20 de julho de 2022

ESTÓRIAS DE UM ARQUIVO JUDICIAL - A GRANDE DEVASSA E OUTRAS ESTÓRIAS

 


ESTÓRIAS DE UM ARQUIVO JUDICIAL – A GRANDE DEVASSA E OUTRAS ESTÓRIAS

Este é o segundo livro do juiz desembargador do Tribunal da Relação de Coimbra, Dr. José Avelino Gonçalves, que na Covilhã permaneceu vários anos então como juiz presidente do Tribunal Judicial da Comarca de Castelo Branco, e que na Cidade laneira e universitária, assim como na região, deixou grandes amizades e reconhecida competência.

Esta valiosíssima obra, obtida como a anterior, em 2020, da recolha de entre o pó dos sótãos onde os arquivos se tumulavam, reforça outras estórias quão interessante como de reais que ficariam para sempre sem qualquer utilidade, não fosse a paciência, sacrifício e tenacidade deste Homem – Juiz e Escritor – como já me havia referido num escrito em dezembro de 2020.

Acabei de ler este segundo livro e, não obstante dentre de algumas horas ir gozar uns dias de férias com a família, não podia deixar de digitar no teclado do meu computador um breve apontamento de várias estórias recolhidas pelo amigo autor desta nova publicação que me seduziu com memórias que, de algumas personagens ou referências das mesmas me transportaram para tantos assuntos que a esta região dizem respeito.

Por falta de espaço e de tempo, porque estou a caminho das duas da madrugada, apenas me reporto a algumas partes das últimas páginas, entre as quais a quantidade de barbeiros que, quantas vezes ardilosamente,  utilizavam a medicina indevidamente, como curandeiros, lá para as bandas de Penha Garcia, e onde o médico escritor Fernando Namora exerceu a atividade clínica em Monsanto.

Sobre a estória d’”O Capelão da Panasqueira e o casamento de consciência”, meu caríssimo amigo Dr. Avelino, não me podia deixar de alegrar ao recordar o padre Manuel Vaz Leal que eu e muitos dos Covilhanenses conheceram muito bem, pois era ele que cantava e fazia os sermões na Procissão dos Passos, com a sua eloquência e excelente voz.

Durante a minha vida profissional, numa das visitas às Minas da Panasqueira, tive necessidade de bater à porta do pároco para indagar algo, e atendeu-me o seu sucessor, o sobrinho padre Américo, que quando eu era jovem me lembro de ajudar o pároco da minha freguesia – São Pedro – o padre José Domingues Carreto, nalgumas festividades e mormente na Visita Pascal.

Depois, a direção do padre Leal como diretor do jornal O Mineiro.

Muito mais haveria a registar, mas tenho que ficar hoje por aqui.

Parabéns ao Dr. José Avelino Gonçalves por nos ter brindado com mais esta interessante obra.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

 

 

(In “Notícias da Covilhã” digital, de 14-07-2022)

19 de julho de 2022

MAPEAR AVENTURAS PELOS CAMINHOS SERRANOS

 

Nem sempre estamos inspirados para um tema que possa ser da apetência dos estimados leitores. Também nesta crónica não estou virado para as dificuldades que o mundo enfrenta face ao ditador mundial dos tempos que correm, aquele que se identifica com o famigerado Hitler, de igual modo odioso.

Assim, neste verão que há pouco emergiu, trouxe-me, mais uma vez, falar da Serra da Estrela em cuja falda é a minha vivência.

E é na montanha maior deste Portugal Continental que eu me sinto bem, sentado à porta da casa da Serra, contemplando o horizonte, do qual me vem a inspiração, na visualização dos rebanhos e dos pastores, do cão da Serra da Estrela, que vamos avistando ou até se aproxima nós.

Muito haverá que falar, para os que querem ter ouvidos para ouvir e olhos para ver, a partir, se quiserem, deste belíssimo recanto dos Hermínios, de in illo tempore.

E isto porque veio a propósito a homenagem aos Pastores da Serra da Estrela, com a criação, na Torre, de um novo espaço dedicado aos produtos da ovelha bordaleira. O ponto mais alto de Portugal Continental – a Torre da Serra da Estrela – tem um novo espaço dedicado aos pastores e ao produto do seu trabalho: a lã e o leite das ovelhas Bordaleiras. Este projeto constitui uma forma de apoiar o trabalho dos pastores da Serra da Estrela e assegurar a continuidade da profissão e da raça da ovelha Bordaleira. Contribuiu-se assim para o desenvolvimento da economia local e para a sustentabilidade social do território. De 275 mil ovelhas desta raça existentes nos anos 80 do século XX, há atualmente pouco mais de 23 mil.

Mas também, no âmbito do divino, no alto desta Montanha Maior, o paradoxo subsiste., com o prelado da diocese a que o local pertence – a Diocese da Guarda – por via do Departamento Diocesano da Pastoral Familiar a manifestar nas suas intenções, de, por um lado, e bem, promover o encontro diocesano de famílias na Torre, o ponto mais alto da Serra da Estrela, no dia 26 de junho, em sintonia com o X Encontro Mundial das Famílias, a decorrer em Roma, começando com a concentração na zona da Torre, seguindo-se um percurso pedonal, com apoio do Centro de Interpretação da Serra da Estrela, seguiu-se a celebração da Eucaristia, na Capela de Nossa Senhora do Ar (Torre), presidida pelo bispo diocesano, D. Manuel Felício.

Só que, tudo o que se tem desenrolado ao longo dos últimos tempos, aliás dos momentos que vão ultimar a vida deste prelado, face à idade, vão no encontro de ser o coveiro da Diocese da Guarda, como muitos dos seus apaniguados, incluindo sacerdotes e leigos ligados às organizações católicas, e não só, assim o consideram.

Estão nesta cartada não só o mais antigo órgão da comunicação social da Beira Baixa, centenário, como instituições criadas carinhosamente e que foram lugar de muitos eventos locais, regionais e alguns nacionais.  Estão assim na peugada de um homem que não soube conduzir a barca que lhe foi entregue. Não vou tecer mais comentários, aguardando tão só o desenvolvimento dos acontecimentos, na revolta que possivelmente vai existir em muitos dos que, por inércia, não se querem agora manifestar.

 Mas a majestosa Serra da Estrela trouxe-me à memória a beleza das suas enormes rochas, aqueles penedos que são uma aventura a sua subida, o medo de os poder subir, e, mormente, na descida. Já aconteceu comigo quando ainda existia alguma juventude mas que jamais conseguirei sonhar numa dessas aventuras nos tempos que correm. Jurei ser a última vez na minha vida.

Vejamos a descrição dos companheiros da Expedição Científica à Serra da Estrela, naquele longínquo ano de 1881, uma centena de homens, durante 15 dias.

Deixo alguns resquícios dessa expedição, sem descurar a subida ao Cântaro Magro.

“Depois, nas ‘Interpretações locativas’, falou-se na origem possível de ‘Monte Hermínio’, sendo que “uma tradição que chegou aos nossos dias designa a Serra da Estrela o Hermínio Maior; a de Marvão, o Hermínio Menor’”.

“E também o Malhão Grande ou Malhão da Estrela, nome dado ao ponto culminante da serra, designação que os pastores da localidade empregam. E cujo local se passou a chamar Torre, depois de colocada uma pirâmide, a qual foi mandada construir em 1806 pelo príncipe regente D. João. As aventuras dos expedicionários: ‘Se de dia e a distância ninguém observa os Cântaros pela primeira vez sem sentir vertigens e o coração comprimido, imagine-se o que nós sentiríamos às dez da noite aos vermo-nos presos no cume do Cântaro Gordo, rochedo de 413 metros de altura sobre a ribeira da Candeeira, eriçado de fragões escuros, no meio de profundos covões formado por outros fraguedos e despenhadeiros igualmente sinistros e medonhos! (…) Aqui, onde a natureza é horrivelmente majestosa e grande, ninguém deixará de se sentir infinitamente pequeno. (…) Chegado a este ponto fomos descendo, recomendando-nos o pastor que não olhássemos para os lados por causa da vertigem do abismo e que descêssemos de costas, não deslocando nunca uma mão sem ter a outra firme e segura ao rochedo. Estivemos parados algum tempo sem poder prosseguir nem retroceder. Estávamos suspensos entre a vida e a morte! Causava horror olhar para os lados ou para a frente. Fitámos então a vista nas estrelas para não sentirmos a vertigem do abismo cavado a nossos pés. – Estão salvos, disse-nos o pastor, porque desceram de noite e não viram o precipício’”.

No livro A Lã e a Neve, de Ferreira de Castro, foi narrada uma célebre descrição da Serra da Estrela, do início do capítulo III da Primeira Parte, a saber:

“A serra corre de Nordeste a Sudoeste, como imensurável raiz de outra cordilheira que rompesse longe do seu tronco. Belo monstro de xisto e de granito, com terra a encher-lhe os ocos do esqueleto, ondula sempre: contorce-se aqui, alteia-se acolá, abaixa-se mais adiante, para se altear de novo, num bote de serpente que quisesse morder o Sol. Ao distender-se, forma altivos promontórios, dos quais se pode interrogar o infinito, e logo se ramifica que nem centopeia de pesadelo, criando, entre as suas pernas, trágicos despenhadeiros e tortuosas ravinas, onde nascem rios e as águas rumorejam eternamente.

Vista do alto, sugere um fabuloso réptil, anfíbio e descomunal, cortado em dois o grande vale que teria surgido após haver secado o lago que aquele habitava. Examinada de banda, veem-se-lhe inúmeras patas estendidas e, a trechos, o lombo serrilhado. Esse gume com muitas mossas é, porém, ilusório. Contemplado de perto, o dorso da serra, como o dos cetáceos, mostra largas superfícies, ora chatas, ora abauladas, umas limpas de acidentes, outras cercadas de fragões, que, com estranhos perfis e enigmáticas atitudes, parecem defender as terras solitárias. O ser humano tem volume mais mesquinho do que uma velha giesta, do que uma velha urze, nesses planaltos que se alargam entre altas vagas de terreno, entre montanhas que cresceram no cimo da montanha.  E uma luz de mistério, ao clarear as chapadas e pendores, enche de temíveis sombras os silentes penedais, os rochedos majestosos, todos esses gigantescos vultos de granito que povoam a serra, como seus feros senhores.”

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

 

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 13-07-2022 e “O Olhanense” (artigo completo) de 15-07-2022)

 

 

6 de julho de 2022

O MANÁ

 

Não é aquele alimento caído do céu que alimentou o povo de Deus (Israelitas) no deserto. Não. Mas é o cereal que um dos maiores produtores do mundo, se não o maior, alimenta a maior parte do Planeta. Não estamos nos tempos bíblicos, mas muitas vezes como que pretendemos invocar esses momentos.

O trigo da Ucrânia, este país martirizado por uma potência diabolizada, como largas vezes referimos, está a dificultar-nos a chegada desse maná.

Se nos reportarmos à Bíblia, numa das suas narrativas, perante a fome verificada em todo o lado exceto no país do Faraó, Jacob envia os filhos ao Egipto para aí comprarem trigo e poderem viver (Gn. 42). Assim aconteceu e ali foram recebidos pelo seu irmão José que, por ter interpretado os sonhos do Faraó e propiciado uma gestão adequada do cereal recolhido nos anos de grande produção, fora elevado á categoria de chefe e governador do Egipto. A ele pertencia, por isso, conforme refere António Salvado Morgada, in A Guarda, a gestão do comércio do trigo procurado pelos povos vizinhos.

Agora, como também o mesmo refere, “o problema do comércio do trigo não se encontra na seca, mas na guerra. O trigo já terá entrado noutras guerras. Noutros lugares e templos. Sempre que há guerra, o trigo, como outros cereais, entra na guerra. Até pela sua ausência.”

Pois bem, o trigo entrando agora na guerra, tornou-se uma arma beligerante. Faz subir os preços nas padarias, chegando obviamente às nossas casas.

Esta maldita e evitável guerra da Rússia contra a Ucrânia, destrói as searas, arrasa a economia dos povos que neste cereal encontram uma das principais fontes de matar a fome.

Pena é que os senhores geradores desta guerra não sintam a falta do trigo às suas mesas e que lhes façam metralhar nos seus estômagos esta carência.

De facto, o trigo – este maná dos tempos de hoje, e de sempre – entrando na guerra, tornou-se arma de guerra. Inadmissível!

A guerra do trigo e dos cereais, acompanhando a guerra das armas, é uma guerra da fome e de outros nomes para a morte.

E é assim que já estamos numa escassez de produtos, prestes a bater às nossas portas com os industriais de panificação a sentirem os elevadíssimos preços deste cereal.

O espetro da fome paira sobre os mais pobres. Como irão ficar os países africanos?

Nesta presumível crise mundial dos cereais prenuncia uma “guerra mundial do pão”.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Notícias da Covilhã”, digital, de 07-07-2022)

 

29 de junho de 2022

FERNANDO BRITO FERREIRA


 







Cabe a vez de virmos falar duma figura sobejamente conhecida entre os Covilhanenses, ele também desta génese, comerciante até à sua aposentação, com estabelecimento que teve na Rua Ruy Faleiro, conhecido por “Casa da Borracha”, que herdou de seu pai.

Nasceu na cidade dos lanifícios em 10 de abril de 1947, e, como tantos outros da sua geração, que procuraram estudar no âmbito do ensino possível para a época, o Fernando optou então pelo Colégio Nun’Álvares, em Tomar, onde completou o 2.º Ciclo Liceal, sendo que o 3º Ciclo, que não chegou a concluir, foi no Externato de Santo António, no Fundão, onde era diretor o conhecido Dr. Menezes. Aqui foi colega dum que se evidenciava – o Gaiolas, mais conhecido por Salavisa, hoje Coronel da GNR aposentado.

Chegada a altura do serviço militar obrigatório, em tempo de guerra colonial – a chamada Guerra do Ultramar – Fernando Brito Ferreira foi incorporado no RI 5, de Caldas da Rainha, em janeiro de 1969, no Curso de Sargentos Milicianos.  Seguiu-se a especialidade que veio a tirar em Tavira, no CISMI, de atirador, em abril deste mesmo ano. Foi depois para o RI 2, em Abrantes, em 21 de julho de 1969, sendo daqui mobilizado para a Guiné como Furriel Miliciano, em 1 de agosto de 1969, que só viria a surgir em 31 de janeiro de 1970.

Nesta data marchou para Lisboa, de Abrantes, onde na mesma altura embarcou para o CTI Guiné, promovido já a Furriel Miliciano. Desembarcou em Bissau no dia 6 de fevereiro de 1970. Aqui tomou parte ativa em zonas operacionais, de 31 de agosto de 1970 a 26 de fevereiro de 1971.

Foi colocado em Teixeira Pinto, onde permaneceu todo o tempo de serviço naquela então Província Ultramarina.  Aqui desempenhava as funções de adjunto do Comandante de Batalhão, incluindo a segurança do quartel.

Competia-lhe também fazer segurança às povoações, para além do seu trabalho de operação e informação.

Embarcou na Guiné, de regresso à Metrópole, em 2 de dezembro de 1971, desembarcando em Lisboa, no Cais Conde da Rocha, em 8 de dezembro, onde o esperava a família.

Passaria à disponibilidade em 2 de janeiro de 1972, sendo posteriormente, já em casa, promovido a 2.º Sargento Miliciano, em 31 de agosto de 1072.

Recebeu já a Medalha Comemorativa das Campanhas na Guiné com a legenda: 1970/71 (O.S. 251 de 22 de outubro do B Caç. 2905).

 

(In “O Combatente da Estrela”, nº 127, de julho 2022)

O VIETNAME PORTUGUÊS

 

Neste mês de junho – mês dos Santos Populares – sobejamente conhecido ao longo dos tempos, é também o mês em que, a 10 de junho, comemoramos o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, assinalando-se desta forma o dia da morte de Luís Vaz de Camões.

Depois de terríveis tempos de isolamento que não permitiram festejos nem proximidade das pessoas, ainda persiste algum temor e a possibilidade de sermos apanhados pelos tentáculos do polvo pandémico, ainda que de menor gravidade.

Já chegava este problema mundial de saúde para ainda se vir acrescentar o da morbidez mental na demência de um ser existente à face da Terra que pretende comparar-se ao imperador Pedro o Grande, nas nuvens do seu orgulho. Disto não vou falar mais já que, lamentavelmente, é tema de todos os dias, pelas piores razões.

Venho, isso sim, mais uma vez reportar-me à guerra para onde nos enviaram, enquanto jovens das décadas de 60 e 70 do século passado, por teimosia salazarista e seus apaniguados, donde vieram a perecer tantos jovens que hoje ainda podiam estar entre nós, ainda que numa normal longevidade, e a gerar graves problemas psicológicos aos envolvidos nessas guerras injustas.

É a razão da notoriedade dos Núcleos de Antigos Combatentes, com é o da Covilhã, onde muitos vêm solicitar pedidos de ajuda nas várias vertentes das suas funções.

De harmonia com o livro “365 Dias com histórias da História de Portugal”, de Luís Almeida Martins, aqui deixo uma narrativa desses tempos vividos, de triste memória:

“Durante mais de 13 anos, quase metade do orçamento do Estado foi sendo desviado para ‘a Defesa’. Com o seu rasto e miséria, a Guerra Colonial foi o acontecimento mais traumatizante da segunda metade do nosso século XX.

Oitocentos mil jovens portugueses – quase um milhão! – foram mobilizados entre 1961 e 1974 para a Guerra Colonial que se travou em África contra os movimentos de libertação de Angola, Moçambique e Guiné. Desses, quase 9 mil morreram e perto 30 mil ficaram feridos ou estropiados. Um número não quantificado de ex-combatentes acusaria para sempre os efeitos psíquicos da guerra. Não houve família que não tivesse pelo menos um combatente em África. Muitas ficaram enlutadas, muitíssimas viram-se desde então a braços com problemas irresolúveis. Tudo poderia ter sido evitado se Salazar tivesse sabido descolonizar a tempo.

A Guerra Colonial determinou também a queda do Estado Novo e o regresso da democracia a um país que chegara a parecer esquecido dela. Não sabemos quanto tempo mais teria durado a ditadura se não tivesse havido a guerra, mas não há dúvida de que, ao gerar o descontentamento dos oficiais mais politizados e forçar a mobilização de estudantes contestatários do regime, ela foi o fator mais decisivo para a eclosão do 25 de Abril de 1974.

A guerra começou em 1961. No dia 4 de fevereiro, as prisões e esquadras de Luanda eram atacadas por nacionalistas angolanos. Seguiu-se uma chacina praticada por brancos nos musseques (o equivalente a bairros de lata) da cidade. A 15 de março, a pró-americana UPA (União dos Povos de Angola) espalhou o terror e a morte nas fazendas dos Dembos. Salazar enviou tropas para a colónia, mas após vitórias relativamente fáceis obtidas entre maio e setembro contra inimigos armados de forma artesanal, o pró-soviético MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) abria novas frentes em Cabinda e no Leste. Em 1966 pegou em armas a UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola), que mais tarde enveredaria pelo colaboracionismo com o regime português. Em meados da década, o MPLA era já considerado pela Organização de Unidade Africana o legítimo representante do povo angolano.

Do outro lado do continente, a Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique) iniciou a luta armada em 1964, em Niassa e Cabo Delgado, abrindo depois nova frente em Tete. Comandadas entre 1969 e 1972 pelo general ultra-direitista Kaúlza de Arriaga, as tropas portuguesas envolveram-se durante meses na Operação Nó Górdio, a de maior envergadura de toda a guerra, que não teve o êxito pretendido. A denúncia do massacre de Wiriyamu feita pelo sacerdote anglicano Adrian Hastings no Times londrino teve larga repercussão internacional.

Na Guiné, a guerrilha do PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e de Cabo Verde), dotado a partir de 1970 de mísseis terra-ar Strella, de fabrico soviético, foi a mais difícil de combater pelos Portugueses, que viram alguns jatos FIAT serem abatidos. A ação psicológica desenvolvida pelo carismático general António de Spínola, governador e comandante militar durante cinco anos, não impediu a proclamação unilateral da independência, em setembro de 1973. Antes tinha sido lançada a polémica Operação Mar Verde, um ataque à vizinha Guiné-Conakri, ‘santuário’ do PAIGC.

Os Franceses tinham mantido guerras semelhantes na Indochina (1946-1954) e na Argélia (1954-1962). Ambas haviam conduzido à independência das colónias. Salazar recusou-se a aprender com esses desfechos inevitáveis.”

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Combatente da Estrela”, nº. 127, julho 2022)

 

15 de junho de 2022

JUNHO - MÊS DEDICADO A PORTUGAL

 

Junho quentinho, alegre apesar da pandemia ainda andar por aí a fazer alguns estragos.

Junho de três Santos Populares que, se a união faz a força, que o trio se compadeça daquele povo ucraniano e proporcione o milagre de queimar numa fogueira do São João esse Putin satânico.

Mas como os Santos não se vingam, há que manter as festas populares: o 13 de junho para o Santo António, esta data comemorativa do seu falecimento em 13 de junho de 1231, perto de Pádua, na Itália.

Para não falarmos só de falecimento, então aí vem o 24 de junho para a comemoração do nascimento de São João Batista, profeta do Novo Testamento.

E, para terminar, o dia 29 de junho, dedicado a São Pedro e também a São Paulo, como grandes apóstolos.

Todas estas festas são celebradas em todo o País, mais centradas em determinados locais, como o Santo António, em Lisboa, com as Marchas Populares; e o São João, no Porto, com as fogueiras, os martelos e o alho-porro.

Nesta prodigalidade de festividades e datas memoráveis, salientamos o dia 10 de junho, que é Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Nesta data assinala-se o dia da morte do poeta Luís Vaz de Camões, em 1580. Autor do imortal livro Os Lusíadas, tornou-se feriado nacional em 5 de outubro de 1910, com a implantação da República.

Durante o tempo que durou o Estado Novo (paradoxalmente, velho de mentalidades), e até ao 25 de abril de 1974, em que se deu a Revolução dos Cravos, este designava-se “Dia de Camões, de Portugal e da Raça”. Só a partir de 1978 passou a ser designado como até à presente data – Dia de Portugal, Camões e das Comunidades Portuguesas.

Neste ano da graça de dois mil e vinte e dois, as Comemorações do Dia de Portugal decorreram em Braga e também junto das comunidades portuguesas no Reino Unido.

Milagre, milagre para quem vive em certos concelhos foi o facto de este feriadinho do dia 10 de junho ter acontecido a uma sexta-feira. Logo, por exemplo, Lisboa regala-se pois tem quatro dias de descanso e festança, já que o dia 13, de Santo António é a uma segunda-feira.

Mas, entre dias de descanso em demasia, ou na vontade de quem os desejaria, vamos lá falar de coisas também sérias, ainda que com pedido de intercessão aos Santos Populares para que  concedam um milagre para as bandas da Rua de Santa Maria (antigamente), hoje Rua Notícias da Covilhã, levando-lhes resmas de papel para que o Semanário deixe de ser exclusivamente digital.

E, já agora, que procurem um Diretor que não é forçoso ser dentre os muitos “santos populares” que por aí andam.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Notícias da Covilhã” digital, de 16-06-2022)

FIGURAS E FACTOS DA COVLHÃ E REGIÃO NA HISTÓRIA DE PORTUGAL

 

Tendo por base a obra “365 Dias com histórias da História de Portugal”, de Luís Almeida Martins, achei oportuno registar algumas dessas Figuras e Factos com que os Covilhanenses, ou Homens da Região Beirã, ficaram retratados nas memórias da nossa História.

Por falta de espaço, várias figuras e factos tiveram que aqui ser omitidas.

Muito me tarda o meu amigo na Guarda – Um dos mais belos poemas medievais portugueses está relacionado com a grande paixão do rei D. Sancho I.

D. Sancho I foi pai de 19 filhos, contando os legítimos (nascidos do ventre de Dulce de Aragão) e os ilegítimos, tidos sobretudo de duas amantes conhecidas: Maria Pais Ribeira, uma linda fidalga de cabelos dourados conhecida por Ribeirinha, e Maria Aires de Fornelos. Uma célebre e belíssima cantiga de amigo da suposta autoria de D. Sancho alude aos seus amores com a Ribeirinha: “Ai eu coitada! /Como vivo em grão cuidado/ Por meu amigo que hei alongado. / Muito me tarda/O meu amigo na Guarda! / Ai eu coitada! / Como vivo em grão desejo / Por meu amigo que tarda e não vejo! / Muito me tarda/ O meu amigo na Guarda!”.

O milagre das rosas – Na estrada Guarda-Lamego, em A-de-Barros, existe um solar do qual se conta que foi onde D. Dinis e a Rainha Santa passaram a noite de núpcias. Como o casamento em questão ocorreu em finais do século XIII e a construção de granito data do século XVII, a impossibilidade de o casal ali ter pernoitado é manifesta. Mas a crença atesta a popularidade do casal D. Dinis e D. Isabel – uma popularidade que tem resistido bem ao desgaste de 800 anos.

Não deve haver português adulto que desconheça o “milagre das rosas”. Segundo essa lenda, a rainha saiu numa manhã de inverno do Castelo do Sabugal, onde na altura se encontrava com o marido, levando embrulhado nas vestes pães para distribuir aos pobres. Eis senão quando surgiu D. Dinis e lhe perguntou, de sobrolho carregado, o que levava no regaço. “São rosas, senhor”, respondeu D. Isabel. Desconfiado, o rei voltou à carga: “Rosas no inverno?!...”. A rainha abriu então o regaço e mostrou ao marido o que ali estava: rosas, em vez de pães.

Escolhida pelo rei português D. Dinis, de entre um lote de possíveis candidatas, como a esposa ideal, casou com ele por procuração em Barcelona quando tinha apenas 12 anos, e o marido 21. Só se conheceram pessoalmente quatro meses depois, no dia em que D. Dinis a foi esperar à raia de Beira e se celebrou a boda em Trancoso. Mas, atendendo à idade da noiva, pode não ter havido noite de núpcias, nem nesta vila nem na A-de-Barros da crença local.

A viagem maravilhosa – Poucos portugueses tiveram uma existência tão aventurosa como Pêro da Covilhã. Aí por 1468, um castelhano que se deslocara à Covilhã para comprar tecidos de lã deixou-se impressionar pela desenvoltura do jovem Pêro e convidou-o para entrar ao serviço do seu amo. O rapaz, com uns 18 anos, partiu para Sevilha, onde se tornou espadachim de D. Juan de Guzmán, irmão do duque de Medina-Sidónia. Pouco depois Pêro acompanhou a Lisboa D. Juan, que aqui vinha avistar-se com D. Afonso V. Foi a vez de este rei português muito interessado nos assuntos de Castela, cuja coroa ambicionava, engraçar com os modos de Pêro e arranjar forma de o tomar ao seu serviço. Com cerca de 24 anos, Pêro esteve ao lado de D. Afonso V, como escudeiro, na desastrosa batalha de Toro e, em seguida, acompanhou-o a França, onde o rei português foi recebido por Luís XI em Tours.

Quando D. João II subiu ao trono, Pêro da Covilhã passou a servir o novo rei. Mais lúcido e prático do que o pai, o Príncipe Perfeito aproveitou os dotes deste homem de confiança para missões delicadas que exigiam grande inteligência e não menor dedicação. Espião ao serviço do soberano, Pêro conseguiu identificar alguns poderosos que conspiravam contra a Coroa, como o duque de Viseu e o bispo de Évora. Poliglota, seria seguidamente incumbido de negociar tratados com dois reis berberes de Marrocos.

Em 1478, quando já ia a caminho dos 40 anos, foi finalmente incumbido por D. João II de fazer a longa viagem que o celebrizaria. No âmbito dos preparativos da descoberta do caminho marítimo para a Índia, consistia esta em tentar alcançar o Indostão por terra e trazer informações úteis sobre o cobiçado país das especiarias. De caminho, informar-se-ia acerca do misterioso reino cristão do Preste João.

Pêro da Covilhã partiu acompanhado de Afonso de Paiva. Disfarçados de mercadores, seguiram por terra até Barcelona, onde embarcaram para o Egito, com escala em Nápoles e Rodes. Juntando-se a uma caravana, disfarçados de mercadores árabes, atravessaram a Arábia passando por Medina e Meca (onde rezaram como muçulmanos), e em Adem separaram-se, combinando encontro para daí a três anos à porta da cidadela do Cairo. Paiva fletiu então para a Etiópia e Pero da Covilhã embarcou para a Índia, onde obteve informações que viriam a ser de grande utilidade para Vasco da Gama.

A primeira portuguesa que votou – Maior de idade, médica e chefe de família, Carolina Ângelo pôde eleger a Constituinte de 1911, mas a lei não tardaria a ser revista para impedir o acesso das mulheres aos cadernos eleitorais.

Quando o presidente da mesa de voto chamou pelo seu nome, a jovem eleitora de 33 anos vestida pesadamente de negro e com fios de ouro ao pescoço avançou com passo decidido. Entregou o boletim de voto e quando este entrou na urna todos os presentes irromperam numa salva de palmas. Nessa manhã de 28 de maio de 1911, data da eleição da Assembleia Constituinte da I República, Carolina Beatriz Ângelo, uma das primeiras médicas que houve em Portugal, fora a primeira mulher a votar no nosso País. Nascida na Guarda em 1878, concluíra o curso da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa em 1902, ano em que se casou com o seu primo Januário Barreto (natural de Aldeia do Souto – Covilhã), também médico, ativista republicano. Foi a primeira mulher portuguesa a operar no Hospital de São José, antes de se dedicar à especialidade de Ginecologia. Iniciou-se em 1906 na militância cívica, aderindo ao comité português da associação francesa La Paix et Désermement par les Femmes e à loja maçónica Humanidade e fundando nos anos seguintes a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas e a Associação de Propaganda Feminista (com Ana de Castro Osório).

Nas asas da Revolução – Revolucionário romântico, Palma Inácio foi o homem que melhor personificou a luta armada contra a ditadura de Salazar e Caetano.

Foi em 1962 que desencadeou a primeira das espetaculares ações políticas que o tornaram numa lenda: o sequestro do Super Constellation da TAP da carreira Casablanca- Lisboa, utilizado para o lançamento de panfletos “subversivos” sobre Lisboa e o Sul do País.

Em finais de 1966 regressou à Europa para se dedicar por inteiro à luta antissalazarista. Em maio de 1967 comanda o famoso assalto à agência da Figueira da Foz do Banco de Portugal, destinado à obtenção de fundos para prosseguir a luta revolucionária. Mas ainda nesse ano foi detido em Paris, a pedido de Salazar. Um tribunal francês decidiria, porém, que o delito de que o acusavam era político, e pô-lo-ia em liberdade.

No ano seguinte fracassava a projetada ocupação da Covilhã por um comando revolucionário. Encarcerado no Porto, evadiu-se num intervalo do julgamento. Quando atravessava a Espanha a caminho de França seria novamente preso e uma vez mais em tribunal se oporia à extradição. Em 1973, de regresso a Lisboa e à clandestinidade após uma estada em Roma, voltou a ser preso quando preparava a sabotagem dos computadores de vários ministérios.

Definitivamente libertado de Caxias em 25 de Abril de 1974, foi eleito secretário-geral da LUAR no primeiro congresso da organização efetuado em liberdade, durante o qual prestou contas do dinheiro retirado sete anos antes dos cofres do Banco de Portugal.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 15-06-2022)

1 de junho de 2022

UMA VITÓRIA COMO SE FOSSE UMA SUBIDA

 

Os Covilhanenses, de raiz ou de coração, e as gentes beirãs, dispersas por este recanto à beira-mar plantado, folgaram no domingo, 29 de maio, ao verem o seu Clube mais representativo de toda a região – o Sporting Clube da Covilhã (SCC) – a manter-se na II Liga portuguesa de futebol, ao vencer o Alverca, no Santos Pinto, por 2-0.

O destino a que as gentes da nossa gente já não estavam habituadas, levar-nos-ia neste final da época 2021/2022, a disputar o “play-off” de acesso ao segundo escalão, e esta foi a segunda mão, quando na primeira haviam conseguido um empate a zero bolas.

Depois de várias épocas consecutivas (quinze) num esforço, por vezes hercúleo, dos seus dirigentes, sob a batuta de José Mendes, a manterem uma linha de conduta desportiva mais com altos do que com baixos, sempre na II Liga, surgiria nesta época como que uma ventania de muitas pedras desacertadas, ou tropeçando nelas, que levaram a uma posição ingrata como a população já não estava habituada.  Foi esta população que num sopro indómito mais não pensou que apoiar vivamente a equipa dos Leões da Serra, logo que se apercebeu da gravidade em que o barco em que navegava se encontrava prestes a meter água, e levou neste dia a tornar repleto o Estádio José dos Santos Pinto, na beleza da nossa Serra, numa enorme vontade de apoiar o Clube não o deixando fazer marcha atrás.

E, felizmente, assim aconteceu com o míster Leonel Pontes a direcionar o rumo da vitória, bem conseguida por via dos valorosos Filipe Dini, logo no primeiro minuto de jogo, e depois Rui Gomes. Começava assim o representante da Liga 3 a ver a sua vida muito difícil.

Longe vão os tempos, lá para as bandas do século passado, nas décadas de 50 e 60, em que a Covilhã para além dos lanifícios como mono indústria, mais não tinha de grande evidência que não fosse o futebol da I Divisão Nacional, e então era ver, para além de comboios especiais, centenas de autocarros vindos de vários pontos do País apoiar os seus clubes e ver jogar as vedetas do SCC, aquando das deslocações do Benfica, Sporting, FC Porto e Belenenses (aquele que agora está também nos aflitos quase desaparecido).

As tabernas, os restaurantes e até pensões e hotéis registavam um volume interessante de negócios por força dos forasteiros, e não só.

As gentes serranas e mormente todos quantos vivem o clube da sua Terra, ou da sua afeição, pressentiram neste frustrar de final de campeonato como que uma pandemia desportiva que caíra nas hostes serranas. Para além do sentir nas condutas lamentáveis de responsáveis (arbitragens incluídas) dos que na pauta classificativa já se começava a desenhar a perigosidade dos maus resultados, e embora a equipa serrana viesse a fazer das tripas coração, parecia que o mal com que estavam fadados continuava a existir.

Ouvi chamadas de atenção para este imbróglio e o grito de Ipiranga em várias gentes, nos semanários regionais, na Casa da Covilhã em Lisboa. Havia que apoiar mais intensamente o Sporting Clube da Covilhã.

E assim sucedeu! Temos a equipa serrana a manter-se afincadamente na II Liga do futebol português.

Dá pena ver equipas que durante anos emparceiraram com o SCC e hoje encontram-se em grandes dificuldades de manutenção nos lugares honrosos em que deviam estar, nomeadamente o Belenenses, Olhanense, Barreirense, Vitória de Setúbal, e tantos outros por este Portugal fora.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “Notícias da Covilhã” digital de 02-06-2022)

18 de maio de 2022

A Rússia, os Portugueses e o Segredo de Fátima

 

Longe vão os tempos, da minha infância, em que se rezava nas Igrejas pela conversão da Rússia, um dos pedidos de Nossa Senhora numa das Aparições de Fátima, para uns, Visões, para outros, ocorrida em 13 de junho de 1917, em plena Guerra Mundial.

Mas já muito antes, sempre os portugueses estiveram envolvidos neste país, sendo a Federação Russa o maior país do mundo em extensão territorial, localizado na Eurásia da Europa e Norte da Ásia, quase sendo mais um Continente.

Assim, vejamos, segundo A Mais Breve História da Rússia dos Eslavos a Putin, de José Milhazes: O médico António Nunes Ribeiro Sanches (1699-1783), natural de Penamacor, teve de fugir para o estrangeiro para escapar à Inquisição, foi trabalhar para a Rússia, onde passou dezoito anos (1731- 1749). Deixou as melhores recordações na Rússia principalmente graças à sua atividade no campo na medicina. Quando já exercia as funções de médico da corte de São Petersburgo, o iluminista do distrito de Castelo Branco salvou da morte a noiva do grão-príncipe Pedro e futura imperatriz da Rússia, Catarina II, a Grande. Por isso, em 1782, o seu filho e sucessor no trono, Paulo, exprimiu-lhe publicamente gratidão em Paris, o que lhe valeu uma pensão vitalícia da corte russa. Já depois de ter abandonado a Rússia, acusado de não ter renunciado ao judaísmo, Ribeiro Sanches nunca se recusou a prestar assistência médica aos nobres russos que o procuravam na capital francesa. E isto porque era considerado um mestre incomparável no tratamento de doenças venéreas, onde muitos sofriam desses “males do amor”. O médico português mantinha contactos estreitos com o mundo científico russo, contribuindo para o estabelecimento de relações entre cientistas russos e sábios de outros países da Europa e do mundo. Também da pena deste ilustre sábio do distrito albicastrense saíram numerosas obras sobre a Rússia. Ribeiro Sanches deixou igualmente escritos sobre cossacos, ucranianos, povos do Báltico, etc. Todavia, dedicou maior atenção aos russos, aos seus costumes, às suas tradições, vida económica e agricultura. Na sua conhecida obra Memória Sobre os Banhos de Vapor da Rússia, Ribeiro Sanches analisa o tema não só enquanto médico, mas também como economista. Ele via nos populares banhos russos um meio universal de tratamento de doenças quando não era possível o acesso a outras terapias e recomendou-o aos seus leitores ocidentais. Baseando-se nas reformas do czar Pedro I, o ilustre português aconselhou o marquês de Pombal na sua tarefa de modernização de Portugal. Ribeiro Sanches tinha uma visão filosófica das ciências socias e considerava que a autossuficiência agrícola era fundamental para qualquer país, insistindo, para isso, no incremento das culturas cerealíferas.

De outros portugueses que passaram por São Petersburgo, foi a cantora de ópera Luísa Todi quem deixou maior rasto na história da cultura da cidade. No auge da sua carreira, aquela que ficou conhecida por “rouxinol de Setúbal” lançou-se na aventura de atuar na Rússia, país que, nos finais do século XVIII, era considerado “distante” e “bárbaro” pelos europeus do Ocidente. A sua voz permitiu-lhe não só cativar o coração de muitos russos como enfrentar e defender os seus interesses perante Catarina, a Grande. Luísa Todi permaneceu na Rússia de 27 de maio de 1784 até finais de 1786. Regressaria e, em 23 de abril de 1787, Luísa Todi dava o seu último espetáculo em Moscovo. Entretanto, surge a rutura entre Luísa Todi e Catarina II quando a cantora setubalense começou a exigir somas exageradas para permanecer na Rússia, pois tanto ela como o marido não olhavam a despesas, considerando a imperatriz Catarina II que o casal português já estava endividado em oitenta mil rublos.

Também a história do russo que salvou a coroa portuguesa. No dia 3 de novembro de 1807, a esquadra do almirante russo Dmitri Seniavin entrou na foz do Tejo para fugir a uma forte tempestade no mar, mas ficou ali retida durante quase um ano devido à conturbada situação internacional. Anteriormente, em 7 de julho desse ano, a Rússia e a França de Napoleão tinham assinado um Tratado de Paz e Amizade, em Tilzit, e a corte de São Petersburgo rompera as relações diplomáticas com Londres. Neste contexto que lhe era adverso, o oficial russo, não obstante as pressões francesas, evitou impedir a partida que se preparava, de D. Maria I e de D. João VI rumo ao Brasil. O almirante russo viu-se numa situação muito complicada e então arranjou subterfúgios para tentar adiar ou mesmo evitar totalmente o cumprimento das ordens de Napoleão, alegando falta de armamento e de homens.

Quadro da Morte de Inês de Castro. Karl Briullov (1799-1852) foi um dos primeiros pintores russos que receberam reconhecimento internacional, sendo considerado o artista de transição entre o neoclassicismo russo e o realismo. Em 1834, pintou o quadro Morte de Inês de Castro, talvez soba a influência da leitura de Os Lusíadas de Luís de Camões.

Segundo João Céu e Silva, in DN, a Revolução Russa, que teve início em 1917, também esteve sempre muito ligada às aparições de Fátima. Talvez os pastorinhos tivessem ouvido o nome do país, mas decerto desconheciam as implicações que o regime que substituía os czares iria ter em todo o mundo no século XX. Se uma nova consagração pareceria impossível e desnecessária até ao princípio desta guerra, a razão de acontecer deve-se à mensagem que Nossa Senhora terá deixado aos pastorinhos na aparição de 13 de julho de 1917: “Para impedir a guerra virei pedir a consagração da Rússia ao meu Imaculado Coração (…). Se atenderem os meus pedidos, a Rússia se converterá e terá paz; se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras (…)”. A mensagem não terminava aí e referia também que a Rússia promoveria “perseguição à Igreja. Os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas”. Daí que Lúcia tivesse insistido na consagração, em especial da Rússia, ao Imaculado Coração de Maria logo na carta enviada ao Papa Pio XII, em 1940.

Muito já foi dito, e muito já se escreveu e debateu sobre este assunto. O que é certo e verdade, é que a guerra gerada com a invasão da Ucrânia pela Rússia tem algo que se pode contextualizar nestas mensagens de Nossa Senhora, ainda que já não se reze pela “conversão da Rússia” como nos tempos do Estado Novo, mas velho de pensamento e ideias, mas se peça a intervenção divina para acabar com esta guerra injusta, entre várias maneiras de interpretar quer a mensagem de Fátima quer a invasão da Ucrânia pela Federação Rússia, numa ambição hitleriana de Putin.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 18-05-2022)

Não conseguem silenciar o Notícias da Covilhã

 

Vá-se lá saber porquê, o Notícias da Covilhã, que muitos imaginavam já vê-lo passar por um placard de necrologia, continua a fazer pela vida, suportando, ainda que a pão e água, esta fraca alimentação que alguns senhores disto tudo não se preocuparam em revigorar a sua vida fragilizada, ou seja, a vida do semanário mais antigo da Beira Baixa.

Muito já se disse, muito já se pensou, muito já se deduziu, mas a apatia daqueles que deviam estar no comando da frente de combate e se retiraram para um silêncio tumular, é que é condenável.

Na linha da frente lá continuam os incansáveis jornalistas do Notícias da Covilhã, votados ao ostracismo, sem uma informação fidedigna de que o semanário terá os dias contados. Isto para já não falar de muitos dos seus dedicados leitores e assinantes, para quem se marimbaram e, toma! - Lês o online, pelo que te oferecemos o pdf, mas papel isso é por causa do manguito do Zé Povinho. Saudoso Rafael Bordalo Pinheiro que hoje ainda fazes muita falta.

Quanto à (ir)responsabilidade diocesana pelo infeliz caminho em que deixaram cair este importante órgão da comunicação social, ou a uma direção mal escolhida, numa administração que se desconhece, ignoram-se quaisquer ações tendentes a encontrar medicação para a situação mórbida em que o semanário foi deixado cair, sem rei nem roque.

Onde está o antídoto para debelar este mal? Alguma coisa foi feita, abertamente, criando comissões idóneas para ir de encontro a vozes que gostam da Covilhã – dos lanifícios e universitária?

Sabemos que a atual edilidade não se vê aguerrida a fazer das tripas coração para salvar este semanário. Pudera! Já passaram as eleições.

O Notícias da Covilhã comemora hoje 103 anos (mais de um século!) desde a sua primeira edição como NC, mas é muito mais antigo, se considerarmos que em janeiro completou 109 anos, então sob o título A Democracia.

É uma data memorável, em que não pode vestir o fato de gala face à melancolia da sua indefinição, pelo que se apresenta com o seu fato habitual de trabalho.

Vamos dar uma nova vida ao Notícias da Covilhã, uma publicidade mais forte, com uma campanha de assinaturas para a sua edição em papel. Só assim o Semanário poderá ser atrativo.

O Notícias da Covilhã não pode ser silenciado. O Notícias da Covilhã tem que voltar à vida refrescante d’outrora.

Parabéns ao Notícias da Covilhã e aos seus verdadeiros obreiros que ainda conseguem manter a navegar o barco ainda que por águas turbulentas.

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “Notícias da Covilhã”, de 19-05-2022)

17 de maio de 2022

59 PRIMAVERAS NA VIDA DE UM JORNAL

 

Numa altura em que alguns periódicos se veem forçados a passar do papel para a exclusividade do digital, com a consequente perda do maior interesse pela leitura, se não mesmo quando a rejeitam, já que o papel traz com o seu cheiro e apalpar o apelativo para uma leitura mais amena, é assaz louvável o esforço desenvolvido pelos que mantêm este quinzenário de pé, contra ventos e marés.

É preciso uma vontade indómita para dar de si, no barco do voluntariado, banhado pelas águas da gratuitidade, o esforço que dá forma a páginas soberbas d’O OLHANENSE.

Não tenham pena do tempo gasto em prol de algo que seja importante dar a lume, quão de interessante dar a conhecer, da história nacional à local ou regional, à curiosidade, ao reviver tempos idos da nossa meninice, que o diga o incansável Mário Proença, Diretor Adjunto deste quinzenário.

O OLHANENSE está de parabéns, assim continue a ser o baluarte do histórico Clube algarvio que merece e se impõe regresse tão breve quanto possível aos maiores do futebol português.

Mas, como várias vezes tenho referido, este quinzenário não é só de âmbito desportivo, embora seja a sua génese, mas face às gentes dinâmicas que se embrenharam no papel do papel de saber manter vivo um periódico em prol duma população, dá gosto ver todo o aspeto cultural que envolve o Jornal O Olhanense.

Parabéns, pois, a todos os seus Obreiros, por mais um ano de vida intensa em favor não só das gentes algarvias como de vários pontos do País.

 

João de Jesus Nunes

Covilhã

(In quinzenário "O Olhanense", de 15-05-2022)


LIVROS & AUTORES - In quinzenário "O Olhanense", de 15-05-2022

 


4 de maio de 2022

CAFÉS MÍTICOS O CAFÉ MONTALTO, NA COVILHÃ, E O CAFÉ ARCADA, EM ÉVORA

 

Ao longo das nossas vidas, mormente para quem ainda anda neste mundo, felizmente, há mais de sete décadas, como eu, tivemos o prazer de conviver momentos inolvidáveis nos cafés de referência. Esses lugares das facetas de cada um de nós.

Por todo o país, esses estabelecimentos eram testemunho duma convivência salutar. O ponto de encontro para os negócios da época, com ou sem as facilidades de hoje.  Da procura de alguém que servisse para apadrinhar um novo emprego. Mas também em momentos de cultura, ainda no desconhecimento das novas tecnologias. Nem sequer existia o telemóvel. Muitas vezes era o telefone do café o ponto chave de contactar alguém que habitualmente os frequentava. O recado deixado ao dedicado empregado dava ensejo de tranquilidade a quem se procurava.

Mas também ponto de reunião de uma determinada classe. Eram os que não davam louvas aos tempos do Estado Novo. Obviamente atentos, tanto quanto possível acautelando as suas conversas. Ali podia estar um pide disfarçado que tapava a cara com a gola do seu sobretudo.

Os estudantes davam uma escapadela para uma disputa entre os bilhares. E não só. Também os “Leões da Serra”, jogadores de futebol da I Divisão.

Os menos abastados, esses, coitados, davam azo à sua camuflada revolta. A sua permanência nas muitas tabernas de então, ou cafés menos frequentados. Evitavam encontrar-se com os patrões. Viam-se também nos bares das muitas coletividades de bairro existentes.

E, na tranquilidade da leitura do jornal, de dimensões exageradas, liam-se os artigos do enorme Diário de Notícias ou d’A Bola, que contrastava, em tamanho, por exemplo, com o Diário Popular ou o Record.

O Montalto, na Covilhã, que há muitos anos encerrou as suas portas, era conhecido como o café dos industriais. Era ainda o café da alta e da média burguesia, onde pequenos grupos se formavam em função dos negócios e interesses como descreve José António Pinho num dos seus livros. Aqui se bebia a bica, confecionada com os melhores lotes de café da Cafeeira, e que custava o dobro.

Mas também foi lugar de encontro dos descontentes do antigo regime, como aconteceu aquando da visita do General Humberto Delgado, em campanha eleitoral, que deixou o Montalto a rebentar pelas costuras, tão repleto que estava de gentes em vibrante entusiasmo. Estávamos em 1958.

Mas se acima falámos de cultura, outros cafés covilhanenses foram de memórias como o extinto Café Leitão, onde o escritor Ferreira de Castro escreveu o romance sobre os lanifícios – A Lã e a Neve.

Passando da zona serrana para a alentejana, aí vamos deparar com o mítico Café Arcada, também ele rico de história. Era de facto o café da tradição. Abriu em 14 de fevereiro de 1942, tendo sido considerado um dos melhores do País, com mais de 100 mesas.

Nos primeiros tempos o Arcada foi frequentado pela burguesia local, pequenos grupos de intelectuais, gente do reviralho, profissionais liberais e estudantes liceais. Os latifundiários e os agricultores frequentavam o Café Camões, à Porta Nova. Mas com a perda de centralidade desta zona e o acrescido ganho de importância da Praça do Giraldo, estes passaram a tomar de assalto o Arcada às terças-feiras, dia do mercado semanal. Em plena Praça e no interior do café se discutiam e apalavravam negócios, tendo ali chegado a funcionar uma informal bolsa de gado. No seu romance Aparição o escritor Vergílio Ferreira relata bem o ambiente do Café Arcada quando nele entrou pela primeira vez em 1946, colocando a sua visão na boca do protagonista Alberto Soares. “…. Acabámos por marcar o encontro para o dia seguinte no Arcada sem que o Moura se lembrasse de que era uma terça-feira, ou seja dia de mercado. Com efeito, ao entrar no café, após o almoço, tive a surpresa de ver aquele vasto túnel apinhado de gente. O corredor atravancava-se de negociantes, porque era ali, entre bebidas, que se realizava o mercado da semana. A terça-feira era o ‘dia de porcos’”, como soube mais tarde que lhe chamavam.

O escritor ficou aliás com uma marca indelével do Arcada, pois foi ali que o seu colega e padrinho do casamento, Alberto Miranda, lhe pagou a boda, da qual consistiu dum galão a cada um e bolos, conforme revelou em “Conta-Corrente 2”.

Entretanto, com o passar do tempo, aos lavradores veio juntar-se uma corte de gente ligada ao mundo dos touros e ao marialvismo rural, composto por ganadeiros, toureiros e aprendizes, moços de forcados, apoderados, equitadores, aficionados e professores e alunos da Escola de Regentes Agrícolas.

Com a subida do Lusitano de Évora à I Divisão em 1952 a fama do café chegou a Lisboa. Os adeptos do Sporting, do Benfica e do Belenenses, do Vitória de Setúbal e do Barreirense, que aos milhares se deslocavam a Évora para apoiar as suas equipas, conheceram-no, apreciaram-no e dele fizeram grande propaganda na capital e arredores.

A Revolução de Abril acentuou-lhe a decadência retirando-lhe a antiga frequência dos terratenentes e seareiros, engolidos na voragem do PREC.

Esta situação durou alguns anos e causou o desgosto de quem por ali passava na época áurea. Mas mesmo ao findar do século passado a Cervejaria Trindade resolveu ocupar o espaço, remodelá-lo por completo, e manter-lhe associado o nome de Café Arcada.

(In "O Olhanense" , de 01-05-2022)

28 de abril de 2022

SERÁ POSSÍVEL A UNIÃO ENTRE CATÓLICOS E ORTODOXOS?

 Com a guerra na Ucrânia, em que a Rússia não quer que seja utilizada esta palavra bélica no seu território, e os ortodoxos russos se unem em favor de Putin, surge a pergunta em título.

Segundo se narra no livro A mais breve história da Rússia, de José Milhazes, no ano da conquista de Constantinopla pelos turcos, em 1453, Moscovo já constituía o centro religioso dos territórios russos, o metropolita passara a residir nessa cidade e a ser eleito pelos bispos russos, o que tornou independente a Igreja Ortodoxa Russa. E também por essa altura começa a surgir a ideia de Moscovo como sucessora de Bizâncio. Em 1472, Ivan II, o Grande, casou-se com a sobrinha do último imperador bizantino. O grão-príncipe de Moscovo começou a chamar a si os títulos de “autocrata” e “czar” e a usar a águia bicéfala de Bizâncio.

Refere ainda, naquela obra, que em 1054, os chefes das igrejas cristãs do Oriente e do Ocidente, ou sejam, o Patriarca de Constantinopla e o Papa de Roma, excomungaram-se mutuamente. Deram assim origem ao chamado Grande Cisma. Quase logo a seguir à queda de Roma às mãos dos bárbaros, as relações entre o Oriente e o Ocidente complicaram-se devido a disputas eclesiásticas e teológicas, sendo as fundamentais sobre a fonte do Espírito Santo (Filioque), se se devia usar pão fermentado ou não fermentado na Eucaristia e sobre a primazia do Papa de Roma.

Os católicos defendem que o Espírito Santo procede do Filho e do Pai, enquanto os ortodoxos acreditam que procede apenas do Pai. Na Igreja Ortodoxa, o pão da comunhão é fermentado e não se reconhece a primazia do Papa.

Foram feitas várias tentativas para superar esta fratura. A primeira no Concílio de Lyon, em 1274, e a segunda no Concílio de Florença, em 1439. Neste Concílio, Isidoro, metropolita de toda a Rus, apoiou a união entre católicos e ortodoxos. Veio a receber o título de cardeal das mãos do Papa Eugénio, mas logo que chegou à Moscóvia foi imediatamente preso e encerrado num mosteiro por ter tomado esta posição. Conseguiu fugir da prisão e refugiar-se em Roma.

As mútuas excomunhões só foram levantadas a 7 de dezembro de 1965, pelo Papa Paulo VI e pelo Patriarca de Constantinopla Atenágoras I, com vista a reiniciar o processo de aproximação das duas igrejas.

A 12 de fevereiro de 2016, o Papa Francisco concretizou um encontro histórico com Kirill, Patriarca da Igreja Ortodoxa Russa, em Cuba, dando início a um diálogo que se perspetiva poder ser muito longo.

Será que se houvesse a união entre estas duas igrejas, muito similares, da religião cristã, poderia contribuir para uma outra mentalidade dos senhores do poder, que, neste caso, é dum prepotente que não olha a meios para atingir os seus fins maléficos?

Apesar de católicos romanos e ortodoxos terem uma história comum, que começa com a fundação da Igreja primitiva e com a difusão do cristianismo pelos apóstolos, uma série de dificuldades ocasionou o progressivo distanciamento entre o Bispo de Roma e os Patriarcas. Primeiro veio a quebra da unidade política. Com a divisão do Império Romano em 395, a queda do Império Romano do Ocidente em 476 e o fracasso da tentativa de Justiniano de reunificar o império a partir de 535, o Oriente e o Ocidente deixaram de ter o mesmo governo. A partir do século VII, com a ascensão do Islamismo, as trocas económicas e os contactos por via marítima entre o Império Bizantino, de língua grega, e o Ocidente, de língua latina, tornaram-se mais difíceis, e deteriorou-se a unidade cultural.

Em muitos aspetos, a Igreja Ortodoxa é semelhante à Igreja Católica, preservando, por exemplo, os sete sacramentos, e usam as vestes litúrgicas nos seus cultos.

Seria muito importante a união entre as duas Igrejas, para a qual não pouparam esforços os últimos Papas. Esperemos que um dia tal venha a acontecer para o bem comum entre os cristãos.  

 

João de Jesus Nunes                                                                                  

  jjnunes6200@gmail.com

 

(In “Notícias da Covilhã” digital, de 28-04-2022)

14 de abril de 2022

UM 25 DE ABRIL NASCIDO COM UMA OUTRA ESPERANÇA

 

Na altura em que escrevo esta crónica está uma primavera muito fria. É a primeira estação do ano, depois de virado o equinócio em 20 de março. Mas os primeiros dias de abril não têm apresentado temperaturas amenas e agradáveis e aumento dos índices pluviométricos. Os dias começam de facto a ficar mais longos e as noites passam a ser mais curtas. O reflorescimento da flora terrestre começa a surgir. A mudança de hábitos, agora no modo de vestir, ainda está acautelado para o frio que não nos vai largando.

As televisões e os jornais enchem-nos de notícias do terror russo, com u8m Putin hitleriano, numa amálgama de nazi e jihadista, mas sobre este tema já muito me debrucei.

Como também já muito escrevi sobre a Revolução dos Cravos, sujeito a repetir algo sobre o tema.

Mas este ano há uma data insofismável que se reporta ao dia 24 de março de 2022. Conseguimos ultrapassar a ditadura vivida, em número de dias. São já, nesta data, 17500 dias em democracia, E a trombeta que assinala esta memorável data dá início às comemorações oficiais dos 50 anos do 25 de Abril, que se assinala em 2024. A efeméride é tão importante que as mesmas irão até 2026.

Outras datas também importantes serão registadas. Em 24 de março assinalaram-se os 60 anos da crise académica de 1962, quando o Estado Novo proibiu as comemorações do Dia do Estudante. Era então líder estudantil, naquela altura, Jorge Sampaio, que chegou a afirmar, por tal facto, que “o 25 de Abril começou a 24 de Março”. E é por isso que arrancam aqui as comemorações oficiais dos 50 anos do 25 de Abril.

Mas em 3 de abril também se comemoram 30 anos da morte de Salgueiro Maia, o capitão que comandou a coluna de blindados que veio de Santarém para vir cercar os ministérios do Ter4reiro do Paço, que fez o ultimato a Marcelo Caetano e o levou à rendição perante o general Spínola, e depois o escoltou até ao aeroporto de onde partiu para o exílio. Tudo sem disparar um tiro.

Nem toda a obra é perfeita, nem tudo se pensa que venha a surgir no âmbito dos nossos sonhos. Quem, como eu, viveu longo tempo na ditadura, e sonhou com outros tempos que passariam a ser risonhos, num horizonte de plena felicidade, apesar de a obra não ser perfeita, jamais se contava com condutas conducentes aos tempos que se viveram em ditadura, onde os pobres eram cada vez mais pobres, e os ricos com as algibeiras cada vez mais carregadas do vil metal.

Comemorámos esta data do 25 de Abril, algumas vezes já sem aquela força impulsora, intrínseca, indomável que inebriava as nossas almas. Foram muitos os governantes que, tendo uma imagem de homens e mulheres sérias, e até então honestas, por via do poder do dinheiro fizeram por olvidar esta caraterística duma pessoa confiável, porque o poder do dinheiro é mais forte que a robusta honestidade.

Apesar destas manchas que surgiram na nossa democracia, incluindo o desaproveitamento dos fundos europeus, e o seu esbanjamento em certos governos de Portugal, com o salto para a ribalta política de jotas, boys e girls, que muitos vieram prosseguir o caminho da governação, valeu a pena a Revolução dos Cravos.

O próprio antigo Presidente da República Ramalho Eanes admitiu que, na altura do 25 de Abril de 1974 “esperava mais”, afirmando que não foi feito o suficiente para se “politizar a sociedade”  e instituir uma “democracia dinâmica, em que o povo resolvesse participar, em que o povo sentisse que ele é efetivamente o dono da liberdade e o dono do país.”

 

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

 

(In “Notícias da Covilhã” digital, de 14-04-2022)

6 de abril de 2022

OS MALANDROS – GALBA a. C, PUTIN d.C.

 

Ao longo dos tempos sempre houve quem se revelasse na maldade sob os ventos da história.

Hoje, depois de termos vivido num ambiente de paz reinante na generalidade do planeta, conforme já me referi noutro artigo, mormente na Europa, embora com ventos e marés pelo caminho, desde a Segunda Grande Guerra, eis que um malandro, sanguinário, agita ferozmente a invasão de um país soberano – a Ucrânia –, não se importando de lançar a guerra no mundo, declinando a paz. Isto já estamos fartos de saber diariamente.

Em Portugal superou-se, em 24 de março do corrente ano, por um dia, o tempo vivido em ditadura.

A guerra passou a ser o fantasma e uma realidade na Europa. E as palavras: promessa, garantia, confiança, contrato de boas intenções, acordo oficial, foram substituídas por uma única que dá pelo funesto nome de traição.

E é nesta base que memorizo, por analogia, outro “Putin” de outrora, selecionado dentre muitos. Sérvio Sulpício Galba, em 151 a. C. recebeu o governo da Hispânia Ulterior como pretor, continuando a Guerra Lusitana. Os lusitanos causaram a Galba enormes perdas. Segundo os cronistas, na primavera de 150 a. C., Galba invadiu novamente a Lusitânia e os Romanos arrasaram o território. Quando os Lusitanos enviaram uma embaixada reclamando a violação do tratado que haviam firmado com o pretor Marco Atílio Serrano, e reiterando o seu propósito de manterem os termos de paz prometida por eles, Galba recebeu-os amavelmente. Prometeu-lhes terras férteis onde se poderiam estabelecer com as suas famílias, sob a proteção de Roma, se permanecessem leais. Acudiram cerca de 30 000 lusitanos solicitando o cumprimento dessa promessa. Galba, repartiu-os em três acampamentos e exigiu-lhes que entregassem as armas em sinal de amizade. Logo que tal aconteceu, rodeou-os com todo o seu exército e ordenou um ataque. Cerca de 9000 foram passados pela espada e 20 000 foram capturados e vendidos como escravos aos Gálias. Somente uns poucos conseguiram escapar, incluindo Viriato, que, anos depois, se vingaria por esta traição romana, em vários combates que ganharia.

Mas a diferença de forças em combate ia-se tornando em tarefas difíceis. E já Táutalo, o grande amigo de Viriato reconhecia que tinham pouco mais de três mil cavaleiros e dois mil homens a pé, contra mais de 30 mil romanos, em várias frentes de ataque.

As palavras de ordem do líder era “Temos de negociar”. Era evidente que lutar seria um suicídio. Saíram todos em silêncio, mantendo-se apenas Viriato, Táutalo , Audax, Ditalco e Minuro.

Os romanos Cepião e Lenate estavam em Tucci e Audaz, Ditalco e Minuro foram dar-lhes a conhecer as condições propostas por Viriato: “Não abandonamos as armas, mantemos o nosso território e não nos envolvemos em escaramuças“.

Viriato despediu-se da mulher, Munnia, e do sogro, Astolpas. Parte na sua égua “Milos”.

Entretanto, os emissários, homens de confiança, enviados por Viriato, são corrompidos pelos romanos com promessas de riquezas. E, na pessoa de Lenate, insiste: - “Não queremos as vossas terras, apenas as armas, para que haja paz.” “Lenate olhou de soslaio para Cepião, retirou três moedas de ouro do saco e distribuiu-as pelos três. E há mais de onde veio este”. O regresso dos emissários foi fatal para Viriato, assassinando o seu chefe enquanto dormia.  Termina assim aqui a vida deste notável guerreiro ibérico. Duas semanas depois, os três assassinos e traidores de Viriato, deslocaram-se a Tucci, a base da operação romana na Ibéria Ulterior. Iam receber a recompensa prometida por Lenate e Cepião.

Então, quando esperavam receber dos romanos, na pessoa de Libérius, o ouro que lhes haviam prometido, em troca pela morte de Viriato, os mesmos foram apunhalados e mortos, com esta indicação: – “Roma não negoceia com traidores”. Este é um exemplo entre muitos, ao longos dos tempos.

A outra face da moeda é depois de Cristo. Durante a Guerra Fria, a terceira maior potência nuclear do planeta não era o Reino Unido, a França ou a China, mas sim a Ucrânia. E com o colapso da União Soviética (URSS) em 1991, a nação recém-independente herdara cerca de 3000 armas nucleares deixadas por Moscovo em seu território. Três décadas depois, a Ucrânia está totalmente desnuclearizada. E o tema volta à tona agora que o país se encontra numa posição delicada após a invasão territorial comandada pelo Kremlin, que ameaça reagir a qualquer tentativa de interferência das potências da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) no confronto.

Através do Acordo de Budapeste, nos anos 1990, a Ucrânia decidiu abrir mão das armas nucleares deixadas em seu território em troca de segurança e reconhecimento como país independente. Tudo foi acordado por meio do Memorando de Budapeste, um acordo assinado entre o governo ucraniano, a Rússia, o Reino Unido e os Estados Unidos após o fim da URSS. No entendimento firmado em 1994 na capital da Hungria, a Ucrânia comprometia-se a aderir ao Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP) e a devolver para Moscovo as ogivas deixadas no seu território.

Em troca da desnuclearização de Kiev, os governos da Rússia, dos EUA e do Reino Unido comprometeram-se a respeitar a independência, a soberania e as fronteiras existentes da Ucrânia e a abster-se da ameaça ou do uso da força contra o país. E agora o que está a acontecer? Putin, traidor, não respeita nada, brinca com a ONU, brinca com o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos. A ONU, NATO e UE só agora acordaram duma letargia em que se encontraram. Esperemos que uma azia neste maldito Putin o não largue até que seja absorvido por instintos de remorsos pelo imenso mal que está a ocasionar a milhões de pessoas que nada têm a ver com a sua disfuncionalidade cognitiva.

 

João de Jesus Nunes

                                        jjnunes6200@gmail.com

 

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 06-04-2022)

1 de abril de 2022

CONTE-NOS A SUA HISTÓRIA - JOSÉ ALBERTO FERREIRA AZEVEDO

 






Corria o dia 16 de novembro de 1941, em plena II Grande Guerra, quando nasceu o covilhanense, nosso entrevistado para este número do CE. Pessoa dotada duma extraordinária simpatia, amigo do seu amigo, que reúne no companheirismo muitos em seu redor.

Se ao ver a luz do dia, pela primeira vez, existiam fortes nuvens bélicas no Mundo de então, o seu destino, como tantos milhares de portugueses, seria o de se ver também obrigado a participar, longe da sua Terra, numa guerra subversiva, como então se designava, nos já longínquos anos de sessenta do século XX, para as bandas do continente africano.


Depois de, na tranquilidade desafogada, mesmo em tempo de racionamento, viver com os pais na Quinta Nova, no Refúgio, onde trabalhava na agricultura, feita a instrução primária, rumou, como tantos outros, para prolongar os estudos na Escola Industrial e Comercial Campos Melo. Aqui, volvidos três anos ficaria precocemente sem o pai, pelo que decidiu concluí-los no período noturno já que a quinta, com trabalhadores, necessitava então do seu apoio, assim como sua irmã e a mãe.

Tendo sido chamado para o serviço militar, cuja inspeção foi aos 19 anos, tentou ainda ser considerado “amparo de mãe”, a fim de se libertar daquela obrigação militar, o que não lhe foi concedida. Chegou mesmo a omitir as habilitações escolares, mas em vão.

É então incorporado no RI 10 em Aveiro no dia 14 de agosto de 1962, um ano após o início da chamada Guerra do Ultramar.

Como o mesmo reporta, “nessa altura do início da guerra colonial não havia condições logísticas decentes”. E conta algumas partes interessantes quão também de horripilantes que, face à sua extensão, não cabem nesta página mas que é interessante ouvir-lhe contar.

Em 14 de outubro do mesmo ano foi tirar a especialidade de armas pesadas metralhadora Breda, no RI 2 em Abrantes. Em 28 de novembro passou ainda pelo BC 6 em Castelo Branco e em 3 de setembro de 1963, estando de férias, recebeu ordem de mobilização, apresentando-se em Tomar, seguindo depois para Santa Margarida. Em 5 de dezembro de 1963, já com 16 meses de tropa, e como 1º. Cabo, embarcou com destino a Angola ao enclave de Cabinda, no paquete Vera Cruz. Foi incorporado no Batalhão 554 Companhia 553, chegando a Cabinda a 14 do mesmo mês, assumindo a responsabilidade operacional da Z A em 26 de dezembro. Aqui tiveram bastante atividade, felizmente sem qualquer baixa. A 12 de junho de 1964 seguiram mais para leste, uma zona mais ativa do inimigo (IN) onde sofreram a única baixa em combate. Em outubro de 1964 coube ao Batalhão assegurar a integridade da zona conhecida por Alto do Maiombe. “Aqui, tínhamos grupos de combate em Sanga Planície, em pleno Alto do Maiombe. Numa zona tão extensa só lhe foi atribuída uma Subunidade, que exigia patrulhamentos apeados da ordem dos 130 Km em ambos os sentidos. (…) Os reabastecimentos eram quase na totalidade feitos por meios aéreos e paraquedas. A acrescentar ao esforço físico despendido tinham ainda que reabastecer a pé um destacamento a 13 Km, transportando os géneros às costas, e dedicar o resto das energias na construção de edificações. Neste trabalho duro, a ação do IN fez-se sentir, como na Ponte do Lombe e emboscada em Sanga Miconge. Fizeram-se diversas operações entre elas a Caça Grossa onde destruímos um acampamento do IN – ‘Vale das Pacaças’, na fronteira com o Congo onde foi capturado 1 guerrilheiro e diverso material. O IN foi apanhado de surpresa e ainda ofereceu alguma resistência, mas acabou por sair em debandada já em território do Congo”.

De Cabinda ainda se deslocou para Tando Zinze, Prata, Pangamongo, Miconje, Caio Guembo, Malembo, Tchinzaze, Belize.

O dia mais marcante para o nosso entrevistado foi no dia 6 de dezembro de 1965 em que duas minas anticarro mataram 11 camaradas de uma Companhia que estava adida ao seu Batalhão.

Depois deste “resumo muito breve” – como nos conta José Alberto Azevedo, de muitas estórias “da história que tem do Ultramar”, embarcou em Luanda em 24 de março de 1966 chegando a Lisboa em 6 de abril, seguindo para Tomar, e daqui para a Covilhã, onde finalmente chegou no dia 8 de abril de 1966.

Passou então a exercer a sua atividade profissional de debuxo na indústria de lanifícios, na Covilhã, onde se aposentou.

 

(In “O Combatente da Estrela”, nº 126 – ABR/2022)