Pina Queiroz

“…Mas… antes do seu efeito, aflora no doente o pensamento interrogativo: e para além da noite, como será o dia de amanhã? Frase de revolta para quem justa ou injustamente dorme em celas prisionais, por decisão da justiça oficial. Revolta por ali estar. Revolta de arrependimento pelo motivo afinal justo da sentença. Revolta por uma tirania castradora da Liberdade, dos atos e dos pensamentos em sua defesa: poemas, romances, manifestos, esculturas, pinturas ou até conversas num café. Frase de ansiedade, de aperto na garganta, de suores frios apesar do calor da Mãe África, para militares do exército regular, de guerrilheiros e para a população que está para a guerra subversiva como a água está para os peixes – como Che Guevara nos ensinou nos seus Textos Militares. Sim, nós os ex-combatentes, em noites incontáveis de agora, ainda nos lembramos e/ou sonhamos e revisitamos psíquica e fisicamente a ansiedade derivada do que virá para além da noite. O que nos esperará nos primeiros raios de Sol: pisar uma mina, emboscada? (…)”

A vida que não se esquece – Ainda os Combatentes da guerra do Ultramar – João Peres, in “O Olhanense”

“… Os sobreviventes da guerra do Ultramar estão entre os sexagenários e octogenários da população portuguesa. Por ironia do destino, o Estado Totalitário que governou Portugal, preferiu enviar carne para canhão, como eram designados os militares da altura, para uma guerra absurda, interminável, que obrigou centenas de milhares de moços ainda, a aprenderem a manejar uma arma, no princípio a Mauser e depois a G-3 para a utilizarem nas horas más, a deixarem para trás à medida que o navio se afastava do cais de Alcântara, a terra natal, estudos, profissão, família e amigos, a enveredar pela negociação pacífica. Já em território africano, a temperatura, a malária, as minas nas picadas, os aquartelamentos e destacamentos em instalações abandonadas nas fazendas ou feitas à custa do suor do soldado, eram elementos de um inferno que viviam de dia em patrulhamentos, à noite sujeitos a flagelação com granadas de morteiro e canhão-sem-recuo que não os deixavam repousar. (…) Dois anos depois, torrados do sol, magros, depressivos, voltavam às suas terras como estranhos, exceto a família que os ajudava a reintegrarem-se na vida civil, que por imposição deixaram. (…) Houve casos em que a bolsa abastada, como se dizia, comprou ao mais pobre a mobilização e ficou cá a cumprir o serviço militar, enquanto o outro arriscava a vida para deixar uns cobres à família necessitada. Outros conseguiram desertar, refugiando-se em países onde tinham contactos de amigos e familiares. Quantos viram o camarada de armas ser atingido ou projetado pelo sopro de uma mina, ouviram das suas bocas chamar pela mãe ou pela mulher ausentes no outro lado do Atlântico, seguravam-lhe na mão até ser evacuado ou fechar os olhos para sempre. O desprezo a que foram votados não tem explicação. A crise de stress pós-traumático foi vivida no seio das famílias, porque lhes negaram, durante décadas, a ajuda médica que precisavam. (…) Na atualidade estão a morrer, cada vez mais, e dentro de pouco mais de uma década, não haverá sobreviventes deste conflito. Aprovaram, recentemente, o estatuto do antigo combatente elaborado por políticos jovens que já nasceram em democracia e não viveram, nem sentiram este drama nacional.”

Aproximamo-nos do Natal e de um Novo Ano, pelo que convido a lerem atentamente, neste número, a história de um dos nossos Antigos Combatentes deste Núcleo da Covilhã, na pessoa de Humberto Nunes da Cruz, na forma como passou os Natais em Angola em tempo de guerra.

Por último, não podemos deixar de endereçar um grande abraço de parabéns ao Diretor desta publicação e Presidente do Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes, João Cruz Azevedo, que a exerce desde 1986 (trinca e cinco anos! É obra!) e foi um dos fundadores de “O Combatente da Estrela”, pela concessão da Medalha de Honra ao Mérito – Grau Ouro, pelos anos dedicados à Liga dos Combatentes, condecoração atribuída pela Liga dos Combatentes, ocorrida no dia 11 de novembro deste ano, no Dia do Armistício, no Museu do Combatente, em Lisboa. Aqui a apresentamos.

Desejamos a TODOS os que integram o mundo do nosso Núcleo, e seus Familiares, Gente da nossa Gente, os maiores votos de um Feliz Natal e próspero ANO NOVO.

(In "O Combatente da Estrela", nº. 125-DEZ.2021)

15 de dezembro de 2021

GRANDE MÉRITO DA CASA DA COVILHÃ EM LISBOA

 

A Covilhã tem a felicidade de ter uma instituição na capital bem representativa daquela que é a cidade dos lanifícios e universitária, das faldas da Serra da Estrela.

Muitos dos Covilhanenses, sejam de raiz ou de coração, radicados em Lisboa ou concelhos da proximidade, ali confraternizam semanalmente, com orgulho da sua Terra. Do outro lado, quem viaja da Covilhã e visita esta instituição, sente a alegria no encontro de velhas amizades que os quilómetros de distância não permitem que se encurtem estes tempos de vivência.

E isto porque, quando nos encontramos fora da nossa Terra por nos termos radicado noutro lugar, por circunstâncias várias, sendo que uma das principais razões são a atividade profissional, e, outras, a vida familiar ou a conjugação de ambas, vamos sempre de encontro à nostalgia.

No caso inverso, também é salutar os que, não largando o seu torrão natal, sentem uma vontade indómita para matar saudades de amigos de longa data, colegas ou familiares, quantos deles com décadas de ausência.

Tem a cidade laneira e universitária da Beira Interior, porta principal para a Serra da Estrela, a felicidade de ter na capital uma casa com o nome da Covilhã, a pouco mais de três anos para o seu centenário. De Grémio Covilhanense como se iniciou em 1924, passou a designar-se Casa da Covilhã em 28 de outubro de 1939.

A sua sede na Rua do Benformoso, 150-1º tem sido, de há muito, palco de encontro de muitos Covilhanenses, para ao redor do degustar os almoços das terças-feiras e outras datas de eventos assinalados, surgirem as conversas de memórias dos presentes e sobre muitos dos ausentes. Reminiscências e questões opinativas, para além do que é a vivência atual, com a Universidade da Beira Interior, o Centro Hospitalar Universitário da Cova da Beira, o novo Teatro Municipal, Museus e novas obras, ainda as memórias da Escola Industrial e do Liceu, da antiga Biblioteca Municipal, das gentes covilhanenses de hoje e de outrora e das publicações que existem na Cidade, recebidas com agrado na Casa da Covilhã, antídoto ao esquecimento quando os patrícios pretendem que seja dado a conhecer o que se passa nesta instituição covilhanense na Capital.

Algumas que defendem o Interior e se revoltam do ostracismo a que o mesmo é votado, esquecem-se que estão a fazer o mesmo à Casa da Covilhã.

Não há almoços que não sejam com produtos oriundos da Covilhã, não há recordações importantes que não sejam da Covilhã e ali são expostas.

A cultura é um vetor que define também esta nossa Casa em Lisboa, com eventos como o fado, à realização de réplicas de feiras ancestrais da Covilhã, como a de S. Miguel, ao amor aos livros, com o convite de autores covilhanenses para apresentação das suas obras, ao acarinhar do Sporting da Covilhã, e a tudo o que, de alguma forma, tenha o sentir da Terra que é da Gente das nossas Gentes.

Neste cambiante de opiniões, de atividades programadas e a programar, ainda que, de quando em vez, como em qualquer ação dinâmica, possam surgir ventos e marés, há sempre a alma do Covilhanense a gritar mais alto para que o barco prossiga por águas navegáveis.

Depois de há uns tempos atrás a Casa da Covilhã ter passado por um período menos bom, por escassez de braços para prosseguir com as árduas tarefas de manter uma Casa acolhedora, nas últimas décadas covilhanenses da rija têmpera de Viriato pegaram na mesma e ei-la aí, de vento em popa, a dar alegria a quem a visita, com a permanência de casa repleta, ou muito perto disso, às terças-feiras para os almoços convívio.

Estivemos lá no dia 9 de novembro. Éramos ao todo 47 elementos, que, por coincidência correspondiam, em número, aos 47 fundadores da Casa da Covilhã em 1924. Para além do almoço, sorteiro de um livro com o autor covilhanense presente, e também do jovem covilhanense Manuel Ramos, de 19 anos, que esperamos possa vir a ser selecionado para participar nos Jogos Olímpicos de Pequim, na modalidade de esqui alpino. Do comboio para lá foram alguns produtos da Covilhã que no mesmo dia puderem ser cozinhados e consumidos.

É de louvar a Direção atual, liderado pelo Manuel Vaz Rodrigues, e também a médica fadista covilhanense, Daniela Runa, como outros entusiastas covilhanenses, o António Chorão, o Zé Ascensão Rodrigues, o Elói, o Pedro Freire, e a alma das gentes que se deslocam da Covilhã – o delegado regional João Romano – que não deixam ficar por mãos alheias um trabalho de excelência, independentemente da grave pandemia Covid 19 que nos tem assolado.

Não queremos terminar sem felicitar a equipa do Jornal fórum Covilhã pelo seu 10º aniversário, num trabalho conseguido em prol da liberdade de informação, num pluralismo de ideias, direcionados para o bom jornalismo.

Sendo esta a última crónica deste ano, desejamos aos prezados Leitores, Familiares e Amigos, sem esquecer todos os Obreiros deste Jornal, um Santo Natal e um Feliz Ano Novo.

(In "Jornal Fórum Covilhã", de 15-12-2021)

9 de dezembro de 2021

MAIS UM NATAL


 

Felizmente para muitos de nós, viventes, podemos expressar-nos na palavra em título. Outros, porém, que também o desejariam, e sem que contassem com os novos males deste primeiro quarto do século XXI, precocemente deixarem o mundo dos vivos. Viverão agora noutra vida, além-túmulo, para os crentes, mas aqui com as suas memórias desta efémera passagem planetária.



Os nossos familiares e amigos são os que constam desta listagem de saudade.

Mas como a vida continua, independentemente de prós e contras, teremos que, tanto quanto possível, prosseguir no ambiente social, que tanta falta nos fez durante o primeiro rigoroso confinamento.

Dois dias antes de escrever estas linhas, deleitei-me num desses encontros de amigos, que a pandemia fez recuar, onde a D. Purificação, de 100 anos, beirã mas radicada em Lisboa, com uma vida que também foi de emigrante, fazia-nos aquela inveja positiva, caminhando sozinha, comendo todas as refeições, onde não faltava o cafezinho com o “cheirinho…”. Filha e genro que a tratam carinhosamente, nos narram que diariamente tem que ler o jornal. E gosta de acompanhar as conversas. Numa foto que lhe tirei dum grupo onde estava inserida, referiu que vissem que ela era a que estava mais fotogénica… Hilaridade óbvia entre o grupo.

Para as bandas do Tortosendo, em ambiente de grande amizade, com aquela Figura que um dia me disse, após ter terminado a minha vida profissional e ter rumado para outro ciclo de vida – “Enquanto você quiser, manteremos este ‘nosso dia’” – vai a amizade entre vários amigos com uma Couvada do Natal, com produtos regionais, como antigamente, selecionados pelo Pedro, de São Jorge da Beira.

E, para que não sejam olvidados os Covilhanenses radicados em Lisboa, e que brilhantemente honram a sua Terra, na liderança da Casa da Covilhã, são os seus pontos de reunião, nos almoços das 3ªs feiras, que enchem o espaço, onde não falta a distração e a cultura, num enlaçar de amizades. Produtos e objetos expostos, tudo se reporta à cidade laneira. E tão pouco têm sido dados a conhecer os seus eventos, a não ser nas redes sociais. São Covilhanenses com o corpo na Capital mas que têm o espírito na Covilhã. Liderada pelo Manuel Vaz Rodrigues, tem na Daniela Runa, médica e fadista, como vice-presidente e outros valorosos covilhanenses como o delegado regional, João Romano, o António Chorão, o Elói, o José Assunção Rodrigues, o Pedro Freire, e outros mais, um forte baluarte na representatividade desta Instituição covilhanense na Capital, de elevado prestígio.

É desta forma que deixo a última crónica deste ano, no prestigiado semanário Notícias da Covilhã, memórias do tempo de Natal, procurando assim afastar os nefastos tempos pandémicos por que ainda estamos passando em mais um Natal.

Votos de um Santo Natal e Feliz Ano Novo, para todos os prezados Leitores, e para os que fazem com que o Notícias da Covilhã continue a chegar semanalmente até nós, e seus Familiares.


(In "Notícias da Covilhã", de 09-12-2021)