30 de junho de 2022
29 de junho de 2022
FERNANDO BRITO FERREIRA
Cabe a vez de virmos falar duma figura sobejamente conhecida
entre os Covilhanenses, ele também desta génese, comerciante até à sua
aposentação, com estabelecimento que teve na Rua Ruy Faleiro, conhecido por
“Casa da Borracha”, que herdou de seu pai.
Nasceu na cidade dos lanifícios em 10 de abril de 1947, e,
como tantos outros da sua geração, que procuraram estudar no âmbito do ensino
possível para a época, o Fernando optou então pelo Colégio Nun’Álvares, em
Tomar, onde completou o 2.º Ciclo Liceal, sendo que o 3º Ciclo, que não chegou
a concluir, foi no Externato de Santo António, no Fundão, onde era diretor o conhecido
Dr. Menezes. Aqui foi colega dum que se evidenciava – o Gaiolas, mais conhecido
por Salavisa, hoje Coronel da GNR aposentado.
Chegada a altura do serviço militar obrigatório, em tempo de
guerra colonial – a chamada Guerra do Ultramar – Fernando Brito Ferreira foi
incorporado no RI 5, de Caldas da Rainha, em janeiro de 1969, no Curso de
Sargentos Milicianos. Seguiu-se a
especialidade que veio a tirar em Tavira, no CISMI, de atirador, em abril deste
mesmo ano. Foi depois para o RI 2, em Abrantes, em 21 de julho de 1969, sendo
daqui mobilizado para a Guiné como Furriel Miliciano, em 1 de agosto de 1969,
que só viria a surgir em 31 de janeiro de 1970.
Nesta data marchou para Lisboa, de Abrantes, onde na mesma altura
embarcou para o CTI Guiné, promovido já a Furriel Miliciano. Desembarcou em
Bissau no dia 6 de fevereiro de 1970. Aqui tomou parte ativa em zonas
operacionais, de 31 de agosto de 1970 a 26 de fevereiro de 1971.
Foi colocado em Teixeira Pinto, onde permaneceu todo o tempo
de serviço naquela então Província Ultramarina.
Aqui desempenhava as funções de adjunto do Comandante de Batalhão,
incluindo a segurança do quartel.
Competia-lhe também fazer segurança às povoações, para além
do seu trabalho de operação e informação.
Embarcou na Guiné, de regresso à Metrópole, em 2 de dezembro
de 1971, desembarcando em Lisboa, no Cais Conde da Rocha, em 8 de dezembro,
onde o esperava a família.
Passaria à disponibilidade em 2 de janeiro de 1972, sendo
posteriormente, já em casa, promovido a 2.º Sargento Miliciano, em 31 de agosto
de 1072.
Recebeu já a Medalha Comemorativa das Campanhas na Guiné com
a legenda: 1970/71 (O.S. 251 de 22 de outubro do B Caç. 2905).
(In “O
Combatente da Estrela”, nº 127, de julho 2022)
O VIETNAME PORTUGUÊS
Neste mês de junho – mês dos
Santos Populares – sobejamente conhecido ao longo dos tempos, é também o mês em
que, a 10 de junho, comemoramos o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades
Portuguesas, assinalando-se desta forma o dia da morte de Luís Vaz de Camões.
Depois de terríveis tempos de
isolamento que não permitiram festejos nem proximidade das pessoas, ainda persiste
algum temor e a possibilidade de sermos apanhados pelos tentáculos do polvo
pandémico, ainda que de menor gravidade.
Já chegava este problema
mundial de saúde para ainda se vir acrescentar o da morbidez mental na demência
de um ser existente à face da Terra que pretende comparar-se ao imperador Pedro
o Grande, nas nuvens do seu orgulho. Disto não vou falar mais já que,
lamentavelmente, é tema de todos os dias, pelas piores razões.
Venho, isso sim, mais uma vez
reportar-me à guerra para onde nos enviaram, enquanto jovens das décadas de 60
e 70 do século passado, por teimosia salazarista e seus apaniguados, donde
vieram a perecer tantos jovens que hoje ainda podiam estar entre nós, ainda que
numa normal longevidade, e a gerar graves problemas psicológicos aos envolvidos
nessas guerras injustas.
É a razão da notoriedade dos Núcleos
de Antigos Combatentes, com é o da Covilhã, onde muitos vêm solicitar pedidos
de ajuda nas várias vertentes das suas funções.
De harmonia com o livro “365
Dias com histórias da História de Portugal”, de Luís Almeida Martins, aqui
deixo uma narrativa desses tempos vividos, de triste memória:
“Durante mais de 13 anos,
quase metade do orçamento do Estado foi sendo desviado para ‘a Defesa’. Com o
seu rasto e miséria, a Guerra Colonial foi o acontecimento mais traumatizante
da segunda metade do nosso século XX.
Oitocentos mil jovens
portugueses – quase um milhão! – foram mobilizados entre 1961 e 1974 para a
Guerra Colonial que se travou em África contra os movimentos de libertação de
Angola, Moçambique e Guiné. Desses, quase 9 mil morreram e perto 30 mil ficaram
feridos ou estropiados. Um número não quantificado de ex-combatentes acusaria
para sempre os efeitos psíquicos da guerra. Não houve família que não tivesse
pelo menos um combatente em África. Muitas ficaram enlutadas, muitíssimas
viram-se desde então a braços com problemas irresolúveis. Tudo poderia ter sido
evitado se Salazar tivesse sabido descolonizar a tempo.
A Guerra Colonial determinou
também a queda do Estado Novo e o regresso da democracia a um país que chegara
a parecer esquecido dela. Não sabemos quanto tempo mais teria durado a ditadura
se não tivesse havido a guerra, mas não há dúvida de que, ao gerar o
descontentamento dos oficiais mais politizados e forçar a mobilização de estudantes
contestatários do regime, ela foi o fator mais decisivo para a eclosão do 25 de
Abril de 1974.
A guerra começou em 1961. No
dia 4 de fevereiro, as prisões e esquadras de Luanda eram atacadas por
nacionalistas angolanos. Seguiu-se uma chacina praticada por brancos nos
musseques (o equivalente a bairros de lata) da cidade. A 15 de março, a
pró-americana UPA (União dos Povos de Angola) espalhou o terror e a morte nas
fazendas dos Dembos. Salazar enviou tropas para a colónia, mas após vitórias
relativamente fáceis obtidas entre maio e setembro contra inimigos armados de
forma artesanal, o pró-soviético MPLA (Movimento Popular de Libertação de
Angola) abria novas frentes em Cabinda e no Leste. Em 1966 pegou em armas a
UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola), que mais tarde
enveredaria pelo colaboracionismo com o regime português. Em meados da década,
o MPLA era já considerado pela Organização de Unidade Africana o legítimo
representante do povo angolano.
Do outro lado do continente, a
Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique) iniciou a luta armada em 1964, em Niassa e Cabo Delgado,
abrindo depois nova frente em Tete. Comandadas entre 1969 e 1972 pelo general ultra-direitista Kaúlza de Arriaga, as tropas portuguesas envolveram-se durante
meses na Operação Nó Górdio,
a de maior envergadura de toda a guerra, que não teve o êxito pretendido. A
denúncia do massacre de Wiriyamu feita pelo sacerdote anglicano Adrian Hastings
no Times londrino teve larga repercussão internacional.
Na Guiné, a guerrilha do PAIGC
(Partido Africano para a Independência da Guiné e de Cabo Verde), dotado a
partir de 1970 de mísseis terra-ar Strella, de fabrico soviético, foi a
mais difícil de combater pelos Portugueses, que viram alguns jatos FIAT serem
abatidos. A ação psicológica desenvolvida pelo carismático general António de Spínola, governador e
comandante militar durante cinco anos, não impediu a proclamação unilateral da
independência, em setembro de 1973.
Antes tinha sido lançada a polémica Operação
Mar Verde, um ataque à vizinha Guiné-Conakri, ‘santuário’ do PAIGC.
Os Franceses tinham mantido guerras semelhantes na Indochina (1946-1954)
e na Argélia (1954-1962). Ambas haviam conduzido à independência das colónias.
Salazar recusou-se a aprender com esses desfechos inevitáveis.”
João de Jesus Nunes
(In “O Combatente da Estrela”, nº. 127, julho 2022)
15 de junho de 2022
JUNHO - MÊS DEDICADO A PORTUGAL
Junho quentinho, alegre apesar da
pandemia ainda andar por aí a fazer alguns estragos.
Junho de três Santos Populares
que, se a união faz a força, que o trio se compadeça daquele povo ucraniano e
proporcione o milagre de queimar numa fogueira do São João esse Putin satânico.
Mas como os Santos não se vingam,
há que manter as festas populares: o 13 de junho para o Santo António, esta
data comemorativa do seu falecimento em 13 de junho de 1231, perto de Pádua, na
Itália.
Para não falarmos só de
falecimento, então aí vem o 24 de junho para a comemoração do nascimento de São
João Batista, profeta do Novo Testamento.
E, para terminar, o dia 29 de
junho, dedicado a São Pedro e também a São Paulo, como grandes apóstolos.
Todas estas festas são celebradas
em todo o País, mais centradas em determinados locais, como o Santo António, em
Lisboa, com as Marchas Populares; e o São João, no Porto, com as fogueiras, os
martelos e o alho-porro.
Nesta prodigalidade de
festividades e datas memoráveis, salientamos o dia 10 de junho, que é Dia de
Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Nesta data assinala-se o dia
da morte do poeta Luís Vaz de Camões, em 1580. Autor do imortal livro Os
Lusíadas, tornou-se feriado nacional em 5 de outubro de 1910, com a
implantação da República.
Durante o tempo que durou o
Estado Novo (paradoxalmente, velho de mentalidades), e até ao 25 de abril de
1974, em que se deu a Revolução dos Cravos, este designava-se “Dia de Camões,
de Portugal e da Raça”. Só a partir de 1978 passou a ser designado como até à
presente data – Dia de Portugal, Camões e das Comunidades Portuguesas.
Neste ano da graça de dois mil e
vinte e dois, as Comemorações do Dia de Portugal decorreram em Braga e também
junto das comunidades portuguesas no Reino Unido.
Milagre, milagre para quem vive
em certos concelhos foi o facto de este feriadinho do dia 10 de junho ter
acontecido a uma sexta-feira. Logo, por exemplo, Lisboa regala-se pois tem quatro
dias de descanso e festança, já que o dia 13, de Santo António é a uma
segunda-feira.
Mas, entre dias de descanso em
demasia, ou na vontade de quem os desejaria, vamos lá falar de coisas também
sérias, ainda que com pedido de intercessão aos Santos Populares para que concedam um milagre para as bandas da Rua de
Santa Maria (antigamente), hoje Rua Notícias da Covilhã, levando-lhes resmas de
papel para que o Semanário deixe de ser exclusivamente digital.
E, já agora, que procurem um
Diretor que não é forçoso ser dentre os muitos “santos populares” que por aí
andam.
João de Jesus Nunes
(In “Notícias da Covilhã” digital, de
16-06-2022)
FIGURAS E FACTOS DA COVLHÃ E REGIÃO NA HISTÓRIA DE PORTUGAL
Tendo por base a obra “365
Dias com histórias da História de Portugal”, de Luís Almeida Martins, achei
oportuno registar algumas dessas Figuras e Factos com que os Covilhanenses, ou Homens
da Região Beirã, ficaram retratados nas memórias da nossa História.
Por falta de espaço, várias
figuras e factos tiveram que aqui ser omitidas.
Muito me tarda o meu amigo na Guarda – Um dos mais belos poemas
medievais portugueses está relacionado com a grande paixão do rei D. Sancho I.
D. Sancho I foi pai de 19
filhos, contando os legítimos (nascidos do ventre de Dulce de Aragão) e os
ilegítimos, tidos sobretudo de duas amantes conhecidas: Maria Pais Ribeira, uma
linda fidalga de cabelos dourados conhecida por Ribeirinha, e Maria
Aires de Fornelos. Uma célebre e belíssima cantiga de amigo da suposta autoria
de D. Sancho alude aos seus amores com a Ribeirinha: “Ai eu coitada!
/Como vivo em grão cuidado/ Por meu amigo que hei alongado. / Muito me tarda/O
meu amigo na Guarda! / Ai eu coitada! / Como vivo em grão desejo / Por meu
amigo que tarda e não vejo! / Muito me tarda/ O meu amigo na Guarda!”.
O milagre das rosas – Na estrada Guarda-Lamego, em A-de-Barros,
existe um solar do qual se conta que foi onde D. Dinis e a Rainha Santa
passaram a noite de núpcias. Como o casamento em questão ocorreu em finais do
século XIII e a construção de granito data do século XVII, a impossibilidade de
o casal ali ter pernoitado é manifesta. Mas a crença atesta a popularidade do
casal D. Dinis e D. Isabel – uma popularidade que tem resistido bem ao desgaste
de 800 anos.
Não deve haver português
adulto que desconheça o “milagre das rosas”. Segundo essa lenda, a rainha saiu
numa manhã de inverno do Castelo do Sabugal, onde na altura se encontrava com o
marido, levando embrulhado nas vestes pães para distribuir aos pobres. Eis
senão quando surgiu D. Dinis e lhe perguntou, de sobrolho carregado, o que
levava no regaço. “São rosas, senhor”, respondeu D. Isabel. Desconfiado, o rei
voltou à carga: “Rosas no inverno?!...”. A rainha abriu então o regaço e
mostrou ao marido o que ali estava: rosas, em vez de pães.
Escolhida pelo rei português
D. Dinis, de entre um lote de possíveis candidatas, como a esposa ideal, casou
com ele por procuração em Barcelona quando tinha apenas 12 anos, e o marido 21.
Só se conheceram pessoalmente quatro meses depois, no dia em que D. Dinis a foi
esperar à raia de Beira e se celebrou a boda em Trancoso. Mas, atendendo à
idade da noiva, pode não ter havido noite de núpcias, nem nesta vila nem na
A-de-Barros da crença local.
A viagem maravilhosa – Poucos
portugueses tiveram uma existência tão aventurosa como Pêro da Covilhã. Aí
por 1468, um castelhano que se deslocara à Covilhã para comprar tecidos de lã
deixou-se impressionar pela desenvoltura do jovem Pêro e convidou-o para entrar
ao serviço do seu amo. O rapaz, com uns 18 anos, partiu para Sevilha, onde se
tornou espadachim de D. Juan de Guzmán, irmão do duque de Medina-Sidónia. Pouco
depois Pêro acompanhou a Lisboa D. Juan, que aqui vinha avistar-se com D.
Afonso V. Foi a vez de este rei português muito interessado nos assuntos de
Castela, cuja coroa ambicionava, engraçar com os modos de Pêro e arranjar forma
de o tomar ao seu serviço. Com cerca de 24 anos, Pêro esteve ao lado de D.
Afonso V, como escudeiro, na desastrosa batalha de Toro e, em seguida,
acompanhou-o a França, onde o rei português foi recebido por Luís XI em Tours.
Quando D. João II subiu ao
trono, Pêro da Covilhã passou a servir o novo rei. Mais lúcido e prático do que
o pai, o Príncipe Perfeito aproveitou os dotes deste homem de confiança
para missões delicadas que exigiam grande inteligência e não menor dedicação.
Espião ao serviço do soberano, Pêro conseguiu identificar alguns poderosos que
conspiravam contra a Coroa, como o duque de Viseu e o bispo de Évora.
Poliglota, seria seguidamente incumbido de negociar tratados com dois reis
berberes de Marrocos.
Em 1478, quando já ia a
caminho dos 40 anos, foi finalmente incumbido por D. João II de fazer a longa
viagem que o celebrizaria. No âmbito dos preparativos da descoberta do caminho
marítimo para a Índia, consistia esta em tentar alcançar o Indostão por terra e
trazer informações úteis sobre o cobiçado país das especiarias. De caminho,
informar-se-ia acerca do misterioso reino cristão do Preste João.
Pêro da Covilhã partiu
acompanhado de Afonso de Paiva. Disfarçados de mercadores, seguiram por terra
até Barcelona, onde embarcaram para o Egito, com escala em Nápoles e Rodes.
Juntando-se a uma caravana, disfarçados de mercadores árabes, atravessaram a
Arábia passando por Medina e Meca (onde rezaram como muçulmanos), e em Adem
separaram-se, combinando encontro para daí a três anos à porta da cidadela do
Cairo. Paiva fletiu então para a Etiópia e Pero da Covilhã embarcou para a Índia, onde obteve informações que viriam
a ser de grande utilidade para Vasco da Gama.
A primeira portuguesa que
votou – Maior de idade, médica e chefe de família, Carolina Ângelo pôde
eleger a Constituinte de 1911, mas a lei não tardaria a ser revista para
impedir o acesso das mulheres aos cadernos eleitorais.
Quando o presidente da mesa de
voto chamou pelo seu nome, a jovem eleitora de 33 anos vestida pesadamente de
negro e com fios de ouro ao pescoço avançou com passo decidido. Entregou o
boletim de voto e quando este entrou na urna todos os presentes irromperam numa
salva de palmas. Nessa manhã de 28 de maio de 1911, data da eleição da
Assembleia Constituinte da I República, Carolina Beatriz Ângelo, uma das
primeiras médicas que houve em Portugal, fora a primeira mulher a votar no
nosso País. Nascida na Guarda em 1878, concluíra o curso da Escola
Médico-Cirúrgica de Lisboa em 1902, ano em que se casou com o seu primo
Januário Barreto (natural de Aldeia do Souto – Covilhã), também médico, ativista
republicano. Foi a primeira mulher portuguesa a operar no Hospital de São José,
antes de se dedicar à especialidade de Ginecologia. Iniciou-se em 1906 na
militância cívica, aderindo ao comité português da associação francesa La Paix
et Désermement par les Femmes e à loja maçónica Humanidade e fundando nos anos
seguintes a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas e a Associação de
Propaganda Feminista (com Ana de Castro Osório).
Nas asas da Revolução – Revolucionário romântico, Palma Inácio foi
o homem que melhor personificou a luta armada contra a ditadura de Salazar e
Caetano.
Foi em 1962 que desencadeou a
primeira das espetaculares ações políticas que o tornaram numa lenda: o
sequestro do Super Constellation da TAP da carreira Casablanca- Lisboa,
utilizado para o lançamento de panfletos “subversivos” sobre Lisboa e o Sul do
País.
Em finais de 1966 regressou à
Europa para se dedicar por inteiro à luta antissalazarista. Em maio de 1967
comanda o famoso assalto à agência da Figueira da Foz do Banco de Portugal,
destinado à obtenção de fundos para prosseguir a luta revolucionária. Mas ainda
nesse ano foi detido em Paris, a pedido de Salazar. Um tribunal francês decidiria,
porém, que o delito de que o acusavam era político, e pô-lo-ia em liberdade.
No ano seguinte fracassava a
projetada ocupação da Covilhã por um comando revolucionário. Encarcerado no
Porto, evadiu-se num intervalo do julgamento. Quando atravessava a Espanha a
caminho de França seria novamente preso e uma vez mais em tribunal se oporia à
extradição. Em 1973, de regresso
a Lisboa e à clandestinidade após uma estada em Roma, voltou a ser preso quando
preparava a sabotagem dos computadores de vários ministérios.
Definitivamente libertado de
Caxias em 25 de Abril de 1974, foi
eleito secretário-geral da LUAR no primeiro congresso da organização efetuado
em liberdade, durante o qual prestou contas do dinheiro retirado sete anos
antes dos cofres do Banco de Portugal.
João de Jesus Nunes
(In “Jornal
Fórum Covilhã”, de 15-06-2022)
1 de junho de 2022
UMA VITÓRIA COMO SE FOSSE UMA SUBIDA
Os Covilhanenses, de raiz ou de coração, e as gentes beirãs, dispersas
por este recanto à beira-mar plantado, folgaram no domingo, 29 de maio, ao verem
o seu Clube mais representativo de toda a região – o Sporting Clube da Covilhã
(SCC) – a manter-se na II Liga portuguesa de futebol, ao vencer o Alverca, no
Santos Pinto, por 2-0.
O destino a que as gentes da nossa gente já não estavam habituadas,
levar-nos-ia neste final da época 2021/2022, a disputar o “play-off” de acesso
ao segundo escalão, e esta foi a segunda mão, quando na primeira haviam
conseguido um empate a zero bolas.
Depois de várias épocas consecutivas (quinze) num esforço, por vezes
hercúleo, dos seus dirigentes, sob a batuta de José Mendes, a manterem uma
linha de conduta desportiva mais com altos do que com baixos, sempre na II
Liga, surgiria nesta época como que uma ventania de muitas pedras desacertadas,
ou tropeçando nelas, que levaram a uma posição ingrata como a população já não
estava habituada. Foi esta população que
num sopro indómito mais não pensou que apoiar vivamente a equipa dos Leões da
Serra, logo que se apercebeu da gravidade em que o barco em que navegava se
encontrava prestes a meter água, e levou neste dia a tornar repleto o Estádio
José dos Santos Pinto, na beleza da nossa Serra, numa enorme vontade de apoiar
o Clube não o deixando fazer marcha atrás.
E, felizmente, assim aconteceu com o míster Leonel Pontes a direcionar o
rumo da vitória, bem conseguida por via dos valorosos Filipe Dini, logo no
primeiro minuto de jogo, e depois Rui Gomes. Começava assim o representante da
Liga 3 a ver a sua vida muito difícil.
Longe vão os tempos, lá para as bandas do século passado, nas décadas de
50 e 60, em que a Covilhã para além dos lanifícios como mono indústria, mais
não tinha de grande evidência que não fosse o futebol da I Divisão Nacional, e
então era ver, para além de comboios especiais, centenas de autocarros vindos
de vários pontos do País apoiar os seus clubes e ver jogar as vedetas do SCC,
aquando das deslocações do Benfica, Sporting, FC Porto e Belenenses (aquele que
agora está também nos aflitos quase desaparecido).
As tabernas, os restaurantes e até pensões e hotéis registavam um volume
interessante de negócios por força dos forasteiros, e não só.
As gentes serranas e mormente todos quantos vivem o clube da sua Terra,
ou da sua afeição, pressentiram neste frustrar de final de campeonato como que uma
pandemia desportiva que caíra nas hostes serranas. Para além do sentir nas
condutas lamentáveis de responsáveis (arbitragens incluídas) dos que na pauta
classificativa já se começava a desenhar a perigosidade dos maus resultados, e
embora a equipa serrana viesse a fazer das tripas coração, parecia que o mal
com que estavam fadados continuava a existir.
Ouvi chamadas de atenção para este imbróglio e o grito de Ipiranga em
várias gentes, nos semanários regionais, na Casa da Covilhã em Lisboa. Havia
que apoiar mais intensamente o Sporting Clube da Covilhã.
E assim sucedeu! Temos a equipa serrana a manter-se afincadamente na II
Liga do futebol português.
Dá pena ver equipas que durante anos emparceiraram com o SCC e hoje
encontram-se em grandes dificuldades de manutenção nos lugares honrosos em que
deviam estar, nomeadamente o Belenenses, Olhanense, Barreirense, Vitória de
Setúbal, e tantos outros por este Portugal fora.
João de Jesus Nunes
(In “Notícias da
Covilhã” digital de 02-06-2022)
18 de maio de 2022
A Rússia, os Portugueses e o Segredo de Fátima
Longe vão os tempos, da minha
infância, em que se rezava nas Igrejas pela conversão da Rússia, um dos pedidos
de Nossa Senhora numa das Aparições de Fátima, para uns, Visões, para outros,
ocorrida em 13 de junho de 1917, em plena Guerra Mundial.
Mas já muito antes, sempre os
portugueses estiveram envolvidos neste país, sendo a Federação Russa o maior
país do mundo em extensão territorial, localizado na Eurásia da Europa e Norte
da Ásia, quase sendo mais um Continente.
Assim, vejamos, segundo A Mais
Breve História da Rússia dos Eslavos a Putin, de José Milhazes: O médico
António Nunes Ribeiro Sanches (1699-1783), natural de Penamacor, teve de fugir
para o estrangeiro para escapar à Inquisição, foi trabalhar para a Rússia, onde
passou dezoito anos (1731- 1749). Deixou as melhores recordações na Rússia
principalmente graças à sua atividade no campo na medicina. Quando já exercia
as funções de médico da corte de São Petersburgo, o iluminista do distrito de
Castelo Branco salvou da morte a noiva do grão-príncipe Pedro e futura
imperatriz da Rússia, Catarina II, a Grande. Por isso, em 1782, o seu
filho e sucessor no trono, Paulo, exprimiu-lhe publicamente gratidão em Paris,
o que lhe valeu uma pensão vitalícia da corte russa. Já depois de ter
abandonado a Rússia, acusado de não ter renunciado ao judaísmo, Ribeiro Sanches
nunca se recusou a prestar assistência médica aos nobres russos que o
procuravam na capital francesa. E isto porque era considerado um mestre
incomparável no tratamento de doenças venéreas, onde muitos sofriam desses
“males do amor”. O médico português mantinha contactos estreitos com o mundo
científico russo, contribuindo para o estabelecimento de relações entre
cientistas russos e sábios de outros países da Europa e do mundo. Também da
pena deste ilustre sábio do distrito albicastrense saíram numerosas obras sobre
a Rússia. Ribeiro Sanches deixou igualmente escritos sobre cossacos,
ucranianos, povos do Báltico, etc. Todavia, dedicou maior atenção aos russos,
aos seus costumes, às suas tradições, vida económica e agricultura. Na sua
conhecida obra Memória Sobre os Banhos de Vapor da Rússia, Ribeiro
Sanches analisa o tema não só enquanto médico, mas também como economista. Ele
via nos populares banhos russos um meio universal de tratamento de doenças
quando não era possível o acesso a outras terapias e recomendou-o aos seus
leitores ocidentais. Baseando-se nas reformas do czar Pedro I, o ilustre
português aconselhou o marquês de Pombal na sua tarefa de modernização de
Portugal. Ribeiro Sanches tinha uma visão filosófica das ciências socias e
considerava que a autossuficiência agrícola era fundamental para qualquer país,
insistindo, para isso, no incremento das culturas cerealíferas.
De outros portugueses que
passaram por São Petersburgo, foi a cantora de ópera Luísa Todi quem deixou
maior rasto na história da cultura da cidade. No auge da sua carreira, aquela
que ficou conhecida por “rouxinol de Setúbal” lançou-se na aventura de atuar na
Rússia, país que, nos finais do século XVIII, era considerado “distante” e
“bárbaro” pelos europeus do Ocidente. A sua voz permitiu-lhe não só cativar o
coração de muitos russos como enfrentar e defender os seus interesses perante
Catarina, a Grande. Luísa Todi permaneceu na Rússia de 27 de maio de
1784 até finais de 1786. Regressaria e, em 23 de abril de 1787, Luísa Todi dava
o seu último espetáculo em Moscovo. Entretanto, surge a rutura entre Luísa Todi
e Catarina II quando a cantora setubalense começou a exigir somas exageradas
para permanecer na Rússia, pois tanto ela como o marido não olhavam a despesas,
considerando a imperatriz Catarina II que o casal português já estava
endividado em oitenta mil rublos.
Também a história do russo que
salvou a coroa portuguesa. No dia 3 de novembro de 1807, a esquadra do
almirante russo Dmitri Seniavin entrou na foz do Tejo para fugir a uma forte
tempestade no mar, mas ficou ali retida durante quase um ano devido à conturbada
situação internacional. Anteriormente, em 7 de julho desse ano, a Rússia e a
França de Napoleão tinham assinado um Tratado de Paz e Amizade, em Tilzit, e a
corte de São Petersburgo rompera as relações diplomáticas com Londres. Neste
contexto que lhe era adverso, o oficial russo, não obstante as pressões
francesas, evitou impedir a partida que se preparava, de D. Maria I e de D.
João VI rumo ao Brasil. O almirante russo viu-se numa situação muito complicada
e então arranjou subterfúgios para tentar adiar ou mesmo evitar totalmente o
cumprimento das ordens de Napoleão, alegando falta de armamento e de homens.
Quadro da Morte de Inês de
Castro. Karl Briullov (1799-1852) foi um dos primeiros pintores russos que
receberam reconhecimento internacional, sendo considerado o artista de
transição entre o neoclassicismo russo e o realismo. Em 1834, pintou o quadro Morte
de Inês de Castro, talvez soba a influência da leitura de Os Lusíadas de
Luís de Camões.
Segundo João Céu e Silva, in DN,
a Revolução Russa, que teve início em 1917, também esteve sempre muito
ligada às aparições de Fátima. Talvez os pastorinhos tivessem ouvido o nome do
país, mas decerto desconheciam as implicações que o regime que substituía os
czares iria ter em todo o mundo no século XX. Se uma nova consagração pareceria
impossível e desnecessária até ao princípio desta guerra, a razão de acontecer
deve-se à mensagem que Nossa Senhora terá deixado aos pastorinhos na aparição
de 13 de julho de 1917: “Para impedir a guerra virei pedir a consagração da
Rússia ao meu Imaculado Coração (…). Se atenderem os meus pedidos, a Rússia se
converterá e terá paz; se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo
guerras (…)”. A mensagem não terminava aí e referia também que a Rússia
promoveria “perseguição à Igreja. Os bons serão martirizados, o Santo Padre
terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas”. Daí que Lúcia tivesse
insistido na consagração, em especial da Rússia, ao Imaculado Coração de Maria
logo na carta enviada ao Papa Pio XII, em 1940.
Muito já foi dito, e muito já se
escreveu e debateu sobre este assunto. O que é certo e verdade, é que a guerra
gerada com a invasão da Ucrânia pela Rússia tem algo que se pode contextualizar
nestas mensagens de Nossa Senhora, ainda que já não se reze pela “conversão da
Rússia” como nos tempos do Estado Novo, mas velho de pensamento e ideias, mas
se peça a intervenção divina para acabar com esta guerra injusta, entre várias
maneiras de interpretar quer a mensagem de Fátima quer a invasão da Ucrânia
pela Federação Rússia, numa ambição hitleriana de Putin.
João de Jesus Nunes
(In “Jornal Fórum Covilhã”, de
18-05-2022)
Não conseguem silenciar o Notícias da Covilhã
Vá-se lá saber porquê, o Notícias da Covilhã, que muitos
imaginavam já vê-lo passar por um placard de necrologia, continua a fazer pela
vida, suportando, ainda que a pão e água, esta fraca alimentação que alguns
senhores disto tudo não se preocuparam em revigorar a sua vida fragilizada, ou
seja, a vida do semanário mais antigo da Beira Baixa.
Muito já se disse, muito já se
pensou, muito já se deduziu, mas a apatia daqueles que deviam estar no comando
da frente de combate e se retiraram para um silêncio tumular, é que é
condenável.
Na linha da frente lá continuam
os incansáveis jornalistas do Notícias da
Covilhã, votados ao ostracismo,
sem uma informação fidedigna de que o semanário terá os dias contados. Isto
para já não falar de muitos dos seus dedicados leitores e assinantes, para quem
se marimbaram e, toma! - Lês o online, pelo que te oferecemos o pdf,
mas papel isso é por causa do manguito do Zé Povinho. Saudoso Rafael Bordalo
Pinheiro que hoje ainda fazes muita falta.
Quanto à (ir)responsabilidade diocesana pelo infeliz caminho em que
deixaram cair este importante órgão da comunicação social, ou a uma direção mal
escolhida, numa administração que se desconhece, ignoram-se quaisquer ações
tendentes a encontrar medicação para a situação mórbida em que o semanário foi
deixado cair, sem rei nem roque.
Onde está o antídoto para debelar este mal? Alguma coisa foi feita,
abertamente, criando comissões idóneas para ir de encontro a vozes que gostam
da Covilhã – dos lanifícios e universitária?
Sabemos que a atual edilidade não se vê aguerrida a fazer das tripas
coração para salvar este semanário. Pudera! Já passaram as eleições.
O Notícias da Covilhã comemora hoje 103 anos (mais de um
século!) desde a sua primeira edição como NC, mas é muito mais antigo,
se considerarmos que em janeiro completou 109 anos, então sob o título A
Democracia.
É uma data memorável, em que não pode vestir o fato de gala face à melancolia
da sua indefinição, pelo que se apresenta com o seu fato habitual de trabalho.
Vamos dar uma nova vida ao Notícias da Covilhã, uma publicidade
mais forte, com uma campanha de assinaturas para a sua edição em papel. Só
assim o Semanário poderá ser atrativo.
O Notícias da Covilhã não pode ser silenciado. O Notícias da Covilhã tem que voltar à vida refrescante d’outrora.
Parabéns ao Notícias da Covilhã e aos seus verdadeiros obreiros
que ainda conseguem manter a navegar o barco ainda que por águas turbulentas.
João de Jesus Nunes
(In “Notícias da Covilhã”, de 19-05-2022)
17 de maio de 2022
59 PRIMAVERAS NA VIDA DE UM JORNAL
Numa altura em que alguns
periódicos se veem forçados a passar do papel para a exclusividade do digital,
com a consequente perda do maior interesse pela leitura, se não mesmo quando a
rejeitam, já que o papel traz com o seu cheiro e apalpar o apelativo para uma
leitura mais amena, é assaz louvável o esforço desenvolvido pelos que mantêm
este quinzenário de pé, contra ventos e marés.
É preciso uma vontade indómita
para dar de si, no barco do voluntariado, banhado pelas águas da gratuitidade,
o esforço que dá forma a páginas soberbas d’O OLHANENSE.
Não tenham pena do tempo gasto em
prol de algo que seja importante dar a lume, quão de interessante dar a
conhecer, da história nacional à local ou regional, à curiosidade, ao reviver
tempos idos da nossa meninice, que o diga o incansável Mário Proença, Diretor
Adjunto deste quinzenário.
O OLHANENSE está de
parabéns, assim continue a ser o baluarte do histórico Clube algarvio que
merece e se impõe regresse tão breve quanto possível aos maiores do futebol
português.
Mas, como várias vezes tenho
referido, este quinzenário não é só de âmbito desportivo, embora seja a sua
génese, mas face às gentes dinâmicas que se embrenharam no papel do papel de
saber manter vivo um periódico em prol duma população, dá gosto ver todo o
aspeto cultural que envolve o Jornal O Olhanense.
Parabéns, pois, a todos os seus
Obreiros, por mais um ano de vida intensa em favor não só das gentes algarvias
como de vários pontos do País.
João de Jesus Nunes
Covilhã
(In quinzenário "O Olhanense", de 15-05-2022)
4 de maio de 2022
CAFÉS MÍTICOS O CAFÉ MONTALTO, NA COVILHÃ, E O CAFÉ ARCADA, EM ÉVORA
Ao longo das nossas vidas,
mormente para quem ainda anda neste mundo, felizmente, há mais de sete décadas,
como eu, tivemos o prazer de conviver momentos inolvidáveis nos cafés de
referência. Esses lugares das facetas de cada um de nós.
Por todo o país, esses
estabelecimentos eram testemunho duma convivência salutar. O ponto de encontro
para os negócios da época, com ou sem as facilidades de hoje. Da procura de alguém que servisse para
apadrinhar um novo emprego. Mas também em momentos de cultura, ainda no
desconhecimento das novas tecnologias. Nem sequer existia o telemóvel. Muitas
vezes era o telefone do café o ponto chave de contactar alguém que
habitualmente os frequentava. O recado deixado ao dedicado empregado dava
ensejo de tranquilidade a quem se procurava.
Mas também ponto de reunião de
uma determinada classe. Eram os que não davam louvas aos tempos do Estado Novo.
Obviamente atentos, tanto quanto possível acautelando as suas conversas. Ali
podia estar um pide disfarçado que tapava a cara com a gola do seu sobretudo.
Os estudantes davam uma
escapadela para uma disputa entre os bilhares. E não só. Também os “Leões da
Serra”, jogadores de futebol da I Divisão.
Os menos abastados, esses,
coitados, davam azo à sua camuflada revolta. A sua permanência nas muitas
tabernas de então, ou cafés menos frequentados. Evitavam encontrar-se com os
patrões. Viam-se também nos bares das muitas coletividades de bairro
existentes.
E, na tranquilidade da leitura do
jornal, de dimensões exageradas, liam-se os artigos do enorme Diário de Notícias ou d’A Bola, que contrastava, em tamanho, por exemplo, com o Diário Popular ou o Record.
O Montalto, na Covilhã, que há muitos anos encerrou as suas portas, era
conhecido como o café dos industriais. Era ainda o café da alta e da média
burguesia, onde pequenos grupos se formavam em função dos negócios e interesses
como descreve José António Pinho num dos seus livros. Aqui se bebia a bica,
confecionada com os melhores lotes de café da Cafeeira, e que custava o dobro.
Mas também foi lugar de encontro dos descontentes do antigo regime,
como aconteceu aquando da visita do General Humberto Delgado, em campanha
eleitoral, que deixou o Montalto a rebentar pelas costuras, tão repleto que
estava de gentes em vibrante entusiasmo. Estávamos em 1958.
Mas se acima falámos de cultura, outros cafés covilhanenses foram de
memórias como o extinto Café Leitão, onde o escritor Ferreira de Castro
escreveu o romance sobre os lanifícios – A Lã e a Neve.
Passando da zona serrana para a alentejana, aí vamos deparar com o
mítico Café Arcada, também ele rico de história. Era de facto o café da
tradição. Abriu em 14 de fevereiro de 1942, tendo sido considerado um dos
melhores do País, com mais de 100 mesas.
Nos primeiros tempos o Arcada foi frequentado pela burguesia local,
pequenos grupos de intelectuais, gente do reviralho, profissionais liberais e
estudantes liceais. Os latifundiários e os agricultores frequentavam o Café
Camões, à Porta Nova. Mas com a perda de centralidade desta zona e o acrescido
ganho de importância da Praça do Giraldo, estes passaram a tomar de assalto o
Arcada às terças-feiras, dia do mercado semanal. Em plena Praça e no interior
do café se discutiam e apalavravam negócios, tendo ali chegado a funcionar uma
informal bolsa de gado. No seu romance Aparição o escritor Vergílio
Ferreira relata bem o ambiente do Café Arcada quando nele entrou pela primeira
vez em 1946, colocando a sua visão na boca do protagonista Alberto Soares. “….
Acabámos por marcar o encontro para o dia seguinte no Arcada sem que o Moura se
lembrasse de que era uma terça-feira, ou seja dia de mercado. Com efeito, ao
entrar no café, após o almoço, tive a surpresa de ver aquele vasto túnel
apinhado de gente. O corredor atravancava-se de negociantes, porque era ali,
entre bebidas, que se realizava o mercado da semana. A terça-feira era o ‘dia
de porcos’”, como soube mais tarde que lhe chamavam.
O escritor ficou aliás com uma marca indelével do Arcada, pois foi ali
que o seu colega e padrinho do casamento, Alberto Miranda, lhe pagou a boda, da
qual consistiu dum galão a cada um e bolos, conforme revelou em “Conta-Corrente
2”.
Entretanto, com o passar do tempo, aos lavradores veio juntar-se uma
corte de gente ligada ao mundo dos touros e ao marialvismo rural, composto por
ganadeiros, toureiros e aprendizes, moços de forcados, apoderados, equitadores,
aficionados e professores e alunos da Escola de Regentes Agrícolas.
Com a subida do Lusitano de Évora à I Divisão em 1952 a fama do café
chegou a Lisboa. Os adeptos do Sporting, do Benfica e do Belenenses, do Vitória
de Setúbal e do Barreirense, que aos milhares se deslocavam a Évora para apoiar
as suas equipas, conheceram-no, apreciaram-no e dele fizeram grande propaganda
na capital e arredores.
A Revolução de Abril acentuou-lhe a decadência retirando-lhe a antiga
frequência dos terratenentes e seareiros, engolidos na voragem do PREC.
Esta situação durou alguns anos e causou o desgosto de quem por ali
passava na época áurea. Mas mesmo ao findar do século passado a Cervejaria
Trindade resolveu ocupar o espaço, remodelá-lo por completo, e manter-lhe
associado o nome de Café Arcada.
(In "O Olhanense" , de 01-05-2022)
28 de abril de 2022
SERÁ POSSÍVEL A UNIÃO ENTRE CATÓLICOS E ORTODOXOS?
Com a guerra na Ucrânia, em que a Rússia não quer que seja utilizada esta palavra bélica no seu território, e os ortodoxos russos se unem em favor de Putin, surge a pergunta em título.
Segundo se narra no livro A
mais breve história da Rússia, de José Milhazes, no ano da conquista de
Constantinopla pelos turcos, em 1453, Moscovo já constituía o centro religioso
dos territórios russos, o metropolita passara a residir nessa cidade e a ser
eleito pelos bispos russos, o que tornou independente a Igreja Ortodoxa Russa.
E também por essa altura começa a surgir a ideia de Moscovo como sucessora de
Bizâncio. Em 1472, Ivan II, o Grande, casou-se com a sobrinha do último
imperador bizantino. O grão-príncipe de Moscovo começou a chamar a si os
títulos de “autocrata” e “czar” e a usar a águia bicéfala de Bizâncio.
Refere ainda, naquela obra,
que em 1054, os chefes das igrejas cristãs do Oriente e do Ocidente, ou sejam,
o Patriarca de Constantinopla e o Papa de Roma, excomungaram-se mutuamente.
Deram assim origem ao chamado Grande Cisma. Quase logo a seguir à queda de Roma
às mãos dos bárbaros, as relações entre o Oriente e o Ocidente complicaram-se
devido a disputas eclesiásticas e teológicas, sendo as fundamentais sobre a
fonte do Espírito Santo (Filioque), se se devia usar pão fermentado ou
não fermentado na Eucaristia e sobre a primazia do Papa de Roma.
Os católicos defendem que o
Espírito Santo procede do Filho e do Pai, enquanto os ortodoxos acreditam que
procede apenas do Pai. Na Igreja Ortodoxa, o pão da comunhão é fermentado e não
se reconhece a primazia do Papa.
Foram feitas várias tentativas
para superar esta fratura. A primeira no Concílio de Lyon, em 1274, e a segunda
no Concílio de Florença, em 1439. Neste Concílio, Isidoro, metropolita de toda
a Rus, apoiou a união entre católicos e ortodoxos. Veio a receber o título de
cardeal das mãos do Papa Eugénio, mas logo que chegou à Moscóvia foi
imediatamente preso e encerrado num mosteiro por ter tomado esta posição.
Conseguiu fugir da prisão e refugiar-se em Roma.
As mútuas excomunhões só foram
levantadas a 7 de dezembro de 1965, pelo Papa Paulo VI e pelo Patriarca de
Constantinopla Atenágoras I, com vista a reiniciar o processo de aproximação
das duas igrejas.
A 12 de fevereiro de 2016, o
Papa Francisco concretizou um encontro histórico com Kirill, Patriarca da
Igreja Ortodoxa Russa, em Cuba, dando início a um diálogo que se perspetiva
poder ser muito longo.
Será que se houvesse a união
entre estas duas igrejas, muito similares, da religião cristã, poderia
contribuir para uma outra mentalidade dos senhores do poder, que, neste caso, é
dum prepotente que não olha a meios para atingir os seus fins maléficos?
Apesar de católicos romanos e
ortodoxos terem uma história comum, que começa com a fundação da Igreja
primitiva e com a difusão do cristianismo pelos apóstolos, uma série de
dificuldades ocasionou o progressivo distanciamento entre o Bispo de Roma e os
Patriarcas. Primeiro veio a quebra da unidade política. Com a divisão do
Império Romano em 395, a queda do Império Romano do Ocidente em 476 e o
fracasso da tentativa de Justiniano de reunificar o império a partir de 535, o
Oriente e o Ocidente deixaram de ter o mesmo governo. A partir do século VII,
com a ascensão do Islamismo, as trocas económicas e os contactos por via
marítima entre o Império Bizantino, de língua grega, e o Ocidente, de língua
latina, tornaram-se mais difíceis, e deteriorou-se a unidade cultural.
Em muitos aspetos, a Igreja
Ortodoxa é semelhante à Igreja Católica, preservando, por exemplo, os sete
sacramentos, e usam as vestes litúrgicas nos seus cultos.
Seria muito importante a união
entre as duas Igrejas, para a qual não pouparam esforços os últimos Papas.
Esperemos que um dia tal venha a acontecer para o bem comum entre os cristãos.
João de Jesus Nunes
14 de abril de 2022
UM 25 DE ABRIL NASCIDO COM UMA OUTRA ESPERANÇA
Na altura em que escrevo esta
crónica está uma primavera muito fria. É a primeira estação do ano, depois de
virado o equinócio em 20 de março. Mas os primeiros dias de abril não têm
apresentado temperaturas amenas e agradáveis e aumento dos índices
pluviométricos. Os dias começam de facto a ficar mais longos e as noites passam
a ser mais curtas. O reflorescimento da flora terrestre começa a surgir. A
mudança de hábitos, agora no modo de vestir, ainda está acautelado para o frio
que não nos vai largando.
As televisões e os jornais
enchem-nos de notícias do terror russo, com u8m Putin hitleriano, numa amálgama
de nazi e jihadista, mas sobre este tema já muito me debrucei.
Como também já muito escrevi
sobre a Revolução dos Cravos, sujeito a repetir algo sobre o tema.
Mas este ano há uma data
insofismável que se reporta ao dia 24 de março de 2022. Conseguimos ultrapassar
a ditadura vivida, em número de dias. São já, nesta data, 17500 dias em
democracia, E a trombeta que assinala esta memorável data dá início às
comemorações oficiais dos 50 anos do 25 de Abril, que se assinala em 2024. A
efeméride é tão importante que as mesmas irão até 2026.
Outras datas também importantes
serão registadas. Em 24 de março assinalaram-se os 60 anos da crise académica
de 1962, quando o Estado Novo proibiu as comemorações do Dia do Estudante. Era
então líder estudantil, naquela altura, Jorge Sampaio, que chegou a afirmar,
por tal facto, que “o 25 de Abril começou a 24 de Março”. E é por isso que
arrancam aqui as comemorações oficiais dos 50 anos do 25 de Abril.
Mas em 3 de abril também se
comemoram 30 anos da morte de Salgueiro Maia, o capitão que comandou a coluna
de blindados que veio de Santarém para vir cercar os ministérios do Ter4reiro
do Paço, que fez o ultimato a Marcelo Caetano e o levou à rendição perante o
general Spínola, e depois o escoltou até ao aeroporto de onde partiu para o
exílio. Tudo sem disparar um tiro.
Nem toda a obra é perfeita, nem
tudo se pensa que venha a surgir no âmbito dos nossos sonhos. Quem, como eu,
viveu longo tempo na ditadura, e sonhou com outros tempos que passariam a ser
risonhos, num horizonte de plena felicidade, apesar de a obra não ser perfeita,
jamais se contava com condutas conducentes aos tempos que se viveram em
ditadura, onde os pobres eram cada vez mais pobres, e os ricos com as
algibeiras cada vez mais carregadas do vil metal.
Comemorámos esta data do 25 de
Abril, algumas vezes já sem aquela força impulsora, intrínseca, indomável que
inebriava as nossas almas. Foram muitos os governantes que, tendo uma imagem de
homens e mulheres sérias, e até então honestas, por via do poder do dinheiro
fizeram por olvidar esta caraterística duma pessoa confiável, porque o poder do
dinheiro é mais forte que a robusta honestidade.
Apesar destas manchas que
surgiram na nossa democracia, incluindo o desaproveitamento dos fundos
europeus, e o seu esbanjamento em certos governos de Portugal, com o salto para
a ribalta política de jotas, boys e girls, que muitos
vieram prosseguir o caminho da governação, valeu a pena a Revolução dos Cravos.
O próprio antigo Presidente da
República Ramalho Eanes admitiu que, na altura do 25 de Abril de 1974 “esperava
mais”, afirmando que não foi feito o suficiente para se “politizar a
sociedade” e instituir uma “democracia
dinâmica, em que o povo resolvesse participar, em que o povo sentisse que ele é
efetivamente o dono da liberdade e o dono do país.”
João de Jesus Nunes
(In “Notícias da Covilhã” digital, de
14-04-2022)
6 de abril de 2022
OS MALANDROS – GALBA a. C, PUTIN d.C.
Ao longo dos tempos sempre
houve quem se revelasse na maldade sob os ventos da história.
Hoje, depois de termos vivido
num ambiente de paz reinante na generalidade do planeta, conforme já me referi
noutro artigo, mormente na Europa, embora com ventos e marés pelo caminho, desde
a Segunda Grande Guerra, eis que um malandro, sanguinário, agita ferozmente a
invasão de um país soberano – a Ucrânia –, não se importando de lançar a guerra
no mundo, declinando a paz. Isto já estamos fartos de saber diariamente.
Em Portugal superou-se, em 24
de março do corrente ano, por um dia, o tempo vivido em ditadura.
A guerra passou a ser o
fantasma e uma realidade na Europa. E as palavras: promessa, garantia, confiança,
contrato de boas intenções, acordo oficial, foram substituídas por uma única
que dá pelo funesto nome de traição.
E é nesta base que memorizo,
por analogia, outro “Putin” de outrora, selecionado dentre muitos. Sérvio
Sulpício Galba, em 151 a. C. recebeu o governo da Hispânia Ulterior como pretor,
continuando a Guerra Lusitana. Os lusitanos causaram a Galba enormes perdas. Segundo
os cronistas, na primavera de 150 a. C., Galba invadiu novamente a Lusitânia e os
Romanos arrasaram o território. Quando os Lusitanos enviaram uma embaixada
reclamando a violação do tratado que haviam firmado com o pretor Marco Atílio Serrano,
e reiterando o seu propósito de manterem os termos de paz prometida por eles,
Galba recebeu-os amavelmente. Prometeu-lhes terras férteis onde se poderiam
estabelecer com as suas famílias, sob a proteção de Roma, se permanecessem
leais. Acudiram cerca de 30 000 lusitanos solicitando o cumprimento dessa
promessa. Galba, repartiu-os em três acampamentos e exigiu-lhes que entregassem
as armas em sinal de amizade. Logo que tal aconteceu, rodeou-os com todo o seu
exército e ordenou um ataque. Cerca de 9000 foram passados pela espada e
20 000 foram capturados e vendidos como escravos aos Gálias. Somente uns
poucos conseguiram escapar, incluindo Viriato, que, anos depois, se vingaria
por esta traição romana, em vários combates que ganharia.
Mas a diferença de forças em
combate ia-se tornando em tarefas difíceis. E já Táutalo, o grande amigo de
Viriato reconhecia que tinham pouco mais de três mil cavaleiros e dois mil
homens a pé, contra mais de 30 mil romanos, em várias frentes de ataque.
As palavras de ordem do líder era
“Temos de negociar”. Era evidente que lutar seria um suicídio. Saíram todos em
silêncio, mantendo-se apenas Viriato, Táutalo , Audax, Ditalco e Minuro.
Os romanos Cepião e Lenate estavam
em Tucci e Audaz, Ditalco e Minuro foram dar-lhes a conhecer as condições propostas
por Viriato: “Não abandonamos as armas, mantemos o nosso território e não nos
envolvemos em escaramuças“.
Viriato despediu-se da mulher,
Munnia, e do sogro, Astolpas. Parte na sua égua “Milos”.
Entretanto, os emissários,
homens de confiança, enviados por Viriato, são corrompidos pelos romanos com
promessas de riquezas. E, na pessoa de Lenate, insiste: - “Não queremos as
vossas terras, apenas as armas, para que haja paz.” “Lenate olhou de soslaio
para Cepião, retirou três moedas de ouro do saco e distribuiu-as pelos três. E
há mais de onde veio este”. O regresso dos emissários foi fatal para Viriato,
assassinando o seu chefe enquanto dormia. Termina assim aqui a vida deste notável
guerreiro ibérico. Duas semanas depois, os três assassinos e traidores de
Viriato, deslocaram-se a Tucci, a base da operação romana na Ibéria Ulterior.
Iam receber a recompensa prometida por Lenate e Cepião.
Então, quando esperavam
receber dos romanos, na pessoa de Libérius, o ouro que lhes haviam prometido,
em troca pela morte de Viriato, os mesmos foram apunhalados e mortos, com esta
indicação: – “Roma não negoceia com traidores”. Este é um exemplo entre muitos,
ao longos dos tempos.
A outra face da moeda é depois
de Cristo. Durante a Guerra Fria, a terceira maior potência nuclear do planeta
não era o Reino Unido, a França ou a China, mas sim a Ucrânia. E com o colapso
da União Soviética (URSS) em 1991, a nação recém-independente herdara cerca de
3000 armas nucleares deixadas por Moscovo em seu território. Três décadas
depois, a Ucrânia está totalmente desnuclearizada. E o tema volta à tona agora
que o país se encontra numa posição delicada após a invasão territorial
comandada pelo Kremlin, que ameaça reagir a qualquer tentativa de interferência
das potências da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) no confronto.
Através do Acordo de Budapeste,
nos anos 1990, a Ucrânia decidiu abrir mão das armas nucleares deixadas em seu
território em troca de segurança e reconhecimento como país independente. Tudo
foi acordado por meio do Memorando de Budapeste, um acordo assinado entre o
governo ucraniano, a Rússia, o Reino Unido e os Estados Unidos após o fim da
URSS. No entendimento firmado em 1994 na capital da Hungria, a Ucrânia
comprometia-se a aderir ao Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP)
e a devolver para Moscovo as ogivas deixadas no seu território.
Em troca da desnuclearização de
Kiev, os governos da Rússia, dos EUA e do Reino Unido comprometeram-se a
respeitar a independência, a soberania e as fronteiras existentes da Ucrânia e
a abster-se da ameaça ou do uso da força contra o país. E agora o que está a
acontecer? Putin, traidor, não respeita nada, brinca com a ONU, brinca com o
Tribunal Europeu dos Direitos Humanos. A ONU, NATO e UE só agora acordaram duma
letargia em que se encontraram. Esperemos que uma azia neste maldito Putin o
não largue até que seja absorvido por instintos de remorsos pelo imenso mal que
está a ocasionar a milhões de pessoas que nada têm a ver com a sua disfuncionalidade
cognitiva.
João de Jesus Nunes
jjnunes6200@gmail.com
(In “Jornal Fórum Covilhã”, de
06-04-2022)
1 de abril de 2022
CONTE-NOS A SUA HISTÓRIA - JOSÉ ALBERTO FERREIRA AZEVEDO
Corria
o dia 16 de novembro de 1941, em plena II Grande Guerra, quando nasceu o
covilhanense, nosso entrevistado para este número do CE. Pessoa dotada duma
extraordinária simpatia, amigo do seu amigo, que reúne no companheirismo muitos
em seu redor.
Se
ao ver a luz do dia, pela primeira vez, existiam fortes nuvens bélicas no Mundo
de então, o seu destino, como tantos milhares de portugueses, seria o de se ver
também obrigado a participar, longe da sua Terra, numa guerra subversiva, como
então se designava, nos já longínquos anos de sessenta do século XX, para as
bandas do continente africano.
Depois
de, na tranquilidade desafogada, mesmo em tempo de racionamento, viver com os
pais na Quinta Nova, no Refúgio, onde trabalhava na agricultura, feita a
instrução primária, rumou, como tantos outros, para prolongar os estudos na
Escola Industrial e Comercial Campos Melo. Aqui, volvidos três anos ficaria
precocemente sem o pai, pelo que decidiu concluí-los no período noturno já que
a quinta, com trabalhadores, necessitava então do seu apoio, assim como sua
irmã e a mãe.
Tendo
sido chamado para o serviço militar, cuja inspeção foi aos 19 anos, tentou
ainda ser considerado “amparo de mãe”, a fim de se libertar daquela obrigação
militar, o que não lhe foi concedida. Chegou mesmo a omitir as habilitações
escolares, mas em vão.
É
então incorporado no RI 10 em Aveiro no dia 14 de agosto de 1962, um ano após o
início da chamada Guerra do Ultramar.![]()
Como
o mesmo reporta, “nessa altura do início da guerra colonial não havia condições
logísticas decentes”. E conta algumas partes interessantes quão também de
horripilantes que, face à sua extensão, não cabem nesta página mas que é
interessante ouvir-lhe contar.
De
Cabinda ainda se deslocou para Tando Zinze, Prata, Pangamongo, Miconje, Caio
Guembo, Malembo, Tchinzaze, Belize.
O
dia mais marcante para o nosso entrevistado foi no dia 6 de dezembro de 1965 em
que duas minas anticarro mataram 11 camaradas de uma Companhia que estava adida
ao seu Batalhão.
Depois
deste “resumo muito breve” – como nos conta José Alberto Azevedo, de muitas
estórias “da história que tem do Ultramar”, embarcou em Luanda em 24 de março
de 1966 chegando a Lisboa em 6 de abril, seguindo para Tomar, e daqui para a
Covilhã, onde finalmente chegou no dia 8 de abril de 1966.
Passou então a exercer a sua
atividade profissional de debuxo na indústria de lanifícios, na Covilhã, onde
se aposentou.
(In “O Combatente da Estrela”, nº 126
– ABR/2022)
NÃO QUEREMOS MAIS GUERRAS
Depois de um período de paz
entre nações de quase oito décadas, que resistiu até a terramotos políticos
como o colapso do mundo soviético ou às sequelas da guerra civil nos Balcãs, a
Europa assiste incrédula, assustada e preocupada a uma nova violação de
fronteiras.
Os tambores de guerra vão
sobrepor-se à prioridade mundial do combate à crise ambiental e climática, que
exige uma necessária e urgente cooperação forçada entre todas as grandes
potências.
Desde 1945 e o fim da Segunda
Guerra Mundial que a Europa tinha atravessado um período de paz. Com exceção de
alguns conflitos localizados que resultaram da independência de novos Estados
após o já aludido colapso da União Soviética, nos últimos 77 anos não houve
guerra na Europa.
As gerações de europeus que
nasceram e viveram neste período nunca conheceram outra situação que não fosse
a paz. Para aqueles que nasceram depois do fim da Segunda Guerra Mundial a paz
é um dado praticamente adquirido.
O conflito militar aberto
entre a Rússia e a Ucrânia, com o possível envolvimento dos países ocidentais,
vem alertar o Mundo para as consequências dramáticas do fim da paz na Europa, e,
quiçá, do Mundo.
Além da insegurança, da perda
de vidas humanas e da destruição, há efeitos económicos imediatos que já se
fazem sentir com as sanções aplicadas, a suspensão de trocas comerciais e a
redução dos investimentos.
No ano transato comemoraram-se
os cem anos da fundação da Liga dos Combatentes ao serviço de Portugal e de
seus gloriosos Combatentes; e também sessenta anos do início das guerras
coloniais em que os portugueses foram envolvidos por força da teimosia dum
regime ditatorial que, felizmente, teve os seus últimos dias em 1974 com a
Revolução dos Cravos.
Sem olvidar o tempo difícil
por que certamente iremos passar, fruto também de um assassino ditador russo,
desejoso do imperialismo e saudosista da URSS, derrubada em 1991, sabemos que,
em 1974, havia 150 mil jovens portugueses compulsivamente a prestar serviço nas
Forças Armadas, a maior parte das quais em Angola, Guiné e Moçambique e que a
guerra colonial sorveu, em 13 anos, mais de 90% da juventude masculina,
obrigada ao serviço militar de dois a quatro anos. Segundo dados do EMGFA, dos
8831 militares portugueses mortos devido a várias causas, 4027 perderam a vida
em combate e a guerra provocou ferimentos e deficiências físicas em cerca de
vinte mil, dos quais 520 com grau superior a 60%. Relativamente aos portugueses
que foram psicologicamente afetados, com stress pós-traumático, que
atingiu ex-combatentes e famílias inteiras, embora o número seja contestado,
contabilizaram-se 140.000, segundo informação do Público.
Com base no mesmo periódico,
ainda está por calcular o verdadeiro número de compelidos, refratários e
desertores portugueses, cujo papel, tal como o da emigração, contou tanto
contra o esforço de guerra colonial, como para o 25 de Abril de 1974.
Sobretudo, estão por contabilizar quantos africanos, civis e dos movimentos de
libertação morreram, ficaram feridos e com stress pós-traumático. Os
mortos africanos terão chegado pelo menos aos cem mil.
Escrevi estas linhas no dia 8
de março, dedicado ao Dia Internacional da Mulher. Não podemos também esquecer
a Mulher em tempos de guerras. Como temos sobejamente presenciado, vemo-la a
carregar o peso de deixar o marido para trás e levar pela mão os filhos
pequenos, a caminho de um país que acolha os refugiados da Ucrânia. É a maior
prova de fogo a que milhares de mulheres europeias estão sujeitas. O mesmo já
aconteceu na Síria, no Afeganistão. Desta vez toca-nos mais perto. É no Velho
Continente, conforme refere Rosália Amorim, in DN, que parece ter esquecido as feridas profundas da
Segunda Guerra Mundial, que eclodiu o conflito que dilacera as famílias.
Ainda sem termos saído de uma
outra guerra – a pandemia Covid 19 – que também as nossas gerações não haviam
conhecido, faltava-nos a crueldade de um ser humano, se é humano que assim se
possa chamar, a esse tétrico Putin, qual novo Hitler, amante de uma nova
guerra.
Resta-nos, pois, afirmar gritantemente:
NÃO QUEREMOS MAIS GUERRAS!
João de Jesus Nunes
(In “O
Combatente da Estrela”, nº 126 – ABR/2022)
16 de março de 2022
ACIRRADOS: DAVID E GOLIAS OU O LOBO E O CORDEIRO
A caminho de algum lenitivo face
ao abrandamento da pandemia que afetou todo o Planeta, todas as gerações do
século XXI e a grande maioria do século que o precedeu jamais passara por uma
situação como aquela que agora vivemos.
Estávamos já a respirar de algum
alívio, num novo mundo, quando surge um Golias diabolizado que há muito ia
espreitando a oportunidade de, pensando ser trigo limpo, querer dissipar o
pequeno David – Zelensky.
Estávamos naquela quinta-feira de
24 de fevereiro quando o “Golias” Putin, não à frente do seu Exército – o
segundo mais poderoso de todo o mundo – mas a agitá-lo à distância, iniciou a
conquista pela força de regiões inteiras no país vizinho – Ucrânia, que ocupa o
22.º lugar deste ranking, com um pequeno mas grande “David “ em Kiev.
Durante semanas, o russo Putin
garantiu que o destacamento de 150 mil soldados russos e de colunas com tanques
e camiões se destinavam apenas à realização de exercícios militares. Mas mais
não era, como já se adivinhava, de planear uma invasão ao país vizinho –
Ucrânia. Já recentemente havia decidido reconhecer como países independentes as
autoproclamadas repúblicas de Donetsk e de Lugansk cujas capitais estão
ocupadas por forças pró-russas desde 2014. O “Golias” querendo utilizar algum
ardil dizia que eram “forças de manutenção da paz” – a paz diabolizada de Putin,
no seu chico-espertismo.
Extramuros, do lado da União
Europeia, surgem as contribuições para as fundas das primeiras pedras em defesa
do pequeno David, com um primeiro conjunto de sanções que teve como alvo as
entidades que financiam estas operações militares, bem como os indivíduos
responsáveis por esta desastrosa decisão invasora: fortunas congeladas e os
britânicos a colocarem ponto final nos programas “vistos gold”. Os
alemães, já sem a senhora Angela Merkel, mas com o então novo chanceler alemão
a anunciar a suspensão do gasoduto Nord Stream 2, um enorme empreendimento que
liga a Rússia e a Alemanha através do mar Báltico, uma oportunidade de ouro
para aumentar a capacidade de exportação de gás natural russo para o mercado
europeu a preços baixos, pois que, neste caso insofismável, temos que compreender
que nem tudo o que luz é ouro.
Para grande estupefação da
Europa que já não presenciava nada assim há muito tempo, e até pensava não mais
vir a assistir a tão lamentável dilaceração duma parte deste Continente, vê
chegar não a sombra de uma nova guerra fria, nas memórias do bíblico Golias, ou
mesmo de Nero, mas do passado a papel químico Hitler versus Putin.
A União Europeia, ainda não totalmente
refeita duma das suas parcelas desavindas, viu o Reino Unido dar uma resposta à
Rússia, à altura da gravidade da situação, congelando atividades bancárias,
bens de oligarcas, ao mesmo tempo que apelava à exclusão da Rússia do sistema
de pagamentos SWIFT. Será caso para dar o grito do Ipiranga: Viva o Brexit!
Conforme refere Jorge Almeida Fernandes, in Público, “Décadas sem
guerras de potências mudaram a mentalidade dos europeus. A comemoração do 70º
aniversário do fim da II Guerra Mundial garantia o fim das guerras no
Continente”. E transcreve da americana Rosa Parker que “Passámos anos a
acreditar que a guerra e o terror iam acabar e que as liberdades seriam
garantidas”.
“Tal como Heródoto escrevera há
dois milénios e meio: ‘Ninguém é suficientemente insensato para preferir a
guerra à paz. Nos tempos de paz, os filhos enterram os pais; nos tempos de
guerras, os pais enterram os filhos’”.
Em 2014, tivemos um aviso: a Rússia anexou a Crimeia e os russófilos
ucranianos ocuparam parte do Donbass. Foi a primeira anexação territorial pela
força, na Europa, desde 1945. Pelo que se infere que o que agora sucede começou
em 2014.
Para compreender a fixação de Putin com a Ucrânia torna-se necessário ir
à sua juventude, ele que nasceu em 7 de outubro de 1952 em Leninegrado, atual
São Petersburgo. Cresceu, como tantos da sua geração, sujeitos à força da
propaganda soviética. Portanto, ainda tem frescas as feridas do colapso da
União Soviética e da perda da sua esfera de influência. Por isso, este ditador
já considerou o fim da União Soviética como “a maior catástrofe do século XX”,
pior na sua opinião do que as duas guerras mundiais. No discurso em que
reconheceu a independência de Donetsk e Lugansk, Putin voltou a 1991 para
argumentar que a Ucrânia não é “um Estado”, tendo sido “roubada” à Rússia pelo
colapso da União Soviética.
Este Putin – o homem mais solitário do mundo – e o seu regime escondem na
mentira e na dissimulação uma vontade de poder insaciável. Parece encontrar-se
perdido nos seus discursos demenciais e belicistas.
E no meio de tanta desgraça ocasionada pela vontade de um único homem,
maldito Putin, não obstante procura de acabar com a guerra na Ucrânia, nas
conversações para a paz, se é de paz que ele alguma vez lhe interessa falar,
atribui culpas à Ucrânia, a qualquer jeito, como na fábula de La Fontaine, “O
Lobo e o Cordeiro”, donde extraio um pequeno excerto, depois da fábula
prosseguir com provocações grosseiras por parte do lobo, que o cordeiro foi
tentando rebater. Mas o lobo estava, tal como Putin, desde o princípio,
determinada a comer o pequeno animal. Por isso, sem piedade, e de todo
indiferente à razão decidiu atacar e matar o cordeirinho: “Esta fábula dá
brados/Contra aqueles insolentes/ Que por delitos fingidos/Oprimem os
inocentes”.
E, para vergonha nacional, o PCP, através dos seus responsáveis, alguns
tentando desculpas esfarrapadas, colocaram-se ao lado de Putin, rejeitando
sanções aprovadas pela União Europeia. Se este Partido Comunista Português já
se encontra em decadência, com este tiro nos pés, mais afundou o seu barco a
navegar em águas turvas e turbulentas.
João de Jesus Nunes
jjnunes6200@gmail.com
(In "Jornal Fórum Covilhã", de 16-03-2022)










