1 de junho de 2022

UMA VITÓRIA COMO SE FOSSE UMA SUBIDA

 

Os Covilhanenses, de raiz ou de coração, e as gentes beirãs, dispersas por este recanto à beira-mar plantado, folgaram no domingo, 29 de maio, ao verem o seu Clube mais representativo de toda a região – o Sporting Clube da Covilhã (SCC) – a manter-se na II Liga portuguesa de futebol, ao vencer o Alverca, no Santos Pinto, por 2-0.

O destino a que as gentes da nossa gente já não estavam habituadas, levar-nos-ia neste final da época 2021/2022, a disputar o “play-off” de acesso ao segundo escalão, e esta foi a segunda mão, quando na primeira haviam conseguido um empate a zero bolas.

Depois de várias épocas consecutivas (quinze) num esforço, por vezes hercúleo, dos seus dirigentes, sob a batuta de José Mendes, a manterem uma linha de conduta desportiva mais com altos do que com baixos, sempre na II Liga, surgiria nesta época como que uma ventania de muitas pedras desacertadas, ou tropeçando nelas, que levaram a uma posição ingrata como a população já não estava habituada.  Foi esta população que num sopro indómito mais não pensou que apoiar vivamente a equipa dos Leões da Serra, logo que se apercebeu da gravidade em que o barco em que navegava se encontrava prestes a meter água, e levou neste dia a tornar repleto o Estádio José dos Santos Pinto, na beleza da nossa Serra, numa enorme vontade de apoiar o Clube não o deixando fazer marcha atrás.

E, felizmente, assim aconteceu com o míster Leonel Pontes a direcionar o rumo da vitória, bem conseguida por via dos valorosos Filipe Dini, logo no primeiro minuto de jogo, e depois Rui Gomes. Começava assim o representante da Liga 3 a ver a sua vida muito difícil.

Longe vão os tempos, lá para as bandas do século passado, nas décadas de 50 e 60, em que a Covilhã para além dos lanifícios como mono indústria, mais não tinha de grande evidência que não fosse o futebol da I Divisão Nacional, e então era ver, para além de comboios especiais, centenas de autocarros vindos de vários pontos do País apoiar os seus clubes e ver jogar as vedetas do SCC, aquando das deslocações do Benfica, Sporting, FC Porto e Belenenses (aquele que agora está também nos aflitos quase desaparecido).

As tabernas, os restaurantes e até pensões e hotéis registavam um volume interessante de negócios por força dos forasteiros, e não só.

As gentes serranas e mormente todos quantos vivem o clube da sua Terra, ou da sua afeição, pressentiram neste frustrar de final de campeonato como que uma pandemia desportiva que caíra nas hostes serranas. Para além do sentir nas condutas lamentáveis de responsáveis (arbitragens incluídas) dos que na pauta classificativa já se começava a desenhar a perigosidade dos maus resultados, e embora a equipa serrana viesse a fazer das tripas coração, parecia que o mal com que estavam fadados continuava a existir.

Ouvi chamadas de atenção para este imbróglio e o grito de Ipiranga em várias gentes, nos semanários regionais, na Casa da Covilhã em Lisboa. Havia que apoiar mais intensamente o Sporting Clube da Covilhã.

E assim sucedeu! Temos a equipa serrana a manter-se afincadamente na II Liga do futebol português.

Dá pena ver equipas que durante anos emparceiraram com o SCC e hoje encontram-se em grandes dificuldades de manutenção nos lugares honrosos em que deviam estar, nomeadamente o Belenenses, Olhanense, Barreirense, Vitória de Setúbal, e tantos outros por este Portugal fora.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “Notícias da Covilhã” digital de 02-06-2022)

18 de maio de 2022

A Rússia, os Portugueses e o Segredo de Fátima

 

Longe vão os tempos, da minha infância, em que se rezava nas Igrejas pela conversão da Rússia, um dos pedidos de Nossa Senhora numa das Aparições de Fátima, para uns, Visões, para outros, ocorrida em 13 de junho de 1917, em plena Guerra Mundial.

Mas já muito antes, sempre os portugueses estiveram envolvidos neste país, sendo a Federação Russa o maior país do mundo em extensão territorial, localizado na Eurásia da Europa e Norte da Ásia, quase sendo mais um Continente.

Assim, vejamos, segundo A Mais Breve História da Rússia dos Eslavos a Putin, de José Milhazes: O médico António Nunes Ribeiro Sanches (1699-1783), natural de Penamacor, teve de fugir para o estrangeiro para escapar à Inquisição, foi trabalhar para a Rússia, onde passou dezoito anos (1731- 1749). Deixou as melhores recordações na Rússia principalmente graças à sua atividade no campo na medicina. Quando já exercia as funções de médico da corte de São Petersburgo, o iluminista do distrito de Castelo Branco salvou da morte a noiva do grão-príncipe Pedro e futura imperatriz da Rússia, Catarina II, a Grande. Por isso, em 1782, o seu filho e sucessor no trono, Paulo, exprimiu-lhe publicamente gratidão em Paris, o que lhe valeu uma pensão vitalícia da corte russa. Já depois de ter abandonado a Rússia, acusado de não ter renunciado ao judaísmo, Ribeiro Sanches nunca se recusou a prestar assistência médica aos nobres russos que o procuravam na capital francesa. E isto porque era considerado um mestre incomparável no tratamento de doenças venéreas, onde muitos sofriam desses “males do amor”. O médico português mantinha contactos estreitos com o mundo científico russo, contribuindo para o estabelecimento de relações entre cientistas russos e sábios de outros países da Europa e do mundo. Também da pena deste ilustre sábio do distrito albicastrense saíram numerosas obras sobre a Rússia. Ribeiro Sanches deixou igualmente escritos sobre cossacos, ucranianos, povos do Báltico, etc. Todavia, dedicou maior atenção aos russos, aos seus costumes, às suas tradições, vida económica e agricultura. Na sua conhecida obra Memória Sobre os Banhos de Vapor da Rússia, Ribeiro Sanches analisa o tema não só enquanto médico, mas também como economista. Ele via nos populares banhos russos um meio universal de tratamento de doenças quando não era possível o acesso a outras terapias e recomendou-o aos seus leitores ocidentais. Baseando-se nas reformas do czar Pedro I, o ilustre português aconselhou o marquês de Pombal na sua tarefa de modernização de Portugal. Ribeiro Sanches tinha uma visão filosófica das ciências socias e considerava que a autossuficiência agrícola era fundamental para qualquer país, insistindo, para isso, no incremento das culturas cerealíferas.

De outros portugueses que passaram por São Petersburgo, foi a cantora de ópera Luísa Todi quem deixou maior rasto na história da cultura da cidade. No auge da sua carreira, aquela que ficou conhecida por “rouxinol de Setúbal” lançou-se na aventura de atuar na Rússia, país que, nos finais do século XVIII, era considerado “distante” e “bárbaro” pelos europeus do Ocidente. A sua voz permitiu-lhe não só cativar o coração de muitos russos como enfrentar e defender os seus interesses perante Catarina, a Grande. Luísa Todi permaneceu na Rússia de 27 de maio de 1784 até finais de 1786. Regressaria e, em 23 de abril de 1787, Luísa Todi dava o seu último espetáculo em Moscovo. Entretanto, surge a rutura entre Luísa Todi e Catarina II quando a cantora setubalense começou a exigir somas exageradas para permanecer na Rússia, pois tanto ela como o marido não olhavam a despesas, considerando a imperatriz Catarina II que o casal português já estava endividado em oitenta mil rublos.

Também a história do russo que salvou a coroa portuguesa. No dia 3 de novembro de 1807, a esquadra do almirante russo Dmitri Seniavin entrou na foz do Tejo para fugir a uma forte tempestade no mar, mas ficou ali retida durante quase um ano devido à conturbada situação internacional. Anteriormente, em 7 de julho desse ano, a Rússia e a França de Napoleão tinham assinado um Tratado de Paz e Amizade, em Tilzit, e a corte de São Petersburgo rompera as relações diplomáticas com Londres. Neste contexto que lhe era adverso, o oficial russo, não obstante as pressões francesas, evitou impedir a partida que se preparava, de D. Maria I e de D. João VI rumo ao Brasil. O almirante russo viu-se numa situação muito complicada e então arranjou subterfúgios para tentar adiar ou mesmo evitar totalmente o cumprimento das ordens de Napoleão, alegando falta de armamento e de homens.

Quadro da Morte de Inês de Castro. Karl Briullov (1799-1852) foi um dos primeiros pintores russos que receberam reconhecimento internacional, sendo considerado o artista de transição entre o neoclassicismo russo e o realismo. Em 1834, pintou o quadro Morte de Inês de Castro, talvez soba a influência da leitura de Os Lusíadas de Luís de Camões.

Segundo João Céu e Silva, in DN, a Revolução Russa, que teve início em 1917, também esteve sempre muito ligada às aparições de Fátima. Talvez os pastorinhos tivessem ouvido o nome do país, mas decerto desconheciam as implicações que o regime que substituía os czares iria ter em todo o mundo no século XX. Se uma nova consagração pareceria impossível e desnecessária até ao princípio desta guerra, a razão de acontecer deve-se à mensagem que Nossa Senhora terá deixado aos pastorinhos na aparição de 13 de julho de 1917: “Para impedir a guerra virei pedir a consagração da Rússia ao meu Imaculado Coração (…). Se atenderem os meus pedidos, a Rússia se converterá e terá paz; se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras (…)”. A mensagem não terminava aí e referia também que a Rússia promoveria “perseguição à Igreja. Os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas”. Daí que Lúcia tivesse insistido na consagração, em especial da Rússia, ao Imaculado Coração de Maria logo na carta enviada ao Papa Pio XII, em 1940.

Muito já foi dito, e muito já se escreveu e debateu sobre este assunto. O que é certo e verdade, é que a guerra gerada com a invasão da Ucrânia pela Rússia tem algo que se pode contextualizar nestas mensagens de Nossa Senhora, ainda que já não se reze pela “conversão da Rússia” como nos tempos do Estado Novo, mas velho de pensamento e ideias, mas se peça a intervenção divina para acabar com esta guerra injusta, entre várias maneiras de interpretar quer a mensagem de Fátima quer a invasão da Ucrânia pela Federação Rússia, numa ambição hitleriana de Putin.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 18-05-2022)

Não conseguem silenciar o Notícias da Covilhã

 

Vá-se lá saber porquê, o Notícias da Covilhã, que muitos imaginavam já vê-lo passar por um placard de necrologia, continua a fazer pela vida, suportando, ainda que a pão e água, esta fraca alimentação que alguns senhores disto tudo não se preocuparam em revigorar a sua vida fragilizada, ou seja, a vida do semanário mais antigo da Beira Baixa.

Muito já se disse, muito já se pensou, muito já se deduziu, mas a apatia daqueles que deviam estar no comando da frente de combate e se retiraram para um silêncio tumular, é que é condenável.

Na linha da frente lá continuam os incansáveis jornalistas do Notícias da Covilhã, votados ao ostracismo, sem uma informação fidedigna de que o semanário terá os dias contados. Isto para já não falar de muitos dos seus dedicados leitores e assinantes, para quem se marimbaram e, toma! - Lês o online, pelo que te oferecemos o pdf, mas papel isso é por causa do manguito do Zé Povinho. Saudoso Rafael Bordalo Pinheiro que hoje ainda fazes muita falta.

Quanto à (ir)responsabilidade diocesana pelo infeliz caminho em que deixaram cair este importante órgão da comunicação social, ou a uma direção mal escolhida, numa administração que se desconhece, ignoram-se quaisquer ações tendentes a encontrar medicação para a situação mórbida em que o semanário foi deixado cair, sem rei nem roque.

Onde está o antídoto para debelar este mal? Alguma coisa foi feita, abertamente, criando comissões idóneas para ir de encontro a vozes que gostam da Covilhã – dos lanifícios e universitária?

Sabemos que a atual edilidade não se vê aguerrida a fazer das tripas coração para salvar este semanário. Pudera! Já passaram as eleições.

O Notícias da Covilhã comemora hoje 103 anos (mais de um século!) desde a sua primeira edição como NC, mas é muito mais antigo, se considerarmos que em janeiro completou 109 anos, então sob o título A Democracia.

É uma data memorável, em que não pode vestir o fato de gala face à melancolia da sua indefinição, pelo que se apresenta com o seu fato habitual de trabalho.

Vamos dar uma nova vida ao Notícias da Covilhã, uma publicidade mais forte, com uma campanha de assinaturas para a sua edição em papel. Só assim o Semanário poderá ser atrativo.

O Notícias da Covilhã não pode ser silenciado. O Notícias da Covilhã tem que voltar à vida refrescante d’outrora.

Parabéns ao Notícias da Covilhã e aos seus verdadeiros obreiros que ainda conseguem manter a navegar o barco ainda que por águas turbulentas.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “Notícias da Covilhã”, de 19-05-2022)

17 de maio de 2022

59 PRIMAVERAS NA VIDA DE UM JORNAL

 

Numa altura em que alguns periódicos se veem forçados a passar do papel para a exclusividade do digital, com a consequente perda do maior interesse pela leitura, se não mesmo quando a rejeitam, já que o papel traz com o seu cheiro e apalpar o apelativo para uma leitura mais amena, é assaz louvável o esforço desenvolvido pelos que mantêm este quinzenário de pé, contra ventos e marés.

É preciso uma vontade indómita para dar de si, no barco do voluntariado, banhado pelas águas da gratuitidade, o esforço que dá forma a páginas soberbas d’O OLHANENSE.

Não tenham pena do tempo gasto em prol de algo que seja importante dar a lume, quão de interessante dar a conhecer, da história nacional à local ou regional, à curiosidade, ao reviver tempos idos da nossa meninice, que o diga o incansável Mário Proença, Diretor Adjunto deste quinzenário.

O OLHANENSE está de parabéns, assim continue a ser o baluarte do histórico Clube algarvio que merece e se impõe regresse tão breve quanto possível aos maiores do futebol português.

Mas, como várias vezes tenho referido, este quinzenário não é só de âmbito desportivo, embora seja a sua génese, mas face às gentes dinâmicas que se embrenharam no papel do papel de saber manter vivo um periódico em prol duma população, dá gosto ver todo o aspeto cultural que envolve o Jornal O Olhanense.

Parabéns, pois, a todos os seus Obreiros, por mais um ano de vida intensa em favor não só das gentes algarvias como de vários pontos do País.

 

João de Jesus Nunes

Covilhã

(In quinzenário "O Olhanense", de 15-05-2022)


LIVROS & AUTORES - In quinzenário "O Olhanense", de 15-05-2022

 


4 de maio de 2022

CAFÉS MÍTICOS O CAFÉ MONTALTO, NA COVILHÃ, E O CAFÉ ARCADA, EM ÉVORA

 

Ao longo das nossas vidas, mormente para quem ainda anda neste mundo, felizmente, há mais de sete décadas, como eu, tivemos o prazer de conviver momentos inolvidáveis nos cafés de referência. Esses lugares das facetas de cada um de nós.

Por todo o país, esses estabelecimentos eram testemunho duma convivência salutar. O ponto de encontro para os negócios da época, com ou sem as facilidades de hoje.  Da procura de alguém que servisse para apadrinhar um novo emprego. Mas também em momentos de cultura, ainda no desconhecimento das novas tecnologias. Nem sequer existia o telemóvel. Muitas vezes era o telefone do café o ponto chave de contactar alguém que habitualmente os frequentava. O recado deixado ao dedicado empregado dava ensejo de tranquilidade a quem se procurava.

Mas também ponto de reunião de uma determinada classe. Eram os que não davam louvas aos tempos do Estado Novo. Obviamente atentos, tanto quanto possível acautelando as suas conversas. Ali podia estar um pide disfarçado que tapava a cara com a gola do seu sobretudo.

Os estudantes davam uma escapadela para uma disputa entre os bilhares. E não só. Também os “Leões da Serra”, jogadores de futebol da I Divisão.

Os menos abastados, esses, coitados, davam azo à sua camuflada revolta. A sua permanência nas muitas tabernas de então, ou cafés menos frequentados. Evitavam encontrar-se com os patrões. Viam-se também nos bares das muitas coletividades de bairro existentes.

E, na tranquilidade da leitura do jornal, de dimensões exageradas, liam-se os artigos do enorme Diário de Notícias ou d’A Bola, que contrastava, em tamanho, por exemplo, com o Diário Popular ou o Record.

O Montalto, na Covilhã, que há muitos anos encerrou as suas portas, era conhecido como o café dos industriais. Era ainda o café da alta e da média burguesia, onde pequenos grupos se formavam em função dos negócios e interesses como descreve José António Pinho num dos seus livros. Aqui se bebia a bica, confecionada com os melhores lotes de café da Cafeeira, e que custava o dobro.

Mas também foi lugar de encontro dos descontentes do antigo regime, como aconteceu aquando da visita do General Humberto Delgado, em campanha eleitoral, que deixou o Montalto a rebentar pelas costuras, tão repleto que estava de gentes em vibrante entusiasmo. Estávamos em 1958.

Mas se acima falámos de cultura, outros cafés covilhanenses foram de memórias como o extinto Café Leitão, onde o escritor Ferreira de Castro escreveu o romance sobre os lanifícios – A Lã e a Neve.

Passando da zona serrana para a alentejana, aí vamos deparar com o mítico Café Arcada, também ele rico de história. Era de facto o café da tradição. Abriu em 14 de fevereiro de 1942, tendo sido considerado um dos melhores do País, com mais de 100 mesas.

Nos primeiros tempos o Arcada foi frequentado pela burguesia local, pequenos grupos de intelectuais, gente do reviralho, profissionais liberais e estudantes liceais. Os latifundiários e os agricultores frequentavam o Café Camões, à Porta Nova. Mas com a perda de centralidade desta zona e o acrescido ganho de importância da Praça do Giraldo, estes passaram a tomar de assalto o Arcada às terças-feiras, dia do mercado semanal. Em plena Praça e no interior do café se discutiam e apalavravam negócios, tendo ali chegado a funcionar uma informal bolsa de gado. No seu romance Aparição o escritor Vergílio Ferreira relata bem o ambiente do Café Arcada quando nele entrou pela primeira vez em 1946, colocando a sua visão na boca do protagonista Alberto Soares. “…. Acabámos por marcar o encontro para o dia seguinte no Arcada sem que o Moura se lembrasse de que era uma terça-feira, ou seja dia de mercado. Com efeito, ao entrar no café, após o almoço, tive a surpresa de ver aquele vasto túnel apinhado de gente. O corredor atravancava-se de negociantes, porque era ali, entre bebidas, que se realizava o mercado da semana. A terça-feira era o ‘dia de porcos’”, como soube mais tarde que lhe chamavam.

O escritor ficou aliás com uma marca indelével do Arcada, pois foi ali que o seu colega e padrinho do casamento, Alberto Miranda, lhe pagou a boda, da qual consistiu dum galão a cada um e bolos, conforme revelou em “Conta-Corrente 2”.

Entretanto, com o passar do tempo, aos lavradores veio juntar-se uma corte de gente ligada ao mundo dos touros e ao marialvismo rural, composto por ganadeiros, toureiros e aprendizes, moços de forcados, apoderados, equitadores, aficionados e professores e alunos da Escola de Regentes Agrícolas.

Com a subida do Lusitano de Évora à I Divisão em 1952 a fama do café chegou a Lisboa. Os adeptos do Sporting, do Benfica e do Belenenses, do Vitória de Setúbal e do Barreirense, que aos milhares se deslocavam a Évora para apoiar as suas equipas, conheceram-no, apreciaram-no e dele fizeram grande propaganda na capital e arredores.

A Revolução de Abril acentuou-lhe a decadência retirando-lhe a antiga frequência dos terratenentes e seareiros, engolidos na voragem do PREC.

Esta situação durou alguns anos e causou o desgosto de quem por ali passava na época áurea. Mas mesmo ao findar do século passado a Cervejaria Trindade resolveu ocupar o espaço, remodelá-lo por completo, e manter-lhe associado o nome de Café Arcada.

(In "O Olhanense" , de 01-05-2022)

28 de abril de 2022

SERÁ POSSÍVEL A UNIÃO ENTRE CATÓLICOS E ORTODOXOS?

 Com a guerra na Ucrânia, em que a Rússia não quer que seja utilizada esta palavra bélica no seu território, e os ortodoxos russos se unem em favor de Putin, surge a pergunta em título.

Segundo se narra no livro A mais breve história da Rússia, de José Milhazes, no ano da conquista de Constantinopla pelos turcos, em 1453, Moscovo já constituía o centro religioso dos territórios russos, o metropolita passara a residir nessa cidade e a ser eleito pelos bispos russos, o que tornou independente a Igreja Ortodoxa Russa. E também por essa altura começa a surgir a ideia de Moscovo como sucessora de Bizâncio. Em 1472, Ivan II, o Grande, casou-se com a sobrinha do último imperador bizantino. O grão-príncipe de Moscovo começou a chamar a si os títulos de “autocrata” e “czar” e a usar a águia bicéfala de Bizâncio.

Refere ainda, naquela obra, que em 1054, os chefes das igrejas cristãs do Oriente e do Ocidente, ou sejam, o Patriarca de Constantinopla e o Papa de Roma, excomungaram-se mutuamente. Deram assim origem ao chamado Grande Cisma. Quase logo a seguir à queda de Roma às mãos dos bárbaros, as relações entre o Oriente e o Ocidente complicaram-se devido a disputas eclesiásticas e teológicas, sendo as fundamentais sobre a fonte do Espírito Santo (Filioque), se se devia usar pão fermentado ou não fermentado na Eucaristia e sobre a primazia do Papa de Roma.

Os católicos defendem que o Espírito Santo procede do Filho e do Pai, enquanto os ortodoxos acreditam que procede apenas do Pai. Na Igreja Ortodoxa, o pão da comunhão é fermentado e não se reconhece a primazia do Papa.

Foram feitas várias tentativas para superar esta fratura. A primeira no Concílio de Lyon, em 1274, e a segunda no Concílio de Florença, em 1439. Neste Concílio, Isidoro, metropolita de toda a Rus, apoiou a união entre católicos e ortodoxos. Veio a receber o título de cardeal das mãos do Papa Eugénio, mas logo que chegou à Moscóvia foi imediatamente preso e encerrado num mosteiro por ter tomado esta posição. Conseguiu fugir da prisão e refugiar-se em Roma.

As mútuas excomunhões só foram levantadas a 7 de dezembro de 1965, pelo Papa Paulo VI e pelo Patriarca de Constantinopla Atenágoras I, com vista a reiniciar o processo de aproximação das duas igrejas.

A 12 de fevereiro de 2016, o Papa Francisco concretizou um encontro histórico com Kirill, Patriarca da Igreja Ortodoxa Russa, em Cuba, dando início a um diálogo que se perspetiva poder ser muito longo.

Será que se houvesse a união entre estas duas igrejas, muito similares, da religião cristã, poderia contribuir para uma outra mentalidade dos senhores do poder, que, neste caso, é dum prepotente que não olha a meios para atingir os seus fins maléficos?

Apesar de católicos romanos e ortodoxos terem uma história comum, que começa com a fundação da Igreja primitiva e com a difusão do cristianismo pelos apóstolos, uma série de dificuldades ocasionou o progressivo distanciamento entre o Bispo de Roma e os Patriarcas. Primeiro veio a quebra da unidade política. Com a divisão do Império Romano em 395, a queda do Império Romano do Ocidente em 476 e o fracasso da tentativa de Justiniano de reunificar o império a partir de 535, o Oriente e o Ocidente deixaram de ter o mesmo governo. A partir do século VII, com a ascensão do Islamismo, as trocas económicas e os contactos por via marítima entre o Império Bizantino, de língua grega, e o Ocidente, de língua latina, tornaram-se mais difíceis, e deteriorou-se a unidade cultural.

Em muitos aspetos, a Igreja Ortodoxa é semelhante à Igreja Católica, preservando, por exemplo, os sete sacramentos, e usam as vestes litúrgicas nos seus cultos.

Seria muito importante a união entre as duas Igrejas, para a qual não pouparam esforços os últimos Papas. Esperemos que um dia tal venha a acontecer para o bem comum entre os cristãos.  

 

João de Jesus Nunes                                                                                  

  jjnunes6200@gmail.com

 

(In “Notícias da Covilhã” digital, de 28-04-2022)

14 de abril de 2022

UM 25 DE ABRIL NASCIDO COM UMA OUTRA ESPERANÇA

 

Na altura em que escrevo esta crónica está uma primavera muito fria. É a primeira estação do ano, depois de virado o equinócio em 20 de março. Mas os primeiros dias de abril não têm apresentado temperaturas amenas e agradáveis e aumento dos índices pluviométricos. Os dias começam de facto a ficar mais longos e as noites passam a ser mais curtas. O reflorescimento da flora terrestre começa a surgir. A mudança de hábitos, agora no modo de vestir, ainda está acautelado para o frio que não nos vai largando.

As televisões e os jornais enchem-nos de notícias do terror russo, com u8m Putin hitleriano, numa amálgama de nazi e jihadista, mas sobre este tema já muito me debrucei.

Como também já muito escrevi sobre a Revolução dos Cravos, sujeito a repetir algo sobre o tema.

Mas este ano há uma data insofismável que se reporta ao dia 24 de março de 2022. Conseguimos ultrapassar a ditadura vivida, em número de dias. São já, nesta data, 17500 dias em democracia, E a trombeta que assinala esta memorável data dá início às comemorações oficiais dos 50 anos do 25 de Abril, que se assinala em 2024. A efeméride é tão importante que as mesmas irão até 2026.

Outras datas também importantes serão registadas. Em 24 de março assinalaram-se os 60 anos da crise académica de 1962, quando o Estado Novo proibiu as comemorações do Dia do Estudante. Era então líder estudantil, naquela altura, Jorge Sampaio, que chegou a afirmar, por tal facto, que “o 25 de Abril começou a 24 de Março”. E é por isso que arrancam aqui as comemorações oficiais dos 50 anos do 25 de Abril.

Mas em 3 de abril também se comemoram 30 anos da morte de Salgueiro Maia, o capitão que comandou a coluna de blindados que veio de Santarém para vir cercar os ministérios do Ter4reiro do Paço, que fez o ultimato a Marcelo Caetano e o levou à rendição perante o general Spínola, e depois o escoltou até ao aeroporto de onde partiu para o exílio. Tudo sem disparar um tiro.

Nem toda a obra é perfeita, nem tudo se pensa que venha a surgir no âmbito dos nossos sonhos. Quem, como eu, viveu longo tempo na ditadura, e sonhou com outros tempos que passariam a ser risonhos, num horizonte de plena felicidade, apesar de a obra não ser perfeita, jamais se contava com condutas conducentes aos tempos que se viveram em ditadura, onde os pobres eram cada vez mais pobres, e os ricos com as algibeiras cada vez mais carregadas do vil metal.

Comemorámos esta data do 25 de Abril, algumas vezes já sem aquela força impulsora, intrínseca, indomável que inebriava as nossas almas. Foram muitos os governantes que, tendo uma imagem de homens e mulheres sérias, e até então honestas, por via do poder do dinheiro fizeram por olvidar esta caraterística duma pessoa confiável, porque o poder do dinheiro é mais forte que a robusta honestidade.

Apesar destas manchas que surgiram na nossa democracia, incluindo o desaproveitamento dos fundos europeus, e o seu esbanjamento em certos governos de Portugal, com o salto para a ribalta política de jotas, boys e girls, que muitos vieram prosseguir o caminho da governação, valeu a pena a Revolução dos Cravos.

O próprio antigo Presidente da República Ramalho Eanes admitiu que, na altura do 25 de Abril de 1974 “esperava mais”, afirmando que não foi feito o suficiente para se “politizar a sociedade”  e instituir uma “democracia dinâmica, em que o povo resolvesse participar, em que o povo sentisse que ele é efetivamente o dono da liberdade e o dono do país.”

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “Notícias da Covilhã” digital, de 14-04-2022)

6 de abril de 2022

OS MALANDROS – GALBA a. C, PUTIN d.C.

 

Ao longo dos tempos sempre houve quem se revelasse na maldade sob os ventos da história.

Hoje, depois de termos vivido num ambiente de paz reinante na generalidade do planeta, conforme já me referi noutro artigo, mormente na Europa, embora com ventos e marés pelo caminho, desde a Segunda Grande Guerra, eis que um malandro, sanguinário, agita ferozmente a invasão de um país soberano – a Ucrânia –, não se importando de lançar a guerra no mundo, declinando a paz. Isto já estamos fartos de saber diariamente.

Em Portugal superou-se, em 24 de março do corrente ano, por um dia, o tempo vivido em ditadura.

A guerra passou a ser o fantasma e uma realidade na Europa. E as palavras: promessa, garantia, confiança, contrato de boas intenções, acordo oficial, foram substituídas por uma única que dá pelo funesto nome de traição.

E é nesta base que memorizo, por analogia, outro “Putin” de outrora, selecionado dentre muitos. Sérvio Sulpício Galba, em 151 a. C. recebeu o governo da Hispânia Ulterior como pretor, continuando a Guerra Lusitana. Os lusitanos causaram a Galba enormes perdas. Segundo os cronistas, na primavera de 150 a. C., Galba invadiu novamente a Lusitânia e os Romanos arrasaram o território. Quando os Lusitanos enviaram uma embaixada reclamando a violação do tratado que haviam firmado com o pretor Marco Atílio Serrano, e reiterando o seu propósito de manterem os termos de paz prometida por eles, Galba recebeu-os amavelmente. Prometeu-lhes terras férteis onde se poderiam estabelecer com as suas famílias, sob a proteção de Roma, se permanecessem leais. Acudiram cerca de 30 000 lusitanos solicitando o cumprimento dessa promessa. Galba, repartiu-os em três acampamentos e exigiu-lhes que entregassem as armas em sinal de amizade. Logo que tal aconteceu, rodeou-os com todo o seu exército e ordenou um ataque. Cerca de 9000 foram passados pela espada e 20 000 foram capturados e vendidos como escravos aos Gálias. Somente uns poucos conseguiram escapar, incluindo Viriato, que, anos depois, se vingaria por esta traição romana, em vários combates que ganharia.

Mas a diferença de forças em combate ia-se tornando em tarefas difíceis. E já Táutalo, o grande amigo de Viriato reconhecia que tinham pouco mais de três mil cavaleiros e dois mil homens a pé, contra mais de 30 mil romanos, em várias frentes de ataque.

As palavras de ordem do líder era “Temos de negociar”. Era evidente que lutar seria um suicídio. Saíram todos em silêncio, mantendo-se apenas Viriato, Táutalo , Audax, Ditalco e Minuro.

Os romanos Cepião e Lenate estavam em Tucci e Audaz, Ditalco e Minuro foram dar-lhes a conhecer as condições propostas por Viriato: “Não abandonamos as armas, mantemos o nosso território e não nos envolvemos em escaramuças“.

Viriato despediu-se da mulher, Munnia, e do sogro, Astolpas. Parte na sua égua “Milos”.

Entretanto, os emissários, homens de confiança, enviados por Viriato, são corrompidos pelos romanos com promessas de riquezas. E, na pessoa de Lenate, insiste: - “Não queremos as vossas terras, apenas as armas, para que haja paz.” “Lenate olhou de soslaio para Cepião, retirou três moedas de ouro do saco e distribuiu-as pelos três. E há mais de onde veio este”. O regresso dos emissários foi fatal para Viriato, assassinando o seu chefe enquanto dormia.  Termina assim aqui a vida deste notável guerreiro ibérico. Duas semanas depois, os três assassinos e traidores de Viriato, deslocaram-se a Tucci, a base da operação romana na Ibéria Ulterior. Iam receber a recompensa prometida por Lenate e Cepião.

Então, quando esperavam receber dos romanos, na pessoa de Libérius, o ouro que lhes haviam prometido, em troca pela morte de Viriato, os mesmos foram apunhalados e mortos, com esta indicação: – “Roma não negoceia com traidores”. Este é um exemplo entre muitos, ao longos dos tempos.

A outra face da moeda é depois de Cristo. Durante a Guerra Fria, a terceira maior potência nuclear do planeta não era o Reino Unido, a França ou a China, mas sim a Ucrânia. E com o colapso da União Soviética (URSS) em 1991, a nação recém-independente herdara cerca de 3000 armas nucleares deixadas por Moscovo em seu território. Três décadas depois, a Ucrânia está totalmente desnuclearizada. E o tema volta à tona agora que o país se encontra numa posição delicada após a invasão territorial comandada pelo Kremlin, que ameaça reagir a qualquer tentativa de interferência das potências da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) no confronto.

Através do Acordo de Budapeste, nos anos 1990, a Ucrânia decidiu abrir mão das armas nucleares deixadas em seu território em troca de segurança e reconhecimento como país independente. Tudo foi acordado por meio do Memorando de Budapeste, um acordo assinado entre o governo ucraniano, a Rússia, o Reino Unido e os Estados Unidos após o fim da URSS. No entendimento firmado em 1994 na capital da Hungria, a Ucrânia comprometia-se a aderir ao Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP) e a devolver para Moscovo as ogivas deixadas no seu território.

Em troca da desnuclearização de Kiev, os governos da Rússia, dos EUA e do Reino Unido comprometeram-se a respeitar a independência, a soberania e as fronteiras existentes da Ucrânia e a abster-se da ameaça ou do uso da força contra o país. E agora o que está a acontecer? Putin, traidor, não respeita nada, brinca com a ONU, brinca com o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos. A ONU, NATO e UE só agora acordaram duma letargia em que se encontraram. Esperemos que uma azia neste maldito Putin o não largue até que seja absorvido por instintos de remorsos pelo imenso mal que está a ocasionar a milhões de pessoas que nada têm a ver com a sua disfuncionalidade cognitiva.

 

João de Jesus Nunes

                                        jjnunes6200@gmail.com

 

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 06-04-2022)

1 de abril de 2022

CONTE-NOS A SUA HISTÓRIA - JOSÉ ALBERTO FERREIRA AZEVEDO

 






Corria o dia 16 de novembro de 1941, em plena II Grande Guerra, quando nasceu o covilhanense, nosso entrevistado para este número do CE. Pessoa dotada duma extraordinária simpatia, amigo do seu amigo, que reúne no companheirismo muitos em seu redor.

Se ao ver a luz do dia, pela primeira vez, existiam fortes nuvens bélicas no Mundo de então, o seu destino, como tantos milhares de portugueses, seria o de se ver também obrigado a participar, longe da sua Terra, numa guerra subversiva, como então se designava, nos já longínquos anos de sessenta do século XX, para as bandas do continente africano.


Depois de, na tranquilidade desafogada, mesmo em tempo de racionamento, viver com os pais na Quinta Nova, no Refúgio, onde trabalhava na agricultura, feita a instrução primária, rumou, como tantos outros, para prolongar os estudos na Escola Industrial e Comercial Campos Melo. Aqui, volvidos três anos ficaria precocemente sem o pai, pelo que decidiu concluí-los no período noturno já que a quinta, com trabalhadores, necessitava então do seu apoio, assim como sua irmã e a mãe.

Tendo sido chamado para o serviço militar, cuja inspeção foi aos 19 anos, tentou ainda ser considerado “amparo de mãe”, a fim de se libertar daquela obrigação militar, o que não lhe foi concedida. Chegou mesmo a omitir as habilitações escolares, mas em vão.

É então incorporado no RI 10 em Aveiro no dia 14 de agosto de 1962, um ano após o início da chamada Guerra do Ultramar.

Como o mesmo reporta, “nessa altura do início da guerra colonial não havia condições logísticas decentes”. E conta algumas partes interessantes quão também de horripilantes que, face à sua extensão, não cabem nesta página mas que é interessante ouvir-lhe contar.

Em 14 de outubro do mesmo ano foi tirar a especialidade de armas pesadas metralhadora Breda, no RI 2 em Abrantes. Em 28 de novembro passou ainda pelo BC 6 em Castelo Branco e em 3 de setembro de 1963, estando de férias, recebeu ordem de mobilização, apresentando-se em Tomar, seguindo depois para Santa Margarida. Em 5 de dezembro de 1963, já com 16 meses de tropa, e como 1º. Cabo, embarcou com destino a Angola ao enclave de Cabinda, no paquete Vera Cruz. Foi incorporado no Batalhão 554 Companhia 553, chegando a Cabinda a 14 do mesmo mês, assumindo a responsabilidade operacional da Z A em 26 de dezembro. Aqui tiveram bastante atividade, felizmente sem qualquer baixa. A 12 de junho de 1964 seguiram mais para leste, uma zona mais ativa do inimigo (IN) onde sofreram a única baixa em combate. Em outubro de 1964 coube ao Batalhão assegurar a integridade da zona conhecida por Alto do Maiombe. “Aqui, tínhamos grupos de combate em Sanga Planície, em pleno Alto do Maiombe. Numa zona tão extensa só lhe foi atribuída uma Subunidade, que exigia patrulhamentos apeados da ordem dos 130 Km em ambos os sentidos. (…) Os reabastecimentos eram quase na totalidade feitos por meios aéreos e paraquedas. A acrescentar ao esforço físico despendido tinham ainda que reabastecer a pé um destacamento a 13 Km, transportando os géneros às costas, e dedicar o resto das energias na construção de edificações. Neste trabalho duro, a ação do IN fez-se sentir, como na Ponte do Lombe e emboscada em Sanga Miconge. Fizeram-se diversas operações entre elas a Caça Grossa onde destruímos um acampamento do IN – ‘Vale das Pacaças’, na fronteira com o Congo onde foi capturado 1 guerrilheiro e diverso material. O IN foi apanhado de surpresa e ainda ofereceu alguma resistência, mas acabou por sair em debandada já em território do Congo”.

De Cabinda ainda se deslocou para Tando Zinze, Prata, Pangamongo, Miconje, Caio Guembo, Malembo, Tchinzaze, Belize.

O dia mais marcante para o nosso entrevistado foi no dia 6 de dezembro de 1965 em que duas minas anticarro mataram 11 camaradas de uma Companhia que estava adida ao seu Batalhão.

Depois deste “resumo muito breve” – como nos conta José Alberto Azevedo, de muitas estórias “da história que tem do Ultramar”, embarcou em Luanda em 24 de março de 1966 chegando a Lisboa em 6 de abril, seguindo para Tomar, e daqui para a Covilhã, onde finalmente chegou no dia 8 de abril de 1966.

Passou então a exercer a sua atividade profissional de debuxo na indústria de lanifícios, na Covilhã, onde se aposentou.

 

(In “O Combatente da Estrela”, nº 126 – ABR/2022)

NÃO QUEREMOS MAIS GUERRAS

 

Depois de um período de paz entre nações de quase oito décadas, que resistiu até a terramotos políticos como o colapso do mundo soviético ou às sequelas da guerra civil nos Balcãs, a Europa assiste incrédula, assustada e preocupada a uma nova violação de fronteiras.

Os tambores de guerra vão sobrepor-se à prioridade mundial do combate à crise ambiental e climática, que exige uma necessária e urgente cooperação forçada entre todas as grandes potências.

Desde 1945 e o fim da Segunda Guerra Mundial que a Europa tinha atravessado um período de paz. Com exceção de alguns conflitos localizados que resultaram da independência de novos Estados após o já aludido colapso da União Soviética, nos últimos 77 anos não houve guerra na Europa.

As gerações de europeus que nasceram e viveram neste período nunca conheceram outra situação que não fosse a paz. Para aqueles que nasceram depois do fim da Segunda Guerra Mundial a paz é um dado praticamente adquirido.

O conflito militar aberto entre a Rússia e a Ucrânia, com o possível envolvimento dos países ocidentais, vem alertar o Mundo para as consequências dramáticas do fim da paz na Europa, e, quiçá, do Mundo.

Além da insegurança, da perda de vidas humanas e da destruição, há efeitos económicos imediatos que já se fazem sentir com as sanções aplicadas, a suspensão de trocas comerciais e a redução dos investimentos.

No ano transato comemoraram-se os cem anos da fundação da Liga dos Combatentes ao serviço de Portugal e de seus gloriosos Combatentes; e também sessenta anos do início das guerras coloniais em que os portugueses foram envolvidos por força da teimosia dum regime ditatorial que, felizmente, teve os seus últimos dias em 1974 com a Revolução dos Cravos.

Sem olvidar o tempo difícil por que certamente iremos passar, fruto também de um assassino ditador russo, desejoso do imperialismo e saudosista da URSS, derrubada em 1991, sabemos que, em 1974, havia 150 mil jovens portugueses compulsivamente a prestar serviço nas Forças Armadas, a maior parte das quais em Angola, Guiné e Moçambique e que a guerra colonial sorveu, em 13 anos, mais de 90% da juventude masculina, obrigada ao serviço militar de dois a quatro anos. Segundo dados do EMGFA, dos 8831 militares portugueses mortos devido a várias causas, 4027 perderam a vida em combate e a guerra provocou ferimentos e deficiências físicas em cerca de vinte mil, dos quais 520 com grau superior a 60%. Relativamente aos portugueses que foram psicologicamente afetados, com stress pós-traumático, que atingiu ex-combatentes e famílias inteiras, embora o número seja contestado, contabilizaram-se 140.000, segundo informação do Público.

Com base no mesmo periódico, ainda está por calcular o verdadeiro número de compelidos, refratários e desertores portugueses, cujo papel, tal como o da emigração, contou tanto contra o esforço de guerra colonial, como para o 25 de Abril de 1974. Sobretudo, estão por contabilizar quantos africanos, civis e dos movimentos de libertação morreram, ficaram feridos e com stress pós-traumático. Os mortos africanos terão chegado pelo menos aos cem mil.

Escrevi estas linhas no dia 8 de março, dedicado ao Dia Internacional da Mulher. Não podemos também esquecer a Mulher em tempos de guerras. Como temos sobejamente presenciado, vemo-la a carregar o peso de deixar o marido para trás e levar pela mão os filhos pequenos, a caminho de um país que acolha os refugiados da Ucrânia. É a maior prova de fogo a que milhares de mulheres europeias estão sujeitas. O mesmo já aconteceu na Síria, no Afeganistão. Desta vez toca-nos mais perto. É no Velho Continente, conforme refere Rosália Amorim, in DN, que parece ter esquecido as feridas profundas da Segunda Guerra Mundial, que eclodiu o conflito que dilacera as famílias.

Ainda sem termos saído de uma outra guerra – a pandemia Covid 19 – que também as nossas gerações não haviam conhecido, faltava-nos a crueldade de um ser humano, se é humano que assim se possa chamar, a esse tétrico Putin, qual novo Hitler, amante de uma nova guerra.

Resta-nos, pois, afirmar gritantemente: NÃO QUEREMOS MAIS GUERRAS!

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “O Combatente da Estrela”, nº 126 – ABR/2022)

 

16 de março de 2022

ACIRRADOS: DAVID E GOLIAS OU O LOBO E O CORDEIRO

 

A caminho de algum lenitivo face ao abrandamento da pandemia que afetou todo o Planeta, todas as gerações do século XXI e a grande maioria do século que o precedeu jamais passara por uma situação como aquela que agora vivemos.

Estávamos já a respirar de algum alívio, num novo mundo, quando surge um Golias diabolizado que há muito ia espreitando a oportunidade de, pensando ser trigo limpo, querer dissipar o pequeno David – Zelensky.

Estávamos naquela quinta-feira de 24 de fevereiro quando o “Golias” Putin, não à frente do seu Exército – o segundo mais poderoso de todo o mundo – mas a agitá-lo à distância, iniciou a conquista pela força de regiões inteiras no país vizinho – Ucrânia, que ocupa o 22.º lugar deste ranking, com um pequeno mas grande “David “  em Kiev.

Durante semanas, o russo Putin garantiu que o destacamento de 150 mil soldados russos e de colunas com tanques e camiões se destinavam apenas à realização de exercícios militares. Mas mais não era, como já se adivinhava, de planear uma invasão ao país vizinho – Ucrânia. Já recentemente havia decidido reconhecer como países independentes as autoproclamadas repúblicas de Donetsk e de Lugansk cujas capitais estão ocupadas por forças pró-russas desde 2014. O “Golias” querendo utilizar algum ardil dizia que eram “forças de manutenção da paz” – a paz diabolizada de Putin, no seu chico-espertismo.

 

Extramuros, do lado da União Europeia, surgem as contribuições para as fundas das primeiras pedras em defesa do pequeno David, com um primeiro conjunto de sanções que teve como alvo as entidades que financiam estas operações militares, bem como os indivíduos responsáveis por esta desastrosa decisão invasora: fortunas congeladas e os britânicos a colocarem ponto final nos programas “vistos gold”. Os alemães, já sem a senhora Angela Merkel, mas com o então novo chanceler alemão a anunciar a suspensão do gasoduto Nord Stream 2, um enorme empreendimento que liga a Rússia e a Alemanha através do mar Báltico, uma oportunidade de ouro para aumentar a capacidade de exportação de gás natural russo para o mercado europeu a preços baixos, pois que, neste caso insofismável, temos que compreender que nem tudo o que luz é ouro.

Para grande estupefação da Europa que já não presenciava nada assim há muito tempo, e até pensava não mais vir a assistir a tão lamentável dilaceração duma parte deste Continente, vê chegar não a sombra de uma nova guerra fria, nas memórias do bíblico Golias, ou mesmo de Nero, mas do passado a papel químico Hitler versus Putin.

 

A União Europeia, ainda não totalmente refeita duma das suas parcelas desavindas, viu o Reino Unido dar uma resposta à Rússia, à altura da gravidade da situação, congelando atividades bancárias, bens de oligarcas, ao mesmo tempo que apelava à exclusão da Rússia do sistema de pagamentos SWIFT. Será caso para dar o grito do Ipiranga: Viva o Brexit!

 

Conforme refere Jorge Almeida Fernandes, in Público, “Décadas sem guerras de potências mudaram a mentalidade dos europeus. A comemoração do 70º aniversário do fim da II Guerra Mundial garantia o fim das guerras no Continente”. E transcreve da americana Rosa Parker que “Passámos anos a acreditar que a guerra e o terror iam acabar e que as liberdades seriam garantidas”.

 “Tal como Heródoto escrevera há dois milénios e meio: ‘Ninguém é suficientemente insensato para preferir a guerra à paz. Nos tempos de paz, os filhos enterram os pais; nos tempos de guerras, os pais enterram os filhos’”.

Em 2014, tivemos um aviso: a Rússia anexou a Crimeia e os russófilos ucranianos ocuparam parte do Donbass. Foi a primeira anexação territorial pela força, na Europa, desde 1945. Pelo que se infere que o que agora sucede começou em 2014.

Para compreender a fixação de Putin com a Ucrânia torna-se necessário ir à sua juventude, ele que nasceu em 7 de outubro de 1952 em Leninegrado, atual São Petersburgo. Cresceu, como tantos da sua geração, sujeitos à força da propaganda soviética. Portanto, ainda tem frescas as feridas do colapso da União Soviética e da perda da sua esfera de influência. Por isso, este ditador já considerou o fim da União Soviética como “a maior catástrofe do século XX”, pior na sua opinião do que as duas guerras mundiais. No discurso em que reconheceu a independência de Donetsk e Lugansk, Putin voltou a 1991 para argumentar que a Ucrânia não é “um Estado”, tendo sido “roubada” à Rússia pelo colapso da União Soviética.

Este Putin – o homem mais solitário do mundo – e o seu regime escondem na mentira e na dissimulação uma vontade de poder insaciável. Parece encontrar-se perdido nos seus discursos demenciais e belicistas.

E no meio de tanta desgraça ocasionada pela vontade de um único homem, maldito Putin, não obstante procura de acabar com a guerra na Ucrânia, nas conversações para a paz, se é de paz que ele alguma vez lhe interessa falar, atribui culpas à Ucrânia, a qualquer jeito, como na fábula de La Fontaine, “O Lobo e o Cordeiro”, donde extraio um pequeno excerto, depois da fábula prosseguir com provocações grosseiras por parte do lobo, que o cordeiro foi tentando rebater. Mas o lobo estava, tal como Putin, desde o princípio, determinada a comer o pequeno animal. Por isso, sem piedade, e de todo indiferente à razão decidiu atacar e matar o cordeirinho: “Esta fábula dá brados/Contra aqueles insolentes/ Que por delitos fingidos/Oprimem os inocentes”.

E, para vergonha nacional, o PCP, através dos seus responsáveis, alguns tentando desculpas esfarrapadas, colocaram-se ao lado de Putin, rejeitando sanções aprovadas pela União Europeia. Se este Partido Comunista Português já se encontra em decadência, com este tiro nos pés, mais afundou o seu barco a navegar em águas turvas e turbulentas.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In "Jornal Fórum Covilhã", de 16-03-2022)

9 de março de 2022

SAUDOSO VERÃO AZUL COM CRIANÇAS DE CHERNOBYL

 

Esta terrível guerra surgida entre duas nações – Rússia e Ucrânia – a mando de um carniceiro russo – Vladimir Putin, desejoso de voltar aos tempos da União Soviética, ou, mais que isso, formar um único grande império que pudesse competir com o Mundo, baseando-se nas suas armas nucleares, tem levado, em poucos dias, ao extremo da desgraça em muitas famílias ucranianas, principalmente, com a grande maioria das gentes deste Planeta a insurgir-se contra esta tentativa de usurpação do poder ucraniano.

Lamentavelmente, mesmo assistindo ao que nos entra pelos olhos adentro por via das televisões e outros meios de comunicação social e, no âmbito das novas tecnologias, as redes sociais, ainda há um partido português, dito democrático, que se coloca ao lado da ditadura de Putin.

Vem este texto a propósito, não só pelo que já é sobejamente conhecido de todos do que se está a passar entre as duas nações beligerantes, e as suas repercussões pelo mundo fora, numa das desgraças que jamais pensaríamos viessem a existir, depois da II Guerra Mundial, e da queda do Muro de Berlim, mas também pelo post que encontrei no Facebook do conhecido jornalista da RTP, Mário Augusto, a propósito duma sua visita que efetuou, há nove anos, a Chernobyl.

Foi em 26 de abril de 1986 que o quarto reator da central de Chernobyl explodiu, libertando sete toneladas de combustível nuclear e radiações cem vezes superiores às das bombas de Hiroxima e Nagasaki, durante a II Guerra Mundial. Nem sabemos como continuam ali a viver quando Kiev fica a uns 70 quilómetros.

E é Mário Augusto que assim se refere no seu post: “O planeta redondinho e azul, às voltas no silêncio sepulcral do universo, lá segue a rota do sol como se nada fosse, mas cá em baixo a vida e o mundo trocam-nos as voltas sem aviso nem compasso de espera. Há nove anos estive na Ucrânia, em Kiev, em Ivankiv, em Prypriat em Chernobyl. Vim de lá aterrado pelos olhares das crianças que vi… e não havia guerra, só pobreza e falta de esperança e sorrisos. A minha família tinha acabado de integrar um projeto solidário dinamizado pelo então presidente da Liberty Seguros (homem de coração grande) José António de Sousa que pagava o transporte e a logística para que dezenas de crianças da região de Chernobyl tivessem umas férias de sol, um VERÃO AZUL com famílias de acolhimento. Com a aposentação de José António de Sousa, as linhas mestras da companhia foram outras e o projeto de uma década acabou sem mais, para tristeza dessas famílias de acolhimento que tudo faziam para dar a alegria e esperança a essas crianças, que chamavam como filhos durante pouco mais de um mês de Verão Azul, iam aos médicos, compravam roupas e guloseimas, divertiam-se. Ficaram laços para a vida, laços eternos. Essas crianças e jovens não sabem, mas deram-nos mais do que lhes demos nós de carinho e verão. São esses meninos de Ivankiv que por estes dias nos ligam num pranto assustado que nos arrepiam de dor e aflição pelo que estão a viver. Há famílias que quando conseguem ligar (nada fácil por falta de energia e rede nos esconderijos, nas caves enterradas nas casas sem nada) ouvem-se tiros e explosões pelo telemóvel, o crepitar dos escombros que ardem. (…)”.

Foi assim que de imediato entrei em contacto com Mário Augusto e lhe enviei o meu livro “O Documento Antigo – Uma outra forma de ver os Seguros”, prefaciado pelo Dr. José António de Sousa, indicando-lhe que nas páginas 393 a 397 poderia ler essa meritória ação da Seguradora, então sob a égide deste administrador, sob o título “Até ao último verão – Verão Azul é o projeto que traz crianças de Chernobyl a Portugal”, e, na página 395 lá era feita referência ao jornalista Mário Augusto.

Por coincidência, na sexta-feira, 4 de março, lá estivemos no Sabugal, num encontre de amigos, onde não faltou a presença do Dr. José António de Sousa.  Próximo, em Seia, dia 6 de maio.

Paradoxalmente ao bem que era feito às crianças de Chernobyl, o satânico Putin, sem coração nem alma, incendeia com bombas uma central nuclear e força a ocupação para seu controlo da maior central nuclear da Ucrânia.

Só nos resta esperar que este diabo à solta, e seus apaniguados, como Sergei Lavrov, tenham momentos perturbadores nas suas consciências, se é que neles elas existem, que os façam sentir o enorme mal que estão a ocasionar à Humanidade, onde se inclui o seu próprio povo.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmaqil.com

(In "Notícias da Covilhã", de 10-03-2022)

16 de fevereiro de 2022

A PULGA BONITA DE ARRAIOLOS


 

Não se trata daquele conhecido inseto de que todos fugimos mas tão só do nome de uma linda jovem cujo rosto andou nos bolsos de todos os portugueses, muito antes de se falar no euro, salientando-se nas moedas de 5 escudos e 50 centavos.

Pois bem, em 1910, com 18 anos (outros referem 16) – Hilda Pulga de seu nome, natural de Arraiolos, onde nasceu em 1892, serviu de modelo para o Rosto da República, ao escultor Simões de Almeida, sempre sob o olhar atento da mãe.

Foi ela que posou para o busto da “República”. Um seu familiar veio a saber que a senhora foi para Lisboa muito jovem, com os seus 10 a 13 anos, e que “as fomes daquela altura”, no Alentejo, que “eram muito grandes”, terão motivado a sua mudança para a capital, exercendo a profissão de costureira.

A sua vida foi repleta de aventuras. Ela, que consta ter sido profundamente monárquica, muito católica e reacionária, aceitou o pedido do escultor, por amor ao País. Hilda trabalhava numa camisaria na Rua Augusta, na Baixa de Lisboa. Estava a fazer uma entrega quando se cruzou com o escultor, que lhe achou graça, vendo nela o rosto cheio de beleza e o ideal para o trabalho que pretendia executar, convidando-a assim para sua modelo. Como Hilda era menor de idade, Simões de Almeida teve de pedir autorização à mãe dela, que lhe impôs duas condições: ela própria teria de estar presente nas sessões; e a filha teria de posar vestida. No entanto o busto do escultor mostra uma mulher de amplo decote, com o pescoço e os ombros descobertos, o peito envolto por um manto com a esfera armilar ao centro e a cabeça coberta por um barrete frígio. Mas Hilda jurou que só tinha desabotoado um botão da camisa e que o escultor apenas lhe moldava o rosto.

O pai de Hilda era um homem abastado, proprietário da fábrica de tijolos da praça de Touros do Campo Pequeno, em Lisboa. Um revés nos negócios obrigou-o a vender a fábrica, e atraído pelo negócio da borracha, rumou para a Amazónia peruana, onde veio reunir a mulher e os cinco filhos, erguendo um armazém geral. Lá foi Hilda, a mãe e os quatro irmãos, numa longa viagem de três meses, de Lisboa para Belém do Pará, de “vapor, barco e piroga”. Após três anos felizes na Amazónia, o pai adoece, tendo que regressar a um clima temperado, a conselho médico. A família Pulga regressa a Lisboa mas o pai não aguenta a viagem e morre a bordo, ao largo de Cabo Verde, sendo o funeral feito no mar.

Surge a miséria na família, sem o sustento necessário. Hilda Pulga dedicou-se à costura e nunca deixou de costurar a vida toda, até aos 96 anos: “lençóis, toalhas, fardas de empregada, crochet”, ocupando-se muito em leituras. Antes dos 30 anos teve um primeiro cancro, e, na mesma altura, casou-se com um jornalista, cujo matrimónio durou somente dois meses. Apesar de muito católica, pediu o divórcio em 1932 (ainda antes da Concordata ser assinada em Portugal). Voltou a casar-se e nunca teve filhos, criando uma sobrinha. Aos 77 anos optou por ir para um lar, remetendo-se à clausura total. Faleceu com 101 anos, em 1993.

Com a implantação da República, foram modificados os símbolos nacionais: a bandeira, o hino nacional e o busto. Este símbolo – o busto da República – sendo a representação de uma ideia, é expresso de forma icónica através do busto de uma mulher, ostentando um barrete frígio. A imagem teve como inspiração a obra “A Liberdade guiando o Povo”, pintada em 1830 pelo francês Eugene Delacroix. Esta imagem da República é uma herança da Revolução Francesa (1789) e dos seus ideais, nomeadamente a liberdade, a fraternidade e a igualdade. Em Portugal, esse símbolo nasceu em meados do ano 1908, em pleno período de forte descontentamento e de grande agitação popular, no ano em que teve lugar o regicídio, ou seja, dois anos antes da vitória definitiva da República. Foi assim que um grupo de republicanos portugueses, liderados pelo Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Braamcamp Freire e pelo arquiteto e vereador municipal, Ventura Terra, resolveram abrir concurso para que fosse elaborado um busto de mulher que, à boa maneira francesa, fosse um símbolo que facilmente a generalidade do povo português, fortemente marcado por iliteracia, pudesse compreender. E assim surgiu a alentejana Hilda Pulga, que, com todos os preconceitos que existiam, no início do século XIX, era preciso ter muito arrojo para posar para um artista e Hilda teve essa coragem. Durante um mês, Hilda Pulga posou duas horas por dia para que se concretizasse o busto…Foi obra!...

O busto oficial da República foi escolhido num concurso nacional promovido pela Câmara Municipal de Lisboa em 1911, do qual participaram nove escultores. É da autoria de Francisco dos Santos e está exposto na Câmara Municipal. Existe no entanto outro busto que foi adotado como o rosto da República, da autoria de José Simões de Almeida, embora tivesse ficado em segundo lugar no concurso, e criado em 1908.

Hilda Pulga foi a jovem, de carne e osso, que corporizou a República.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “Notícias da Covilhã”, de 17-02-2022)

E TUDO O VOTO LEVOU

 

Um vendaval de “surpresa” ocorreu nestas últimas eleições. A maioria absoluta do PS colocou o país qual Milagre das Rosas.

Fartos já de ouvirmos a palavra “polarização”, e outras mais do mesmo, como no início da democracia aquelas “amplas liberdades democráticas”, a resposta dos Portugueses não poderia ter sido melhor a penalizar aqueles que contribuíram para o desfecho destas eleições.

Nas desculpas esfarrapadas dos (ir)responsáveis pela situação que os próprios geraram, levaram grande parte do espaço da campanha eleitoral a bater no ex-primeiro ministro, ao não querer apresentar alterações ao orçamento chumbado, em vez de eleições, de que a ideia de António Costa era ter a maioria absoluta.

Acredito que CDU e BE jamais pensariam levar a direção deste caminho, e, logo após o chumbo do Orçamento de Estado, a fisionomia de Jerónimo de Sousa era bem evidente. “A dirigente bloquista passou a primeira metade da campanha a justificar a decisão da rejeição do Orçamento e a segunda metade a parecer querer pedir desculpa por tê-lo feito”, pelo que, nas palavras de Boaventura de Sousa Santos, coloca em dúvida a credibilidade daquela dirigente.

Agora, “O PS pode fazer o que quiser. Preparar as suas políticas e designar os seus protagonistas. A nada está obrigado, a não ser à lei e à democracia. À justiça e à honestidade”, segundo as palavras de António Barreto.

Estas não foram as primeiras eleições que decorreram em pandemia. No entanto, desta vez as circunstâncias foram diferentes, com um elevado número de infetados, bem como em isolamento profilático, que, previamente inscritos, puderam votar os que o desejaram fazer.

Com o trambolhão enorme da CDU e o BE (pena terem deixado de ter presença no Parlamento os históricos António Filipe e João Oliveira, que vão fazer falta no hemiciclo), o PS deixa de ter desculpas para protelar as reformas que se impõe realizar.

O mal de que vinha padecendo o CDS tornou-se de morte para a sua continuidade no novo Parlamento (ele, um dos fundadores da democracia), e já nem de partido de táxi passara a ser. Partidos de bicicleta, esses são agora o PAN e o LIVRE, com a eleição de um único deputado.

Pois é, o povo português gosta de estabilidade e já não vai à bola com o populismo que certas lideranças aproveitam para apregoar na estrada. No entanto, “convém entender que a nossa democracia já está amadurecida e há chicanas políticas que quem vota não perdoa. Logo a devido tempo lança a farpa para agir em legítima defesa”, na interpretação de José Albano, in A Guarda.

Não podemos esquecer a extrema-direita, com o CHEGA a alcandorar-se como terceira força política, a IL também em posição destacada, mas temos fé que o Povo Português saberá defender a democracia, o que leva António Barreto a dizer no seu artigo in Público, sob o título “Sem desculpas”: “O PCP e o Bloco, que liquidaram o atual Governo, foram derrotados, o que confirma a ideia de que Deus não dorme”.

Numa análise do Expresso, “Os mais ricos votam mais IL, mais Bloco e mais CDU mas menos Chega. Os mais pobres preferem o centro e penalizam os outros partidos. Onde há mais RSI, o Chega tem melhor resultado. Mas nos concelhos mais jovens o PSD é dos que mais perde”.

O chefe do novo governo terá que ter o entendimento do PSD para poder fazer grandes reformas uma vez que são necessários dois terços de deputados no Parlamento. Já sem as amarras do Bloco de Esquerda e do Partido Comunista, António Costa, nas suas inevitáveis dificuldades deste novo governo (que sempre irão existir) decerto tudo fará para utilizar bem a maioria absoluta a favor do crescimento e do desenvolvimento do País, esperando-se sem cedências a clientelas e amiguismos.

É que, conforme referiu Agustina Bessa-Luís, “O país não precisa de quem diga o que está errado: precisa de quem saiba o que está certo”.

E, assim, António Costa, dentro de quatro anos, poderá sonhar com Belém.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 16-02-2022)

19 de janeiro de 2022

2022 – DESEJAMOS UM NOVO TEMPO

 

Chegámos ao fim de mais um ano. Foram trezentos e sessenta e cinco dias. Muitas vezes nos pareciam ter o dobro do tempo. Noutras situações, paradoxalmente, as horas não eram suficientes para chegar a bom porto no cumprimento dos desafios que tínhamos pela frente. Quantas vezes tivemos que agarrar o touro pelos cornos.

A entrada no novo ano, se bem que deve ser encarada com expetativa, está, no entanto, rodeada de incertezas. Vejamos como já estávamos a caminho dum certo lenitivo da fase pandémica, e, dum momento para o outro, surge a variante Ómicron. Os internamentos nos cuidados intensivos são em grande parte de não vacinados. De quando em vez lá vejo na necrologia alguns dos teimosos negacionistas. Outros, chegaram ao arrependimento só quando se viram com as algemas da doença que não perdoa.

A principal incerteza coloca-se quanto ao fim da crise pandémica. Esperávamos um efeito da imunidade de grupo tudo se direcionando para o fim da pandemia quando surgem as novas variantes como a já referida. E não fica por aqui, pois nos últimos dias, conforme noticia o Público, têm surgido notícias e burburinho sobre uma variante do SARS-CoV-2 identificada em França, a B.1.640.2, com mais de 40 mutações genéticas. “Especialistas têm-se desdobrado a explicar que, por agora, não há motivos para alarmismos. É para se ir vigiando, tal como acontece com outras variantes do vírus.”  Inverteu-se assim a tendência e atrasou-se o regresso a uma melhoria da situação por que todos ansiamos, no caminho duma normalidade que jamais será como antes de finais de 2019.

Desejamos um novo tempo. Estamos cansados de “dar tempo ao tempo”, ou até mesmo, para os cotas como eu, de “matar o tempo”, que, aliás, não se me adapta, porquanto sou um fervoroso adepto do “a tempo e horas” e tudo fazer “em dois tempos”, não deixando de “ocupar o tempo”.

Muitas das minhas crónicas se têm assumido no espaço temporâneo de contextos da espuma dos dias. Mas, quantas vezes, “de tempos a tempos” caio na tentação, qual mania, de ir aos tempos de outrora.

Antes desta maldição da pandemia, que quase só da história conhecíamos, retirou-nos da fase em que tudo era “a seu tempo” e que nos tempos que correm se tornou impensável. Como refere Sandra Marques, in Vida Económica, “Quase tudo é frenético, instantâneo, apressado, irrefletido e volátil, porque não temos tempo a perder”.

Foi repentina a transformação verificada, e inesperada, nas nossas vidas, com a amálgama de notícias em que nos vão surgindo aquelas que parecem boas e são más, e outras más que podem ser excelentes.

As expetativas para 2022 colocam-se de imediato no plano político, com as eleições de 30 de janeiro. Espera-se que as legislativas clarifiquem a situação política e permitam criar um governo estável.

De facto, ao estarmos a atravessar uma quinta vaga da pandemia, com os impactos e a incerteza que disso resulta, quiseram os senhores parlamentares mergulhar-nos numa crise política e em eleições antecipadas, “por simples recreio e regozijo da esquerda mais radical, daquela que quer fazer a revolução na rua, com sangue e dor, mas que o Governo de António Costa escolheu como predileta para acordos, e que alguns dos mais jacobinos no seu partido querem manter como prioridade para futuro”, nas palavras do Jurista e Gestor, Paulo Vaz.

É por isso que, reportando-nos ao tempo, na miscelânea de opiniões, têm cabimento os advérbios “sempre” e “nunca”, cedências ao tempo.

Com a expetativa de arranque simultâneo do PRR e do próximo quadro comunitário que em conjunto representam o volume mais elevado de recursos financeiros para apoio ao investimento público e privado, desejamos que este seja um novo tempo.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 19-01-2022)

12 de janeiro de 2022

A SEDUTORA NEVE

 

Foi na poesia de Augusto Gil que, na Guarda, onde passou a maior parte da sua vida e morreu – a “sagrada Beira” – se inspirou em 1909 para “A Balada de Neve”.

“Batem leve, levemente, /como quem chama por mim. /Será chuva? Será gente? / Gente não é, certamente / e a chuva não bate assim. (…) Fui ver. A neve caía / do azul cinzento do céu, / branca e leve, branca e fria… / - Há quanto tempo a não via! / E que saudades, Deus meu!”

A Serra da Estrela – montanha rainha do continente português, onde os covilhanenses se dispersam pela sua encosta e faldas, é a atração dos turistas nacionais e estrangeiros, mormente quando os flocos brancos e leves dão a alegria para quem visita esta cidade cosmopolita.

No domingo, 2 de janeiro, dei um salto às Penhas da Saúde, para acompanhar a família, e, na falta de neve nos caminhos da Estrela, estivemos no pavilhão “Serra da Estrela-Ice Arena”, ali instalado pela FDI-Portugal-Federação de Desportos de Inverno de Portugal, onde crianças, jovens e alguns adultos, ali se divertiram. Saudades da neve.

O mítico Café Martinho da Arcada, em Lisboa, “o café que se cruzou com a História”, completou 240 anos no dia 7 de janeiro. Este emblemático e mais duradouro café lisboeta tem grandes memórias. Apesar de ter aberto ao público em 1782, só quase 50 anos mais tarde o café viria a adquirir o nome que mantém ao dia de hoje. A sua fundação deve-se a Julião Pereira de Castro, neveiro-mor do reino, que inaugurou com pompa uma Casa da Neve – local onde se podia tomar refrescos e comer gelados graças aos blocos de neve trazidos propositadamente da Serra da Estrela para a corte.

Hoje, quando queremos alimentos frescos, congelados ou cubos de gelo, basta recorrer ao congelador do nosso frigorífico. Mas, até finais do século XIX, isso era difícil e caro. Produzir e trazer “neve”, ou, mais propriamente, blocos de gelo, da Serra da Estrela até Lisboa foi uma atividade iniciada em 1614 e que se prolongou até aos finais do século XIX, extinguindo-se com o aparecimento das fábricas de gelo industrial.  Foi o rei Filipe II de Portugal, que, estando com a corte em Lisboa, seguindo uma prática já usual na corte espanhola, pediu que produzissem neve (gelo) na Serra da Estrela e a trouxessem para Lisboa no verão, para ele a desfrutar em bebidas frescas e gelados. Foi então criada a figura de neveiro-mor (normalmente um fidalgo). Este estaria encarregue de fornecer diariamente entre 30 e 40 arrobas de neve à corte desde o primeiro dia de maio até ao último de outubro.

Segundo o Público, a neve era recolhida no inverno na Serra da Estrela e depositada em geleiras, poços profundos em zonas sombrias, compactada e coberta com palha, tornando-se gelo. No verão, os blocos de gelo eram recolhidos e cortados, geralmente no Covão da Ametade. Envoltos em serapilheiras e cobertos com palha, seguiam por carroças, burros e cavalo até ao Zêzere, se o caudal do rio o permitisse e, depois de Constança, pelo Tejo até à capital. Porém, o mais normal era a rota ser por terra até Vila Velha de Ródão e a partir daí por barco, pelo Tejo, até Lisboa. Aí era conservada em vários poços, como o do Martinho das Neves, hoje o Martinho da Arcada. Aqui, onde existia outrora um dos poços reais de conservação do gelo, anunciava-se a chegada da neve à capital com pregões, bombo e trombeta, sendo recebidos pelo rei.

Já José Mendes dos Santos, na sua Breve História Cronológica da Covilhã, nos narra que foi em 10 de abril de 1619, no reinado de Filipe II, que a Câmara de Lisboa fez contrato com Paulo Domingues, oficial de neveiro, que consistia em levar para a capital 96 arrobas de neve da Serra da Estrela para o fornecimento diário entre 1 de junho a 30 de setembro. A neve retirada da serra, ia em carros até à Barquinha, e daí em barcos até Lisboa. Mal chegava à cidade, era guardada em poços, havendo um junto ao Convento da Graça e outro no Castelo de S. Jorge. Em 1714 já se vendiam sorvetes de vários gostos e preços sendo o de limão o mais barato.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “Notícias da Covilhã”, de 13-01-2022)