16 de março de 2022

ACIRRADOS: DAVID E GOLIAS OU O LOBO E O CORDEIRO

 

A caminho de algum lenitivo face ao abrandamento da pandemia que afetou todo o Planeta, todas as gerações do século XXI e a grande maioria do século que o precedeu jamais passara por uma situação como aquela que agora vivemos.

Estávamos já a respirar de algum alívio, num novo mundo, quando surge um Golias diabolizado que há muito ia espreitando a oportunidade de, pensando ser trigo limpo, querer dissipar o pequeno David – Zelensky.

Estávamos naquela quinta-feira de 24 de fevereiro quando o “Golias” Putin, não à frente do seu Exército – o segundo mais poderoso de todo o mundo – mas a agitá-lo à distância, iniciou a conquista pela força de regiões inteiras no país vizinho – Ucrânia, que ocupa o 22.º lugar deste ranking, com um pequeno mas grande “David “  em Kiev.

Durante semanas, o russo Putin garantiu que o destacamento de 150 mil soldados russos e de colunas com tanques e camiões se destinavam apenas à realização de exercícios militares. Mas mais não era, como já se adivinhava, de planear uma invasão ao país vizinho – Ucrânia. Já recentemente havia decidido reconhecer como países independentes as autoproclamadas repúblicas de Donetsk e de Lugansk cujas capitais estão ocupadas por forças pró-russas desde 2014. O “Golias” querendo utilizar algum ardil dizia que eram “forças de manutenção da paz” – a paz diabolizada de Putin, no seu chico-espertismo.

 

Extramuros, do lado da União Europeia, surgem as contribuições para as fundas das primeiras pedras em defesa do pequeno David, com um primeiro conjunto de sanções que teve como alvo as entidades que financiam estas operações militares, bem como os indivíduos responsáveis por esta desastrosa decisão invasora: fortunas congeladas e os britânicos a colocarem ponto final nos programas “vistos gold”. Os alemães, já sem a senhora Angela Merkel, mas com o então novo chanceler alemão a anunciar a suspensão do gasoduto Nord Stream 2, um enorme empreendimento que liga a Rússia e a Alemanha através do mar Báltico, uma oportunidade de ouro para aumentar a capacidade de exportação de gás natural russo para o mercado europeu a preços baixos, pois que, neste caso insofismável, temos que compreender que nem tudo o que luz é ouro.

Para grande estupefação da Europa que já não presenciava nada assim há muito tempo, e até pensava não mais vir a assistir a tão lamentável dilaceração duma parte deste Continente, vê chegar não a sombra de uma nova guerra fria, nas memórias do bíblico Golias, ou mesmo de Nero, mas do passado a papel químico Hitler versus Putin.

 

A União Europeia, ainda não totalmente refeita duma das suas parcelas desavindas, viu o Reino Unido dar uma resposta à Rússia, à altura da gravidade da situação, congelando atividades bancárias, bens de oligarcas, ao mesmo tempo que apelava à exclusão da Rússia do sistema de pagamentos SWIFT. Será caso para dar o grito do Ipiranga: Viva o Brexit!

 

Conforme refere Jorge Almeida Fernandes, in Público, “Décadas sem guerras de potências mudaram a mentalidade dos europeus. A comemoração do 70º aniversário do fim da II Guerra Mundial garantia o fim das guerras no Continente”. E transcreve da americana Rosa Parker que “Passámos anos a acreditar que a guerra e o terror iam acabar e que as liberdades seriam garantidas”.

 “Tal como Heródoto escrevera há dois milénios e meio: ‘Ninguém é suficientemente insensato para preferir a guerra à paz. Nos tempos de paz, os filhos enterram os pais; nos tempos de guerras, os pais enterram os filhos’”.

Em 2014, tivemos um aviso: a Rússia anexou a Crimeia e os russófilos ucranianos ocuparam parte do Donbass. Foi a primeira anexação territorial pela força, na Europa, desde 1945. Pelo que se infere que o que agora sucede começou em 2014.

Para compreender a fixação de Putin com a Ucrânia torna-se necessário ir à sua juventude, ele que nasceu em 7 de outubro de 1952 em Leninegrado, atual São Petersburgo. Cresceu, como tantos da sua geração, sujeitos à força da propaganda soviética. Portanto, ainda tem frescas as feridas do colapso da União Soviética e da perda da sua esfera de influência. Por isso, este ditador já considerou o fim da União Soviética como “a maior catástrofe do século XX”, pior na sua opinião do que as duas guerras mundiais. No discurso em que reconheceu a independência de Donetsk e Lugansk, Putin voltou a 1991 para argumentar que a Ucrânia não é “um Estado”, tendo sido “roubada” à Rússia pelo colapso da União Soviética.

Este Putin – o homem mais solitário do mundo – e o seu regime escondem na mentira e na dissimulação uma vontade de poder insaciável. Parece encontrar-se perdido nos seus discursos demenciais e belicistas.

E no meio de tanta desgraça ocasionada pela vontade de um único homem, maldito Putin, não obstante procura de acabar com a guerra na Ucrânia, nas conversações para a paz, se é de paz que ele alguma vez lhe interessa falar, atribui culpas à Ucrânia, a qualquer jeito, como na fábula de La Fontaine, “O Lobo e o Cordeiro”, donde extraio um pequeno excerto, depois da fábula prosseguir com provocações grosseiras por parte do lobo, que o cordeiro foi tentando rebater. Mas o lobo estava, tal como Putin, desde o princípio, determinada a comer o pequeno animal. Por isso, sem piedade, e de todo indiferente à razão decidiu atacar e matar o cordeirinho: “Esta fábula dá brados/Contra aqueles insolentes/ Que por delitos fingidos/Oprimem os inocentes”.

E, para vergonha nacional, o PCP, através dos seus responsáveis, alguns tentando desculpas esfarrapadas, colocaram-se ao lado de Putin, rejeitando sanções aprovadas pela União Europeia. Se este Partido Comunista Português já se encontra em decadência, com este tiro nos pés, mais afundou o seu barco a navegar em águas turvas e turbulentas.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In "Jornal Fórum Covilhã", de 16-03-2022)

9 de março de 2022

SAUDOSO VERÃO AZUL COM CRIANÇAS DE CHERNOBYL

 

Esta terrível guerra surgida entre duas nações – Rússia e Ucrânia – a mando de um carniceiro russo – Vladimir Putin, desejoso de voltar aos tempos da União Soviética, ou, mais que isso, formar um único grande império que pudesse competir com o Mundo, baseando-se nas suas armas nucleares, tem levado, em poucos dias, ao extremo da desgraça em muitas famílias ucranianas, principalmente, com a grande maioria das gentes deste Planeta a insurgir-se contra esta tentativa de usurpação do poder ucraniano.

Lamentavelmente, mesmo assistindo ao que nos entra pelos olhos adentro por via das televisões e outros meios de comunicação social e, no âmbito das novas tecnologias, as redes sociais, ainda há um partido português, dito democrático, que se coloca ao lado da ditadura de Putin.

Vem este texto a propósito, não só pelo que já é sobejamente conhecido de todos do que se está a passar entre as duas nações beligerantes, e as suas repercussões pelo mundo fora, numa das desgraças que jamais pensaríamos viessem a existir, depois da II Guerra Mundial, e da queda do Muro de Berlim, mas também pelo post que encontrei no Facebook do conhecido jornalista da RTP, Mário Augusto, a propósito duma sua visita que efetuou, há nove anos, a Chernobyl.

Foi em 26 de abril de 1986 que o quarto reator da central de Chernobyl explodiu, libertando sete toneladas de combustível nuclear e radiações cem vezes superiores às das bombas de Hiroxima e Nagasaki, durante a II Guerra Mundial. Nem sabemos como continuam ali a viver quando Kiev fica a uns 70 quilómetros.

E é Mário Augusto que assim se refere no seu post: “O planeta redondinho e azul, às voltas no silêncio sepulcral do universo, lá segue a rota do sol como se nada fosse, mas cá em baixo a vida e o mundo trocam-nos as voltas sem aviso nem compasso de espera. Há nove anos estive na Ucrânia, em Kiev, em Ivankiv, em Prypriat em Chernobyl. Vim de lá aterrado pelos olhares das crianças que vi… e não havia guerra, só pobreza e falta de esperança e sorrisos. A minha família tinha acabado de integrar um projeto solidário dinamizado pelo então presidente da Liberty Seguros (homem de coração grande) José António de Sousa que pagava o transporte e a logística para que dezenas de crianças da região de Chernobyl tivessem umas férias de sol, um VERÃO AZUL com famílias de acolhimento. Com a aposentação de José António de Sousa, as linhas mestras da companhia foram outras e o projeto de uma década acabou sem mais, para tristeza dessas famílias de acolhimento que tudo faziam para dar a alegria e esperança a essas crianças, que chamavam como filhos durante pouco mais de um mês de Verão Azul, iam aos médicos, compravam roupas e guloseimas, divertiam-se. Ficaram laços para a vida, laços eternos. Essas crianças e jovens não sabem, mas deram-nos mais do que lhes demos nós de carinho e verão. São esses meninos de Ivankiv que por estes dias nos ligam num pranto assustado que nos arrepiam de dor e aflição pelo que estão a viver. Há famílias que quando conseguem ligar (nada fácil por falta de energia e rede nos esconderijos, nas caves enterradas nas casas sem nada) ouvem-se tiros e explosões pelo telemóvel, o crepitar dos escombros que ardem. (…)”.

Foi assim que de imediato entrei em contacto com Mário Augusto e lhe enviei o meu livro “O Documento Antigo – Uma outra forma de ver os Seguros”, prefaciado pelo Dr. José António de Sousa, indicando-lhe que nas páginas 393 a 397 poderia ler essa meritória ação da Seguradora, então sob a égide deste administrador, sob o título “Até ao último verão – Verão Azul é o projeto que traz crianças de Chernobyl a Portugal”, e, na página 395 lá era feita referência ao jornalista Mário Augusto.

Por coincidência, na sexta-feira, 4 de março, lá estivemos no Sabugal, num encontre de amigos, onde não faltou a presença do Dr. José António de Sousa.  Próximo, em Seia, dia 6 de maio.

Paradoxalmente ao bem que era feito às crianças de Chernobyl, o satânico Putin, sem coração nem alma, incendeia com bombas uma central nuclear e força a ocupação para seu controlo da maior central nuclear da Ucrânia.

Só nos resta esperar que este diabo à solta, e seus apaniguados, como Sergei Lavrov, tenham momentos perturbadores nas suas consciências, se é que neles elas existem, que os façam sentir o enorme mal que estão a ocasionar à Humanidade, onde se inclui o seu próprio povo.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmaqil.com

(In "Notícias da Covilhã", de 10-03-2022)

16 de fevereiro de 2022

A PULGA BONITA DE ARRAIOLOS


 

Não se trata daquele conhecido inseto de que todos fugimos mas tão só do nome de uma linda jovem cujo rosto andou nos bolsos de todos os portugueses, muito antes de se falar no euro, salientando-se nas moedas de 5 escudos e 50 centavos.

Pois bem, em 1910, com 18 anos (outros referem 16) – Hilda Pulga de seu nome, natural de Arraiolos, onde nasceu em 1892, serviu de modelo para o Rosto da República, ao escultor Simões de Almeida, sempre sob o olhar atento da mãe.

Foi ela que posou para o busto da “República”. Um seu familiar veio a saber que a senhora foi para Lisboa muito jovem, com os seus 10 a 13 anos, e que “as fomes daquela altura”, no Alentejo, que “eram muito grandes”, terão motivado a sua mudança para a capital, exercendo a profissão de costureira.

A sua vida foi repleta de aventuras. Ela, que consta ter sido profundamente monárquica, muito católica e reacionária, aceitou o pedido do escultor, por amor ao País. Hilda trabalhava numa camisaria na Rua Augusta, na Baixa de Lisboa. Estava a fazer uma entrega quando se cruzou com o escultor, que lhe achou graça, vendo nela o rosto cheio de beleza e o ideal para o trabalho que pretendia executar, convidando-a assim para sua modelo. Como Hilda era menor de idade, Simões de Almeida teve de pedir autorização à mãe dela, que lhe impôs duas condições: ela própria teria de estar presente nas sessões; e a filha teria de posar vestida. No entanto o busto do escultor mostra uma mulher de amplo decote, com o pescoço e os ombros descobertos, o peito envolto por um manto com a esfera armilar ao centro e a cabeça coberta por um barrete frígio. Mas Hilda jurou que só tinha desabotoado um botão da camisa e que o escultor apenas lhe moldava o rosto.

O pai de Hilda era um homem abastado, proprietário da fábrica de tijolos da praça de Touros do Campo Pequeno, em Lisboa. Um revés nos negócios obrigou-o a vender a fábrica, e atraído pelo negócio da borracha, rumou para a Amazónia peruana, onde veio reunir a mulher e os cinco filhos, erguendo um armazém geral. Lá foi Hilda, a mãe e os quatro irmãos, numa longa viagem de três meses, de Lisboa para Belém do Pará, de “vapor, barco e piroga”. Após três anos felizes na Amazónia, o pai adoece, tendo que regressar a um clima temperado, a conselho médico. A família Pulga regressa a Lisboa mas o pai não aguenta a viagem e morre a bordo, ao largo de Cabo Verde, sendo o funeral feito no mar.

Surge a miséria na família, sem o sustento necessário. Hilda Pulga dedicou-se à costura e nunca deixou de costurar a vida toda, até aos 96 anos: “lençóis, toalhas, fardas de empregada, crochet”, ocupando-se muito em leituras. Antes dos 30 anos teve um primeiro cancro, e, na mesma altura, casou-se com um jornalista, cujo matrimónio durou somente dois meses. Apesar de muito católica, pediu o divórcio em 1932 (ainda antes da Concordata ser assinada em Portugal). Voltou a casar-se e nunca teve filhos, criando uma sobrinha. Aos 77 anos optou por ir para um lar, remetendo-se à clausura total. Faleceu com 101 anos, em 1993.

Com a implantação da República, foram modificados os símbolos nacionais: a bandeira, o hino nacional e o busto. Este símbolo – o busto da República – sendo a representação de uma ideia, é expresso de forma icónica através do busto de uma mulher, ostentando um barrete frígio. A imagem teve como inspiração a obra “A Liberdade guiando o Povo”, pintada em 1830 pelo francês Eugene Delacroix. Esta imagem da República é uma herança da Revolução Francesa (1789) e dos seus ideais, nomeadamente a liberdade, a fraternidade e a igualdade. Em Portugal, esse símbolo nasceu em meados do ano 1908, em pleno período de forte descontentamento e de grande agitação popular, no ano em que teve lugar o regicídio, ou seja, dois anos antes da vitória definitiva da República. Foi assim que um grupo de republicanos portugueses, liderados pelo Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Braamcamp Freire e pelo arquiteto e vereador municipal, Ventura Terra, resolveram abrir concurso para que fosse elaborado um busto de mulher que, à boa maneira francesa, fosse um símbolo que facilmente a generalidade do povo português, fortemente marcado por iliteracia, pudesse compreender. E assim surgiu a alentejana Hilda Pulga, que, com todos os preconceitos que existiam, no início do século XIX, era preciso ter muito arrojo para posar para um artista e Hilda teve essa coragem. Durante um mês, Hilda Pulga posou duas horas por dia para que se concretizasse o busto…Foi obra!...

O busto oficial da República foi escolhido num concurso nacional promovido pela Câmara Municipal de Lisboa em 1911, do qual participaram nove escultores. É da autoria de Francisco dos Santos e está exposto na Câmara Municipal. Existe no entanto outro busto que foi adotado como o rosto da República, da autoria de José Simões de Almeida, embora tivesse ficado em segundo lugar no concurso, e criado em 1908.

Hilda Pulga foi a jovem, de carne e osso, que corporizou a República.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “Notícias da Covilhã”, de 17-02-2022)

E TUDO O VOTO LEVOU

 

Um vendaval de “surpresa” ocorreu nestas últimas eleições. A maioria absoluta do PS colocou o país qual Milagre das Rosas.

Fartos já de ouvirmos a palavra “polarização”, e outras mais do mesmo, como no início da democracia aquelas “amplas liberdades democráticas”, a resposta dos Portugueses não poderia ter sido melhor a penalizar aqueles que contribuíram para o desfecho destas eleições.

Nas desculpas esfarrapadas dos (ir)responsáveis pela situação que os próprios geraram, levaram grande parte do espaço da campanha eleitoral a bater no ex-primeiro ministro, ao não querer apresentar alterações ao orçamento chumbado, em vez de eleições, de que a ideia de António Costa era ter a maioria absoluta.

Acredito que CDU e BE jamais pensariam levar a direção deste caminho, e, logo após o chumbo do Orçamento de Estado, a fisionomia de Jerónimo de Sousa era bem evidente. “A dirigente bloquista passou a primeira metade da campanha a justificar a decisão da rejeição do Orçamento e a segunda metade a parecer querer pedir desculpa por tê-lo feito”, pelo que, nas palavras de Boaventura de Sousa Santos, coloca em dúvida a credibilidade daquela dirigente.

Agora, “O PS pode fazer o que quiser. Preparar as suas políticas e designar os seus protagonistas. A nada está obrigado, a não ser à lei e à democracia. À justiça e à honestidade”, segundo as palavras de António Barreto.

Estas não foram as primeiras eleições que decorreram em pandemia. No entanto, desta vez as circunstâncias foram diferentes, com um elevado número de infetados, bem como em isolamento profilático, que, previamente inscritos, puderam votar os que o desejaram fazer.

Com o trambolhão enorme da CDU e o BE (pena terem deixado de ter presença no Parlamento os históricos António Filipe e João Oliveira, que vão fazer falta no hemiciclo), o PS deixa de ter desculpas para protelar as reformas que se impõe realizar.

O mal de que vinha padecendo o CDS tornou-se de morte para a sua continuidade no novo Parlamento (ele, um dos fundadores da democracia), e já nem de partido de táxi passara a ser. Partidos de bicicleta, esses são agora o PAN e o LIVRE, com a eleição de um único deputado.

Pois é, o povo português gosta de estabilidade e já não vai à bola com o populismo que certas lideranças aproveitam para apregoar na estrada. No entanto, “convém entender que a nossa democracia já está amadurecida e há chicanas políticas que quem vota não perdoa. Logo a devido tempo lança a farpa para agir em legítima defesa”, na interpretação de José Albano, in A Guarda.

Não podemos esquecer a extrema-direita, com o CHEGA a alcandorar-se como terceira força política, a IL também em posição destacada, mas temos fé que o Povo Português saberá defender a democracia, o que leva António Barreto a dizer no seu artigo in Público, sob o título “Sem desculpas”: “O PCP e o Bloco, que liquidaram o atual Governo, foram derrotados, o que confirma a ideia de que Deus não dorme”.

Numa análise do Expresso, “Os mais ricos votam mais IL, mais Bloco e mais CDU mas menos Chega. Os mais pobres preferem o centro e penalizam os outros partidos. Onde há mais RSI, o Chega tem melhor resultado. Mas nos concelhos mais jovens o PSD é dos que mais perde”.

O chefe do novo governo terá que ter o entendimento do PSD para poder fazer grandes reformas uma vez que são necessários dois terços de deputados no Parlamento. Já sem as amarras do Bloco de Esquerda e do Partido Comunista, António Costa, nas suas inevitáveis dificuldades deste novo governo (que sempre irão existir) decerto tudo fará para utilizar bem a maioria absoluta a favor do crescimento e do desenvolvimento do País, esperando-se sem cedências a clientelas e amiguismos.

É que, conforme referiu Agustina Bessa-Luís, “O país não precisa de quem diga o que está errado: precisa de quem saiba o que está certo”.

E, assim, António Costa, dentro de quatro anos, poderá sonhar com Belém.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 16-02-2022)

19 de janeiro de 2022

2022 – DESEJAMOS UM NOVO TEMPO

 

Chegámos ao fim de mais um ano. Foram trezentos e sessenta e cinco dias. Muitas vezes nos pareciam ter o dobro do tempo. Noutras situações, paradoxalmente, as horas não eram suficientes para chegar a bom porto no cumprimento dos desafios que tínhamos pela frente. Quantas vezes tivemos que agarrar o touro pelos cornos.

A entrada no novo ano, se bem que deve ser encarada com expetativa, está, no entanto, rodeada de incertezas. Vejamos como já estávamos a caminho dum certo lenitivo da fase pandémica, e, dum momento para o outro, surge a variante Ómicron. Os internamentos nos cuidados intensivos são em grande parte de não vacinados. De quando em vez lá vejo na necrologia alguns dos teimosos negacionistas. Outros, chegaram ao arrependimento só quando se viram com as algemas da doença que não perdoa.

A principal incerteza coloca-se quanto ao fim da crise pandémica. Esperávamos um efeito da imunidade de grupo tudo se direcionando para o fim da pandemia quando surgem as novas variantes como a já referida. E não fica por aqui, pois nos últimos dias, conforme noticia o Público, têm surgido notícias e burburinho sobre uma variante do SARS-CoV-2 identificada em França, a B.1.640.2, com mais de 40 mutações genéticas. “Especialistas têm-se desdobrado a explicar que, por agora, não há motivos para alarmismos. É para se ir vigiando, tal como acontece com outras variantes do vírus.”  Inverteu-se assim a tendência e atrasou-se o regresso a uma melhoria da situação por que todos ansiamos, no caminho duma normalidade que jamais será como antes de finais de 2019.

Desejamos um novo tempo. Estamos cansados de “dar tempo ao tempo”, ou até mesmo, para os cotas como eu, de “matar o tempo”, que, aliás, não se me adapta, porquanto sou um fervoroso adepto do “a tempo e horas” e tudo fazer “em dois tempos”, não deixando de “ocupar o tempo”.

Muitas das minhas crónicas se têm assumido no espaço temporâneo de contextos da espuma dos dias. Mas, quantas vezes, “de tempos a tempos” caio na tentação, qual mania, de ir aos tempos de outrora.

Antes desta maldição da pandemia, que quase só da história conhecíamos, retirou-nos da fase em que tudo era “a seu tempo” e que nos tempos que correm se tornou impensável. Como refere Sandra Marques, in Vida Económica, “Quase tudo é frenético, instantâneo, apressado, irrefletido e volátil, porque não temos tempo a perder”.

Foi repentina a transformação verificada, e inesperada, nas nossas vidas, com a amálgama de notícias em que nos vão surgindo aquelas que parecem boas e são más, e outras más que podem ser excelentes.

As expetativas para 2022 colocam-se de imediato no plano político, com as eleições de 30 de janeiro. Espera-se que as legislativas clarifiquem a situação política e permitam criar um governo estável.

De facto, ao estarmos a atravessar uma quinta vaga da pandemia, com os impactos e a incerteza que disso resulta, quiseram os senhores parlamentares mergulhar-nos numa crise política e em eleições antecipadas, “por simples recreio e regozijo da esquerda mais radical, daquela que quer fazer a revolução na rua, com sangue e dor, mas que o Governo de António Costa escolheu como predileta para acordos, e que alguns dos mais jacobinos no seu partido querem manter como prioridade para futuro”, nas palavras do Jurista e Gestor, Paulo Vaz.

É por isso que, reportando-nos ao tempo, na miscelânea de opiniões, têm cabimento os advérbios “sempre” e “nunca”, cedências ao tempo.

Com a expetativa de arranque simultâneo do PRR e do próximo quadro comunitário que em conjunto representam o volume mais elevado de recursos financeiros para apoio ao investimento público e privado, desejamos que este seja um novo tempo.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 19-01-2022)

12 de janeiro de 2022

A SEDUTORA NEVE

 

Foi na poesia de Augusto Gil que, na Guarda, onde passou a maior parte da sua vida e morreu – a “sagrada Beira” – se inspirou em 1909 para “A Balada de Neve”.

“Batem leve, levemente, /como quem chama por mim. /Será chuva? Será gente? / Gente não é, certamente / e a chuva não bate assim. (…) Fui ver. A neve caía / do azul cinzento do céu, / branca e leve, branca e fria… / - Há quanto tempo a não via! / E que saudades, Deus meu!”

A Serra da Estrela – montanha rainha do continente português, onde os covilhanenses se dispersam pela sua encosta e faldas, é a atração dos turistas nacionais e estrangeiros, mormente quando os flocos brancos e leves dão a alegria para quem visita esta cidade cosmopolita.

No domingo, 2 de janeiro, dei um salto às Penhas da Saúde, para acompanhar a família, e, na falta de neve nos caminhos da Estrela, estivemos no pavilhão “Serra da Estrela-Ice Arena”, ali instalado pela FDI-Portugal-Federação de Desportos de Inverno de Portugal, onde crianças, jovens e alguns adultos, ali se divertiram. Saudades da neve.

O mítico Café Martinho da Arcada, em Lisboa, “o café que se cruzou com a História”, completou 240 anos no dia 7 de janeiro. Este emblemático e mais duradouro café lisboeta tem grandes memórias. Apesar de ter aberto ao público em 1782, só quase 50 anos mais tarde o café viria a adquirir o nome que mantém ao dia de hoje. A sua fundação deve-se a Julião Pereira de Castro, neveiro-mor do reino, que inaugurou com pompa uma Casa da Neve – local onde se podia tomar refrescos e comer gelados graças aos blocos de neve trazidos propositadamente da Serra da Estrela para a corte.

Hoje, quando queremos alimentos frescos, congelados ou cubos de gelo, basta recorrer ao congelador do nosso frigorífico. Mas, até finais do século XIX, isso era difícil e caro. Produzir e trazer “neve”, ou, mais propriamente, blocos de gelo, da Serra da Estrela até Lisboa foi uma atividade iniciada em 1614 e que se prolongou até aos finais do século XIX, extinguindo-se com o aparecimento das fábricas de gelo industrial.  Foi o rei Filipe II de Portugal, que, estando com a corte em Lisboa, seguindo uma prática já usual na corte espanhola, pediu que produzissem neve (gelo) na Serra da Estrela e a trouxessem para Lisboa no verão, para ele a desfrutar em bebidas frescas e gelados. Foi então criada a figura de neveiro-mor (normalmente um fidalgo). Este estaria encarregue de fornecer diariamente entre 30 e 40 arrobas de neve à corte desde o primeiro dia de maio até ao último de outubro.

Segundo o Público, a neve era recolhida no inverno na Serra da Estrela e depositada em geleiras, poços profundos em zonas sombrias, compactada e coberta com palha, tornando-se gelo. No verão, os blocos de gelo eram recolhidos e cortados, geralmente no Covão da Ametade. Envoltos em serapilheiras e cobertos com palha, seguiam por carroças, burros e cavalo até ao Zêzere, se o caudal do rio o permitisse e, depois de Constança, pelo Tejo até à capital. Porém, o mais normal era a rota ser por terra até Vila Velha de Ródão e a partir daí por barco, pelo Tejo, até Lisboa. Aí era conservada em vários poços, como o do Martinho das Neves, hoje o Martinho da Arcada. Aqui, onde existia outrora um dos poços reais de conservação do gelo, anunciava-se a chegada da neve à capital com pregões, bombo e trombeta, sendo recebidos pelo rei.

Já José Mendes dos Santos, na sua Breve História Cronológica da Covilhã, nos narra que foi em 10 de abril de 1619, no reinado de Filipe II, que a Câmara de Lisboa fez contrato com Paulo Domingues, oficial de neveiro, que consistia em levar para a capital 96 arrobas de neve da Serra da Estrela para o fornecimento diário entre 1 de junho a 30 de setembro. A neve retirada da serra, ia em carros até à Barquinha, e daí em barcos até Lisboa. Mal chegava à cidade, era guardada em poços, havendo um junto ao Convento da Graça e outro no Castelo de S. Jorge. Em 1714 já se vendiam sorvetes de vários gostos e preços sendo o de limão o mais barato.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “Notícias da Covilhã”, de 13-01-2022)

30 de dezembro de 2021

CONTE-NOS A SUA HISTÓRIA HUMBERTO NUNES DA CRUZ





 

Trazemos desta vez a história de um Antigo Combatente, por terras angolanas, covilhanense de coração, ainda que de raiz visse a luz do dia em Oliveira do Hospital, no dia 31 de julho de 1944. Na Covilhã, onde se radicou definitivamente, há 75 anos, conheceu os seus melhores dias. Fez a Primária na velhinha Escola Central, passando depois a exercer a sua atividade profissional na indústria local – os lanifícios – como tecelão mecânico, nas empresas Jerónimo Sena, Lanofabril e Cristiano Cabral Nunes.

Pessoa dotada de um bom coração, simpático e amigo do seu amigo, pronto a ajudar, foi conhecido no futebol local por ter representado o Sporting Clube da Covilhã (SCC), tendo iniciado logo nos juniores, aos 16 anos. Ainda foi sénior nos Leões da Serra em 1970, representando depois o Grupo Desportivo da Guarda onde foi campeão da III Divisão, no ano 1971.

Depois de ter terminado a sua passagem pelos juniores do SCC, surgiu-lhe o serviço militar obrigatório, que cumpriu com início em 02 de fevereiro de 1965, tirando a recruta em Elvas e, depois, na mesma cidade, no Caçadores 8, seguindo daqui para o Entroncamento para a especialidade CDMN, que se destinava ao reabastecimento de material auto. Aqui foi promovido a 1º. Cabo. Recebeu a notícia da sua mobilização para Angola, tendo-se apresentado no Regimento de Infantaria 1, na Amadora, onde esteve apenas 2 dias, pois logo lhe concederam 10 dias de mobilização, com guia de marcha para se apresentar no RI 11, em Setúbal. Aqui deram-lhe 750$00. Curiosidade: com este dinheiro comprou um fio em ouro, com duas medalhas, a um camarada ourives, de Febres.

De Setúbal partiu com os seus camaradas, às 3 horas da manhã do dia 17 de setembro de 1965 integrando o Batalhão de Caçadores 1855, tendo embarcado em Alcântara, no Vera Cruz, era meio-dia, tendo aqui recebido um maço de tabaco oferecido pela Cruz Vermelha Portuguesa. Chegaram a Luanda no dia 26 de setembro, em direção ao Grafanil, onde lhes foi distribuída a arma, após 8 dias.

É então que surge o tempo mais difícil, partindo em direção a Nambuangongo onde permaneceram até perto do dia de Natal de 1965, e Novo Ano de 1966, em cujas datas confraternizaram tanto quanto lhes foi possível em condições de guerra, com o Comandante e restante hierarquia militar local. Tinha a seu cargo o material auto CCS – Companhia de Comando e Serviço do Batalhão de Caçadores 1855, a sua especialidade. Seguiram depois para Luanda, cerca do dia 20 de dezembro de 1966, e no dia 23 deste mês, pertíssimo de mais um Natal em Angola em guerra, seguiram de comboio para Malange, cuja viagem, num amontoado de militares, durou 12 horas, já que era necessária uma máquina ir à frente para a eventualidade do rebentamento de alguma mina. Chegaram a Malange na véspera de Natal daquele dezembro de 1966. Pois bem, o dia de Natal foi passado dentro do comboio, sem qualquer óbvia comemoração, pois “ia tudo ao monte”. Igualmente se passou no Ano Novo. Em Malange tinha o serviço de PU (Polícia da Unidade). Nesta cidade representou o Sporting Clube de Malange porque o viram jogar em Nambuangongo, nos jogos particulares e necessitavam de um bom elemento para o clube, pelo que foi convidado pelo Comandante da Companhia. No entanto, também aqui encontrou um covilhanense – Matos Soares – estabelecido com uma escola de condução, que gerou com o Humberto Cruz um contacto amistoso com o seu conterrâneo, tendo-lhe pedido para lá ficar a viver, o que não foi da vontade do Humberto.

Um momento terrível na memória do nosso entrevistado, foi o dia 8 de agosto de 1966. Narra assim: “Quando andávamos entretidos a jogar a bola, o capitão mandou formar porque precisava de dez homens para irem à lenha. Apenas levariam 3 armas e sem a ajuda de rádio. Ia nesse grupo o covilhanense, Furriel Malaca, já falecido, que fora debuxador no Mosa. Os 3 soldados que levavam as G3 ficaram a fazer guarda aos que carregavam a lenha. Quando acabaram de carregar as duas Berliets, com o Furriel Malaca foram ver dos 3 soldados que lhes estavam a fazer escolta. Foi com terrível espanto que encontraram dois deles mortos, degolados, e já sem as armas. O outro conseguiu escapar e nem deu conta da morte dos seus camaradas, face ao local estratégico onde se encontraria. Ficaram assim com uma única arma para se poderem defender em caso de ataque.

Quando depararam com este desfecho, surgiram dois Jeeps militares que vinham buscar o correio a Nambuangongo, onde vinha também o covilhanense Rui Velha”.

E, assim, os dois carros com a lenha, o Jeep onde vinha o Humberto Cruz e as duas Berliets trouxeram os dois soldados mortos e recolheram a Nambuangongo.

Esta é uma das muitas histórias de guerra por que passou o camarada Humberto Cruz.

De menos mau, por vezes iam ver os paraquedas que traziam peixe e carne às 3ªs  e 6ªs feiras, onde também vinha o correio, e que rebentavam, aproveitando o que pudessem apanhar.

E assim, depois de ter permanecido em Malange, desde dezembro de 1966, no dia 7 de dezembro de 1967 tiveram uma passagem de 4 dias no Grafanil, donde embarcaram no dia 11, no Niassa, chegando à Metrópole no dia 23 de dezembro de 1967. Foi então o Natal já em liberdade e fora de perigo, na Covilhã.

(In "O Combatente da Estrela", nº. 125-DEZ/2021)

29 de dezembro de 2021

O FIM DO IMPÉRIO NOS SEUS 60 ANOS

 

Aproxima-se mais um Natal e um final de ano e, consequentemente, muitas memórias ficaram entre nós. Delas sobejam reminiscências, se entre a angústia, a ansiedade, o medo, a revolta, tiveram maior peso nas duas primeiras décadas deste período, também a nostalgia, os momentos mais confortáveis, o lenitivo do afastamento da perigosidade, e o regresso ao seio familiar foram aquele bálsamo para muitos dos nossos Antigos Combatentes.

Mas como não há bela sem senão, muitos deles, que tiveram a dita de regressarem incólumes, não se livraram de padecer do stress pós-traumático. É vê-los a aguardarem pela sua vez para as consultas das psicólogas nos Núcleos das Ligas dos Combatentes, como recentemente assisti no Núcleo da Covilhã.

Reporto-me evidentemente ao tempo por que passaram os Antigos Combatentes, na referência à Guerra Colonial, já que os tempos da Primeira Grande Guerra foram já objeto de comemorações dessa efeméride. E já nenhum participante nesse conflito mundial está no mundo dos vivos.

A pandemia veio agravar a situação por que alguns ainda padecem e só tardiamente surgiu o Estatuto do Antigo Combatente, entrado em vigor em 1 de setembro de 2020, e agora com o acesso ao Passe do Antigo Combatente no âmbito da Portaria n.º 198/2021, de 21 de setembro.

Das resmas de informação que fiz cair na minha secretária, torna-se difícil extrair dela tantos rasgos sentimentais, gritos de revolta, pendores de regeneração, pela dificuldade de uma seleção.

Aqui reporto algumas:

O 1º. Dia do Fim do Império – Texto de Felícia Cabrita, in Revista Expresso de 14-03-1998

“A 15 de março de 1961, em Angola, bandos armados da UPA destruíram fazendas e vilas e assassinaram dois mil colonos portugueses. Foi o início de uma tragédia imensa, que abriu caminho para 14 anos de guerra. A Índia já havia caído. E era preciso defender África”.

Pesadelos da guerra colonial – Crónica de Carlos Esperança

“Quem regressou da guerra colonial, desejou esquecê-la, e não pôde. Saímos da guerra, e a guerra não saiu de nós, pelos mortos que lá deixámos e estropiados que trouxemos, torturantes recordações de anos injustos e inúteis.

Por menos traumática que possa ter sido a guerra, nunca mais se esquecem as rugas dos pais que nos aguardaram, a ansiedade que viveram e a angústia pelos perigos, reais ou imaginários, a que nos julgaram expostos. (…) A sobrevivência, mesmo sem mazelas aparentes, acarreta feridas que nunca cicatrizam, memórias doridas, inquietações que regressam, angústias que persistem. Ninguém faz a catarse de tão longo tempo e tão penetrante sofrimento, ninguém conta tudo o que viu e grande parte do que soube (…)”.

Para além da noite – Crónica no Facebook de Francisco de Pina Queiroz

“…Mas… antes do seu efeito, aflora no doente o pensamento interrogativo: e para além da noite, como será o dia de amanhã? Frase de revolta para quem justa ou injustamente dorme em celas prisionais, por decisão da justiça oficial. Revolta por ali estar. Revolta de arrependimento pelo motivo afinal justo da sentença. Revolta por uma tirania castradora da Liberdade, dos atos e dos pensamentos em sua defesa: poemas, romances, manifestos, esculturas, pinturas ou até conversas num café. Frase de ansiedade, de aperto na garganta, de suores frios apesar do calor da Mãe África, para militares do exército regular, de guerrilheiros e para a população que está para a guerra subversiva como a água está para os peixes – como Che Guevara nos ensinou nos seus Textos Militares. Sim, nós os ex-combatentes, em noites incontáveis de agora, ainda nos lembramos e/ou sonhamos e revisitamos psíquica e fisicamente a ansiedade derivada do que virá para além da noite. O que nos esperará nos primeiros raios de Sol: pisar uma mina, emboscada? (…)”

A vida que não se esquece – Ainda os Combatentes da guerra do Ultramar – João Peres, in “O Olhanense”

“… Os sobreviventes da guerra do Ultramar estão entre os sexagenários e octogenários da população portuguesa. Por ironia do destino, o Estado Totalitário que governou Portugal, preferiu enviar carne para canhão, como eram designados os militares da altura, para uma guerra absurda, interminável, que obrigou centenas de milhares de moços ainda, a aprenderem a manejar uma arma, no princípio a Mauser e depois a G-3 para a utilizarem nas horas más, a deixarem para trás à medida que o navio se afastava do cais de Alcântara, a terra natal, estudos, profissão, família e amigos, a enveredar pela negociação pacífica. Já em território africano, a temperatura, a malária, as minas nas picadas, os aquartelamentos e destacamentos em instalações abandonadas nas fazendas ou feitas à custa do suor do soldado, eram elementos de um inferno que viviam de dia em patrulhamentos, à noite sujeitos a flagelação com granadas de morteiro e canhão-sem-recuo que não os deixavam repousar. (…) Dois anos depois, torrados do sol, magros, depressivos, voltavam às suas terras como estranhos, exceto a família que os ajudava a reintegrarem-se na vida civil, que por imposição deixaram. (…) Houve casos em que a bolsa abastada, como se dizia, comprou ao mais pobre a mobilização e ficou cá a cumprir o serviço militar, enquanto o outro arriscava a vida para deixar uns cobres à família necessitada. Outros conseguiram desertar, refugiando-se em países onde tinham contactos de amigos e familiares. Quantos viram o camarada de armas ser atingido ou projetado pelo sopro de uma mina, ouviram das suas bocas chamar pela mãe ou pela mulher ausentes no outro lado do Atlântico, seguravam-lhe na mão até ser evacuado ou fechar os olhos para sempre. O desprezo a que foram votados não tem explicação. A crise de stress pós-traumático foi vivida no seio das famílias, porque lhes negaram, durante décadas, a ajuda médica que precisavam. (…) Na atualidade estão a morrer, cada vez mais, e dentro de pouco mais de uma década, não haverá sobreviventes deste conflito. Aprovaram, recentemente, o estatuto do antigo combatente elaborado por políticos jovens que já nasceram em democracia e não viveram, nem sentiram este drama nacional.”

Aproximamo-nos do Natal e de um Novo Ano, pelo que convido a lerem atentamente, neste número, a história de um dos nossos Antigos Combatentes deste Núcleo da Covilhã, na pessoa de Humberto Nunes da Cruz, na forma como passou os Natais em Angola em tempo de guerra.

Por último, não podemos deixar de endereçar um grande abraço de parabéns ao Diretor desta publicação e Presidente do Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes, João Cruz Azevedo, que a exerce desde 1986 (trinca e cinco anos! É obra!) e foi um dos fundadores de “O Combatente da Estrela”, pela concessão da Medalha de Honra ao Mérito – Grau Ouro, pelos anos dedicados à Liga dos Combatentes, condecoração atribuída pela Liga dos Combatentes, ocorrida no dia 11 de novembro deste ano, no Dia do Armistício, no Museu do Combatente, em Lisboa. Aqui a apresentamos.

Desejamos a TODOS os que integram o mundo do nosso Núcleo, e seus Familiares, Gente da nossa Gente, os maiores votos de um Feliz Natal e próspero ANO NOVO.

(In "O Combatente da Estrela", nº. 125-DEZ.2021)

15 de dezembro de 2021

GRANDE MÉRITO DA CASA DA COVILHÃ EM LISBOA

 

A Covilhã tem a felicidade de ter uma instituição na capital bem representativa daquela que é a cidade dos lanifícios e universitária, das faldas da Serra da Estrela.

Muitos dos Covilhanenses, sejam de raiz ou de coração, radicados em Lisboa ou concelhos da proximidade, ali confraternizam semanalmente, com orgulho da sua Terra. Do outro lado, quem viaja da Covilhã e visita esta instituição, sente a alegria no encontro de velhas amizades que os quilómetros de distância não permitem que se encurtem estes tempos de vivência.

E isto porque, quando nos encontramos fora da nossa Terra por nos termos radicado noutro lugar, por circunstâncias várias, sendo que uma das principais razões são a atividade profissional, e, outras, a vida familiar ou a conjugação de ambas, vamos sempre de encontro à nostalgia.

No caso inverso, também é salutar os que, não largando o seu torrão natal, sentem uma vontade indómita para matar saudades de amigos de longa data, colegas ou familiares, quantos deles com décadas de ausência.

Tem a cidade laneira e universitária da Beira Interior, porta principal para a Serra da Estrela, a felicidade de ter na capital uma casa com o nome da Covilhã, a pouco mais de três anos para o seu centenário. De Grémio Covilhanense como se iniciou em 1924, passou a designar-se Casa da Covilhã em 28 de outubro de 1939.

A sua sede na Rua do Benformoso, 150-1º tem sido, de há muito, palco de encontro de muitos Covilhanenses, para ao redor do degustar os almoços das terças-feiras e outras datas de eventos assinalados, surgirem as conversas de memórias dos presentes e sobre muitos dos ausentes. Reminiscências e questões opinativas, para além do que é a vivência atual, com a Universidade da Beira Interior, o Centro Hospitalar Universitário da Cova da Beira, o novo Teatro Municipal, Museus e novas obras, ainda as memórias da Escola Industrial e do Liceu, da antiga Biblioteca Municipal, das gentes covilhanenses de hoje e de outrora e das publicações que existem na Cidade, recebidas com agrado na Casa da Covilhã, antídoto ao esquecimento quando os patrícios pretendem que seja dado a conhecer o que se passa nesta instituição covilhanense na Capital.

Algumas que defendem o Interior e se revoltam do ostracismo a que o mesmo é votado, esquecem-se que estão a fazer o mesmo à Casa da Covilhã.

Não há almoços que não sejam com produtos oriundos da Covilhã, não há recordações importantes que não sejam da Covilhã e ali são expostas.

A cultura é um vetor que define também esta nossa Casa em Lisboa, com eventos como o fado, à realização de réplicas de feiras ancestrais da Covilhã, como a de S. Miguel, ao amor aos livros, com o convite de autores covilhanenses para apresentação das suas obras, ao acarinhar do Sporting da Covilhã, e a tudo o que, de alguma forma, tenha o sentir da Terra que é da Gente das nossas Gentes.

Neste cambiante de opiniões, de atividades programadas e a programar, ainda que, de quando em vez, como em qualquer ação dinâmica, possam surgir ventos e marés, há sempre a alma do Covilhanense a gritar mais alto para que o barco prossiga por águas navegáveis.

Depois de há uns tempos atrás a Casa da Covilhã ter passado por um período menos bom, por escassez de braços para prosseguir com as árduas tarefas de manter uma Casa acolhedora, nas últimas décadas covilhanenses da rija têmpera de Viriato pegaram na mesma e ei-la aí, de vento em popa, a dar alegria a quem a visita, com a permanência de casa repleta, ou muito perto disso, às terças-feiras para os almoços convívio.

Estivemos lá no dia 9 de novembro. Éramos ao todo 47 elementos, que, por coincidência correspondiam, em número, aos 47 fundadores da Casa da Covilhã em 1924. Para além do almoço, sorteiro de um livro com o autor covilhanense presente, e também do jovem covilhanense Manuel Ramos, de 19 anos, que esperamos possa vir a ser selecionado para participar nos Jogos Olímpicos de Pequim, na modalidade de esqui alpino. Do comboio para lá foram alguns produtos da Covilhã que no mesmo dia puderem ser cozinhados e consumidos.

É de louvar a Direção atual, liderado pelo Manuel Vaz Rodrigues, e também a médica fadista covilhanense, Daniela Runa, como outros entusiastas covilhanenses, o António Chorão, o Zé Ascensão Rodrigues, o Elói, o Pedro Freire, e a alma das gentes que se deslocam da Covilhã – o delegado regional João Romano – que não deixam ficar por mãos alheias um trabalho de excelência, independentemente da grave pandemia Covid 19 que nos tem assolado.

Não queremos terminar sem felicitar a equipa do Jornal fórum Covilhã pelo seu 10º aniversário, num trabalho conseguido em prol da liberdade de informação, num pluralismo de ideias, direcionados para o bom jornalismo.

Sendo esta a última crónica deste ano, desejamos aos prezados Leitores, Familiares e Amigos, sem esquecer todos os Obreiros deste Jornal, um Santo Natal e um Feliz Ano Novo.

(In "Jornal Fórum Covilhã", de 15-12-2021)

9 de dezembro de 2021

MAIS UM NATAL


 

Felizmente para muitos de nós, viventes, podemos expressar-nos na palavra em título. Outros, porém, que também o desejariam, e sem que contassem com os novos males deste primeiro quarto do século XXI, precocemente deixarem o mundo dos vivos. Viverão agora noutra vida, além-túmulo, para os crentes, mas aqui com as suas memórias desta efémera passagem planetária.



Os nossos familiares e amigos são os que constam desta listagem de saudade.

Mas como a vida continua, independentemente de prós e contras, teremos que, tanto quanto possível, prosseguir no ambiente social, que tanta falta nos fez durante o primeiro rigoroso confinamento.

Dois dias antes de escrever estas linhas, deleitei-me num desses encontros de amigos, que a pandemia fez recuar, onde a D. Purificação, de 100 anos, beirã mas radicada em Lisboa, com uma vida que também foi de emigrante, fazia-nos aquela inveja positiva, caminhando sozinha, comendo todas as refeições, onde não faltava o cafezinho com o “cheirinho…”. Filha e genro que a tratam carinhosamente, nos narram que diariamente tem que ler o jornal. E gosta de acompanhar as conversas. Numa foto que lhe tirei dum grupo onde estava inserida, referiu que vissem que ela era a que estava mais fotogénica… Hilaridade óbvia entre o grupo.

Para as bandas do Tortosendo, em ambiente de grande amizade, com aquela Figura que um dia me disse, após ter terminado a minha vida profissional e ter rumado para outro ciclo de vida – “Enquanto você quiser, manteremos este ‘nosso dia’” – vai a amizade entre vários amigos com uma Couvada do Natal, com produtos regionais, como antigamente, selecionados pelo Pedro, de São Jorge da Beira.

E, para que não sejam olvidados os Covilhanenses radicados em Lisboa, e que brilhantemente honram a sua Terra, na liderança da Casa da Covilhã, são os seus pontos de reunião, nos almoços das 3ªs feiras, que enchem o espaço, onde não falta a distração e a cultura, num enlaçar de amizades. Produtos e objetos expostos, tudo se reporta à cidade laneira. E tão pouco têm sido dados a conhecer os seus eventos, a não ser nas redes sociais. São Covilhanenses com o corpo na Capital mas que têm o espírito na Covilhã. Liderada pelo Manuel Vaz Rodrigues, tem na Daniela Runa, médica e fadista, como vice-presidente e outros valorosos covilhanenses como o delegado regional, João Romano, o António Chorão, o Elói, o José Assunção Rodrigues, o Pedro Freire, e outros mais, um forte baluarte na representatividade desta Instituição covilhanense na Capital, de elevado prestígio.

É desta forma que deixo a última crónica deste ano, no prestigiado semanário Notícias da Covilhã, memórias do tempo de Natal, procurando assim afastar os nefastos tempos pandémicos por que ainda estamos passando em mais um Natal.

Votos de um Santo Natal e Feliz Ano Novo, para todos os prezados Leitores, e para os que fazem com que o Notícias da Covilhã continue a chegar semanalmente até nós, e seus Familiares.


(In "Notícias da Covilhã", de 09-12-2021)

17 de novembro de 2021

QUO VADIS, ESQUERDA! DIREITA! VOLVER!?

 

Ainda faltam quatro anos e quase dois meses para completarmos o primeiro quarto do século XXI. Ele que começou mal em todo o mundo. Memórias terríveis certamente em muitos habitantes deste planeta.

No meio deste mar de problemas, Portugal foi poupado a muitas desgraças, como o terrorismo. Tivemos também a nossa quota-parte nas contrariedades. Para além de incêndios florestais como nunca se tinham visto, foram duas décadas de fraco crescimento económico, partilhando, com excesso, as crises financeiras e de austeridade. Conhecemos o maior embuste financeiro da história deste país.

Mas viria a surgir o “milagre” económico português com Mário Centeno, ministro das Finanças, a colocar o nosso País a crescer acima da média europeia nos últimos anos, com o défice público reduzido a mínimos, a superar 2014 com 7% do PIB e a fechar 2018 em apenas 0,4%. O reconhecimento internacional é indubitável, com as três principais agências de classificação a retirarem o país do nível “lixo”. Foi o homem que chegou a um partido que fora corrido do poder por causa de uma bancarrota, e que enquanto estava na oposição atacava “a obsessão do défice” dos outros, mas que, regressado ao Governo, chegou ao ponto de espalhar pelo país cartazes que celebravam “o défice mais baixo da história da democracia” e de exultar com o primeiro superavit do regime.

A pandemia, entretanto, veio manchar este desanuviar económico do país que, tal como por quase toda a Europa, viria a ver uma luz sorrir com a anunciada “bazuca” europeia, por via do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).

Assim, a crónica de Vasco Pulido Valente, sob o título “A geringonça”, datada de 31 de agosto de 2014, publicada no Público, aplicada com o sentido depreciativo ao PS de António José Seguro, viria com este termo a ganhar, nacional e internacionalmente, um sentido positivo e elogioso. Neste paradoxo, a aliança parlamentar estabelecida entre o líder do PS, António Costa, e o BE, o PCP e o PEV, permitir-lhe-ia governar até ao chumbo do orçamento no passado dia 27 de outubro.

Com a insólita, ou talvez não, não aprovação do Orçamento de Estado para 2022, e consequente dissolução da Assembleia da República e marcação de eleições antecipadas, surgem muitas análises, muitos comentários, sendo certo que o Partido Comunista, acusado de ter alinhado ao lado da direita, consequentemente ao lado do CHEGA, direita radical, “vai pagar caríssimo”, na opinião do sociólogo António Barreto. “O voto contra, ao lado da direita, é dizer que a direita tem razão quando quer cortar salários”. Já António Costa antevê uma vitória de Pirro para a direita.

Com o Presidente da República no seu labirinto a tentar encontrar uma solução e a esquerda a mostrar receios, com a evidente fisionomia de Jerónimo de Sousa na sua expressão recordando que “nada obriga” à dissolução do Parlamento, naquele provérbio de “burro morto, cevada ao rabo”, também com a entrevista de Vasco Cardoso, membro da comissão política do PCP, dada a Rosália Amorim, diretora do Diário de Notícias conjuntamente com Pedro Cruz, da TSF, foi direcionada no mesmo sentido. Os receios persistem.

Já a direita também não está melhor, com a luta interna para a liderança das forças do CDS-PP e do PSD, com os protagonistas Francisco Rodrigues dos Santos e Nuno Melo, pela banda do CDS; e Rui Rio e Paulo Rangel, nas hostes do PSD.

Vamos ver se esta embrulhada em que os partidos da esquerda se quiseram envolver contra o Governo, não lhes vai resultar “num tiro a sair pela culatra”.

Jorge Almeida Fernandes, in Público, sobre a inesperada rutura da “geringonça”, mas que também não pode ser considerada uma surpresa, analisa o PCP na pessoa de Jerónimo de Sousa como “os restos do muro de Berlim que voltaram a erguer-se” e que o PCP regressa ao estilo tribunício.

Nesta conduta algo inédita, a posicionarem-se para a fotografia, orgulhosas, tanto a esquerda à esquerda do PS, como a direita, com honrosas exceções para o PAN e as duas deputadas não inscritas, vamos ver se não vai resultar numa hecatombe política sobre aquelas forças.

E, depois já não vale a pena chorar sobre o leite derramado. Sim, Quo Vadis, Esquerda! Direita! Volver!?

(In "Jornal fórum Covilhã", de 17-11-2021)

3 de novembro de 2021

A EXEMPLO DE DRAGHI

 

Estamo-nos aproximando da porta de entrada daquele período do ano próprio da gripe sazonal. Dos costumes, a precaução. Corpo mais agasalhado. Evitar contágios. Os mais idosos, alguns, aceitam vacinar-se. Não querem o estado mórbido desta gripe. Houve os anos precedentes à atual pandemia. Muitos foram os que rejeitaram vacinar-se. Nas suas mentes, o perigo iminente de uma situação muito grave não se faria sentir. Chazinho quente com a medicação apropriada resolviam o problema. Podiam solucionar, ou talvez não, no imediato. Mas veio a Covid-19. A caminho de dois anos com o nome pomposo de Coronavírus SARS-COV-2. O resultado é sobejamente conhecido do cosmopolitismo. A dita cuja não abranda. Parecia que sim. Vai-nos enganando. Com outros cambiantes na sua rota devastadora. Os descrentes da gripe sazonal convertem-se. Querem agora a ditosa picadela. Não vá o diabo tecê-las. É melhor prevenir que remediar. Os provérbios continuam na sua sapiência ancestral.

Confinamentos obrigatórios por toda essa Europa e Mundo fora. Cercas e cordões sanitários. Também por cá, na Lusa Pátria tal se passou. Entretanto, se ia aliviando por alguns tempos, logo surgiam aqui e acolá, alguns surtos. Muitos surtos pandémicos.

Procurava-se não haver desânimo. O deserto era intenso e imenso. Começava a haver a nostalgia de outros tempos. Afinal, até aqui éramos felizes sem o saber! Nem nos passava pela cabeça o que contaram os nossos avós. Aqueles do início do século XX. As pandemias dos seus tempos. Para já não se falar da história da humanidade. Vivíamos agora uma nova pandemia, com várias vagas. Que saturação!

Só se resolve quando for criada uma vacina! Mas ela surgiu. Foram, aliás, várias em tempo record. Continuava a contagem de infetados pelo novo Coronavírus. Também de doentes internados nos cuidados intensivos e das mortes. Leva-nos para uma situação assustadora.

Um pequeno lenitivo surge em Portugal.  Ao atingir-se a fase de imunidade à Covid 19, com o vice-almirante Henrique Gouveia e Melo a dar por terminada a missão da Task Force do Plano de vacinação contra a Covid-19. Era já 85% da população vacinada.

Mas há os resistentes que não pretendem o desiderato da generalidade dos portugueses. São os negacionistas. Nem a verem a morte à frente dos olhos acreditam! Nem com o impacto dantesco que houve noutros países, como a Itália.

 A vacinação contra a Covid-19 é voluntária. Apenas é vacinado quem o deseja.

Os casos provocados por este Coronavírus persistem. A pandemia por COVID-19 ainda não está dominada. A vacina continua a ser a principal solução para tentar limitar o número de mortos e internamentos.  Nos EUA os hospitais estão sobrecarregados por surtos graves da variante delta. Os seguros americanos têm vindo a adaptar-se ao estado da pandemia. Sustentam o tratamento das doenças, incluindo as hospitalizações. Ser hospitalizado por causa da COVID-19 nos EUA fica caro. Nesse sentido, alguns hospitais estão a apresentar contas diferentes aos infetados. Os que têm ou não seguro. Há seguros que excluem simplesmente estados de pandemia. Evitam-se aumentos do seguro ou pagamentos diretos ao hospital. As pessoas são incentivadas a vacinarem-se.

A Itália passa a exigir passaporte sanitário a todos os trabalhadores. Medida aplica-se ao público e ao privado. Quem não exibir o passaporte sanitário fica impedido de aceder ao seu local de trabalho. Ou arrisca-se a pesadas multas. Determinação do primeiro-ministro, Mario Draghi. Acontece a partir de 15 de outubro. São consideradas ausências injustificadas, incluindo-se nelas  os feriados ou de descanso semanal. E isto apesar de estar excluída a hipótese de despedimento pelo facto de não possuírem passaporte sanitário.

Por que não adotar esta conduta também em Portugal?

Estamos na semana em que se sabe que uma nova subvariante da Delta, a AY.4.2, está a ter grande impacto epidemiológico. Leva alguns países de novo ao confinamento. A diretora-geral da Saúde, Graça Freitas tem uma entrevista ao Diário de Notícias. Do ponto de vista do vírus, “ainda há para saber e em aberto”. As medidas de proteção individual continuam a ser fundamentais. No Plano Referencial Outono-Inverno 2021-2022 estão previstos três cenários. “O primeiro é o que vivemos, perfeitamente estável. O segundo é aquele em que a efetividade da vacina começa a cair. Haverá necessidade de fazer reforços para aumentar a proteção da população. É o que estamos a fazer agora com os maiores de 65 anos.  O terceiro, o pior, é aquele em que apareceria uma nova variante. Mais agressiva. Com capacidade para escapar ao nosso sistema imunitário. Estas três realidades têm que estar sempre presentes até que o vírus termine o seu percurso entre nós.”

Vamos todos ser responsáveis. Não só para nosso bem como também para os que nos rodeiam.

(In "Notícias da Covilhã", de 04-11-2021)


A HISTÓRIA DO CASAL DE VELHINHOS SEQUESTRADOS PELA NEVE

 

Devagar, devagarinho, vamos caminhando por este outono fora, até que chegará o tal tempo de invernia, que poderá já não ser como noutros tempos, mas agora com as cautelas julgadas mais que necessárias neste tempo pandémico. Que não dá azos de abrandar.

Corria o mês de fevereiro do ano da graça de 1900, último ano do século XIX. Estávamos no alvor do surgimento das Conferências de São Vicente de Paulo também na Covilhã.  Para dar voz àqueles que mais necessitavam. Na Diocese da Guarda havia na cidade a única Conferência com o nome de S. Luís Gonzaga, fundada nove anos antes (01/12/1891) que lutava com grande dificuldade apesar da esmola superior a 400$00 com que o Prelado a contemplava. Tinha esta Conferência vários sacerdotes como seus membros, entre os quais o anterior bispo, D. Tomaz Gomes de Almeida. De qualquer modo, o bispo D. Manuel Vieira de Matos, também considerando indispensável a ação da Sociedade de S. Vicente de Paulo, ajudou a levantar a Conferência da Guarda que entrara em grande declínio.

Volvidos oito anos, é na Covilhã que começa a força impulsionadora vicentina – um pouco tardia é verdade, mas que com a sua vontade indómita viria a superar todas as da Diocese.

A primeira Conferência Vicentina na cidade dos lanifícios foi fundada na Igreja de Santa Maria Maior, sob a invocação de Nossa Senhora de Lourdes, em 12 de novembro de 1899. Foi eleito presidente o Dr. José Thomaz Mendes Megre Restier e entre os seus sócios ativos contavam-se o Dr. José Mendes Alçada de Paiva, Alfredo Baptista, Sebastião António da Costa Ratto, João da Costa Ratto, Manuel d’Almeida Cipriano, Camilo Ribeiro, Alexandre Espiga, José A. Thomaz Freire, Padre José da Costa Tavares, então prior da freguesia de Santa Maria, José Marques Braz Povo, a cujo zelo se devem a fundação de outras Conferências na Cidade, e Claudino Dias A. e Rosa, Francisco Petrucci e Francisco Fiadeiro.

A todos os seus títulos de benemerência sobreleva a fundação do Albergue dos Pobres em 1900 (hoje Lar de São José), sendo presidente o Dr. José Mendes Alçada de Paiva.

O Relatório das Conferências de S. Vicente de Paulo, da diocese do Porto, relativo a 1902, refere-se a essa Obra: “Contando pouco mais de dois anos de existência, esta bela obra atingiu um grau de prosperidade que decerto os seus beneméritos fundadores estavam longe de esperar e que raras instituições daquela natureza conseguem atingir nos mais dilatados prazos.

A ideia da instituição do Albergue para os pobres partiu de um dos nossos mais dignos confrades que em fevereiro de 1900 foi encontrar, num pobre casebre, sequestrados pela neve e morrendo de fome, dois desgraçados velhinhos octogenários, marido e mulher, a quem o formidável nevão do dia 1 prendera em casa, obstando a que pudessem ir mendigar o pão quotidiano.

Comunicada a ideia à Conferência, desde logo começaram a trabalhar os confrades com tanto zelo e tanta inteligência, angariando esmolas e donativos e fazendo propaganda aturada e eficaz, que, poucos dias volvidos, havia os meios necessários para a instalação.

Nessa cruzada foram auxiliados os confrades por uma comissão de senhoras composta por D. Maria da Anunciação Tavares, D. Ana Augusta Fonseca Ferreira e D. Clotilde Terenas, que, percorrendo a cidade e as povoações do Concelho, trouxeram abundante colheita para os pobrezinhos. Mais tarde, estas e outras senhoras, fundavam a Sociedade feminina de S. Vicente de Paulo, ereta em Santa Maria Maior da Covilhã em 16 de novembro de 1905, sendo a sua primitiva direção: D. Leopoldina Rato, presidente; D. Ana Ferreira, tesoureira; e D. Maria da Glória M. Ferreira, secretária; e assistente eclesiástico, presidente honorário, o Padre José da Costa Tavares. Esta Sociedade mereceu sempre as bênçãos dos desvalidos e o respeito e a admiração de todos os covilhanenses. No seu último relatório, referente ao ano findo, consigna que além de muitos socorros e subsídios que espalhou, promoveu a realização de 23 casamentos e de 14 batizados, distribuindo 349 peças de vestuário executadas na sua “Casa de Trabalho” de que continuou a dirigir e a proteger o “Patronato feminino”.

Estava fundado o Albergue, recebendo desde logo 14 pobres. Em dezembro do mesmo ano recolhia já 27.

Continuando a afluir os donativos, a Conferência foi alargando o quadro dos seus pobres, sendo já 32, em dezembro de 1902, os sustentados por esta instituição. Desde logo começou a Conferência a empenhar-se por entregar o Albergue às Irmãzinhas dos Pobres porque só elas poderiam dirigi-lo e desenvolvê-lo vantajosamente. Removidas todas as dificuldades, viu a Conferência coroados os seus esforços do melhor êxito, porque em 10 de junho de 1902 chegava à Covilhã um grupo de irmãzinhas que foram recebidas festivamente pela população covilhanense.

No dia aprazado para a sua chegada, sem convite especial da Conferência, eram as boas Irmãzinhas esperadas na estação por numerosas damas e cavalheiros, que lhes oferecendo uma carruagem, as acompanharam até ao edifício do Albergue. O Albergue esteve no princípio instalado numa casa em frente da Igreja de S. Martinho e em seguida na casa chamada dos doutores Grainhas, que então pertencia a esse sobrinho Padre Francisco de Sales B. Grainha, S.J. Foi par aqui que vieram as Irmãzinhas dos Pobres e permaneceram durante mais de dois anos até que puderam comprar aos herdeiros Marques de Paiva o belo edifício, donde as expulsaram em 1910 e onde atualmente se encontra ainda o Albergue. Ali foram aguardadas pelo povo que as aclamou. E entrando na capela, foram surpreendidas pela chuva de flores que caia dos coros.

Cantou-se uma missa solene e o Te-Deum. E em seguida apresentaram-lhes os velhinhos albergados, a quem encheram de carinhos e mimos.

Poucos dias depois da sua instalação, admitiam mais velhinhos, que em breves dias chegavam a 45 e depois quase duplicaram”.

No dia da sua chegada, foi-lhes entregue a quantia de 400$000 – todo o saldo que a Conferência então possuía – pelo seu tesoureiro, Alexandre P. Espiga.

Quando em 1908 se celebraram as Bodas de Diamante das Conferências de S. Vicente de Paulo, havia na Covilhã um Conselho Particular, que já abrangia na sua circunscrição três Conferências: a de Nª Sª de Lourdes, a da Imaculada Conceição, fundada em 19 de março de 1903 e a de S. Pedro inaugurada em 29 de junho de 1905. Em S. Martinho só em 1911 se fundou uma Conferência agregada em 22 de maio desse ano.

Estas Conferências, onde sempre viveu o espírito de S. Vicente de Paulo e a boa doutrina de Ozanam, ressentiram-se, contudo, nas perturbações religiosas e sociais que acarretou o movimento revolucionário de 1910, e em 4 de janeiro de 1920 foi resolvido reunir numa só as 4 Conferências da cidade. Organizou-se nessa ocasião a “Agremiação de Recreio e Beneficência” que no artº. 2.º dos seus estatutos preceitua: “que auxiliará obras de beneficência e caridade na medida da sua capacidade moral e intelectual, tendo sempre um especial carinho para as Conferências de S. Vicente de Paulo.” Nomeou-se então uma Comissão provisória; mas a vida da Conferência continuou débil e precária até maio de 1922, em que se elegeu uma nova Comissão, que procurou dar-lhe alento e desenvolvê-la, e principalmente angariar novos sócios – conseguindo esse desiderato a ponto de em fevereiro de 1924 se poder desdobrar de novo em quatro, correspondentes às freguesias da Cidade.

Foi durante esta gerência que se pensou em fundar um Pavilhão para tratamento da tuberculose anexo ao Hospital.

Se é verdade que cada Conferência tem a sua vida própria, é igualmente certo que se encontram ligadas pelo mesmo laço, o Conselho Particular, atualmente designado Conselho de Zona, que orienta e conjuga os seus esforços, e não podem ser indiferentes, como ramos do mesmo tronco, indicadas na mesma salutar aspiração.

(In "O Olhanense", de 01 de novembro 2021)

13 de outubro de 2021

O MISTÉRIO DOS SONHOS

 

Sempre que me desloco ao Centro Cirúrgico de Coimbra tenho o hábito de folhear a revista Olhares que aquela instituição edita trimestralmente, tendo-me chamado à atenção um excelente artigo da Psicóloga Clínica, Vanda Clemente, especialista em Medicina Comportamental do Sono.

Muito do conteúdo deste artigo dá resposta ao que se passa connosco ao longo dos dias das nossas vidas, entre sonhos como mensagens de inspiração divina, à realização de desejos ou fantasias. Podem ser curtos, longos, a cores ou a preto e branco, estranhos, angustiantes ou engraçados. É, por assim dizer, aquele mistério de sonhar.

Eu que não consigo dormir as horas normais há anos, não deixo de ter sonhos durante o tempo que durmo, recordando-me de vários sonhos repetidos ao longo do tempo, alguns que bem parecem a realidade e que só quando acordo sinto o lenitivo de que se tratava dum sonho. Também já aconteceram aqueles sonhos de pesadelo que ao levantar parece que tinha a Serra da Estrela às costas. Mas isto penso acontecer com todos nós, uns mais que outros.

Segundo aquela Psicóloga Clínica, os sonhos correspondem à atividade mental involuntária que ocorre durante o sono: são imagens, pensamentos ou emoções. As imagens visuais são as mais comuns, coloridas ou a preto e branco, mas também podem envolver sons, odores, sabores e sensações tácteis. Os sonhos podem constituir uma coleção de imagens e eventos ilógicos, incoerentes ou fantásticos, podem organizar-se em histórias reais entre personagens e, por vezes, são mais impressionistas, carregados de emoções.

Ainda me recordo do primeiro sonho que tive ainda no meu primeiro ou segundo ano de vida. Lembro-me de dizer â minha Mãe que me tinham acontecido coisas estranhas durante a noite quando dormia. Foi quando a minha Mãe me disse que isso era um sonho.

“Há um período em que os sonhos são mais organizados (sonhos REM) com sequências progressivas e são emocionalmente mais intensos, com conteúdos fantásticos em que conseguimos proezas fisicamente impossíveis e temos experiências perturbadoras e intrigantes. Mas também há outro período (sonhos NREM) em que os sonhos são geralmente mais curtos, menos nítidos e têm um conteúdo mais coerente e menos emotivo, relacionados com pensamentos ou memórias sobre um tempo e um lugar específicos. Os sonhos tendem a predominar nas horas antes de acordar.”

Porque sonhamos, ao certo ainda não sabemos. Segundo a Olhares, “os sonhos parecem ter um papel importante na consolidação da memória, no processamento das emoções, na reprodução instantânea de acontecimentos recentes, para que sejam analisados, e na limpeza mental, libertando informações desnecessárias.”

Sonhar faz parte de um sono saudável e melhora o funcionamento cognitivo e emocional.  No entanto, os pesadelos podem ter um impacto negativo no sono, pois provocam despertares noturnos.

Já dizia Fernando Pessoa: “Mudem-me os deuses os sonhos, mas não o dom de sonhar”.

Os sonhos permanecem um objeto de mistério e de fascínio e nem sempre foram considerados um produto da mente. Da Antiguidade até hoje, algo mudou na forma de vermos e interpretarmos os sonhos. O sonho foi abordado como objeto de psicologia, pela primeira vez, pelo filósofo grego Aristóteles (384-322 a.C.).

Foi muito mais tarde, principalmente no final do século XVIII e durante o século XIX, que se assistiu ao desenvolvimento de diversas teorias psicológicas sobre os sonhos. Sigmund Freud (1856-1939), médico austríaco, neurologista e psiquiatra, criador da psicanálise, considerava que o sonho é a realidade de um desejo inconsciente, a expressão de fantasias proibidas e reprimidas durante a vigília.

Já Alfred Adler (1870-1937), psicólogo austríaco, defendeu que o indivíduo ensaia, durante o sonho, futuras situações que o ajudam a resolver problemas.

Muito haveria que falar sobre o sonho, e é ainda Fernando Pessoa que, das suas cinco frases universais no livro Mensagem, sobressai que “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”, sem esquecer a Pedra Filosofal, de António Gedeão/Rómulo de Carvalho: “Eles não sabem, nem sonham/que o sonho comanda a vida/Que sempre que um homem sonha/o mundo pula e avança/ como bola colorida/entre as mãos de uma criança”.


(In "Jornal fórum Covilhã", de 13-10-2021)

4 de outubro de 2021

NAQUELAS MONTANHAS DA ESTRELA

 

Uma interessante quão importante descrição da Serra da Estrela na revista Olhares, nº 24, de 2019, leva-nos a transcrever parte deste texto para conhecimento dos prezados Leitores:

“Um cristal de gelo é o símbolo escolhido pelo Parque Natural da Serra da Estrela, tão só porque nos remete para a sua origem glaciar. As suas 25 lagoas ilustram bem essa história que começou a ser contada há centenas de milhões de anos. Ainda não tínhamos nascido, mas o granito que cobre a serra já lá estava.

É preciso entrar no maior vale glaciar da Europa para avistar o único local português onde ainda vive a lagartixa da montanha. Segundo o mosaico que recheia o Parque Natural da Serra da Estrela, hoje classificado de Geoparque Mundial, tem esta caraterística de mosaico diversificado. Para além da neve de inverno, há muitas outras paisagens ali plantadas e para conhecer durante o ano. São assim 325 outras razões para seguir as rotas do turismo da natureza.

A história começou a ser contada há milhões de anos com a formação de uma cadeia montanhosa, hoje transformada na maior área protegida em solo português. A heterogeneidade mora ali, a par com inúmeros ecossistemas ainda naturais. Mas, falar da Serra da Estrela, remete o nosso imaginário para a neve, frio e grande altitude, nem sempre nem nunca, porque o património que aquele Parque Natural acolhe é muito mais vasto.

Como percorrer todo este território é uma escolha individual, a pé, de carro, de mota, a cavalo, de burro ou de bicicleta. Mas, não podemos deixar de sugerir que vá, seja pelos trilhos, seja pela estrada.

Foi por um acidente orográfico que ‘nasceu’ e é esse mesmo acaso que lhe deu toda a multiplicidade de caraterísticas onde se incluem vales percorridos por linhas de água, encostas, planaltos de menor e maior altitude e muitos picos, sendo a Torre o local mais conhecido. Mas, antes de se chegar ao ponto mais alto de Portugal continental (o Pico, na ilha do Pico, é o mais alto), é possível apreciar os vários habitats que sobreviveram e onde ainda se encontram diversas espécies, mas também inúmeras nascentes e cascatas. O Poço do Inferno é apenas um exemplo de uma cascata de visita obrigatória pela queda de água a 10 metros de altura.

Naquelas montanhas da Estrela nascem os rios Mondego, Zêzere e Alva, que ajudam a proporcionar vários habitats típicos de água doce, mas também algumas praias fluviais, porque nem só de neve vive a Estrela. A praia do Vale do Rossim e a Loriga são duas praias fluviais afamadas onde só mergulha gente sem temor ao frio.

A paisagem é alpina, misturada com vestígios de depressões de origem glaciar, que agora acolhem vales, como o Covão d’Ametade. É este mesmo vale glaciar, o maior de toda a Europa, que hoje acolhe o rio Zêzere, povoado nas margens por cabras e ovelhas.

De entre as 25 lagoas naturais, a Lagoa Comprida será a mais famosa e a que atrai mais olhares. Encontra-se no maciço superior da Serra da Estrela e é essa localização que acaba por causar alguma surpresa, ninguém está à espera de encontrar ali, bem no cimo, um lago tão grande, lado a lado com blocos gigantes de granito.

As caminhadas acabam por proporcionar visões impossíveis de detetar ao volante de um automóvel e por isso mesmo a Estrela recomenda os trilhos, como a Rota das Faias, a Rota Glaciar ou a rota das 25 lagoas, entre outras.

Mas, a história da Estrela nem sempre está escrita na pedra. Há outras histórias e vivências para conhecer e essas só se encontram nas aldeias que ainda povoam as encostas. A aldeia do Sabugueiro é a mais conhecida e também a mais alta. Os concelhos de Seia, Covilhã, Manteigas, Oliveira do Hospital e Fundão criaram a Rede de Aldeias de Montanha. Ao longo de 100 quilómetros há muito para descobrir, conhecer e provar.”

O Município de Seia comemora 140 anos da Expedição Científica à Serra da Estrela, conjuntamente com a Sociedade de Geografia de Lisboa, nos meses de setembro e outubro, evocando assim aquela Expedição Científica que se realizou em agosto de 1881. A iniciativa lembra “o pioneirismo e o arrojo de mais de uma centena de homens, que há 140 anos se aventuraram por um território até então pouco conhecido. Um momento ímpar da História da Ciência em Portugal, que permitiu revelar alguns dos segredos da mais alta montanha do território continental, dando a conhecer a Serra nas suas dimensões geográficas, climatérica, orográficas, antropológicas, etnográficas, arqueológicas e médicas”, segundo informação do Jornal terras da beira, de 17-08-2021.


(In "O Olhanense", de 01-10-2021)