7 de setembro de 2022
4 de setembro de 2022
18 de agosto de 2022
"COIMBRA É UMA LIÇÃO"
“As novas gerações não fazem a
mínima ideia de que temos uma canção no nosso património que já foi um êxito
espetacular em todo o mundo com mais de 1000 versões interpretadas por grandes
nomes da música internacional, ou ainda por orquestras famosas.
É uma composição de Raul Ferrão,
com letra de José Galhardo, e o título é ‘Coimbra’. O seu primeiro intérprete
foi Alberto Ribeiro numa serenata a Amália Rodrigues, uma cena do filme ‘Capas
Negras’, de 1947. Nunca se imaginou que viria a ser um superêxito mundial, mas
quase sempre com o título ‘Abril em Portugal’”. Esta é uma narrativa de Carlos
Cruz da sua rubrica no Tal & Qual,
que ainda se reporta a um documentário transmitido pela RTP 2 sob a designação
“Coimbra, a História de uma Canção”.
Não é preciso trazer à discussão
a “Coimbra dos Doutores”, na letra desta canção, para fazer notar o muito que
anda por aí de pontapés na gramática e irreflexões no contexto da linguagem
escrita e falada, por gentes das televisões, e dos jornais, para já não
falarmos nos apanhados das redes sociais.
Alguns casos que me chegaram às
mãos, há mais de um ano, são bem evidentes de quanto a língua de Camões muitas
vezes é ultrajada, algumas no lapso da expressão oral duma conversação, outras
na precipitação de não encontrar ligação rápida adequada, mas outras são por
exibição da sua oratória que acabou por cair no ridículo.
Algumas frases quase que ganharam
imortalidade. Se não, vejamos:
- Estar vivo é o contrário de
estar morto. – Lili Caneças
- Nós somos humanos como as
pessoas. – Nuno Gomes – SL Benfica
- Quem corre agora é o Fonseca,
mas está parado. – Jorge Perestrelo
- Inácio fechou os olhos e olhou
para o céu! – Nuno Luz (SIC)
- Juskowiak tem a vantagem de ter
duas pernas! Chutou com o pé que tinha
mais à mão –
Gabriel Alves.
- É trágico! Está a arder uma
vasta área de pinhal de eucaliptos. – Jornalista da RTP
- Um morreu e o outro está morto.
– Manuela Moura Guedes
- Antes de apertar o pescoço da
mulher até à morte, o velho reformado suicidou-se. – João Cunha, testemunha
de crime.
- Quatro hectares de trigo foram
queimados. Em princípio trata-se de incêndio. – Lídia Moreno (Rádio Voz de
Arganil)
- À chegada da polícia, o cadáver
encontrava-se rigorosamente imóvel. – Ribeiro de Jesus, PSP de Faro
- O acidente provocou forte
comoção em toda a região, onde o veículo era bem conhecido. – António Bravo
(SIC)
- Ele contraiu a doença em vida. –
Dr. Joaquim Infante, Hospital de Santa Maria
- Há muitos redatores que, para
quem veio do nada, são muito fiéis às suas origens. – António Tadeia,
Crónicas do Correio da Manhã
- Os sete artistas compõem um
trio de talento. – Manuela Moura Guedes (TVI)
- Esta nova terapia traz
esperanças a todos aqueles que morrem de cancro em cada ano. – Dr. Alves
Macedo, oncologista
- O difícil, como vocês sabem,
não é fácil. – Jardel
- Em Portugal é que é bom. Lá, a
gente recebe semanalmente de 15 em 15 dias. – Argel, jogador do Benfica
- Tenho o maior orgulho de jogar
na terra onde Cristo nasceu. – Djair, jogador do Belenenses ao chegar a
Belém (zona do Restelo – Mosteiros dos Jerónimos) no dia que assinou contrato
com este clube
- Finalmente, a água corrente foi
instalada no cemitério, para satisfação dos habitantes. – Presidente da
Junta de Freguesia do Fundão
E ficamos por aqui. Passemos dos
momentos de tristezas, que não pagam dívidas, para alguns de hilaridade.
João de Jesus Nunes
(In “ Notícias
da Covilhã” digital, de 18-08-2022)
10 de agosto de 2022
O TEMPO QUE PASSA
Terminaram as minhas férias
veraneias. De Andaluzia à Serra da Estrela vão consideráveis diferenças. Se dum
lado há os encantos do mar, das colinas e dos rios, na vertente de cá existem
os cambiantes da montanha, com tudo o que à mesma se liga, da flora à fauna, das
maravilhas paisagísticas e de respeitabilidade até aos seus ares saudáveis.
No avanço da minha idade já estou
naquela de me enfadar por longas viagens. Mormente quando o “bicho” se faz por
convidado. Entrei um pouco mais naquela opção da proximidade de estar no local mais
cómodo.
Regressado, vou dar uma volta
pelas inúmeras recolhas de informação que avolumei no meu escritório, com a
minha secretária num aconchegado ninho de folhas de apontamentos, recortes de
jornais, impressões, diversos apontamentos redigidos no resumo de muitos livros
lidos. Alguns destes, dispersos, que consultei, e já não necessito. Local
arrumado. Resultado: mais um saco cheio de papel a caminho do Banco Alimentar.
Um alívio. Mas a falta de memória é que persiste. Até nas coisas mais banais,
no imediato, que só surgem com algum esforço após algum tempo. Aquela de
codificarem a situação ser devida à PDI já é velha. Vale-me a persistência e o
meu gosto pelas buscas, investigação e criatividade.
Fico feliz quando encontro algum
documento julgado perdido, ou aquele outro de que já não me recordava. Afinal,
o número de amigos é superior ao que imaginava.
Os dias que ainda remanescem para
este ano, se Deus quiser, vão ser para mim empolgantes. Penso eu que tal venha
a suceder, com a apresentação do meu livro, na Covilhã – DA MONTANHA AO VALE – As Viagens de um Grupo de Tertulianos – já
que a primeira edição logo se esgotou quase ainda estava no prelo. Foi então apresentada
em Seia e em Lisboa. Os que já se manifestaram interessados, com encomendas
para esta segunda edição, limitada a 100 exemplares, poderão agora aproveitar a
única oportunidade, no dia 3 de setembro, no Salão Nobre da Câmara Municipal da
Covilhã, às 15 horas.
Aguardando a sua entrega, encontra-se
também o meu último livro – RECORDAR É
VIVER – que foi, paradoxalmente, o primeiro escrito na minha vida, em 1967,
aos 21 anos, sem nunca ter sido publicado. Ficou no segredo dos deuses, durante
55 anos, datilografado e por mim encadernado, um único exemplar, altura em que
o escrevi quando trabalhava na Câmara Municipal da Covilhã. Muito alterado vão
agora surgir 50 exemplares, oficiais, que não serão colocados à venda.
Ainda não conhecíamos o ambiente
digital. Conhecíamos, sim, o que era comum neste País de olhos vendados: entre
os perigos dos informadores da PIDE, das prisões políticas, dos que procuravam
na emigração legal uma forma de dar uma nova vida à sua de emagrecimento. Mas
também, em Portugal, os que procuravam passar a fronteira de assalto, como ainda
os contrabandistas. Mas aquele perigo maior para os jovens rapazes, depois de
terem ido às sortes, era a Guerra do Ultramar. E não se podia escrever como
hoje, onde a censura imperava.
Isto é sobejamente conhecido de
todos nós e é quase como chover no molhado.
Temos a revolução tecnológica e
cultural em velocidade alucinante. No século XXI, o homo sapiens vai
converter-se assim, a olhos vistos, em homo
digitalis, pois na vida da maioria
das pessoas faz parte a utilização de telemóveis, computadores, internet, redes
sociais, etc.
Mas neste tempo que passa, não posso esconder que aquele outro “meu
tempo” de antigamente me parece, em muitos aspetos, mil vezes mais interessante
do que este “meu tempo” de agora, pegando nas palavras de Jorge Morais, diretor
do Tal & Qual, de 08-09-2021. E aqui vão alguns exemplos: “nesse tempo em
que não passávamos o dia a escrever mensagens inúteis nos smartphones; nesse
tempo em que os cantores tinham voz e os escritores Gramática; nesse tempo em
que os telejornais davam notícias e os locutores não gaguejavam a lê-las; nesse
tempo em que viajar não era navegar na net, as malas não tinham, rodas e os
carros elétricos eram transportes coletivos; nesse tempo em que à chuva, ao
vento e ao frio chamávamos simplesmente inverno, e não ‘alerta laranja’; nesse
tempo em que conversávamos uns com os outros sem precisarmos de zoom; nesse
tempo em que mandávamos cartas de amor com pétalas secas entre as páginas. Nesse
tempo, talvez não tivéssemos ao nosso alcance tantas maravilhas da técnica,
talvez não estivéssemos aconchegados em tantos códigos, politicamente corretos
e talvez não pudéssemos andar à pesca do Nada em tantas ‘redes sociais´. Mas
éramos, parece-me, muito mais autênticos”.
João de Jesus Nunes
(In “Jornal Fórum
Covilhã”, de 10-08-2022)
2 de agosto de 2022
UMA ELEVADA PERMUTA DE FUNÇÕES
Depois de no número de 1 de
julho ter sido anunciada a troca de funções do então Diretor deste periódico,
estimado amigo Senhor Isidoro Sousa, pelo então Diretor Adjunto, prezado amigo
Mário Proença, surge agora no número de 15 de julho com a função de Diretor, o
que muito me apraz registar.
Desde que tenho o privilégio
de escrever no quinzenário O Olhanense, já vai para um quarto de século,
nunca tive o ensejo de conhecer pessoalmente qualquer obreiro do Jornal, com
uma exceção, abaixo descrita, a começar pelo falecido Senhor Herculano Valente,
com que iniciei a minha colaboração esporádica e do qual não passei de alguns
contactos telefónicos e por escrito.
Quando do seu falecimento e
face à minha perplexidade de continuar a escrever neste Jornal, logo recebi uma
comunicação, não sei se por mensagem, email ou carta, dum colaborador que dava
pelo nome de Mário Proença, animando-me no sentido de que havia quem desse
continuidade a este periódico, com inovações que certamente iriam surgir, pelo
que contava com a minha colaboração.
Num ápice, as brumas se
afastaram das minhas hesitações e houve assim um lenitivo para que eu pudesse
continuar a escrever entre o paradoxo do homem da serra e os das gentes algarvias,
ou seja, de outros horizontes. Fiquei satisfeito. Imediatamente anuí a esse
desiderato, até aos dias de hoje. E muito tenho aprendido, na alegria de ver
muito do que aqui escreve como um genuíno investigador, sempre na sua
simplicidade. Ele traz para as páginas dum periódico local, que também é regional,
o encanto de narrativas, por vezes duma similaridade das que eu algumas vezes
também escrevo nos periódicos da minha região beirã. Coincidências tão
positivas.
Na exceção atrás referida,
tive, sim, o prazer de conhecer pessoalmente o atual Diretor Adjunto, Senhor Isidoro
Sousa, conjuntamente com a esposa, então como Presidente do Sporting Clube
Olhanense, como hoje ainda é o seu ilustre Presidente, num jantar comemorativo
do Sporting Clube da Covilhã, sob a égide do seu Presidente, José Mendes, a
caminho de duas décadas na liderança do clube serrano, a fazer um excelente
trabalho, que convidara vários presidentes de clubes. Estava na minha mesa. Perguntei
quem era o casal, tendo-me informado que eram de Olhão. A partir daí gerou-se
uma amizade por via deste excelente quinzenário.
Com o surgimento do amigo
Mário Proença, este periódico foi sendo renovado com frequência, no âmbito da
sua criatividade, e admiro como tem disponibilidade para fazer sair para os
leitores temas tão diversos, desde a história citadina e do concelho, às
curiosidades e vivências de outros tempos, com que me delicio, pois são
geralmente idênticas a todos os recantos do País.
Sem menosprezar a colaboração
de outros cronistas, que leio atentamente, é da veia intelectual inserida nas
teclas do computador do atual Diretor d’O Olhanense, que saem o
preenchimento de páginas enriquecedoras do seu conteúdo.
Estes dois Homens com Garra,
souberam interpretar a valia dum órgão da Comunicação Social tão importante
para a sua Terra e Região, que deram as mãos, desprovidos de quaisquer egos na
ribalta, tão só o encimar tudo em prol da Coletividade histórica algarvia, das
gentes olhanenses e algarvias em geral, desfraldando a sua bandeira por todo o
País e estrangeiro que compreende e gosta da Cultura.
Parabéns a ambos, aos quais
envolvo num abraço serrano.
João de Jesus Nunes
20 de julho de 2022
ESTÓRIAS DE UM ARQUIVO JUDICIAL - A GRANDE DEVASSA E OUTRAS ESTÓRIAS
ESTÓRIAS DE UM ARQUIVO JUDICIAL – A
GRANDE DEVASSA E OUTRAS ESTÓRIAS
Este é o segundo livro do juiz
desembargador do Tribunal da Relação de Coimbra, Dr. José Avelino Gonçalves,
que na Covilhã permaneceu vários anos então como juiz presidente do Tribunal Judicial
da Comarca de Castelo Branco, e que na Cidade laneira e universitária, assim
como na região, deixou grandes amizades e reconhecida competência.
Esta valiosíssima obra, obtida
como a anterior, em 2020, da recolha de entre o pó dos sótãos onde os arquivos
se tumulavam, reforça outras estórias quão interessante como de reais que
ficariam para sempre sem qualquer utilidade, não fosse a paciência, sacrifício
e tenacidade deste Homem – Juiz e Escritor – como já me havia referido num
escrito em dezembro de 2020.
Acabei de ler este segundo livro
e, não obstante dentre de algumas horas ir gozar uns dias de férias com a
família, não podia deixar de digitar no teclado do meu computador um breve
apontamento de várias estórias recolhidas pelo amigo autor desta nova
publicação que me seduziu com memórias que, de algumas personagens ou
referências das mesmas me transportaram para tantos assuntos que a esta região
dizem respeito.
Por falta de espaço e de tempo,
porque estou a caminho das duas da madrugada, apenas me reporto a algumas
partes das últimas páginas, entre as quais a quantidade de barbeiros que, quantas
vezes ardilosamente, utilizavam a
medicina indevidamente, como curandeiros, lá para as bandas de Penha Garcia, e
onde o médico escritor Fernando Namora exerceu a atividade clínica em Monsanto.
Sobre a estória d’”O Capelão da
Panasqueira e o casamento de consciência”, meu caríssimo amigo Dr. Avelino, não
me podia deixar de alegrar ao recordar o padre Manuel Vaz Leal que eu e muitos
dos Covilhanenses conheceram muito bem, pois era ele que cantava e fazia os
sermões na Procissão dos Passos, com a sua eloquência e excelente voz.
Durante a minha vida
profissional, numa das visitas às Minas da Panasqueira, tive necessidade de
bater à porta do pároco para indagar algo, e atendeu-me o seu sucessor, o
sobrinho padre Américo, que quando eu era jovem me lembro de ajudar o pároco da
minha freguesia – São Pedro – o padre José Domingues Carreto, nalgumas
festividades e mormente na Visita Pascal.
Depois, a direção do padre Leal
como diretor do jornal O Mineiro.
Muito mais haveria a registar, mas tenho que ficar hoje por aqui.
Parabéns ao Dr. José Avelino Gonçalves por nos ter brindado com mais
esta interessante obra.
João de Jesus Nunes
(In “Notícias da Covilhã” digital,
de 14-07-2022)
19 de julho de 2022
MAPEAR AVENTURAS PELOS CAMINHOS SERRANOS
Nem sempre estamos inspirados
para um tema que possa ser da apetência dos estimados leitores. Também nesta
crónica não estou virado para as dificuldades que o mundo enfrenta face ao
ditador mundial dos tempos que correm, aquele que se identifica com o
famigerado Hitler, de igual modo odioso.
Assim, neste verão que há
pouco emergiu, trouxe-me, mais uma vez, falar da Serra da Estrela em cuja falda
é a minha vivência.
E é na montanha maior deste
Portugal Continental que eu me sinto bem, sentado à porta da casa da Serra,
contemplando o horizonte, do qual me vem a inspiração, na visualização dos
rebanhos e dos pastores, do cão da Serra da Estrela, que vamos avistando ou até
se aproxima nós.
Muito haverá que falar, para
os que querem ter ouvidos para ouvir e olhos para ver, a partir, se quiserem,
deste belíssimo recanto dos Hermínios, de in illo tempore.
E isto porque veio a propósito
a homenagem aos Pastores da Serra da Estrela, com a criação, na Torre, de um
novo espaço dedicado aos produtos da ovelha bordaleira. O ponto mais alto de
Portugal Continental – a Torre da Serra da Estrela – tem um novo espaço
dedicado aos pastores e ao produto do seu trabalho: a lã e o leite das ovelhas
Bordaleiras. Este projeto constitui uma forma de apoiar o trabalho dos pastores
da Serra da Estrela e assegurar a continuidade da profissão e da raça da ovelha
Bordaleira. Contribuiu-se assim para o desenvolvimento da economia local e para
a sustentabilidade social do território. De 275 mil ovelhas desta raça
existentes nos anos 80 do século XX, há atualmente pouco mais de 23 mil.
Mas também, no âmbito do
divino, no alto desta Montanha Maior, o paradoxo subsiste., com o prelado da
diocese a que o local pertence – a Diocese da Guarda – por via do Departamento
Diocesano da Pastoral Familiar a manifestar nas suas intenções, de, por um
lado, e bem, promover o encontro diocesano de famílias na Torre, o ponto mais
alto da Serra da Estrela, no dia 26 de junho, em sintonia com o X Encontro
Mundial das Famílias, a decorrer em Roma, começando com a concentração na zona
da Torre, seguindo-se um percurso pedonal, com apoio do Centro de Interpretação
da Serra da Estrela, seguiu-se a celebração da Eucaristia, na Capela de Nossa
Senhora do Ar (Torre), presidida pelo bispo diocesano, D. Manuel Felício.
Só que, tudo o que se tem
desenrolado ao longo dos últimos tempos, aliás dos momentos que vão ultimar a
vida deste prelado, face à idade, vão no encontro de ser o coveiro da Diocese
da Guarda, como muitos dos seus apaniguados, incluindo sacerdotes e leigos
ligados às organizações católicas, e não só, assim o consideram.
Estão nesta cartada não só o
mais antigo órgão da comunicação social da Beira Baixa, centenário, como
instituições criadas carinhosamente e que foram lugar de muitos eventos locais,
regionais e alguns nacionais. Estão
assim na peugada de um homem que não soube conduzir a barca que lhe foi
entregue. Não vou tecer mais comentários, aguardando tão só o desenvolvimento
dos acontecimentos, na revolta que possivelmente vai existir em muitos dos que,
por inércia, não se querem agora manifestar.
Mas a majestosa Serra da Estrela trouxe-me à
memória a beleza das suas enormes rochas, aqueles penedos que são uma aventura
a sua subida, o medo de os poder subir, e, mormente, na descida. Já aconteceu
comigo quando ainda existia alguma juventude mas que jamais conseguirei sonhar
numa dessas aventuras nos tempos que correm. Jurei ser a última vez na minha
vida.
Vejamos a descrição dos
companheiros da Expedição Científica à Serra da Estrela, naquele longínquo ano
de 1881, uma centena de homens, durante 15 dias.
Deixo alguns resquícios dessa
expedição, sem descurar a subida ao Cântaro Magro.
“Depois, nas ‘Interpretações locativas’, falou-se na
origem possível de ‘Monte Hermínio’, sendo
que “uma tradição que chegou aos nossos dias designa a Serra da Estrela o
Hermínio Maior; a de Marvão, o Hermínio Menor’”.
“E também o Malhão Grande ou Malhão da Estrela, nome dado ao ponto culminante da serra,
designação que os pastores da localidade empregam. E cujo local se passou a
chamar Torre, depois de colocada uma
pirâmide, a qual foi mandada construir em 1806 pelo príncipe regente D. João.
As aventuras dos expedicionários: ‘Se de dia e a distância ninguém observa os
Cântaros pela primeira vez sem sentir vertigens e o coração comprimido,
imagine-se o que nós sentiríamos às dez da noite aos vermo-nos presos no cume
do Cântaro Gordo, rochedo de 413 metros de altura sobre a ribeira da Candeeira,
eriçado de fragões escuros, no meio de profundos covões formado por outros
fraguedos e despenhadeiros igualmente sinistros e medonhos! (…) Aqui, onde a
natureza é horrivelmente majestosa e grande, ninguém deixará de se sentir
infinitamente pequeno. (…) Chegado a este ponto fomos descendo,
recomendando-nos o pastor que não olhássemos para os lados por causa da
vertigem do abismo e que descêssemos de costas, não deslocando nunca uma mão
sem ter a outra firme e segura ao rochedo. Estivemos parados algum tempo sem
poder prosseguir nem retroceder. Estávamos suspensos entre a vida e a morte!
Causava horror olhar para os lados ou para a frente. Fitámos então a vista nas
estrelas para não sentirmos a vertigem do abismo cavado a nossos pés. – Estão
salvos, disse-nos o pastor, porque desceram de noite e não viram o precipício’”.
No livro A Lã e a Neve, de Ferreira de Castro, foi narrada uma
célebre descrição da Serra da Estrela, do início do capítulo III da Primeira
Parte, a saber:
“A serra corre de Nordeste a
Sudoeste, como imensurável raiz de outra cordilheira que rompesse longe do seu
tronco. Belo monstro de xisto e de granito, com terra a encher-lhe os ocos do
esqueleto, ondula sempre: contorce-se aqui, alteia-se acolá, abaixa-se mais
adiante, para se altear de novo, num bote de serpente que quisesse morder o
Sol. Ao distender-se, forma altivos promontórios, dos quais se pode interrogar
o infinito, e logo se ramifica que nem centopeia de pesadelo, criando, entre as
suas pernas, trágicos despenhadeiros e tortuosas ravinas, onde nascem rios e as
águas rumorejam eternamente.
Vista do alto, sugere um fabuloso réptil, anfíbio e descomunal, cortado
em dois o grande vale que teria surgido após haver secado o lago que aquele
habitava. Examinada de banda, veem-se-lhe inúmeras patas estendidas e, a
trechos, o lombo serrilhado. Esse gume com muitas mossas é, porém, ilusório.
Contemplado de perto, o dorso da serra, como o dos cetáceos, mostra largas
superfícies, ora chatas, ora abauladas, umas limpas de acidentes, outras
cercadas de fragões, que, com estranhos perfis e enigmáticas atitudes, parecem
defender as terras solitárias. O ser humano tem volume mais mesquinho do que
uma velha giesta, do que uma velha urze, nesses planaltos que se alargam entre
altas vagas de terreno, entre montanhas que cresceram no cimo da montanha. E uma luz de mistério, ao clarear as chapadas
e pendores, enche de temíveis sombras os silentes penedais, os rochedos
majestosos, todos esses gigantescos vultos de granito que povoam a serra, como
seus feros senhores.”
João de Jesus Nunes
(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 13-07-2022 e “O Olhanense”
(artigo
completo) de 15-07-2022)
6 de julho de 2022
O MANÁ
Não é aquele alimento caído do
céu que alimentou o povo de Deus (Israelitas) no deserto. Não. Mas é o cereal
que um dos maiores produtores do mundo, se não o maior, alimenta a maior parte
do Planeta. Não estamos nos tempos bíblicos, mas muitas vezes como que
pretendemos invocar esses momentos.
O trigo da Ucrânia, este país
martirizado por uma potência diabolizada, como largas vezes referimos, está a
dificultar-nos a chegada desse maná.
Se nos reportarmos à Bíblia, numa
das suas narrativas, perante a fome verificada em todo o lado exceto no país do
Faraó, Jacob envia os filhos ao Egipto para aí comprarem trigo e poderem viver
(Gn. 42). Assim aconteceu e ali foram recebidos pelo seu irmão José que, por ter
interpretado os sonhos do Faraó e propiciado uma gestão adequada do cereal
recolhido nos anos de grande produção, fora elevado á categoria de chefe e
governador do Egipto. A ele pertencia, por isso, conforme refere António
Salvado Morgada, in A Guarda, a gestão do comércio do trigo procurado
pelos povos vizinhos.
Agora, como também o mesmo
refere, “o problema do comércio do trigo não se encontra na seca, mas na
guerra. O trigo já terá entrado noutras guerras. Noutros lugares e templos.
Sempre que há guerra, o trigo, como outros cereais, entra na guerra. Até pela
sua ausência.”
Pois bem, o trigo entrando agora
na guerra, tornou-se uma arma beligerante. Faz subir os preços nas padarias,
chegando obviamente às nossas casas.
Esta maldita e evitável guerra da
Rússia contra a Ucrânia, destrói as searas, arrasa a economia dos povos que
neste cereal encontram uma das principais fontes de matar a fome.
Pena é que os senhores geradores
desta guerra não sintam a falta do trigo às suas mesas e que lhes façam
metralhar nos seus estômagos esta carência.
De facto, o trigo – este maná dos
tempos de hoje, e de sempre – entrando na guerra, tornou-se arma de guerra.
Inadmissível!
A guerra do trigo e dos cereais,
acompanhando a guerra das armas, é uma guerra da fome e de outros nomes para a morte.
E é assim que já estamos numa escassez
de produtos, prestes a bater às nossas portas com os industriais de panificação
a sentirem os elevadíssimos preços deste cereal.
O espetro da fome paira sobre os
mais pobres. Como irão ficar os países africanos?
Nesta presumível crise mundial
dos cereais prenuncia uma “guerra mundial do pão”.
João de Jesus Nunes
(In “Notícias da Covilhã”,
digital, de 07-07-2022)
30 de junho de 2022
29 de junho de 2022
FERNANDO BRITO FERREIRA
Cabe a vez de virmos falar duma figura sobejamente conhecida
entre os Covilhanenses, ele também desta génese, comerciante até à sua
aposentação, com estabelecimento que teve na Rua Ruy Faleiro, conhecido por
“Casa da Borracha”, que herdou de seu pai.
Nasceu na cidade dos lanifícios em 10 de abril de 1947, e,
como tantos outros da sua geração, que procuraram estudar no âmbito do ensino
possível para a época, o Fernando optou então pelo Colégio Nun’Álvares, em
Tomar, onde completou o 2.º Ciclo Liceal, sendo que o 3º Ciclo, que não chegou
a concluir, foi no Externato de Santo António, no Fundão, onde era diretor o conhecido
Dr. Menezes. Aqui foi colega dum que se evidenciava – o Gaiolas, mais conhecido
por Salavisa, hoje Coronel da GNR aposentado.
Chegada a altura do serviço militar obrigatório, em tempo de
guerra colonial – a chamada Guerra do Ultramar – Fernando Brito Ferreira foi
incorporado no RI 5, de Caldas da Rainha, em janeiro de 1969, no Curso de
Sargentos Milicianos. Seguiu-se a
especialidade que veio a tirar em Tavira, no CISMI, de atirador, em abril deste
mesmo ano. Foi depois para o RI 2, em Abrantes, em 21 de julho de 1969, sendo
daqui mobilizado para a Guiné como Furriel Miliciano, em 1 de agosto de 1969,
que só viria a surgir em 31 de janeiro de 1970.
Nesta data marchou para Lisboa, de Abrantes, onde na mesma altura
embarcou para o CTI Guiné, promovido já a Furriel Miliciano. Desembarcou em
Bissau no dia 6 de fevereiro de 1970. Aqui tomou parte ativa em zonas
operacionais, de 31 de agosto de 1970 a 26 de fevereiro de 1971.
Foi colocado em Teixeira Pinto, onde permaneceu todo o tempo
de serviço naquela então Província Ultramarina.
Aqui desempenhava as funções de adjunto do Comandante de Batalhão,
incluindo a segurança do quartel.
Competia-lhe também fazer segurança às povoações, para além
do seu trabalho de operação e informação.
Embarcou na Guiné, de regresso à Metrópole, em 2 de dezembro
de 1971, desembarcando em Lisboa, no Cais Conde da Rocha, em 8 de dezembro,
onde o esperava a família.
Passaria à disponibilidade em 2 de janeiro de 1972, sendo
posteriormente, já em casa, promovido a 2.º Sargento Miliciano, em 31 de agosto
de 1072.
Recebeu já a Medalha Comemorativa das Campanhas na Guiné com
a legenda: 1970/71 (O.S. 251 de 22 de outubro do B Caç. 2905).
(In “O
Combatente da Estrela”, nº 127, de julho 2022)
O VIETNAME PORTUGUÊS
Neste mês de junho – mês dos
Santos Populares – sobejamente conhecido ao longo dos tempos, é também o mês em
que, a 10 de junho, comemoramos o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades
Portuguesas, assinalando-se desta forma o dia da morte de Luís Vaz de Camões.
Depois de terríveis tempos de
isolamento que não permitiram festejos nem proximidade das pessoas, ainda persiste
algum temor e a possibilidade de sermos apanhados pelos tentáculos do polvo
pandémico, ainda que de menor gravidade.
Já chegava este problema
mundial de saúde para ainda se vir acrescentar o da morbidez mental na demência
de um ser existente à face da Terra que pretende comparar-se ao imperador Pedro
o Grande, nas nuvens do seu orgulho. Disto não vou falar mais já que,
lamentavelmente, é tema de todos os dias, pelas piores razões.
Venho, isso sim, mais uma vez
reportar-me à guerra para onde nos enviaram, enquanto jovens das décadas de 60
e 70 do século passado, por teimosia salazarista e seus apaniguados, donde
vieram a perecer tantos jovens que hoje ainda podiam estar entre nós, ainda que
numa normal longevidade, e a gerar graves problemas psicológicos aos envolvidos
nessas guerras injustas.
É a razão da notoriedade dos Núcleos
de Antigos Combatentes, com é o da Covilhã, onde muitos vêm solicitar pedidos
de ajuda nas várias vertentes das suas funções.
De harmonia com o livro “365
Dias com histórias da História de Portugal”, de Luís Almeida Martins, aqui
deixo uma narrativa desses tempos vividos, de triste memória:
“Durante mais de 13 anos,
quase metade do orçamento do Estado foi sendo desviado para ‘a Defesa’. Com o
seu rasto e miséria, a Guerra Colonial foi o acontecimento mais traumatizante
da segunda metade do nosso século XX.
Oitocentos mil jovens
portugueses – quase um milhão! – foram mobilizados entre 1961 e 1974 para a
Guerra Colonial que se travou em África contra os movimentos de libertação de
Angola, Moçambique e Guiné. Desses, quase 9 mil morreram e perto 30 mil ficaram
feridos ou estropiados. Um número não quantificado de ex-combatentes acusaria
para sempre os efeitos psíquicos da guerra. Não houve família que não tivesse
pelo menos um combatente em África. Muitas ficaram enlutadas, muitíssimas
viram-se desde então a braços com problemas irresolúveis. Tudo poderia ter sido
evitado se Salazar tivesse sabido descolonizar a tempo.
A Guerra Colonial determinou
também a queda do Estado Novo e o regresso da democracia a um país que chegara
a parecer esquecido dela. Não sabemos quanto tempo mais teria durado a ditadura
se não tivesse havido a guerra, mas não há dúvida de que, ao gerar o
descontentamento dos oficiais mais politizados e forçar a mobilização de estudantes
contestatários do regime, ela foi o fator mais decisivo para a eclosão do 25 de
Abril de 1974.
A guerra começou em 1961. No
dia 4 de fevereiro, as prisões e esquadras de Luanda eram atacadas por
nacionalistas angolanos. Seguiu-se uma chacina praticada por brancos nos
musseques (o equivalente a bairros de lata) da cidade. A 15 de março, a
pró-americana UPA (União dos Povos de Angola) espalhou o terror e a morte nas
fazendas dos Dembos. Salazar enviou tropas para a colónia, mas após vitórias
relativamente fáceis obtidas entre maio e setembro contra inimigos armados de
forma artesanal, o pró-soviético MPLA (Movimento Popular de Libertação de
Angola) abria novas frentes em Cabinda e no Leste. Em 1966 pegou em armas a
UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola), que mais tarde
enveredaria pelo colaboracionismo com o regime português. Em meados da década,
o MPLA era já considerado pela Organização de Unidade Africana o legítimo
representante do povo angolano.
Do outro lado do continente, a
Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique) iniciou a luta armada em 1964, em Niassa e Cabo Delgado,
abrindo depois nova frente em Tete. Comandadas entre 1969 e 1972 pelo general ultra-direitista Kaúlza de Arriaga, as tropas portuguesas envolveram-se durante
meses na Operação Nó Górdio,
a de maior envergadura de toda a guerra, que não teve o êxito pretendido. A
denúncia do massacre de Wiriyamu feita pelo sacerdote anglicano Adrian Hastings
no Times londrino teve larga repercussão internacional.
Na Guiné, a guerrilha do PAIGC
(Partido Africano para a Independência da Guiné e de Cabo Verde), dotado a
partir de 1970 de mísseis terra-ar Strella, de fabrico soviético, foi a
mais difícil de combater pelos Portugueses, que viram alguns jatos FIAT serem
abatidos. A ação psicológica desenvolvida pelo carismático general António de Spínola, governador e
comandante militar durante cinco anos, não impediu a proclamação unilateral da
independência, em setembro de 1973.
Antes tinha sido lançada a polémica Operação
Mar Verde, um ataque à vizinha Guiné-Conakri, ‘santuário’ do PAIGC.
Os Franceses tinham mantido guerras semelhantes na Indochina (1946-1954)
e na Argélia (1954-1962). Ambas haviam conduzido à independência das colónias.
Salazar recusou-se a aprender com esses desfechos inevitáveis.”
João de Jesus Nunes
(In “O Combatente da Estrela”, nº. 127, julho 2022)
15 de junho de 2022
JUNHO - MÊS DEDICADO A PORTUGAL
Junho quentinho, alegre apesar da
pandemia ainda andar por aí a fazer alguns estragos.
Junho de três Santos Populares
que, se a união faz a força, que o trio se compadeça daquele povo ucraniano e
proporcione o milagre de queimar numa fogueira do São João esse Putin satânico.
Mas como os Santos não se vingam,
há que manter as festas populares: o 13 de junho para o Santo António, esta
data comemorativa do seu falecimento em 13 de junho de 1231, perto de Pádua, na
Itália.
Para não falarmos só de
falecimento, então aí vem o 24 de junho para a comemoração do nascimento de São
João Batista, profeta do Novo Testamento.
E, para terminar, o dia 29 de
junho, dedicado a São Pedro e também a São Paulo, como grandes apóstolos.
Todas estas festas são celebradas
em todo o País, mais centradas em determinados locais, como o Santo António, em
Lisboa, com as Marchas Populares; e o São João, no Porto, com as fogueiras, os
martelos e o alho-porro.
Nesta prodigalidade de
festividades e datas memoráveis, salientamos o dia 10 de junho, que é Dia de
Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Nesta data assinala-se o dia
da morte do poeta Luís Vaz de Camões, em 1580. Autor do imortal livro Os
Lusíadas, tornou-se feriado nacional em 5 de outubro de 1910, com a
implantação da República.
Durante o tempo que durou o
Estado Novo (paradoxalmente, velho de mentalidades), e até ao 25 de abril de
1974, em que se deu a Revolução dos Cravos, este designava-se “Dia de Camões,
de Portugal e da Raça”. Só a partir de 1978 passou a ser designado como até à
presente data – Dia de Portugal, Camões e das Comunidades Portuguesas.
Neste ano da graça de dois mil e
vinte e dois, as Comemorações do Dia de Portugal decorreram em Braga e também
junto das comunidades portuguesas no Reino Unido.
Milagre, milagre para quem vive
em certos concelhos foi o facto de este feriadinho do dia 10 de junho ter
acontecido a uma sexta-feira. Logo, por exemplo, Lisboa regala-se pois tem quatro
dias de descanso e festança, já que o dia 13, de Santo António é a uma
segunda-feira.
Mas, entre dias de descanso em
demasia, ou na vontade de quem os desejaria, vamos lá falar de coisas também
sérias, ainda que com pedido de intercessão aos Santos Populares para que concedam um milagre para as bandas da Rua de
Santa Maria (antigamente), hoje Rua Notícias da Covilhã, levando-lhes resmas de
papel para que o Semanário deixe de ser exclusivamente digital.
E, já agora, que procurem um
Diretor que não é forçoso ser dentre os muitos “santos populares” que por aí
andam.
João de Jesus Nunes
(In “Notícias da Covilhã” digital, de
16-06-2022)
FIGURAS E FACTOS DA COVLHÃ E REGIÃO NA HISTÓRIA DE PORTUGAL
Tendo por base a obra “365
Dias com histórias da História de Portugal”, de Luís Almeida Martins, achei
oportuno registar algumas dessas Figuras e Factos com que os Covilhanenses, ou Homens
da Região Beirã, ficaram retratados nas memórias da nossa História.
Por falta de espaço, várias
figuras e factos tiveram que aqui ser omitidas.
Muito me tarda o meu amigo na Guarda – Um dos mais belos poemas
medievais portugueses está relacionado com a grande paixão do rei D. Sancho I.
D. Sancho I foi pai de 19
filhos, contando os legítimos (nascidos do ventre de Dulce de Aragão) e os
ilegítimos, tidos sobretudo de duas amantes conhecidas: Maria Pais Ribeira, uma
linda fidalga de cabelos dourados conhecida por Ribeirinha, e Maria
Aires de Fornelos. Uma célebre e belíssima cantiga de amigo da suposta autoria
de D. Sancho alude aos seus amores com a Ribeirinha: “Ai eu coitada!
/Como vivo em grão cuidado/ Por meu amigo que hei alongado. / Muito me tarda/O
meu amigo na Guarda! / Ai eu coitada! / Como vivo em grão desejo / Por meu
amigo que tarda e não vejo! / Muito me tarda/ O meu amigo na Guarda!”.
O milagre das rosas – Na estrada Guarda-Lamego, em A-de-Barros,
existe um solar do qual se conta que foi onde D. Dinis e a Rainha Santa
passaram a noite de núpcias. Como o casamento em questão ocorreu em finais do
século XIII e a construção de granito data do século XVII, a impossibilidade de
o casal ali ter pernoitado é manifesta. Mas a crença atesta a popularidade do
casal D. Dinis e D. Isabel – uma popularidade que tem resistido bem ao desgaste
de 800 anos.
Não deve haver português
adulto que desconheça o “milagre das rosas”. Segundo essa lenda, a rainha saiu
numa manhã de inverno do Castelo do Sabugal, onde na altura se encontrava com o
marido, levando embrulhado nas vestes pães para distribuir aos pobres. Eis
senão quando surgiu D. Dinis e lhe perguntou, de sobrolho carregado, o que
levava no regaço. “São rosas, senhor”, respondeu D. Isabel. Desconfiado, o rei
voltou à carga: “Rosas no inverno?!...”. A rainha abriu então o regaço e
mostrou ao marido o que ali estava: rosas, em vez de pães.
Escolhida pelo rei português
D. Dinis, de entre um lote de possíveis candidatas, como a esposa ideal, casou
com ele por procuração em Barcelona quando tinha apenas 12 anos, e o marido 21.
Só se conheceram pessoalmente quatro meses depois, no dia em que D. Dinis a foi
esperar à raia de Beira e se celebrou a boda em Trancoso. Mas, atendendo à
idade da noiva, pode não ter havido noite de núpcias, nem nesta vila nem na
A-de-Barros da crença local.
A viagem maravilhosa – Poucos
portugueses tiveram uma existência tão aventurosa como Pêro da Covilhã. Aí
por 1468, um castelhano que se deslocara à Covilhã para comprar tecidos de lã
deixou-se impressionar pela desenvoltura do jovem Pêro e convidou-o para entrar
ao serviço do seu amo. O rapaz, com uns 18 anos, partiu para Sevilha, onde se
tornou espadachim de D. Juan de Guzmán, irmão do duque de Medina-Sidónia. Pouco
depois Pêro acompanhou a Lisboa D. Juan, que aqui vinha avistar-se com D.
Afonso V. Foi a vez de este rei português muito interessado nos assuntos de
Castela, cuja coroa ambicionava, engraçar com os modos de Pêro e arranjar forma
de o tomar ao seu serviço. Com cerca de 24 anos, Pêro esteve ao lado de D.
Afonso V, como escudeiro, na desastrosa batalha de Toro e, em seguida,
acompanhou-o a França, onde o rei português foi recebido por Luís XI em Tours.
Quando D. João II subiu ao
trono, Pêro da Covilhã passou a servir o novo rei. Mais lúcido e prático do que
o pai, o Príncipe Perfeito aproveitou os dotes deste homem de confiança
para missões delicadas que exigiam grande inteligência e não menor dedicação.
Espião ao serviço do soberano, Pêro conseguiu identificar alguns poderosos que
conspiravam contra a Coroa, como o duque de Viseu e o bispo de Évora.
Poliglota, seria seguidamente incumbido de negociar tratados com dois reis
berberes de Marrocos.
Em 1478, quando já ia a
caminho dos 40 anos, foi finalmente incumbido por D. João II de fazer a longa
viagem que o celebrizaria. No âmbito dos preparativos da descoberta do caminho
marítimo para a Índia, consistia esta em tentar alcançar o Indostão por terra e
trazer informações úteis sobre o cobiçado país das especiarias. De caminho,
informar-se-ia acerca do misterioso reino cristão do Preste João.
Pêro da Covilhã partiu
acompanhado de Afonso de Paiva. Disfarçados de mercadores, seguiram por terra
até Barcelona, onde embarcaram para o Egito, com escala em Nápoles e Rodes.
Juntando-se a uma caravana, disfarçados de mercadores árabes, atravessaram a
Arábia passando por Medina e Meca (onde rezaram como muçulmanos), e em Adem
separaram-se, combinando encontro para daí a três anos à porta da cidadela do
Cairo. Paiva fletiu então para a Etiópia e Pero da Covilhã embarcou para a Índia, onde obteve informações que viriam
a ser de grande utilidade para Vasco da Gama.
A primeira portuguesa que
votou – Maior de idade, médica e chefe de família, Carolina Ângelo pôde
eleger a Constituinte de 1911, mas a lei não tardaria a ser revista para
impedir o acesso das mulheres aos cadernos eleitorais.
Quando o presidente da mesa de
voto chamou pelo seu nome, a jovem eleitora de 33 anos vestida pesadamente de
negro e com fios de ouro ao pescoço avançou com passo decidido. Entregou o
boletim de voto e quando este entrou na urna todos os presentes irromperam numa
salva de palmas. Nessa manhã de 28 de maio de 1911, data da eleição da
Assembleia Constituinte da I República, Carolina Beatriz Ângelo, uma das
primeiras médicas que houve em Portugal, fora a primeira mulher a votar no
nosso País. Nascida na Guarda em 1878, concluíra o curso da Escola
Médico-Cirúrgica de Lisboa em 1902, ano em que se casou com o seu primo
Januário Barreto (natural de Aldeia do Souto – Covilhã), também médico, ativista
republicano. Foi a primeira mulher portuguesa a operar no Hospital de São José,
antes de se dedicar à especialidade de Ginecologia. Iniciou-se em 1906 na
militância cívica, aderindo ao comité português da associação francesa La Paix
et Désermement par les Femmes e à loja maçónica Humanidade e fundando nos anos
seguintes a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas e a Associação de
Propaganda Feminista (com Ana de Castro Osório).
Nas asas da Revolução – Revolucionário romântico, Palma Inácio foi
o homem que melhor personificou a luta armada contra a ditadura de Salazar e
Caetano.
Foi em 1962 que desencadeou a
primeira das espetaculares ações políticas que o tornaram numa lenda: o
sequestro do Super Constellation da TAP da carreira Casablanca- Lisboa,
utilizado para o lançamento de panfletos “subversivos” sobre Lisboa e o Sul do
País.
Em finais de 1966 regressou à
Europa para se dedicar por inteiro à luta antissalazarista. Em maio de 1967
comanda o famoso assalto à agência da Figueira da Foz do Banco de Portugal,
destinado à obtenção de fundos para prosseguir a luta revolucionária. Mas ainda
nesse ano foi detido em Paris, a pedido de Salazar. Um tribunal francês decidiria,
porém, que o delito de que o acusavam era político, e pô-lo-ia em liberdade.
No ano seguinte fracassava a
projetada ocupação da Covilhã por um comando revolucionário. Encarcerado no
Porto, evadiu-se num intervalo do julgamento. Quando atravessava a Espanha a
caminho de França seria novamente preso e uma vez mais em tribunal se oporia à
extradição. Em 1973, de regresso
a Lisboa e à clandestinidade após uma estada em Roma, voltou a ser preso quando
preparava a sabotagem dos computadores de vários ministérios.
Definitivamente libertado de
Caxias em 25 de Abril de 1974, foi
eleito secretário-geral da LUAR no primeiro congresso da organização efetuado
em liberdade, durante o qual prestou contas do dinheiro retirado sete anos
antes dos cofres do Banco de Portugal.
João de Jesus Nunes
(In “Jornal
Fórum Covilhã”, de 15-06-2022)
1 de junho de 2022
UMA VITÓRIA COMO SE FOSSE UMA SUBIDA
Os Covilhanenses, de raiz ou de coração, e as gentes beirãs, dispersas
por este recanto à beira-mar plantado, folgaram no domingo, 29 de maio, ao verem
o seu Clube mais representativo de toda a região – o Sporting Clube da Covilhã
(SCC) – a manter-se na II Liga portuguesa de futebol, ao vencer o Alverca, no
Santos Pinto, por 2-0.
O destino a que as gentes da nossa gente já não estavam habituadas,
levar-nos-ia neste final da época 2021/2022, a disputar o “play-off” de acesso
ao segundo escalão, e esta foi a segunda mão, quando na primeira haviam
conseguido um empate a zero bolas.
Depois de várias épocas consecutivas (quinze) num esforço, por vezes
hercúleo, dos seus dirigentes, sob a batuta de José Mendes, a manterem uma
linha de conduta desportiva mais com altos do que com baixos, sempre na II
Liga, surgiria nesta época como que uma ventania de muitas pedras desacertadas,
ou tropeçando nelas, que levaram a uma posição ingrata como a população já não
estava habituada. Foi esta população que
num sopro indómito mais não pensou que apoiar vivamente a equipa dos Leões da
Serra, logo que se apercebeu da gravidade em que o barco em que navegava se
encontrava prestes a meter água, e levou neste dia a tornar repleto o Estádio
José dos Santos Pinto, na beleza da nossa Serra, numa enorme vontade de apoiar
o Clube não o deixando fazer marcha atrás.
E, felizmente, assim aconteceu com o míster Leonel Pontes a direcionar o
rumo da vitória, bem conseguida por via dos valorosos Filipe Dini, logo no
primeiro minuto de jogo, e depois Rui Gomes. Começava assim o representante da
Liga 3 a ver a sua vida muito difícil.
Longe vão os tempos, lá para as bandas do século passado, nas décadas de
50 e 60, em que a Covilhã para além dos lanifícios como mono indústria, mais
não tinha de grande evidência que não fosse o futebol da I Divisão Nacional, e
então era ver, para além de comboios especiais, centenas de autocarros vindos
de vários pontos do País apoiar os seus clubes e ver jogar as vedetas do SCC,
aquando das deslocações do Benfica, Sporting, FC Porto e Belenenses (aquele que
agora está também nos aflitos quase desaparecido).
As tabernas, os restaurantes e até pensões e hotéis registavam um volume
interessante de negócios por força dos forasteiros, e não só.
As gentes serranas e mormente todos quantos vivem o clube da sua Terra,
ou da sua afeição, pressentiram neste frustrar de final de campeonato como que uma
pandemia desportiva que caíra nas hostes serranas. Para além do sentir nas
condutas lamentáveis de responsáveis (arbitragens incluídas) dos que na pauta
classificativa já se começava a desenhar a perigosidade dos maus resultados, e
embora a equipa serrana viesse a fazer das tripas coração, parecia que o mal
com que estavam fadados continuava a existir.
Ouvi chamadas de atenção para este imbróglio e o grito de Ipiranga em
várias gentes, nos semanários regionais, na Casa da Covilhã em Lisboa. Havia
que apoiar mais intensamente o Sporting Clube da Covilhã.
E assim sucedeu! Temos a equipa serrana a manter-se afincadamente na II
Liga do futebol português.
Dá pena ver equipas que durante anos emparceiraram com o SCC e hoje
encontram-se em grandes dificuldades de manutenção nos lugares honrosos em que
deviam estar, nomeadamente o Belenenses, Olhanense, Barreirense, Vitória de
Setúbal, e tantos outros por este Portugal fora.
João de Jesus Nunes
(In “Notícias da
Covilhã” digital de 02-06-2022)
18 de maio de 2022
A Rússia, os Portugueses e o Segredo de Fátima
Longe vão os tempos, da minha
infância, em que se rezava nas Igrejas pela conversão da Rússia, um dos pedidos
de Nossa Senhora numa das Aparições de Fátima, para uns, Visões, para outros,
ocorrida em 13 de junho de 1917, em plena Guerra Mundial.
Mas já muito antes, sempre os
portugueses estiveram envolvidos neste país, sendo a Federação Russa o maior
país do mundo em extensão territorial, localizado na Eurásia da Europa e Norte
da Ásia, quase sendo mais um Continente.
Assim, vejamos, segundo A Mais
Breve História da Rússia dos Eslavos a Putin, de José Milhazes: O médico
António Nunes Ribeiro Sanches (1699-1783), natural de Penamacor, teve de fugir
para o estrangeiro para escapar à Inquisição, foi trabalhar para a Rússia, onde
passou dezoito anos (1731- 1749). Deixou as melhores recordações na Rússia
principalmente graças à sua atividade no campo na medicina. Quando já exercia
as funções de médico da corte de São Petersburgo, o iluminista do distrito de
Castelo Branco salvou da morte a noiva do grão-príncipe Pedro e futura
imperatriz da Rússia, Catarina II, a Grande. Por isso, em 1782, o seu
filho e sucessor no trono, Paulo, exprimiu-lhe publicamente gratidão em Paris,
o que lhe valeu uma pensão vitalícia da corte russa. Já depois de ter
abandonado a Rússia, acusado de não ter renunciado ao judaísmo, Ribeiro Sanches
nunca se recusou a prestar assistência médica aos nobres russos que o
procuravam na capital francesa. E isto porque era considerado um mestre
incomparável no tratamento de doenças venéreas, onde muitos sofriam desses
“males do amor”. O médico português mantinha contactos estreitos com o mundo
científico russo, contribuindo para o estabelecimento de relações entre
cientistas russos e sábios de outros países da Europa e do mundo. Também da
pena deste ilustre sábio do distrito albicastrense saíram numerosas obras sobre
a Rússia. Ribeiro Sanches deixou igualmente escritos sobre cossacos,
ucranianos, povos do Báltico, etc. Todavia, dedicou maior atenção aos russos,
aos seus costumes, às suas tradições, vida económica e agricultura. Na sua
conhecida obra Memória Sobre os Banhos de Vapor da Rússia, Ribeiro
Sanches analisa o tema não só enquanto médico, mas também como economista. Ele
via nos populares banhos russos um meio universal de tratamento de doenças
quando não era possível o acesso a outras terapias e recomendou-o aos seus
leitores ocidentais. Baseando-se nas reformas do czar Pedro I, o ilustre
português aconselhou o marquês de Pombal na sua tarefa de modernização de
Portugal. Ribeiro Sanches tinha uma visão filosófica das ciências socias e
considerava que a autossuficiência agrícola era fundamental para qualquer país,
insistindo, para isso, no incremento das culturas cerealíferas.
De outros portugueses que
passaram por São Petersburgo, foi a cantora de ópera Luísa Todi quem deixou
maior rasto na história da cultura da cidade. No auge da sua carreira, aquela
que ficou conhecida por “rouxinol de Setúbal” lançou-se na aventura de atuar na
Rússia, país que, nos finais do século XVIII, era considerado “distante” e
“bárbaro” pelos europeus do Ocidente. A sua voz permitiu-lhe não só cativar o
coração de muitos russos como enfrentar e defender os seus interesses perante
Catarina, a Grande. Luísa Todi permaneceu na Rússia de 27 de maio de
1784 até finais de 1786. Regressaria e, em 23 de abril de 1787, Luísa Todi dava
o seu último espetáculo em Moscovo. Entretanto, surge a rutura entre Luísa Todi
e Catarina II quando a cantora setubalense começou a exigir somas exageradas
para permanecer na Rússia, pois tanto ela como o marido não olhavam a despesas,
considerando a imperatriz Catarina II que o casal português já estava
endividado em oitenta mil rublos.
Também a história do russo que
salvou a coroa portuguesa. No dia 3 de novembro de 1807, a esquadra do
almirante russo Dmitri Seniavin entrou na foz do Tejo para fugir a uma forte
tempestade no mar, mas ficou ali retida durante quase um ano devido à conturbada
situação internacional. Anteriormente, em 7 de julho desse ano, a Rússia e a
França de Napoleão tinham assinado um Tratado de Paz e Amizade, em Tilzit, e a
corte de São Petersburgo rompera as relações diplomáticas com Londres. Neste
contexto que lhe era adverso, o oficial russo, não obstante as pressões
francesas, evitou impedir a partida que se preparava, de D. Maria I e de D.
João VI rumo ao Brasil. O almirante russo viu-se numa situação muito complicada
e então arranjou subterfúgios para tentar adiar ou mesmo evitar totalmente o
cumprimento das ordens de Napoleão, alegando falta de armamento e de homens.
Quadro da Morte de Inês de
Castro. Karl Briullov (1799-1852) foi um dos primeiros pintores russos que
receberam reconhecimento internacional, sendo considerado o artista de
transição entre o neoclassicismo russo e o realismo. Em 1834, pintou o quadro Morte
de Inês de Castro, talvez soba a influência da leitura de Os Lusíadas de
Luís de Camões.
Segundo João Céu e Silva, in DN,
a Revolução Russa, que teve início em 1917, também esteve sempre muito
ligada às aparições de Fátima. Talvez os pastorinhos tivessem ouvido o nome do
país, mas decerto desconheciam as implicações que o regime que substituía os
czares iria ter em todo o mundo no século XX. Se uma nova consagração pareceria
impossível e desnecessária até ao princípio desta guerra, a razão de acontecer
deve-se à mensagem que Nossa Senhora terá deixado aos pastorinhos na aparição
de 13 de julho de 1917: “Para impedir a guerra virei pedir a consagração da
Rússia ao meu Imaculado Coração (…). Se atenderem os meus pedidos, a Rússia se
converterá e terá paz; se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo
guerras (…)”. A mensagem não terminava aí e referia também que a Rússia
promoveria “perseguição à Igreja. Os bons serão martirizados, o Santo Padre
terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas”. Daí que Lúcia tivesse
insistido na consagração, em especial da Rússia, ao Imaculado Coração de Maria
logo na carta enviada ao Papa Pio XII, em 1940.
Muito já foi dito, e muito já se
escreveu e debateu sobre este assunto. O que é certo e verdade, é que a guerra
gerada com a invasão da Ucrânia pela Rússia tem algo que se pode contextualizar
nestas mensagens de Nossa Senhora, ainda que já não se reze pela “conversão da
Rússia” como nos tempos do Estado Novo, mas velho de pensamento e ideias, mas
se peça a intervenção divina para acabar com esta guerra injusta, entre várias
maneiras de interpretar quer a mensagem de Fátima quer a invasão da Ucrânia
pela Federação Rússia, numa ambição hitleriana de Putin.
João de Jesus Nunes
(In “Jornal Fórum Covilhã”, de
18-05-2022)
Não conseguem silenciar o Notícias da Covilhã
Vá-se lá saber porquê, o Notícias da Covilhã, que muitos
imaginavam já vê-lo passar por um placard de necrologia, continua a fazer pela
vida, suportando, ainda que a pão e água, esta fraca alimentação que alguns
senhores disto tudo não se preocuparam em revigorar a sua vida fragilizada, ou
seja, a vida do semanário mais antigo da Beira Baixa.
Muito já se disse, muito já se
pensou, muito já se deduziu, mas a apatia daqueles que deviam estar no comando
da frente de combate e se retiraram para um silêncio tumular, é que é
condenável.
Na linha da frente lá continuam
os incansáveis jornalistas do Notícias da
Covilhã, votados ao ostracismo,
sem uma informação fidedigna de que o semanário terá os dias contados. Isto
para já não falar de muitos dos seus dedicados leitores e assinantes, para quem
se marimbaram e, toma! - Lês o online, pelo que te oferecemos o pdf,
mas papel isso é por causa do manguito do Zé Povinho. Saudoso Rafael Bordalo
Pinheiro que hoje ainda fazes muita falta.
Quanto à (ir)responsabilidade diocesana pelo infeliz caminho em que
deixaram cair este importante órgão da comunicação social, ou a uma direção mal
escolhida, numa administração que se desconhece, ignoram-se quaisquer ações
tendentes a encontrar medicação para a situação mórbida em que o semanário foi
deixado cair, sem rei nem roque.
Onde está o antídoto para debelar este mal? Alguma coisa foi feita,
abertamente, criando comissões idóneas para ir de encontro a vozes que gostam
da Covilhã – dos lanifícios e universitária?
Sabemos que a atual edilidade não se vê aguerrida a fazer das tripas
coração para salvar este semanário. Pudera! Já passaram as eleições.
O Notícias da Covilhã comemora hoje 103 anos (mais de um
século!) desde a sua primeira edição como NC, mas é muito mais antigo,
se considerarmos que em janeiro completou 109 anos, então sob o título A
Democracia.
É uma data memorável, em que não pode vestir o fato de gala face à melancolia
da sua indefinição, pelo que se apresenta com o seu fato habitual de trabalho.
Vamos dar uma nova vida ao Notícias da Covilhã, uma publicidade
mais forte, com uma campanha de assinaturas para a sua edição em papel. Só
assim o Semanário poderá ser atrativo.
O Notícias da Covilhã não pode ser silenciado. O Notícias da Covilhã tem que voltar à vida refrescante d’outrora.
Parabéns ao Notícias da Covilhã e aos seus verdadeiros obreiros
que ainda conseguem manter a navegar o barco ainda que por águas turbulentas.
João de Jesus Nunes
(In “Notícias da Covilhã”, de 19-05-2022)
17 de maio de 2022
59 PRIMAVERAS NA VIDA DE UM JORNAL
Numa altura em que alguns
periódicos se veem forçados a passar do papel para a exclusividade do digital,
com a consequente perda do maior interesse pela leitura, se não mesmo quando a
rejeitam, já que o papel traz com o seu cheiro e apalpar o apelativo para uma
leitura mais amena, é assaz louvável o esforço desenvolvido pelos que mantêm
este quinzenário de pé, contra ventos e marés.
É preciso uma vontade indómita
para dar de si, no barco do voluntariado, banhado pelas águas da gratuitidade,
o esforço que dá forma a páginas soberbas d’O OLHANENSE.
Não tenham pena do tempo gasto em
prol de algo que seja importante dar a lume, quão de interessante dar a
conhecer, da história nacional à local ou regional, à curiosidade, ao reviver
tempos idos da nossa meninice, que o diga o incansável Mário Proença, Diretor
Adjunto deste quinzenário.
O OLHANENSE está de
parabéns, assim continue a ser o baluarte do histórico Clube algarvio que
merece e se impõe regresse tão breve quanto possível aos maiores do futebol
português.
Mas, como várias vezes tenho
referido, este quinzenário não é só de âmbito desportivo, embora seja a sua
génese, mas face às gentes dinâmicas que se embrenharam no papel do papel de
saber manter vivo um periódico em prol duma população, dá gosto ver todo o
aspeto cultural que envolve o Jornal O Olhanense.
Parabéns, pois, a todos os seus
Obreiros, por mais um ano de vida intensa em favor não só das gentes algarvias
como de vários pontos do País.
João de Jesus Nunes
Covilhã
(In quinzenário "O Olhanense", de 15-05-2022)
4 de maio de 2022
CAFÉS MÍTICOS O CAFÉ MONTALTO, NA COVILHÃ, E O CAFÉ ARCADA, EM ÉVORA
Ao longo das nossas vidas,
mormente para quem ainda anda neste mundo, felizmente, há mais de sete décadas,
como eu, tivemos o prazer de conviver momentos inolvidáveis nos cafés de
referência. Esses lugares das facetas de cada um de nós.
Por todo o país, esses
estabelecimentos eram testemunho duma convivência salutar. O ponto de encontro
para os negócios da época, com ou sem as facilidades de hoje. Da procura de alguém que servisse para
apadrinhar um novo emprego. Mas também em momentos de cultura, ainda no
desconhecimento das novas tecnologias. Nem sequer existia o telemóvel. Muitas
vezes era o telefone do café o ponto chave de contactar alguém que
habitualmente os frequentava. O recado deixado ao dedicado empregado dava
ensejo de tranquilidade a quem se procurava.
Mas também ponto de reunião de
uma determinada classe. Eram os que não davam louvas aos tempos do Estado Novo.
Obviamente atentos, tanto quanto possível acautelando as suas conversas. Ali
podia estar um pide disfarçado que tapava a cara com a gola do seu sobretudo.
Os estudantes davam uma
escapadela para uma disputa entre os bilhares. E não só. Também os “Leões da
Serra”, jogadores de futebol da I Divisão.
Os menos abastados, esses,
coitados, davam azo à sua camuflada revolta. A sua permanência nas muitas
tabernas de então, ou cafés menos frequentados. Evitavam encontrar-se com os
patrões. Viam-se também nos bares das muitas coletividades de bairro
existentes.
E, na tranquilidade da leitura do
jornal, de dimensões exageradas, liam-se os artigos do enorme Diário de Notícias ou d’A Bola, que contrastava, em tamanho, por exemplo, com o Diário Popular ou o Record.
O Montalto, na Covilhã, que há muitos anos encerrou as suas portas, era
conhecido como o café dos industriais. Era ainda o café da alta e da média
burguesia, onde pequenos grupos se formavam em função dos negócios e interesses
como descreve José António Pinho num dos seus livros. Aqui se bebia a bica,
confecionada com os melhores lotes de café da Cafeeira, e que custava o dobro.
Mas também foi lugar de encontro dos descontentes do antigo regime,
como aconteceu aquando da visita do General Humberto Delgado, em campanha
eleitoral, que deixou o Montalto a rebentar pelas costuras, tão repleto que
estava de gentes em vibrante entusiasmo. Estávamos em 1958.
Mas se acima falámos de cultura, outros cafés covilhanenses foram de
memórias como o extinto Café Leitão, onde o escritor Ferreira de Castro
escreveu o romance sobre os lanifícios – A Lã e a Neve.
Passando da zona serrana para a alentejana, aí vamos deparar com o
mítico Café Arcada, também ele rico de história. Era de facto o café da
tradição. Abriu em 14 de fevereiro de 1942, tendo sido considerado um dos
melhores do País, com mais de 100 mesas.
Nos primeiros tempos o Arcada foi frequentado pela burguesia local,
pequenos grupos de intelectuais, gente do reviralho, profissionais liberais e
estudantes liceais. Os latifundiários e os agricultores frequentavam o Café
Camões, à Porta Nova. Mas com a perda de centralidade desta zona e o acrescido
ganho de importância da Praça do Giraldo, estes passaram a tomar de assalto o
Arcada às terças-feiras, dia do mercado semanal. Em plena Praça e no interior
do café se discutiam e apalavravam negócios, tendo ali chegado a funcionar uma
informal bolsa de gado. No seu romance Aparição o escritor Vergílio
Ferreira relata bem o ambiente do Café Arcada quando nele entrou pela primeira
vez em 1946, colocando a sua visão na boca do protagonista Alberto Soares. “….
Acabámos por marcar o encontro para o dia seguinte no Arcada sem que o Moura se
lembrasse de que era uma terça-feira, ou seja dia de mercado. Com efeito, ao
entrar no café, após o almoço, tive a surpresa de ver aquele vasto túnel
apinhado de gente. O corredor atravancava-se de negociantes, porque era ali,
entre bebidas, que se realizava o mercado da semana. A terça-feira era o ‘dia
de porcos’”, como soube mais tarde que lhe chamavam.
O escritor ficou aliás com uma marca indelével do Arcada, pois foi ali
que o seu colega e padrinho do casamento, Alberto Miranda, lhe pagou a boda, da
qual consistiu dum galão a cada um e bolos, conforme revelou em “Conta-Corrente
2”.
Entretanto, com o passar do tempo, aos lavradores veio juntar-se uma
corte de gente ligada ao mundo dos touros e ao marialvismo rural, composto por
ganadeiros, toureiros e aprendizes, moços de forcados, apoderados, equitadores,
aficionados e professores e alunos da Escola de Regentes Agrícolas.
Com a subida do Lusitano de Évora à I Divisão em 1952 a fama do café
chegou a Lisboa. Os adeptos do Sporting, do Benfica e do Belenenses, do Vitória
de Setúbal e do Barreirense, que aos milhares se deslocavam a Évora para apoiar
as suas equipas, conheceram-no, apreciaram-no e dele fizeram grande propaganda
na capital e arredores.
A Revolução de Abril acentuou-lhe a decadência retirando-lhe a antiga
frequência dos terratenentes e seareiros, engolidos na voragem do PREC.
Esta situação durou alguns anos e causou o desgosto de quem por ali
passava na época áurea. Mas mesmo ao findar do século passado a Cervejaria
Trindade resolveu ocupar o espaço, remodelá-lo por completo, e manter-lhe
associado o nome de Café Arcada.
(In "O Olhanense" , de 01-05-2022)












